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sexta-feira, 31 de março de 2023

DIVAGAÇÕES SOBRE O RISO

Como acontecimento físico, o riso nada mais é que uma demonstração de alegria, de contentamento, pela expressão do rosto de alguém, por certos movimentos da boca e dos músculos faciais, acompanhados de expirações bruscas, contínuas e ruidosas. Cada cultura tem, inclusive à sua maneira, construções verbais peculiares para provocá-lo, para despertar o risível, usando para tanto vários recursos, como, por exemplo, as chamadas expressões idiomáticas, no geral incompreensíveis se traduzidas literalmente. 

Lembro, por exemplo, que os franceses têm se dilater la rate, expressão pela qual ligam o riso descontrolado à dilatação do baço. Curiosamente, os mesmos franceses associam o riso ao bidê pelo verbo se bidonner, rir muito. No Dictionary of the Underworld, publicado pelas Wordsworth Editions, o riso (laugh) aparece unido a palavras como water e weed para designar, respectivamente, álcool (bebida alcoólica) e erva daninha (maconha). Laugh off,  desprezar, não dar importância a, rir-se de, fazer pouco caso, disfarçar sorrindo e a fit of laughter pode ser “um ataque de riso”. Os italianos têm ridere a denti stretti, algo assim como rir de dentes fechados, para nos falar de alguém que ri sem graça, contrariado, contra a sua vontade. Nós, por exemplo, aproximamos riso e bandeiras (rir às bandeiras despregadas) para falar de alguém que gargalha, que ri às claras, sem dissimulação. A expressão “morrer de rir” se aproxima desta última, uma expressão hiperbólica, exagerada. Risu dissolvebat ilia sua, diziam os latinos: quebravam-se os ossos de tanto rir, arrebentar de tanto rir. Entre nós e em outras línguas, como o francês, usamos “desopilar o fígado”, ou seja, desobstruir o fígado para libertar a bile negra, causadora de mau humor ou de melancolia. Lembremos que bile negra em latim é atrabilis (atra, negro, sombrio, e bile ou bilis, substância amarelo - esverdeada secretada pelo fígado, produtora de mau humor, mau gênio) e em grego melancolia (mela, negro, e bile ou biles, o mesmo que em latim, substância causadora de abatimento mental e físico, depressão)

Para classificar os risos, podemos nos referir a riso aberto, riso claramente exteriorizado, franco; riso amarelo, riso contrafeito, constrangido; riso frouxo, riso contido, irreprimido; riso louco, riso incontido; perdido de riso, que não pode controlar ou suster o riso; riso canino ou riso sardônico, riso semelhante a um arreganhar de dentes, provocado por espasmo facial, especialmente no tétano. Acrescente-se que nos dicionários a palavra sardônico denota também ironia maldosa, zombaria, sarcasmo. Não podemos esquecer, porém, que sardônico vem do latim, Sardinia, ilha do mar Mediterrâneo. A Sardenha, antes Sardus, era não só célebre pelos seus peixes saborosos, as sardinhas. Havia nessa ilha uma erva muito tóxica, cuja ingestão provocava uma crispação dos maxilares, um rictus doloroso, chamado por isso de riso sardônico.

MAPA DA ITÁLIA
Como uma pessoa ri? O riso pode ser simplesmente um ato social; começa pelo rosto e pode se espalhar pelo corpo. Há quem diga que envelhecemos quando deixamos de rir. Onde encontrá-lo? Um veio muito rico a ser explorado quanto ao riso, por exemplo, pouco notado, está na Bíblia, inclusive nos chamados semitismos que encontramos no seu texto, os seus idiotismos peculiares, de grande riqueza, aliás, nas línguas semíticas. Presentes também na Bíblia uma das características mais interessantes encontradas nas antigas mitologias, a de unir os nomes e o destino dos personagens. A história de Isaac é um exemplo. 


SARA  E ABRAÃO
(WILLEN BARSIUS, 1612-1657)

Sara e Abraão, como se sabe, já eram muito velhos quando este anunciou que sua mulher esperava um filho. A declaração foi motivo de muita risada, de chacotas, pois, ao que parece, tinham ambos cerca de noventa anos. Quando a criança nasceu lhe deram o nome de Isaac, que etimologicamente se liga à palavra gargalhada. 

Moisés, por exemplo, que foi encontrado pela filha do faraó num cesto flutuando nas águas do rio Nilo, tem seu nome derivado de um jogo de palavras, mo, água, e uje, salvar, o “salvo das águas”. E por aí se vai...

Desde os gregos, mais exatamente de Homero,  inúmeros filósofos, poetas, historiadores, cômicos, psicólogos, médicos, sociólogos, humoristas, adivinhos ou profetas vêm tentando decifrar o riso. Uma definição que nos vem da Itália de hoje nos diz que rir é manifestar uma espotânea reação de hilariedade, suscitada no ânimo de uma pessoa através da modificação da mímica facial, consequente do estiramento dos lábios com modificação do rítmo respiratório. Fala-se também nessa definição que para haver o riso é necessária a contração de 15 músculos faciais (Dizionario della lingua italiana, de G. Devoto e G.C.Oli).

Os antigos gregos sabiam que onde a deusa Afrodite fosse louvada haveria, risos, jogos, brincadeiras, paz, doçura. Sabiam também os gregos que as crianças pequenas, os bebês, gostam de rir, apreciam o carinho, as coisas doces, as frutas, tudo isto fazendo parte do universo da deusa. As crianças gostam de brincar e de sorrir. Sabem disso instintivamente. 

FREUD

Freud, no seu trabalho sobre o humor e sua relação com o inconsciente, analisou como o riso triunfa sobre a repressão. O riso e o desejo, segundo ele, têm muito em comum: nenhum dos dois pode ser forçado. Se forçado, é um vexame. Pela graça de Afrodite, nossa inocência se renova, pois ela restaura a cada encontro amoroso a singularidade da primeira vez. Afrodite é, neste sentido, o oposto de D. Juan, que quer encontrar a primeira vez na enésima. Com Afrodite, renascemos a cada momento. Fica aqui a pergunta: será por isto que a palavra bebê entra tanto nas relações amorosas, os parceiros usando-a para se dirigir um ao outro, “meu bebê”?

Queiramos ou não, estamos sempre presos à nossa época, aos valores e às ideias do tempo em que vivemos. Nada tão risível como pensamentos e grandes “verdades” que orgulhosamente foram apresentados num determinado momento e que depois foram lidos e apreciados em outro. Parecem-nos tão ridículos... 

FRIEDRICH NIETZSCHE
Tomemos, por exemplo, o caso de um filósofo do séc. XIX, Friedrich Nietzsche, ainda muito lido e estudado , sobre o qual, com admiração, são produzidas teses e dissertações universitárias em todo o mundo ocidental. 

Ele é tido como um campeão das liberdades individuais, aquele que lutou contra o moralismo desgastado, o puritanismo decrépito. Frases como as que apresentamos a seguir não provocaram (só os meios religiosos levantaram sua voz contra ele) grande espanto no período em que apareceram. Lembro-me de um caso pessoal: na minha juventude, ao ler um livro desse filósofo, meu professor de filosofia, um jesuíta, me citou o índex (lista oficial de livros cuja leitura a igreja católica romana proibia,por considerá-la perigosa à fé e à moral), me falou de pecado mortal, excomunhão etc. Grande parte do que esse filósofo escreveu reflete, contudo, o mundinho pequeno-burguês em que ele estava mergulhado e como adotava as suas ideias:

“Quando se abre um livro escrito por uma mulher logo se dá um suspiro; mais uma cozinheira que largou o fogão” (Obras Filosóficas completas, XI, 419).”

 “A mulher constitui a segunda falha de Deus” (O Anticristo).

 “A frigidez sexual nos espíritos superiores é essencial à economia da humanidade” (Humano, demasiadamente Humano).

“Os porcos chafurdam no gozo e quem quer que pregue o gozo veja se ele não traz em si um grão de porco” (Zaratustra).

No mais, há ainda a se registrar que esse filósofo tinha grande medo de perder a visão por estar se masturbando demais... Aliás, foi Kierkgaard quem escreveu, não me lembro mais onde, que toda tese está exposta ao riso dos deuses. O riso dos deuses quanto à nossa pretensão, à nossa soberba, ao nosso orgulho, à nossa empáfia doutoral...

Durante o Renascimento, o riso, na sua forma mais radical, universal e alegre, separou-se pela primeira vez das camadas populares mais baixas e com a língua “vulgar” da época penetrou decisivamente no seio da grande literatura e da ideologia superior, contribuindo para obras de alcance mundial.

DECAMERON

Bons exemplos estão no Decameron, de Boccaccio, praticamente em tudo o que Rabelais escreveu, em Cervantes e em muitos dramas e comédias de Shakespeare.

Quanto à gargalhada, todos concordamos: é risada forte, prolongada, ruidosa. A raiz é garg, uma onomatopéia do ruído da  água durante o gargarejo ou da garganta quando o alimento é engolido sofregamente. Os nobres ingleses (sécs. XVIII e XIX) recomendavam a seus filhos que fossem vistos sempre sorrindo, nunca gargalhando. O sorriso sempre foi considerado como mais elevado, superior à gargalhada e ao riso convulsivo, estes sempre tidos como mais instintivos.

Já o sorriso seria uma forma mais humanizada da risada, sendo muito importante na chamada "Patognomonia" (estudo dos sinais que nos permitem conhecer doenças).

Se formos à Astrologia, que tem muito a dizer sobre o tema ora abordado, lembre-se, por exemplo, que ela liga a gargalhada ao elemento fogo (signo de Áries) e, no corpo humano, ao baço, este sempre considerado como sede natural de emoções e de paixões. Plínio, o Velho, já registrava na sua História Natural, fazendo coro com antigas tradições orientais, que pessoas que tinham dificuldades para controlar a gargalhada ou que gargalhavam muito podiam apresentar problemas no baço (dilatação). Os antigos chineses, por sua vez, sempre consideraram o baço no corpo humano como um depósito de energia, ligando-se ele, como tal, ao equinócio da primavera, isto é, ao signo de Áries (maiores detalhes sobre o baço e o riso neste blog, no artigo Calundu & Spleen.

A palavra sorriso vem de subridere, algo assim como rir em tom menor. O sorriso permanece muitas vezes inconscientemente estampado no rosto das pessoas como um tique, um cacoete, com finalidade de aliviar tensões. Por esta e outras razões (desejo de despertar simpatia) é que há sempre algo no sorriso que o caracteriza como uma máscara, um disfarce. Um exemplo disto está no chamado sorriso oriental, enigmático, pois nos obriga sempre a decifrá-lo. 
Quando Leonardo da Vinci foi para Florença, recebeu uma encomenda: pintar o retrato de Lisa Gherlandini, mulher de Francisco del Giocondo, proeminente comerciante florentino. O retrato de Mona Lisa (Mona é uma contração de Madona) foi o resultado, a mais famosa tela da pintura ocidental, hoje no Louvre. Depois de passar quatro anos trabalhando nela, dando-a por não concluída, Leonardo a levou para a França, onde morreu. 

MONA LISA NUA
 (LEONARDO DA VINCI,
MUSEU CONDÉ,
 PALÁCIO DE CHANTILLY

Segundo Giorgio Vasari, o sorriso da Mona Lisa é “mais divino que humano”. Vasari afirma que Leonardo se serviu de músicos e bufões, palhaços, para evitar que o seu modelo parasse de sorrir e caísse na expressão melancólica convencional. Outros dizem que Leonardo, além do auxílio dos bufões, também participava, conversando sempre que possível com o seu modelo para que o sorriso não lhe fugisse do rosto. Esse mesmo sorriso, aliás, pode ser também notado no desenho “A Gioconda Nua”, do mesmo Leonardo, hoje também na França.

Quanto à inspiração desse tipo de sorriso, Leonardo a buscou provavelmente no famoso “sorriso arcaico”, da arte grega. Colocou-o no rosto de muitos modelos femininos, principalmente nos temas maternos (Leonardo, como filho adotivo, era fixado nesse tema), como os de Leda (mãe de Helena), de Clitemnestra, dos Dióscuros, e de Santa Ana, mãe da Virgem Maria.

Freud nos diz que o sorriso foi a expressão que por primeiro revelou satisfação e que por isso se tornou a mais usual nos relacionamentos humanos. Ele, o sorriso, surge sempre como uma expressão substituta para moderar todas as situações atuantes sobre a fisionomia, a raiva que foi reprimida, o temor que foi superado, o choro contido. Tudo isso é, no geral, substituído por um sorriso. Temos, no lugar, então, em muitos casos, o já mencionado riso amarelo, o sorriso contrafeito, para disfarçar alguma coisa, uma decepção. Na arte, lembre-se novamente, temos o sorriso arcaico, de convenção desconhecida, característico da estatuária grega antiga. No capítulo de algumas patologias, como no caso de doenças mentais, não podemos esquecer o sorriso repentino, impulsivo, como no caso dos histéricos. De um modo geral, porém, o que fica é que boa parte dos sorrisos tem a finalidade de ocultar a ansiedade, um certo mal-estar físico e psíquico simplesmente porque estamos no mundo, expectantes diante de alguma coisa indefinida, talvez de um perigo não determinado, diante do qual nos sentimos indefesos.  


A ANATOMIA DA MELANCOLIA 
(ALBERT DÜRER, 1471-1528)
                                

O conceito de humor (do latim, humeo, estar misturado) foi introduzido na literatura inglesa por Robert Burton em A Anatomia da Melancolia, em 1621 (Ilustração acima, de Albert Dürer, 1471-1528). Foi definido desde então nos dicionários da língua inglesa como a qualidade que tem um discurso, um texto, uma ação que tende a provocar o riso. 

Há que se mencionar, todavia, que, antes de Burton, Ben Johnson já havia proposto na sua comédia Every Man out of his Humour (1599) a primeira definição desta palavra. Ele a associava à antiga doutrina dos humores dos gregos e a fazia correlata do termo mania, excitação. 

Na doutrina dos humores (ciência dos temperamentos) dos gregos, era dado o nome de humor a um líquido secretado pelo corpo e que era tido como determinante das condições físicas e mentais do indivíduo. Desde a antiguidade grega (Hipócrates) estavam definidos os quatro humores que indicavam os quatro temperamentos, cada um deles ligado a um elemento: colérico (fogo), sanguíneo (ar), melancólico (àgua) e fleugmático (terra). É com base nesta antiga doutrina que podemos, na Astrologia, por exemplo, ligar o riso e a gargalhada ao elemento fogo e o humor ao elemento terra, com uma certa contribuição do elemento ar.

O conceito de humor começou então, a partir dos ingleses, a ser usado em todas as literaturas, dando-se ênfase àquilo que provocava o riso, a chamada vis comica dos autores latinos. Nessa acepção, a literatura humorística abrange obras tão diferentes como os contos de Boccaccio, os textos de Rabelais, as comédias de Molière, as sátiras de Swift, a poesia irônica de Heine, a prosa burlesca de Gogol e a desgraça melancólico-ridícula de Chaplin no cinema. 

O humor, porém, já estava há muito presente no mundo. Refiro-me, por exemplo, mais uma vez, à Bíblia, ao Livro dos Provérbios, onde encontramos pérolas como estas: “Goteira pingando em dia de chuva e mulher briguenta são muito semelhantes” ou “A mulher formosa e insensata é como um anel de oiro na tromba de uma porca”. A arte de negociar dos povos semitas, quando pensamos em humor, está bem representada tanto no Antigo Testamento como no Novo. Abraão, por exemplo, ao interceder por Sodoma, num longo diálogo com Deus, não se acanhou de pechinchar descaradamente, pedindo que menos pecadores fossem sacrificados (Gênesis, cap. XVIII).

Disso tudo resulta uma grande dificuldade para se conceituar o humor. Além disso, não existe uma explicação satisfatória para o fenômeno, em que pese o importante trabalho de Henri Bergson, Le Rire. O melhor, parece-me, será considerar o humor como a faculdade de captar e exprimir o ridículo, o risível, o ambíguo, o triste-alegre, com elementos que tocam o sentimento, agindo inclusive sobre o intelecto, com a possibilidade de se chegar a um estado entre as lágrimas e o riso. 

Quando humor e ironia andam juntos, sinal de inteligência superior, o efeito é o sorriso, nunca a gargalhada. Só grandes escritores, alimentados pela perspicuitas dos latinos, fruto de uma longa convivência com os clássicos de várias literaturas, condição prévia da credibilidade do seu discurso, conseguiram juntar o humor e a ironia. Ambos, humor e ironia, pedem sempre, estilisticamente, um grande amor pelos tropos e pelas figuras de retórica, pelo uso de paradoxos, trocadilhos, oxímoros, calembures etc., o que só pode ser obtido por uma convivência com o que há melhor na literatura. O resto será riso e gargalhada...

A ironia, segundo Freud, é sinal de maturidade emocional, além de ser, para ele, o único fenômeno no reino do cômico que se aproxima do sublime. Na sua forma mais baixa, que ocupa quase todo o espaço da comunicação de massas, dá-se também o nome de humor (?) escrachado a tudo aquilo que produz o riso ou a gargalhada (escracho é também nome de retrato tirado na polícia). Outra classificação, equivalente: humor esculachado, também uma forma de humor afrontoso, deselegante, rude, boçal, muito cultivado também nos programas de TV,  onde impera o chulo, inclusive a violência física,tudo sempre muito ultrajante. Esculacho é palavra que veio para a nossa língua, segundo alguns, do inglês, de scratch, arranhar, ou, segundo outros, do francês, de crachat, cusparada.

A ironia entre os gregos (eironeia) era a arte de interrogar fingindo ignorância. Euroneimai quer dizer fingir-se de ignorante. Sócrates a levou para a filosofia. De um modo geral, todos a consideram uma forma superior de humor. Ela vem sempre com um sorriso, uma alegria bastante moderada, pois é sempre um triunfo do ego.        

No seu sentido mais imediato, a ironia é uma figura de linguagem pela qual se diz o contrário do que se quer dar a entender. É o caso do sentido oposto, diverso, emprego inteligente de contrastes. No teatro, temos a chamada ironia dramática, descompasso entre a situação desenvolvida num drama e as palavras que são proferidas, não entendidas pelos personagens, mas pela platéia. 

A ironia passa no geral por uma forma de deboche, de desprezo, e nela podemos distinguir: a) a boa ironia, ou ironia socrática, que procede do sentimento (falso?) de nossa ignorância e se exprime por interrogações aparentemente ingênuas; b) a má ironia, destrutiva ou auto destrutiva, que procede do sentimento de nossa impotência com relação ao nosso destino. A ironia se utiliza geralmente da antífrase, que consiste em fazer entender o que se quer dizer dizendo exatamente o contrário.  

Na Idade Média, havia um sentido da ironia, hoje perdido, que procurava a depreciação de algo por uma mentira ou pelo ato de enganar os outros para se tirar vantagens. São Tomás de Aquino (à esquerda, pintado por Fra Angélico) tratou desse tipo de ironia e de outras coisas referentes ao riso no seu Tratado sobre o Brincar (Comentário à Ética a Nicômaco de Aristóteles, Livro IV).

Tudo o que pudermos dizer do riso nas suas várias formas de manifestação literária também se inclui no chamado gênero cômico e nos remete, em última instância, ao deus Dioniso. Em grego, koimoidia era o canto do komos, este um cortejo ritual de camponeses, alegre e barulhento, onde havia também muita comida, sempre uma forma de se honrar o deus.

Comédia, durante muito tempo, foi a designação usada para se definir peça de teatro em geral. Comédie Française e Théâtre Français são sinônimos e comédient tanto se refere a um ator como a um cômico, a alguém que tanto trabalhe como mimo ou ator trágico. Em Aristóteles, cômico e comédia apareciam associados à imitação de homens de qualidade moral inferior, não com relação a vícios, mas com relação ao risível.

Quando lidamos com o cômico, sob o olhar psicanalítico, é preciso fazer uma distinção muito sutil entre o cômico com o qual nos deparamos na vida, espontâneo, e com aquele que é provocado deliberadamente. No caso deste último, para o seu êxito, há necessidade de dois fatores: que os impulsos da vida instintiva sejam satisfeitos e que as objeções do superego sejam ludibriadas. 

A diversidade de formas e de sentidos do cômico deu lugar a uma tipologia muito interessante, baseada nos modos utilizados. Por isso, é possível falar em comédias que têm temas baseados em costumes, em tipos humanos, em palavras, em gesticulação etc. Mais ainda: dentro da órbita do cômico, convivem, por exemplo, manifestações muito interessantes e diferentes, unindo-se desenho e palavra.  Uma dessas formas de união, por exemplo, é a caricatura. O italiano caricare e o francês charger (charge = caricatura) definem no fundo a mesma ideia: carregar, sobrecarregar. Não é por acaso que revistas cômicas como O Malho, no Brasil, e Punch (soco), na Inglaterra tiveram tais nomes.

O gênero teatral mais ligado ao riso é a comédia, na origem festas celebradas em honra ao deus Dioniso. Tinha um caráter campestre, por oposição à tragédia, urbana, mais solene. O propósito da comédia era o de divertir, nela se incluindo também o escandaloso, o ridículo, tudo em meio a cantos burlescos, comida, bebida, desregramentos. 

Aos poucos, no mundo grego, tanto a comédia como a tragédia, antes festas populares espontâneas, acabaram por se institucionalizar. O governo das cidades gregas, especialmente Atenas, as encampou, procurando esvaziá-las de seu caráter revolucionário, principalmente a comédia por causa de suas propostas anárquicas.

O grande nome da comédia grega foi Aristófanes, um dos

maiores gênios da arte teatral em todos os tempos. Seu humor é inteligente, ainda que por vezes seus textos descambem para o deboche e para o obsceno. Produzidas há 2500 anos, a maior parte das comédias de Aristófanes é atualíssima. 

Em As Vespas (422 aC), por exemplo, discute-se o problema dos tribunais do júri em Atenas. Questiona-se na comédia se o júri, como instituto jurídico, era bom ou mau. Ao final da discussão chega-se à conclusão, depois de muitas gozações, de que o maior mérito dele era o de propiciar um bom dinheiro aos juízes. 

Na comédia As Aves (411 aC), dois cidadãos, cansados da corrupção, da burocracia e dos sicofantas que infestavam a cidade (sicofantas eram os delatores profissionais) transformaram-se em aves, buscando um novo lugar para viver. Fundaram uma cidade, livre desses problemas. Logo, porém, os humanos aderiram à mania de se transformar em aves e, dentro em pouco, a nova cidade, só habitada por aves, começou a sofrer dos mesmos males de Atenas. 


Na mitologia grega, um dos menos conhecidos filhos da deusa Nix é Momo, o Sarcasmo. Sua história não é volumosa, mas ele está muito presente na arte e no cotidiano das pessoas. Momo tem relação com o verbo mokasthai, zombar, escarnecer, ridicularizar. A raiz que está por trás deste verbo, mou exprime uma ideia de desdém, de menoscabo, um trejeito feito com os lábios a lembrar deboche, pouco caso, com o objetivo de se desqualificar o que é apresentado ou dito. Momo acabou por personificar o sarcasmo.

Os gregos tinham a palavra sarkasmós, riso amargo, do verbo sarkádzo, que tem o sentido de abrir a boca para mostrar os dentes. O verbo também significa mostrar os dentes como um cão. Depois, mostrar os dentes com um riso amargo e crispado. Já sarkidzo é arrancar a carne, a pele, dilacerar. Daí sai sarcófago (sarkophagos), devorador de carne. Indo mais fundo, podemos chegar à palavra grega sarx, sarkos, carne, de onde tudo provém.

Momo, na mitologia, passou desde então a significar também açoite, ironia cáustica, ato de abrir a boca para dilacerar, maledicência, crítica feroz. Expulso do Olimpo, porque irreverente e profanador, acolhido por escritores e poetas, Momo foi para a literatura, para o teatro e para a filosofia. Dioniso, como deus do teatro, “entregou” então a Momo a tutela do chamado drama satírico, gênero teatral que fazia parte das chamadas Dionísias Urbanas.

No séc. II, Luciano de Samosata, uma das maiores figuras da sátira grega, genial sempre, escreveu Diálogos dos Mortos, onde nos deixou passagens de uma verve notável. Inspirado pelas sátiras de Menipo, ele corrigiu o seu realismo por uma fantasia plena de invenção e de malícia. Sua descrição do affaire Afrodite - Ares é soberba. Além do mais, destaque-se que ele escreveu limpidamente no melhor grego ático de seu século. Muito admirado pelos modernos, Luciano foi modelar para muitos, como Erasmo e Cyrano de Bergerac, fixando a sátira como gênero para sempre. 

Ainda na Itália, temos um personagem muito ligado ao riso. Referimo-nos a Arlequim, personagem da commedia dell´arte, Arlecchino, no teatro desde o séc. XVII. A origem de seu nome é muito interessante. Viria ele do inglês medieval, de Herle King, isto é, Rei Harilo. Depois, passou a Harlequin, Arlecchino, nome que foi usado para designar a máscara típica de um personagem bufão, apalhaçado, cuja função era a de divertir o público durante os intervalos das teatrais. Arlequim é o farsante, o bufão, o palhaço por excelência.

A sua principal característica é a de dizer a verdade rindo; ser como Arlequim é proceder dessa maneira. A origem desta característica deve estar numa famosa frase de um poeta latino, Horácio (séc. I aC): Ridendo dicere verum, que está nas Sátiras, uma obra do poeta. Logo os que o leram a divulgaram, virando ela proverbial.

Ainda com relação a Arlequim temos também a expressão latina, cunhada no séc. XVII por Jean de Santeuil, a propósito da máscara do personagem: Ridendo castigat mores. Essa expressão logo se espalhou. Totó, o famoso cômico do cinema italiano, usou-a num filme, parodiando-a. Numa cena, ele, rindo, esbofeteava um figurante de pele escura, dizendo Ridendo castigat moros. A expressão arlequinesca procura sempre, se usada seriamente, reprimir vícios e erros em tom jocoso e indulgente. 

Na Idade Média, na península ibérica, a par da poesia lírica, surgiu uma inesquecível literatura, vigorosa, bastante mordaz, obscena, satírica, implacável. Tal literatura estendia-se a todos os campos, à moral, ao religioso e ao político. Os ataques eram cruéis e muitas vezes punham em risco a própria vida do poeta. A essa produção literária, de inspiração provençal (sirvantès) se deu o nome de cantigas de escárnio e de maldizer.

 


Este artigo não poderia ser encerrado sem uma referência especial a Gregório de Matos (1633/36? - 1696), a primeira grande voz da literatura brasileira. Viveu e escreveu no período barroco, entre a Bahia e Pernambuco, com a tradição portuguesa e a espanhola. Inventivo e original, introduziu na literatura a linguagem coloquial, popular, “mestiça”, a linguagem das ruas. Chamado o “Boca do Inferno”, tornou-se um poeta maldito ao denunciar os desmandos sociais, políticos e econômicos de sua época e também ao expressar poeticamente o erotismo e a sensualidade. Sua obra é de grande qualidade e beleza artística; possui muitas faces, todas inesquecíveis e antológicas. Cultivou a poesia lírica, a satírica, a filosófica, a religiosa, a pornográfica e a encomiástica. Lírico-barroco por excelência, foi e é o maior satírico de nossa literatura, irmão de Luciano de Samosata, sempre repleto de grande brasilidade:

À Floralva, uma dama de pernambuco

1

)“Bela Floralva, se Amor 

me fizera abelha um dia, 

em todo o tempo estaria 

picando na vossa flor: 

e quando o vosso rigor 

quisesse dar-me de mão
 
por guardar a flor, então, 
tão abelhudo eu andara, 
que em vós logo me vingara 
com vos meter o ferrão.

 
2)
Se eu fora a vosso vergel, 
e na vossa flor picara, 
um favo de mel formara 
mais doce, que o mesmo mel: 
mas como vós sois cruel, 
e de natural castiço 
deixais entrar no caniço 
um Zângano comedor, 
que vos rouba o mel, e a flor, 
e a mim o vosso cortiço”. 

 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

ASTROLOGIA E SAÚDE - IV


MARTE  ,  DEUS  DA  GUERRA

Marte – Este planeta tanto energiza e ataca quanto defende. É força de natureza expansiva e, como tal, pode repelir qualquer coisa que ameace ou ataque o corpo. Atua no sentido contrário de Vênus, de Saturno e de Netuno. O primeiro procura harmonizar, atenuar, é emoliente; o segundo limita, causa obstrução, impede, freia; o terceiro, desorienta, prostra, anula, é comatoso. Marte é o grande responsável pelas inflamações, nada mais que respostas do nosso corpo a ataques. Ele isola a área atacada (coágulos de fibrina) e “convoca” os leucócitos (Vênus) para participar da defesa (defesa imunitária). O ferro é o metal de Marte, responsável pela formação da hemoglobina.


ALIMENTOS   RICOS   EM   FERRO

Marte rege a cabeça, a orelha esquerda, a face, o sistema nervoso encefálico, o ferro no sangue, o nariz, os músculos, a ação, uma parte importante dos hormônios masculinos, gerados, juntamente com Plutão, pelas glândulas que os produzem. Um Marte dignificado será sempre um fator bastante positivo para a cura.


Enquanto Vênus debilitado por posição e/ou por aspecto tende a amolecer, a tornar flácido, a corromper, Marte, na mesma situação, será sempre um fator de violência (febres, inflamações, feridas etc.), de intensificação, levando ao acme (fase crítica em que uma enfermidade atinge maior grau de intensidade). 

A função suprarrenal, o calor do corpo, o tecido muscular, os tendões, os órgãos sexuais e a função sexual são dele, juntamente com Plutão, este sempre exaltado em Áries. São também de Marte, como se disse, a hemoglobina, a fibrina e os leucócitos (enquanto participam dos processos de defesa imunitária do organismo). O acidente, o ferimento, a operação e o cirurgião, quando necessários, são dele também. Excitante, febril, comburente, Marte é causador de acidentes, de infecções, facilitando contágios diversos e levando ao esgotamento. Abcessos, antrazes, icterícia, envenenamento do sangue, lesões do sistema cérebro-espinhal, dos músculos, dos órgãos genitais externos. São de Marte e/ou de Saturno (em mau aspecto com Vênus, às vezes com a participação de Plutão) também, como se disse, muitas moléstias de pele, erisipela, eczema,  psoríase, vitiligo, foliculites, piodermites, acne, rosácea, alopecias etc. Saturno, como sabemos, pode se constituir também em outro grande “inimigo” da pele. 

Mais: são de Marte a parte cortical da glândula renal, os órgãos geradores masculinos, os nervos motores, os órgãos excretores, a testa, o nariz, os músculos e seus movimentos, o segmento motor da coluna, o reto, a eliminação; a distribuição do ferro e a matéria corante do sangue, o hemisfério cerebral esquerdo, a produção da energia por combustão e as oxidações.


Enfermidades e/ou males marcianos: as infecciosas, as contagiosas, as febres eruptivas, a hipertensão arterial, as hemorragias internas, as congestões, as inflamações, as concussões, os acidentes, as lesões, os escaldamentos, as escarificações, as excrescências, as hemorroidas, as fístulas, os ferimentos nasais, os sangramentos, as rupturas de vasos etc.

Exemplos, sempre se considerando Marte debilitado: Marte em Câncer, acidez no estômago, úlcera, operação dos seios etc. Marte em Gêmeos, fraturas nos braços e nas mãos, bronquite febril, pleuris seca. Marte em Leão, angina do peito, lesões na coluna vertebral. Marte em Sagitário, ciática, flebite, ferimentos nas coxas ou nos quadris. Marte em Capricórnio, reumatismo articular febril, erisipela, ferimentos nos joelhos. Marte em Aquário, ferimentos ou amputações abaixo dos joelhos, fraturas nos tornozelos etc. Evidentemente, todas estas indicações deverão ser confirmadas pelo exame das restantes combinações planetárias de cada mapa em que ocorram. 

A presença de Marte num mapa (signo ou casa), com raras exceções, mesmo muito dignificado, sempre será um indício de que ferimentos, lesões ou doenças possam acontecer nessa área. Deverá o planeta ser observado sempre. No caso aqui aventado, de Marte dignificado poder causar problemas, os infortúnios sempre poderão ocorrer, mas o dono do mapa os experimentará, via de regra, de modo mais leve, recuperando-se, em muitos casos, com certa rapidez.

Quando Marte, como regente do ascendente, está fora de seu domicílio, ele sempre indica que algum tipo de problema poderá ocorrer na área em que se encontra. Nas casas relacionadas com males que podem atingir o corpo físico (6, 8 e 12) e também na casa 7, a mais distante do ascendente, Marte (e o Sol também) sempre tendem a diminuir a vitalidade. 

Se Mercúrio e Júpiter têm a ver com a escolha de tratamentos e de profissionais médicos (clínicos), Marte é o significador do cirurgião. Quando num tema temos indicações de probabilidade de alguma intervenção cirúrgica, a configuração marciana deverá ser analisada.

Basicamente, a ação de Marte é sempre centrífuga, inflamatória, intensa e exasperante. No organismo humano ela sempre se
BOXE  ,  ESPORTE  ( ? )  MARCIANO
mostrará sob a forma de energia muscular, combatividade mental, teimosia, raiva, desejo veemente, ação intempestiva, aceleração, febres, ferimentos e males agudos. Sob o ponto de vista médico, Marte é tonificante, temperamentalmente colérico, o que na atmosfera corresponde ao calor e a tempestades. Sob o ponto de vista profissional, é o soldado, o industrial, o cirurgião, o açougueiro, o metalúrgico, o fabricante de armas.


Enquanto Vênus representa uma força passiva, Marte é uma força ativa voltada para a expansão, tendo a ver, portanto, com todos os hormônios masculinos, de modo especial com a testosterona, responsável pela manutenção ativa das principais características masculinas, voz grossa, normal distribuição de pelos pelo corpo, massa muscular, produção de espermatozoides e libido.

Uma das regras astrológicas fundamentais, sempre proclamada como das mais importantes por todos os grandes astrólogos, desde a antiguidade, é a de que "planetas domiciliados não causam prejuízos". Diz-se que um planeta se encontra domiciliado quando as forças do signo e as do planeta cooperam harmoniosamente, apresentando grande sintonia. A prática astrológica demonstra, todavia, que nem sempre é assim. Há muitos casos em que mesmo domiciliado um planeta pode prejudicar, causar problemas, especialmente quando pensamos nos significados essenciais de Marte e Saturno, conhecidos como Infortúnio Minor e Infortúnio Major, respectivamente. Restrinjo-me aqui tão só a apresentar esta minha observação, escusando-me por não discuti-la amplamente a fim de justificá-la, o que demandaria muito espaço. Peço, contudo, àqueles que se dedicam à prática astrológica que verifiquem por si mesmos o que aqui se expõe nesse sentido. 

Cabe apenas lembrar, em abono ao que está acima, que a história nos deu muitos exemplos de tipos marcianos, que tinham Marte
ÉMILE   ZOLA
domiciliado ou exaltado em suas cartas astrológicas, tipos que, embora grandes realizadores nas suas respectivas áreas de atuação e respeitados por isso, nunca foram modelos de ação justa e de convivência afável. Cito alguns: Émile Zola (cinco planetas no signo de Áries, Sol, Lua, Mercúrio, Marte e Plutão), Stéphanne Mallarmé (Marte domiciliado no ascendente), Francisco Goya (Sol, Mercúrio, Vênus e Marte em Áries), Marlon Brando (Sol, Lua e Mercúrio em Áries, Marte exaltado em Capricórnio) etc.



AYRTON   SENNA
O mapa astrológico de Ayrton Senna é muito ilustrativo do que neste item se expõe sobre Marte. Ayrton tinha o ascendente em Aquário e o Sol em Áries na terceira casa, a dos caminhos, das estradas. Áries e Aquário, como sabem inclusive os astrólogos iniciantes, são os dois signos que mais inclinam os seus nativos, pelo Sol ou pelo ascendente, a correr riscos, a ultrapassar limites. Marte, situado a cerca de 21º de Aquário, dispositor do Sol, recebia uma oposição de Urano, regente do ascendente, posicionado em Leão, na sétima casa. Marte faz o papel nesse tema de astro hyleg, exercendo Urano as funções anaréticas, nenhum planeta funcionando como afeta (protetor). No dia 1º de maio de 1994, domingo, em Ímola, na Itália, mais uma competição. Mercúrio, no tema de Ayrton, regente da oitava casa, a da morte, juntamente com o Sol, transitavam pelos 11º de Touro, na quarta casa (a do princípio e fim da vida), ativando por quadradura a oposição Marte-Urano. Claras as indicações do grave perigo que Ayrton Sena corria nesse dia. Não deu outra: seu carro se chocou contra um muro de concreto (material governado por Saturno), sendo a sua caixa craniana (região governada por Marte) perfurada pelo braço da suspensão do seu carro. Ayrton Senna morreu na estrada. 


JÚPITER  ,   O MAIOR   DOS   PLANETAS

Júpiter – Representa os princípios superiores que nos devem orientar na vida, inclusive os de natureza médica. É considerado protetor, generoso, otimista, sustentador, pletórico. Tem o planeta relação direta com as propriedades nutritivas e protetoras do sangue, com o sistema arterial (muito próximo de Aquário-Urano, por isso). Rege os quadris, as coxas, o fígado, e se relaciona com a desintoxicação, a utilização da gordura absorvida (metabolismo da gordura) e com a produção da ureia, do ácido úrico e da bile. Associado a Urano, que tem a ver com o ritmo cardíaco, Júpiter rege o fígado, o baço, a vesícula biliar, a transformação dos açúcares, a atividade química do corpo, o sangue (com Marte). As doenças de Júpiter produzem desordens sanguíneas, problemas no fígado, hemorragias, hiperglicemia etc. 

São de Júpiter: o fígado, os pés, as costelas, as coxas, as suprarrenais, a circulação arterial, o plasma sanguíneo, o glicogênio, a fibrina do sangue, as gorduras, a assimilação da nutrição, o desenvolvimento celular. Suas enfermidades: males devidos a excessos alimentares, moléstias pulmonares (ação reflexa), impurezas do sangue, adiposidades, obesidade, transpiração excessiva, apoplexia, distúrbio circulatórias, flatulência etc. 


JÚPITER, O MAIOR DOS DEUSES
Ao contrário de Saturno, que age por bloqueios ou carências, Júpiter, nas suas aflições, é sempre dilatador, expansivo, excessivo. Nesse sentido os órgãos supranumerários têm sempre a ver com ele; a palmatura é dele também. Mercúrio, quando em mau aspecto com ele, causa problemas intestinais ou pulmonares. A relação Vênus, Júpiter, Saturno e Plutão costuma causar problemas prostáticos (câncer). A relação desarmônica Júpiter-Plutão, segundo o sexo, se associa a tumores na próstata ou no útero (em grego, prostates, quer dizer protetor). Maus aspectos a Júpiter, provenientes do Sol, da Lua e de Vênus, inclinam à bulimia (acessos de hiperfagia), à gula exagerada, a abusos em geral, causando, dentre outros, males como adiposidades, dilatações do estômago, hipertrofia do fígado e do coração. 

Muitos dos principais problemas de saúde provocados por Júpiter não estão ligados aos órgãos de nutrição (salvo uma relação desarmônica entre ele, a Lua e Vênus), mas aos órgãos do metabolismo, da assimilação, da combustão e das reservas. O fígado é o primeiro a ser observado; é o lugar onde “depositamos”
OBESIDADE   VISCERAL
excessos. A gulodice, já se disse, é o pecado capital dos jupiterianos; abundância alimentar, degustações de pratos ricos, tudo contribuindo para que o fígado receba grandes quantidades de gordura. Não metabolizadas, estas gorduras vão engrossar a silhueta, levando à obesidade, produzindo uma das marcas características do jupiteriano descontrolado, o ganho de peso abdominal, produzindo a chamada obesidade visceral (esteatose, degenerescência gordurosa de um tecido), também conhecida como “barriga de cardeal”.


Os distúrbios físicos provocados por Júpiter são muitas vezes, porém, compensados (não fosse o planeta a Fortuna Major), pelos tipos que se enquadram no modelo acima mencionado, por uma atitude otimista, brincalhona e folgazã diante da vida e de suas dificuldades. Longe de um tipo desses se abater por isso, ele continua sempre alegre e otimista, constituindo-se muitas vezes num sucesso social, pois nada mais distante dele que um misterioso e fechado escorpiano ou um taciturno e rabugento capricorniano.


TOULOUSE- LAUTREC
O mapa do famoso pintor Henri de Toulouse-Lautrec é um bom exemplo para o estudo do planeta Júpiter. Embora domiciliado, o astro não “conseguiu” protegê-lo (oposição Marte-Júpiter). Resultado: na juventude, em dois anos seguidos, fraturou sucessivamente as coxas; operações mal sucedidas e problemas de calcificação impediram-no de crescer (1,50 m. de altura).


Saturno – Frio, seco, lento, denso, maléfico (Infortúnio Maior, segundo os astrólogos medievais), rege o esqueleto, os ossos, as cartilagens, os joelhos, as articulações, os dentes, os cabelos, as
ARTROSE
unhas, a pele, a bexiga, a orelha direita. Saturno tem a ver com a velhice, a morte, a experiência, o sofrimento, as dietas, o desgaste, a coação, a perda, as carências em geral, os estados crônicos, as obstruções, as cristalizações, o poder dos mais velhos. São dele reumatismos, artroses, calcificações, a hipotensão, catarros, resfriados, cáries, tuberculose, lepra, surdez, sinusite, doenças da pele, saturnismo etc.


Mais: são de Saturno a parte medular da glândula renal, a paratireoide (relação entre PTH e cálcio), os joelhos, os dentes, as unhas, os órgãos e o sentido da audição, o esqueleto, os depósitos minerais, os endurecimentos, a bexiga, Doenças mais comuns: males crônicos, doenças dos ossos (osteomielite,
DEPRESSÃO  SATURNINA
tuberculose vertebral (o chamado mal de Pott: espondilite deformante de origem tuberculosa), fraturas, raquitismo etc.), quedas, contusões, esmagamentos, calcificações, cálculos renais e biliares, herpes, verrugas, calosidades, surdez, cáries dentárias, resfriamentos, inibições funcionais causadas por estados e temores mórbidos, debilidades, depauperamento, retardamento metabólico e nutritivo, melancolia, esquizofrenia, angústia, atrofias, impotência, dramas de consciência, complexo de culpa, masoquismo, nevralgias crônicas etc.


Saturno enaltece os valores da gravidade, lembrando sempre abrandamento, fixação, condensação, mineralização, estruturação. Quando pensamos na fisiopatologia, ele tem relação com os processos de inibição, carência, impotência, esterilidade, retenção, esclerose, atrofia, paralisia, regressão e envelhecimento. Quanto ao caráter, ele aponta para a introversão, a secundariedade (respostas mais lentas a estímulos) e estreitamento da consciência, atitudes conservadoras etc. 

Saturno pode revelar também problemas (insatisfação) provenientes do nosso estágio oral, alimentar (complexo do desmame) ou afetivo (frustração afetiva). Dois tipos capricornianos podem então se mostrar: um é ávido, possessivo, obstinado, concentrado, ambicioso; o outro é indiferente, insensível, anoréxico, frugal, apagado.

Positivamente, Saturno é responsabilidade, dever, erudição, resistência, respeito, paciência. Se Júpiter é o impulso que nos leva a buscar alguma coisa mais elevada e distante, Saturno, além de definir não só o que será isso para cada um de nós,  estabelece as regras, os valores e as responsabilidades que podem (devem) ser compartilhados igualmente por todos. Por isso, Júpiter e Saturno são considerados como planetas da vida social. 

Saturno indica, no geral, um temperamento nervoso, frio, áspero, denotando geralmente muita resistência. O tipo saturnino superior, por causa dos seus hábitos morigerados e de sua disciplina, consegue economizar muito de sua vitalidade, podendo durar muito por essa razão. 

Aflito em Leão, o planeta sugere problemas na coluna vertebral, males cardíacos. Em Gêmeos, problemas ósseos nas mãos e braços, tuberculose, enfisemas. Mal aspecto com a Lua, Saturno afeta a digestão, pode causar problemas menstruais; no plano do psiquismo, frieza emocional no ambiente familiar (mãe), solidão. Com Marte, perigo de ossos quebrados, fraturas, ferimentos na pele, problemas dentários etc. Em qualquer lugar num mapa, mesmo dignificado e bem aspectado, Saturno deve ser observado com atenção.

PAUL   CÉZANNE
O mapa astral de Paul Cézanne, gênio da pintura, deixa claro para nós o quanto esse capricorniano de tipo Saturno-Marte, irritável e rabugento, preferiu o isolamento, fechando-se sobre si mesmo, para produzir uma das maiores obras pictóricas de todos os tempos.



RICHARD   WAGNER
O que disse de Marte, como Infortúnio Menor, que mesmo domiciliado pode causar muitos problemas, é válido para Saturno, Infortúnio Maior. Mesmo domiciliado, também pode oferecer vários problemas. Como exemplo, cito o caso de Richard Wagner, que possuía Saturno domiciliado no Meio do Céu. Isto lhe dava, além de um grande poder de concentração quanto à sua carreira, uma desmedida ambição não conduzida muito corretamente.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

ASTROLOGIA E SAÚDE - I

                             
HIGEIA, deusa grega da saúde (GUSTAV  KLIMT, 1862 - 1918)
          
Saúde: estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e seu meio ambiente, mantidas sempre as suas características estruturais e funcionais dentro dos limites normais para a forma particular de vida (raça, grupo humano etc.) e para a fase  particular do seu ciclo vital.

GOYA ,  AUTORRETRATO COM
O DR. ARRIETA , 1820
Doença: é a alteração biológica do estado de saúde de um ser, manifestada por um conjunto de sintomas perceptíveis ou não. Dá-se também a essa alteração o nome de enfermidade, mal, moléstia.

Quando estamos sadios, os órgãos que compõem o nosso organismo funcionam bem, trocam mensagens entre si adequadamente. Há aquilo que chamamos de higidez. “Esquecemos” que o corpo existe (veja os conceitos de homeostasia e de entropia), tudo funciona corretamente.

Quando um órgão encarregado de executar uma função em nosso corpo não está bem, ele sobrecarrega outro, diminuindo assim a taxa de eficiência de todo o organismo. Entropia é o nome que damos à medida de variação ou desordem em um sistema. Sob o ponto de vista biológico, entropia é doença, o que confirma a nossa constatação de que se o nosso fim não decorre de um acidente, sempre morreremos aos poucos e aos pedaços.  Atingida uma discutível plenitude, o corpo humano começa logo depois a  definhar aos poucos, órgãos são muitas vezes extirpados e os que ficam vão deixando de trocar mensagens entre si, de cooperar uns com os outros. Ao final, nenhuma mensagem. A morte é silêncio. 



Estas noções de entropia, homeostase, de retroalimentação (feed back) e outras derivam do pensamento cibernético e são muito importantes, a meu ver, quando abordamos questões de saúde sob o ponto de vista astrológico. Imprescindível, pois, que o astrólogo se familiarize com estas noções, ampliando-as, se possível, pelo que puder ser obtido com incursões à teoria da informação, à psicologia da comunicação humana, à semântica etc., que podem ajudá-lo bastante, no que se refere às questões psicossomáticas implícitas,  quando ele se aventurar neste tema. 

A mais recuada formulação do pensamento cibernético nós a encontramos na mitologia grega. Quem o representa é a deusa Metis, uma oceânida, primeira esposa de Zeus, cujo nome lembra antecipação aos acontecimentos, planejamento, juízo avisado, precaução, astúcia, premeditação, facilidade de reprogramação.

NORBERT WIENER
Platão também usou o conceito, associando-o à arte de pilotar barcos, à arte de timonear (kubernetikós). No mundo moderno, a cibernética apareceu no final dos anos de 1940, quando o matemático americano Norbert Wiener começou a publicar os seus trabalhos. Daí para a frente, a cibernética se desenvolveu bastante, como na antiga URSS e em alguns países da Europa, associando-se a outros ramos do conhecimento humano.   

A ciência que estuda as doenças chama-se patologia. Ela considera as causas (etiologia), o mecanismo (patogenia), os seus sinais (semiologia) e os meios de combate-las (terapêutica). Determinar a natureza da doença é o diagnóstico; tirar conclusões sobre a sua evolução é o prognóstico. Tentar suprimir a causa é a profilaxia.

Quanto ao aparelho corporal, o sistema orgânico e os órgãos comprometidos, as doenças podem ser divididas em cardiovasculares, respiratórias, digestivas, geniturinárias, endócrinas, ginecológicas, obstétricas, ósseas, articulares, neurológicas, psiquiátricas, otorrinolaringológicas, oftalmológicas, pediátricas etc.

Há ainda várias maneiras de nos aproximarmos das doenças, em razão de uma filosofia que escolhemos.   Alopatia: sistema médico
que combate as doenças por meios contrários a elas. Homeopatia: sistema médico que combate as doenças por meios semelhantes a elas. Foram os homeopatas  que deram o nome alopatia (all, allo, allos, em grego, outro) à medicina clássica. A palavra foi formada por simples analogia com a palavra homeopatia. Homoiopatheia (pathein, em grego, quer dizer experimentar, suportar; homoios, semelhante) significava similitude de emoções ou de condições. No começo do século XIX, apareceu na Alemanha a palavra homöopathie, de onde passou para outros países, adquirindo um sentido diferente do que tinha no grego. Designava um método empregado no tratamento de pacientes com substâncias capazes de provocar sintomas semelhantes àqueles de sua doença.

Em muitas tradições da antiguidade, a egípcia, a hindu, a chinesa, a grega e outras, sempre se procurou considerar, ao contrário do que vigora hoje generalizadamente no mundo, o homem de modo integral, levando em consideração a sua luz e a sua sombra, seu lado racional e seu lado irracional. Desde fins do séc. XVIII, a ciência, porque soube fazer muito dinheiro, passou a reinar soberana, avocando a si o (in)discutível direito de explicar e orientar o homem. Por isso, suas preocupações acabaram se restringindo praticamente só ao lado racional do homem.  

Ora, o homem é uma unidade que tem dois lados, é consciente e inconsciente, luz e sombra, é corpo e alma, e também espírito, se quisermos. O que acontece num lado afeta o outro. Sob o ponto de vista astrológico que trazemos aqui, tudo o que se manifesta como doença no ser humano tem uma tradução psicológica, social, moral, política, semiológica e muito mais, tudo dependendo do nosso repertório de informações para abordá-la. Não se pretende aqui, é óbvio, que o astrólogo que soube transformar informações em conhecimento e bem treinado nas virtudes não só uranianas, mas, sobretudo, saturninas, substitua um profissional da área médica, longe disso. O que defendemos aqui é que a Astrologia poderá sem dúvida trazer contribuições valiosas para ajudar o homem a cuidar no geral bem melhor da sua vida e em particular da sua saúde. 

A mitologia grega possui três grandes divindades médicas: Apolo, Asclépio e Kiron. 

APOLO
O primeiro, Apolo, uma das doze grandes divindades olímpicas, é o deus solar da luz, do equilíbrio e da harmonia dos desejos. Representa um ideal de sabedoria que nos fala do controle da vida instintiva pela razão, colocando-se ambos, instinto e razão, a serviço da vida espiritual. É o mais influente dos deuses olímpicos e, como tal, o grande agente das purificações físicas, mentais e psíquicas, atuando na profecia e na inspiração das manifestações artísticas superiores. Era o deus da cura e da proteção contra todas as forças e influências malignas. Tinha como divisas, inscritas no frontispício do seu Oráculo, em Delfos, as máximas: nada em excesso e conhece-te a ti mesmo.

ASCLÉPIO

Asclépio, filho de Apolo, chamado pelos romanos de Esculápio, era o deus-médico de Epidauro, onde tinha o seu santuário, com um grande corpo de sacerdotes-médicos. Era conhecido como o deus-toupeira, animal que vive no interior da terra e que vê no escuro. A razão deste apelido se deve ao fato de que no centro médico do deus praticava-se a interpretação dos sonhos (oniromancia), como técnica privilegiada para se ter acesso ao inconsciente dos pacientes. Outro símbolo seu, a serpente enrolada num bastão, lembrava a vida que renascia e se renovava ininterruptamente. Em Epidauro, a cura do corpo estava condicionada à cura da mente. A isto se dava o nome de metanoia, palavra que lembra a transformação de sentimentos. Grande importância se dava também à nooterapia, prática que procurava reformar o paciente por inteiro, tanto física como psiquicamente. Associadas às diversas terapias curativas, praticavam os pacientes em Epidauro esportes, natação, canto, dança, teatro e outras atividades físicas, mentais e artísticas.


PANACEIA

Teve o deus quatro filhas: Áceso (Cuidadora), Iaso (Cura), Panaceia (Remédio Universal) e Higeia (Saúde), e dois filhos: Podalírio e Macaon, que praticavam a cirurgia. Os descendentes de Asclépio (famílias que consideravam o deus como seu grande ancestral), os chamados Asclepíades, foram todos profissionais da arte médica. O mais famoso dos Asclepíades foi o grande Hipócrates, figura histórica, considerado o Pai da Medicina.

KIRON
Kiron é nome que vem da palavra grega mão, cheir. Era um centauro filho de Cronos e de Filira, no qual se integravam no seu corpo ordenadamente o instinto (a parte animal do seu corpo, inferior) e a razão (a parte humana de seu corpo, superior. A espiritualidade era representada por arco e flechas que sempre tinha consigo. Eram cinco os grandes artes que Kiron ensinava a seus discípulos: a cinegética, a hípica, a agonística, a mântica e a clínica. A primeira, literalmente, caçar com cães, mas simbolicamente nos remetendo a ideias de que na vida devemos sempre buscar (caçar) muito mais oportunidades de crescimento do que procurar acumular; a segunda, literalmente dominar cavalos, saber montar, mas, simbolicamente, controlar a vida inconsciente, o animal que há no homem; agonística, literalmente esporte, disputa, luta (agon), mas simbolicamente entendimento que a vida é luta de contrários, tese-antítese, anabolismo-catabolismo, macho-fêmea, luz-sombra, que o herói precisa resolver ininterruptamente; mântica é adivinhação, profecia, mas, aqui, equivale à arte de decifrar sinais, semiologia; clínica, arte médica, querendo o conceito significar aqui que o herói deve ser o seu próprio médico.   

A Astrologia diante da Medicina preventiva e da Medicina curativa.

A astrologia, como a entendo, qualquer que seja a terapia escolhida, deve preferir sempre uma medicina natural, algo que não mutile, que não agrida o corpo, embora se reconheça que nem sempre é possível que este ponto de vista seja observado. Neste sentido, é que a astrologia se coloca antes a serviço da medicina preventiva, hoje, como se sabe, pouco praticada diante dos enormes lucros que a medicina curativa proporciona. 

MEDICINA  PREVENTIVA
Em nosso país, tradicionalmente, a medicina preventiva sempre ficou nas mãos do Poder Público. As medidas postas em prática nessa área por nossos governantes desde o Brasil colonial sempre se mostraram muito insuficientes, agravada a situação pelo precaríssimo nível dos sistemas de saúde montados e pelas absurdas deficiências quanto às necessidades básicas da população, especialmente no que se refere ao saneamento básico, ambos sob a responsabilidade do Estado.  


Para sustentação dos nossos estudos astrológicos referentes à saúde não podemos esquecer de algumas contribuições da antiguidade que sempre apareceram associadas nesta área, a mitologia de todas as tradições, a alquimia, a filosofia hermética greco-alexandrina e a medicina hipocrática. Faço aqui referências um pouco mais detalhadas a estas duas últimas porque sempre me pareceram menos destacadas nos textos que encontrei sobre o nosso tema. 

Quanto à tradição hermética, há que se estudar principalmente as leis que delas nos chegaram como apresentadas, de modo bastante


sucinto e claro, no texto do Caibalion, editado no Brasil pela Editora Pensamento. Para os que quiserem ir um pouco mais fundo temos também a edição do Corpus Hermeticum da Editora Hemus e, em língua espanhola, uma edição da Edaf, de Madrid, da qual fazem parte outros textos (seleção de Walter Scott). No mínimo, o astrólogo, ao entrar no tema astrologia e saúde, terá que reter as sete leis básicas do Hermetismo: mentalismo (o

Todo é mente
), correspondência (o que está em cima é como o que está em baixo), vibração (nada está parado, tudo se move, vibra), polaridade (tudo é duplo, tudo tem dois polos, tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa), ritmo (tudo tem fluxo e refluxo; ritmo é compensação), causa e efeito (tudo que acontece tem uma causa; o acaso é uma lei desconhecida) gênero (tudo é masculino e feminino, ninguém é inteiramente masculino ou feminino).


Quanto à medicina hipocrática, obrigatórios os aforismos do mestre de Cós (séc. V aC).             No mais, desenvolver estudos quanto às
HIPÓCRATES
relações entre os elementos e as qualidades primitivas, quanto à ciência dos temperamentos e aos humores, tão rejeitados pela ciência oficial. Para Hipócrates, o ponto de partida das suas doutrinas médicas estava numa observação fundamental, hoje muito esquecida: a doença nasce de um desequilíbrio homem-mundo. Por isso, sua medicina era a um só tempo biológica, psicológica, geográfica, histórica, sociológica e astronômico/astrológica.

Em Hipócrates, como para a astrologia, há quatro qualidades primitivas ou primárias universais, quatro modos de ser: o quente, o frio, o seco e o úmido. Os dois primeiros são ativos, operando o quente por expansão e o frio por contração. Os dois outros são passivos, operando o seco por resistência ativa e o úmido deixando-se permear. 

Para o mestre, o microcosmo e o macrocosmo estavam unidos analogicamente. Por oposição ao caos primordial, o cosmos designa o universo ordenado e regido por princípios inteligíveis aos homens. O céu não dependia da vontade, dos caprichos ou do arbítrio de deuses, ele tinha uma ordem interior que assegurava a marcha correta de tudo o que existia nele segundo uma ordem determinada. Os astrólogos hindus, lembre-se, na mesma linha hipocrática, deram o nome de dharma a essa ordem celeste, que devia sempre servir de base àquela que os homens procurassem estabelecer na terra (dharma humano). Não há acaso. No universo, tudo o que acontece tem uma causa.  
           
Alguns aforismos de Hipócrates: 

A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil. 
O médico deve fazer não apenas o que é conveniente para o doente, mas também com que o próprio doente, os assistentes e as circunstâncias exteriores concorram para isso.
Com relação às estações, se o inverno é seco e frio e a primavera chuvosa e úmida, necessariamente ocorrerão no verão febres agudas, oftalmias e disenterias, especialmente nas mulheres e também nos homens de natureza úmida.
Que o alimento seja o teu melhor remédio.
Cavamos a nossa cova com os nossos dentes.

O entendimento da nossa constituição é fundamental quando procuramos ligar a astrologia às artes da cura. Constituir é estruturar; nossa constituição depende da organização dos elementos que estão na base da ordem cósmica, integrados à astrologia, no nosso corpo e na nossa mente. O tema astrológico, como um todo, define a nossa constituição, que tem por base os quatros elementos da tradição e as três dinâmicas universais.

Para Hipócrates, conhecido o temperamento de alguém, que tinha por base os seus elementos constitutivos do universo, era possível determinar os remédios que levariam à cura. O remédio reequilibrava o doente. Uma das máximas de Hipócrates, por exemplo, quanto a este particular era muito interessante: contrariamente à opinião muito aceita hoje, o mestre de Cós dizia que, no geral, para curar, ao invés de se dar alguma coisa, de se acrescentar algo, era preferível tirar. Temperamento, para Hipócrates, era constituição física particular que gerava um conjunto de traços psicológicos e morais, determinante da índole de alguém, isto é, do seu modo de ser. Temperamento é índole, propensão, constituição psicofísica particular, conjunto de características vitais. Cada temperamento se relaciona com um elemento, dando-nos uma ideia do caráter, dos traços distintivos de alguém. Caráter quer dizem etimologicamente coisa gravada, marca. Temperamento é dosagem; temperar é misturar de forma equilibrada, amenizar, suavizar.

Desde a antiga Mesopotâmia, o estudo dos elementos e dos temperamentos chamou a atenção do homem. Há mais de uma centena de classificações sobre essa matéria. A mais lógica é, sem dúvida, a da astrologia, de fácil entendimento; quando aplicada conscientemente, é ela que produz os resultados mais satisfatórios.

Para a astrologia, os quatro elementos e os quatro temperamentos se correspondem. Na vida universal, na tradição ocidental, como sabemos, os quatro elementos, fogo, terra, ar e água, lutam entre si constantemente. As antigas teorias médicas que chegaram até a época moderna tinham sempre a finalidade de harmonizar os diferentes elementos no ser humano; a ideia era a de que nenhum deveria dominar sob pena de se romper o equilíbrio. Se isto acontecesse, era preciso retemperar o paciente. 


A teoria dos temperamentos foi abandonada pela Medicina que se pretende científica, hoje quase que inteiramente voltada para os seus aspectos quantitativos, numéricos, econômicos, curativos e não preventivos. A antiga doutrina dos temperamentos incluía noções muito vastas e heterogêneas.  A mente moderna não sabe mais lidar com leis como as da correspondência, do gênero, da polaridade e outras; essas noções fazem parte hoje de domínios isolados, considerados muito diferentes, extravagantes. Perdeu-se a visão do Todo e com ela o seu conceito fundamental, o de que no corpo humano como no universo tudo é interdependente.

A visão hipocrática, à qual se associa a astrológica que defendemos, ao se voltar para um paciente, para aquele que está sentindo, sofrendo (pathos, sofrimento) alguma coisa, entende que medicamentos escolhidos a partir de diagnósticos individuais sempre são insuficientes. Isto porque a medicina hoje praticada concentra-se no que chamo de diagnósticos “fechados”, deixando de lado a ideia de meio ambiente, vida interior e tudo o mais de que Hipócrates falava; deixa de lado sobretudo a questão da vivência subjetiva da doença, quase sempre ignorada completamente. Quanto à anamnese, então, nem pensar.   

Quatro são as classificações gerais dos temperamentos: linfático, bilioso, atrabiliário e sanguíneo. Estes temperamentos se ligam às quatro estações, aos quatro estados da matéria (líquido, etérico, sólido e gasoso), aos quatro elementos que formam os signos zodiacais e aos quatro humores hipocráticos (fleugma ou pituíta, sangue, bile negra e bile amarela).

Ao temperamento linfático correspondem os signos de água, Câncer, Escorpião e Peixes. Ao sanguíneo, os de ar, Gêmeos, Libra e Aquário. Ao bilioso, os de fogo, Áries, Leão e Sagitário. Ao atrabiliário, os de terra, Touro, Virgem e Capricórnio. Cada um destes temperamentos tem as suas virtudes, as suas deficiências, as suas doenças típicas. 

Se sabemos que o estado natural da água é o repouso, de características geradoras, femininas portanto, pela lei da analogia
ANATOMIA DA MELANCOLIA
ROBERT  BURTON 
percebemos que pessoas em que predomina o temperamento línfático são normalmente, embora nem sempre (há também muitas tempestades nos mares!), calmas, suaves, tranquilas. O ar é instável, agita a terra, “pede” o sangue, que deve circular por todo o corpo, movimentando-o. Já o fogo lembra sempre a ação; associa-se ao temperamento bilioso, devorado por sua atividade, a sua bile. O fogo fala de combustão, implica sempre uma super-ativação dos fenômenos vitais. O atrabiliário, às vezes chamado nervoso, é do lado da terra, retraído, contido, cerebral, reservado.


 Definições

Humor: líquido secretado pelo corpo e que era tido como determinante das condições físicas e mentais de um indivíduo. Usado também na medicina antiga para designar um estado afetivo durável que depende da constituição psico-fisiológica do organismo como um todo, constituindo o cenário no qual os diferentes conteúdos psíquicos tomam uma tonalidade afetiva. Popularmente, humor é estado de espírito, de ânimo, disposição. Daí se falar de uma pessoa mal humorada, bem humorada.  
1) Linfa: etimologicamente, água, sobretudo a limpa; meio líquido orgânico originado do sangue, composto de proteínas e lipídeos, que circula nos vasos linfáticos e transporta glóbulos brancos, especialmente linfáticos. O linfático, segundo Hipócrates, se caracteriza pela lividez das carnes, flacidez de músculos, apatia, falta de vigor, de energia. 
2) Sangue: líquido vermelho, viscoso, que circula pelas artérias e veias, bombeado pelo coração, transportando nutrientes necessários à proteção do organismo. O sanguíneo é ativo, curioso, interessado e, muitas vezes, dispersivo. 
3) Bile: substância amarelo-esverdeada secretada pelo fígado, que atua no duodeno, auxiliando especialmente na emulsificação e absorção das gorduras. Bilioso é normalmente o irritado, agressivo, de mau gênio, mal-humorado. 
4) Atrabile (etimologicamente, atra, negro; bile negra): a ela se atribuía o temperamento melancólico, irascível, hipocondríaco, que pode levar à prostração, à tristeza, ao abatimento físico e mental; a melancolia é considerada hoje como uma das fases da psicose maníaco-depressiva. 
5) Fleugma: na medicina hipocrática, humor causador de indolência ou apatia; fleugmático é o comportamento daquele que não sente nenhuma emoção ou não deixa transparecer sentimentos ou perturbação alguma. 
6) Pituíta: na medicina hipocrática, muco proveniente do encéfalo eliminado pelo nariz; no latim, tomou o sentido de catarro, ranho, monco, muco nasal.