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domingo, 28 de março de 2021

OS MONSTROS - VI


            

GRÉCIA   ANTIGA

Para uma melhor compreensão do que antes já se disse,  desviemos o nosso olhar para Creta, onde viveu Minos, rei da ilha. Filho de Zeus e da princesa fenícia Europa, teve ele o seu trono disputado por dois irmãos. Pedindo um sinal divino que o confirmasse como único imperador, Minos foi atendido. Com essa finalidade, o deus Poseidon fez sair das águas do mar de Creta um touro maravilhoso, que em seguida deveria ser sacrificado.

Deuses, como se sabe, se alimentam de nosso sacrifício. O sacrifício é um símbolo de renúncia, implicando uma troca entre o material e o espiritual. Na antiguidade, o sacrifício tinha por objetivo assegurar a salvação e devolver a inocência a um povo para que se livrasse assim de suas faltas, projetando-as sobre uma vítima, que recolhia as referidas faltas, executada (sacrificada) em seguida de maneira ritual. 

Símbolo de expiação, de purificação e de súplica, o sacrifício se apresenta muitas vezes sob o aspecto de uma morte ritual acompanhada de injúrias, de agressões, chicotadas, lapidação ou cuspidas lançadas sobre a vítima a ser sacrificada, como o exemplo muito conhecido do chamado bode expiatório, que carregaria consigo os males de toda a comunidade. 

A palavra sacrifício quer dizer tornar sagrado, sacrum facere. É o ato que permite ao humano a sua entrada na esfera do numinoso, ou seja, de um plano superior de vida, do divino, se quisermos. Todo sacrifício era na origem a oferta de alguma coisa, de um vegetal, de um animal, de um ser humano, de algo de valor, um bem, do qual se abria mão, se matava, que se entregava, para atrair as boas graças das potências divinas. O sacrifício, aos poucos, tomou o caminho de morte, de perda, especialmente de uma perda interior pela qual o ser humano se tornava mais digno neste comércio com o céu, ou seja, da ideia de uma vida superior que ele carregava dentro dele e à qual ele acedia.

POSEIDON

O animal enviado por Poseidon era, entretanto, tão maravilhoso que Minos não resistiu; logo pensou em utilizá-lo como reprodutor para aumentar ainda mais o seu enorme rebanho e, consequentemente, a sua riqueza. Assim fez, entregando ao sacrifício um touro de seu rebanho, muito inferior ao animal enviado pelos deuses. 

A punição veio imediatamente: a rainha Pasífae, mulher de Minos, foi tomada por uma incestuosa paixão erótica pelo animal. Ela pediu a Dédalo, o grande inventor grego, então exilado na ilha, que fabricasse, com toda a sua arte, o simulacro de uma fêmea, na qual ela entraria, para poder se unir sexualmente ao touro maravilhoso. Esta a vingança divina com relação à hybris de Minos. Algumas versões do mito nos informam que esta paixão contra natura foi inspirada a Pasífae por Afrodite, por ter o pai da rainha de Creta, o deus Hélio, revelado publicamente os seus amores com o deus Ares, um episódio que nunca deixou de ser comentado nas festas do Olimpo. 

CNOSSOS
Da união da rainha com o touro divino nasceu o Minotauro, um ser humano gigantesco, com cabeça de touro, um monstro horrível que se alimentava de carne humana. Tamanha foi a vergonha dos reis de Creta que eles imediatamente pensaram num meio de escondê-lo. Mais uma vez Dédalo foi convocado. Pediram que ele construísse um imenso palácio, ao qual se deu o nome de Labirinto, na capital do país, Cnossos. Nos subterrâneos dessa grande construção o monstro foi encerrado. Para alimentá-lo era necessário, como se disse, lhe dar carne humana. Os gregos, à época, derrotados pelos cretenses, então uma civilização poderosa e esplêndida, pagavam-lhes um tributo por meio do qual o alimento do monstro era obtido. Enviavam anualmente muitos jovens para saciar a fome do Minotauro.

 MURAL  EM  CNOSSOS 
Mais tarde, Teseu, herói e rei de Atenas, irá a Creta e matará o Minotauro, com o auxilio da princesa Ariadne, filha de Minos. Pelo lado dos reis de Creta, esta história nos fala da cegueira das paixões. Pelo lado de Minos, o que temos é o desejo do lucro a qualquer preço, o desejo irrefreável da riqueza, a corrupção do dinheiro dos seres humanos no seu mais alto grau. Por parte de Pasífae, a sensualidade exagerada, o prazer dos sentidos numa de suas formas mais degradadas, a zoofilia. O fruto da perversão dos reis de Creta é o Minotauro, cuja crônica se liga à civilização cretense como um produto histórico da chamada era astrológica de Touro, situada mais ou menos entre 4000 e 2000 aC.

DIONISO
Na antiga tradição grega, o touro era o animal que simbolizava o deflagrar irrefreável da violência. Era por essa razão consagrado a Poseidon, deus dos oceanos, e a Dioniso, deus das metamorfoses, traduzindo como símbolo uma força calorosa e fertilizante, assimilada à falta de limites e, por isso, a tempestades e furacões, como se colocou. 

O tema do Minotauro ilustra a situação do desejo injusto quando eles nos vitima. É a representação mais perfeita da falta de controle diante das pressões internas, a submissão à pressão dos sentidos, a concessão mentirosa e os subterfúgios que usamos para nos desculpar diante dos nossos fracassos em procurar controlá-los, minimamente que seja. Numa primeira abordagem, a história do Minotauro nos coloca claramente dentro da esfera do passional, que se opõe ao que é razoável, lógico, racional. Sem entrar no campo religioso, o que temos diante nós é a oposição entre o que os gregos chamavam de pathos e logos. Se este nos remete ao campo do racional, da ordem, da harmonia, da claridade, da universalidade da vida, o pathos se liga diretamente ao irracional, a sentimentos e emoções, à desordem, à desarmonia, à obscuridade, à particularidade, à doença, à loucura, à morte. 

   MURAL   EM   KNOSSOS

O mito também nos deixa claro, como muitos filósofos apontaram, que as paixões têm sempre um caráter terrível, inevitável muitas vezes, ameaçando a alma de desordem, de intranquilidade e de desassossego. Quando isto acontece no ser humano, a parte inferior (epithymia) invade a superior (logistikon). Por isso, as paixões, seja sob o ponto de vista religioso, psicológico, médico ou moral, em todas as tradições e épocas, sempre foram objeto de muita preocupação, de muita vigilância. Impondo-se, as paixões são sempre deploráveis, mesmo aquelas que a razão pode justificar, as socialmente aceitas, as chamadas paixões positivas. De qualquer modo, porém, mesmo estas, desequilibram sempre o ser humano, o colocam numa situação de vítima, já que o encerram muitas vezes num único modo de ser, devendo por isso ser controladas, atenuadas. 

Psicanaliticamente, o Minotauro deve ser visto como a expressão do recalque, do que não pode ser exibido à luz do dia, exposto, isto é admitido pela consciência. O Minotauro deve por essa razão ser escondido na escuridão do subconsciente (os labirintos, os corredores subterrâneos do palácio construído por Dédalo, símbolo do artista corrupto, aquele que produz apenas para satisfazer os poderosos). 

O recalque, lembremos, é um mecanismo de defesa que, teoricamente, tem a função de fazer com que as exigências pulsionais, as condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a eles ligados, passem do campo da consciência para o inconsciente, ao entrarem em choque as exigências contrárias. 

O recalque, lembre-se, não lida com as pulsões em si, mas com os seus símbolos, aquilo as representa, imagens ou ideias, conteúdos que, apesar de recalcados, continuam ativos no inconsciente, prontos para assediar o consciente, atacá-lo mesmo, apesar de todo o cuidado em se mantê-los contidos, abafados. 

Dessa história sai também a palavra labirinto, que pode tomar vários sentidos. A palavra, numa leitura religiosa, por exemplo, serviria para alegorizar o mundo. O mundo como labirinto, dispersão, queda, perdição e perplexidade do espírito diante da vida fenomênica. A redenção só seria possível se fosse encontrado um meio de sair dele, se obtivéssemos o fio de Ariadne. O fio, como símbolo, em todas as tradições, lembra a ligação entre dois estados da existência, dois modos de ser. Os hindus dão o nome de sutra ao fio como elemeto de ligação entre o corpo material e o corpo anímico. 

No mito grego, como se disse, Teseu foi a Creta para libertar a Grécia (Atenas) do pagamento do tributo (carne humana) ao monstro. Foi ajudado pela princesa Ariadne, filha de Minos e de Pasífae, que lhe forneceu um fio com o qual ele poderia entrar e sair do labirinto. Sem este fio, ninguém conseguiria sair vivo daquela imensidão que eram os subterrâneos do palácio, cheios de túneis, desvios, corredores, salões e escadarias, em níveis diversos. 

   FIO   DE   ARIADNE  

O nome Ariadne admite vários sentidos: a muito veneranda, a muito pura, a muito luminosa. Ela é como tal uma representante do mundo matriarcal enquanto Teseu o é do patriarcado. Dois mundos que deveriam se completar, pois. O mito nos diz, entretanto, que tal não aconteceu. A promessa era a de que Teseu, uma vez vencido o monstro, voltaria a Atenas levando s princesa como sua mulher. Ora, ao retornar, o casal resolveu fazer uma parada para descanso na ilha de Naxos. Passaram a noite juntos. Na manhã seguinte, quando Ariadne acordou, não viu mais Teseu. Correu à praia, olhou o mar. Ao longe, as velas negras do barco do herói grego e a certeza de que fora abandonada.

ARIADNE EM NAXOS ( EVELYN DE MORGAN, 1855 - 1910 )

Essa história nos revela claramente que Teseu se aproveitou de Ariadne; valeu-se dela e a abandonou. Essa história permite, porém, outras leituras: há entre os personagens uma inadaptação mútua. Ariadne lhe forneceu o fio na esperança de prendê-lo. É uma figura do matriarcado que cede para conquistar. Dois mundos em conflito, um, o de Ariadne, agonizante, o matriarcado; o outro, o de Teseu, o patriarcado se afirmando cada vez mais sobre o outro, preparando-se para derrotá-lo, o que de fato aconteceu, imponde-lhe os seus valores.

Teseu não entendeu que o fio de Ariadne significava a oportunidade de um segundo nascimento (união entre o masculino e o feminino de sua personalidade). Fixado unicamente no seu lado masculino, usou o fio e abandonou a princesa, que, como o mito nos conta, foi encontrada pelo deus Dioniso na praia de Naxos. Dioniso a transformou em sua mulher e depois a matou, ou melhor, sacrificou. Antes, para celebrar a sua união com a princesa, Dioniso a presenteou com um belíssimo diadema, que depois será colocado nos céus como a constelação Corona Borealis. Lembro que astrologicamente uma das “vítimas” das influências desta constelação foi a princesa Diane, da Inglaterra, conforme depreendemos da leitura de sua carta astral.

Ariadne é um símbolo feminino, o da mulher que, fixada nas suas prerrogativas matriarcais, tenta manter o seu status, não sabendo se renovar, diante da ascendente ordem patriarcal. Numa outra leitura, Ariadne era em Creta uma antiga divindade da vegetação que na “nova ordem” (a nova ordem era a cultura do vinho, Dioniso) perdeu o seu poder, a sua posição cultual, mas com direito, na sua agonia final, a uma apoteose digna. Dioniso é a inapelável destruição das formas que não sabem se renovar. 

DIONISO E ARIADNE (TICIANO VECELLIO, 1490-1576)

Na ilha de Naxos, como recorda Plutarco, celebravam-se festas que tinham um duplo caráter, em honra a Ariadne e a Dioniso. Festas da dor e da alegria, com muitos cantos primaveris e ditirâmbicos. Estas festas viam a princesa como uma deusa da vegetação que tinha que morrer e renascer anualmente para dar lugar ao vinho (plantações do deus). 

Ariadne foi para Teseu, de certo modo, segurança, proteção e ternura. De outro modo, ao tentar levar essas funções muito longe (mãe-amante que abafa, castra e mata), ela significava riscos de opressão, de estreiteza, de limitação, insuportáveis para uma figura típica do patriarcado como Teseu. 

O encontro de Ariadne com Teseu marca a última fase do matriarcado e o início do acesso do patriarcado ao poder, na eterna alternância histórica das forças que atuam no universo, no jogo das polaridades. O matriarcado como se sabe está ligado a cultos agrários, nos quais a mulher ocupa posição importante, como doadora da vida. 

Com a afirmação das forças patriarcais, sobretudo sob o ponto de vista religioso (religiões do pai), submetido o princípio feminino ao masculino, a mulher, como grande-mãe, não deixará de ser reverenciada, mas sempre numa situação subalterna. Criam-se, por exemplo, ficções como a de virgens dando à luz a heróis e profetas. As diversas madonas que vão aparecer na arte ocidental, principalmente no Renascimento vêm desse mundo. 

O grande modelo da madona na arte ocidental se inspira claramente em Perséfone, como ela aparece na segunda fase (epopteia, contemplação) dos mistérios eleusinos, com um menino-deus de nome Brimo nos braços. 

Receptáculo da vida, matriz na qual foi concebido o mundo animado, associada às águas originais, a figura materna aparece em todas as tradições sob uma forma múltipla de aspectos, da mãe-virgem, passando-se pela madrasta infame, à prostituta. É sob estes três principais aspectos que as religiões patriarcais a vêm.

KALI
Os mitos, lembre-se, sempre utilizaram a imagem da Mãe Universal para conferir ao cosmos as suas originais propriedades femininas como nutriz e protetora. Há mais de 5.000 anos os cultos de inúmeras Grandes-Mães eram celebrados em grande parte do mundo já civilizado. Eram, no geral, divindades ligadas à terra, ao mundo da agricultura como símbolos da fertilidade. Nessa condição, as Grandes-Mães sempre representaram a vida e também a morte. Nascimento: saída da matriz; morte: retorno à Terra-Mãe. Na Índia, por exemplo, Kali é o nome da Grande-Mãe que sob o seu duplo aspecto é tanto terrível como benevolente. 

A psicologia moderna vê (entende?) que o arquétipo maternal sempre evoca as origens, a natureza, a vida instintiva, a criação passiva no seu aspecto gerador. Daí para esse entendimento a mãe encarnar sempre o aspecto vegetativo da criação, o inconsciente, os fundamentos da consciência, mas, ao mesmo tempo, a obscuridade noturna e angustiante.

MADONA  COM A  CRIANÇA  ( FILIPPO LIPPI, 1406 - 1469 )

Sob seu aspecto nutriente, a mãe é símbolo de saciedade, de carinho, de amor, de calor, de compreensão. Ela é proteção, refúgio, abrigo sempre procurado quando das tempestades da vida. Primeiro objeto de amor do que nasce, a mãe é também um primeiro ideal, conservado como fundamento inconsciente de todas as imagens de felicidade, de verdade, de beleza, de perfeição, que todas as imagens da Madona com o Bambino, por exemplo, procuraram fixar na arte da Renascença. 

No psiquismo masculino, a imagem materna tem relação com o inconsciente, significando uma relação (fixação) prolongada com ela um complexo (conjunto de sentimentos) a que a psicanálise deu o nome de complexo de Édipo: amor e desejo de reintegrar com ela um paraíso perdido contra o qual se opõe a figura paterna, odiada, no mais das vezes, inconscientemente.

É por essa razão que na Oniromancia as frequentes aparições da figura materna indicam uma falta de autonomia na conduta da existência. No inconsciente masculino, a aparição da figura materna costuma se dar por imagens que lembram a água e suas profundezas, a Lua, feiticeiras, pesadelos infantis, baleias, sempre ligadas a aspectos devoradores, à sua autoridade excessiva, à sua ausência ou maldade. Evidente, todas estas imagens indicam claramente ao sonhante a necessidade de se livrar da influência onipresente da mãe para adquirir um eu autônomo. 

As imagens maternais, arquetipicamente, podem tomar, num sentido pessoal, a forma de uma governanta, de uma ama-de-leite, de uma velha ama, de um animal (vaca) e, num sentido mais amplo, de uma gruta, de uma fonte, de uma igreja, de uma universidade, de uma cidade, de um país, da floresta. Não é por acaso que Alma Mater, por exemplo, é uma expressão muito usada, em determinados meios universitários, para designar a escola em que se formaram.

O tema do Minotauro é uma ilustração do desejo injusto, da submissão à pressão dos sentidos, das concessões mentirosas, dos subterfúgios que inventamos para apaziguar a nossa consciência. Psicanaliticamente, o Minotauro é, como se disse, a expressão do recalque, do que não pode ser exibido à luz do dia (admitido pela consciência) e que, por isso, deve ser escondido na escuridão do labirinto (subconsciente). O recalque é um mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ela ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias.


 O FIO DE ARIADNE
Dessa história sai também a palavra labirinto, que pode tomar vários sentidos. A palavra, numa leitura religiosa, servirá para alegorizar o mundo, o mundo como labirinto, a queda e a perdição da alma na dispersão e na perplexidade da vida fenomênica. A redenção só seria possível se alguém nos fornecesse um meio de sair dessa dispersão (o fio de Ariadne), que nos ajudasse a encontrar o caminho para sair dos corredores desse mundo subterrâneo. 

O labirinto pode ser também uma ilustração do mundo do erro, da necessidade que temos de ultrapassar os limites de uma vida vegetativa, na qual a maioria vive encerrada. Quando nascemos, entramos nesse mundo, somos quase vegetais. Precisamos caminhar em direção do animal e deste em direção do humano. Encontrar a saída, a luz, é muito difícil. Por isso, em muitas tradições a entrada na vida lembra a entrada num labirinto. No mundo das interpretações, a entrada no labirinto pode aparecer muitas vezes como uma ilustração da viagem noturna do Sol. Ao se esconder atrás das montanhas ou mergulhar no oceano, o Sol inicia uma viagem subterrânea que lembra muito uma viagem labiríntica. 

Outros consideram o labirinto como uma representação da mente do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Na catedral de Chartres e em muitas outras encontramos labirintos esculpidos (desenhos) nas pedras do seu solo para representar a vida como peregrinação e as dificuldades que nela podemos encontrar. Os labirintos nas catedrais europeias são chamados de caminhos de Jerusalém, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. 

A arte barroca  e a que lhe sucedeu, a arte rococó, em muitos parques públicos e/ou privados (castelos), principalmente na França, transformam os labirintos, de esquemas relativamente simples, em verdadeiros dédalos (outro nome de labirinto) de vegetação alta e espessa, com o objetivo de divertir os visitantes.

Os labirintos na arte ocidental tomaram sempre o caminho que se estende por várias direções, falando-nos de encruzilhadas, possibilidade de escolhas, extravios, erros etc. Na linguagem corrente, a palavra labirinto tem invariavelmente o sentido de complicação, de enredamento, de um domínio do espaço problemático, possuindo um valor negativo,  traduzindo sempre a ideia de uma construção tortuosa destinada a desorientar as pessoas. 

No Renascimento, a imagem do labirinto começa a ser usada para representar a confusão da vida interior do homem. Entenda-se: na Idade Média, o mundo exterior era ainda ameaçador, o labirinto estava fora. No fim da Idade Média, os poetas começaram  a pensar que o labirinto estava dentro do homem e, como tal, era ele que o projetava para fora. De objetivo, o labirinto se torna uma figura subjetiva. 

O primeiro escritor a propor uma leitura totalmente nova do labirinto foi Boccaccio (1313-1375), gênio da poesia. Numa obra, Il Corbaccio (O Sonho), que tem por subtítulo Laberinto d´amore, o poeta descobre os caminhos tortuosos do amor. Apaixonou-se por uma bela viúva que não lhe deu a mínima atenção, ridicularizando-o inclusive.  A esse descaminho amoroso ele deu também o nome de curral dos porcos de Vênus. Daí para frente, a imagem do labirinto se integrou à poesia amorosa, designando uma espécie de prisão sem portas, cárcere voluntário no qual o poeta se encerrava.  

Aos poucos, nos séculos seguintes, o labirinto deixou de ser a imagem de uma sedução, de encantamento, de um sortilégio mais ou menos longo, para se tornar a imagem do próprio mundo. O foco da interpretação do labirinto deixou de se fixar na tensão entre o interior e o exterior, para considerar o próprio mundo como labirinto, de aparências enganadoras. 

Na Renascença o labirinto deixou de ser uma realidade exterior e hostil, uma realidade da qual o homem só se salvaria pela misericórdia divina. A partir de então fixa-se a leitura de que o labirinto é o espaço em que nos movimentamos, um lugar onde cada um tem que encontrar pessoalmente o seu próprio caminho. Desaparece também a ideia de que a saída do labirinto poderia levar a esta ou aquela meta. A obra de Kafka parece ter posto um final a essa ideia, de que há um centro a alcançar. Seu personagem K., perdido entre o Castelo e Josefov, em Praga, anda pelas ruas, entra por ruelas,
atravessa pontes, abre portas, mas não consegue chegar a lugar nenhum, para afinal ser julgado sem saber bem o que acontece. Com a obra de Kafka chegamos definitivamente à conclusão de que não há metas, mas tão somente caminhos. Dessacralizado o espaço, perdida a ideia de um centro, com Kafka começa aquilo que podemos chamar de errância moderna, um processo que James Joyce, na literatura, com o seu Ulisses, levará às últimas consequências. 

sábado, 13 de maio de 2017

CÂNCER (4)

                                                   
Na Índia, quando a alma chega ou não à libertação (moksha), abrem-se dois caminhos para ela. Um é o da reencarnação, caminho do solstício de inverno, chamado pelos hindus de pitriyana ou dhumamarga. O outro é o caminho que leva ao Brahman, de onde não há mais retorno. Este caminho, ligado ao solstício de verão, tem o nome de devayana ou archimarga. 


CERIMÔNIA  -  PITRIS

É preciso lembrar, quando entramos neste tema da reencarnação, que para os hindus ainda depois de muito tempo que uma encarnação teve fim, a alma conserva algumas ligações com o seu ambiente terrestre, com o seu mundo familiar. É isto que leva os hindus a elaborar um complexo culto dos antepassados (pitris). Segundo o grau de sua ligação com o mundo ancestral, a alma pode ficar habitando um dos três mundos dos ancestrais (pitrilokas), tendo, nessa condição, ainda, muitos envolvimentos com o mundos vivos.


CREMAÇÃO  -  GANGES

A alma, depois da morte do corpo físico, pode passar por um grande período de hesitação, durante o qual, não totalmente liberta dos laços terrestres, fica errando como um fantasma. Nessa condição, tem o nome de preta. O culto dos antepassados, que tem um grande lugar na religião hindu, inicia-se a partir do quarto dia da cremação. Recolhe-se a ossada e o que sobrou num vaso de argila (asthisauchaya) para ser tudo lançado num rio, de preferência no Ganges. 


MANSÕES   LUNARES  -  NAKSHATRAS

É sob o nome de pitris (ancestrais) que são venerados os primeiros progenitores (miticamente) da raça humana bem como os ancestrais familiares, cremados ou inumados segundo os ritos. Eles são, em geral, considerados como semelhantes aos deuses, com os quais muitas vezes entram em choque. Nessa condição, são imortais e compartilham com eles uma vida de imortalidade. os ritos, chamados shraddhas (homenagens), são realizados em sua honra e as oferendas a eles feitas têm o nome de pindas. Os ancestrais residem no espaço ou na esfera da Lua. Eles são regentes das constelações (nakshatras ou mansões lunares) conhecidas pelo nome de Magha e de Mula. A primeira é a décima mansão lunar e seu nome significa A Poderosa, indo, na esfera zodiacal, de 0º a 13º20´de Leão. A segunda é a décima nona mansão lunar e seu nome pode ser traduzido como A Raiz, estendendo-se de )º a 13ª20´de Sagitário. Quando a Lua atravessa Magha, esse período, dentre outras possibilidades astrológicas favoráveis, é propício para a realização de cerimônias que homenageiem os ancestrais. 

LEI   DO  KARMA
O Hinduísmo admite que a alma (jiva) não nasce apenas uma vez, mas várias vezes, inúmeras vezes, quer no passado, quer no futuro. As suas ações no plano terrestre, segundo a lei da causalidade (lei do karma), determinam sempre as condições das voltas futuras, isto é, das suas sucessivas reencarnações. O pensamento aqui é claro: o homem é sempre o que ele faz de si mesmo e este fazer-se determina no que ele se tornará. 


PLÍNIO ,  O   VELHO
As doutrinas pitagóricas nos colocam diante de algo semelhante quando nos falam da identidade substancial das almas e dos astros. É conhecida a citação de Hiparco, segundo Plínio, o Velho, de que nossas almas são uma parte do Céu, que é a sua natural morada. Caídas no mundo sublunar, em razão de uma falta original, é ao Céu que elas retornarão, quando devidamente depuradas. Um dos dogmas do ensino pitagórico era o de que as almas dos seres humanos provêm do Céu. O próprio Pitágoras, aliás, passava por um gênio que descera à Terra para revelar aos homens o caminho da salvação. 

PLUTARCO
Quanto aos egípcios, é interessante notar que eles escolheram o escaravelho para representar o signo de Câncer. Quem nos explica isto é Plutarco, historiador, moralista e biógrafo grego. Ele nos dizia que o escaravelho parecia imitar o Sol ao se movimentar, lembrando auto-geração, regeneração, ao rolar uma pequena bolota na qual estava depositada a sua semente (sêmen). Divinizado, tomava o nome do deus solar Ra, chamado de Khepri, imagem do Sol nascente. É por esta razão que as múmias levavam um escaravelho no peito como amuleto, como proteção mágica, tendo em vista o seu renascimento no Outro Lado, depois da psicostasia.

Como motivo de decoração, o escaravelho era encontrado praticamente em todos países mediterrâneos, sempre simbolizando a ressurreição, emblema daqueles que se auto-regeneram. Era, em suma, o Sol que sempre retornava depois de ter atravessado as trevas noturnas. Além do mais, o escaravelho sabia sobreviver
SANTO   AMBRÓSIO
quando das enchentes do rio Nilo. Segundo crenças muito antigas, profundamente arraigadas em antigas tradições, ao se alimentar, o escaravelho sempre se alimentava do que lhe era estritamente necessário, colaborando dessa forma para a regeneração física e moral do cosmos. Foi por esta razão que Santo Ambrósio, um dos maiores doutores da Igreja católica, sempre associou a imagem de Cristo à do escaravelho.

ANEL   TALISMÃ
COM ESCARAVELHO
A pequena bolota na qual o escaravelho encerrava a sua bolota era chamada de "o ovo do mundo do qual nascia a vida." Ao favorecer a reencarnação, o escaravelho, como talismã (do árabe, talasim, sortilégio; e do grego, telesma, rito religioso), era muito valorizado. Muito falsificados, os talismãs fabricados do Egito eram vendidos "a peso de ouro".

Na antiga Roma, segundo Plínio, o Velho, os cornos deste coleóptero, colocados numa pequena cápsula (sachê), eram considerados também como poderoso amuleto, protegendo especialmente a vista. Era comum, segundo Plutarco, que os soldados gregos, os hoplitas principalmente, durante as batalhas, usassem amuletos na forma de escaravelhos como proteção do
SARAH   BERNHARDT
( PAUL   NADAR , 1856 - 1939 ) 
corpo físico. A fama do escaravelho como amuleto ou talismã atravessou a Idade Média, alcançado a sua maior voga em fins do séc. XIX. Em toda a Europa, um berloque ou um pendantif na forma do inseto eram usados como emblema de fidelidade conjugal, moda lançada ou difundida pela famosa atriz do teatro e do cinema mudo francês, Sarah Bernhardt. Com menos evidência hoje, o escaravelho, como talismã ou amuleto, ainda é muito valorizado, protegendo contra a morte violenta e contribuindo para uma saudável vida longeva.


A associação do escaravelho com o signo de Câncer também tem a ver com o lado negativo do inseto na medida em que ele, como inúmeras crenças o atestam, tem relação com o fim da vida e, portanto, com a quarta casa astrológica, ocupada no Zodíaco padrão pelo referido signo. O inseto pode se tornar maléfico, trazendo a infelicidade, anunciando a morte, quando aparece a se deslocar velozmente nas dependências de uma casa. "A morte é quase certa", diz a tradição, quando um escaravelho negro sobe pelo sapato  ou se movimenta sobre o corpo de alguém que esteja deitado. Na Escandinávia (Suécia), por exemplo, o escaravelho aparece ligado ao deus Thor, nome do qual retira a sua designação, thorbagge, inseto de Thor. Foram os primeiros cristãos da Escandinávia, numa reação aos cultos aborígenes, que demonizaram o escaravelho, chamando-o de o Diabo de Thor.


CÃO   MAIOR
Os egípcios colocaram o início do seu ciclo anual no mês em que o Sol ingressava no signo de Câncer (solstício de verão), simbolizando este ingresso a entrada da alma no corpo físico. Esta ideia está presente nos céus se lembrarmos que a estrela Sirius, Sothis para os gregos, Sepedet para os egípcios, da constelação do Cão Maior, que cobre os trinta graus de Câncer, ao aparecer nos céus, anunciava a inundação do rio Nilo, dia  que marcava o início do ciclo anual e o Egito renascia. Era nesse momento que Osíris e Ísis, representantes das forças da fecundação e da geração de formas, venciam Seth, que representava as forças do mal, da esterilidade, do deserto.

PENTATEUCO
Entre os judeus, o quarto signo zodiacal, Câncer para nós, recebeu o nome de Tamuz. Para melhor compreender o que Tamuz significa,muito oportunas algumas referências históricas relacionadas com os três primeiros signos. Em Nissan (Áries) tivemos a libertação dos judeus do cativeiro egípcio, iniciada por Moisés e concluída por Josué, que os levou à terra prometida. Esta história, conhecida pelo nome de êxodo (ietssiat mitsraim), é o tema principal do segundo livro de Pentateuco. O êxodo é o centro da liturgia e das práticas do calendário judaico, de modo especial as festas relacionadas com peregrinações. Considera a liturgia que todo judeu, a qualquer tempo, participa do êxodo, pois o acontecimento é recriado a cada ano pelo ritual do Pesach.

Em lyar (Touro), temos a referência à descida do maná do céu, o alimento milagroso, em forma de orvalho, que alimentou os judeus durante o êxodo. Conta a tradição que o maná era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando nenhum vestígio no aparelho digestivo, e tendo o sabor que os seus consumidores quisessem. O maná não consumido era recolhido e dado aos animais. Consumida pelos gentios, a carne de tais animais permitiu que os gentios participassem inclusive, indiretamente, da dádiva celeste recebida pelo povo judeu. Uma das grandes vantagens que o maná proporcionava era de afastar os judeus da faina agrícola e dos afazeres domésticos, permitindo-lhes dedicar muito mais tempo ao estudo da Torá.


MOISÉS  RECEBE  A  TORÁ
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )  
No mês de Sivan (Gêmeos) temos a entrega divina da Torá a Moisés. Conceito central do judaísmo, a Torá, segundo os mestres judaicos, já existia antes do mundo vir a ser criado e foi usada por Deus como base para tal criação. A Torá foi revelada por Deus a Moisés no monte Sinai, durante os quarenta dias e quarenta noites que ele lá passou. Recebendo-a e passando-a para o povo judeu, a peçonha da serpente foi removida de Israel. A rigor, o nascimento de Israel só se deu neste mês, no qual a vida racional começa, com o recebimento da Torá por Moisés. É por esta razão que a Astrologia judaica considera os dois signos anteriores, Áries e Touro, como ligados à vida instintiva, pois estão relacionados com animais. É neste dois meses que os judeus devem se esforçar para elevar a sua alma "animal", isto é, devem procuram dominar a sua vida instintiva para que possam receber no mês de Gêmeos (Sivan) a Torá. 

ABRAÃO  E TRÊS ANJOS
( MARC   CHAGALL )
O desenvolvimento religioso do povo judeu, como sabemos, tem três fases: a primeira centrada na figura de Abraão, a segunda é associada a Jacó ou Israel e a terceira a Moisés. Só com o estabelecimento do pacto religioso do Sinai  e dos acontecimentos que se sucederam é que os filhos de Israel se tornaram realmente a nação de Israel. Foi este pacto do Sinai que consolidou um mundo até então disperso em tribos como uma verdadeira nação, uma congregação marcada por sua singularidade religiosa.   

Depois destes meses que constituem a primavera, os três seguintes, relacionados com o verão, são muito mais importantes para história de Israel, já que neles temos tanto o seu crescimento material como seu desenvolvimento na direção de elevados planos espirituais. É
TERRA  PROMETIDA
( MARC  CHAGALL )
nesta fase do zodíaco, associada simbolicamente a Israel, que a sua história começa, marcada pelo envio, por parte de Moisés, de espiões para investigar a terra prometida por Deus, da qual os judeus deveriam se apossar. Tal missão, iniciada em Tamuz, prolongou-se pelo mês de Av (Leão). A missão, como se sabe, falhou; as informações trazidas pelos espiões era falsas, o que ocasionou o adiamento da invasão. 

O signo de Tamuz, como quarto mês do calendário, começava no final de junho ou início de julho, sendo considerado o mês mais quente do ano, Durante este mês, os judeus observavam, a partir do dia dezessete, um período de três semanas de luto pela destruição do templo de Jerusalém, construído por Salomão. Os judeus acreditavam que em tal dia ocorreu não só a destruição do primeiro como, muito mais tarde, do segundo templo, destruídos respectivamente pelos babilônicos e pelos romanos, quando os muros da cidade foram rompidos. Tal acontecimento era comemorado por um dia de jejum, que dá início ao período de luto de três semanas. 

JOSUÉ  E  SEU  POVO
 ( MARC  CHAGALL )
Além das informações falsas sobre a Terra Prometida e seus habitantes, o comportamento dos espiões maculou a visão que os judeus deveriam ter da Terra Prometida. Dos doze espiões enviados, só dois, Josué e Calebe, a viram com olhos espirituais, guiados pela percepção intelectual Os demais falaram que a terra era excelente, mas que os judeus seriam mortos se tentassem tomar o país. A visão dos dez espiões foi falseada por razões emocionais, uma visão tipicamente canceriana, se usarmos a Astrologia para melhor interpretar esta passagem. Em Câncer há sempre o perigo que a visão emocional se sobreponha à racional, não permitindo que desta se passe à espiritual. 

As letras que os judeus ligam a este signo são Heth, que deu origem ao signo de Câncer, e Tav, que gerou a Lua. A primeira lembra existência rudimentar, a substância primordial dos organismos vivos, mas já capaz de sentir e reagir a estímulos. É a existência protoplásmica, matéria fundamental. Tav nos remete a ideias de abundância, calor, proteção. Heth, pelo seu lado positivo, sugere limpeza, purificação, qualidades que se levadas ao coração "limpam" a visão. Como dizem os judeus, o sentido do pecado está na visão. É por ela que somos geralmente tomados pelo desejo, pela concupiscência, o coração se enche de luxúria, e que passamos a viver só no reino da carne. "Vivendo" desta maneira, o coração aquece o sangue, aquecimento, sentido que a palavra Tamuz tinha no antigo aramaico. 

A Astrologia dos antigos judeus nos dizia que era durante o mês de Tamuz que os aspectos do mundo exterior se tronavam mais atraentes. Dizia-nos ela também que o caranguejo era o alimento preferido das pessoas que se entregam aos desejos e aos prazeres. Sartan (caranguejo) é nome que, embora pouco usado, serve também para designar quarta constelação zodiacal entre os judeus.
TRIBOS   DE   ISRAEL
( MARC   CHAGALL )
O regente do signo de Tamuz é a Lua, que tem um grande poder sobre as águas. O Zohar, por sua vez, que estabelece uma correspondência entre as tribos de Israel  e os meses do ano, aponta uma relação entre os signos de Nissan, tribo de Judá, e de Tamuz, tribo de Ruben, pois ambos marcam o início de estações. Ainda astrologicamente, podemos que as três dinâmicas zodiacais, a cardinal, a fixa e a mutável, são representadas, respectivamente, por Abraão, por Isaac e por Jacó. O elemento de Tamuz é a água, compartilhada por ele com os signos de Cheshvan (Escorpião) e Adar (Peixes), relacionados respectivamente com as tribos de Menasche e Naftali. A energia de Tamuz é, como se disse, representada por Reuven ou Ruben (etimologicamente, reu, ver, e vem, filho), que se guiou sozinho pelo deserto quando do êxodo. A tribo de Ruben, instigada por Korach, o levita, se rebelou contra a autoridade de Moisés.

O   BEZERRO   DE   OURO  ( MARC  CHAGALL )

Dizem os antigos astrólogos judeus que os sentidos da visão e da audição são os mais fácil e imediatamente impressionáveis e que, por isso, são sempre os que nos empurrar para agir mais precipitadamente. As tribos de Ruben (Tamuz) e de Shimeon (Av) agiram dessa forma no deserto, procedimento muito comum, no dizer dos referidos astrólogos, das pessoas que sofrem a influência dos dois signos, considerados muito problemáticos. Foi no mês de Tamuz que ocorreu o episódio do Bezerro de Ouro.

A água (o movimento das marés), como elemento de Tamuz, aparece normalmente associada ao desejo entre os judeus. Ambos, a água e os desejos, por suas características lunares, estão sempre a fluir, fazendo o homem mudar sempre. Devido às influências de Tamuz, o homem se torna excessivamente sensível, oscilante, cheio de suscetibilidades, idiossincrático, lembrando muitas vezes, com a sua instabilidade, principalmente a emocional, o movimento dos caranguejos. É de se lembrar que muito antes de adotarem a Astrologia grega, os árabes já conheciam a constelação de Câncer, dando-lhe o nome de Al Saratan, o caranguejo. Nos dialetos aramaicos, a constelação era chamada de Sartana ou Sartan.

Devido ao seu aspecto, o caranguejo era considerado pelos antigos egípcios como um símbolo do poder produtivo das águas, sobretudo pela sua capacidade, segundo eles, de separar de seu corpo seus membros mutilados para dar nascimento a outros. Além do mais, em virtude de seu aspecto repelente, de suas pinças e de sua carapaça, que lembra a proteção de muitos seres demoníacos, o caranguejo sempre foi considerado como uma criatura do mal, satânica. Essa reputação se deve naturalmente à sua natureza lunar, maléfica, atestada desde a mais remota antiguidade. Não é por acaso que o caranguejo, enviado por Hera, aparece nos trabalhos de Hércules como um auxiliar da monstruosa Hidra de Lerna. Hércules, como se sabe, no seu oitavo trabalho, venceu a Hidra e matou o caranguejo, cuja imagem a deusa colocou nos céus para representar a quarta constelação zodiacal.


HÉRCULES  LUTANDO  CONTRA  A  HIDRA  E  O  CARANGUEJO

Domicílio da Lua, Câncer, como todo signo astrológico, apresenta características bastante ambíguas, que podem ser vividas positiva como negativamente, embora, de um modo mais abrangente nos parecendo que estas últimas prevaleçam bem mais. Se de um lado temos ideias de fecundação, de geração, de (hiper)sensibilidade, de memória ativa, de outro temos aderência prolongada ao princípio maternal, dificuldade de libertação de esquemas familiares protetores, excesso de emotividade, infantilismo psíquico, gosto pela intimidade etc. A associação do signo com o universo aquático faz de Câncer o símbolo das águas originais (o líquido amniótico), do mistério das águas profundas e dos segredos. 

Quando aproximamos os valores cancerianos das histórias das grandes famílias (gene, plural de genos) da mitologia grega, principalmente as reais, podemos ampliar bastante as possibilidades significativas tanto de um lado como de outro. Ao fazer esta aproximação, o que de imediato mais chama a nossa atenção são os fortes traços de violência e maldição, de perversidade e de perturbação mental, de loucura mesmo, que impregna as relações entre os seus membros.

Quanto a crimes e a procedimentos anormais, a mitologia grega é farta quanto a exemplos  que bem ilustram o que está acima. Alguns exemplos: Parricídio (Kronos castrando seu pai Urano; Édipo matando Laio, seu pai, pelo direito de passagem). Matricídio (Clitmenestra assassinada por seu filho Orestes, instigado por sua irmã Electra). Uxoricídio (Hércules, numa crise de loucura, matando Mégara, sua esposa). Mariticídio (as Danaides matando seus maridos). Infanticídio (Medeia matando os seus filhos; Hera mandando matar os filhos espúrios de Zeus). Filicídio (Tântalo matando seu filho Pelops). Fratricídio (Etéocles e Polinice, irmãos, se matando). Incesto (relações de Mirra com Cíniras, seu pai, rei de Creta).  Zoofilia (Pasífae, rainha de Creta, relacionando-se
PLUTÃO   RAPTA  KORE
( J.P. VAN  BAURSCHEIT, 1699-1768 ) 
sexualmente com o Touro divino de Creta, enlouquecido, e tornando-se mãe do monstruoso Minotauro). Corrupção passiva (Hércules solicitando ao rei Augias dinheiro "por fora", quando sua realização do seu décimo primeiro trabalho). Raptos e sequestros (Plutão raptando sua sobrinha, Kóre, filha de Deméter, e levando-a para o Hades, onde se transformou em Perséfone, rainha do mundo infernal; Zeus e Poseidon raptando, respectivamente, os belíssimos Ganimedes e Pélops, para transformá-los em seus escanções pessoais). Genocídio (o massacre praticado por Hércules, quando do seu sexto trabalho, em companhia de outros heróis gregos, invadindo Timiscira, a capital do país das amazonas). Há que se mencionar ainda as taras familiares, como as dos Labdácidas e dos Átridas, que fazem parte desse quadro, todas, de um modo ou de outro, podendo ser consideradas e analisadas astrologicamente a partir dos valores cancerianos.

O que a mitologia grega deixa claro, em que pesem as tintas muito carregadas dos exemplos acima, é que o cenário ambiente dos gene, principalmente das famílias reais, como se disse, é sempre um lugar de lutas, de crimes, de violência, de doenças, de miasmas, de heranças malditas. Um exemplo clássico é o da sucessão das dinastias divinas, um reflexo certamente bastante exagerado das relações familiares de um mundo patriarcal fechadíssimo, mas, à sua maneira, sob muitos aspectos, aceitáveis. Um dado importante que podemos retirar da história da sucessão do poder nas dinastias divinas é que o filho nasce sempre da morte do pai. De ambos os genitores?  Uma antecipação freudiana?


FREUD ( W.V. KRAUSZ , 1936
Uma das mais importantes histórias da mitologia grega, a de Édipo, toda ela centrada em valores familiares, está nos fundamentos do pensamento psicanalítico moderno como Freud o elaborou (se quiser, visite neste blog o artigo Édipo, Jocasta, Antígona, Freud e Anna) . É dele que saiu, por exemplo, o famigerado complexo de Édipo, hoje diluído pelos meios de comunicação para o grande público. Jung, na chamada psicologia profunda, não se cansou, em companhia de Kerényi, de visitar os mitos gregos e de escrever sobre eles. 

ARLEQUIM  E  PIERRÔ
( ANDRÉ  DERAIN , 1880 - 1954
Em muitas fontes artísticas, literárias musicais e cinematográficas podemos encontrar temas e personagens (alguns mitificados) que pode servir de rica ilustração do mundo canceriano. Um dos mais fascinantes personagens é o do Pierrô. Sonhador, poeta, vivendo no "mundo da Lua", usando uma espécie de caftã branco aperolado, é um dos mais notáveis personagens lunares no mundo da arte. É o oposto de Arlequim, este tipicamente geminiano. Oriundo da Commedia dell´Arte, como o Arlequim, tem nela o nome de Pedrolino. Apareceu em Paris no séc. XVI, de onde saltou para os teatros de feira, para a Ópera Cômica francesa e para o resto do mundo, inclusive para o carnaval brasileiro, onde tem como parceira Colombina. Maestro da pantomima, Pierrô não consegue falar, apenas sente. Ingênuo e sentimental, com a sua roupa enfeitada de pompons e gola grande franzida, ama Colombina, que não o ama. O Pierrô foi imortalizado por um dos maiores atores do teatro e do cinema de todos os tempos, Jean-Louis Barrault, como Baptiste, no filme Les Enfants du Paradis (exibido no Brasil com o idiota título Boulevard do Crime), de Marcel Carné, obra-prima do cinema francês (1945). Nas artes plásticas, Antoine Watteau (1.684-1.721) imortalizou o personagem na tela como Pierrot ou Gilles. Na música, o personagem foi homenageado por Arnold Schoenberg que, com a sua peça Pierrot Lunaire, produziu uma das mais revolucionárias obras musicais do séc. XX. 



Uma das melhores ilustrações do signo de Câncer nós a encontramos, sem dúvida na lâmina XVIII do Tarot, nela estando incluídas, segundo nossa interpretação, referências às constelações do Cão Maior e do Cão Menor e às suas duas mais importantes estrelas, Sirius e Procyon. Lembre-se que a primeira constelação mencionada estende-se de 0º de Câncer a 0º de Leão e a segunda de 19º a 28º de Câncer. Sirius está hoje aproximadamente a 13º24´de Câncer e Procyon a 25º06´de Câncer. A constelação de Câncer, por sua vez, estende-se de 22ºde Câncer a 17º de Leão.

Associando-se a Câncer, as estrelas Sirius e Procyon, numa interpretação astrológica (veja, se quiser, neste blog, os artigos sobre as constelações do Canis Major e do Canis Minor) indicam que elas influenciam fortemente o mundo canceriano ao indicarem que a partir dele há um eu a ser construído (passagem de Câncer para Leão ou da quarta casa para a quinta casa astrológicas). Não é por outra razão que num plano psicológico, o cão é um arquétipo da individuação, representando o primeiro estágio da nossa evolução psíquica. O modelo básico deste entendimento está em Cérbero, o cão tricéfalo, de dentes envenenados, que guarda as portas do Inferno (Hades), símbolo do limiar que separa o consciente do inconsciente, primeiro estágio de nossa evolução. Amigo fiel do homem, seu companheiro desde a mais remota antiguidade, seu indicador de trilhas na arte da cinegética, animal psicopompo por excelência, o cão sempre foi miticamente o seu guia na vida como na noite escura da morte.


Para Ptolomeu, as estrelas que estão nos olhos do caranguejo exercem influências de natureza mercuriana. As que estão nas pinças atuam saturninamente e mercurianamente. A estrela mais brilhante de Câncer é Acubens, numa das pinças. As outras estrelas de Câncer, menos importantes, são os dois Asnos (Aseli), o Boreal (Norte) e o Austral (Sul), estrelas assim designadas para honrar os dois animais, um de Hefesto e outro de Dioniso, por eles montados na Titanomaquia. Há também em Câncer uma nebulosa a que se deu, segundo a tradição, o nome de Manjedoura, de Colmeia, de Creche ou Presépio, na cabeça do caranguejo. Simbolicamente, não é preciso muito esforço para se perceber que os nomes desta nebulosa se associam a lugares protegidos onde se come e onde também são dispensados cuidados maternais (Creche). Já a palavra presépio lembra, etimologicamente, lugar fechado onde se guardam animais durante a noite (prae,  antes, na frente, e saepes, cerca, barreira).

Diante do que se expõe acima, fica difícil entender por que os cristãos fixaram a data de nascimento de Jesus Cristo no solstício de inverno (dezembro, signo de Capricórnio) e adotaram para representar esse nascimento, desde S.Lucas, um cenário que a tradição sempre associou ao signo de Câncer (solstício de verão). O nome de Colmeia, por sua vez, nos remete a uma ideia de agrupamento, tanto de vida comunitária como de massificação, um conjunto de seres submetido a um destino do qual não se pode escapar, um destino inexorável, imutável. A massa, o pastoso, o sem forma é o que chamamos popularmente de povão, sempre a ser modelado. E, apesar deste destino, também presentes, algumas vezes, cada vez menos aliás, sugestões de sacrifício do individual pelo coletivo, de solidariedade, de misericórdia, características quem sabe ainda presentes em certos tipos humanos do signo. 


MODERNO TELESCÓPIO
HUANCAYO , PERU
Sob o ponto de vista de antigas tradições astrológicas (Aratus), a Colmeia, como nebulosa, pode prejudicar a visão daquele que sofre influência. Ela, como toda nebulosa, não permite que "vejamos" bem, isto é, não enxergamos nada além dos valores cancerianos. Esta nebulosa é uma das maiores e mais brilhantes do céu, podendo ser vista a olho nu em noites muito claras. Galileu quando a viu registrou nela observou 36 estrelas. Modernos telescópios aumentaram esse número para 300. Sua distância da Terra é estimada em 525 anos-luz. 

SÃO  JOÃO
( EL  GRECO , 1541 - 1614 )
Já na antiguidade estavam identificadas 83 estrelas em Câncer, nenhuma delas merecendo destaque especial. Por esta razão, o signo foi muitas vezes designado pelo nome de O Ataúde pelos judeus e de O Sepulcro de Lázaro pela tradição cristã. Lázaro, amigo de Jesus e por ele ressuscitado, como se sabe, aparece no evangelho de S.João e era amigo de Jesus, irmão
MARIA  BETÂNIA
( RUBENS , 1577 - 1640 )
de Marta e de Maria Betânia. A lenda o fez desembarcar milagrosamente em Marselha, cidade marítima do sul da França, da qual ele se tornará o seu primeiro bispo e lá será martirizado. Não se deve confundir este Lázaro (em hebraico, coberto de úlceras, chagado) com o mendigo leproso de que fala S.Lucas. Deste Lázaro é que vêm nomes como lazarento e leprosário. 

Quanto ao simbolismo de ataúde, ele aponta aqui para o fato de que a morte tudo nivela. No ataúde, todos são iguais, ninguém tem mais identidade. Uma alegoria que, sem dúvida, liga o signo de Câncer (quarta casa astrológica) ao ataúde. Na medida em que este seja uma simples caixa de pinho ou um rico caixão funerário, feito com madeiras nobres e ricos ornamentos metálicos trabalhados, o signo de Câncer se constitui para muitos, sem dúvida, um "morada" de gente morta, sem vida própria. 

Acubens é uma estrela de quarta magnitude, não tendo praticamente maior presença na Astrologia. Está hoje a 12º57´ de Leão. O nome veio do árabe, Al Zubanah, que tem relação com as pinças. Ela incorpora praticamente todo o simbolismo do signo enquanto persistência, ainda que claudicante, habilidade para evitar ou superar circunstâncias adversas. Presentes no simbolismo também sempre ideais de origem (Cloto) e de morte ou renascimento (Átropos). Negativamente, Acubens é apagamento e morte.