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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

AQUÁRIO (2)


HAPI
No Egito, o signo de Aquário aparecia associado ao rio Nilo, o “rio azul”. Lembremos que o nome Nilo vem dos gregos (neilos) e é encontrado no sânscrito como adjetivo, nila, azul. Do latim, nilus, passou para o árabe e para o português, como o temos,por exemplo, na palavra anil. O rio era divinizado pelos egípcios quando de suas enchentes, sendo chamado então de Hapi. Representavam-no por uma figura antropomorfizada, obesa, com grande ventre, com seios pendentes, desenvolvidos como os de uma mulher, o que lhe dava um aspecto andrógino. Vestido como um barqueiro, às vezes como um pescador, usava Hapi uma coroa de plantas aquáticas na cabeça (lótus se representado no Alto Egito, papiro, no Baixo Egito). O deus Hapi era aquele que nutria, que alimentava o país e os próprios deuses; morava na primeira catarata do rio, numa ilha, de onde derramava de suas ânforas a água que iria abastecer o céu e depois a terra.

Autogerado, Hapi era chamado de Único, acreditando os egípcios
NUN
que ele saía do Oceano primordial, o Nun, que envolvia a Terra, do qual Hapi era uma forma secundária. Nun guardava todas as formas possíveis, as positivas e as negativas, e dentro dele se manifestou o demiurgo. Nun era considerado o deus das origens na cosmogonia heliopolitana. Em Hermópolis, era um dos quatro princípios masculinos, representando o infinito líquido, associado à sua contrapartida feminina, Nenet. Rodeando o mundo visível, ele esta na origem das enchentes. É da profundeza de suas águas que no final dos tempos sairá um demiurgo para nos proporcionar um novo ciclo de vida.  


HERMÓPOLIS  ,  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO

Já os devotos da deusa Ísis davam outra interpretação às cheias do Nilo, que começavam em meados de junho. Afirmavam eles que tal acontecimento se devia às lágrimas da deusa, chorosa pela morte de
OSÍRIS
Osíris, assassinado por seu irmão gêmeo Seth. Qualquer que seja, porém, o aspecto religioso privilegiado, o que se sabe é que, além de muitas oferendas, cânticos e poemas sempre haviam sido entoados e recitados às margens do rio desde tempos muitos remotos para que as águas atingissem um ponto ideal quando das enchentes de modo a proporcionar a máxima fertilidade paras terras vizinhas, mais ou menos a 20 km. de ambas as margens do rio,  Deste ponto ideal dependia anualmente a prosperidade ou a infelicidade do povo egípcio. Quando gregos e romanos ocuparam o país, a referida altura, para que a almejada fartura das colheitas fosse obtida, estava fixada em mais ou menos dezesseis côvados, quase onze metros.  

Lembremos que o deus Hapi, apesar de muito reverenciado,  nunca chegou a fazer parte de qualquer sistema teológico no Egito. Nos templos, ele exercia uma função doadora, para outros subalterna, sendo uma espécie de auxiliar dos grandes deuses, oferecendo-lhes o produto de suas águas. Neste sentido, a função de Hapi lembra muito a de Ganimedes como escanção dos deuses do Olimpo grego. Muito representado na escultura religiosa do país, Hapi atuava juntamente com as divindades do mar, dos grãos, do florescimento do mundo vegetal, das oferendas e, de um modo geral, dos que de algum modo proporcionavam bem-estar e felicidade.  

Na mitologia egípcia, os deuses sempre mantiveram uma relação muito difícil com o mar, com as suas enormes extensões de água salgada que muitas vezes se tornavam perigosas quando ventos e tempestades vindos da massa líquida marinha se abatiam sobre a costa. Na verdade, o alto-mar para os egípcios sempre representou uma região de acesso muito difícil, pois era preciso atravessar, para atingi-lo, as zonas instáveis do delta do rio, zonas pantanosas, perigosas, que lembravam sempre a sofrida peregrinação de Ísis em busca de seu amado Osíris. Contudo, se os extensos pântanos significavam por um lado proteção contra ataques externos, por outro desestimulavam tentativas de atravessá-los, uma alternância com a qual os egípcios tiveram que conviver por milênios.


ÍSIS

Desde tempos imemoriais se falava no país de uma força poderosa, desconhecida, que aterrorizava os pescadores que iam além do delta do Nilo, uma força que atacava e destruía barcos e homens, ninguém sobrevivendo. Era o deus dos mares, que, às vezes, avançava sobre as terras da região do delta; ora era o gado, criado nessas regiões, levado pelas águas; noutras ocasiões, pequenos vilarejos eram destruídos e cadáveres apareciam presos às raízes das plantas dos pântanos. Os rumores se multiplicavam, o temor tomava conta de todos que viviam na região. 

A afirmação dos antigos ganhou corpo com o tempo: falava-se que um monstro de nome Yam, vindo das profundezas marinhas, andava à noite pelo delta, acompanhado de crocodilos e hipopótamos. Uma boa parte da mitologia egípcia registra com ênfase a luta entre o deus Hapi e os agentes monstruosos do deus marinho, todos relacionados, sob o ponto de vista astrológico, com os dois últimos signos zodíaco.


PROTEU
Quanto aos gregos, lembremos, desde Homero, atribuíram eles inicialmente a um deus chamado Proteu (o primeiro gerado, o que vem antes, etimologicamente), cujo apelido era O Velho do Mar, a tutela dos mares gregos e egípcios. Sua residência ficava numa ilha arenosa, Pharos, situada na costa do delta do rio Nilo. Proteu era uma divindade dotada de poderes oraculares, exercendo também a função de pastor de
PTOLOMEU FILADELFO
rebanhos de animais marinhos (focas e outros). Não gostava de ser incomodado nem consultado, evitando sempre os inoportunos. Fugia deles, tomando a forma de qualquer animal marinho ou simplesmente se transformando em água ou fogo. No ano de 300 aC, Ptolomeu Filadelfo, rei do Egito, mandou construir na ilha de Pharos, diante de Alexandria, uma torre de mármore branco de 180 m. de altura. Esta notável edificação, uma das sete maravilhas do mundo, guiava os navegantes à noite, graças a fogueiras que eram mantidas permanentemente acesas no seu topo.



GEIA  E  FILHOS
Proteu era também chamado pelos gregos de Nereu (o que vive mergulhado, etimologicamente), pai das nereidas, ninfas do mar, tendo sido gerado pela união de Pontos e de Geia, esta última a Grande-Mãe Terra. O primeiro mencionado, cujo nome lembra caminho, lugar por onde se transita, representa no mito grego, como sabemos, a primeira concepção do mundo marinho, ou melhor, da energia que há no elemento líquido oceânico e passa por ter sido o pai também de, além de Nereu, de Taumas (O Maravilhoso), Fórcis (O Branco, no sentido de encanecido), Ceto (A Baleia) e Euríbia (A de Grande Força Vital), entidades marinhas. 

Os gregos, através de seus primeiros escritores, poetas ou não, como Homero, Hesíodo e Heródoto, sempre consideram o oceano
OCEANO , MOSAICO  ROMANO
como um imenso rio que fluía em torno da Terra. Na sucessão das divindades que o tutelaram, depois das  entidades primordiais acima mencionadas, aquele que melhor representou a massa circular líquida que envolvia a Terra, como um rio-serpente, foi o deus Oceano, o filho mais velho de Urano e de Geia, um titão, portanto. Sempre considerado como extremamente cordato e acessível ao se relacionar, Oceano, unindo-se a Tétis, símbolo do poder gerador das massas oceânicas, tornou-se pai das Oceânidas, as ninfas dos oceanos e mares, e de inúmeros rios que atravessa a Terra. Dentre os mais importantes filhos de Oceano, destacamos, segundo os gregos (Hesíodo), os rios Nilo, Aqueloo,  Alfeu, Erídano, Peneu... 

DEUCALIÃO  E  PIRRA
Antigos povos da Mesopotâmia, como os babilônicos, principalmente, associavam o signo de Aquário ao décimo-primeiro mês do seu zodíaco, Shabatu, palavra que tem o significado de Curso das Águas da Chuva. Na Grécia, é de se notar, o signo antes de ser associado a Ganimedes, aparecia ligado a  Deucalião, filho de Prometeu e de Clímene, herói que se salvou do dilúvio enviado por Zeus. Etimologicamente, o nome Deucalião lembra mergulho, imersão no elemento líquido. Casou-se com Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora. 

OVÍDIO
Desgostoso com o comportamento dos heróis da Idade do Bronze, descontrolados, que viviam atolados no vício e no crime, Zeus resolveu, como diz o poeta Ovídio, castigar todos os homens, afogando-os nas águas de um dilúvio. Salvou-se o casal Deucalião e Pirra, que fundou um reino e, com os seus filhos e descendentes, repovoou a terra, criando uma nova humanidade.
  
Entre os latinos, certamente por influência grega, quando Ganimedes já havia substituído Deucalião como representante mítico do signo, surgiram, para designar Aquário, além de Ganimedes, naturalmente, nomes como Amphora, Junonis Astrum (Astro de Juno, esposa de Júpiter), Jovis Cynoedus ou Cinaedus  (Favorito de Júpiter), Puer Iliacus (Garoto de Ilion, Troia), Puer Aquilae (Garoto da Águia).  


AQUÁRIO
Na tradição ocidental, pela via latina, fixou-se o nome Aquarius, para o décimo primeiro signo zodiacal. Aquarius, em latim, lembre-se é tudo o que concerna à água, servindo a palavra para designar também tanto aquele que tem a função de transportar água como o que trabalha como inspetor encarregado da supervisão das águas. Note-se ainda que os franceses adotaram para designar o signo a palavra Verseau, hydrokhoeus, em grego. vertedouro, o que derrama  água.

Diante do exposto, acredito que fique fácil entender porque os antigos associaram essa região do zodíaco à água, região conhecida em antigas astronomias pelo nome de Mar. Para representar essa região nos céus, os antigos utilizaram uma onda, que era o hieróglifo egípcio da água, elemento que põe tudo em comum, que apaga as fronteiras, ligado alquimicamente à solutio. É por esta razão que o signo que ocupou esta região do céu sempre foi considerado com aquele em que o ser humano transcende a sua individualidade e a sua vida social para se integrar a humanidade.

O acesso a esta transcendência, entretanto, terá que ser feita atrvés do elemento ar. Ou seja, é pelo despertar de sua consciência coletiva que o homem compreende que ele é também a humanidade. É por isso que este signo faz quadratura (conflito) com os signos de Touro (a matéria) e com o signo de Escorpião (a metamorfose) e faz oposição ao signo de Leão (o ego). 

Fixando-nos mais na tradição que nos vem da Grécia, não podemos deixar de considerar inicialmente que as relações entre o signo de Aquário e Urano, estabelecidas desde a descoberta desse astro em fins do séc. XVIII, confirmaram todas as aproximações anteriormente feitas entre mitologia e astrologia. Melhor, não só confirmaram como permitiram que o homem entrasse em contacto com dimensões desconhecidas da sua interioridade e do universo, ampliadas mais tarde com a descoberta de Netuno (meados do séc. XIX) e Plutão (década de 1930).


SISTEMA   SOLAR

Se os  planetas visíveis a olho nu até Saturno dizem respeito mais diretamente à evolução física e moral do ser humano individualmente considerado, os três  planetas invisíveis ao olhar humano (Urano, Netuno e Plutão), situados além de Saturno, dizem mais respeito à sua sua interioridade, à sua vida subconsciente, e afetam sobremodo a humanidade como um todo. 

Foi, aliás, por essa razão que os planetas transaturninos foram considerados como a oitava maior de Mercúrio (Urano), Vênus (Netuno) e Marte (Plutão). Quando, na música, dizemos que uma nota está uma oitava acima da outra isto significa que a nota é a mesma, situada porém numa região mais aguda do instrumento. Tome-se o caso de Mercúrio, planeta que numa carta astral descreve como funciona a mente de uma pessoa. Urano, como sua oitava maior, nos descreverá outros tipos de vibração mental, de natureza mais evoluída, que vão além de Mercúrio. É neste sentido, por exemplo, que Urano é considerado como o planeta da intuição, um conhecimento imediato, instantâneo, ao qual se pode chegar sem necessidade das demonstrações que a mente normal precisa para a ele chegar, se é que consegue. É a intuição uma apreensão que se parece muito com o conceito filosófico do Zen, o satori, que se pode traduzir como compreensão profunda e imediata, iluminação.

HESÍDIO
Conforme nos conta Hesíodo em seu poema A Teogonia, Urano era o nome que os gregos davam ao céu estrelado. Nascido de Geia por partenogênese, sem o concurso de qualquer divindade masculina, gerado por ela em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cobrisse, como está no poema, Urano passou a fecundá-la e ela pôs no mundo vários filhos, divindades e monstros, os titãs, os Cíclopes e os Hecatônquiros.

O relacionamento entre Urano e seus filhos, como se sabe, sempre foi difícil; os filhos produzidos por ele e Geia formavam no seu todo uma prole anárquica, revoltada, perigosa, desmesurada; seu comportamento era espasmódico, imprevisível, oscilando todos entre entre estados de grande exaltação e de profunda depressão. Urano tinha tanto horror dos seus filhos, tão pouco gratificantes para o seu amor-próprio, que não hesitava em lançar uns no Tártaro, encerrando-s na camada mais profunda do inferno, ou obrigar Geia a reabsorver outros.

Levando a um paroximismo incontrolável a sua função procriadora, sempre debruçado sobre Geia, fecundando-a incessantemente, Urano jamais deu ouvidos às suas queixas. Inconformada, ela chamou seus filhos à revolta com a finalidade de dar fim à prepotência de seu filho-amante. O único que a atendeu foi Kronos, o caçula; Geia lhe forneceu-lhe então uma foice de silex com a qual ele investiu contra o pai e o castrou. Dessa castração, do contacto da genitália de Urano lançada ao mar com a sua espuma (aphros, em grego), tudo em meio a sangue e secreções, nascerá Afrodite, deusa do amor.

Parece não haver dúvidas de que o papel representado por Geia na castração de Urano foi inspirado por aquele que Cibele, deusa frígia, como Grande-Mãe, desempenhava  na mitologia dos povos do oriente-próximo. Até onde se sabe, foi no culto de Cibele que se encontrou o primeiro ritual de castração masculina devidamente registrado.


CASTRAÇÃO   DE   URANO


CIBELE
Esta história apresenta algumas versões, parecendo-nos a mais aceitável a mais antiga, a greco-oriental, que nos apresenta Atis, deus anatólio da vegetação, servidor a amante de Cibele, mãe dos deuses, dos humanos, dos animais e da vegetação selvagem. Grande-Mãe, Cibele se situa entre as maiores divindades da fertilidade do mundo antigo. Montada num carro puxado por leões,  símbolo de seu poder, ela possui uma chave com a qual abre as portas da Terra onde estão encerradas todas as suas riquezas. Seu culto se espalhou pelo Mediterrâneo, alcançando Roma, onde era apresentada majestosamente com pequenas torres numa coroa  que ostentava na sua cabeça, emblemas das várias cidades que protegia. 

CIBELE   E   ATIS ( ANGELO MONTICELLI , 1778 - 1837 )

Seus cultos, no oriente, eram de natureza orgiástica, neles se encaixando a história de Atis. Amado pelo hermafrodito Agdistis e não podendo a ele se unir, por sua dependência de Cibele, Atis enlouqueceu, e se mutilou, castrando-se (emasculação), numa das festas da Grande-Mãe, realizadas anualmente. Ovídio, muito mais tarde, retomou a história de Atis, da sua castração, eliminando, porém, a sua ligação com Agdistis.  Atis passou,  a partir dessa versão, a ser considerado  como um deus da vegetação que morria e renascia anualmente, um representante da chamada fecundidade pela morte.

Considerando o que até agora foi expôsto com relação a Urano não será preciso muito esforço para se perceber, mesmo para os que não se aventuraram na caminhada astro-mitológica, o quanto o filho amante de Geia pode se insinuar, como poderoso arquétipo na personalidade de muitos daqueles que a astrologia chama de aquarianos. Realmente, Urano, como deus do céu, além de outros excessos, parace apresentar, quando analisado mais de perto, como característica principal, uma incontrolável e anárquica criatividade, a personificação de uma fecundidade que não conhece limites.

O mito nos revela que Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, que a fazia reabsorver os filhos que gerava, resolveu libertar a sua prole. Pediu que os filhos a auxiliassem. Todos se recusaram, com exceção do caçula, Kronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Kronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava para mais uma vez se deitar sobre Geia, Kronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe, com a sua foice, a sua genitália.

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e ele um espaço que nunca mais voltaria a desaparecer. Essa façanha de Kronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. Desde então, a foice, como símbolo, associou-se às colheitas e à morte, aparecendo como um atributo das divindades agrícolas, cujo melhor exemplo pode ser encontrado no deus Saturno, dos povos latinos.


NUT 

Astrologicamente, foi atribuída a Urano, o planeta mais excêntrico do sistema solar até então conhecido (excentricidade até hoje não contestada), a tutela da constelação de Aquário, pelas seguintes razões, em função das influências que exerce sobre o nosso planeta e a vida humana: essencialmente, Urano é variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, excitante (mania, no sentido grego), explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista (utópico), original, inédito e estéril.

Através dos adiante nomeados traços de personalidade, que destacamos, a influência uraniana costuma ser traduzida pelos seguintes comportamentos:  desmesurado impulso criador; peculiaríssima originalidade, caracterizada pela autossuficiência; excessos individualistas;  forte inclinação à independência (ação reflexa do singno oposto, Leão), alimentada muitas vezes por uma absoluta falta de compromisso ou de concessões com relação ao meio em que vive; obstinada cosmovisão; lógica e ética únicas, base de um comportamento que leva invariavelmente o tipo aquariano mais comum a não querer pertencer a “nenhum rebanho”. 

Lembro que a união de uma Deusa-Mãe com um Filho Amante é um modelo muito repetido nas primeiras fases de várias mitologias, uma forma incestuosa de relacionamento que nesses tempos primordiais terminava via de regra tragicamente, encontrando-se um de seus melhores exemplos, atualizado, na história do infortunado Édipo. 

EVA
( L.L.DHURMER, 1865 - 1953 ) 
O ímpeto criativo de Urano, talvez a sua característica mais marcante, costuma gerar, em muitos casos, o melhor e o prior através de inventos e formas, individual ou coletivamente.  É neste sentido que Aquário é o signo do demiurgo, do inventor, daquele que vai também rejeitar muitas vezes (sempre?) a sua própria criação, como Urano o fez com seus próprios filhos e como, entre os judeus, Javé, valendo-se da sua criatura masculina, fez com a mulher, Eva. 

Dentro deste contexto é que podemos estabelecer a analogia entre a inesgotável capacidade criadora do Céu Estrelado e a ação aquariana superior de caráter científico, tecnológico ou artístico, uma fantástica capacidade criadora nem sempre coerente e muitas vezes inconsciente, quanto aos efeitos maléficos daquilo que foi criado, poderia produzir. São estas considerações, a meu ver, que atualmente, diante do surto inventivo que tomou conta da humanidade a partir de fins do séc. XVIII, se nota nos países mais influenciados pelas características aquarianas, características que precisam ser trazidas à discussão para se questionar a responsabilidade dos inventores, forçando tais países a que se conscientizem e interroguem sobre os efeitos deletérios de sua  própria criação. 





terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO (I)


Dentre os planetas gigantes do sistema solar, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, este último é o menor deles. Tem dezessete vezes a massa da Terra. Seu diâmetro equatorial é de aproximadamente 50.000 km. Sua rotação (dia) é de pouco mais de 16 h, alcançando a sua inclinação axial cerca de 30º. O passo médio anual de Netuno é de 2º 30´, sendo a sua translação zodiacal de mais ou menos 164 anos (de 12 a 14 anos em cada signo). O ano netuniano equivale a 59.743 dias terrestres.

                                       

A atmosfera de Netuno é composta basicamente de hidrogênio e hélio, com padrões climáticos muito ativos. Ele é conhecido por ser o planeta com os ventos mais fortes do sistema solar, que chegam a alcançar a espantosa velocidade de 2.100 km por hora. Já na sua alta atmosfera encontramos temperaturas de – 218º, sendo um dos mais frios do sistema solar.

Pela sua distância média com relação ao Sol, de 4.480 bilhões de km., é totalmente invisível a olho nu. Observado pelos mais poderosos telescópios, dele só se percebia a sua forma esférica, de um verde desbotado, com regiões polares embaçadas e com uma faixa mais clara em torno do seu equador. Mais detalhadas informações sobre Netuno foram obtidas pelo programa Voyager, criado a partir dos anos 1970. Esse programa, nos anos 90, permitiu inclusive que as sondas do Voyager saíssem da Heliosfera, alcançando a região conhecida por Helioheath, além de Plutão.

                                           
  
Descoberto Urano no final do séc. XVIII, como vimos, a definição de sua órbita se tornou muito difícil, devido às irregularidades que apresentava em sua caminhada pelo zodíaco. Nos primeiros anos da década de 1840, alguns astrônomos chegaram à conclusão de que um planeta invisível deveria ser a causa dessas irregularidades. As perturbações constatadas na marcha de Urano só poderiam ser atribuídas a um vizinho desconhecido. Quem fez os cálculos para se se chegar a essa conclusão foi o astrônomo e matemático francês Urbain Le Verrier. A partir de então outros astrônomos, franceses e ingleses, encontraram Netuno, surgindo uma grande controvérsia (inclusive com lances de roubo de documentos) para se creditar a descoberta a um deles.

O que se tem de concreto, como se constatou, é que Le Verrier, no dia 23 de setembro de 1846, sem avistar o planeta, definiu, através de cálculos, a posição exata de Netuno. Alguns astrônomos sugeriram que o novo astro passasse a ser chamado de Janus; outros optaram pelos nomes de Oceano, Leverrier ou Netuno, adotando-se finalmente esta última designação.

TRITÃO
       No mesmo ano de 1846, poucos dias depois da descoberta de
Netuno, um astrônomo inglês, William Lasswell, descobriu o seu principal satélite, Tritão, com 2.700 km. de diâmetro. Com os dados enviados pelo telescópio espacial Hubble recentemente, sabe-se hoje que Netuno possui anéis e tem 13 satélites (luas)
TRITÃO - FONTE DE ROMA
conhecidos, nove deles já batizados e quatro aguardando confirmação e designação. Como curiosidade, saliente-se que quatro das luas de Netuno têm marcha retrógrada, destacando-se, dentre elas, Tritão, a maior, como se disse.

Sob o ponto de vista astrológico, cada astro que transita por um dos signos zodiacais introduz um dado energético numa infinita rede de relações que se aplica tanto a um tema astral individual como a um tema coletivo, a um país e ao nosso planeta como um todo. Para entender isto é preciso ter em mente que a Astrologia não consiste em se saber algo por acumulação de dados, mas, sim, dentro de um conjunto relações. Os dados que nos são oferecidos, além de inúmeros, incontáveis, modificam-se mutuamente.

Por isso, para que possamos avançar um pouco na prática astrológica torna-se necessário, acima de tudo, entender o que seja o pensamento analógico. Sem ele somos incapazes de perceber a relação de semelhança que há entre coisas ou fatos do universo.

SOL
Assim, é com base no pensamento analógico que podemos entender, por exemplo, que ao astro mais“poderoso” e centro do nosso sistema planetário, o Sol, corresponde no ser humano à função psicológica mais forte, a vontade; a ele, o Sol, corresponde também o defeito de caráter mais forte, o orgulho. O órgão mais “forte” do corpo humano no plano fisiológico, o coração, é representado também pelo Sol. O personagem familiar mais “forte” (ainda?), o pai ou o marido, é simbolizado pelo Sol. Não é por acaso que em todas as tradições religiosas patriarcais, o Sol sempre foi adotado como o grande símbolo da divindade mais “forte”.

                                  
CONSTELAÇÃO DE AQUÁRIO (SÍMBOLO)
 Nesta perspectiva, foi possível se estabelecer um conjunto de analogias simbólicas entre os planetas, os signos zodiacais, os deuses, os elementos, os metais e as suas cores, velocidade, tamanho etc. Assim, Netuno terá relação elementar com a água (é muito úmido e ligeiramente quente, como Vênus), sendo seu domicílio o signo de Peixes e seu exílio o  de Virgem. Sua exaltação e queda estão, respectivamente, em Leão e Aquário. É de se registrar que em algumas tradições astrológicas a exaltação de Netuno se dá em Aquário e a sua queda em Leão.
                                                  
Numa tentativa de resumir a natureza particular de Netuno, apontando as suas possibilidades significativas essenciais, podemos considerá-lo como: sensitivo, fértil, inconstante, estetizante, neurótico, psicótico, eufórico, comatoso, mediúnico, complicado, inspirado, escapista, insidioso, desditoso, mortificante, evasivo, difuso, caótico, infiltrante, permeável, empático e receptivo.

Adicionar legenda
Netuno governa as plantas usadas como tóxicos (maconha,  coca, papoula, erva-do-diabo, peiote etc.), além dos cogumelos alucinógenos. Tem ele a ver também com todas as bebidas enteógenas e, associando-se à Lua, com as ervas e plantas usadas na feitiçaria. São de Netuno ainda os anestésicos e os venenos, além dos anticorpos, o líquido amniótico e a vida fetal.


Netuno tem sintonia natural, com o azul-esverdeado (cores), com
ÁGUA MARINHA
o agridoce (sabores), com nuvens, fumaça, abstrações (formas), com peixes, anfíbios e aves marinhas (animais), com a platina, a água-marinha, o topázio e o petróleo (minerais), com algas, líquens e musgos (vegetais), com os pés (corpo físico). Lembremos que  Leonardo da Vinci, na Última Ceia, representou o sígno de Peixes, governado por Netuno, por Bartolomeu, o de pés iluminados, último à esquerda no famoso afresco.

 
A astralidade netuniana predispõe a uma constituição úmido-fria, aquosa, glandular, delicada. Quanto ao temperamento, temos o linfático, o hipersensível, o mediúnico. Quanto ao caráter, o romântico, o esteta, o utopista, o universalista, o caritativo.

Netuno exerce profundas influências sobre as tendências idealistas do ser humano, impelindo-o à busca de contactos espirituais, ativando a sua imaginação e as suas faculdades paranormais. Inclina-o à investigação mística, à criatividade artística abstrata, sobretudo aquilo que não pode ser traduzido por palavras, razão pela qual é o mais musical dos planetas.

No plano social, é um planeta que concerne mais à coletividade que ao individual. Encarnando a
plasticidade que tende a se exteriorizar em imaginação, intuição, mediunidade ou perturbações psiquicas, incita, num tema pessoal, à transcendência, ao rompimento de limites e ao apagamento das formas e das fronteiras, predispondo às ilusões, às utopias e às miragens. Pode dotar o tipo humano em que é dominante de uma insaciável curiosidade, muitas vezes ilimitada e fecunda em projetos. Predispõe também às viagens, à busca de paraísos artificiais pelo álcool, pela droga ou por transportes artísticos e místicos.


ÍNDIA: JAINISTAS
Com Netuno, a sensibilidade tende sempre ao hiper, caracterizando-se ela muitas vezes por umatendência à fusão que pode levar à confusão, à perda de identidade. Esses estados se traduzem sempre pelo gosto do inominável, do indescritível, do infinito, predispondo espontaneamente a uma natureza artística e/ou espiritual. Nos tipos humanos mais espiritualizados pode levar a um natural movimento de libertação do ego para que seja possível a sua adesão a estados de participação mística.


VÊNUS
Embora os princípios de Netuno já fossem conhecidos através da mitologia, a sua descoberta permitiu que as suas influências passassem a ser percebidas arquetipicamente. Em primeiro lugar, porque logo se constatou que Netuno era a oitava mais elevada de Vênus, cujas emanações diziam respeito à reciprocidade na vida afetiva. Vênus fala de união, do equilíbrio dos elementos masculinos e femininos em toda a criação. Vênus pede trocas, dá seu coração, mas quer o do outro. Já Netuno não ama de um ponto de vista pessoal, mas a partir da plena doação. Com Netuno não há exigências de recompensas nem cobranças na vida afetiva. Há sempre uma ideia de generosidade que pode se traduzir em compaixão, mecenato, patrocínio incondicional, caridade indiscriminada.

Lembre-se que Júpiter é o segundo regente do signo de Peixes, o chamado regente noturno, um planeta quase tão fértil como Netuno. Júpiter é expansão, dilatação, extroversão otimista; nos tipos superiores aponta para uma inserção do ego em planos superiores de existência através de valores culturais, legais ou religiosos. Netuno, por sua vez, vai além, fala muitas vezes da perda da individualidade, da abolição de fronteiras individuais, de participação comunitária compassiva e anônima, dissolvendo ou dilatando o ego ao extremo a ponto de ele desaparecer.

É pelo exposto acima que defendemos a exaltação de Netuno em Leão, pois o amor sacrificial que ele propõe é muito diferente do amor solar ligado à quinta casa (Leão). Netuno fala de um amor oblativo (oblativus, em latim, o que se oferece espontaneamente). Oblato, lembre-se, é o leigo que se oferece voluntariamente para trabalhar numa ordem religiosa, entregando-lhe muitas vezes os seus bens.
                                             
MERCÚRIO

 A fusão netuniana não é mensurável nem lógica, razão pela qual Mercúrio, símbolo da inteligência aplicável à vida quotidiana e aos instrumentos e técnicas nela usados, está exilado no signo de Peixes, governado por Netuno. Por isso, para o homem comum, os místicos e os adeptos são loucos.

A maior parte das pessoas que tem um Netuno dominante em seus temas não consegue, contudo, viver no plano do amor-doação como ele propõe. Daí a influência netuniana ser sentida como sacrifício, mortificação, confusão, caos, pois falta invariavelmente às pessoas que o experimentam dessa forma uma vontade firme e vigorosa para vivê-lo superiormente. Por isso, para a maioria, não há outro caminho senão o escapismo, a evasão, a fuga das responsabilidades terrestres, a tentação do mergulho no álcool e nas drogas. Ou então o cultivo das fantasias, a tentação dos disfarces, a fraude e a autoindulgência.

A grande plasticidade psíquica dos netunianos pode empurrá-los para uma fusão com a humanidade, uma fusão que os leve a viver muitas vezes de modo mais idealista que com os pés na realidade. Sempre presente quando essas tendências se impõem o perigo do mutante, do insidioso, do incerto, deixando a alma inquieta, convidando à busca de outra aventura, de outras terras, de outras ilhas, do que está mais distante,  um impulso  sempre curioso, experimental e transcendente que costuma se perverter facilmente.

Netuno tem muito a ver com o gênio artístico, a fé, a religiosidade e o misticismo. Enquanto Júpiter nos propõe longas viagens físicas, mentais ou espirituais, Netuno também no-las oferece, mas só que em nível psíquico e emocional. Muitos, quase sempre, experimentam a força de Netuno com  resignação, vivendo-o como destino, como uma rendição masoquista ao destino.

EREMITA
Netuno associa-se a ideias de reclusão, isolamento e privacidade (as ilhas, os continentes perdidos são dele); é enigmático, muitas vezes labiríntico, decepcionante. Ele mostra geralmente o lugar onde corremos o risco de nos enganar e onde podemos ficar sozinhos, muitas vezes perdidos, o lugar em que um grande sacrifício pode ser exigido de nós. Por isso, toda submissão voluntária e inteligente, consciente, pode ser considerada como um hino de louvor a Netuno. Não é por acaso que em algumas tradições astrológicas de fundo religioso o lema netuniano é: “Servir ou sofrer”.

Numa tentativa de resumir a natureza particular de Netuno, apontando as suas possibilidades significativas essenciais, podemos considerá-lo como: sensitivo, fértil, inconstante, estetizante, neurótico, psicótico, eufórico, comatoso, mediúnico, complicado, inspirado, escapista, insidioso, traiçoeiro, desditoso, mortificante, evasivo, difuso, caótico, infiltrante, permeável, empático, receptivo.

A descoberta de Netuno em meados do séc. XIX trouxe para o primeiro plano das discussões políticas a questão social. É certo que até então sempre havíamos tido pobres e ricos e que o sofrimento dos desfavorecidos tocara muitos corações bondosos. Mas é no séc. XIX que o sofrimento dos humildes toma um sentido diferente, principalmente depois do nascimento da grande indústria, produto de novas tecnologias implantadas a partir do final do séc. XVIII (descoberta de Urano).

                                      
                                         
Foi em meados do séc. XIX que a Europa ocidental, em razão de uma produção industrial desorganizada, de uma concorrência anárquica, do trabalho escravo de mulheres e crianças, da fome e das doenças que grassavam nos meios urbanos proletarizados e das péssimas condições de vida das classes operárias, que se colocam questões sociais até então desconhecidas.


A grande concentração de operários em oficinas e fábricas, texteis e
EMILE ZOLA
metalúrgicas sobretudo, recebendo um salário de fome, tornava a vida desses grandes contingentes extremamente penosa e sofrida. Em 1830, por exemplo, a pedido de um Comitê de Bem-Estar quer procurava aliviar a vida de milhares de operários reduzidos à miséria em Rouen, o grande poeta Victor Hugo escreveu um poema, Para Os Pobres, que era quase uma parábola evangélica. Émile Zola, em Germinal, e outros escritores irão mais longe; falarão de reivindicações violentas.


Traduzida em movimentos políticos, diante, como sempre do silêncio das
TRABALHO INFANTIL
elites, esta literatura levou à criação de organizações como a Associação Internacional dos Trabalhadores, a primeira no gênero. Só em 1874 seriam baixadas leis para interditar o trabalho de menores de doze anos, para fixar em doze horas diárias a jornada de trabalho de menores (12-16 anos) e em onze o trabalho de operárias nas fábricas. A jornada dos homens continuaria fixada em doze horas diárias. Não havia descanso semanal remunerado (só em 1906 foi obtido um descanso remunerado, de quinze em quinze dias). De um modo geral, estes dados (franceses) eram os mesmos, com números ligeiramente melhores na Inglaterra e na Alemanha, os países mais industrializados da Europa.

Foi nesse cenário que surgiram as chamadas doutrinas socialistas, de forte inspiração netuniana, como se pode constatar diante do exposto, doutrinas que tinham por objetivo a reforma das sociedades humanas, propondo, no que diz respeito à vida econômica, a coletivização dos meios de produção e da distribuição, mediante supressão da propriedade privada e das classes sociais. Dentre as mais importantes correntes dessas doutrinas apontamos a utópica, a revolucionária, a científica, a marxista, a anárquica e a religiosa. O ano de 1846, por exemplo, se caracterizou por alguns “avanços” netunianos sob o ponto de vista político-social: supressão da pena de morte por razões políticas; supressão da escravidão nas colônias; instituição do sufrágio universal.

Entre os anos de 1860-1865, aparece um movimento artístico que trazia propostas também claramente “netunianas”. Levar o pintor para fora dos ateliês, fazendo-o entrar em contacto direto com o exterior, principalmente com o litoral atlântico (Normandie, praias etc.) foi uma delas. Outra foi a de libertar a pintura da tirania do “Salão”, a única possibilidade de reconhecimento oficial para um pintor. O Salão, como se sabe, determinava os motivos pictóricos “aceitáveis”, recusando sumariamente qualquer desvio do que fosse por ele fixado. A nova proposta desse movimento renovador apontava para uma visão mais espontânea da natureza. Em 1863, os rebeldes se organizam e promovem, com grande escândalo, o Salão dos Recusados.

SALÃO DO RECUSADOS
 A água (mares, oceanos, lagos, rios etc.), as nuvens, as flores, são eleitos como temas privilegiados nas artes plásticas (pintura), ao lado da figura humana, até então a única admitida. As formas se tornaram evanescentes, o contorno rígido do desenho foi rompido, tornando-se impreciso. Um jornalista (Louis Leroy), inspirando-se numa tela de Monet (Impressão, Sol Nascente) qualificou o estilo de Impressionismo.
                                   
IMPRESSION SOLEIL LEVANT
 Em que pesem as diferenças entre os vários pintores que aderiram ao movimento, todos, de um modo ou de outro, procuraram pintar a natureza na sua verdade mutável segundo a luz, utilizando-se para tanto de novas técnicas de pincelada. A ideia era a de captar todas as nuances possíveis numa mistura ótica de cores que o olho do espectador reconstituía. Aceitando a arte oriental, sob o nome de japonismo, os pintores passaram a utilizar todo o espaço da tela, suprimindo o cerne do claro-escuro e a perspectiva linear. O interesse pictórico se concentrou na busca dos efeitos fugazes da luz e do movimento, na despreocupação com relação aos contornos, na aversão aos tons sombrios e no uso de enquadramentos originais.
                                      
Estas ideias alcançaram a música, influenciando bastante o estilo das composições desenvolvido sobretudo por compositores como Debussy, Ravel, Satie, Roussel e outros. No fundo, uma tendência de usar os sons como cores, empregar formas de caráter deliberadamente nebuloso, evitando a precisão nos ritmos e nas harmonias.

Na literatura, as novas ideias dão substância a um movimento, sobretudo poético, que tomou o nome de Simbolismo. Escritores belgas e franceses, principalmente, agrupados em comunidades de caráter esotérico, divulgaram suas obras com certo sucesso, fazendo chegar a nova estética, com forte acento musical, aos demais países europeus e às Américas. O ideario simbolista é de caráter idealista: um poema deve traduzir as “ideias primordiais”, não sendo os fenômenos concreto mais que manifestações exteriores e superficiais. O poema deve se constituir, com a ajuda do símbolo, num ponto de junção entre a Ideia e o mundo. O Simbolismo se coloca assim sob a égide da filosofia idealista alemã e, em particular de Schopenhauer, que concebe o mundo como “representação”, ou seja, segundo a visão subjetiva do agente que o percebe.
 
A água é fonte e símbolo da vida, encontrando-se o seu culto em todas as mitologias. Enquanto as águas submarinas simbolizam o subconsciente, a água gelada, o gelo, representa a estagnação psíquica no seu mais elevado grau.

Divinizadas por todos povos da antiguidade como fonte da vida, a noção das águas primordiais e do oceano como fonte de tudo que emergiu estão presentes em todas as tradições. Em todas também a visão simbólica do elemento líquido como origem, purificação ou regeneração.

Em todas as cosmogonias, a água é a essência do poder feminino, passivo, sendo o mais fértil dos elementos, base de toda a criação. É, como tal, o mais usado dos elementos como meio de purificação e de regeneração física ou espiritual. A água benta, por exemplo, é um símbolo das águas primordiais que expulsa os demônios e permite a regeneração da forma a cada vez que penetramos num lugar santificado. A água batismal, vertida sobre a cabeça do infante, purifica-o e o admite na cristandade.

BATISMO COLETIVO
Entre os essênios, o rito do batismo (eu mergulho, em grego) era praticado muitas vezes ao longo da vida, inclusive num nível cósmico. As pias batismais tinham doze lados, à imagem do zodíaco, onde se alinhavam doze touros que evocavam ao mesmo tempo o mar de bronze do templo de Jerusalém e o cosmos em sua onipotência.

    Ainda simbolicamente, lembremos que a água representa a purificação dos desejos até a sua forma mais sublime, a bondade. De outro lado, as águas subterrâneas e submarinas simbolizam o subconsciente; é neste sentido que as águas que perderam a sua fluidez ou a sua movimentação identificam-se com os charcos, os pântanos, as geleiras, sempre lembrando estagnação psíquica, estados passionais, idéias fixas, obsessões e até a morte.

SOLUTIO
A água associada a Netuno tem íntima relação com a solutio alquímica, operação pela qual a matéria que tomou forma retornará à prima materia. Na psicoterapia, por exemplo, a solutio indica a destruição dos aspectos fixos e estáticos de uma personalidade para que seja possível alguma mudança, reorganizá-la de uma outra forma.

Em nível cósmico, as águas de Netuno têm relação com o signo de Peixes. Quando o Sol transita por esta constelação, entre fevereiro e março, estamos, com relação ao hemisfério norte, no último mês do inverno, mês do degelo, período do ano em que tudo o que tomou forma a perderá.

O simbolismo do signo de Peixes é inseparável do da água ao evocar sempre a renovação da natureza. É por essa razão que o signo  tem relação com todas as formas de renascimentos religiosos, sendo o peixe um símbolo natural do batismo. Não é por outra razão que os primeiros cristãos “sentiam” a presença invisível de Cristo nas águas das pias batismais.


                                                                                                                                                       
 Nos sonhos, o peixe é um intermediário entre as camadas profundas do psiquismo e um aspecto do inconsciente tornado acessível. Os grandes peixes como a baleia representam invariavelmente o risco da absorção das forças conscientes pelas energias profundamente entranhadas no inconsciente.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

MITOLOGIAS DO CÉU - O CÉU

Desde a aurora dos tempos, o homem sempre se sentiu atraído pelos fenômenos celestes e pelos seus reflexos na Terra, principalmente peIa alternância dos dias e das noites, pelas fases da Lua, pelo movimento dos astros, pela volta periódica das estações. O homem constatou no cosmos uma regularidade que não falha. Desde a pré-história, o estudo do céu provocou um movimento duplo: a busca de leis naturais, imutáveis, que em nenhum lugar como no céu aparecem de forma tão evidente, e a tendência de colocar nos céus seres sobrebaturais e todo poderosos. Entender o céu através de suas leis e de ver nele a morada de divindades e dos eleitos.



Foram constatados desde muito cedo na história do homem nexos, relações entre certos fenômenos celestes e terrestres, particularmente nas latitudes médias, entre o movimento das estações e o percurso do sol no círculo zodiacal e entre as fases da Lua e o movimento das marés. Ao lado dos fenômenos celestes que se repetiam periodicamente, ocorriam também acontecimentos excepcionais, espetaculares como eclipses do Sol e da Lua, movimento de cometas, estrelas cadentes, meteoritos. Além disso, havia também o giro circular dos planetas pela faixa zodiacal, sempre intrigante.


Os modelos terrestres de representação do espaço celeste sempre variaram muito de acordo com a visão de cada tradição; as imagens escolhidas para simbolizar o espaço celeste foram aparecendo: cúpula, cobertura, redoma, dossel, taça virada, tartaruga, uma espécie de oceano que uma forte pressão atmosférica impede de escorrer e sob a qual os astros deslizam como barcos num mar tranquilo. A tartaruga, por exemplo, é uma cosmografia viva devido à sua carapaça e à sua parte inferior, achatada, quadrada, uma imagem do ceu da terra. Por isso, em muitas culturas, principalmente no extremo-Oriente, a tartaruga é uma representação do cosmos.

A palavra céu vem do latim, “caelum”, onde tem o sentido de cobertura abobadada, arqueada. Na maior parte das línguas, é tanto região das nuvens e dos astros como morada dos deuses e repouso dos eleitos. Fisicamente, é o espaço onde se localizam as nuvens, uma espécie de envoltório limitado pelo horizonte, onde brilham os astros e luzem as estrelas, sempre um cenário de acontecimentos espantosos.

Conceitos de ordem meteorológica, teológica, astronômica, astrológica e mitológica sempre se misturaram a teorias diversas sobre a criação do mundo e o aparecimento do cosmos como ordenação. Em todas as tradições encontramos mitos sobre a unidade original entre o céu e a terra, seja na forma de confusão, caos, seja na forma de uma união entre uma entidade masculina, celeste, fecundante, e uma entidade feminina, terrestre, geradora, depois separados pela interposição do ar, tudo para lugar ao aparecimento do ser humano, os nascidos do "humus".

O espaço celeste sempre se revestiu de uma dimensão sagrada, sempre teve uma significação religiosa, lugar de hierofanias. Os antigos, quando contemplavam o céu, passavam sempre por uma experiência religiosa. A natureza, para esse homem, jamais foi considerada como simplesmente "natural". Ao contrário, sempre foi vista como um reflexo do céu. Os ritmos lunares, o ciclo das estações, o aparecimento e o desaparecimento do Sol a cada dia, por exemplo, adquiriam valores religiosos para a humanidade arcaica.

Já se disse que uma das principais diferenças que separam o homem das antigas culturas do homem moderno reside justamente na incapacidade que este último tem de viver a vida orgânica como um sacramento. Para o homem moderno, os atos de sua vida orgânica não passam de acontecimentos fisiológicos. Para os homens do mundo arcaico, ao contrário, esses atos eram sacramentos, ritos, cerimônias que lhes permitiam entrar em contacto com a força que representava a própria vida, epifanias de uma Realidade Última.

Ligado aos milagres do seu cotidiano, esse homem, ao contemplaro céu, tinha revelações, pois ele lhe falava, acima de tudo, de transcendência, de eternidade, de infinito, de elevação, de renovação, de inacessibilidade. O alto logo se torna, naturalmente, um atributo do divino. As regiões celestes, as zonas siderais, adquirem um valor de perenidade, pertencendo, por direito, às forças e aos sobrenaturais seres que nelas vivem. A dimensão religiosa do céu também explicava para o homem primitivo, de um modo muito claro, que tanto a vida como a luz, vinham sempre das alturas.


O homem primitivo sempre viu também o céu como uma cúpula fixa, o firmamento, embora cenário de inúmeras mudanças. Quando estas mudanças escapavam da normalidade, isto é, de determinados ritmos conhecidos, era costume universal que o temor se apoderasse desse homem. Até que o fenômeno dos eclipses fosse conhecido, a “morte” da Lua ou do Sol provocavam grandes manifestações, alaridos, o chamado charivari (do grego, karebaria, barulheira, que pode dar dor de cabeça). O alarido tinha a finalidade, nos eclipses, de afastar as influências nefastas, no caso o monstro cosmológico que tentava devorar um dos luminares. O eclipse na visão do homem primitivo era sempre uma sugestão de ruptura de uma ordem, falha num encadeamento regular, do dia e da noite, da luz e das trevas. Esta ruptura punha não só em perigo a ordem cósmica como a vida social e a individual, pois todas estavam interligadas. Os cometas, por seu lado, eram “perigosos” por causa da irregularidade do seu movimento, trazendo a desordem para o céu. Até recentemente (séc. XVIII) cometas eram representados em gravuras populares em forma de espadas e estrelas cadentes como vigas em chamas.


As órbitas dos astros eram traçadas pelos seus deuses tutelares para que fossem enviados aos humanos, segundo a sua conduta, a chuva benéfica, as tempestades destrutivas, a brisa amena e suave, a seca mortífera, a advertência dos trovões ou a punição dos raios. Na mitologia grega, a primeira representação do céu tem em Urano (céu, em grego) a sua expressão maior. Urano personifica o céu enquanto elemento fecundador de Géia, a grande mãe-terra. Era imaginado como uma abóbada, um hemisfério, que cobria Géia por inteiro, esta concebida sob uma forma esférica e achatada. Mutilado e destronado, uma nova dinastia, chefiada por seu filho caçula, Cronos assumirá o poder, instaurando o reino dos titãs, seres ligados à vida material. O parricídio cometido por Cronos será punido pela revolta dos seus próprios filhos. Ao fim de uma guerra de dez anos, vencidos, os titãs serão encerrados no Tártaro, nas profundezas sinistras e tetenebrosas infernais. Zeus, o filho caçula de Cronos, assumirá então o poder, cabendo-lhe a supremacia absoluta do cosmos.

O nome de Zeus jamais foi usado pelos gregos para designar o céu. Ao seu nome se juntarão, isto sim, qualificativos e atributos sempre ligados à atividade celeste, ao movimento das nuvens, aos trovões, aos relâmpagos e aos raios. A figura de Zeus era a conclusão de um longo processo que fazia, desde a pré-história, o homem identificar as divindades supremas como divindades celestes.

Platão fala no “Timeu” que Deus distribuiu os astros pela abóbada celeste para que ela fosse um cosmos, isto é, uma ordem. Numa das obras atribuidas a Platão, o “Epinomis” (na realidade escrita por um colaborador seu, Philippe Oponte), os planetas receberam, pela primeira vez, o nome dos deuses gregos. Aos poucos, uma grande concepção astrológica do mundo se estabeleceu a partir deste texto: “a contemplação do céu é uma iniciação real” e “há inteligência nos astros” são frases nele encontradas.


Desde tempos muito recuados, o ser humano sempre procurou, através de teorias baseadas em analogias e correspondências, estabelecer uma relação entre os acontecimentos macrocósmicos e o mundo humano. O ponto de partida para o entendimento destas teorias esteve sempre na explicação de que a vida terrestre dependia do céu. Assim como as plantas, os mares, os animais e o mundo mineral dependiam do céu, o homem também sofria as influências provenientes do movimento dos astros e do calendário deles decorrente. Deu-se o nome de Astrologia ao estudo dessas influências, que sempre suscitaram grande interesse, apesar das objeções que contra ele se levantam em determinados períodos da história da humanidade.

O desejo de desvendar o mistério das leis cósmicas e da harmonia da vida terrestre segundo as estruturas do céu (constelações, planetas e estrelas, principalmente, devido aos seus movimentos e ritmos) levou praticamente todas as culturas a elaborar representações celestes que lhes parecessem significativas para explicar o destino do homem e a vida na terra, de um modo geral. As imagens criadas ao longo dos séculos, para os mais informados, continuam a parecer pertinentes até hoje, o que explica, sem dúvida, que a sua carga simbólica sobreviva num mundo dominado pelo realismo cientifico e pela técnica.

Ao lado das evidências celestes “maiores” (o Sol, a Lua e os planetas), o homem, aos poucos, foi aprendendo a se abrir para o céu noturno. Assim, tanto as grandes civilizações como as menores, nas várias latitudes e longitudes, foram aprendendo a agrupar as estrelas, nascendo assim a observação e o estudo das constelações. Para os povos antigos, as estrelas no céu noturno eram fontes de luz nas trevas, morada de divindades ou de heróis metamorfoseados em astros.

Os romanos, por exemplo, atrbuiram uma influência maléfica à estrela Sirius, chamada de Canícula, a estrela da constelação do Cão Maior. A ninfa Calisto e seu filho Arcas estão nos céus como as constelação da Grande e da Pequena Ursa. Na tradição judaico-cristã, por exemplo, cada estrela é tutelada por um anjo, todas obedientes à vontade de Deus. Certos personagens históricos, como os imperadores Constantino, Carlos Magno e Frederico, o Grande, sempre afirmaram que quando do seu nascimento estava presente nos céus uma estrela que guiou os seus destinos. Esta afirmação tem muito a ver com a chamada estrela de Belém, sempre ligada a fenômenos miraculosos, algo talvez mais psicológico que físico. Ou, para outros, uma concessão da Igreja católica então nascente ao pensamento astrológico, ao tempo muito poderoso. No mundo judaico-cristão, há uma referência (Apocalipse) a um astro de fogo, chamado Absintho, que cairá dos céus para anunciar o fim do mundo e o julgamento final.

Em cada área geográfica da terra, umas constelações, suficientemente altas, acima do horizonte, aparecem noite após noite, sempre iguais. Sem jamais se porem ou nascerem, elas giram em torno de um ponto fixo no céu. Esse ponto fixo foi chamado de estrela Polar. Essa estrela, na simbólica universal, tem um papel de enorme destaque, é um ponto, um centro absoluto em torno do qual o universo gira eternamente. Todo o céu gira em torno deste ponto fixo, que lembra um motor imóvel de Aristóteles. A estrela Polar é o ponto em relação do qual se define a posição das demais estrelas e a de todos aqueles que se movimentam na terra, navegadores, viajantes, exploradores, nômades, aventureiros. Em muitas religiões primitivas é nela que tem o seu trono o Ser Divino a que são atribuídas a criação, a manutenção e a destruição universais.

A estrela Polar aponta sempre para o norte para onde caminha o nosso planeta, o sistema solar, a galáxia, o universo como um todo. Umbigo do mundo, a estrela Polar indica a morada do Ser Supremo uraniano em todas as tradições. É por essa razão que os povos da Ásia sempre levantaram os altares de seus templos em direçao do norte, como está, aliás, na própria Bíblia: "Eu me sentarei sobre a montanha onde têm assento os deuses, nas regiões longinquas do setentrião." Na índia, por exemplo, o antigo casamento védico era celebrado com referências à estrela polar.


O agrupamento das estrelas em constelações é arbitrário só aparentemente. Cada civilização, cada tradição, cada tribo faz o seu recorte, dando-lhe um nome, animando-o e dramatizando-o segundo os seus mitos. É neste particular que as semelhanças podem se revelar espantosas, indicando que por trás das aparentes dissemelhanças encontramos uma linguagem comum, através da qual a variedade das percepções pode ser expressa. A partir do ano de 1922, a União Astronômica Internacional procurou delimitar as configurações, chegando seu número a quase 90, designadas por nomes latinos.

Os nomes dos estudiosos do céu, que nos chegam da antiguidade são muitos. Até onde as investigações puderam nos levar, tudo indica que com Berose a antiga astrologia se tornou uma técnica oculta. Ele era caldeu (sinônimo de astrólogo), vinha da Mesopotâmia e era sacerdote de Marduk. Sua teoria sobre os ciclos atravessaram os séculos. A astrologia tornou-se popular no século II aC, em particular graças aos sábios egípcios. Os mais célebres astrólogos desse tempo foram Hephaistos de Tebas (380 aC), Paulo de Alexandria (378 aC). Os eruditos belgas F.Boll e F.Cumont (O Egito dos astrólogos) conseguiram reunir muitos textos gregos dessa época.

As constelações que estudaremos no transcorrer deste ciclo (Mitologias do Céu) são aquelas que na antiguidade se fixaram principalmente através das obras de Claudio Ptolomeu. Astronômo, matemático, geográfo e sobretudo astrólogo, Ptolomeu (90 -168 dC) foi um dos maiores estudiosos do céu em todos os tempos, sendo o autor de um sistema geocêntrico que prevaleceu (e que continua a prevalever para os astrólogos) até o século XVI. Suas observações foram feitas entre 127 e 141 dC em Alexandria. De todas as suas obras, a mais importante é o Almagesto, uma exposiçao completa de seu sistema astronômico.São reunidos neste trabalho todas as teorias existentes sobre o assunto até então, principalmente a de Hiparco, bem como conhecimentos trigonométricos da época. Ptolomeu descreveu os movimentos do Sol e da Lua, além dos planetários, visíveis até Saturno. Sua obra máxima para a Astrologia é o Tetrabiblos, trabalho canônico. Construiu instrumentos astronômicos, dentre eles o astrolábio, que leva o seu nome, e globos terrestres.