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sábado, 13 de maio de 2017

CÂNCER (4)

                                                   
Na Índia, quando a alma chega ou não à libertação (moksha), abrem-se dois caminhos para ela. Um é o da reencarnação, caminho do solstício de inverno, chamado pelos hindus de pitriyana ou dhumamarga. O outro é o caminho que leva ao Brahman, de onde não há mais retorno. Este caminho, ligado ao solstício de verão, tem o nome de devayana ou archimarga. 


CERIMÔNIA  -  PITRIS

É preciso lembrar, quando entramos neste tema da reencarnação, que para os hindus ainda depois de muito tempo que uma encarnação teve fim, a alma conserva algumas ligações com o seu ambiente terrestre, com o seu mundo familiar. É isto que leva os hindus a elaborar um complexo culto dos antepassados (pitris). Segundo o grau de sua ligação com o mundo ancestral, a alma pode ficar habitando um dos três mundos dos ancestrais (pitrilokas), tendo, nessa condição, ainda, muitos envolvimentos com o mundos vivos.


CREMAÇÃO  -  GANGES

A alma, depois da morte do corpo físico, pode passar por um grande período de hesitação, durante o qual, não totalmente liberta dos laços terrestres, fica errando como um fantasma. Nessa condição, tem o nome de preta. O culto dos antepassados, que tem um grande lugar na religião hindu, inicia-se a partir do quarto dia da cremação. Recolhe-se a ossada e o que sobrou num vaso de argila (asthisauchaya) para ser tudo lançado num rio, de preferência no Ganges. 


MANSÕES   LUNARES  -  NAKSHATRAS

É sob o nome de pitris (ancestrais) que são venerados os primeiros progenitores (miticamente) da raça humana bem como os ancestrais familiares, cremados ou inumados segundo os ritos. Eles são, em geral, considerados como semelhantes aos deuses, com os quais muitas vezes entram em choque. Nessa condição, são imortais e compartilham com eles uma vida de imortalidade. os ritos, chamados shraddhas (homenagens), são realizados em sua honra e as oferendas a eles feitas têm o nome de pindas. Os ancestrais residem no espaço ou na esfera da Lua. Eles são regentes das constelações (nakshatras ou mansões lunares) conhecidas pelo nome de Magha e de Mula. A primeira é a décima mansão lunar e seu nome significa A Poderosa, indo, na esfera zodiacal, de 0º a 13º20´de Leão. A segunda é a décima nona mansão lunar e seu nome pode ser traduzido como A Raiz, estendendo-se de )º a 13ª20´de Sagitário. Quando a Lua atravessa Magha, esse período, dentre outras possibilidades astrológicas favoráveis, é propício para a realização de cerimônias que homenageiem os ancestrais. 

LEI   DO  KARMA
O Hinduísmo admite que a alma (jiva) não nasce apenas uma vez, mas várias vezes, inúmeras vezes, quer no passado, quer no futuro. As suas ações no plano terrestre, segundo a lei da causalidade (lei do karma), determinam sempre as condições das voltas futuras, isto é, das suas sucessivas reencarnações. O pensamento aqui é claro: o homem é sempre o que ele faz de si mesmo e este fazer-se determina no que ele se tornará. 


PLÍNIO ,  O   VELHO
As doutrinas pitagóricas nos colocam diante de algo semelhante quando nos falam da identidade substancial das almas e dos astros. É conhecida a citação de Hiparco, segundo Plínio, o Velho, de que nossas almas são uma parte do Céu, que é a sua natural morada. Caídas no mundo sublunar, em razão de uma falta original, é ao Céu que elas retornarão, quando devidamente depuradas. Um dos dogmas do ensino pitagórico era o de que as almas dos seres humanos provêm do Céu. O próprio Pitágoras, aliás, passava por um gênio que descera à Terra para revelar aos homens o caminho da salvação. 

PLUTARCO
Quanto aos egípcios, é interessante notar que eles escolheram o escaravelho para representar o signo de Câncer. Quem nos explica isto é Plutarco, historiador, moralista e biógrafo grego. Ele nos dizia que o escaravelho parecia imitar o Sol ao se movimentar, lembrando auto-geração, regeneração, ao rolar uma pequena bolota na qual estava depositada a sua semente (sêmen). Divinizado, tomava o nome do deus solar Ra, chamado de Khepri, imagem do Sol nascente. É por esta razão que as múmias levavam um escaravelho no peito como amuleto, como proteção mágica, tendo em vista o seu renascimento no Outro Lado, depois da psicostasia.

Como motivo de decoração, o escaravelho era encontrado praticamente em todos países mediterrâneos, sempre simbolizando a ressurreição, emblema daqueles que se auto-regeneram. Era, em suma, o Sol que sempre retornava depois de ter atravessado as trevas noturnas. Além do mais, o escaravelho sabia sobreviver
SANTO   AMBRÓSIO
quando das enchentes do rio Nilo. Segundo crenças muito antigas, profundamente arraigadas em antigas tradições, ao se alimentar, o escaravelho sempre se alimentava do que lhe era estritamente necessário, colaborando dessa forma para a regeneração física e moral do cosmos. Foi por esta razão que Santo Ambrósio, um dos maiores doutores da Igreja católica, sempre associou a imagem de Cristo à do escaravelho.

ANEL   TALISMÃ
COM ESCARAVELHO
A pequena bolota na qual o escaravelho encerrava a sua bolota era chamada de "o ovo do mundo do qual nascia a vida." Ao favorecer a reencarnação, o escaravelho, como talismã (do árabe, talasim, sortilégio; e do grego, telesma, rito religioso), era muito valorizado. Muito falsificados, os talismãs fabricados do Egito eram vendidos "a peso de ouro".

Na antiga Roma, segundo Plínio, o Velho, os cornos deste coleóptero, colocados numa pequena cápsula (sachê), eram considerados também como poderoso amuleto, protegendo especialmente a vista. Era comum, segundo Plutarco, que os soldados gregos, os hoplitas principalmente, durante as batalhas, usassem amuletos na forma de escaravelhos como proteção do
SARAH   BERNHARDT
( PAUL   NADAR , 1856 - 1939 ) 
corpo físico. A fama do escaravelho como amuleto ou talismã atravessou a Idade Média, alcançado a sua maior voga em fins do séc. XIX. Em toda a Europa, um berloque ou um pendantif na forma do inseto eram usados como emblema de fidelidade conjugal, moda lançada ou difundida pela famosa atriz do teatro e do cinema mudo francês, Sarah Bernhardt. Com menos evidência hoje, o escaravelho, como talismã ou amuleto, ainda é muito valorizado, protegendo contra a morte violenta e contribuindo para uma saudável vida longeva.


A associação do escaravelho com o signo de Câncer também tem a ver com o lado negativo do inseto na medida em que ele, como inúmeras crenças o atestam, tem relação com o fim da vida e, portanto, com a quarta casa astrológica, ocupada no Zodíaco padrão pelo referido signo. O inseto pode se tornar maléfico, trazendo a infelicidade, anunciando a morte, quando aparece a se deslocar velozmente nas dependências de uma casa. "A morte é quase certa", diz a tradição, quando um escaravelho negro sobe pelo sapato  ou se movimenta sobre o corpo de alguém que esteja deitado. Na Escandinávia (Suécia), por exemplo, o escaravelho aparece ligado ao deus Thor, nome do qual retira a sua designação, thorbagge, inseto de Thor. Foram os primeiros cristãos da Escandinávia, numa reação aos cultos aborígenes, que demonizaram o escaravelho, chamando-o de o Diabo de Thor.


CÃO   MAIOR
Os egípcios colocaram o início do seu ciclo anual no mês em que o Sol ingressava no signo de Câncer (solstício de verão), simbolizando este ingresso a entrada da alma no corpo físico. Esta ideia está presente nos céus se lembrarmos que a estrela Sirius, Sothis para os gregos, Sepedet para os egípcios, da constelação do Cão Maior, que cobre os trinta graus de Câncer, ao aparecer nos céus, anunciava a inundação do rio Nilo, dia  que marcava o início do ciclo anual e o Egito renascia. Era nesse momento que Osíris e Ísis, representantes das forças da fecundação e da geração de formas, venciam Seth, que representava as forças do mal, da esterilidade, do deserto.

PENTATEUCO
Entre os judeus, o quarto signo zodiacal, Câncer para nós, recebeu o nome de Tamuz. Para melhor compreender o que Tamuz significa,muito oportunas algumas referências históricas relacionadas com os três primeiros signos. Em Nissan (Áries) tivemos a libertação dos judeus do cativeiro egípcio, iniciada por Moisés e concluída por Josué, que os levou à terra prometida. Esta história, conhecida pelo nome de êxodo (ietssiat mitsraim), é o tema principal do segundo livro de Pentateuco. O êxodo é o centro da liturgia e das práticas do calendário judaico, de modo especial as festas relacionadas com peregrinações. Considera a liturgia que todo judeu, a qualquer tempo, participa do êxodo, pois o acontecimento é recriado a cada ano pelo ritual do Pesach.

Em lyar (Touro), temos a referência à descida do maná do céu, o alimento milagroso, em forma de orvalho, que alimentou os judeus durante o êxodo. Conta a tradição que o maná era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando nenhum vestígio no aparelho digestivo, e tendo o sabor que os seus consumidores quisessem. O maná não consumido era recolhido e dado aos animais. Consumida pelos gentios, a carne de tais animais permitiu que os gentios participassem inclusive, indiretamente, da dádiva celeste recebida pelo povo judeu. Uma das grandes vantagens que o maná proporcionava era de afastar os judeus da faina agrícola e dos afazeres domésticos, permitindo-lhes dedicar muito mais tempo ao estudo da Torá.


MOISÉS  RECEBE  A  TORÁ
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )  
No mês de Sivan (Gêmeos) temos a entrega divina da Torá a Moisés. Conceito central do judaísmo, a Torá, segundo os mestres judaicos, já existia antes do mundo vir a ser criado e foi usada por Deus como base para tal criação. A Torá foi revelada por Deus a Moisés no monte Sinai, durante os quarenta dias e quarenta noites que ele lá passou. Recebendo-a e passando-a para o povo judeu, a peçonha da serpente foi removida de Israel. A rigor, o nascimento de Israel só se deu neste mês, no qual a vida racional começa, com o recebimento da Torá por Moisés. É por esta razão que a Astrologia judaica considera os dois signos anteriores, Áries e Touro, como ligados à vida instintiva, pois estão relacionados com animais. É neste dois meses que os judeus devem se esforçar para elevar a sua alma "animal", isto é, devem procuram dominar a sua vida instintiva para que possam receber no mês de Gêmeos (Sivan) a Torá. 

ABRAÃO  E TRÊS ANJOS
( MARC   CHAGALL )
O desenvolvimento religioso do povo judeu, como sabemos, tem três fases: a primeira centrada na figura de Abraão, a segunda é associada a Jacó ou Israel e a terceira a Moisés. Só com o estabelecimento do pacto religioso do Sinai  e dos acontecimentos que se sucederam é que os filhos de Israel se tornaram realmente a nação de Israel. Foi este pacto do Sinai que consolidou um mundo até então disperso em tribos como uma verdadeira nação, uma congregação marcada por sua singularidade religiosa.   

Depois destes meses que constituem a primavera, os três seguintes, relacionados com o verão, são muito mais importantes para história de Israel, já que neles temos tanto o seu crescimento material como seu desenvolvimento na direção de elevados planos espirituais. É
TERRA  PROMETIDA
( MARC  CHAGALL )
nesta fase do zodíaco, associada simbolicamente a Israel, que a sua história começa, marcada pelo envio, por parte de Moisés, de espiões para investigar a terra prometida por Deus, da qual os judeus deveriam se apossar. Tal missão, iniciada em Tamuz, prolongou-se pelo mês de Av (Leão). A missão, como se sabe, falhou; as informações trazidas pelos espiões era falsas, o que ocasionou o adiamento da invasão. 

O signo de Tamuz, como quarto mês do calendário, começava no final de junho ou início de julho, sendo considerado o mês mais quente do ano, Durante este mês, os judeus observavam, a partir do dia dezessete, um período de três semanas de luto pela destruição do templo de Jerusalém, construído por Salomão. Os judeus acreditavam que em tal dia ocorreu não só a destruição do primeiro como, muito mais tarde, do segundo templo, destruídos respectivamente pelos babilônicos e pelos romanos, quando os muros da cidade foram rompidos. Tal acontecimento era comemorado por um dia de jejum, que dá início ao período de luto de três semanas. 

JOSUÉ  E  SEU  POVO
 ( MARC  CHAGALL )
Além das informações falsas sobre a Terra Prometida e seus habitantes, o comportamento dos espiões maculou a visão que os judeus deveriam ter da Terra Prometida. Dos doze espiões enviados, só dois, Josué e Calebe, a viram com olhos espirituais, guiados pela percepção intelectual Os demais falaram que a terra era excelente, mas que os judeus seriam mortos se tentassem tomar o país. A visão dos dez espiões foi falseada por razões emocionais, uma visão tipicamente canceriana, se usarmos a Astrologia para melhor interpretar esta passagem. Em Câncer há sempre o perigo que a visão emocional se sobreponha à racional, não permitindo que desta se passe à espiritual. 

As letras que os judeus ligam a este signo são Heth, que deu origem ao signo de Câncer, e Tav, que gerou a Lua. A primeira lembra existência rudimentar, a substância primordial dos organismos vivos, mas já capaz de sentir e reagir a estímulos. É a existência protoplásmica, matéria fundamental. Tav nos remete a ideias de abundância, calor, proteção. Heth, pelo seu lado positivo, sugere limpeza, purificação, qualidades que se levadas ao coração "limpam" a visão. Como dizem os judeus, o sentido do pecado está na visão. É por ela que somos geralmente tomados pelo desejo, pela concupiscência, o coração se enche de luxúria, e que passamos a viver só no reino da carne. "Vivendo" desta maneira, o coração aquece o sangue, aquecimento, sentido que a palavra Tamuz tinha no antigo aramaico. 

A Astrologia dos antigos judeus nos dizia que era durante o mês de Tamuz que os aspectos do mundo exterior se tronavam mais atraentes. Dizia-nos ela também que o caranguejo era o alimento preferido das pessoas que se entregam aos desejos e aos prazeres. Sartan (caranguejo) é nome que, embora pouco usado, serve também para designar quarta constelação zodiacal entre os judeus.
TRIBOS   DE   ISRAEL
( MARC   CHAGALL )
O regente do signo de Tamuz é a Lua, que tem um grande poder sobre as águas. O Zohar, por sua vez, que estabelece uma correspondência entre as tribos de Israel  e os meses do ano, aponta uma relação entre os signos de Nissan, tribo de Judá, e de Tamuz, tribo de Ruben, pois ambos marcam o início de estações. Ainda astrologicamente, podemos que as três dinâmicas zodiacais, a cardinal, a fixa e a mutável, são representadas, respectivamente, por Abraão, por Isaac e por Jacó. O elemento de Tamuz é a água, compartilhada por ele com os signos de Cheshvan (Escorpião) e Adar (Peixes), relacionados respectivamente com as tribos de Menasche e Naftali. A energia de Tamuz é, como se disse, representada por Reuven ou Ruben (etimologicamente, reu, ver, e vem, filho), que se guiou sozinho pelo deserto quando do êxodo. A tribo de Ruben, instigada por Korach, o levita, se rebelou contra a autoridade de Moisés.

O   BEZERRO   DE   OURO  ( MARC  CHAGALL )

Dizem os antigos astrólogos judeus que os sentidos da visão e da audição são os mais fácil e imediatamente impressionáveis e que, por isso, são sempre os que nos empurrar para agir mais precipitadamente. As tribos de Ruben (Tamuz) e de Shimeon (Av) agiram dessa forma no deserto, procedimento muito comum, no dizer dos referidos astrólogos, das pessoas que sofrem a influência dos dois signos, considerados muito problemáticos. Foi no mês de Tamuz que ocorreu o episódio do Bezerro de Ouro.

A água (o movimento das marés), como elemento de Tamuz, aparece normalmente associada ao desejo entre os judeus. Ambos, a água e os desejos, por suas características lunares, estão sempre a fluir, fazendo o homem mudar sempre. Devido às influências de Tamuz, o homem se torna excessivamente sensível, oscilante, cheio de suscetibilidades, idiossincrático, lembrando muitas vezes, com a sua instabilidade, principalmente a emocional, o movimento dos caranguejos. É de se lembrar que muito antes de adotarem a Astrologia grega, os árabes já conheciam a constelação de Câncer, dando-lhe o nome de Al Saratan, o caranguejo. Nos dialetos aramaicos, a constelação era chamada de Sartana ou Sartan.

Devido ao seu aspecto, o caranguejo era considerado pelos antigos egípcios como um símbolo do poder produtivo das águas, sobretudo pela sua capacidade, segundo eles, de separar de seu corpo seus membros mutilados para dar nascimento a outros. Além do mais, em virtude de seu aspecto repelente, de suas pinças e de sua carapaça, que lembra a proteção de muitos seres demoníacos, o caranguejo sempre foi considerado como uma criatura do mal, satânica. Essa reputação se deve naturalmente à sua natureza lunar, maléfica, atestada desde a mais remota antiguidade. Não é por acaso que o caranguejo, enviado por Hera, aparece nos trabalhos de Hércules como um auxiliar da monstruosa Hidra de Lerna. Hércules, como se sabe, no seu oitavo trabalho, venceu a Hidra e matou o caranguejo, cuja imagem a deusa colocou nos céus para representar a quarta constelação zodiacal.


HÉRCULES  LUTANDO  CONTRA  A  HIDRA  E  O  CARANGUEJO

Domicílio da Lua, Câncer, como todo signo astrológico, apresenta características bastante ambíguas, que podem ser vividas positiva como negativamente, embora, de um modo mais abrangente nos parecendo que estas últimas prevaleçam bem mais. Se de um lado temos ideias de fecundação, de geração, de (hiper)sensibilidade, de memória ativa, de outro temos aderência prolongada ao princípio maternal, dificuldade de libertação de esquemas familiares protetores, excesso de emotividade, infantilismo psíquico, gosto pela intimidade etc. A associação do signo com o universo aquático faz de Câncer o símbolo das águas originais (o líquido amniótico), do mistério das águas profundas e dos segredos. 

Quando aproximamos os valores cancerianos das histórias das grandes famílias (gene, plural de genos) da mitologia grega, principalmente as reais, podemos ampliar bastante as possibilidades significativas tanto de um lado como de outro. Ao fazer esta aproximação, o que de imediato mais chama a nossa atenção são os fortes traços de violência e maldição, de perversidade e de perturbação mental, de loucura mesmo, que impregna as relações entre os seus membros.

Quanto a crimes e a procedimentos anormais, a mitologia grega é farta quanto a exemplos  que bem ilustram o que está acima. Alguns exemplos: Parricídio (Kronos castrando seu pai Urano; Édipo matando Laio, seu pai, pelo direito de passagem). Matricídio (Clitmenestra assassinada por seu filho Orestes, instigado por sua irmã Electra). Uxoricídio (Hércules, numa crise de loucura, matando Mégara, sua esposa). Mariticídio (as Danaides matando seus maridos). Infanticídio (Medeia matando os seus filhos; Hera mandando matar os filhos espúrios de Zeus). Filicídio (Tântalo matando seu filho Pelops). Fratricídio (Etéocles e Polinice, irmãos, se matando). Incesto (relações de Mirra com Cíniras, seu pai, rei de Creta).  Zoofilia (Pasífae, rainha de Creta, relacionando-se
PLUTÃO   RAPTA  KORE
( J.P. VAN  BAURSCHEIT, 1699-1768 ) 
sexualmente com o Touro divino de Creta, enlouquecido, e tornando-se mãe do monstruoso Minotauro). Corrupção passiva (Hércules solicitando ao rei Augias dinheiro "por fora", quando sua realização do seu décimo primeiro trabalho). Raptos e sequestros (Plutão raptando sua sobrinha, Kóre, filha de Deméter, e levando-a para o Hades, onde se transformou em Perséfone, rainha do mundo infernal; Zeus e Poseidon raptando, respectivamente, os belíssimos Ganimedes e Pélops, para transformá-los em seus escanções pessoais). Genocídio (o massacre praticado por Hércules, quando do seu sexto trabalho, em companhia de outros heróis gregos, invadindo Timiscira, a capital do país das amazonas). Há que se mencionar ainda as taras familiares, como as dos Labdácidas e dos Átridas, que fazem parte desse quadro, todas, de um modo ou de outro, podendo ser consideradas e analisadas astrologicamente a partir dos valores cancerianos.

O que a mitologia grega deixa claro, em que pesem as tintas muito carregadas dos exemplos acima, é que o cenário ambiente dos gene, principalmente das famílias reais, como se disse, é sempre um lugar de lutas, de crimes, de violência, de doenças, de miasmas, de heranças malditas. Um exemplo clássico é o da sucessão das dinastias divinas, um reflexo certamente bastante exagerado das relações familiares de um mundo patriarcal fechadíssimo, mas, à sua maneira, sob muitos aspectos, aceitáveis. Um dado importante que podemos retirar da história da sucessão do poder nas dinastias divinas é que o filho nasce sempre da morte do pai. De ambos os genitores?  Uma antecipação freudiana?


FREUD ( W.V. KRAUSZ , 1936
Uma das mais importantes histórias da mitologia grega, a de Édipo, toda ela centrada em valores familiares, está nos fundamentos do pensamento psicanalítico moderno como Freud o elaborou (se quiser, visite neste blog o artigo Édipo, Jocasta, Antígona, Freud e Anna) . É dele que saiu, por exemplo, o famigerado complexo de Édipo, hoje diluído pelos meios de comunicação para o grande público. Jung, na chamada psicologia profunda, não se cansou, em companhia de Kerényi, de visitar os mitos gregos e de escrever sobre eles. 

ARLEQUIM  E  PIERRÔ
( ANDRÉ  DERAIN , 1880 - 1954
Em muitas fontes artísticas, literárias musicais e cinematográficas podemos encontrar temas e personagens (alguns mitificados) que pode servir de rica ilustração do mundo canceriano. Um dos mais fascinantes personagens é o do Pierrô. Sonhador, poeta, vivendo no "mundo da Lua", usando uma espécie de caftã branco aperolado, é um dos mais notáveis personagens lunares no mundo da arte. É o oposto de Arlequim, este tipicamente geminiano. Oriundo da Commedia dell´Arte, como o Arlequim, tem nela o nome de Pedrolino. Apareceu em Paris no séc. XVI, de onde saltou para os teatros de feira, para a Ópera Cômica francesa e para o resto do mundo, inclusive para o carnaval brasileiro, onde tem como parceira Colombina. Maestro da pantomima, Pierrô não consegue falar, apenas sente. Ingênuo e sentimental, com a sua roupa enfeitada de pompons e gola grande franzida, ama Colombina, que não o ama. O Pierrô foi imortalizado por um dos maiores atores do teatro e do cinema de todos os tempos, Jean-Louis Barrault, como Baptiste, no filme Les Enfants du Paradis (exibido no Brasil com o idiota título Boulevard do Crime), de Marcel Carné, obra-prima do cinema francês (1945). Nas artes plásticas, Antoine Watteau (1.684-1.721) imortalizou o personagem na tela como Pierrot ou Gilles. Na música, o personagem foi homenageado por Arnold Schoenberg que, com a sua peça Pierrot Lunaire, produziu uma das mais revolucionárias obras musicais do séc. XX. 



Uma das melhores ilustrações do signo de Câncer nós a encontramos, sem dúvida na lâmina XVIII do Tarot, nela estando incluídas, segundo nossa interpretação, referências às constelações do Cão Maior e do Cão Menor e às suas duas mais importantes estrelas, Sirius e Procyon. Lembre-se que a primeira constelação mencionada estende-se de 0º de Câncer a 0º de Leão e a segunda de 19º a 28º de Câncer. Sirius está hoje aproximadamente a 13º24´de Câncer e Procyon a 25º06´de Câncer. A constelação de Câncer, por sua vez, estende-se de 22ºde Câncer a 17º de Leão.

Associando-se a Câncer, as estrelas Sirius e Procyon, numa interpretação astrológica (veja, se quiser, neste blog, os artigos sobre as constelações do Canis Major e do Canis Minor) indicam que elas influenciam fortemente o mundo canceriano ao indicarem que a partir dele há um eu a ser construído (passagem de Câncer para Leão ou da quarta casa para a quinta casa astrológicas). Não é por outra razão que num plano psicológico, o cão é um arquétipo da individuação, representando o primeiro estágio da nossa evolução psíquica. O modelo básico deste entendimento está em Cérbero, o cão tricéfalo, de dentes envenenados, que guarda as portas do Inferno (Hades), símbolo do limiar que separa o consciente do inconsciente, primeiro estágio de nossa evolução. Amigo fiel do homem, seu companheiro desde a mais remota antiguidade, seu indicador de trilhas na arte da cinegética, animal psicopompo por excelência, o cão sempre foi miticamente o seu guia na vida como na noite escura da morte.


Para Ptolomeu, as estrelas que estão nos olhos do caranguejo exercem influências de natureza mercuriana. As que estão nas pinças atuam saturninamente e mercurianamente. A estrela mais brilhante de Câncer é Acubens, numa das pinças. As outras estrelas de Câncer, menos importantes, são os dois Asnos (Aseli), o Boreal (Norte) e o Austral (Sul), estrelas assim designadas para honrar os dois animais, um de Hefesto e outro de Dioniso, por eles montados na Titanomaquia. Há também em Câncer uma nebulosa a que se deu, segundo a tradição, o nome de Manjedoura, de Colmeia, de Creche ou Presépio, na cabeça do caranguejo. Simbolicamente, não é preciso muito esforço para se perceber que os nomes desta nebulosa se associam a lugares protegidos onde se come e onde também são dispensados cuidados maternais (Creche). Já a palavra presépio lembra, etimologicamente, lugar fechado onde se guardam animais durante a noite (prae,  antes, na frente, e saepes, cerca, barreira).

Diante do que se expõe acima, fica difícil entender por que os cristãos fixaram a data de nascimento de Jesus Cristo no solstício de inverno (dezembro, signo de Capricórnio) e adotaram para representar esse nascimento, desde S.Lucas, um cenário que a tradição sempre associou ao signo de Câncer (solstício de verão). O nome de Colmeia, por sua vez, nos remete a uma ideia de agrupamento, tanto de vida comunitária como de massificação, um conjunto de seres submetido a um destino do qual não se pode escapar, um destino inexorável, imutável. A massa, o pastoso, o sem forma é o que chamamos popularmente de povão, sempre a ser modelado. E, apesar deste destino, também presentes, algumas vezes, cada vez menos aliás, sugestões de sacrifício do individual pelo coletivo, de solidariedade, de misericórdia, características quem sabe ainda presentes em certos tipos humanos do signo. 


MODERNO TELESCÓPIO
HUANCAYO , PERU
Sob o ponto de vista de antigas tradições astrológicas (Aratus), a Colmeia, como nebulosa, pode prejudicar a visão daquele que sofre influência. Ela, como toda nebulosa, não permite que "vejamos" bem, isto é, não enxergamos nada além dos valores cancerianos. Esta nebulosa é uma das maiores e mais brilhantes do céu, podendo ser vista a olho nu em noites muito claras. Galileu quando a viu registrou nela observou 36 estrelas. Modernos telescópios aumentaram esse número para 300. Sua distância da Terra é estimada em 525 anos-luz. 

SÃO  JOÃO
( EL  GRECO , 1541 - 1614 )
Já na antiguidade estavam identificadas 83 estrelas em Câncer, nenhuma delas merecendo destaque especial. Por esta razão, o signo foi muitas vezes designado pelo nome de O Ataúde pelos judeus e de O Sepulcro de Lázaro pela tradição cristã. Lázaro, amigo de Jesus e por ele ressuscitado, como se sabe, aparece no evangelho de S.João e era amigo de Jesus, irmão
MARIA  BETÂNIA
( RUBENS , 1577 - 1640 )
de Marta e de Maria Betânia. A lenda o fez desembarcar milagrosamente em Marselha, cidade marítima do sul da França, da qual ele se tornará o seu primeiro bispo e lá será martirizado. Não se deve confundir este Lázaro (em hebraico, coberto de úlceras, chagado) com o mendigo leproso de que fala S.Lucas. Deste Lázaro é que vêm nomes como lazarento e leprosário. 

Quanto ao simbolismo de ataúde, ele aponta aqui para o fato de que a morte tudo nivela. No ataúde, todos são iguais, ninguém tem mais identidade. Uma alegoria que, sem dúvida, liga o signo de Câncer (quarta casa astrológica) ao ataúde. Na medida em que este seja uma simples caixa de pinho ou um rico caixão funerário, feito com madeiras nobres e ricos ornamentos metálicos trabalhados, o signo de Câncer se constitui para muitos, sem dúvida, um "morada" de gente morta, sem vida própria. 

Acubens é uma estrela de quarta magnitude, não tendo praticamente maior presença na Astrologia. Está hoje a 12º57´ de Leão. O nome veio do árabe, Al Zubanah, que tem relação com as pinças. Ela incorpora praticamente todo o simbolismo do signo enquanto persistência, ainda que claudicante, habilidade para evitar ou superar circunstâncias adversas. Presentes no simbolismo também sempre ideais de origem (Cloto) e de morte ou renascimento (Átropos). Negativamente, Acubens é apagamento e morte.




quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

MITOLOGIAS DO CÉU - O CÉU

Desde a aurora dos tempos, o homem sempre se sentiu atraído pelos fenômenos celestes e pelos seus reflexos na Terra, principalmente peIa alternância dos dias e das noites, pelas fases da Lua, pelo movimento dos astros, pela volta periódica das estações. O homem constatou no cosmos uma regularidade que não falha. Desde a pré-história, o estudo do céu provocou um movimento duplo: a busca de leis naturais, imutáveis, que em nenhum lugar como no céu aparecem de forma tão evidente, e a tendência de colocar nos céus seres sobrebaturais e todo poderosos. Entender o céu através de suas leis e de ver nele a morada de divindades e dos eleitos.



Foram constatados desde muito cedo na história do homem nexos, relações entre certos fenômenos celestes e terrestres, particularmente nas latitudes médias, entre o movimento das estações e o percurso do sol no círculo zodiacal e entre as fases da Lua e o movimento das marés. Ao lado dos fenômenos celestes que se repetiam periodicamente, ocorriam também acontecimentos excepcionais, espetaculares como eclipses do Sol e da Lua, movimento de cometas, estrelas cadentes, meteoritos. Além disso, havia também o giro circular dos planetas pela faixa zodiacal, sempre intrigante.


Os modelos terrestres de representação do espaço celeste sempre variaram muito de acordo com a visão de cada tradição; as imagens escolhidas para simbolizar o espaço celeste foram aparecendo: cúpula, cobertura, redoma, dossel, taça virada, tartaruga, uma espécie de oceano que uma forte pressão atmosférica impede de escorrer e sob a qual os astros deslizam como barcos num mar tranquilo. A tartaruga, por exemplo, é uma cosmografia viva devido à sua carapaça e à sua parte inferior, achatada, quadrada, uma imagem do ceu da terra. Por isso, em muitas culturas, principalmente no extremo-Oriente, a tartaruga é uma representação do cosmos.

A palavra céu vem do latim, “caelum”, onde tem o sentido de cobertura abobadada, arqueada. Na maior parte das línguas, é tanto região das nuvens e dos astros como morada dos deuses e repouso dos eleitos. Fisicamente, é o espaço onde se localizam as nuvens, uma espécie de envoltório limitado pelo horizonte, onde brilham os astros e luzem as estrelas, sempre um cenário de acontecimentos espantosos.

Conceitos de ordem meteorológica, teológica, astronômica, astrológica e mitológica sempre se misturaram a teorias diversas sobre a criação do mundo e o aparecimento do cosmos como ordenação. Em todas as tradições encontramos mitos sobre a unidade original entre o céu e a terra, seja na forma de confusão, caos, seja na forma de uma união entre uma entidade masculina, celeste, fecundante, e uma entidade feminina, terrestre, geradora, depois separados pela interposição do ar, tudo para lugar ao aparecimento do ser humano, os nascidos do "humus".

O espaço celeste sempre se revestiu de uma dimensão sagrada, sempre teve uma significação religiosa, lugar de hierofanias. Os antigos, quando contemplavam o céu, passavam sempre por uma experiência religiosa. A natureza, para esse homem, jamais foi considerada como simplesmente "natural". Ao contrário, sempre foi vista como um reflexo do céu. Os ritmos lunares, o ciclo das estações, o aparecimento e o desaparecimento do Sol a cada dia, por exemplo, adquiriam valores religiosos para a humanidade arcaica.

Já se disse que uma das principais diferenças que separam o homem das antigas culturas do homem moderno reside justamente na incapacidade que este último tem de viver a vida orgânica como um sacramento. Para o homem moderno, os atos de sua vida orgânica não passam de acontecimentos fisiológicos. Para os homens do mundo arcaico, ao contrário, esses atos eram sacramentos, ritos, cerimônias que lhes permitiam entrar em contacto com a força que representava a própria vida, epifanias de uma Realidade Última.

Ligado aos milagres do seu cotidiano, esse homem, ao contemplaro céu, tinha revelações, pois ele lhe falava, acima de tudo, de transcendência, de eternidade, de infinito, de elevação, de renovação, de inacessibilidade. O alto logo se torna, naturalmente, um atributo do divino. As regiões celestes, as zonas siderais, adquirem um valor de perenidade, pertencendo, por direito, às forças e aos sobrenaturais seres que nelas vivem. A dimensão religiosa do céu também explicava para o homem primitivo, de um modo muito claro, que tanto a vida como a luz, vinham sempre das alturas.


O homem primitivo sempre viu também o céu como uma cúpula fixa, o firmamento, embora cenário de inúmeras mudanças. Quando estas mudanças escapavam da normalidade, isto é, de determinados ritmos conhecidos, era costume universal que o temor se apoderasse desse homem. Até que o fenômeno dos eclipses fosse conhecido, a “morte” da Lua ou do Sol provocavam grandes manifestações, alaridos, o chamado charivari (do grego, karebaria, barulheira, que pode dar dor de cabeça). O alarido tinha a finalidade, nos eclipses, de afastar as influências nefastas, no caso o monstro cosmológico que tentava devorar um dos luminares. O eclipse na visão do homem primitivo era sempre uma sugestão de ruptura de uma ordem, falha num encadeamento regular, do dia e da noite, da luz e das trevas. Esta ruptura punha não só em perigo a ordem cósmica como a vida social e a individual, pois todas estavam interligadas. Os cometas, por seu lado, eram “perigosos” por causa da irregularidade do seu movimento, trazendo a desordem para o céu. Até recentemente (séc. XVIII) cometas eram representados em gravuras populares em forma de espadas e estrelas cadentes como vigas em chamas.


As órbitas dos astros eram traçadas pelos seus deuses tutelares para que fossem enviados aos humanos, segundo a sua conduta, a chuva benéfica, as tempestades destrutivas, a brisa amena e suave, a seca mortífera, a advertência dos trovões ou a punição dos raios. Na mitologia grega, a primeira representação do céu tem em Urano (céu, em grego) a sua expressão maior. Urano personifica o céu enquanto elemento fecundador de Géia, a grande mãe-terra. Era imaginado como uma abóbada, um hemisfério, que cobria Géia por inteiro, esta concebida sob uma forma esférica e achatada. Mutilado e destronado, uma nova dinastia, chefiada por seu filho caçula, Cronos assumirá o poder, instaurando o reino dos titãs, seres ligados à vida material. O parricídio cometido por Cronos será punido pela revolta dos seus próprios filhos. Ao fim de uma guerra de dez anos, vencidos, os titãs serão encerrados no Tártaro, nas profundezas sinistras e tetenebrosas infernais. Zeus, o filho caçula de Cronos, assumirá então o poder, cabendo-lhe a supremacia absoluta do cosmos.

O nome de Zeus jamais foi usado pelos gregos para designar o céu. Ao seu nome se juntarão, isto sim, qualificativos e atributos sempre ligados à atividade celeste, ao movimento das nuvens, aos trovões, aos relâmpagos e aos raios. A figura de Zeus era a conclusão de um longo processo que fazia, desde a pré-história, o homem identificar as divindades supremas como divindades celestes.

Platão fala no “Timeu” que Deus distribuiu os astros pela abóbada celeste para que ela fosse um cosmos, isto é, uma ordem. Numa das obras atribuidas a Platão, o “Epinomis” (na realidade escrita por um colaborador seu, Philippe Oponte), os planetas receberam, pela primeira vez, o nome dos deuses gregos. Aos poucos, uma grande concepção astrológica do mundo se estabeleceu a partir deste texto: “a contemplação do céu é uma iniciação real” e “há inteligência nos astros” são frases nele encontradas.


Desde tempos muito recuados, o ser humano sempre procurou, através de teorias baseadas em analogias e correspondências, estabelecer uma relação entre os acontecimentos macrocósmicos e o mundo humano. O ponto de partida para o entendimento destas teorias esteve sempre na explicação de que a vida terrestre dependia do céu. Assim como as plantas, os mares, os animais e o mundo mineral dependiam do céu, o homem também sofria as influências provenientes do movimento dos astros e do calendário deles decorrente. Deu-se o nome de Astrologia ao estudo dessas influências, que sempre suscitaram grande interesse, apesar das objeções que contra ele se levantam em determinados períodos da história da humanidade.

O desejo de desvendar o mistério das leis cósmicas e da harmonia da vida terrestre segundo as estruturas do céu (constelações, planetas e estrelas, principalmente, devido aos seus movimentos e ritmos) levou praticamente todas as culturas a elaborar representações celestes que lhes parecessem significativas para explicar o destino do homem e a vida na terra, de um modo geral. As imagens criadas ao longo dos séculos, para os mais informados, continuam a parecer pertinentes até hoje, o que explica, sem dúvida, que a sua carga simbólica sobreviva num mundo dominado pelo realismo cientifico e pela técnica.

Ao lado das evidências celestes “maiores” (o Sol, a Lua e os planetas), o homem, aos poucos, foi aprendendo a se abrir para o céu noturno. Assim, tanto as grandes civilizações como as menores, nas várias latitudes e longitudes, foram aprendendo a agrupar as estrelas, nascendo assim a observação e o estudo das constelações. Para os povos antigos, as estrelas no céu noturno eram fontes de luz nas trevas, morada de divindades ou de heróis metamorfoseados em astros.

Os romanos, por exemplo, atrbuiram uma influência maléfica à estrela Sirius, chamada de Canícula, a estrela da constelação do Cão Maior. A ninfa Calisto e seu filho Arcas estão nos céus como as constelação da Grande e da Pequena Ursa. Na tradição judaico-cristã, por exemplo, cada estrela é tutelada por um anjo, todas obedientes à vontade de Deus. Certos personagens históricos, como os imperadores Constantino, Carlos Magno e Frederico, o Grande, sempre afirmaram que quando do seu nascimento estava presente nos céus uma estrela que guiou os seus destinos. Esta afirmação tem muito a ver com a chamada estrela de Belém, sempre ligada a fenômenos miraculosos, algo talvez mais psicológico que físico. Ou, para outros, uma concessão da Igreja católica então nascente ao pensamento astrológico, ao tempo muito poderoso. No mundo judaico-cristão, há uma referência (Apocalipse) a um astro de fogo, chamado Absintho, que cairá dos céus para anunciar o fim do mundo e o julgamento final.

Em cada área geográfica da terra, umas constelações, suficientemente altas, acima do horizonte, aparecem noite após noite, sempre iguais. Sem jamais se porem ou nascerem, elas giram em torno de um ponto fixo no céu. Esse ponto fixo foi chamado de estrela Polar. Essa estrela, na simbólica universal, tem um papel de enorme destaque, é um ponto, um centro absoluto em torno do qual o universo gira eternamente. Todo o céu gira em torno deste ponto fixo, que lembra um motor imóvel de Aristóteles. A estrela Polar é o ponto em relação do qual se define a posição das demais estrelas e a de todos aqueles que se movimentam na terra, navegadores, viajantes, exploradores, nômades, aventureiros. Em muitas religiões primitivas é nela que tem o seu trono o Ser Divino a que são atribuídas a criação, a manutenção e a destruição universais.

A estrela Polar aponta sempre para o norte para onde caminha o nosso planeta, o sistema solar, a galáxia, o universo como um todo. Umbigo do mundo, a estrela Polar indica a morada do Ser Supremo uraniano em todas as tradições. É por essa razão que os povos da Ásia sempre levantaram os altares de seus templos em direçao do norte, como está, aliás, na própria Bíblia: "Eu me sentarei sobre a montanha onde têm assento os deuses, nas regiões longinquas do setentrião." Na índia, por exemplo, o antigo casamento védico era celebrado com referências à estrela polar.


O agrupamento das estrelas em constelações é arbitrário só aparentemente. Cada civilização, cada tradição, cada tribo faz o seu recorte, dando-lhe um nome, animando-o e dramatizando-o segundo os seus mitos. É neste particular que as semelhanças podem se revelar espantosas, indicando que por trás das aparentes dissemelhanças encontramos uma linguagem comum, através da qual a variedade das percepções pode ser expressa. A partir do ano de 1922, a União Astronômica Internacional procurou delimitar as configurações, chegando seu número a quase 90, designadas por nomes latinos.

Os nomes dos estudiosos do céu, que nos chegam da antiguidade são muitos. Até onde as investigações puderam nos levar, tudo indica que com Berose a antiga astrologia se tornou uma técnica oculta. Ele era caldeu (sinônimo de astrólogo), vinha da Mesopotâmia e era sacerdote de Marduk. Sua teoria sobre os ciclos atravessaram os séculos. A astrologia tornou-se popular no século II aC, em particular graças aos sábios egípcios. Os mais célebres astrólogos desse tempo foram Hephaistos de Tebas (380 aC), Paulo de Alexandria (378 aC). Os eruditos belgas F.Boll e F.Cumont (O Egito dos astrólogos) conseguiram reunir muitos textos gregos dessa época.

As constelações que estudaremos no transcorrer deste ciclo (Mitologias do Céu) são aquelas que na antiguidade se fixaram principalmente através das obras de Claudio Ptolomeu. Astronômo, matemático, geográfo e sobretudo astrólogo, Ptolomeu (90 -168 dC) foi um dos maiores estudiosos do céu em todos os tempos, sendo o autor de um sistema geocêntrico que prevaleceu (e que continua a prevalever para os astrólogos) até o século XVI. Suas observações foram feitas entre 127 e 141 dC em Alexandria. De todas as suas obras, a mais importante é o Almagesto, uma exposiçao completa de seu sistema astronômico.São reunidos neste trabalho todas as teorias existentes sobre o assunto até então, principalmente a de Hiparco, bem como conhecimentos trigonométricos da época. Ptolomeu descreveu os movimentos do Sol e da Lua, além dos planetários, visíveis até Saturno. Sua obra máxima para a Astrologia é o Tetrabiblos, trabalho canônico. Construiu instrumentos astronômicos, dentre eles o astrolábio, que leva o seu nome, e globos terrestres.