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sábado, 13 de maio de 2017

CÂNCER (4)

                                                   
Na Índia, quando a alma chega ou não à libertação (moksha), abrem-se dois caminhos para ela. Um é o da reencarnação, caminho do solstício de inverno, chamado pelos hindus de pitriyana ou dhumamarga. O outro é o caminho que leva ao Brahman, de onde não há mais retorno. Este caminho, ligado ao solstício de verão, tem o nome de devayana ou archimarga. 


CERIMÔNIA  -  PITRIS

É preciso lembrar, quando entramos neste tema da reencarnação, que para os hindus ainda depois de muito tempo que uma encarnação teve fim, a alma conserva algumas ligações com o seu ambiente terrestre, com o seu mundo familiar. É isto que leva os hindus a elaborar um complexo culto dos antepassados (pitris). Segundo o grau de sua ligação com o mundo ancestral, a alma pode ficar habitando um dos três mundos dos ancestrais (pitrilokas), tendo, nessa condição, ainda, muitos envolvimentos com o mundos vivos.


CREMAÇÃO  -  GANGES

A alma, depois da morte do corpo físico, pode passar por um grande período de hesitação, durante o qual, não totalmente liberta dos laços terrestres, fica errando como um fantasma. Nessa condição, tem o nome de preta. O culto dos antepassados, que tem um grande lugar na religião hindu, inicia-se a partir do quarto dia da cremação. Recolhe-se a ossada e o que sobrou num vaso de argila (asthisauchaya) para ser tudo lançado num rio, de preferência no Ganges. 


MANSÕES   LUNARES  -  NAKSHATRAS

É sob o nome de pitris (ancestrais) que são venerados os primeiros progenitores (miticamente) da raça humana bem como os ancestrais familiares, cremados ou inumados segundo os ritos. Eles são, em geral, considerados como semelhantes aos deuses, com os quais muitas vezes entram em choque. Nessa condição, são imortais e compartilham com eles uma vida de imortalidade. os ritos, chamados shraddhas (homenagens), são realizados em sua honra e as oferendas a eles feitas têm o nome de pindas. Os ancestrais residem no espaço ou na esfera da Lua. Eles são regentes das constelações (nakshatras ou mansões lunares) conhecidas pelo nome de Magha e de Mula. A primeira é a décima mansão lunar e seu nome significa A Poderosa, indo, na esfera zodiacal, de 0º a 13º20´de Leão. A segunda é a décima nona mansão lunar e seu nome pode ser traduzido como A Raiz, estendendo-se de )º a 13ª20´de Sagitário. Quando a Lua atravessa Magha, esse período, dentre outras possibilidades astrológicas favoráveis, é propício para a realização de cerimônias que homenageiem os ancestrais. 

LEI   DO  KARMA
O Hinduísmo admite que a alma (jiva) não nasce apenas uma vez, mas várias vezes, inúmeras vezes, quer no passado, quer no futuro. As suas ações no plano terrestre, segundo a lei da causalidade (lei do karma), determinam sempre as condições das voltas futuras, isto é, das suas sucessivas reencarnações. O pensamento aqui é claro: o homem é sempre o que ele faz de si mesmo e este fazer-se determina no que ele se tornará. 


PLÍNIO ,  O   VELHO
As doutrinas pitagóricas nos colocam diante de algo semelhante quando nos falam da identidade substancial das almas e dos astros. É conhecida a citação de Hiparco, segundo Plínio, o Velho, de que nossas almas são uma parte do Céu, que é a sua natural morada. Caídas no mundo sublunar, em razão de uma falta original, é ao Céu que elas retornarão, quando devidamente depuradas. Um dos dogmas do ensino pitagórico era o de que as almas dos seres humanos provêm do Céu. O próprio Pitágoras, aliás, passava por um gênio que descera à Terra para revelar aos homens o caminho da salvação. 

PLUTARCO
Quanto aos egípcios, é interessante notar que eles escolheram o escaravelho para representar o signo de Câncer. Quem nos explica isto é Plutarco, historiador, moralista e biógrafo grego. Ele nos dizia que o escaravelho parecia imitar o Sol ao se movimentar, lembrando auto-geração, regeneração, ao rolar uma pequena bolota na qual estava depositada a sua semente (sêmen). Divinizado, tomava o nome do deus solar Ra, chamado de Khepri, imagem do Sol nascente. É por esta razão que as múmias levavam um escaravelho no peito como amuleto, como proteção mágica, tendo em vista o seu renascimento no Outro Lado, depois da psicostasia.

Como motivo de decoração, o escaravelho era encontrado praticamente em todos países mediterrâneos, sempre simbolizando a ressurreição, emblema daqueles que se auto-regeneram. Era, em suma, o Sol que sempre retornava depois de ter atravessado as trevas noturnas. Além do mais, o escaravelho sabia sobreviver
SANTO   AMBRÓSIO
quando das enchentes do rio Nilo. Segundo crenças muito antigas, profundamente arraigadas em antigas tradições, ao se alimentar, o escaravelho sempre se alimentava do que lhe era estritamente necessário, colaborando dessa forma para a regeneração física e moral do cosmos. Foi por esta razão que Santo Ambrósio, um dos maiores doutores da Igreja católica, sempre associou a imagem de Cristo à do escaravelho.

ANEL   TALISMÃ
COM ESCARAVELHO
A pequena bolota na qual o escaravelho encerrava a sua bolota era chamada de "o ovo do mundo do qual nascia a vida." Ao favorecer a reencarnação, o escaravelho, como talismã (do árabe, talasim, sortilégio; e do grego, telesma, rito religioso), era muito valorizado. Muito falsificados, os talismãs fabricados do Egito eram vendidos "a peso de ouro".

Na antiga Roma, segundo Plínio, o Velho, os cornos deste coleóptero, colocados numa pequena cápsula (sachê), eram considerados também como poderoso amuleto, protegendo especialmente a vista. Era comum, segundo Plutarco, que os soldados gregos, os hoplitas principalmente, durante as batalhas, usassem amuletos na forma de escaravelhos como proteção do
SARAH   BERNHARDT
( PAUL   NADAR , 1856 - 1939 ) 
corpo físico. A fama do escaravelho como amuleto ou talismã atravessou a Idade Média, alcançado a sua maior voga em fins do séc. XIX. Em toda a Europa, um berloque ou um pendantif na forma do inseto eram usados como emblema de fidelidade conjugal, moda lançada ou difundida pela famosa atriz do teatro e do cinema mudo francês, Sarah Bernhardt. Com menos evidência hoje, o escaravelho, como talismã ou amuleto, ainda é muito valorizado, protegendo contra a morte violenta e contribuindo para uma saudável vida longeva.


A associação do escaravelho com o signo de Câncer também tem a ver com o lado negativo do inseto na medida em que ele, como inúmeras crenças o atestam, tem relação com o fim da vida e, portanto, com a quarta casa astrológica, ocupada no Zodíaco padrão pelo referido signo. O inseto pode se tornar maléfico, trazendo a infelicidade, anunciando a morte, quando aparece a se deslocar velozmente nas dependências de uma casa. "A morte é quase certa", diz a tradição, quando um escaravelho negro sobe pelo sapato  ou se movimenta sobre o corpo de alguém que esteja deitado. Na Escandinávia (Suécia), por exemplo, o escaravelho aparece ligado ao deus Thor, nome do qual retira a sua designação, thorbagge, inseto de Thor. Foram os primeiros cristãos da Escandinávia, numa reação aos cultos aborígenes, que demonizaram o escaravelho, chamando-o de o Diabo de Thor.


CÃO   MAIOR
Os egípcios colocaram o início do seu ciclo anual no mês em que o Sol ingressava no signo de Câncer (solstício de verão), simbolizando este ingresso a entrada da alma no corpo físico. Esta ideia está presente nos céus se lembrarmos que a estrela Sirius, Sothis para os gregos, Sepedet para os egípcios, da constelação do Cão Maior, que cobre os trinta graus de Câncer, ao aparecer nos céus, anunciava a inundação do rio Nilo, dia  que marcava o início do ciclo anual e o Egito renascia. Era nesse momento que Osíris e Ísis, representantes das forças da fecundação e da geração de formas, venciam Seth, que representava as forças do mal, da esterilidade, do deserto.

PENTATEUCO
Entre os judeus, o quarto signo zodiacal, Câncer para nós, recebeu o nome de Tamuz. Para melhor compreender o que Tamuz significa,muito oportunas algumas referências históricas relacionadas com os três primeiros signos. Em Nissan (Áries) tivemos a libertação dos judeus do cativeiro egípcio, iniciada por Moisés e concluída por Josué, que os levou à terra prometida. Esta história, conhecida pelo nome de êxodo (ietssiat mitsraim), é o tema principal do segundo livro de Pentateuco. O êxodo é o centro da liturgia e das práticas do calendário judaico, de modo especial as festas relacionadas com peregrinações. Considera a liturgia que todo judeu, a qualquer tempo, participa do êxodo, pois o acontecimento é recriado a cada ano pelo ritual do Pesach.

Em lyar (Touro), temos a referência à descida do maná do céu, o alimento milagroso, em forma de orvalho, que alimentou os judeus durante o êxodo. Conta a tradição que o maná era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando nenhum vestígio no aparelho digestivo, e tendo o sabor que os seus consumidores quisessem. O maná não consumido era recolhido e dado aos animais. Consumida pelos gentios, a carne de tais animais permitiu que os gentios participassem inclusive, indiretamente, da dádiva celeste recebida pelo povo judeu. Uma das grandes vantagens que o maná proporcionava era de afastar os judeus da faina agrícola e dos afazeres domésticos, permitindo-lhes dedicar muito mais tempo ao estudo da Torá.


MOISÉS  RECEBE  A  TORÁ
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )  
No mês de Sivan (Gêmeos) temos a entrega divina da Torá a Moisés. Conceito central do judaísmo, a Torá, segundo os mestres judaicos, já existia antes do mundo vir a ser criado e foi usada por Deus como base para tal criação. A Torá foi revelada por Deus a Moisés no monte Sinai, durante os quarenta dias e quarenta noites que ele lá passou. Recebendo-a e passando-a para o povo judeu, a peçonha da serpente foi removida de Israel. A rigor, o nascimento de Israel só se deu neste mês, no qual a vida racional começa, com o recebimento da Torá por Moisés. É por esta razão que a Astrologia judaica considera os dois signos anteriores, Áries e Touro, como ligados à vida instintiva, pois estão relacionados com animais. É neste dois meses que os judeus devem se esforçar para elevar a sua alma "animal", isto é, devem procuram dominar a sua vida instintiva para que possam receber no mês de Gêmeos (Sivan) a Torá. 

ABRAÃO  E TRÊS ANJOS
( MARC   CHAGALL )
O desenvolvimento religioso do povo judeu, como sabemos, tem três fases: a primeira centrada na figura de Abraão, a segunda é associada a Jacó ou Israel e a terceira a Moisés. Só com o estabelecimento do pacto religioso do Sinai  e dos acontecimentos que se sucederam é que os filhos de Israel se tornaram realmente a nação de Israel. Foi este pacto do Sinai que consolidou um mundo até então disperso em tribos como uma verdadeira nação, uma congregação marcada por sua singularidade religiosa.   

Depois destes meses que constituem a primavera, os três seguintes, relacionados com o verão, são muito mais importantes para história de Israel, já que neles temos tanto o seu crescimento material como seu desenvolvimento na direção de elevados planos espirituais. É
TERRA  PROMETIDA
( MARC  CHAGALL )
nesta fase do zodíaco, associada simbolicamente a Israel, que a sua história começa, marcada pelo envio, por parte de Moisés, de espiões para investigar a terra prometida por Deus, da qual os judeus deveriam se apossar. Tal missão, iniciada em Tamuz, prolongou-se pelo mês de Av (Leão). A missão, como se sabe, falhou; as informações trazidas pelos espiões era falsas, o que ocasionou o adiamento da invasão. 

O signo de Tamuz, como quarto mês do calendário, começava no final de junho ou início de julho, sendo considerado o mês mais quente do ano, Durante este mês, os judeus observavam, a partir do dia dezessete, um período de três semanas de luto pela destruição do templo de Jerusalém, construído por Salomão. Os judeus acreditavam que em tal dia ocorreu não só a destruição do primeiro como, muito mais tarde, do segundo templo, destruídos respectivamente pelos babilônicos e pelos romanos, quando os muros da cidade foram rompidos. Tal acontecimento era comemorado por um dia de jejum, que dá início ao período de luto de três semanas. 

JOSUÉ  E  SEU  POVO
 ( MARC  CHAGALL )
Além das informações falsas sobre a Terra Prometida e seus habitantes, o comportamento dos espiões maculou a visão que os judeus deveriam ter da Terra Prometida. Dos doze espiões enviados, só dois, Josué e Calebe, a viram com olhos espirituais, guiados pela percepção intelectual Os demais falaram que a terra era excelente, mas que os judeus seriam mortos se tentassem tomar o país. A visão dos dez espiões foi falseada por razões emocionais, uma visão tipicamente canceriana, se usarmos a Astrologia para melhor interpretar esta passagem. Em Câncer há sempre o perigo que a visão emocional se sobreponha à racional, não permitindo que desta se passe à espiritual. 

As letras que os judeus ligam a este signo são Heth, que deu origem ao signo de Câncer, e Tav, que gerou a Lua. A primeira lembra existência rudimentar, a substância primordial dos organismos vivos, mas já capaz de sentir e reagir a estímulos. É a existência protoplásmica, matéria fundamental. Tav nos remete a ideias de abundância, calor, proteção. Heth, pelo seu lado positivo, sugere limpeza, purificação, qualidades que se levadas ao coração "limpam" a visão. Como dizem os judeus, o sentido do pecado está na visão. É por ela que somos geralmente tomados pelo desejo, pela concupiscência, o coração se enche de luxúria, e que passamos a viver só no reino da carne. "Vivendo" desta maneira, o coração aquece o sangue, aquecimento, sentido que a palavra Tamuz tinha no antigo aramaico. 

A Astrologia dos antigos judeus nos dizia que era durante o mês de Tamuz que os aspectos do mundo exterior se tronavam mais atraentes. Dizia-nos ela também que o caranguejo era o alimento preferido das pessoas que se entregam aos desejos e aos prazeres. Sartan (caranguejo) é nome que, embora pouco usado, serve também para designar quarta constelação zodiacal entre os judeus.
TRIBOS   DE   ISRAEL
( MARC   CHAGALL )
O regente do signo de Tamuz é a Lua, que tem um grande poder sobre as águas. O Zohar, por sua vez, que estabelece uma correspondência entre as tribos de Israel  e os meses do ano, aponta uma relação entre os signos de Nissan, tribo de Judá, e de Tamuz, tribo de Ruben, pois ambos marcam o início de estações. Ainda astrologicamente, podemos que as três dinâmicas zodiacais, a cardinal, a fixa e a mutável, são representadas, respectivamente, por Abraão, por Isaac e por Jacó. O elemento de Tamuz é a água, compartilhada por ele com os signos de Cheshvan (Escorpião) e Adar (Peixes), relacionados respectivamente com as tribos de Menasche e Naftali. A energia de Tamuz é, como se disse, representada por Reuven ou Ruben (etimologicamente, reu, ver, e vem, filho), que se guiou sozinho pelo deserto quando do êxodo. A tribo de Ruben, instigada por Korach, o levita, se rebelou contra a autoridade de Moisés.

O   BEZERRO   DE   OURO  ( MARC  CHAGALL )

Dizem os antigos astrólogos judeus que os sentidos da visão e da audição são os mais fácil e imediatamente impressionáveis e que, por isso, são sempre os que nos empurrar para agir mais precipitadamente. As tribos de Ruben (Tamuz) e de Shimeon (Av) agiram dessa forma no deserto, procedimento muito comum, no dizer dos referidos astrólogos, das pessoas que sofrem a influência dos dois signos, considerados muito problemáticos. Foi no mês de Tamuz que ocorreu o episódio do Bezerro de Ouro.

A água (o movimento das marés), como elemento de Tamuz, aparece normalmente associada ao desejo entre os judeus. Ambos, a água e os desejos, por suas características lunares, estão sempre a fluir, fazendo o homem mudar sempre. Devido às influências de Tamuz, o homem se torna excessivamente sensível, oscilante, cheio de suscetibilidades, idiossincrático, lembrando muitas vezes, com a sua instabilidade, principalmente a emocional, o movimento dos caranguejos. É de se lembrar que muito antes de adotarem a Astrologia grega, os árabes já conheciam a constelação de Câncer, dando-lhe o nome de Al Saratan, o caranguejo. Nos dialetos aramaicos, a constelação era chamada de Sartana ou Sartan.

Devido ao seu aspecto, o caranguejo era considerado pelos antigos egípcios como um símbolo do poder produtivo das águas, sobretudo pela sua capacidade, segundo eles, de separar de seu corpo seus membros mutilados para dar nascimento a outros. Além do mais, em virtude de seu aspecto repelente, de suas pinças e de sua carapaça, que lembra a proteção de muitos seres demoníacos, o caranguejo sempre foi considerado como uma criatura do mal, satânica. Essa reputação se deve naturalmente à sua natureza lunar, maléfica, atestada desde a mais remota antiguidade. Não é por acaso que o caranguejo, enviado por Hera, aparece nos trabalhos de Hércules como um auxiliar da monstruosa Hidra de Lerna. Hércules, como se sabe, no seu oitavo trabalho, venceu a Hidra e matou o caranguejo, cuja imagem a deusa colocou nos céus para representar a quarta constelação zodiacal.


HÉRCULES  LUTANDO  CONTRA  A  HIDRA  E  O  CARANGUEJO

Domicílio da Lua, Câncer, como todo signo astrológico, apresenta características bastante ambíguas, que podem ser vividas positiva como negativamente, embora, de um modo mais abrangente nos parecendo que estas últimas prevaleçam bem mais. Se de um lado temos ideias de fecundação, de geração, de (hiper)sensibilidade, de memória ativa, de outro temos aderência prolongada ao princípio maternal, dificuldade de libertação de esquemas familiares protetores, excesso de emotividade, infantilismo psíquico, gosto pela intimidade etc. A associação do signo com o universo aquático faz de Câncer o símbolo das águas originais (o líquido amniótico), do mistério das águas profundas e dos segredos. 

Quando aproximamos os valores cancerianos das histórias das grandes famílias (gene, plural de genos) da mitologia grega, principalmente as reais, podemos ampliar bastante as possibilidades significativas tanto de um lado como de outro. Ao fazer esta aproximação, o que de imediato mais chama a nossa atenção são os fortes traços de violência e maldição, de perversidade e de perturbação mental, de loucura mesmo, que impregna as relações entre os seus membros.

Quanto a crimes e a procedimentos anormais, a mitologia grega é farta quanto a exemplos  que bem ilustram o que está acima. Alguns exemplos: Parricídio (Kronos castrando seu pai Urano; Édipo matando Laio, seu pai, pelo direito de passagem). Matricídio (Clitmenestra assassinada por seu filho Orestes, instigado por sua irmã Electra). Uxoricídio (Hércules, numa crise de loucura, matando Mégara, sua esposa). Mariticídio (as Danaides matando seus maridos). Infanticídio (Medeia matando os seus filhos; Hera mandando matar os filhos espúrios de Zeus). Filicídio (Tântalo matando seu filho Pelops). Fratricídio (Etéocles e Polinice, irmãos, se matando). Incesto (relações de Mirra com Cíniras, seu pai, rei de Creta).  Zoofilia (Pasífae, rainha de Creta, relacionando-se
PLUTÃO   RAPTA  KORE
( J.P. VAN  BAURSCHEIT, 1699-1768 ) 
sexualmente com o Touro divino de Creta, enlouquecido, e tornando-se mãe do monstruoso Minotauro). Corrupção passiva (Hércules solicitando ao rei Augias dinheiro "por fora", quando sua realização do seu décimo primeiro trabalho). Raptos e sequestros (Plutão raptando sua sobrinha, Kóre, filha de Deméter, e levando-a para o Hades, onde se transformou em Perséfone, rainha do mundo infernal; Zeus e Poseidon raptando, respectivamente, os belíssimos Ganimedes e Pélops, para transformá-los em seus escanções pessoais). Genocídio (o massacre praticado por Hércules, quando do seu sexto trabalho, em companhia de outros heróis gregos, invadindo Timiscira, a capital do país das amazonas). Há que se mencionar ainda as taras familiares, como as dos Labdácidas e dos Átridas, que fazem parte desse quadro, todas, de um modo ou de outro, podendo ser consideradas e analisadas astrologicamente a partir dos valores cancerianos.

O que a mitologia grega deixa claro, em que pesem as tintas muito carregadas dos exemplos acima, é que o cenário ambiente dos gene, principalmente das famílias reais, como se disse, é sempre um lugar de lutas, de crimes, de violência, de doenças, de miasmas, de heranças malditas. Um exemplo clássico é o da sucessão das dinastias divinas, um reflexo certamente bastante exagerado das relações familiares de um mundo patriarcal fechadíssimo, mas, à sua maneira, sob muitos aspectos, aceitáveis. Um dado importante que podemos retirar da história da sucessão do poder nas dinastias divinas é que o filho nasce sempre da morte do pai. De ambos os genitores?  Uma antecipação freudiana?


FREUD ( W.V. KRAUSZ , 1936
Uma das mais importantes histórias da mitologia grega, a de Édipo, toda ela centrada em valores familiares, está nos fundamentos do pensamento psicanalítico moderno como Freud o elaborou (se quiser, visite neste blog o artigo Édipo, Jocasta, Antígona, Freud e Anna) . É dele que saiu, por exemplo, o famigerado complexo de Édipo, hoje diluído pelos meios de comunicação para o grande público. Jung, na chamada psicologia profunda, não se cansou, em companhia de Kerényi, de visitar os mitos gregos e de escrever sobre eles. 

ARLEQUIM  E  PIERRÔ
( ANDRÉ  DERAIN , 1880 - 1954
Em muitas fontes artísticas, literárias musicais e cinematográficas podemos encontrar temas e personagens (alguns mitificados) que pode servir de rica ilustração do mundo canceriano. Um dos mais fascinantes personagens é o do Pierrô. Sonhador, poeta, vivendo no "mundo da Lua", usando uma espécie de caftã branco aperolado, é um dos mais notáveis personagens lunares no mundo da arte. É o oposto de Arlequim, este tipicamente geminiano. Oriundo da Commedia dell´Arte, como o Arlequim, tem nela o nome de Pedrolino. Apareceu em Paris no séc. XVI, de onde saltou para os teatros de feira, para a Ópera Cômica francesa e para o resto do mundo, inclusive para o carnaval brasileiro, onde tem como parceira Colombina. Maestro da pantomima, Pierrô não consegue falar, apenas sente. Ingênuo e sentimental, com a sua roupa enfeitada de pompons e gola grande franzida, ama Colombina, que não o ama. O Pierrô foi imortalizado por um dos maiores atores do teatro e do cinema de todos os tempos, Jean-Louis Barrault, como Baptiste, no filme Les Enfants du Paradis (exibido no Brasil com o idiota título Boulevard do Crime), de Marcel Carné, obra-prima do cinema francês (1945). Nas artes plásticas, Antoine Watteau (1.684-1.721) imortalizou o personagem na tela como Pierrot ou Gilles. Na música, o personagem foi homenageado por Arnold Schoenberg que, com a sua peça Pierrot Lunaire, produziu uma das mais revolucionárias obras musicais do séc. XX. 



Uma das melhores ilustrações do signo de Câncer nós a encontramos, sem dúvida na lâmina XVIII do Tarot, nela estando incluídas, segundo nossa interpretação, referências às constelações do Cão Maior e do Cão Menor e às suas duas mais importantes estrelas, Sirius e Procyon. Lembre-se que a primeira constelação mencionada estende-se de 0º de Câncer a 0º de Leão e a segunda de 19º a 28º de Câncer. Sirius está hoje aproximadamente a 13º24´de Câncer e Procyon a 25º06´de Câncer. A constelação de Câncer, por sua vez, estende-se de 22ºde Câncer a 17º de Leão.

Associando-se a Câncer, as estrelas Sirius e Procyon, numa interpretação astrológica (veja, se quiser, neste blog, os artigos sobre as constelações do Canis Major e do Canis Minor) indicam que elas influenciam fortemente o mundo canceriano ao indicarem que a partir dele há um eu a ser construído (passagem de Câncer para Leão ou da quarta casa para a quinta casa astrológicas). Não é por outra razão que num plano psicológico, o cão é um arquétipo da individuação, representando o primeiro estágio da nossa evolução psíquica. O modelo básico deste entendimento está em Cérbero, o cão tricéfalo, de dentes envenenados, que guarda as portas do Inferno (Hades), símbolo do limiar que separa o consciente do inconsciente, primeiro estágio de nossa evolução. Amigo fiel do homem, seu companheiro desde a mais remota antiguidade, seu indicador de trilhas na arte da cinegética, animal psicopompo por excelência, o cão sempre foi miticamente o seu guia na vida como na noite escura da morte.


Para Ptolomeu, as estrelas que estão nos olhos do caranguejo exercem influências de natureza mercuriana. As que estão nas pinças atuam saturninamente e mercurianamente. A estrela mais brilhante de Câncer é Acubens, numa das pinças. As outras estrelas de Câncer, menos importantes, são os dois Asnos (Aseli), o Boreal (Norte) e o Austral (Sul), estrelas assim designadas para honrar os dois animais, um de Hefesto e outro de Dioniso, por eles montados na Titanomaquia. Há também em Câncer uma nebulosa a que se deu, segundo a tradição, o nome de Manjedoura, de Colmeia, de Creche ou Presépio, na cabeça do caranguejo. Simbolicamente, não é preciso muito esforço para se perceber que os nomes desta nebulosa se associam a lugares protegidos onde se come e onde também são dispensados cuidados maternais (Creche). Já a palavra presépio lembra, etimologicamente, lugar fechado onde se guardam animais durante a noite (prae,  antes, na frente, e saepes, cerca, barreira).

Diante do que se expõe acima, fica difícil entender por que os cristãos fixaram a data de nascimento de Jesus Cristo no solstício de inverno (dezembro, signo de Capricórnio) e adotaram para representar esse nascimento, desde S.Lucas, um cenário que a tradição sempre associou ao signo de Câncer (solstício de verão). O nome de Colmeia, por sua vez, nos remete a uma ideia de agrupamento, tanto de vida comunitária como de massificação, um conjunto de seres submetido a um destino do qual não se pode escapar, um destino inexorável, imutável. A massa, o pastoso, o sem forma é o que chamamos popularmente de povão, sempre a ser modelado. E, apesar deste destino, também presentes, algumas vezes, cada vez menos aliás, sugestões de sacrifício do individual pelo coletivo, de solidariedade, de misericórdia, características quem sabe ainda presentes em certos tipos humanos do signo. 


MODERNO TELESCÓPIO
HUANCAYO , PERU
Sob o ponto de vista de antigas tradições astrológicas (Aratus), a Colmeia, como nebulosa, pode prejudicar a visão daquele que sofre influência. Ela, como toda nebulosa, não permite que "vejamos" bem, isto é, não enxergamos nada além dos valores cancerianos. Esta nebulosa é uma das maiores e mais brilhantes do céu, podendo ser vista a olho nu em noites muito claras. Galileu quando a viu registrou nela observou 36 estrelas. Modernos telescópios aumentaram esse número para 300. Sua distância da Terra é estimada em 525 anos-luz. 

SÃO  JOÃO
( EL  GRECO , 1541 - 1614 )
Já na antiguidade estavam identificadas 83 estrelas em Câncer, nenhuma delas merecendo destaque especial. Por esta razão, o signo foi muitas vezes designado pelo nome de O Ataúde pelos judeus e de O Sepulcro de Lázaro pela tradição cristã. Lázaro, amigo de Jesus e por ele ressuscitado, como se sabe, aparece no evangelho de S.João e era amigo de Jesus, irmão
MARIA  BETÂNIA
( RUBENS , 1577 - 1640 )
de Marta e de Maria Betânia. A lenda o fez desembarcar milagrosamente em Marselha, cidade marítima do sul da França, da qual ele se tornará o seu primeiro bispo e lá será martirizado. Não se deve confundir este Lázaro (em hebraico, coberto de úlceras, chagado) com o mendigo leproso de que fala S.Lucas. Deste Lázaro é que vêm nomes como lazarento e leprosário. 

Quanto ao simbolismo de ataúde, ele aponta aqui para o fato de que a morte tudo nivela. No ataúde, todos são iguais, ninguém tem mais identidade. Uma alegoria que, sem dúvida, liga o signo de Câncer (quarta casa astrológica) ao ataúde. Na medida em que este seja uma simples caixa de pinho ou um rico caixão funerário, feito com madeiras nobres e ricos ornamentos metálicos trabalhados, o signo de Câncer se constitui para muitos, sem dúvida, um "morada" de gente morta, sem vida própria. 

Acubens é uma estrela de quarta magnitude, não tendo praticamente maior presença na Astrologia. Está hoje a 12º57´ de Leão. O nome veio do árabe, Al Zubanah, que tem relação com as pinças. Ela incorpora praticamente todo o simbolismo do signo enquanto persistência, ainda que claudicante, habilidade para evitar ou superar circunstâncias adversas. Presentes no simbolismo também sempre ideais de origem (Cloto) e de morte ou renascimento (Átropos). Negativamente, Acubens é apagamento e morte.




domingo, 28 de dezembro de 2014

CORRESPONDÊNCIAS TAURINAS (O TOURO E ISRAEL)


O ser humano, desde que está na Terra, sempre percebeu que tanto a sua vida pessoal como a das sociedades que procurava organizar estavam ligadas a determinados acontecimentos celestes. No decorrer dos milênios, notaram-se coincidências entre esses acontecimentos e certos ciclos pelos quais passavam o planeta Terra e as pessoas que neles viviam agrupadas, ciclos não só biológicos, demográficos ou climáticos como políticos, econômicos e sociais.

Dentre os astros que circulam, do ponto de vista da Terra, à sua volta, o Sol e a Lua são obviamente os mais importantes para o estudo de tais acontecimentos. Em nome de um discutível espírito científico, que se mostra hoje cada vez mais incapaz de proporcionar o bem-estar dos seres humanos e a sua convivência, o estudo destas relações céu-terra, principalmente para averiguação de algumas questões tão importantes como as espirituais e as psicológicas, foi rejeitado. Nos tempos modernos, sob a acusação de anticientífica, a partir do séc. XVIII, a astrologia, que estudava tais relações, foi expulsa oficialmente das academias.  


COPÉRNICO
Atualmente, muitos dos mais empedernidos inimigos da astrologia, apoiados no que chamam de pensamento racional, mas no geral profundamente ignorantes dos seus princípios e alcance, continuam na mesma batida, considerando-a, além de anticientífica, uma forma de inadmissível superstição quando não de engodo, para iludir crédulos ou donas de casa infelizes (ainda as há,
DARWIN
sim!). Apologistas do pensamento racional, não percebem  eles que (só para ficarmos com o mais evidente) Copérnico, Darwin e Freud já
 nos mostraram o quanto o comportamento do ser humano é  pouco ou mesmo nada racional. 

A astrologia trabalha principalmente com símbolos e analogias, algo muito difícil de ser entendido por pessoas que se acham puramente racionais; no fundo, sem que o saibam, fazem parte daquele mundo positivista, dependentes dos velhos princípios da lógica  aristotélica, o da não contradição, o da identidade e o da exclusão. Ao contrário da análise, útil, sem dúvida, que opera na direção da separação, do individual, a analogia, ao contrário, aponta para a união, para a aproximação, para o social. O pensamento analógico é, por natureza, muito mais rico que o analítico, porque nos faz ver relações onde aparentemente elas não existem. A analogia permite que possamos perceber, sob vários aspectos, semelhanças entre seres, coisas e noções essencialmente diferentes.

Quando, por exemplo, pensamos em economia política e filosofia, não podemos esquecer que foi um autêntico taurino, o judeu Karl
MARX
Marx, quem melhor falou da degradação humana a que conduz o poder do dinheiro na sociedade capitalista. Depois de ter apresentado sua tese universitária sobre Epicuro (filosofia do prazer), dedicou-se Marx ao jornalismo e à atividade política. Deixou uma doutrina que a maior parte dos economistas ocidentais considera hoje ultrapassada, segundo a qual o movimento da História e a evolução das sociedades pode ser explicada pelas realidades econômicas.


As relações entre o signo de Touro, Israel e o dinheiro são um fato. Ao associar simbolicamente os valores do dinheiro e da boca, que a psicanálise freudiana (outro judeu) explicaria depois, a astrologia
SIGNO DE TOURO
nos revela que os nascidos pelo Sol ou pela hora (ascendente) sob a influência do signo de Touro têm a sua vida, em grande parte, relacionada com conceitos de construção, investimento, lucro, avaliação, acumulação, praticidade, recursos, recompensa, remuneração etc., ou, se quisermos, com o mundo do dinheiro e com tudo o que com ele se relacione, direta ou indiretamente, inclusive a avareza e a usura. Realista e prático, o taurino é dotado geralmente de um aparelho sensorial muito desenvolvido; os verbos ter, possuir, acrescentar, acumular, lucrar e somar são verbos que qualquer taurino sente muito prazer em conjugar.


Uma das aproximações mais interessantes que podemos fazer no sentido acima apontado é assim a estreita ligação do povo judeu com o signo astrológico de Touro. A moderna Israel, como se sabe, “nasceu” a 14 de maio de 1948, mês taurino, o segundo da primavera, que no mundo natural corresponde à criação de formas, à exaltação da vida material, tudo relacionado, além do que já se disse, com ideias de massa, abundância, peso, estabilidade e força.


CARTA   ASTROLÓGICA   DE   ISRAEL

Não é por acaso que quando Israel nasceu em 1948, cinco planetas ocupavam os signos de Touro e de Leão, exatamente os mais ligados ao mundo das finanças. Na configuração do mapa, o Sol, em Touro, recebe um quincúncio de Júpiter. Este aspecto pode indicar sucesso na obtenção de apoio e ajuda, quando necessário, no caso dinheiro e armas da Diáspora (judeus no exterior e, principalmente, nos USA, que tem uma população judaica praticamente igual à de Israel). Este aspecto, contudo, exige sempre um comportamento, ético, honesto, para com os outros, pois a "sorte"poderá mudar. Este aspecto indica também uma forte tendência para excessos e desmedidas no plano das ações, por um fazer mais que o necessário. Pela quadratura Sol-Marte, este último um significador de guerras e conflitos (regente noturno do signo de Escorpião, o mundo árabe), muito presentes também possibilidades de que Israel jamais encontre a paz, a não ser que use as virtudes de seu ascendente libriano, já que Libra é o signo da arte, da diplomacia e da paz. Acrescente-se que o Sol não recebe nenhum aspecto favorável, sempre um significador, no caso, de isolamento.  

MOISÉS E O DECÁLOGO
Desde os tempos muito remotos, o povo de Israel apresenta significativas relações com o bovídeo taurino. Moisés, ao descer do monte Sinai, encontrou o seu povo adorando um bezerro de ouro, eguel ha-zahav, em hebraico. A história religiosa de Israel nos revela que Moisés fora ao Sinai para receber o Decálogo. Na volta, enfureceu-se, quebrando as duas tábuas do Decálogo. Aarão, irmão de Moisés e de Miriam, foi o responsável pela construção do bezerro de ouro, em última instância a substituição da vida espiritual pela vida material. 


BEZERRO   DE   OURO

Embora Aarão tenha apresentado uma justificativa para a construção dessa imagem bovídea, a tradição judaica sempre
AARÃO
considerou como o pior, dentre todos os pecados, o da adoração do bezerro de ouro. Todo o sofrimento do povo de Israel bem como o exílio dos tempos posteriores a esse acontecimento podem ser atribuídos a esse pecado, que está nas origens da antiga nação judaica. Segundo consta da mesma tradição, o pecado da adoração do bezerro de ouro foi instigado por uma multidão não-israelita infiltrada quando o povo ficou à espera do retorno de Moisés. Foi essa multidão que desencaminhou os israelitas, muito deprimidos pela longa demora do seu patriarca que subira ao Sinai para conversar com Deus. Embora muito irritado, Moisés puniu os pecadores e obteve o perdão de Deus para os israelitas.


Considerado na antiga Pérsia como um dos primeiros seres criados,
MITRA
associado ao deus Mitra e no Egito ao deus Apis, o touro sempre foi considerado como um deus da fecundação, da fertilidade e também da destruição por sua ação tempestuosa. Nos cultos asiáticos, inclusive na Índia, representava, ao lado da vaca, o céu na sua ação tanto fecundante como destrutiva sobre a Terra. Os termos sânscritos vrisha ou vrishabha tanto designavam o melhor, o príncipe, o primeiro, como se relacionavam com ideias de abundância e fecundidade. Não era por acaso que as mulheres se sentavam sobre uma pele do animal para se tornarem férteis. 



APIS

Javé, a grande divindade dos judeus, que se manifestava sobretudo tempestuosamente nos céus, apresentou estreitas relações com a suprema divindade dos fenícios, El, deus-pai também de natureza
DEUS  LEVA  ENOCH
celeste, representado por um touro. Enoch, personagem bíblico, pai de Matusalém, que se transformou nos céus no anjo Metatron, descreveu a seu filho a visão que teve da criação humanidade, ao mesmo tempo filha e esposa do Senhor Supremo sob os traços de um touro divino. Estas mesmas imagens aparecem também na antiga Grécia, quando Zeus toma a forma taurina para reafirmar, perante os deuses e humanos, o poder celeste. No antigo Egito, quando o faraó Menes unificou o país, ele o fez, principalmente, em nome do deus Apis, unindo-se desde então os cultos taurino e real numa síntese que vai se espalhar por todo mundo antigo, atravessando os séculos.



O  BEZERRO  DE  OURO  DE  JEREBOÃO ( NICHOLAS  POUSSIN )

Ainda com relação aos judeus, não podemos esquecer a história de Jereboão, rei rebelde que fundou um reino ao norte em Israel. Ele introduziu o culto de dois bezerros de ouro para impedir que as pessoas se dirigissem a Jerusalém em peregrinação. Por isso, segundo a tradição, foi condenado por ter induzido o povo de seu reino ao pecado, um pecado que nenhum arrependimento jamais poderia redimir. Deus, porém, com toda a sua magnanimidade, segundo uma versão registrada, mesmo assim, lhe ofereceu um lugar no Jardim do Éden. O rebelde Jereboão, todavia, recusou a oferenda divina, porque no Éden o rei David ocuparia uma posição de maior status que a dele.

Entre os judeus, Touro é Iyar, formado pela letra Vav. O órgão humano que no simbolismo cósmico judaico corresponde a este
VAV
signo é o rim direito, que, segundo o Talmud, é a fonte de bons pensamentos. A tribo com ele relacionada é a de Issakar, a que se dedica ao estudo da Torá. Issakar, no Gênesis, é chamado de asno forte, bom para o trabalho penoso. Noutra passagem (Reis, cap. I), o mês do signo é chamado de Ziv, brilhante, devido ao aumento do poder solar, que nele se torna mais intenso, ou seja, no mês de maio, o auge da primavera. A mesma ideia de luz, de brilho, é encontrada na designação Ohr, usada pelos babilônicos.   

A tribo de Issakar, que trabalhava arduamente com a Torá, era a detentora do conhecimento que conciliava os calendários solar e
TORÁ
lunar e que estabelecia o início de cada mês lunar. Lembremos que o calendário judaico é lunar e o ano, por isso, pode conter doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Segundo a tradição judaica, quando da criação do mundo, os luminares eram iguais em luz, mas como não poderia haver essa igualdade, a luz da Lua foi diminuída. A Lua simboliza o povo de Israel, cuja sorte oscila como ela. A luz da Lua voltará a se igualar à do Sol no final dos tempos, quando da vinda do Messias. Por isso, eclipses lunares são aziagos para os judeus, pois quando a Lua míngua as forças do mal crescem. Dormir à luz da Lua é sempre perigoso por causa da ação de forças demoníacas femininas, diz a tradição judaica.



CALENDÁRIO   LUNAR

O signo de Iyar está relacionado, num primeiro momento, com o temor. A palavra temor em hebraico tem as mesmas letras do signo. O temor de Deus deve nascer logo neste signo porque ele é um pré-requisito para o recebimento da Torá, como nela se estabelece: O temor dos céus é o começo da sabedoria. Astrólogos judeus dizem também que o mês do signo é auspicioso para curas já que a primeira causa das doenças está no consumo de alimentos impróprios e depois numa digestão e assimilação deficientes. Foi durante este mês, no seu décimo quinto dia, numa Lua cheia, que os judeus, vagando pelo deserto com Moisés, começaram a comer o maná, o pão dos céus, chamado de o alimento dos anjos. O maná foi uma espécie de orvalho que alimentou os judeus durante o êxodo. O maná foi produzido ao crepúsculo do sexto dia da Criação e é o alimento dos justos e dos anjos do céu. Era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando resíduos que tivessem que passar pelo sistema digestivo, tendo o sabor que as pessoas quisessem. 

A astrologia judaica nos diz que o elemento de Iyar é a terra, significando isto que o elemento do signo anterior, fogo, entendido espiritualmente, deve no signo que lhe segue procurar um foco, uma objetivação, algo tangível, concreto. Negativamente, as energias de Iyar se manifestam na esfera do desejo, quando os judeus, no deserto, reclamaram a Moisés a falta de carne para comer. Foi durante este mês que eles, no deserto do Sinai, manifestaram também fortes desejos de conforto e relaxamento. Lembram os judeus que o elemento terra é, energeticamente, o de menor vibração. Este comportamento, manifestado no Sinai, dizem os astrólogos, tem relação direta com a natureza teimosa e rebelde do touro. 

Em oposição aos signos de Nissan e de Iyar estão os de Tishrei (Libra) e Heshvan (Escorpião), que caracterizam as tribos de outros dois irmãos, Manassé e Efraim. A tribo de Heshvan tem relação com o olfato, entendido, simbolicamente, como discernimento intuitivo. O episódio que deu origem à interpretação do olfato desta maneira está no episódio bíblico que tem como personagens José, o pai dos dois mencionados irmãos, e da mulher de Putifar, oficial egípcio, uma história cheia de elementos taurinos. 


MULHER  DE  PUTIFAR  ( REMBRANDT)

José é filho do patriarca Jacó e de sua esposa preferida, Raquel, sempre considerado como o modelo do homem justo e probo (tsadik), que é protegido do mal por Deus e cujos descendentes não são afetados pelo mau-olhado. Dez de seus irmãos tramaram matá- lo, jogando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Conseguiu escapar, mas acabou sendo vendido como escravo a Putifar. Lá, conseguiu resistir bravamente ao assédio da mulher de Putifar, Zuleika, porque o pai lhe apareceu em sonhos e salvou-o da tentação. Desde então, todos os membros da tribo de Hashvan adquiriram esse discernimento que pode ser usado não só em questões de sexo, mas em todas as outras da vida material. Esse discernimento se traduz pela pureza das intenções, de pensamentos e sobretudo pelo temor divino. Na Bíblia, em muitas passagens, o sentido do olfato aparece sempre associado à santidade, à pureza e ao discernimento. O nariz, como o olho, é um símbolo de clarividência e da perspicácia, mais intuitivamente que racionalmente. 



                           
                                  JOSÉ SENDO VENDIDO POR SEUS IRMÃOS (FIEDRICH OVERBECK) 

Entre os judeus, José é o sexto dos seus sete pastores (Abraão,
DAVID
Isaac, Jacó, Moisés, Aarão, José e David). Estes sete pastores correspondem aos sete atributos: graça, poder, beleza, vitória, glória, fundação e realeza. O nome de José está ligado entre os judeus a ideias de fecundidade e beleza. Etimologicamente, José (Joseph), significa juntar (yasoph) e reunir e apagar (asoph). Raquel, a mãe de José, diz Deus apagou a minha vergonha, ao dar à luz, depois de estéril por muito tempo. O ph, ao final de José, indica um vivo movimento de libertação (oph quer dizer voar) e soph traduz uma ideia de limite, de fim de uma realização. 


José, por seus méritos de oniromante, demonstrados na prisão, foi chamado à presença do faraó. Interpretou para ele um sonho que ele tivera e que ninguém explicava: ele sonhara com sete vacas gordas, com sete vacas magras, com sete espigas de trigo cheias e com sete espigas de trigo secas, queimadas pelo vento. José explicou ao faraó as suas visões: sete anos de grande abundância viriam para o Egito; a eles seguir-se-iam sete anos de fome. José propôs ao faraó a administração do problema do seguinte modo: conservar os níveis dos silos reais de modo que quando chegasse o tempo das vacas magras ou das espigas secas, eles estivessem cheios para que o povo não passasse fome. 

Satisfeito com a resposta, o faraó nomeou José como vizir, dando-lhe o nome de Safenath-Peneah (Deus disse: ele viverá). Aos 30 anos, recebeu como esposa Asenath, que lhe deu dois filhos,
JOSÉ   E   SEUS   IRMÃOS 
Menassé (Aquele que esquece) e Efraim (O fecundo). Durante os sete anos de abundância, ele poupou o trigo de tal modo (sem que o povo passasse fome) que, no período das vacas magras, o Egito era o único país do mundo de então a não ter problemas com a escassez de alimentos. Muita gente, por isso, se dirigiu ao Egito em busca do trigo. José então abriu entrepostos para a venda do trigo excedente, ganhando o país muito dinheiro. Iniciadas as vendas, dentre os primeiros a buscar o alimento, estavam os seus irmãos (que o haviam aprisionado no poço e depois vendido como escravo), vindos do país de Canaã. José não revelou quem era e os irmãos pagaram com muito sacrifício pelo alimento. Retornando, os irmãos encontraram o dinheiro que haviam gasto, devolvido secretamente por José. 


Numa segunda visita ao Egito, os irmãos de José foram denunciados por um roubo que não haviam cometido. José mandou chamá-los e revelando-se e lhes pediu que fossem buscar Jacó, o pai de todos, e com ele viessem a se instalar no Egito, em Goshen, a leste do vale do Nilo (Gênese, 45, 1). Jacó, ao receber a notícia, gritou: Meu filho José ainda vive; quero partir e vê-lo antes de morrer. Antes de morrer, Jacó perfilhou seus netos, os filhos de José (Menassé e Efraim), e os abençoou. José morreu com 110 anos, depois de ter obtido dos irmãos, ao morrer, a promessa de que seus ossos seriam levados com eles para onde fossem. Tal aconteceu efetivamente, encarregando-se Moisés de fazê-lo. A conclusão da história de José, segundo a Bíblia é a de que Deus, algumas vezes, transforma as piores ações em boas ações (Gênese, 45. 5-8).

É interessante notar que a astrologia sempre associou o mundo árabe a Escorpião, signo astrológico oposto e complementar ao de Touro. Ambos semitas, descendentes de Sem, filho de Noé, judeus e árabes, pelas conhecidas razões histórico-econômico-religiosas (Deus mandou que Abraão, o primeiro dos patriarcas judeus, tomasse posse de uma terra que já tinha dono), vêm ao longo dos séculos se batendo numa luta fratricida. Nos tempos modernos, mais uma vez as coincidências astrológicas continuam a se impor: os ataques israelenses aos árabes têm características nitidamente “taurinas” (pesados, maciços, violentos) enquanto os dos árabes aos israelenses são de inspiração “escorpiana” (tocaia, oportunismo, surpresa). 

A profunda relação que há entre judeus e árabes poderá ser
ABRAÃO  DESPEDE-SE  DE  HAGAR  E  ISMAEL
constatada também se recolhermos da Bíblia (Gênese) a história do nascimento de Ismael, o filho que Abraão teve com a sua segunda esposa, Agar. Conforme o texto bíblico, porque estéril, Sara, a primeira mulher de Abraão, lhe sugeriu que tomasse por esposa Agar, sua escrava egípcia. Tudo se passou em Ur, na Mesopotâmia. Pelas leis mesopotâmicas, Ismael, o filho nascido da relação, deveria ser considerado como o herdeiro natural de Abraão. Anos depois, segundo o mesmo texto bíblico, já na velhice avançada Abraão e Sara, esta tornada milagrosamente fértil, geraram um filho, Isaac. Logo surgiram conflitos entre Ismael e Isaac. Sara pediu a Abraão que expulsasse Agar e seu filho para que Ismael nada pudesse reivindicar quanto à herança paterna. Consultado por Abraão, como está na Bíblia, Deus apoiou a expulsão de Agar e de Ismael e confirmou que tornaria Isaac o patriarca de uma grande nação, a judaica, e que a descendência de Ismael constituiria também uma outra nação (árabes).


Os maiores “templos” do dinheiro no mundo moderno são, como todos sabem, as bolsas de valores. O mais importante desses “templos”, também como é do conhecimento geral, é o de New
TOURO  DIANTE  DA  BOLSA  DE  NOVA  YORK
York, no qual a presença do capital judaico é muito significativa. Pois bem, mais uma vez aqui uma notável “coincidência”: diante da Bolsa de NY encontra-se um “bezerro de ouro”, ou seja, a escultura de um bovídeo, de mais ou menos 3,5 toneladas, que tem papel importante no mercado ações. Quando o mercado está em alta, vendedor, ele é simbolizado pelo touro; se em baixa, é representado pelo urso. Esta interpretação simbólica foi criada analogicamente: o touro, quando ataca, arremete levantando a cabeça, de baixo para cima. Já o urso, ao contrário, ataca com a cabeça voltada para baixo. É a isto que os norte-americanos dão o nome, respectivamente, de Bull Market ou Bear Market. Os aplicadores na bolsa de New York costumam esfregar com as mãos os chifres, o focinho e os escrotos do 
touro, Charging Bull, para atrair a sorte.  Daí o adjetivo bullish, muito usado por eles, com o significado de esperançoso e confiante.

GOLEM
Uma das artes secretas que mais atraiu os judeus, durante toda a Idade Média e depois, foi a alquimia, principalmente no seu aspecto exotérico, que buscava, em laboratório, um meio de transformar metais não-preciosos  em ouro. Um dos mais famosos sábios cabalistas, Judá Loew Ben Bezalel, a quem se creditava a criação do famoso Golem de Praga, no séc. XVI, era citado como um dos que haviam tido sucesso nessa busca.

Diante do que está acima, não é de se estranhar que um judeu,Sigmund Freud (Sol em Touro, ascendente em Escorpião, de onde lhe veio o impulso para vasculhar o mundo ctônico, governado pelo deus Plutão-Hades)), tenha colocado o tema da oralidade como um dos pontos mais altos de sua teoria psicanalítica. A astrologia, lembre-se, sempre associou o signo de Touro à boca, tanto um órgão ligado à alimentação, como à fala, à sexualidade e ao sopro vital,  

Na astrologia, a boca tem ligações profundas com o seio materno, sempre um símbolo de abundância. Inseparável do leite materno, o seio evoca proteção, segurança, fartura, satisfação, saciação. Abertura inicial do tubo digestivo, a boca sugere incorporação, sucção, que o beijo entre dois amantes tão bem representa. 

Por oralidade, segundo Freud, devemos entender a primeira fase da evolução libidinal, caracterizada pelo fato do lactente encontrar
A   SEGURANÇA
prazer na alimentação, na atividade da boca e dos lábios. O prazer de sugar acaba tornando-se uma atividade auto-erótica, de forte conotação sexual. Pela boca, nós (a criança) nos tranquilizamos, deixamos de sofrer, de ter fome. Comer, incorporar, pois, cada vez mais para não sofrer. Possessividade, ciúme do pai, que é “dono” daquela fonte de prazer e segurança. Na criança, essa fase se liga à sua relação com o seio da mãe. Primeiro, ela suga (satisfação); depois, a frustração quando ele é retirado. Da sucção, a criança passa a uma fase sádica (sádico-oral), na qual entram a mordida, o desejo de arrancar o seio, de devorá-lo. 


O taurino, como já se disse, é, no geral, um instintivo oral. Ele costuma se defender contra os perigos da vida pela posse, traduzido
DORIVAL   CAYMMI
geralmente pela busca do conforto e do seu bem-estar material. Por trás de tudo isso estará, com maior ou menor intensidade, de acordo com a dominante de sua personalidade (fogo, ar, água ou terra), o atendimento do que os seus poderosos sentidos reclamam. Muitos taurinos quando não podem alimentar o seu
FREUD
complexo oral pela via materna, procuram os seus equivalentes simbólicos, até com paixão, através dos seus cinco sentidos. É no mundo natural (Mãe Natureza) que estão os seus maiores prazeres, nos pomares, no cheiro das frutas, no verde dos campos, no mar, nas praias e areias, em rios, lagos, nas paisagens montanhosas, todos substitutivos da figura materna. Não é por acaso que um taurino típico como Dorival Caymmi deixou num de seus versos que é doce morrer no mar e que Freud tinha como um de seus prazeres máximos (o único?) o charuto, que ele fumava, ou melhor, mamava gostosamente, do qual, como disse, nunca se afastaria. Mais uma coincidência taurina: Freud, como sabemos, um taurino como poucos, teve que se submeter a dezenas de operações na região bucal.