Mostrando postagens com marcador TAMUZ. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TAMUZ. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de maio de 2017

CÂNCER (4)

                                                   
Na Índia, quando a alma chega ou não à libertação (moksha), abrem-se dois caminhos para ela. Um é o da reencarnação, caminho do solstício de inverno, chamado pelos hindus de pitriyana ou dhumamarga. O outro é o caminho que leva ao Brahman, de onde não há mais retorno. Este caminho, ligado ao solstício de verão, tem o nome de devayana ou archimarga. 


CERIMÔNIA  -  PITRIS

É preciso lembrar, quando entramos neste tema da reencarnação, que para os hindus ainda depois de muito tempo que uma encarnação teve fim, a alma conserva algumas ligações com o seu ambiente terrestre, com o seu mundo familiar. É isto que leva os hindus a elaborar um complexo culto dos antepassados (pitris). Segundo o grau de sua ligação com o mundo ancestral, a alma pode ficar habitando um dos três mundos dos ancestrais (pitrilokas), tendo, nessa condição, ainda, muitos envolvimentos com o mundos vivos.


CREMAÇÃO  -  GANGES

A alma, depois da morte do corpo físico, pode passar por um grande período de hesitação, durante o qual, não totalmente liberta dos laços terrestres, fica errando como um fantasma. Nessa condição, tem o nome de preta. O culto dos antepassados, que tem um grande lugar na religião hindu, inicia-se a partir do quarto dia da cremação. Recolhe-se a ossada e o que sobrou num vaso de argila (asthisauchaya) para ser tudo lançado num rio, de preferência no Ganges. 


MANSÕES   LUNARES  -  NAKSHATRAS

É sob o nome de pitris (ancestrais) que são venerados os primeiros progenitores (miticamente) da raça humana bem como os ancestrais familiares, cremados ou inumados segundo os ritos. Eles são, em geral, considerados como semelhantes aos deuses, com os quais muitas vezes entram em choque. Nessa condição, são imortais e compartilham com eles uma vida de imortalidade. os ritos, chamados shraddhas (homenagens), são realizados em sua honra e as oferendas a eles feitas têm o nome de pindas. Os ancestrais residem no espaço ou na esfera da Lua. Eles são regentes das constelações (nakshatras ou mansões lunares) conhecidas pelo nome de Magha e de Mula. A primeira é a décima mansão lunar e seu nome significa A Poderosa, indo, na esfera zodiacal, de 0º a 13º20´de Leão. A segunda é a décima nona mansão lunar e seu nome pode ser traduzido como A Raiz, estendendo-se de )º a 13ª20´de Sagitário. Quando a Lua atravessa Magha, esse período, dentre outras possibilidades astrológicas favoráveis, é propício para a realização de cerimônias que homenageiem os ancestrais. 

LEI   DO  KARMA
O Hinduísmo admite que a alma (jiva) não nasce apenas uma vez, mas várias vezes, inúmeras vezes, quer no passado, quer no futuro. As suas ações no plano terrestre, segundo a lei da causalidade (lei do karma), determinam sempre as condições das voltas futuras, isto é, das suas sucessivas reencarnações. O pensamento aqui é claro: o homem é sempre o que ele faz de si mesmo e este fazer-se determina no que ele se tornará. 


PLÍNIO ,  O   VELHO
As doutrinas pitagóricas nos colocam diante de algo semelhante quando nos falam da identidade substancial das almas e dos astros. É conhecida a citação de Hiparco, segundo Plínio, o Velho, de que nossas almas são uma parte do Céu, que é a sua natural morada. Caídas no mundo sublunar, em razão de uma falta original, é ao Céu que elas retornarão, quando devidamente depuradas. Um dos dogmas do ensino pitagórico era o de que as almas dos seres humanos provêm do Céu. O próprio Pitágoras, aliás, passava por um gênio que descera à Terra para revelar aos homens o caminho da salvação. 

PLUTARCO
Quanto aos egípcios, é interessante notar que eles escolheram o escaravelho para representar o signo de Câncer. Quem nos explica isto é Plutarco, historiador, moralista e biógrafo grego. Ele nos dizia que o escaravelho parecia imitar o Sol ao se movimentar, lembrando auto-geração, regeneração, ao rolar uma pequena bolota na qual estava depositada a sua semente (sêmen). Divinizado, tomava o nome do deus solar Ra, chamado de Khepri, imagem do Sol nascente. É por esta razão que as múmias levavam um escaravelho no peito como amuleto, como proteção mágica, tendo em vista o seu renascimento no Outro Lado, depois da psicostasia.

Como motivo de decoração, o escaravelho era encontrado praticamente em todos países mediterrâneos, sempre simbolizando a ressurreição, emblema daqueles que se auto-regeneram. Era, em suma, o Sol que sempre retornava depois de ter atravessado as trevas noturnas. Além do mais, o escaravelho sabia sobreviver
SANTO   AMBRÓSIO
quando das enchentes do rio Nilo. Segundo crenças muito antigas, profundamente arraigadas em antigas tradições, ao se alimentar, o escaravelho sempre se alimentava do que lhe era estritamente necessário, colaborando dessa forma para a regeneração física e moral do cosmos. Foi por esta razão que Santo Ambrósio, um dos maiores doutores da Igreja católica, sempre associou a imagem de Cristo à do escaravelho.

ANEL   TALISMÃ
COM ESCARAVELHO
A pequena bolota na qual o escaravelho encerrava a sua bolota era chamada de "o ovo do mundo do qual nascia a vida." Ao favorecer a reencarnação, o escaravelho, como talismã (do árabe, talasim, sortilégio; e do grego, telesma, rito religioso), era muito valorizado. Muito falsificados, os talismãs fabricados do Egito eram vendidos "a peso de ouro".

Na antiga Roma, segundo Plínio, o Velho, os cornos deste coleóptero, colocados numa pequena cápsula (sachê), eram considerados também como poderoso amuleto, protegendo especialmente a vista. Era comum, segundo Plutarco, que os soldados gregos, os hoplitas principalmente, durante as batalhas, usassem amuletos na forma de escaravelhos como proteção do
SARAH   BERNHARDT
( PAUL   NADAR , 1856 - 1939 ) 
corpo físico. A fama do escaravelho como amuleto ou talismã atravessou a Idade Média, alcançado a sua maior voga em fins do séc. XIX. Em toda a Europa, um berloque ou um pendantif na forma do inseto eram usados como emblema de fidelidade conjugal, moda lançada ou difundida pela famosa atriz do teatro e do cinema mudo francês, Sarah Bernhardt. Com menos evidência hoje, o escaravelho, como talismã ou amuleto, ainda é muito valorizado, protegendo contra a morte violenta e contribuindo para uma saudável vida longeva.


A associação do escaravelho com o signo de Câncer também tem a ver com o lado negativo do inseto na medida em que ele, como inúmeras crenças o atestam, tem relação com o fim da vida e, portanto, com a quarta casa astrológica, ocupada no Zodíaco padrão pelo referido signo. O inseto pode se tornar maléfico, trazendo a infelicidade, anunciando a morte, quando aparece a se deslocar velozmente nas dependências de uma casa. "A morte é quase certa", diz a tradição, quando um escaravelho negro sobe pelo sapato  ou se movimenta sobre o corpo de alguém que esteja deitado. Na Escandinávia (Suécia), por exemplo, o escaravelho aparece ligado ao deus Thor, nome do qual retira a sua designação, thorbagge, inseto de Thor. Foram os primeiros cristãos da Escandinávia, numa reação aos cultos aborígenes, que demonizaram o escaravelho, chamando-o de o Diabo de Thor.


CÃO   MAIOR
Os egípcios colocaram o início do seu ciclo anual no mês em que o Sol ingressava no signo de Câncer (solstício de verão), simbolizando este ingresso a entrada da alma no corpo físico. Esta ideia está presente nos céus se lembrarmos que a estrela Sirius, Sothis para os gregos, Sepedet para os egípcios, da constelação do Cão Maior, que cobre os trinta graus de Câncer, ao aparecer nos céus, anunciava a inundação do rio Nilo, dia  que marcava o início do ciclo anual e o Egito renascia. Era nesse momento que Osíris e Ísis, representantes das forças da fecundação e da geração de formas, venciam Seth, que representava as forças do mal, da esterilidade, do deserto.

PENTATEUCO
Entre os judeus, o quarto signo zodiacal, Câncer para nós, recebeu o nome de Tamuz. Para melhor compreender o que Tamuz significa,muito oportunas algumas referências históricas relacionadas com os três primeiros signos. Em Nissan (Áries) tivemos a libertação dos judeus do cativeiro egípcio, iniciada por Moisés e concluída por Josué, que os levou à terra prometida. Esta história, conhecida pelo nome de êxodo (ietssiat mitsraim), é o tema principal do segundo livro de Pentateuco. O êxodo é o centro da liturgia e das práticas do calendário judaico, de modo especial as festas relacionadas com peregrinações. Considera a liturgia que todo judeu, a qualquer tempo, participa do êxodo, pois o acontecimento é recriado a cada ano pelo ritual do Pesach.

Em lyar (Touro), temos a referência à descida do maná do céu, o alimento milagroso, em forma de orvalho, que alimentou os judeus durante o êxodo. Conta a tradição que o maná era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando nenhum vestígio no aparelho digestivo, e tendo o sabor que os seus consumidores quisessem. O maná não consumido era recolhido e dado aos animais. Consumida pelos gentios, a carne de tais animais permitiu que os gentios participassem inclusive, indiretamente, da dádiva celeste recebida pelo povo judeu. Uma das grandes vantagens que o maná proporcionava era de afastar os judeus da faina agrícola e dos afazeres domésticos, permitindo-lhes dedicar muito mais tempo ao estudo da Torá.


MOISÉS  RECEBE  A  TORÁ
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )  
No mês de Sivan (Gêmeos) temos a entrega divina da Torá a Moisés. Conceito central do judaísmo, a Torá, segundo os mestres judaicos, já existia antes do mundo vir a ser criado e foi usada por Deus como base para tal criação. A Torá foi revelada por Deus a Moisés no monte Sinai, durante os quarenta dias e quarenta noites que ele lá passou. Recebendo-a e passando-a para o povo judeu, a peçonha da serpente foi removida de Israel. A rigor, o nascimento de Israel só se deu neste mês, no qual a vida racional começa, com o recebimento da Torá por Moisés. É por esta razão que a Astrologia judaica considera os dois signos anteriores, Áries e Touro, como ligados à vida instintiva, pois estão relacionados com animais. É neste dois meses que os judeus devem se esforçar para elevar a sua alma "animal", isto é, devem procuram dominar a sua vida instintiva para que possam receber no mês de Gêmeos (Sivan) a Torá. 

ABRAÃO  E TRÊS ANJOS
( MARC   CHAGALL )
O desenvolvimento religioso do povo judeu, como sabemos, tem três fases: a primeira centrada na figura de Abraão, a segunda é associada a Jacó ou Israel e a terceira a Moisés. Só com o estabelecimento do pacto religioso do Sinai  e dos acontecimentos que se sucederam é que os filhos de Israel se tornaram realmente a nação de Israel. Foi este pacto do Sinai que consolidou um mundo até então disperso em tribos como uma verdadeira nação, uma congregação marcada por sua singularidade religiosa.   

Depois destes meses que constituem a primavera, os três seguintes, relacionados com o verão, são muito mais importantes para história de Israel, já que neles temos tanto o seu crescimento material como seu desenvolvimento na direção de elevados planos espirituais. É
TERRA  PROMETIDA
( MARC  CHAGALL )
nesta fase do zodíaco, associada simbolicamente a Israel, que a sua história começa, marcada pelo envio, por parte de Moisés, de espiões para investigar a terra prometida por Deus, da qual os judeus deveriam se apossar. Tal missão, iniciada em Tamuz, prolongou-se pelo mês de Av (Leão). A missão, como se sabe, falhou; as informações trazidas pelos espiões era falsas, o que ocasionou o adiamento da invasão. 

O signo de Tamuz, como quarto mês do calendário, começava no final de junho ou início de julho, sendo considerado o mês mais quente do ano, Durante este mês, os judeus observavam, a partir do dia dezessete, um período de três semanas de luto pela destruição do templo de Jerusalém, construído por Salomão. Os judeus acreditavam que em tal dia ocorreu não só a destruição do primeiro como, muito mais tarde, do segundo templo, destruídos respectivamente pelos babilônicos e pelos romanos, quando os muros da cidade foram rompidos. Tal acontecimento era comemorado por um dia de jejum, que dá início ao período de luto de três semanas. 

JOSUÉ  E  SEU  POVO
 ( MARC  CHAGALL )
Além das informações falsas sobre a Terra Prometida e seus habitantes, o comportamento dos espiões maculou a visão que os judeus deveriam ter da Terra Prometida. Dos doze espiões enviados, só dois, Josué e Calebe, a viram com olhos espirituais, guiados pela percepção intelectual Os demais falaram que a terra era excelente, mas que os judeus seriam mortos se tentassem tomar o país. A visão dos dez espiões foi falseada por razões emocionais, uma visão tipicamente canceriana, se usarmos a Astrologia para melhor interpretar esta passagem. Em Câncer há sempre o perigo que a visão emocional se sobreponha à racional, não permitindo que desta se passe à espiritual. 

As letras que os judeus ligam a este signo são Heth, que deu origem ao signo de Câncer, e Tav, que gerou a Lua. A primeira lembra existência rudimentar, a substância primordial dos organismos vivos, mas já capaz de sentir e reagir a estímulos. É a existência protoplásmica, matéria fundamental. Tav nos remete a ideias de abundância, calor, proteção. Heth, pelo seu lado positivo, sugere limpeza, purificação, qualidades que se levadas ao coração "limpam" a visão. Como dizem os judeus, o sentido do pecado está na visão. É por ela que somos geralmente tomados pelo desejo, pela concupiscência, o coração se enche de luxúria, e que passamos a viver só no reino da carne. "Vivendo" desta maneira, o coração aquece o sangue, aquecimento, sentido que a palavra Tamuz tinha no antigo aramaico. 

A Astrologia dos antigos judeus nos dizia que era durante o mês de Tamuz que os aspectos do mundo exterior se tronavam mais atraentes. Dizia-nos ela também que o caranguejo era o alimento preferido das pessoas que se entregam aos desejos e aos prazeres. Sartan (caranguejo) é nome que, embora pouco usado, serve também para designar quarta constelação zodiacal entre os judeus.
TRIBOS   DE   ISRAEL
( MARC   CHAGALL )
O regente do signo de Tamuz é a Lua, que tem um grande poder sobre as águas. O Zohar, por sua vez, que estabelece uma correspondência entre as tribos de Israel  e os meses do ano, aponta uma relação entre os signos de Nissan, tribo de Judá, e de Tamuz, tribo de Ruben, pois ambos marcam o início de estações. Ainda astrologicamente, podemos que as três dinâmicas zodiacais, a cardinal, a fixa e a mutável, são representadas, respectivamente, por Abraão, por Isaac e por Jacó. O elemento de Tamuz é a água, compartilhada por ele com os signos de Cheshvan (Escorpião) e Adar (Peixes), relacionados respectivamente com as tribos de Menasche e Naftali. A energia de Tamuz é, como se disse, representada por Reuven ou Ruben (etimologicamente, reu, ver, e vem, filho), que se guiou sozinho pelo deserto quando do êxodo. A tribo de Ruben, instigada por Korach, o levita, se rebelou contra a autoridade de Moisés.

O   BEZERRO   DE   OURO  ( MARC  CHAGALL )

Dizem os antigos astrólogos judeus que os sentidos da visão e da audição são os mais fácil e imediatamente impressionáveis e que, por isso, são sempre os que nos empurrar para agir mais precipitadamente. As tribos de Ruben (Tamuz) e de Shimeon (Av) agiram dessa forma no deserto, procedimento muito comum, no dizer dos referidos astrólogos, das pessoas que sofrem a influência dos dois signos, considerados muito problemáticos. Foi no mês de Tamuz que ocorreu o episódio do Bezerro de Ouro.

A água (o movimento das marés), como elemento de Tamuz, aparece normalmente associada ao desejo entre os judeus. Ambos, a água e os desejos, por suas características lunares, estão sempre a fluir, fazendo o homem mudar sempre. Devido às influências de Tamuz, o homem se torna excessivamente sensível, oscilante, cheio de suscetibilidades, idiossincrático, lembrando muitas vezes, com a sua instabilidade, principalmente a emocional, o movimento dos caranguejos. É de se lembrar que muito antes de adotarem a Astrologia grega, os árabes já conheciam a constelação de Câncer, dando-lhe o nome de Al Saratan, o caranguejo. Nos dialetos aramaicos, a constelação era chamada de Sartana ou Sartan.

Devido ao seu aspecto, o caranguejo era considerado pelos antigos egípcios como um símbolo do poder produtivo das águas, sobretudo pela sua capacidade, segundo eles, de separar de seu corpo seus membros mutilados para dar nascimento a outros. Além do mais, em virtude de seu aspecto repelente, de suas pinças e de sua carapaça, que lembra a proteção de muitos seres demoníacos, o caranguejo sempre foi considerado como uma criatura do mal, satânica. Essa reputação se deve naturalmente à sua natureza lunar, maléfica, atestada desde a mais remota antiguidade. Não é por acaso que o caranguejo, enviado por Hera, aparece nos trabalhos de Hércules como um auxiliar da monstruosa Hidra de Lerna. Hércules, como se sabe, no seu oitavo trabalho, venceu a Hidra e matou o caranguejo, cuja imagem a deusa colocou nos céus para representar a quarta constelação zodiacal.


HÉRCULES  LUTANDO  CONTRA  A  HIDRA  E  O  CARANGUEJO

Domicílio da Lua, Câncer, como todo signo astrológico, apresenta características bastante ambíguas, que podem ser vividas positiva como negativamente, embora, de um modo mais abrangente nos parecendo que estas últimas prevaleçam bem mais. Se de um lado temos ideias de fecundação, de geração, de (hiper)sensibilidade, de memória ativa, de outro temos aderência prolongada ao princípio maternal, dificuldade de libertação de esquemas familiares protetores, excesso de emotividade, infantilismo psíquico, gosto pela intimidade etc. A associação do signo com o universo aquático faz de Câncer o símbolo das águas originais (o líquido amniótico), do mistério das águas profundas e dos segredos. 

Quando aproximamos os valores cancerianos das histórias das grandes famílias (gene, plural de genos) da mitologia grega, principalmente as reais, podemos ampliar bastante as possibilidades significativas tanto de um lado como de outro. Ao fazer esta aproximação, o que de imediato mais chama a nossa atenção são os fortes traços de violência e maldição, de perversidade e de perturbação mental, de loucura mesmo, que impregna as relações entre os seus membros.

Quanto a crimes e a procedimentos anormais, a mitologia grega é farta quanto a exemplos  que bem ilustram o que está acima. Alguns exemplos: Parricídio (Kronos castrando seu pai Urano; Édipo matando Laio, seu pai, pelo direito de passagem). Matricídio (Clitmenestra assassinada por seu filho Orestes, instigado por sua irmã Electra). Uxoricídio (Hércules, numa crise de loucura, matando Mégara, sua esposa). Mariticídio (as Danaides matando seus maridos). Infanticídio (Medeia matando os seus filhos; Hera mandando matar os filhos espúrios de Zeus). Filicídio (Tântalo matando seu filho Pelops). Fratricídio (Etéocles e Polinice, irmãos, se matando). Incesto (relações de Mirra com Cíniras, seu pai, rei de Creta).  Zoofilia (Pasífae, rainha de Creta, relacionando-se
PLUTÃO   RAPTA  KORE
( J.P. VAN  BAURSCHEIT, 1699-1768 ) 
sexualmente com o Touro divino de Creta, enlouquecido, e tornando-se mãe do monstruoso Minotauro). Corrupção passiva (Hércules solicitando ao rei Augias dinheiro "por fora", quando sua realização do seu décimo primeiro trabalho). Raptos e sequestros (Plutão raptando sua sobrinha, Kóre, filha de Deméter, e levando-a para o Hades, onde se transformou em Perséfone, rainha do mundo infernal; Zeus e Poseidon raptando, respectivamente, os belíssimos Ganimedes e Pélops, para transformá-los em seus escanções pessoais). Genocídio (o massacre praticado por Hércules, quando do seu sexto trabalho, em companhia de outros heróis gregos, invadindo Timiscira, a capital do país das amazonas). Há que se mencionar ainda as taras familiares, como as dos Labdácidas e dos Átridas, que fazem parte desse quadro, todas, de um modo ou de outro, podendo ser consideradas e analisadas astrologicamente a partir dos valores cancerianos.

O que a mitologia grega deixa claro, em que pesem as tintas muito carregadas dos exemplos acima, é que o cenário ambiente dos gene, principalmente das famílias reais, como se disse, é sempre um lugar de lutas, de crimes, de violência, de doenças, de miasmas, de heranças malditas. Um exemplo clássico é o da sucessão das dinastias divinas, um reflexo certamente bastante exagerado das relações familiares de um mundo patriarcal fechadíssimo, mas, à sua maneira, sob muitos aspectos, aceitáveis. Um dado importante que podemos retirar da história da sucessão do poder nas dinastias divinas é que o filho nasce sempre da morte do pai. De ambos os genitores?  Uma antecipação freudiana?


FREUD ( W.V. KRAUSZ , 1936
Uma das mais importantes histórias da mitologia grega, a de Édipo, toda ela centrada em valores familiares, está nos fundamentos do pensamento psicanalítico moderno como Freud o elaborou (se quiser, visite neste blog o artigo Édipo, Jocasta, Antígona, Freud e Anna) . É dele que saiu, por exemplo, o famigerado complexo de Édipo, hoje diluído pelos meios de comunicação para o grande público. Jung, na chamada psicologia profunda, não se cansou, em companhia de Kerényi, de visitar os mitos gregos e de escrever sobre eles. 

ARLEQUIM  E  PIERRÔ
( ANDRÉ  DERAIN , 1880 - 1954
Em muitas fontes artísticas, literárias musicais e cinematográficas podemos encontrar temas e personagens (alguns mitificados) que pode servir de rica ilustração do mundo canceriano. Um dos mais fascinantes personagens é o do Pierrô. Sonhador, poeta, vivendo no "mundo da Lua", usando uma espécie de caftã branco aperolado, é um dos mais notáveis personagens lunares no mundo da arte. É o oposto de Arlequim, este tipicamente geminiano. Oriundo da Commedia dell´Arte, como o Arlequim, tem nela o nome de Pedrolino. Apareceu em Paris no séc. XVI, de onde saltou para os teatros de feira, para a Ópera Cômica francesa e para o resto do mundo, inclusive para o carnaval brasileiro, onde tem como parceira Colombina. Maestro da pantomima, Pierrô não consegue falar, apenas sente. Ingênuo e sentimental, com a sua roupa enfeitada de pompons e gola grande franzida, ama Colombina, que não o ama. O Pierrô foi imortalizado por um dos maiores atores do teatro e do cinema de todos os tempos, Jean-Louis Barrault, como Baptiste, no filme Les Enfants du Paradis (exibido no Brasil com o idiota título Boulevard do Crime), de Marcel Carné, obra-prima do cinema francês (1945). Nas artes plásticas, Antoine Watteau (1.684-1.721) imortalizou o personagem na tela como Pierrot ou Gilles. Na música, o personagem foi homenageado por Arnold Schoenberg que, com a sua peça Pierrot Lunaire, produziu uma das mais revolucionárias obras musicais do séc. XX. 



Uma das melhores ilustrações do signo de Câncer nós a encontramos, sem dúvida na lâmina XVIII do Tarot, nela estando incluídas, segundo nossa interpretação, referências às constelações do Cão Maior e do Cão Menor e às suas duas mais importantes estrelas, Sirius e Procyon. Lembre-se que a primeira constelação mencionada estende-se de 0º de Câncer a 0º de Leão e a segunda de 19º a 28º de Câncer. Sirius está hoje aproximadamente a 13º24´de Câncer e Procyon a 25º06´de Câncer. A constelação de Câncer, por sua vez, estende-se de 22ºde Câncer a 17º de Leão.

Associando-se a Câncer, as estrelas Sirius e Procyon, numa interpretação astrológica (veja, se quiser, neste blog, os artigos sobre as constelações do Canis Major e do Canis Minor) indicam que elas influenciam fortemente o mundo canceriano ao indicarem que a partir dele há um eu a ser construído (passagem de Câncer para Leão ou da quarta casa para a quinta casa astrológicas). Não é por outra razão que num plano psicológico, o cão é um arquétipo da individuação, representando o primeiro estágio da nossa evolução psíquica. O modelo básico deste entendimento está em Cérbero, o cão tricéfalo, de dentes envenenados, que guarda as portas do Inferno (Hades), símbolo do limiar que separa o consciente do inconsciente, primeiro estágio de nossa evolução. Amigo fiel do homem, seu companheiro desde a mais remota antiguidade, seu indicador de trilhas na arte da cinegética, animal psicopompo por excelência, o cão sempre foi miticamente o seu guia na vida como na noite escura da morte.


Para Ptolomeu, as estrelas que estão nos olhos do caranguejo exercem influências de natureza mercuriana. As que estão nas pinças atuam saturninamente e mercurianamente. A estrela mais brilhante de Câncer é Acubens, numa das pinças. As outras estrelas de Câncer, menos importantes, são os dois Asnos (Aseli), o Boreal (Norte) e o Austral (Sul), estrelas assim designadas para honrar os dois animais, um de Hefesto e outro de Dioniso, por eles montados na Titanomaquia. Há também em Câncer uma nebulosa a que se deu, segundo a tradição, o nome de Manjedoura, de Colmeia, de Creche ou Presépio, na cabeça do caranguejo. Simbolicamente, não é preciso muito esforço para se perceber que os nomes desta nebulosa se associam a lugares protegidos onde se come e onde também são dispensados cuidados maternais (Creche). Já a palavra presépio lembra, etimologicamente, lugar fechado onde se guardam animais durante a noite (prae,  antes, na frente, e saepes, cerca, barreira).

Diante do que se expõe acima, fica difícil entender por que os cristãos fixaram a data de nascimento de Jesus Cristo no solstício de inverno (dezembro, signo de Capricórnio) e adotaram para representar esse nascimento, desde S.Lucas, um cenário que a tradição sempre associou ao signo de Câncer (solstício de verão). O nome de Colmeia, por sua vez, nos remete a uma ideia de agrupamento, tanto de vida comunitária como de massificação, um conjunto de seres submetido a um destino do qual não se pode escapar, um destino inexorável, imutável. A massa, o pastoso, o sem forma é o que chamamos popularmente de povão, sempre a ser modelado. E, apesar deste destino, também presentes, algumas vezes, cada vez menos aliás, sugestões de sacrifício do individual pelo coletivo, de solidariedade, de misericórdia, características quem sabe ainda presentes em certos tipos humanos do signo. 


MODERNO TELESCÓPIO
HUANCAYO , PERU
Sob o ponto de vista de antigas tradições astrológicas (Aratus), a Colmeia, como nebulosa, pode prejudicar a visão daquele que sofre influência. Ela, como toda nebulosa, não permite que "vejamos" bem, isto é, não enxergamos nada além dos valores cancerianos. Esta nebulosa é uma das maiores e mais brilhantes do céu, podendo ser vista a olho nu em noites muito claras. Galileu quando a viu registrou nela observou 36 estrelas. Modernos telescópios aumentaram esse número para 300. Sua distância da Terra é estimada em 525 anos-luz. 

SÃO  JOÃO
( EL  GRECO , 1541 - 1614 )
Já na antiguidade estavam identificadas 83 estrelas em Câncer, nenhuma delas merecendo destaque especial. Por esta razão, o signo foi muitas vezes designado pelo nome de O Ataúde pelos judeus e de O Sepulcro de Lázaro pela tradição cristã. Lázaro, amigo de Jesus e por ele ressuscitado, como se sabe, aparece no evangelho de S.João e era amigo de Jesus, irmão
MARIA  BETÂNIA
( RUBENS , 1577 - 1640 )
de Marta e de Maria Betânia. A lenda o fez desembarcar milagrosamente em Marselha, cidade marítima do sul da França, da qual ele se tornará o seu primeiro bispo e lá será martirizado. Não se deve confundir este Lázaro (em hebraico, coberto de úlceras, chagado) com o mendigo leproso de que fala S.Lucas. Deste Lázaro é que vêm nomes como lazarento e leprosário. 

Quanto ao simbolismo de ataúde, ele aponta aqui para o fato de que a morte tudo nivela. No ataúde, todos são iguais, ninguém tem mais identidade. Uma alegoria que, sem dúvida, liga o signo de Câncer (quarta casa astrológica) ao ataúde. Na medida em que este seja uma simples caixa de pinho ou um rico caixão funerário, feito com madeiras nobres e ricos ornamentos metálicos trabalhados, o signo de Câncer se constitui para muitos, sem dúvida, um "morada" de gente morta, sem vida própria. 

Acubens é uma estrela de quarta magnitude, não tendo praticamente maior presença na Astrologia. Está hoje a 12º57´ de Leão. O nome veio do árabe, Al Zubanah, que tem relação com as pinças. Ela incorpora praticamente todo o simbolismo do signo enquanto persistência, ainda que claudicante, habilidade para evitar ou superar circunstâncias adversas. Presentes no simbolismo também sempre ideais de origem (Cloto) e de morte ou renascimento (Átropos). Negativamente, Acubens é apagamento e morte.




sábado, 24 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (2)


Há mais de 5000 anos, o culto às Grandes Mães, ligados à vida vegetal e à agricultura, se estabeleceu praticamente em todas as tradições religiosas, no mundo todo. Como divindades,
GRANDE MÃE
simbolizavam tanto a vida como a morte. Nascer era sair da matriz, morrer era retornar a ela, à terra-mãe. O arquétipo maternal foi sendo construído, dele fazendo parte ideias de origem, natureza, criação passiva, corpo físico com os seus os aspectos instintivos, impulsivos e fisiológicos. Esse modelo maternal tinha (tem)  a ver também com o inconsciente, com a obscuridade noturna e angustiante, ao mesmo tempo protetora e nutricional, lembrando saciedade, segurança, carinho, amor, calor, compreensão. Sendo proteção e refúgio, a mãe foi elevada à condição de primeiro objeto de amor da criança e também o seu primeiro ideal,  fundamento inconsciente de todas as imagens de felicidade, verdade, beleza, perfeição, como as Virgens com o Menino (Madonas), em momentos históricos como o Renascimento, passaram a simbolizar.



MADONA  (GEROLAMO D. POMPEO)

Ao se desligar do ambiente familiar, no qual  a experiência materna normalmente é preponderante, ou mesmo antes desse desligamento, o ser humano tinha, porém, que enfrentar certos problemas, englobados sob o nome de processo de socialização, aprender a se relacionar com outras pessoas, constituir com elas uniões mais ou menos formais, nas quais o diálogo entre o racional, o afetivo e o emocional era sempre difícil. Um diálogo muitas vezes dificultado porque, embora destacado da influência materna fisicamente, o ser humano continuou dela dependente psicologicamente, a se alimentar dela, de valores herdados de seu mundo familiar. 

No panteão de todas as tradições mitológicas há uma divindade feminina que tutela esse processo. É conhecida como deusa do amor, da vida afetiva, da sedução, personificação do princípio passivo da geração, que age sob diversas formas. A água é a sua essência. Neste sentido, ela será a dispensadora da voluptuosidade que atrai pela perspectiva de uma existência langorosa, sensual, terna, prazerosa, que rejeita o bruto, o rude, o violento. De um modo geral, a Grande-Mãe, agindo através desses princípios, é proposta de união, feminilidade, doçura, harmonia, sentido interno de equilíbrio, que se manifesta como encanto e viva intimidade.  


ISHTAR

Uma das mais antigas representações desse modelo é a deusa Ishtar, da mitologia assiro-babilônica, filha de Sin, segundo uns, ou de Anu, segundo outros. Sin era o deus da Lua, ocupando o primeiro lugar na trindade astral, dela fazendo parte os seus filhos Shamash, o Sol, e Ishtar, o planeta Vênus. Os assiro-babilônicos, muito logicamente, faziam a luz provir da noite, daí a razão da proeminência de Sin. Sua esposa era Ningal, a Grande Dama, a Lua fisicamente considerada.


ANU

Anu, nome que significa céu, reinava sobre os espaços celestes, nele residindo, nas regiões mais elevadas. Era, por excelência, a divindade suprema. Todas as demais o honravam como pai, e era junto dele que todas vinham se refugiar quando algum perigo as ameaçava, como no caso do dilúvio. Vivia em companhia da deusa Antu.

Ishtar, nos textos poéticos, era de deusa das manhãs e do entardecer e personificava, como tal, o planeta Vênus. Era um modelo muito complexo, que chegava a reunir, como acontecia em Suse, por exemplo, uma dupla natureza, feminina e masculina. No geral, porém, Isthar representa a polaridade feminina. Os povos árabes farão dela, todavia, uma divindade masculina, o deus Atthar. 

A mesma complexidade está presente nos atributos da deusa, segundo a consideremos filha de Sin ou de Anu, podendo ser tanto deusa do amor como da guerra. A Ishtar guerreira, venerada sobretudo em Hallab, é filha de Sin e irmã de Shamash. Será neste caso a dama das batalhas, a mais intrépida entre os deuses. Ela conservou estas características quando foi adotada pelos assírios. Tendo se tornado esposa de Ashur, ela o seguia nas expedições, tomava destacadamente parte nas batalhas. Era representada sempre de pé, ereta, conduzindo um carro puxado por sete leões e tendo um arco preso ao corpo.  Sob este aspecto guerreiro recebia também o nome de Anunit em Agadé, capital da Acádia. Irmã de Ereshkigal, a soberana dos infernos, ela contribuiu bastante para povoar o mundo de sua irmã, conhecida como o “astro das lamentações”.




Em outras regiões (Erech), ela era conhecida como a deusa do amor e da volúpia, dos prazeres sensuais. Nesta condição, contudo, podia se mostrar muito irritada, violenta mesmo, incapaz de aceitar qualquer recusa à sua vontade. Chegava  a ameaçar os outros deuses, inclusive seu pai, Anu, de mandar todos para o inferno se suas vontades não fossem satisfeitas. Afirmava, inclusive, que, se as portas do inferno não se abrissem prontamente quando resolvesse visitá-lo, as destruiria, libertando os mortos, que assim poderiam atacar os vivos. É esta deusa, entretanto, que espalha por todo o mundo humano e animal o desejo amoroso, provocando as uniões. 


PROSTITUIÇÃO SAGRADA

A prostituição sagrada fazia parte de seu culto; ao visitar a terra, vinha sempre acompanha de um ruidoso séquito de cortesãs, de prostitutas e de “mulheres alegres”. Ishtar, nesta condição, ostentava o título de cortesã dos deuses, sempre ávida de explorar a  sua sensualidade e sexualidade ao máximo. Seus amantes são incontáveis e ela os escolhe ao seu bel prazer, em todos os níveis, divinos e humanos. Infelizes, porém, aqueles que ela distinguia com a sua escolha. Inconstante, Ishtar tratava seus amantes cruelmente, amando-os sofregamente num dia para, no dia seguinte, abandoná-los sem nenhum explicação. E ai daqueles que ousassem pedir alguma explicação. Maltratava-os, torturava-os, chegando mesmo a matar alguns. Afirmava a deusa que os humanos que se submetiam ao amor perdiam o seu vigor natural, pois neste caso o seu desejo se esvaziava de todo elã. Assemelhavam-se assim os humanos a animais que se deixavam domesticar. Se sob a influência funesta da paixão e do ciúme, não passavam, por outro lado, de bestas selvagens. 

Mesmo para os deuses, os favores amorosos de Ishtar eram perigosos. Em sua juventude a deusa havia amado Tamuz, o deus da vegetação e das colheitas, um amor que causara a perdição da jovem divindade. Tamuz, também chamado de Dumuzid, era filho
NIN GISHZIDA
de Nin Gishzida, divindade subterrânea, patrono da medicina e ligado à fertilidade. Nin Gishzida etimologicamente significa “o da boa árvore”, isto é, “aquele que favorece o crescimento correto das árvores”. É conhecido também como o senhor do Mercúrio, representado muitas vezes como uma serpente com dois chifres na cabeça. O grande símbolo de Nin Gishzida era, contudo, uma espécie de bastão no qual, copulando, se enrolavam duas serpentes. Este símbolo é, sem dúvida, o modelo do qual saíram o caduceu de Hermes e os bastões maravilhosos de Asclépio, de Moisés e de seu irmão Aaron.


TAMUZ-DUMAZID
Tamuz, na Suméria, tinha o nome de Dumazid, sendo Ishtar chamada de Inana (na Suméria, Astarte). As cerimônias fúnebres em homenagem a Tamuz-Dumazid alcançaram todo o Oriente Próximo, chegando mesmo a Israel, celebradas inclusive em Jerusalém, para desgosto do profeta Ezequiel, conforme mencionado na Bíblia hebraica. Pesquisas arqueológicas confirmaram que a Igreja da Natividade, em Belém, foi construída pelos cristãos num local (caverna) em que anteriormente se celebravam cultos a Tamuz.



IGREJA DA NATIVIDADE

Amado por Ishtar, Tamuz, por uma razão misteriosa e involuntária, teve que morrer. Tal como a espiga, que a foice do camponês ceifa em seu maduro e dourado esplendor, Tamuz foi constrangido a descer às profundezas infernais. Desolada pela morte de seu amante, Ishtar cantou a sua dor em dolorosas lamentações, entoada em meio a coros rituais de mulheres que choravam e se martirizavam. Esta tradição se perpetuou por todo o mundo semítico da Ásia Menor e, a cada ano, quando das colheitas, nos ardores do verão, a terra perdia o revestimento de suas plantações, deplorava-se a morte de Tamuz. 

Estas festas fúnebres foram levadas para o mundo mediterrâneo e dali para a Grécia por viajantes, peregrinos, comerciantes e marinheiros, onde, com algumas adaptações, passaram a ser celebradas através de Afrodite (Ishtar), Adônis (Tamuz) e Ereshkigal (Perséfone). Adônis, lembre-se, é nome que vem de um título semita, “Adon” (Senhor).


ERESHKIGAL

Descendo ao mundo infernal, o “lugar de onde ninguém volta”, para retirar de lá o seu grande amor, Ishtar, depois de ter forçado com sucesso os portões da mansão dos mortos, percorreu os sete níveis que a separavam da terra. Em cada uma destas etapas, foi largando uma peça de sua roupa e adereços: primeiro a grande coroa que ostentava, depois, sucessivamente, os seus maravilhosos brincos, seus colares, o boustier que lhe cobria os seios perfeitos, seus braceletes, pulseiras, o cinturão onde cintilavam pedras preciosas, até que, finalmente, já na presença de Ereshkigal, retirou última peça, a “veste do pudor”, ficando completamente nua.

A soberana do mundo infernal ordenou que seus auxiliares a prendessem numa dependência do palácio, soltando, para atacá-la os sessenta gênios das doenças. Ausente Ishtar, a superfície da Terra se cobria de tristeza e de desolação. Os deuses começaram a se movimentar para libertá-la. Ea (etimologicamente Casa da Água, uma espécie de Poseidon), divindade das águas (o chamado reino de Apsu) que envolviam e davam suporte à Terra, criou o efeminado Asushunamir e o enviou ao inferno, fornecendo-lhe palavras mágicas para vencer Ereshkigal. 

Ishtar pode assim fazer o seu caminho de volta, recuperando toda a sua roupa e as suas jóias. Acompanhava-a Tamuz, que, vestido cerimonialmente, tocava a sua maravilhosa flauta de lápis lazúli com braçadeiras de azeviche, proporcionando momentaneamente alguma alegria às almas sofredoras que viviam no reino infernal.


SARGÃO 

Apesar de seu temperamento agressivo, o coração de Ishtar podia ser generoso. Quando agia com bondade, fazendo jus ao significado
ASTARTE
de outro nome seu, a “Benevolente”, inúmeros mortais foram por ela favorecidos. Muitos reis, por exemplo, deviam-lhe a conquista do trono, sendo um dos mais significativos exemplos nesse sentido o do rei Sargão, de Agadé. Aqueles a quem a deusa amava recebiam dela também um carinhoso tratamento filial. Soberana do mundo pela via amorosa, Ishtar foi a deusa mais popular da Assíria e da Babilônia. Seu prestígio era imenso. Sob o nome de Astarte, reinou na Fenícia e muitos dos traços de sua personalidade podem ser encontrados na Ísis egípcia e na Afrodite grega.





Ísis (transcrição grega de Iset), deusa egípcia, foi associada pelos gregos a Selene, Deméter, Hera e Afrodite, conforme o ângulo que de sua personalidade tenha sido salientado. O que se sabe é que essa deusa, que aos poucos absorveu todas as características das
ÍSIS
mencionadas deusas, era, na sua origem,  uma divindade modesta do delta do Nilo, sendo seu culto celebrado num lugar chamado Per Hebet (literalmente, lugar do festival da deusa). O templo de Ísis neste lugar passou a ser conhecido, no tempo dos romanos, pelo nome de Isísdis Oppidum. No norte, Ísis possuía um templo famoso em Busíris, centro de um fervoroso culto prestado a Osíris, seu irmão e esposo. Desde cedo, Ísis aparece ligada a Osíris, com o qual ela formará uma tríade, dela fazendo parte Hórus, filho de ambos. Esta tríade logo se tornou extremamente popular, conforme nos conta Plutarco, o grande historiador grego.     


Primeira filha de Geb e de Nut, aquele identificado por Plutarco como Cronos e a esta como Reia (o segundo casal da Enéada
OSIRIS E ISIS
egípcia), Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos nos pântanos do delta do Nilo (dia epagômeno era cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil que compreendia 12 meses de trinta dias cada um). Escolhida como esposa por seu irmão mais velho Osíris, prestou-lhe grande auxílio na obra civilizadora do país, ensinando às mulheres a moer os grãos, a arte da tecelagem, transmitindo inclusive aos homens as artes da cura, e dando a ambos, homens e mulheres, a base da convivência social através da vida em família, sendo a responsável pela instituição do matrimônio.


SETH
Regente do Egito durante a ausência de seu marido que partira para a conquista pacífica do mundo, governou sabiamente o país, aguardando o seu retorno. Imensa, porém, foi a sua dor quando recebeu a notícia da morte de Osíris, assassinado pelo seu irmão Seth, o violento. Cortou então os seus divinos cabelos, rasgou as suas vestes e partiu em busca do seu amado esposo, cujo corpo havia sido encerrado numa arca lançada às águas do Nilo. Levada para o grande oceano, foi a arca, empurrada pelas ondas até as costas da Fenícia, encalhando num grande arbusto (tamarisco), que cresceu rapidamente. Com tempo, a arca acabou sendo absorvida pelo tronco da árvore e por suas raízes, fundindo-se com o lenho do grande vegetal.

Abatido por ordem de Malcandre, rei de Biblos, o tronco do tamarisco foi transformado em coluna, usada na reparação dos telhados do palácio real. Aos poucos, começou a se espalhar a notícia de que um penetrante perfume exalava do tronco. Ísis tomou conhecimento da história, e, compreendendo o seu significado, sem perda de tempo, dirigiu-se ao palácio do rei de Biblos. Sem revelar sua condição, foi recebida pela rainha Astarte, que acaba de dar à luz uma bela criança. Ísis logo se afeiçoou ao pequeno príncipe, cuidando dele como aia, com o assentimento e reconhecimento da mãe. Certo dia, atraída pelo choro da criança, Astarte entrou no quarto do menino e surpreendeu Ísis a banhar seu filho nas chamas purificadoras de uma lareira. Para tranquilizá-la, declarou que pretendia imortalizá-lo, revelando seu nome e o motivo de sua presença em Biblos. Reverenciada então, Ísis recebeu a coluna de tamarisco, dela se retirando a arca onde o corpo de Osíris se encontrava. Levando a arca para o Egito, Ísis a escondeu nos pântanos de Buto, para evitar que o monstruoso Seth a encontrasse. Este, contudo, não se sabe como, conseguiu se apoderar da arca e, para aniquilar completamente o que restava de Osíris, resolveu despedaçar seu corpo em catorze pedaços, que foram dispersados por várias partes do país.


TAMARISCO

Sem desanimar, Ísis pôs-se então a procurar os pedaços do corpo de Osíris. Encontrou-os todos, com exceção de seu membro fálico, que um peixe do Nilo, o oxirrinco, maldito para sempre por este crime, havia devorado. Ísis, então, reconstituiu o corpo de seu marido, juntando os pedaços cuidadosamente. Ajudada por sua irmã Nephthys, por seu sobrinho Anúbis, divindade que atuava na psicostasia, por Toth, o vizir do defunto, por Hórus, seu filho póstumo, ela praticou pela primeira vez os ritos de embalsamamento, pelos quais Osíris ganhou a vida eterna. A seguir, Ísis se retirou, escondendo-se na região pantanosa de Buto, para escapar da fúria de Seth e para cuidar da educação de seu filho, preparando-o para vingar a morte do pai. Graças às artes mágicas da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos até se tornar adulto.


ÍSIS E HÓRUS

Efetivamente, Isis era perita nas artes mágicas e os próprios deuses poderiam ser por ela atingidos. Durante o tempo em que esteve a serviço de Ra, grande divindade solar, ela conseguiu obter dele subrepticiamente seu nome secreto, que ninguém conhecia. Aproveitando-se da decrepitude do velho deus, ela criou, com uma mistura de terra e de saliva divina, uma serpente venenosa que poderia matar tudo o que existisse com a sua picada, inclusive os deuses. Colocando-a no caminho do trôpego Ra, a serpente o atacou-o mortalmente. Foi nesse momento que Ísis, segundo o mito, obteve dele o seu nome mágico, resignado-se então o deus solar, curado por ela, a abdicar em nome da tríade osiriana.


CHEIA DO NILO

Ísis, nos cultos osirianos, representa as cheias do rio Nilo e, como tal, é identificada com as terras férteis do Egito. Uma mistura de terra e água, portanto, elementos passivos. Osíris intervém como a fecundação solar, separando-se assim Ísis de Seth, símbolo do deserto árido. O culto de Ísis se espalhou rapidamente por todo o Egito, suplantando todos os das demais deusas. Alcançou inclusive as terras estrangeiras, levado por mercadores e viajantes do mundo greco-romano, chegando às margens do rio Reno, na Europa germânica, como estrela do mar e guia dos viajantes.

No vale do Nilo, seus cultos se estenderam até os primeiros séculos
APULEIO
da era cristã. Somente no séc. VI, sob o reinado do imperador Justiniano, é que seu santuário de Philae, no extremo sul do país foi fechado, transformando-se o templo em igreja. As festas em homenagem a Ísis eram celebradas sobretudo na primavera e no outono. Quem nos deixou registros sobre elas, as esplêndidas procissões que então se realizavam, foi Apuleio, um iniciado nos Mistérios Isíacos, falando-nos ele inclusive das cerimônias secretas de iniciação. 


As representações mais comuns de Ísis no-la mostram como uma mulher que ostenta na sua cabeça, uma espécie de coifa na forma de um sólio, um ideograma de seu nome. Noutras vezes, ostenta na sua cabeça um disco cercado por duas plumas, entre aspas taurinas.
HATOR
A terceira forma a apresenta como uma mulher com uma cabeça de vaca. É por este componente animal de sua imagem que Ísis é associada à deusa Hathor, deusa do amor e da alegria, na qual os gregos viam a sua Afrodite. Outras versões do mito nos dizem que a cabeça de vaca que Ísis ostenta se deve a uma disputa que teve com seu filho, Hórus. Ísis teria intercedido a favor de Seth, também seu irmão, quando de seu julgamento pelo assassinato de Osíris. Hórus, num acesso de raiva, teria decepado a cabeça de sua mãe. O deus Toth, com as suas artes médicas, teria lhe dado por isso uma cabeça de vaca.


Qualquer que seja a versão, o certo é que a vaca sempre foi o animal sagrado de Ísis, o que astrologicamente a ligava ao signo de Touro. Como fetiches, fazem parte do mundo de Ísis o nó mágico chamado “Tat” (bem-estar, vida) e o sistro, emblema de Hathor. Aos nós, como se sabe, desde a mais recuada antiguidade, sempre foi atribuído um poder mágico, uma grande força, que permitia fixar o imaterial e de ligar não só o corpo, mas a alma, sendo esta ação benéfica ou maléfica segundo a sua ligação, ou seja, benéfica se a ligação se fizesse com algo bom e maléfica com algo mau. Na medida, porém, em que  significa uma coagulação, o nó é um
NÓ DE ISIS
obstáculo, um constrangimento. Não ter nós significa liberdade, nenhum entrave. Entre os egípcios, o nó aparecia sempre associado à vida: nos hieróglifos, uma corda com um nó designava o nome de um homem ou a existência distinta do indivíduo. O nó de Ísis era muitas feito com o cordão de sapatos, mas podia ser feito com tiras de tecidos, simbolizando sempre a imortalidade. Para impedir que a vida escapasse do corpo, os egípcios levavam, como talismãs, no pescoço, nos pulsos ou nos tornozelos, braceletes, colares, cordões com laços. A estes cordões, em sua maioria, eram dados sete nós para que neles ficassem presos para sempre os sete maus gênios da semana. O sentido maior do nó de Ísis era o da ligação com a eternidade. Já o sistro era uma trombeta aguda usada nos sacrifícios à deusa.  


 Invariavelmente, Ísis era representada ao lado de Osíris, a quem sempre dava assistência. Com seus braços, como asas, protegia também as almas dos mortos ou era vista em imagens chorando ao lado de sarcófagos ou de vasos canopos. Como já se disse, seu culto ultrapassou as fronteiras do Egito. No mundo greco-romano, muitos se converteram à sua fé e mesmo durante os primeiros séculos do cristianismo muitos a ela aderiram. Na Grécia, a essa altura dependente do império romano, na própria Itália, em vários países europeus (Gália, Germânia, península ibérica, ilhas britânicas) Ísis era uma força poderosa.   


CONSTELAÇÃO DA VIRGEM

A estrela Spica (alpha Virginis, 23º 09´ de Libra, hoje) e a constelação que por volta de 4000 aC tinha para os egípcios, mais ou menos, os limites atuais da constelação de Virgo, associavam-se a Ísis, enquanto tal astro se fazia notar nos céus no período da colheita dos grãos. Ísis também aparecia ligada à estrela Sirius (Sothis para os gregos, é a estrela alpha Canis Major, a 13º24´ de Câncer, hoje), enquanto este astro ascendendo no horizonte anunciava as cheias do Nilo e o advento do novo ano. Sothis, entre os egípcios tinha o nome de Sepedet, palavra que lembra algo acerado, em ponta, tomando também o sentido de acuidade, de vivacidade de espírito.   

A flor de Ísis era a rosa, muito usada nos seus Mistérios como símbolo do silêncio exigido pela iniciação e imagem da morte carnal. Noutras vezes, Ísis aparecia com o lótus (nynphaea
A ROSA (MATISSE)
caerulea) e com o sicomoro (fycus sicomorus). Como protetora dos mortos, a deusa era considerada como divindade do renascimento. Além de tudo isto, lembre-se que a magia sempre se constituiu num elemento central nos seus cultos, arte na qual ela superava todas as demais divindades egípcias. Ao final do período histórico do país, Ísis assumia, de modo especial, como a sua maior divindade, quatro funções, curadora, protetora dos vasos canopos e do casamento e senhora da magia. 


A difusão do culto de Ísis ganhou grande impulso quando o país foi conquistado pelos macedônicos (Alexandre Magno), tornando-se ela, no período helenístico, a grande divindade do mundo mediterrâneo. A deusa era a grande protetora dos Ptolomeus que
CALÍGULA
governaram o Egito desde Alexandre. Cleópatra, a última dessa família, considerava-se uma reencarnação da deusa. No mundo romano, a presença de Ísis sempre foi marcante. Com exceção do imperador Augusto, que preferiu os cultos de divindades voltados para o Estado, os demais sempre tiveram grande predileção, como se dizia” pelo “orientalismo” da deusa.  Calígula, por exemplo, assumiu vestes femininas para se iniciar nos seus Mistérios. Vespasiano, Tito e Trajano foram imperadores que promoveram os seus cultos por todo o império, mandando inclusive levantar templos em sua homenagem. A Ísis do período romano tinha títulos como “Rainha do Céu” e “Stella Maris”, dos quais os cristãos se apossaram para dá-lo à Virgem Maria. A imagem de Maria com Jesus criança nos seus braços é uma cópia da de Ísis com Horus na mesma condição   

Os hinos cantados ou recitados nos cultos de Ísis sempre proclamaram o seu poder universal, fazendo dela uma soberana dos três mundos, uma espécie de poder que se irradia por todo o cosmos, alcançando inclusive os elementos e os astros. É por essa razão que alguns estudiosos chegaram a considerar que os cultos de Ísis seriam uma espécie de monoteísmo mitigado, apesar de vários sinais de panteísmo nele encontrados.

Um dos grande divulgadores do culto de Ísis foi, como se disse, Lucius Apuleius Theseus, escritor latino (125-170) que, além de vários tratados filosóficos, fragmentos de discursos e outros textos, nos deixou um romance, As Metamorfoses, chamado às vezes de O Asno de Ouro, no qual nos dá uma imagem muito interessante de
ASNO DE APULEIO
seu misticismo, de sua imaginação, de sua sensibilidade e de gosto pela paródia. Resumidamente, a história nos diz que o herói (Lucius) por ter pretendido obter de uma feiticeira os seus segredos foi transformado num asno. Ele então invocou Ísis como a Lua, sempre ligada à feitiçaria, que lhe prometeu devolver a forma humana se ele comesse umas rosas que alguém estivesse levando para uma festa em sua homenagem. Lucius, para retribuir, deveria se consagrar inteiramente ao seu culto, obtendo inclusive, com isso, até à velhice, uma vida isenta de problemas e depois, na ocorrência, uma feliz estada nos Campos Elíseos. Recuperando a forma humana, Lucius, isto é, Apuleio, nos revela que “o ato de iniciação nos mistérios de Ísis pode ser visto tanto como uma morte voluntariamente assumida como garantia de salvação obtida pela graça.”


Em toda a Idade Média, Ísis aparece em muitos romances que têm por tema a iniciação. Em dois, especialmente, podemos perceber a presença da deusa, no da busca do Graal, mais veladamente, e no Roman de la Rose, mais explicitamente. Em ambos, temos a busca do feminino, que a deusa representa. O Graal, como se sabe, é um
SANTO GRAAL
vaso sagrado que, depois de ter servido a Jesus Cristo na Última Ceia, teria na crucificação recolhido o sangue que jorrava de seus ferimentos. A lenda do Graal, que se integra no imaginário arturiano e o tema dos cavaleiros da Távola Redonda, conhece o seu apogeu com as figuras de Parsifal (Perceval) e Galahad, este último o cavaleiro santo e perfeito. A lenda do Graal é, sem dúvida, uma das grandes ilustrações da busca do feminino, símbolo daquele que recebe uma espécie de mãe espiritual (Ísis) para todos aqueles que se interessam pelos mistérios. É por essa razão que o signo astrológico de Virgem tem estreitas relações com a lenda do Graal. O ego que nasceu no signo anterior, Leão, é recebido em Virgo e preparado para um caminho evolutivo que se abre a partir do signo de Libra. Esta idéias ficam mais claras se lembrarmos que tanto Deméter como Ísis exerceram funções típicas do signo de Virgo (sexta casa), como amas de pequenos príncipes, quando andavam, a primeira, à procura de Kore e, a segunda, à procura do corpo de Osíris.  



PÁGINA DO ROMAN DE LA ROSE

O Roman de la Rose é um romance alegórico francês do séc. XIII, composto de duas partes. A primeira é inspirada em Ovídio e apresenta uma “arte do amor” cortês. Nela, a rosa é o grande elemento da conquista amorosa, pois é dela o “doce falar”. Na segunda, o tom é antifeminista e nele se privilegiam a “razão” e a “natureza”, saberes científicos que ajudem a viver racionalmente, opostos ao amor, que é irracional. A obra teve grande sucesso da Idade Média ao pôr em conflito duas correntes de pensamento, um cortês e refinado e, outro, racionalista e satírico. O Roman de la Rose é, acima de tudo, uma obra didática (seu objetivo é ensinar). A primeira parte é de Guillaume de Lorris e a segunda de Jean de Meung. Este último retoma o poema que o primeiro havia deixado (código do amor cortês) e a ele acrescenta ideias morais, sociais e filosóficas. 

A rosa, como atributo de Ísis, fez do Egito o maior produtor e exportador dessa flor na antiguidade, enquanto símbolo do amor que vence a morte e símbolo religioso enquanto lembrava o renascimento na forma proposta pelos mistérios da deusa, uma espécie de movimento religioso que exigia iniciação (mystes, em grego, de onde vem mistério, é o nome do iniciado). A rosa sempre
esteve, por isso, no Egito, de onde passou às outras tradições, ligada a ritos funerários. Lembre-se que os romanos, como herança egípcia e grega, celebravam as famosas festas, as Rosálias, em muitos lugares da Itália, entre 11 e 15 de maio. No mundo cristão, o domingo de Páscoa era chamado por essa razão de domenica rosata. O uso da rosa nos ritos iniciáticos e funerários deu origem à expressão latina sub rosa, muito empregada em diversos meios esotéricos, podendo ser traduzida como “sob o signo do silêncio”, condição exigida para a transmissão de conhecimentos. Foi por razão semelhante também (a rosa como símbolo da discreção) que os gregos, nos cultos dionisíacos, iam coroados com rosas, já que elas tinham, segundo afirmavam os sacerdotes, o poder de diminuir a excitação provocada pelo vinho. As rosas acalmavam os participantes, tornando-os menos falastrões, mais calmos.  

No início do Renascimento, Ísis será vista como divindade fértil, deusa da vegetação, sendo representada por uma majestosa mulher enxertando um galho novo numa árvore morta, uma metáfora para

sugerir o nascimento de um filho, o que poderá ser visto como um anúncio dos novos ideais humanistas que viriam. Registre-se que no final do séc. XVIII (1791), Mozart apresentava A Flauta Mágica, ópera em dois atos, de inspiração maçônica, em que narra a iniciação de Tamino e de Pamina no culto de Ísis. Ameaçados pelas potências das trevas, eles enfrentarão diversas provas, vencidas pelo herói com o auxílio da sua flauta. Terminada a iniciação, os sacerdotes cantarão: “Glória aos iniciados! Penetrastes nos mistérios sombrios da Noite. Ísis e Osíris aceitai o tributo de nosso reconhecimento. A virtude triunfou. O vício foi vencido.”


No Romantismo, Ísis será vista como a própria natureza, mãe universal, mas que precisa ser desvelada. Esse desvelamento nos fala das chamadas interpretações “noturnas” do mito de Ísis, para que todos os mistérios sejam revelados, isto é, revelar o  que a natureza oculta por trás da sua multiplicidade fenomênica. O herói
romântico, o poeta, ousará, procurará “ver” a verdade, correndo o risco de ser punido, de morrer inclusive. Não é por acaso que Gérard de Nerval (1808-1855) fará do mito de Ísis um dos tema centrais de sua obra. Durante toda a sua vida, Nerval perseguiu a ideia do feminino. Procurou nas mulheres de sua vida a “encarnação” da Santa, da Fada, o eterno feminino que para ele nada mais era do que a alma da própria natureza, chame-se ela Ísis, Cibele, Virgem Maria, Octavie, Aurélia ou  a sua própria mãe. Este sincretismo religioso na obra de Nerval tem a ver com as suas pesquisas sobre a mitologia e cultos antigos. Com base nesses estudos, publicou Voyage en Orient e Les Iluminés. 

Nerval suicidou-se (enforcamento). Em sua obra faz referência às buscas de Apuleio, Dante e Swedenborg (outros que como ele procuraram o “eterno feminino”), convencido que estava de que o sonho ajudava a atravessar as portas que separavam o homem do mundo invisível. Sua experiência literária, em prosa ou poesia, é uma das mais fantásticas aventuras de alguém que procurou encontrar as misteriosas correspondências entre o sonho e a vida. No fundo, um grande desejo de transcendência através do amor pelo “eterno feminino”, que a Grande Mãe personifica, um mergulho em correntes vitais mais vastas que levassem a um enriquecimento cada vez mais amplo. Esse feminino está personificado em várias tradições religiosas como sonho de amor, de felicidade, de generosidade, um absoluto tão poderoso que incita muitas vezes o homem a voltar as costas à realidade.

          Ao final, quanto ao mito de Ísis, não podemos deixar de fazer
referência às ideias de Helena Petrovna Blavatski, uma das fundadoras da Sociedade Teosófica, como expostas em seu livro Ísis sem Véu, publicado em 1877. Nele se descreve a história e desenvolvimento das ciências ocultas, a natureza e a origem da magia. Desvelando Ísis, HB expõe nas mais de mil páginas do livro as suas principais ideias sobre o tema, desenvolvidas mais tarde em A Doutrina Secreta. 

Em todas as tradições esotéricas, a deusa é considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e da ressurreição. Os seus Mistérios, no Egito, serviram de modelo para os de Elêusis, na Grécia, tutelados pelos deuses Deméter e Dioniso. Quaisquer que sejam, porém, as interpretações, religiosas, filosóficas ou literárias, não podemos esquecer que, em última instância, o mito de Ísis e de todos os demais que nele se inspiram, direta ou indiretamente, são também representações do arquétipo da busca que nos falam sempre da destruição de uma forma (o desmembramento de Osíris) e a reunião dos seus pedaços numa forma diferente e superior com relação à antiga. Esta leitura, a meu ver, está perfeitamente justificada se lembrarmos que, astrologicamente, o planeta Vênus opera no sentido contrário da dispersão como princípio passivo da geração que é, atuando alquimicamente como agente da coagulatio, criação de formas (uniões, sociedades, casamentos, obras de arte etc.).


NASCIMENTO DE VÊNUS   (BOTTICELLI)