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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

PEIXES (3)

                                   
ILUMINURA   MEDIEVAL
Entre os gregos, atuavam no reino de Poseidon,  a grande divindade tutelar do elemento líquido, reino do qual faziam parte os oceanos, os mares, os rios, os regatos, as fontes e os lagos, certas divindades de nível inferior, conhecidas genericamente como ninfas (etimologicamente, aquela que vem
POSEIDON
coberta com um véu). Eram classificadas segundo o lugar de sua residência. Quanto às ninfas do elemento líquido, temos: as potâmidas, por exemplo, viviam nos rios; as creneias viviam nas fontes; as pegeias, nas nascentes; as limneidas, nos lagos e lagoas; as oceânidas viviam no alto-mar; as nereidas, nos mares internos; as náiades, nos ribeiros e riachos. Embora ocupassem na hierarquia divina uma posição inferior, eram, em determinadas ocasiões, admitidas no Olimpo, sendo inclusive honradas pelos mortais em cultos religiosos.

PLUTARCO
Suas atribuições eram múltiplas: tinham o dom da profecia e atuavam em oráculos; curavam doentes e, sob outros nomes,  velavam sobre as flores, os prados e os rebanhos. Embora divinas, não eram imortais. Plutarco atribuía a essas ninfas uma idade máxima de 9.620 anos. Tinham contudo o privilégio de, durante toda a sua existência, se manter sempre belas, pois se alimentavam de ambrosia. Geralmente benevolentes, podiam se tornar perigosas para os mortais que, por elas favorecidos, não as honrassem devidamente. Muito semelhantes às russalkas eslavas na sua ação, arrastavam os ingratos para o fundo das águas, matando-os. Um exemplo: o do desventurado Hermafrodito, vítima da ninfa creneia Sálmacis. Outro, o do jovem Hylas, companheiro de Hércules.

RUSSALKAS ( IVAN NIKOLAEVICH KRAMSKOI , 1837 - 1887 )

Dentre as ninfas mais importantes da mitologia grega não podemos deixar de reter os nomes de Aganipe, ninfa creneia do Helicon, muito procurada por poetas; Cassotis e Castália, também creneias, viviam nas fontes  do Parnaso. Muito conhecida era Ciane, ninfa da Sicília (Siracusa), que se opôs ao rapto de Kore pelos deus
CALIPSO, 1869 ( ENRI  LEHMANN)
Hades. Uma das mais importantes ninfas era, sem dúvida, Calipso, que reinava sobre a ilha de Ortígia; ela acolheu Ulisses, atirado à praia depois de um vendaval; ela o protegeu por sete anos, oferecendo-lhe inclusive a imortalidade, se o herói ficasse ao seu lado. Não o conseguiu, pois teve de se curvar à ordem de Zeus, no sentido de liberá-lo, para que seu destino se cumprisse. O nome Calipso vem do verbo grego esconder (kalyptein), sendo a ninfa a personificação de todas as águas profundas que não as oceânicas.

De um modo geral, as ninfas, como divindades ligadas ao mundo natural, atuavam sobretudo através da umidade, aparecendo em bosques, vales férteis, florestas e grutas, sempre belas, nuas ou semi-vestidas. Seu poder era fertilizante e nutritivo e estendia salém do mundo natural. Os seres humanos podiam também se beneficiar de sua terna solicitude. Elas protegiam os amantes que mergulhavam em certas nascentes e fontes para obter a indispensável purificação quanto a uma saudável fecundidade. 


NEREIDAS , (1886, JOAQUIM  SOROLLA  BASTIDA )

Com relação às vastas extensões líquidas, oceanos e mares, obrigatória a menção das nereidas, filhas do velho Nereu e de Doris (oceânida), personificação das ondas infinitas de todos os mares. De linda cabeleira dourada, viviam as nereidas nas profundezas, sentadas em trono de ouro, a tecer, fiar e cantar, sempre sedutoras.  Têm relação com a arte. Camões as convocou para atuar no seu poema épico Os Lusíadas, no rio Tejo.

Filho de Urano e de Geia, o deus Oceano, antecessor de Poseidon, era a imagem da indistinção primordial. Unido à sua irmã Tétis, símbolo da fecundidade das águas oceânicas, gerou as oceânidas, ninfas às vezes confundidas com as náiades, responsáveis por numerosa prole. 

Encontradas em outras mitologias, estas dividades guardam entre si uma grande semelhança muito grande.  Uma notável aproximação poderá ser feita, por exemplo,  entre as sereias e as ondinas, da mitologia germânica, das quais a mais conhecida é Lorelei.
LORELEI, EM  ASSMANNSHAUSEN, ALEMANHA
Lorelei, lembre-se, é, na origem, o nome de uma falésia situada às margens do rio Reno, na Alemanha. Temida pelos marinheiros, era dessa falésia que a ondina atraía com seu canto os marinheiros, fazendo com que seus barcos se espatifassem contra os rochedos. Popularizada, esta história está na literatura (Brentano e Heine) e na música (F.Silcher). As ondinas são ninfas que gostam de atuar em águas perigosas, brumosas, oferecendo-se para ajudar os marinheiros. Ao invés de ajudá-los, porém, causam a sua perdição, levando-os à morte muitas vezes.

Na mitologia indiana, podemos aproximar das sereias as apsaras, as celebradas ninfas do céu do deus Indra. O nome apsara significa aquela que se move nas águas como uma dançarina. São conhecidas também como sumad atmajas, filhas do prazer.
APSARA
Descendo à Terra, as
apsaras procuram as águas para viver, de modo especial lagos e lagoas onde viceja o lótus. Pelo seu grande poder de sedução, elas tentam sempre desviar a atenção dos ascetas dos seus exercícios espirituais. A mais bela história de amor da literatura indiana, o poema Kalidasa (500 aC.), de autoria de Vikramorvasi, tem por tema os amores da apsara Urvashi pelo rei Pururavas.
ULISSES  E  AS  SEREIAS
Numa leitura mais atenta da Odisseia, podemos perceber que as sereias (muito famosas por causa desse texto) propunham não só alegria como a possibilidade de aquisição de um maior conhecimento. Estas eram as iscas oferecidas aos incautos marinheiros, propostas que justificavam uma das etimologias admitidas para o nome, parecida com a anteriormente citada. Seirá, nome grego de onde viria sereia, quer dizer liame, laço, nó, cadeia, tudo com o sentido de enredar, de prender, algo profundamente pisciano, como se pode depreender sob o ponto de vista astrológico. Lembremos que a sedução pelo saber é uma característica exclusiva da sereia grega.

Assegurando que tudo sabiam, as sereias de Homero não são desmentidas pela ação de Circe, que alerta Ulisses contra o seu poder de destruição, mas ela não as acusa de enganar. O que parece claro é que elas jamais revelam o saber de que dispõe; seu canto o anuncia, mas esse saber nunca chega a ser enunciado. O canto da sereia, para os gregos, não era falso; trazia mais uma ideia de ilimitado, sempre algo muito perigoso, destruidor, agindo elas como uma espécie de antimusas. Ela, a sereia, prometia conduzir o navegante a um espaço onde o canto e o saber estavam.

PLATÃO
No décimo livro de A República, obra em que Platão desenha a concepção socrática de uma sociedade ideal, aparecem as sereias girando nos círculos exteriores do fuso da Necessidade (necessário: o que não pode não ser), cantando em uníssono uma melodia perfeita. Observe-se que Sócrates reitera nesse último livro o propósito de excluir os poetas da República já que não têm eles outro talento que o de imitar, mediante certa coloração de palavras e expressões figuradas. São, por isso, supérfluos. A República, como sabemos, procura de certo modo reproduzir a ordem cósmica, em cuja alegoria as sereias ganham posição junto às Moiras. Ali, entoando hinos, ficariam elas, junto dos fusos, com o propósito de seduzir as almas que ali comparecessem.

HANS  C.  ANDERSEN
Sabemos que os desenhos animados produzidos pelos estúdios de Walt Disney divulgaram a imagem das sereias tomando como ponto de partida o conto de Andersen. Neste, a sereia já não apresentava perigo. Devido à sua desmedida paixão por um príncipe, que ela não conseguia cativar, e à sua aspiração por uma alma imortal, por sua bondade também, a sereia deixa de ser uma filha do mar e, depois de virar espuma, eleva-se à condição de filha do ar, com a possibilidade de adquirir a imortalidade com que tanto sonhara. Nesta proposta não há morte ou sedução, nenhum perigo havendo no diálogo entre vida terrestre e marinha. Isto acontece também em outros filmes americanos em que as sereias passeiam pela tela de maneira explícita ou metafórica. Migrando da tela para o supermercado, as sereias hoje podem ser encontradas nas secções de brinquedos. A banalização que os meios de comunicação impuseram ao mito, o cinema americano e os desenhos animados sobretudo, trouxe a anulação do poder das sereias, poder que ficou  neutralizado, anestesiado. Em outras palavras: não há perigo nenhum na convivência entre o mundo terrestre e o mundo oceânico.

JAN   SVANKMAJER

Por oportuno, entendo, quanto ao parágrafo acima, transcrever o que Jan Svankmajer, o grande mestre surrealista tcheco do desenho e da animação, falou sobre o artista americano: Disney está entre os maiores fabricantes de "arte para crianças". Eu sempre sustentei que nenhuma arte especial para crianças simplesmente existe, e o que passa por ela incorpora a bétula (disciplina) ou o lucro (lucro). "Arte para crianças" é perigoso na medida em que compartilha da domesticação da alma da criança ou da educação dos consumidores da cultura de massa. Receio que uma criança criada com produtos atuais da Disney ache difícil se acostumar com tipos mais sofisticados de arte, e assumirá seu lugar nas fileiras dos telespectadores de séries de TV idiotas. 


A  PEQUENA  SEREIA,  EM FILME DE  WALT  DISNEY,1989

Com a vitória do cristianismo, como se sabe, todos os deuses, heróis, monstros e seres teriomórficos da mitologia grega foram satanizados indiscriminadamente. A patrística afirmava que todos esses demônios do paganismo (mundo greco-romano) se alimentavam das canções dos poetas, fazendo coro a Sócrates. Os banquetes com música e canto eram condenados, comparando-se os seus participantes a marinheiros que se atiravam contra rochedos ao ouvir as sereias. A sereia, entretanto, sobreviveu à sanha perseguidora dos primeiros padres da igreja. Continuaram a simbolizar a sedução, mais literariamente talvez do que de fato, porém. Entraram também nos bestiários e através da arquitetura foram parar nos capitéis medievais, pisos, colunas, frontões e fachadas, fazendo parte, sem muita ênfase, da galeria das tentações demoníacas.

Onde a sereia conseguiu se refugiar melhor foi no conto de fadas. No referido conto de Andersen, A Pequena Sereia, há uma barganha diabólica: a heroína perde a sua língua para sempre em
CLAUDE  DEBUSSY
troca da forma humana e da vida sobre terra. Andersen, como se sabe, escreveu esse conto entre 1.836 /7, com base em vários contos orais e escritos, tanto da tradição ocidental como oriental, contos em que a sereia poderia viver na terra como mulher e ter um mortal como companheiro se observasse determinadas condições. Esse mesmo tema inspirou em parte o drama poético Pelléas et Mélisande, de Maurice de Maeterlinck, para o qual Claude Debussy compôs uma música (ópera).


PÉLLEAS  ET  MÉLISANDE , OPÉRA   NATIONALE  DE  PARIS , 2015

SEREIA  EM  COPENHAGUE
O conto de Andersen, bastante mórbido, aliás, consagrou o tema. A cidade de Copenhague, ostenta , como monumento nacional, uma estátua de bronze da pequena sereia perto do mar. Ao narrar o conto para crianças, Andersen alterou o seu caráter original, acentuando a pregação moral sobre o dever e o amor, sobre o auto-sacrifício e sobre a expiação femininos. Isto pode ser notado por um pequeno trecho do conto, que transcrevo, o da resposta da bruxa quando a pequena sereia lhe pede ajuda: mas terá que me dar algo em troca! E o preço não é baixo. Sua voz é a mais bela de todas no fundo do mar e se você acha que vai encantar o príncipe com ela engana-se,  pois sua voz é tudo o que você tem para me dar. Venha, estique a sua pequena língua para que, cortando-a, eu receba meu pagamento; então terá a minha poderosa poção!

A sereia mutilada do conto de Andersen tornou-se logo um personagem amado, aprovado. A sua transformação em ser humano foi muito dolorosa: a sua cauda se encolheu e dividiu, ganhou lindas pernas, que, ao andar, lhe causam muita dor; seus pés sangram sempre. Ela, contudo, não reclamou. Ao final, recuperará a sua forma original, recusando-se a atacar o príncipe, origem do seu mal. Com o coração partido, atirou-se ao mar, na “mortalmente fria espuma do mar”, dissolvendo-se no vento. A mensagem do conto é a de que para sermos salvos precisamos não só cortar a língua, mas, inclusive, chegar à auto-anulação, à dissolução. 

A sereia no mito grego, como se pode perceber, é um símbolo da sedução, ou seja, de Afrodite enquanto esta deusa é dona da enkrateia, um poder que vence resistências. O mundo machista não aceita este poder, a sua sedução é sempre condenada. Há deusas gregas que se opõem abertamente a este poder de Afrodite, Deméter e principalmente Palas Atena, por exemplo. Em Atenas,  polis tutelada por esta última, Afrodite era conhecida como a “estrangeira” ou a “prostituta”. Homero fala que a canção da sereia é “líquida” e que quem a ouve estará perdido.

A psicanálise freudiana, como se sabe, aproxima o sexual do digestivo, o que nos permite entender, usando o universo pisciano para tal, que a descida ao ventre incubador pode se fazer indiferentemente (nos contos folclóricos, lendas etc.) pela boca ou pela vagina, ocasião em que ela, a descida, tanto numa como noutra hipótese, pode se transformar em prazer. É de se lembrar que o ato sexual é representado pelo beijo, relação que nos remete ao símbolo do signo, em que temos dois peixes unidos pela boca por uma espécie de cordão umbilical. Antigas tradições, por essa razão, sempre associaram o signo de Peixes ao beijo.


DANTE  ALIGHIERI
( DOMENICO DE MICHELINO, 1417 - 1491 )
A boca fechada forma uma linha; aberta, forma um círculo, o lugar, segundo o poeta italiano Dante Alighieri (séc.XIII), onde o amor, que começa nos olhos, acaba. Sob o ponto de vista simbólico, a boca é muito mais que o órgão que nos permite comer, por onde passa o sopro vital ou que nos permite falar. Ela tem relação, como se sabe, astrologicamente, com a nossa segurança. Inseguros, precisamos agarrar, levar algo à boca. Daí, a grande imagem do seio materno ou a relação que podemos estabelecer entre a boca e a vulva, equivalentes metaforicamente, pois ambas têm lábios. A primeira coisa que sentimos na vida nos chega através do paladar, o leite materno, acompanhado geralmente de amor, afeição, carinho, sensação de segurança, calor, bem-estar. Essas associações são poderosas e não desaparecem facilmente.

A fome sexual e a fome física sempre andaram juntas. Não é por acaso que usamos tantas palavras ligadas ao paladar no jogo amoroso. Pessoas são deliciosas, gostosas, apetitosas. Fazer sexo e comer são equivalentes. De alguém delicado, cordato, falamos que é um doce. As francesas usam mon petit chou (meu repolhinho) quando se referem carinhosamente ao namorado.  Os ingleses usam
CRUMPET
a palavra crumpet (uma espécie de bolo, leve, macio, semelhante a um muffin, tostado levemente e lubrificado com muita manteiga) para falar de uma mulher muito atraente. Os alimentos têm uma íntima e impressionante ligação com o mundo de Vênus. Há vegetais que lembram o órgão fálico (mandrágora, alho-porro, cenouras, bananas, pepinos, espigas de milho); outros lembram o órgão genital feminino (figos, ostras); os pêssegos lembram traseiros calipígios; a cantárida recheava os bombons do marquês de Sade etc...

Quando falamos com uma pessoa pelo telefone celular ou pela Internet, só usamos o mental (Mercúrio e Urano), jamais Vênus ou Netuno, mesmo que quanto a este último modo de comunicação usemos o Skype. A comunicação mercuriana sem o componente venusiano é incorpórea, não há toque, é algo assim como se falássemos ao vento. Quando falamos pessoalmente, com presença física, olho no olho, podemos não só tocar a pessoa como, sobretudo, penetrar temporariamente nos seus sentimentos. Por isso, muito importante que nos encontros pessoais entre a comida e a boca, um ato simbólico que nutre tanto o corpo quanto a alma.

Comer, sugar, sorver, chupar, lamber são verbos válidos tanto no amor como na alimentação. Marcas roxas e sinais de mordidas, produzidos por chupões e dentadas podem ser sinais de amor... Entrando a boca, há sempre uma ideia de integração, de fusão, de descida ao interior, de incorporação, algo voraginoso que lembra transformação, apagamento de limites e fronteiras. Entrando Netuno, a fusão é máxima. O princípio que explica os alimentos enteógenos: “transformamo-nos no que comemos”, pode ser procurado também no amor. A exaltação de Vênus em Peixes, permite entender porque em tantas tradições os deuses dos alimentos governavam os corações e as vidas de muitas pessoas.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

AQUÁRIO (2)


HAPI
No Egito, o signo de Aquário aparecia associado ao rio Nilo, o “rio azul”. Lembremos que o nome Nilo vem dos gregos (neilos) e é encontrado no sânscrito como adjetivo, nila, azul. Do latim, nilus, passou para o árabe e para o português, como o temos,por exemplo, na palavra anil. O rio era divinizado pelos egípcios quando de suas enchentes, sendo chamado então de Hapi. Representavam-no por uma figura antropomorfizada, obesa, com grande ventre, com seios pendentes, desenvolvidos como os de uma mulher, o que lhe dava um aspecto andrógino. Vestido como um barqueiro, às vezes como um pescador, usava Hapi uma coroa de plantas aquáticas na cabeça (lótus se representado no Alto Egito, papiro, no Baixo Egito). O deus Hapi era aquele que nutria, que alimentava o país e os próprios deuses; morava na primeira catarata do rio, numa ilha, de onde derramava de suas ânforas a água que iria abastecer o céu e depois a terra.

Autogerado, Hapi era chamado de Único, acreditando os egípcios
NUN
que ele saía do Oceano primordial, o Nun, que envolvia a Terra, do qual Hapi era uma forma secundária. Nun guardava todas as formas possíveis, as positivas e as negativas, e dentro dele se manifestou o demiurgo. Nun era considerado o deus das origens na cosmogonia heliopolitana. Em Hermópolis, era um dos quatro princípios masculinos, representando o infinito líquido, associado à sua contrapartida feminina, Nenet. Rodeando o mundo visível, ele esta na origem das enchentes. É da profundeza de suas águas que no final dos tempos sairá um demiurgo para nos proporcionar um novo ciclo de vida.  


HERMÓPOLIS  ,  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO

Já os devotos da deusa Ísis davam outra interpretação às cheias do Nilo, que começavam em meados de junho. Afirmavam eles que tal acontecimento se devia às lágrimas da deusa, chorosa pela morte de
OSÍRIS
Osíris, assassinado por seu irmão gêmeo Seth. Qualquer que seja, porém, o aspecto religioso privilegiado, o que se sabe é que, além de muitas oferendas, cânticos e poemas sempre haviam sido entoados e recitados às margens do rio desde tempos muitos remotos para que as águas atingissem um ponto ideal quando das enchentes de modo a proporcionar a máxima fertilidade paras terras vizinhas, mais ou menos a 20 km. de ambas as margens do rio,  Deste ponto ideal dependia anualmente a prosperidade ou a infelicidade do povo egípcio. Quando gregos e romanos ocuparam o país, a referida altura, para que a almejada fartura das colheitas fosse obtida, estava fixada em mais ou menos dezesseis côvados, quase onze metros.  

Lembremos que o deus Hapi, apesar de muito reverenciado,  nunca chegou a fazer parte de qualquer sistema teológico no Egito. Nos templos, ele exercia uma função doadora, para outros subalterna, sendo uma espécie de auxiliar dos grandes deuses, oferecendo-lhes o produto de suas águas. Neste sentido, a função de Hapi lembra muito a de Ganimedes como escanção dos deuses do Olimpo grego. Muito representado na escultura religiosa do país, Hapi atuava juntamente com as divindades do mar, dos grãos, do florescimento do mundo vegetal, das oferendas e, de um modo geral, dos que de algum modo proporcionavam bem-estar e felicidade.  

Na mitologia egípcia, os deuses sempre mantiveram uma relação muito difícil com o mar, com as suas enormes extensões de água salgada que muitas vezes se tornavam perigosas quando ventos e tempestades vindos da massa líquida marinha se abatiam sobre a costa. Na verdade, o alto-mar para os egípcios sempre representou uma região de acesso muito difícil, pois era preciso atravessar, para atingi-lo, as zonas instáveis do delta do rio, zonas pantanosas, perigosas, que lembravam sempre a sofrida peregrinação de Ísis em busca de seu amado Osíris. Contudo, se os extensos pântanos significavam por um lado proteção contra ataques externos, por outro desestimulavam tentativas de atravessá-los, uma alternância com a qual os egípcios tiveram que conviver por milênios.


ÍSIS

Desde tempos imemoriais se falava no país de uma força poderosa, desconhecida, que aterrorizava os pescadores que iam além do delta do Nilo, uma força que atacava e destruía barcos e homens, ninguém sobrevivendo. Era o deus dos mares, que, às vezes, avançava sobre as terras da região do delta; ora era o gado, criado nessas regiões, levado pelas águas; noutras ocasiões, pequenos vilarejos eram destruídos e cadáveres apareciam presos às raízes das plantas dos pântanos. Os rumores se multiplicavam, o temor tomava conta de todos que viviam na região. 

A afirmação dos antigos ganhou corpo com o tempo: falava-se que um monstro de nome Yam, vindo das profundezas marinhas, andava à noite pelo delta, acompanhado de crocodilos e hipopótamos. Uma boa parte da mitologia egípcia registra com ênfase a luta entre o deus Hapi e os agentes monstruosos do deus marinho, todos relacionados, sob o ponto de vista astrológico, com os dois últimos signos zodíaco.


PROTEU
Quanto aos gregos, lembremos, desde Homero, atribuíram eles inicialmente a um deus chamado Proteu (o primeiro gerado, o que vem antes, etimologicamente), cujo apelido era O Velho do Mar, a tutela dos mares gregos e egípcios. Sua residência ficava numa ilha arenosa, Pharos, situada na costa do delta do rio Nilo. Proteu era uma divindade dotada de poderes oraculares, exercendo também a função de pastor de
PTOLOMEU FILADELFO
rebanhos de animais marinhos (focas e outros). Não gostava de ser incomodado nem consultado, evitando sempre os inoportunos. Fugia deles, tomando a forma de qualquer animal marinho ou simplesmente se transformando em água ou fogo. No ano de 300 aC, Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito, mandou construir na ilha de Pharos, diante de Alexandria, uma torre de mármore branco de 180 m. de altura. Esta notável edificação, uma das sete maravilhas do mundo, guiava os navegantes à noite, graças a fogueiras que eram mantidas permanentemente acesas no seu topo.



GEIA  E  FILHOS
Proteu era também chamado pelos gregos de Nereu (o que vive mergulhado, etimologicamente), pai das nereidas, ninfas do mar, tendo sido gerado pela união de Pontos e de Geia, esta última a Grande-Mãe Terra. O primeiro mencionado, cujo nome lembra caminho, lugar por onde se transita, representa no mito grego, como sabemos, a primeira concepção do mundo marinho, ou melhor, da energia que há no elemento líquido oceânico e passa por ter sido o pai também de, além de Nereu, de Taumas (O Maravilhoso), Fórcis (O Branco, no sentido de encanecido), Ceto (A Baleia) e Euríbia (A de Grande Força Vital), entidades marinhas. 

Os gregos, através de seus primeiros escritores, poetas ou não, como Homero, Hesíodo e Heródoto, sempre consideram o oceano
OCEANO , MOSAICO  ROMANO
como um imenso rio que fluía em torno da Terra. Na sucessão das divindades que o tutelaram, depois das  entidades primordiais acima mencionadas, aquele que melhor representou a massa circular líquida que envolvia a Terra, como um rio-serpente, foi o deus Oceano, o filho mais velho de Urano e de Geia, um titão, portanto. Sempre considerado como extremamente cordato e acessível ao se relacionar, Oceano, unindo-se a Tétis, símbolo do poder gerador das massas oceânicas, tornou-se pai das Oceânidas, as ninfas dos oceanos e mares, e de inúmeros rios que atravessa a Terra. Dentre os mais importantes filhos de Oceano, destacamos, segundo os gregos (Hesíodo), os rios Nilo, Aqueloo,  Alfeu, Erídano, Peneu... 

DEUCALIÃO  E  PIRRA
Antigos povos da Mesopotâmia, como os babilônicos, principalmente, associavam o signo de Aquário ao décimo-primeiro mês do seu zodíaco, Shabatu, palavra que tem o significado de Curso das Águas da Chuva. Na Grécia, é de se notar, o signo antes de ser associado a Ganimedes, aparecia ligado a  Deucalião, filho de Prometeu e de Clímene, herói que se salvou do dilúvio enviado por Zeus. Etimologicamente, o nome Deucalião lembra mergulho, imersão no elemento líquido. Casou-se com Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora. 

OVÍDIO
Desgostoso com o comportamento dos heróis da Idade do Bronze, descontrolados, que viviam atolados no vício e no crime, Zeus resolveu, como diz o poeta Ovídio, castigar todos os homens, afogando-os nas águas de um dilúvio. Salvou-se o casal Deucalião e Pirra, que fundou um reino e, com os seus filhos e descendentes, repovoou a terra, criando uma nova humanidade.
  
Entre os latinos, certamente por influência grega, quando Ganimedes já havia substituído Deucalião como representante mítico do signo, surgiram, para designar Aquário, além de Ganimedes, naturalmente, nomes como Amphora, Junonis Astrum (Astro de Juno, esposa de Júpiter), Jovis Cynoedus ou Cinaedus  (Favorito de Júpiter), Puer Iliacus (Garoto de Ilion, Troia), Puer Aquilae (Garoto da Águia).  


AQUÁRIO
Na tradição ocidental, pela via latina, fixou-se o nome Aquarius, para o décimo primeiro signo zodiacal. Aquarius, em latim, lembre-se é tudo o que concerna à água, servindo a palavra para designar também tanto aquele que tem a função de transportar água como o que trabalha como inspetor encarregado da supervisão das águas. Note-se ainda que os franceses adotaram para designar o signo a palavra Verseau, hydrokhoeus, em grego. vertedouro, o que derrama  água.

Diante do exposto, acredito que fique fácil entender porque os antigos associaram essa região do zodíaco à água, região conhecida em antigas astronomias pelo nome de Mar. Para representar essa região nos céus, os antigos utilizaram uma onda, que era o hieróglifo egípcio da água, elemento que põe tudo em comum, que apaga as fronteiras, ligado alquimicamente à solutio. É por esta razão que o signo que ocupou esta região do céu sempre foi considerado com aquele em que o ser humano transcende a sua individualidade e a sua vida social para se integrar a humanidade.

O acesso a esta transcendência, entretanto, terá que ser feita atrvés do elemento ar. Ou seja, é pelo despertar de sua consciência coletiva que o homem compreende que ele é também a humanidade. É por isso que este signo faz quadratura (conflito) com os signos de Touro (a matéria) e com o signo de Escorpião (a metamorfose) e faz oposição ao signo de Leão (o ego). 

Fixando-nos mais na tradição que nos vem da Grécia, não podemos deixar de considerar inicialmente que as relações entre o signo de Aquário e Urano, estabelecidas desde a descoberta desse astro em fins do séc. XVIII, confirmaram todas as aproximações anteriormente feitas entre mitologia e astrologia. Melhor, não só confirmaram como permitiram que o homem entrasse em contacto com dimensões desconhecidas da sua interioridade e do universo, ampliadas mais tarde com a descoberta de Netuno (meados do séc. XIX) e Plutão (década de 1930).


SISTEMA   SOLAR

Se os  planetas visíveis a olho nu até Saturno dizem respeito mais diretamente à evolução física e moral do ser humano individualmente considerado, os três  planetas invisíveis ao olhar humano (Urano, Netuno e Plutão), situados além de Saturno, dizem mais respeito à sua sua interioridade, à sua vida subconsciente, e afetam sobremodo a humanidade como um todo. 

Foi, aliás, por essa razão que os planetas transaturninos foram considerados como a oitava maior de Mercúrio (Urano), Vênus (Netuno) e Marte (Plutão). Quando, na música, dizemos que uma nota está uma oitava acima da outra isto significa que a nota é a mesma, situada porém numa região mais aguda do instrumento. Tome-se o caso de Mercúrio, planeta que numa carta astral descreve como funciona a mente de uma pessoa. Urano, como sua oitava maior, nos descreverá outros tipos de vibração mental, de natureza mais evoluída, que vão além de Mercúrio. É neste sentido, por exemplo, que Urano é considerado como o planeta da intuição, um conhecimento imediato, instantâneo, ao qual se pode chegar sem necessidade das demonstrações que a mente normal precisa para a ele chegar, se é que consegue. É a intuição uma apreensão que se parece muito com o conceito filosófico do Zen, o satori, que se pode traduzir como compreensão profunda e imediata, iluminação.

HESÍDIO
Conforme nos conta Hesíodo em seu poema A Teogonia, Urano era o nome que os gregos davam ao céu estrelado. Nascido de Geia por partenogênese, sem o concurso de qualquer divindade masculina, gerado por ela em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cobrisse, como está no poema, Urano passou a fecundá-la e ela pôs no mundo vários filhos, divindades e monstros, os titãs, os Cíclopes e os Hecatônquiros.

O relacionamento entre Urano e seus filhos, como se sabe, sempre foi difícil; os filhos produzidos por ele e Geia formavam no seu todo uma prole anárquica, revoltada, perigosa, desmesurada; seu comportamento era espasmódico, imprevisível, oscilando todos entre entre estados de grande exaltação e de profunda depressão. Urano tinha tanto horror dos seus filhos, tão pouco gratificantes para o seu amor-próprio, que não hesitava em lançar uns no Tártaro, encerrando-s na camada mais profunda do inferno, ou obrigar Geia a reabsorver outros.

Levando a um paroximismo incontrolável a sua função procriadora, sempre debruçado sobre Geia, fecundando-a incessantemente, Urano jamais deu ouvidos às suas queixas. Inconformada, ela chamou seus filhos à revolta com a finalidade de dar fim à prepotência de seu filho-amante. O único que a atendeu foi Kronos, o caçula; Geia lhe forneceu-lhe então uma foice de silex com a qual ele investiu contra o pai e o castrou. Dessa castração, do contacto da genitália de Urano lançada ao mar com a sua espuma (aphros, em grego), tudo em meio a sangue e secreções, nascerá Afrodite, deusa do amor.

Parece não haver dúvidas de que o papel representado por Geia na castração de Urano foi inspirado por aquele que Cibele, deusa frígia, como Grande-Mãe, desempenhava  na mitologia dos povos do oriente-próximo. Até onde se sabe, foi no culto de Cibele que se encontrou o primeiro ritual de castração masculina devidamente registrado.


CASTRAÇÃO   DE   URANO


CIBELE
Esta história apresenta algumas versões, parecendo-nos a mais aceitável a mais antiga, a greco-oriental, que nos apresenta Atis, deus anatólio da vegetação, servidor a amante de Cibele, mãe dos deuses, dos humanos, dos animais e da vegetação selvagem. Grande-Mãe, Cibele se situa entre as maiores divindades da fertilidade do mundo antigo. Montada num carro puxado por leões,  símbolo de seu poder, ela possui uma chave com a qual abre as portas da Terra onde estão encerradas todas as suas riquezas. Seu culto se espalhou pelo Mediterrâneo, alcançando Roma, onde era apresentada majestosamente com pequenas torres numa coroa  que ostentava na sua cabeça, emblemas das várias cidades que protegia. 

CIBELE   E   ATIS ( ANGELO MONTICELLI , 1778 - 1837 )

Seus cultos, no oriente, eram de natureza orgiástica, neles se encaixando a história de Atis. Amado pelo hermafrodito Agdistis e não podendo a ele se unir, por sua dependência de Cibele, Atis enlouqueceu, e se mutilou, castrando-se (emasculação), numa das festas da Grande-Mãe, realizadas anualmente. Ovídio, muito mais tarde, retomou a história de Atis, da sua castração, eliminando, porém, a sua ligação com Agdistis.  Atis passou,  a partir dessa versão, a ser considerado  como um deus da vegetação que morria e renascia anualmente, um representante da chamada fecundidade pela morte.

Considerando o que até agora foi expôsto com relação a Urano não será preciso muito esforço para se perceber, mesmo para os que não se aventuraram na caminhada astro-mitológica, o quanto o filho amante de Geia pode se insinuar, como poderoso arquétipo na personalidade de muitos daqueles que a astrologia chama de aquarianos. Realmente, Urano, como deus do céu, além de outros excessos, parace apresentar, quando analisado mais de perto, como característica principal, uma incontrolável e anárquica criatividade, a personificação de uma fecundidade que não conhece limites.

O mito nos revela que Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, que a fazia reabsorver os filhos que gerava, resolveu libertar a sua prole. Pediu que os filhos a auxiliassem. Todos se recusaram, com exceção do caçula, Kronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Kronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava para mais uma vez se deitar sobre Geia, Kronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe, com a sua foice, a sua genitália.

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e ele um espaço que nunca mais voltaria a desaparecer. Essa façanha de Kronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. Desde então, a foice, como símbolo, associou-se às colheitas e à morte, aparecendo como um atributo das divindades agrícolas, cujo melhor exemplo pode ser encontrado no deus Saturno, dos povos latinos.


NUT 

Astrologicamente, foi atribuída a Urano, o planeta mais excêntrico do sistema solar até então conhecido (excentricidade até hoje não contestada), a tutela da constelação de Aquário, pelas seguintes razões, em função das influências que exerce sobre o nosso planeta e a vida humana: essencialmente, Urano é variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, excitante (mania, no sentido grego), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista (utópico), original, inédito e estéril.

Através dos adiante nomeados traços de personalidade, que destacamos, a influência uraniana costuma ser traduzida pelos seguintes comportamentos:  desmesurado impulso criador; peculiaríssima originalidade, caracterizada pela autossuficiência; excessos individualistas;  forte inclinação à independência (ação reflexa do singno oposto, Leão), alimentada muitas vezes por uma absoluta falta de compromisso ou de concessões com relação ao meio em que vive; obstinada cosmovisão; lógica e ética únicas, base de um comportamento que leva invariavelmente o tipo aquariano mais comum a não querer pertencer a “nenhum rebanho”. 

Lembro que a união de uma Deusa-Mãe com um Filho Amante é um modelo muito repetido nas primeiras fases de várias mitologias, uma forma incestuosa de relacionamento que nesses tempos primordiais terminava via de regra tragicamente, encontrando-se um de seus melhores exemplos, atualizado, na história do infortunado Édipo. 

EVA
( L.L.DHURMER, 1865 - 1953 ) 
O ímpeto criativo de Urano, talvez a sua característica mais marcante, costuma gerar, em muitos casos, o melhor e o prior através de inventos e formas, individual ou coletivamente.  É neste sentido que Aquário é o signo do demiurgo, do inventor, daquele que vai também rejeitar muitas vezes (sempre?) a sua própria criação, como Urano o fez com seus próprios filhos e como, entre os judeus, Javé, valendo-se da sua criatura masculina, fez com a mulher, Eva. 

Dentro deste contexto é que podemos estabelecer a analogia entre a inesgotável capacidade criadora do Céu Estrelado e a ação aquariana superior de caráter científico, tecnológico ou artístico, uma fantástica capacidade criadora nem sempre coerente e muitas vezes inconsciente, quanto aos efeitos maléficos daquilo que foi criado, poderia produzir. São estas considerações, a meu ver, que atualmente, diante do surto inventivo que tomou conta da humanidade a partir de fins do séc. XVIII, se nota nos países mais influenciados pelas características aquarianas, características que precisam ser trazidas à discussão para se questionar a responsabilidade dos inventores, forçando tais países a que se conscientizem e interroguem sobre os efeitos deletérios de sua  própria criação. 





domingo, 8 de janeiro de 2017

ERIDANUS, HYDRA




ERIDANUS é a maior constelação do céu, abrangendo um espaço enorme que vai de Cetus, A Baleia, passa por Orion e finalmente alcança as proximidades do polo Sul, mais ou menos na latitude de 60º. Em muitas culturas, pela sua importância, pela sua dimensão, pelo seu papel histórico, social e econômico, os rios adquirem um significado nacional ou mesmo transnacional. Muitos se confundem com o próprio desenvolvimento das sociedades onde os encontramos. Os nomes são sugestivos,  Ganges, Tigre, Eufrates, Nilo, Ebro, Reno, Tibre, Tejo, Sena, Pó, Amarelo, Mississipi, Yamuna,  Arno, Volga são exemplos significativos, grande parte deles formando o berço de muitas civilizações.

Os rios nunca foram considerados só como uma corrente de água estática. Seu fluxo,  suas enchentes e estiagens apontam para uma dinâmica que se confunde com a própria vida. Desde que o homem está na terra, os rios sempre foram usados como símbolos em mitos e religiões. A divisão entre
RIOS   DO   HADES
o mundo dos mortais e o Outro Lado é marcada normalmente por rios. A antiga tradição judaica divide a terra que envolve o paraíso em quatro quadrantes sinalizada esta divisão por quatro rios: Pison (Indus ?), Gihon (Ganges ?), Hiddekel (Tigris) e Euphrates. O Hades grego tem cinco rios: Aqueronte, Piriflegetonte, Estige, Cocito e Lethe. 


OCEANO
FONTANA    DI   TREVI
A primeira ideia de rio que aparece na Mitologia grega é a de Oceano (rodear, circular, em grego), um imenso rio-serpente que cercava a terra, estendendo-se de norte a sul e de leste a oeste, demarcando as fronteiras do globo terrestre. Além dele, o Outro Lado, que começava pelo país dos cimérios, que ficava no extremo ocidente. Oceano era o mais velho dos titãs, filho de Urano e de Geia; unindo-se a Tétis (simbolo da fertilidade das águas), gerou mais de três mil rios, nascentes, lagos e as ninfas oceânidas.

Os antigos gregos sacrificavam touros, cavalos e carneiros para honrar os rios, devidamente divinizados, participando eles de muitos mitos, rios como o Aqueronte, o Aqueloo, o Céfiso, o Scamandro e o Eridanus. Assim como os mares, constantemente em movimento, os rios participam da simbologia da fertilidade, da morte e do renascimento pelo seu eterno fluir, lembrando a sua chegada aos
RIO   GANGES, DESCENDO A MONTANHA 
oceanos o retorno à indiferenciação. Os rios, na antiguidade grega, inspiravam veneração e crença, só podiam ser atravessados depois de observados determinados ritos purificação e feitas certas preces. Os rios, descendo as montanhas, brotando de grutas, atravessando vales, precipitando-se em lagos, fundindo-se com outros, acabaram por se constituir na imagem da própria existência humana

Eridanus (colina, pequeno monte e também túmulo, em grego) é um dos numerosos filhos do deus Oceano e de Tétis. Participa do terceiro trabalho de Hércules (a busca dos Pomos de Ouro no Jardim das Hespérides). Uma outra história, diretamente relacionada com Eridanus, é a de Faetonte, da qual participa o deus Hélio.




Hélio, filho de Hiperion (o que contempla do alto, em grego) e de Teia (a divina), é o Sol sob o ponto de vista físico. É um titã, tendo por irmãos Eos (Aurora) e Selene, a Lua (sob o ponto de vista físico). Unindo-se a Perseis, uma oceânida, tornou-se pai de Circe, a maga; de Eetes, rei da Cólquida; Pasífae, rainha de Creta, esposa de Minos; e de Perses, que passa por ser o pai de Hécate, deusa triforme do mundo infernal. Relacionando-se Hélio com outra oceânida, Clímene, tornou-se pai das Helíades e de Faetonte. Com Rodos, ninfa da ilha de Rodes, foi pai dos Helíades, renomados astrólogos.

Hélio era antropomorfizado como um jovem de grande beleza, cabeça sempre aureolada, de onde emanavam raios. Para se movimentar com grande velocidade pelo cosmos usava sempre um
EOS
carro de fogo, às vezes uma taça, à guisa de barca, puxada por quatro cavalos, Pírois (fogo), Eóo (luz), Éton (chama) e Flégon (brilho). Sua chegada todas as manhãs era precedida pelo carro da deusa Eos (Aurora).  Ao final das tardes, mergulhava com seu carro no oceano, acalmando os seus animais. Pernoitava num palácio de ouro, recomeçando na manhã seguinte a sua trajetória. No mito, foi sendo aos pouco suplantado por Apolo, divindade da terceira dinastia, vencedora dos titãs, não perdendo, porém, a prerrogativa de ser considerado o “Olho do Mundo”, o que tudo via.

O nome do nosso herói, Faetonte, vem da palavra grega phaeton, brilhante. Foi educado pela mãe sem saber que era filho do deus Hélio. Só quando adolescente teve conhecimento de sua paternidade. Desde a infância sofrera muito, sendo ridicularizado, por não saber declinar o nome do pai. Revelado o nome paterno e desejando calar para sempre os que o maltrataram, pôs-se a
AS   METAMORFOSES
caminho para encontrá-lo, muito ansioso. Quem narra essa história é Ovídio nas suas Metamorfoses. Encaminhou-se então o jovem para o extremo oriente, aproximando-se do majestoso palácio do pai, todo em ouro, com portas de prata e aplicações de marfim. O pai estava sentado num trono de esmeralda, resplandecente. À direita e à esquerda encontravam-se as Horas, os Dias, os Meses, os Anos, os Séculos e os Milênios, cada um ocupando o seu espaço. Apropriadamente vestidas, por perto, moradoras no palácio, as quatro estações, a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno. 



AS   QUATRO   ESTAÇÕES  ( A. M. MUCHA , 1860 - 1939 ,  PRAGA )

Hélio reconheceu o filho, abraçou-o efusivamente e para sacramentar o reconhecimento, antes de qualquer palavra, jurou, em nome das águas do rio Estige, atender tudo o que ele lhe pedisse. O jovem, sem titubear, pediu que o pai lhe emprestasse por um dia o carro puxado pelos cavalos alípedes com o qual viajava pelos céus. No mesmo momento em que ouviu o pedido do filho, logo o arrependimento o tomou inteiramente, pois não poderia voltar atrás, pois juramentos divinos feitos em nome do rio Estige eram irrevogáveis. Hélio descreveu então ao filho os perigos a que ficaria sujeito. Se levasse o carro acima da eclíptica, certamente se chocaria com os astros, se abaixo, com a Terra. Qualquer descuido na condução do carro, a ordem cósmica seria fatalmente perturbada, com consequências catastróficas, sem dúvida. Hélio lembrou-lhe o exemplo do infeliz Ícaro, quando tentara escapar de Creta.

Hélio observou ao filho que nem Zeus se atreveria a conduzir o carro solar. Eis uma parte do seu discurso ao jovem, segundo Ovídio: Supõe que eu te entregue o carro. Que farás? Poderá enfrentar a rotação dos polos, para não seres arrastado pelo eixo movediço? Por acaso imaginas que há no céu bosques, cidades dos deuses e templos repletos de oferendas? O caminho solar avança entre ciladas e animais ferozes. E mesmo se o seguires sem errar terá de enfrentar os chifres do odioso Touro, o ardor de Sagitário, a boca do feroz Leão, o Escorpião com os seus ferrões recurvados e o Caranguejo, também de ferrões recurvados, mas num outro sentido. Quanto aos quadrúpedes, animados por um fogo que têm no peito e que soltam pela boca e pelas narinas, conduzir os cavalos não te será fácil. Mal me obedecem, com aquele seu vigor fogoso e mal suportam o freio. Cuidado, meu filho, para que eu não preste um favor funesto e, já que ainda é tempo, muda de ideia.

De nada valeram as ponderações de Hélio. Pela madrugada, quando Eos  já abrira as portas do oriente para a luz, Faetonte subiu no carro do pai e partiu numa alucinada carreira. Os cavalos logo perceberam que Hélio não estava no comando. Aumentado a velocidade, Faetonte, ao subir, estava pondo em risco os astros. Nos rasantes que dava, incendiava a Terra. O carro se chocava com as estrelas, as nuvens se inflamavam, cidades e bosques na Terra se incendiavam. Faetonte na sua corrida louca ia deixando um rastro de destruição e de dor. 


FAETONTE  ( NICOLAS  BERTIN )

Geia, a Grande-Mãe, ressequida até as entranhas, não suportando mais as agressões a que estava sendo submetida, pediu a imediata intervenção de Zeus. Atendendo-a, reverente, o Senhor do
NÁIADES   CHORAM    FAETONTE
Universo, do alto do Olimpo, lançou a sua infalível arma, que abate os orgulhosos e os inconsequentes dominados pela
hybris. Faetonte despencou com o carro solar, que se espatifou em chamas nas águas do rio Erídano. As Náiades da Hespéria recolheram o cadáver do jovem, dando-lhe sepultura. No túmulo, colocaram a seguinte inscrição: Aqui repousa Faetonte, condutor do carro paterno, ao qual se não conseguiu conduzir, ao menos pereceu em gesta gloriosa.

Hélio, cheio de dor, deixou a Terra sem luz no dia seguinte. As Helíades, irmãs do jovem, choraram tanto junto à sua sepultura, às
ÂMBAR
margens do rio, que foram metamorfoseadas pelos deuses em choupos e as suas lágrimas em fragmentos de âmbar. Os choupos são, como sabemos, árvores funerárias que lembram sempre as forças regressivas que atuam na natureza, trazendo-nos mais lembranças que esperanças, falando-nos mais de tempos passados que de
CHOUPOS
renascimento. Já o âmbar (electron, em grego) simboliza o fio psíquico (sutratma para os hindus) que une a energia individual à energia cósmica, a alma individual à alma universal. Apolo, por exemplo, depois de ter fulminado os Cíclopes, foi banido do Olimpo por Zeus, vindo para o seu exílio terrestre. Saudoso do mundo olímpico, chorava, transformando-se suas lágrimas em gotas de âmbar. Segundo a tradição, o âmbar (na realidade, resina fossilizada de árvores coníferas que datam de milhões de anos, especialmente da região do mar Báltico) sempre foi usado na joalheria. Nas regiões do Mediterrâneo, o âmbar era considerado um amuleto poderoso, sendo muito usado contra assombrações e espíritos demoníacos. Astrólogos gregos associavam o âmbar ao planeta Mercúrio. É também símbolo de atração solar, espiritual, divina. 

QUEDA  DE  FAETONTE
( JOHN  LISS , 1597 - 1631

A história de Faetonte, o seu mergulho no Eridanus, simboliza a precariedade da existência, fala-nos do que ela tem de efêmero, de transitório, e também da indiferença que comanda o vir-a-ser das coisas do mundo. Tudo flui, tudo retorna à indiferenciação e tudo retorna.  


Na tradição grega, entre os antigos astrólogos, a queda de Faetonte no rio Eridanus teria sido a tradução mítica de um fenômeno (queda de um meteoro) que causou um remoinho (zalos), cujo efeito é conhecido como precessão (movimento de recuo dos pontos equinociais). Na Física, a precessão, como sabemos, acontece quando um corpo rígido se movimenta em torno do seu eixo de rotação sujeito à ação de um sistema conjugado externo. 



Eridanus se estende de 15º de Peixes a 0º de Gêmeos. Para Ptolomeu, as suas influências são saturninas. Há, com elas, propostas das virtudes superiores do planeta, erudição, gosto pelo conhecimento, por longas viagens, possibilidade de conquista de posições de autoridade; há, porém, riscos de acidentes no mar, afogamento. As principais estrelas de Eridanus, por ordem de importância, são Achernar, Cursa, Zaurac e Azha. A primeira, alfa, de 1ª magnitude, é a única importante astrologicamente; está hoje a 14º31´ de Peixes. O nome vem do árabe, Al Ahir al Nahr, O Fim do Rio, a 32º do Polo Sul. As influências jupiterianas (religião, atividades sociais e beneficentes) dentro desta constelação ficam por conta de Achernar, estrela representada muitas vezes por um querubim armado. Para os judeus, um querubim (palavra que significa jovem) com uma espada de fogo na mão guardava a entrada do Éden para impedir que o homem tentasse a ele voltar. Os querubins simbolizam proteção, guarda, vigilância combativa. Quando os homens se mostram infiéis, os querubins voltam-lhes as costas, significando isto a ira de Deus e o prenúncio de calamidades. 

ANJOS
Lembremos que os querubins são encontrados em várias tradições antigas. No Egito, eram figuras aladas, com o corpo coberto de olhos (vigilância),  oniscientes e onipresentes. Entre os persas, babilônicos e assírios desempenhavam funções semelhantes; postavam-se à porta dos templos com a função de guardar tesouros. Simbolizavam sempre dignidade, altas posições, glória. Na hierarquia celeste dos anjos, há três Ordens, subdivididas em três Coros. Os querubins, na primeira ordem e primeiro coro, ficam abaixo dos serafins e acima dos tronos. Sentam-se eles ao pé de Deus, numa proximidade superior à de quaisquer outros anjos e santos. Os querubins, além da função de vigilância que exercem, são encarregados da difusão da sabedoria que permite a recepção dos mais altos dons espirituais.  

Para os antigos, o Eridanus era o rio da vida, o rio que fazia a ligação com a Via Láctea (21º de  Gêmeos-1º de Câncer a l2º de Sagitário-21º de Sagitário), ou seja, o rio que “tira” do sistema solar e põe em contacto com a Galáxia, que leva do terrestre para a imensidão do Grande Todo. Além do mais, é preciso lembrar que Eridanus, que faz a ligação entre o quarto e o primeiro quadrantes, cobrindo boa parte deste último, “traz” para ele influências saturninas (Saturno rege o quarto quadrante) e, por Achernar, jupiterianas, influências que deverão ser consideradas para cada caso, segundo o quadrante por ela coberto.





HYDRA - Esta constelação é também conhecida como A Serpente, tendo sido considerada aparentemente por várias culturas de maneira muito diversa. Contudo, se nos detivermos um pouco mais no seu exame, veremos que, no fundo, todas as suas representações se assemelham bastante. Os gregos, por exemplo, a viram como o monstro marinho que atacou a nau Argo quando da viagem de Jasão e de seus companheiros  à Cólquida. 


VELOCINO   DE   OURO
Ainda segundo a tradição grega, dentro da mesma história dos argonautas, a Hydra não representava esse monstro, mas o dragão que guardava o velocino de ouro no bosque consagrado ao deus Ares. O velocino de ouro é a pele de um carneiro divino que, pelos céus, para salvá-las, transportou duas crianças, Frixo e Hele, da Grécia à Cólquida. O primeiro chegou ao seu destino, Hele, porém, no meio da viagem, caiu no mar e morreu. Sacrificado o animal divino na Cólquida, sua pele (tosão ou velocino), como um precioso tesouro, passou a ser guardada pelo mencionado dragão. 

KIRON   E   AQUILES
A história de Jasão tem origem numa reivindicação que ele, depois de recebida  a devida iniciação pelo centauro Kiron, fez chegar a seu tio, usurpador do trono de Iolco. Pélias, o tio, expulsara e mandara para o exílio o rei Esão, pai de Jasão. Diante de Pélias, o jovem alegou que, por direito, o trono lhe cabia. Pélias concordou com a pretensão do jovem; ceder-lhe-ia o trono desde que ele lhe entregasse o famoso velocino de ouro que estava na Cólquida, guardado por um pavoroso dragão.

Com o auxílio de Palas Athena, Jasão conseguiu recrutar um grande número de heróis e príncipes gregos para, sob seu comando, participarem de tão perigoso empreendimento. Mais de cinquenta se apresentaram. Chegando à Cólquida, Jasão expôs ao rei Eetes as razões de viagem. Para a obtenção do velocino de ouro, Eetes  impôs quatro provas a Jasão, provas julgadas pelos seus companheiros de impossível realização por qualquer ser humano. A primeira prova consistia em pôr o jugo em dois touros bravios, presentes do deus Hefesto a Eetes, touros de patas e cornos de bronze, que lançavam chamas pelas ventas, e atrelá-los a uma charrua de diamantes; a segunda, lavrar com eles uma vasta área e nela semear os dentes do dragão morto pelo herói Cadmo, na Beócia, presente de Palas Athena; a terceira, matar os gigantes que nasceriam desses monstros; a quarta, e mais perigosa, eliminar o dragão que guardava o velocino de ouro.



O mito nos conta que a filha do rei Eetes, Medeia, feiticeira como a tia Circe, a maior das magas, assim que viu Jasão apaixonou-se por ele, comprometendo-se a ajudá-lo, a superar todas as provas, o que de fato aconteceu. As provas, uma a uma, foram sendo vencidas pelo nosso herói. Na última, a magia de Medeia fez o dragão adormecer e Jasão o atravessou com a sua espada, matando-o. O dragão da Cólquida era filho do maior dos monstros da Mitologia grega, Tifon, e de sua irmã e mulher, Équidna, a Víbora, e, portanto, irmão de outros tantos monstros como Ortro, Cérbero, Hydra de Lerna, Quimera, Fix, Leão de Nemeia e Ládon. 

Uma das melhores ilustrações que os gregos nos deixaram sobre a Hydra está no oitavo trabalho de Hércules, discutido neste blog, que, em muitos aspectos, complementa o que aqui se fala sobre a
HÉRCULES   E   A   HYDRA   DE   LERNA
constelação da Hydra. Nele, nosso herói enfrenta e vence esse pavoroso monstro que vivia num pântano, em Lerna. Na maior parte das civilizações, a greco-romana, a indiana, a persa, a germano-escandinava
 e outras,  observe-se, uma das mais importantes missões dos seus heróis é a de matar monstruosas serpentes, seres dracônticos, sejam ele terrestres ou marinhos, nos seus mais diversos papéis, como símbolos da imortalidade, da energia universal, dos ciclos de sua manifestação, da sexualidade, como animais psicopompos, como representante da vida inconsciente. Na serpente, simbolicamente, se juntam várias expressões da energia psíquica subconsciente do homem que pode, ao se manifestar, em razão de sua ambivalência, assumir aspectos negativos (terror, angústia, morte) ou positivos (propriedades curativas e salvadoras).      

Outra versão nos conta que a constelação da Hydra foi revelada ao mundo de então pelos armênios, segundo uma imagem que haviam
TIAMAT
recebido dos urartianos, um povo que viveu às margens do Mar Negro (região sudeste). Desde 3.000 aC que se tem notícia desse povo, vencido pelos armênios por volta de 700 aC. Numa descrição do céu (uranografia) encontrada numa pedra, aparecia a Hydra, que, segundo a tradição dos urartianos, era o grande vórtice por onde seria possível entrar em contacto com Tiamat, o grande monstro da mitologia mesopotâmica, símbolo das forças caóticas, representado pelo oceano primordial. 


GANGA
Algumas histórias que nos vieram da Índia contam que a constelação a que no ocidente se dá o nome de Hydra é uma representação do monstro enviado por Jalandhara, nascido da união da deusa Ganga (rio Ganges) com o Oceano. Jalandhara era uma espécie de titã (asura), poderosíssimo. Quando do nascimento de Jalandhara, os três mundos tremeram. Em virtude de intensas práticas ascéticas, ele adquiriu enormes poderes. Sobrevoava os oceanos, os maiores peixes e aves a ele se submeteram, gostava de caçar leões, que dominava com extrema facilidade. O próprio deus Brahma se assustou com o seu poder. Um dia, Jalandhara resolveu enfrentar os deuses com o objetivo de destroná-los e de impor uma nova ordem cósmica. Para tanto, enviou um monstruoso dragão para atacar o deus Shiva, a terceira pessoa da trindade divina, que tinha por função a destruição que levava à regeneração das formas universais. 

RAHU
O mensageiro de Jalandhara chamava-se Rahu, grande dragão, que às vezes tomava uma negra e gigantesca forma humana, que aparecia sempre montado num enorme leão. Era também um asura como Jalandhara. O monstro tinha a incumbência de produzir um fenômeno celeste até então desconhecido, um eclipse lunar. Quando da criação do universo, Rahu ingerira um pouco do elixir da imortalidade (amrita), tornando-se imortal. A Lua, como sabemos, é a depositária do famoso elixir, como Soma. O Sol (Ravi) e a Lua (Soma ou Chandra) avisaram os deuses. Agindo prontamente, Vishnu, com um golpe de espada, cortou o pescoço de Rahu. Como a bebida passara pela boca e pela garganta do monstro, estas se tornam imortais, formando-se, do outro lado, na extremidade do corpo seccionado, uma cauda. A cabeça, ávida por outro gole do elixir, percorre os céus desde então à procura da taça de Soma, a Lua. Os eclipses acontecem quando Rahu a encontra, ocasião em que ingere um pouco da bebida. Mas como ela não alcança o estômago, o líquido ingerido se perde. Eternamente torturado pelo desejo de obtê-lo de novo, o monstro recomeça sempre a sua eterna perseguição à Lua. 

Qualquer que seja a versão que abordemos, o que se depreende é que todas são ilustrações desta constelação são uma projeção, nos céus, pela humanidade, da serpente como um de seus grandes
SERPENTE
arquétipos.  A serpente, nas suas características mais primárias e imediatas, tem relação com o mundo subterrâneo, com a morte, com o renascimento, com a vida subconsciente, com o mundo feminino, no que ele tem de tentacular, temível, ligado à figura materna. Fisicamente, a serpente é o oposto do ser humano. Não tem pés, mas se move com espantosa rapidez; seu corpo é uno, íntegro, não tem partes e complicações como o dos humanos. Não tem pelos nem penas,  é fria, ovípara.

URÓBORO
Na serpente, o caos e o cosmos coincidem, razão pela qual o homem criou o uróboro, o monstro que engole a própria cauda, uma representação da vida como repetição sem fim, uma representação que se confunde com o próprio círculo zodiacal. É neste sentido que o corpo da serpente é a grande metáfora do ciclo do eterno retorno. É por essa razão que a serpente simboliza no ser humano aquilo que ele menos controla em si mesmo, aquilo que para ele é mais misterioso, obscuro, incompreensível. A serpente é um desmentido da individualidade do ser humano, da ilusão da sua verticalidade como signo distintivo com relação aos demais seres do universo. Na serpente tudo é simples, direto e objetivo. Tudo nela é funcional. Nada é acessório, supérfluo ou ornamental, tudo está organizado para lhe dar a maior eficiência nas funções que lhe são próprias e que desempenha com domínio perfeito. Tudo muito diferente se a compararmos ao ser humano, que, risivelmente, se orgulha da sua racionalidade, como o fim de um processo genético evolutivo, desmentida a sua racionalidade a cada momento da sua dolorosa existência.

Na perspectiva do que acabei de expor é que a Astrologia hindu (Jyotish), a que melhor explica este arquétipo, associa a serpente aos mitos cosmogônicos da Índia. A grande Hydra para os hindus é Sesha, conhecida como Sesha-Naga, divindade tutelar das regiões
VISHNU  E  LAKSMI  NA  SESHA-NAGA
infernais conhecidas como Patala. Sesha é representada como uma serpente monstruosa com mil cabeças, formando ela o leito e o dossel de Vishnu quando ele descansa durante o intervalo entre uma criação e outra. Em muitas representações, aparece como sustentáculo do universo criado, uma espécie de ancestral mítico, sendo, por isso, responsável pelos abalos e tremores que a Terra suporta. No fim de cada kalpa (período cósmico), Sesha vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Quando os deuses resolveram criar o universo, Sesha foi usada como instrumento (uma forma espiralada à volta do monte Mandara) para batimento do oceano primordial, a fim de que as terras emergissem. Sesha é às vezes chamada de Ananta, A Infinita, como símbolo da eternidade.




DEUSA   MÃE   DO   EGEU
A serpente e a mulher sempre apareceram associadas nas religiões e nos mitos. Ambas se ligam às águas, à terra e às suas profundezas, estando na base de tudo, sendo portanto causais e atemporais. A serpente é alma e libido (kundalini) ao mesmo tempo. Nas civilizações do mar Egeu encontramos, em Creta, na antiguidade, o culto da adoração das serpentes pelas mulheres.    
                                                                              Não é também por 
CIRCE
( J.W. WATERHOUSE )
outra razão que muitas divindades femininas gregas, monstruosas, têm serpentes no lugar cabelos, as Erínias, a Medusa, as Keres etc. O encantamento de serpentes tem as suas maiores sacerdotisas em Circe e Medeia. Cleópatra, lembremos, era chamada de A Serpente do Nilo. A história de Laocoonte, sacerdote de Apolo Timbreu em Troia, e de seus filhos, mortos por serpentes,  é outra ilustração do tema aqui desenvolvido.  

Os judeus ligam a serpente à inveja. Na tradição judaica, a serpente bíblica era o rei dos animais, muito astucioso, que falava e que caminhava ereto sobre duas pernas. Percebeu que os anjos tratavam
ADÃO  E  EVA ( RAFAEL )
Adão muito bem e, por isso, teve ciúmes dele. A inveja tomou totalmente o seu coração quando viu Adão e Eva se relacionando sexualmente. A tradição bíblica nos revela que por instigação de Samael, o príncipe das trevas (Sitra Achra), a serpente persuadiu Eva a não só comer o fruto proibido como a seduziu, unindo-se a ela, nela injetando a sua peçonha. Por causa dessa relação, os descendentes de Eva também têm a peçonha em seu corpo (pecado original). Essa peçonha só foi removida do povo de Israel quando recebida a Torá. Os gentios, porém, segundo os judeus, nunca conseguiram se ver purificados da peçonha da serpente. 

Em todas as latitudes e longitudes, a serpente é sempre a personificação de um poder misterioso, de vitalidade e de força infinitas. Nas tradições populares, folclóricas, no interior Brasil, uma serpente cortada ao meio será sempre duas serpentes. Consta também para essa tradição que jamais ela será encontrada morta, insensível ou incapaz. Só morrerá se a matarem. Tanto simboliza o
ANEL  
Mal como a Sabedoria. Traços mais ou menos evidentes de ofiolatria são encontrados no mundo todo. Divindades ofioformes aparecem como protetores das fontes, de lagoas e lagos, representando a fecundidade da terra, da sua força geradora, dos segredos herméticos, do infinito. Como motivo religioso e artístico, vivem em ânforas, moedas, medalhas, esculturas, camafeus, baixos-relevos etc. 

Símbolo diabólico, da tentação do mal, é o único animal que pode resistir às fórmulas exorcistas católicas (Adjuro te, serpens antiqua). Do mundo ibérico veio para as Américas (Brasil especialmente) a história de que a serpente, quando entra na água, deixa o veneno em terra, não produzindo mal algum se picar alguém dentro da água. Quanto à mulher, dizem-nos as tradições populares, se estiver em estado interessante, ainda que picada pela serpente em terra, nada sofrerá a mulher. Deus preserva a mulher do perigo para que não morra com ela o inocente pagão que traz nas suas entranhas.  

SÃO  BENTO  ( FRA  ANGELICO )
Mais da tradição popular: a mulher que, ao se encontrar com uma serpente, virar o cós da saia, dizendo: estás presa por ordem de São Bento, que é o advogado contra os ofídios, imobiliza-a, deixando-se a serpente matar sem resistência. Como diz a lenda, os ofídios e os animais daninhos são de criação demoníaca. Quando Deus, ao quinto dia da criação do mundo,  fez os animais domésticos, e todos os répteis da terra, cada um segundo a sua espécie (Gênesis), Satanás, invejoso dessas maravilhas, pediu-lhe licença para fazer também os seus bichos. Anuindo Deus ao seu pedido, abusou o Anjo Mau da graça concedida, e criou os ofídios e todos os animais daninhos e nocivos ao homem. 





A constelação da Hydra é a mais larga do céu (10ºN-36ºS), permanecendo com a mesma configuração desde tempos pré-históricos, não tendo sofrido nenhuma alteração desde essa época. Estende-se de 5º de Leão a  23º de Escorpião. Para Ptolomeu e para a maior parte da tradição astrológica, Hydra atua através de influências saturninas e venusianas, o que evidentemente é incongruente quando todos os registros nos falam muito mais de influências marcianas: envenenamentos, mordidas venenosas, raiva, ataques, picadas, maus tratos de mulheres etc. Realçada a constelação num mapa astrológico, podem aparecer, não com a ênfase das influências apontadas, desejo de conhecimentos superiores e alguma habilidade artística, musical. 

Sua principal estrela é Alphard, alfa, de 2ª magnitude, a 26º 35´ de Leão, conhecida como Cor Hydrae (O Coração da Hydra). O nome em árabe é Al Fard al Shuja (A Solitária). A influência desta estrela é nitidamente marciana, lembra crime violentos, falando-nos tanto de agressores como de vítimas, de explosões emocionais, de sentimentos fortes, de energias intensas, que podem, contudo, dependendo da sua posição e relações,  tomar um caminho menos
WILLIAM   BLAKE
conturbado e até evolutivo, lembrando muito Algol. Um exemplo desta última hipótese pode ser encontrada num tema como o de William Blake (Alphard ascendendo e Júpiter, dispositor e em conjunção com o Sol, indo em direção do Nadir. Outro mapa poderia ser o de Agatha Christie, uma escritora de romances policiais, onde temos Alphard ascendendo e se encaminhando para o zênite.