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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

TOURO (2)

           
ZEUS  E  IO
( F. MASON , 1875-1965 )
Os gregos têm uma outra história ligada à segunda constelação do Zodíaco. Ela nos fala de Io, um dos amores de Zeus, uma belíssima princesa argiva. Valendo-se dos préstimos de Oniro, deus do sonho enganador, um dos filhos de Hypnos, deus do sono, Zeus conseguiu fazer com que ela fosse transportada para Lerna, onde conseguiu manter relações carnais com a jovem. Io contara inclusive ao pai o episódio do “rapto” de Oniro e o seu “transporte” para Lerna, onde fora possuída pelo Senhor do Olimpo. Nesse meio tempo, Hera, desconfiada de mais essa aventura do marido, preparou-se para destruir a jovem princesa. Zeus agiu rapidamente, transformando a jovem numa novilha, mantendo-a por perto. Hera, vendo o belíssimo animal, exigiu de Zeus que ele lhe fosse entregue, o que aconteceu. Hera colocou-o sob a vigilância do dragão Argos, o de Cem-Olhos. Zeus, porém, insaciável, tomando a forma de um touro, visitava-a regularmente. 


HERA ,  IO  , ZEUS


Um dia, Zeus resolveu libertar Io-novilha do dragão, pedindo a Hermes que tomasse as devidas providências para tanto. Hermes convocou Hypnos, o deus do sono, que, adormecendo o monstro, lhe deu possibilidades de matá-lo, decepando-lhe a cabeça, sem problemas. Tomando conhecimento da morte do vigilante dragão, Hera, no sentido de homenageá-lo, lançou os seus cem olhos na cauda de uma ave até então sem nome. Desde então essa ave, denominada pavão, passou a ser um dos símbolos da Senhora do Olimpo. 


IO ,  ARGOS ,  HERMES ( G.A. RUSCONI , 1553 )

Desde que se tornou atributo de Hera, o pavão, ao dormir, só fechava cinquenta dos olhos de sua cauda. Tornou-se, na antiguidade mediterrânea, a ave-símbolo do esplendor celeste e da
PAVÃO
glória divina, evocando a multiplicidade da criação. Sempre relacionado com as serpentes, o pavão, segundo a tradição grega, não só absorve o veneno delas como as destrói. Sempre em função da sua cauda e de sua magnífica plumagem, o pavão, restrito como símbolo ao plano humano, passou a representar o narcisismo,  o amor pela própria imagem, o orgulho, a vaidade, um sentimento de beleza que costuma levar ao isolamento. 






Continuando a dar vazão aos seus ciúmes, Hera enviou então um gigantesco moscardo para enlouquecer Io-novilha com as suas dolorosas e ininterruptas ferroadas. Desesperada, ela fugiu, atravessando a nado um estreito que separa a Europa da Ásia. Por essa razão, tal acidente geográfico passou a ser chamado, desde então, de estreito de Bósforo, literalmente, do grego, a passagem da
ISIS
vaca). Depois de vagar por toda a Ásia, Io-novilha chegou finalmente ao Egito, onde, depois de tanto sofrimento, retomou a sua belíssima forma humana, que permaneceu intacta. Lá, deu à luz um filho, de nome Épafo, que se unirá, mais tarde, a Mênfis, filha do deus-rio Nilo. Dessa união nascerão Líbia, Lisianassa e Tebe. Io será adorada no Egito como a deusa Ísis, tendo por emblema a Lua crescente.

A história que está acima, ao atribuir a ísis, Grande-Mãe egípcia, uma origem grega explica-se obviamente pelas tendências imperialistas que os gregos sempre demonstraram com relação à sua civilização, tanto sob o ponto de vista econômico como religioso. Fatores como a pobreza do solo, dificuldades na obtenção de alimentos e domínio total das terras pelos aristocratas, fez com que os gregos, desde períodos muitos remotos, se aventurassem num grande movimento migratório, patrocinado por uma política imperialista,  na direção  do mar Negro e do Mediterrâneo. Ao buscar terras cultiváveis, fundaram cidades, colônias, sendo um item importante dessa política o religioso. Em muitos casos, a colônia grega (apoikia), lembres-se, era um estabelecimento autônomo somente unido à metrópole laços religiosos. Embora o Egito só tivesse se tornado de fato uma colônia grega com a sua anexação (e de outros países como a Pérsia e parte da Índia) ao império greco-macedônico no século IV aC,  as civilizações grega e

egípcia, esta muito mais antiga que a outra, sempre haviam mantido contactos. O texto homérico, A Odisseia (sécs. IX-VIII aC), é um exemplo do que aqui se expõe. Esta "interferência" grega na mitologia de outros países, neste caso do mito de Io-novilha, se completa com a transformação de seu filho Épafo, pelo seu casamento com Mênfis, como está acima, num ancestral do povo líbio, país vizinho do Egito.    


Segundo algumas versões gregas, Zeus colocará nos céus, como a constelação de Touro, a forma taurina que tomou quando de sua ligação com Io. Ísis, como sabemos, será adorada como deusa suprema e universal, mãe da natureza e de todos os elementos, espalhando-se o seu culto, a partir do Egito, por todo o mundo do Mediterrâneo e da Ásia Menor.

Os gregos associavam também o signo de Touro ao deus Dioniso, na medida em que este animal (o bode também) representava as forças incontidas da fecundidade. Por isso, ambos os animais eram as vítimas propiciatórias que apareciam no seu culto. Deus da vegetação, da vinha, da exuberância da vida animal, Dioniso era, por excelência, o renovador da vida, o deus das metamorfoses. 

Por ter retirado sua mãe do Hades, Dioniso era considerado uma divindade libertadora do mundo infernal, um deus ctônico, portanto, que simbolizava a alternância da vida e da morte (ressurreição). O culto de Dioniso,  significa, no fundo, uma das mais profundas e significativas tentativas do homem grego e exemplarmente para a humanidade em geral, no sentido de destruir as prisões materiais e psicológicas nas quais ele (ela) mesmo se encerra. Neste
MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
sentido é que o culto de Dioniso (Mistérios de Elêusis) significa, para homem, um esforço de espiritualização pela liberação das energias que deverão se alinhar com seu eu superior e não mais se colocarem a serviço  exclusivo de sua vida material. Por isso, em seu culto, um dos animais do sacrifício era o touro, como símbolo da vida material. 

Lembremos que o signo de Touro tem relação com tudo o que é massa, peso, espessura, estabilidade, força, resistência, calma,
DIONISO
reações fortes, tempestades instintivas. “Sacrificar o touro” significa buscar uma vida mais espiritual no sentido de ser obtido o triunfo sobre as paixões materiais, sobre a sensualidade incontida. O culto de Dioniso propõe, assim, um empenho no sentido de uma conquista da besta interior (vida instintiva) que há em todo ser humano. Astrologicamente, por isso, o signo está ligado à plenitude da sensorialidade terrestre alimentada por uma grande capacidade de trabalho, por um espírito prático e realista e por uma vontade de possuir e de acumular que costuma ser superlativa. 

Dioniso se afirma como um deus infernal ao prometer o renascimento. As suas festas, como as de Osíris no Egito e as de Shiva na Índia, são muito semelhantes. O mito de Orfeu nos fala
DIONISO
desta semelhança ao se referir à viagem que ele teria feito à terra das pirâmides para de lá trazer ritos que falam da dissolução da personalidade, da sua regressão a formas caóticas e primordiais. A liberação dionisíaca pode ser evolutiva ou involutiva, espiritualizante ou materializante. Outra não é a ideia que nos traz a bebida “inventada” pelo deus, o vinho, a bebida da imortalidade, que pode levar ao inferno também.



PERSÉFONE   E   ZAGREU

A melhor compreensão da multifacetada personalidade de Dioniso e consequentemente do signo de Touro só ficará mais completa se atentarmos para o que o mito nos revela sobre o seu nascimento. Dioniso nasceu como Zagreu (o Grande Caçador, etimologicamente), filho de Zeus e de Perséfone, nome pelo qual era muito reverenciado em Creta, muito difundido o seu culto. A intenção de Zeus era a de preparar este filho para sucedê-lo como divindade universal. As Moiras, porém, ao que parece pela primeira e única vez, contrariaram os desígnios do Senhor do Universo, apesar das providências que ele tomou para protegê-lo da sanha persecutória da sua imperial esposa, a deusa Hera. Embora protegido por Apolo e pelos Curetes, o menino-deus foi localizado pelos Titãs nas florestas do Parnaso, raptado e despedaçado. Antes que se consumasse o diasparagmos pelos Titãs, Zagreu, para tentar escapar dos seus algozes, tomou várias formas. A última foi a de touro, uma das formas que desde então o representará. 


INFÂNCIA   DE   DIONISO

O mito prossegue: os pedaços de Zagreu foram cozinhados num enorme caldeirão e depois devorados pelos Titãs. Zeus fulminará os assassinos de seu filho, transformando-os em pó. Desta poeira, ou melhor, destas cinzas misturadas à terra, nascerão os humanos (os nascidos do húmus). É por esta razão que os seres humanos terão uma parte humana, a maior, o seu lado material, o do Mal, e uma pequena parcela divina, o seu lado do Bem (os restos de Zagreu). Diz o mito que antes de todos os pedaços de Zagreu-Touro terem ido para o caldeirão a deusa Palas Atena conseguiu recuperar o seu coração, levando-o para Zeus. É desse coração que nascerá o segundo Zagreu, com o nome de Dioniso, aquele “que nasceu duas vezes”, também chamado de Ditirambo, “o que passou duas vezes pela porta.”

Esta forma taurina de Dioniso faz parte, desde então, de manifestações que encontramos em mitos, religiões e no folclore, em várias tradições. No Brasil, por exemplo, do sul ao norte, as histórias sobre o boi, principalmente no norte e no nordeste,
BUMBA - MEU - BOI

estão inseridas no seu contexto cultural como tema fundamental de folguedos, canções, literatura de cordel e tantas outras celebrações com diferentes nomes: Boi-Bumbá, Bumba-meu-Boi, Boi-de-Reis, Reisado, Boi-de-Mamão, Boi-Calemba, Surubim e muitas outras. Vários ritos, festas e cerimônias de caráter popular que encontramos ainda hoje em muitas culturas, lembremos, não são mais que reminiscências do touro como animal totêmico e de suas relações com os cultos dionisíacos. Cito, por exemplo, a Farra do Boi que veio do mundo mediterrâneo para o Brasil através dos imigrantes ibéricos, “diversão” ou “comemoração”, que repete o assassinato de Zagreu. 

TOURADA
Dentre todas reminiscências a que nos referimos avulta sobre todas a da tourada, o El Toreo dos espanhóis. Em nome de uma verborragia “heroico-estética” e do culto da virilidade, temos, na realidade, com as touradas, em que pese o seu “charme”, nada mais que carnificina, crueldade e hipocrisia. O toureiro, transformado em herói, figura na qual o público se projeta, mata a besta exterior para que sua besta interior (as paixões escravizadoras de cada um) permaneça intacta. O mal é então levado pelo touro sacrificado; seu sangue é interpretado como uma purificação. Esta tradição, a da vítima sacrificial, nós a encontramos em todas as tradições (no Levítico, por exemplo). Ela tipifica uma tendência universal, inerente à condição humana, a do homem projetar a sua própria culpa sobre outrem a fim de apaziguar a sua consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de uma punição, de uma vítima.  

No simbolismo chinês, o signo de Touro tem relação com o hexagrama Kuen, o receptivo, terra sobre terra, composto por seis traços descontínuos, femininos (os traços masculinos são contínuos). A imagem deste hexagrama lembra a terra voltada para o céu, a mãe e o pai em relação, o tempo se abrindo para o espaço. O simbolismo aqui envolvido sugere também que a força (masculino) deve reconhecer a superioridade da nutrição (feminino), pois ela, a força, sem a nutrição não é nada. Assim, ambos se encontram indissoluvelmente ligados. Depreende-se desta ligação a importância que tem a nutrição (Touro) para que a força seja conquistada e mantida. Este entendimento está expresso, por exemplo, nos Vedas (livros sagrados dos hindus), em hinos, neles se falando que o Touro deve enlaçar o Fogo (Áries, Mesha) para que seja possível a construção humana, que deverá manter uma analogia perfeita com a construção divina do Cosmos. 

Entre os judeus, Touro é Iyar, formado pela letra Vav. O órgão humano que no simbolismo cósmico corresponde a este signo é o rim direito, que, segundo o Talmud, é a fonte de bons pensamentos.
TORÁ
A tribo com ele relacionada é a de Issakar, a que se dedica ao estudo da Torá. Issakar, no Gênesis, é chamado de “asno forte, bom para o trabalho penoso.” Noutra passagem (Reis, cap. I), o mês do signo é chamado de Ziv, brilhante, devido ao aumento do poder solar, que nele se torna mais intenso, ou seja, no mês de maio, o auge da primavera. A mesma ideia de luz, de brilho, é encontrada na designação Ohr, usada pelos babilônicos.   

A tribo de Issakar, que trabalhava arduamente com a Torá, era a detentora do conhecimento que conciliava os calendários solar e lunar e que estabelecia o início de cada mês lunar. Lembremos que o calendário judaico é lunar e o ano, por isso, pode conter doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Segundo a tradição judaica, quando da criação do mundo, os luminares eram iguais em luz, mas como não poderia haver essa igualdade, a luz da Lua foi diminuída. A Lua simboliza o povo de Israel, cuja sorte oscila como ela. A luz da Lua voltará a se igualar à do Sol no final dos tempos, quando da vinda do Messias. Por isso, eclipses lunares são aziagos para os judeus, pois quando a Lua míngua as forças do mal crescem. Dormir à lua da Lua é sempre perigoso por causa da ação de forças demoníacas femininas, diz a tradição judaica.



JUDEUS  APANHAM  MANÁ  NO  DESERTO  ( ÉVORA )

O signo de Iyar está relacionado, num primeiro momento, com o temor. A palavra temor em hebraico tem as mesmas letras do signo. O temor de Deus deve nascer logo neste signo porque ele é um pré-requisito para o recebimento da Torá, como nela se estabelece: O temor dos céus é o começo da sabedoria. Astrólogos judeus dizem também que o mês do signo é auspicioso para curas já que a
MOISÉS ( P. CHAMPAIGNE )
primeira causa das doenças está no consumo de alimentos impróprios e depois numa digestão e assimilação deficientes. Foi durante este mês, no seu décimo quinto dia, numa Lua cheia, que os judeus, vagando pelo deserto com Moisés, começaram a comer o maná, o “pão dos céus”, chamado de o “alimento dos anjos”. O maná é uma espécie de orvalho que alimentou os judeus durante o êxodo. O maná foi produzido ao crepúsculo do sexto dia da Criação e é o alimento dos justos e dos anjos do céu. Era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando resíduos que tivessem que passar pelo sistema digestivo, tendo o sabor que as pessoas quisessem. 

A astrologia judaica nos diz que o elemento de Iyar é a terra, significando isto que o elemento do signo anterior, fogo, entendido espiritualmente, deve no signo que lhe segue procurar um foco, uma objetivação, algo tangível. Negativamente, as energias de Iyar se manifestam na esfera do desejo, quando os judeus, no deserto, reclamaram a Moisés a falta de carne para comer. Foi durante este mês que os judeus, no deserto (Sinai), manifestaram também fortes desejos de conforto e relaxamento. Lembram os judeus que o elemento terra é, energeticamente, o de menor vibração. Este comportamento, manifestado no Sinai, dizem os astrólogos, tem relação direta com a natureza teimosa e rebelde do touro. 

Em oposição aos signos de Nissan e de Iyar estão os de Tishrei (Libra) e Heshvan (Escorpião), que caracterizam as tribos de outros dois irmãos, Manassé e Efraim. A tribo de Heshvan tem relação com o olfato, entendido, simbolicamente, como discernimento intuitivo. O episódio que deu origem à interpretação do olfato desta maneira está no episódio bíblico que tem como personagens José, o pai dos dois mencionados irmãos, e da mulher de Putifar. 



JOSÉ  E  A  MULHER  DE  PUTIFAR ( J.B. NATTIER )

José é filho do patriarca Jacó e de sua esposa preferida, Raquel. É o modelo do homem justo e probo (tsadik), que é protegido do mal por Deus e cujos descendentes não são afetados pelo mau-olhado. Dez de seus irmãos tramaram matá-lo, jogando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Conseguiu escapar e acabou sendo vendido como escravo a Putifar, oficial egípcio. Lá, conseguiu resistir bravamente ao assédio da mulher de Putifar, Zuleika, porque o pai lhe apareceu em sonhos e salvou-o da tentação. Desde então, todos os membros da tribo de Hashvan adquiriram esse discernimento que pode ser usado não só em questões de sexo mas em todas as outras da vida material. Esse discernimento se traduz pela pureza das intenções, de pensamentos e sobretudo pelo temor divino. Na Bíblia, em muitas passagens, o sentido do olfato aparece sempre associado à santidade, à pureza e ao discernimento. O nariz, como o olho, é um símbolo de clarividência e da perspicácia, mais intuitivamente que racionalmente. 

Entre os judeus, José é o sexto dos seus sete pastores (Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Aaron, José e David). Estes sete pastores correspondem aos sete atributos: graça, poder, beleza, vitória, glória, fundação e realeza. O nome de José está ligado entre os judeus a ideias de fecundidade e beleza. Etimologicamente, José (Joseph), significa juntar (yasoph) e reunir e apagar (asoph). Raquel, a mãe de José, diz Deus apagou a minha vergonha, ao dar à luz, depois de estéril por muito tempo. O “ph”, ao final de José, indica um vivo movimento de libertação (oph quer dizer voar) e soph traduz uma ideia de limite, de fim de uma realização. 



JOSÉ  INTERPRETA  SONHO  DE  FARAÓ ( A. VAN  BLOCKLANDT ) 

José, por seus méritos de oniromante, demonstrados na prisão, foi chamado à presença do faraó. Interpretou para ele um sonho que ele tivera e que ninguém explicava: ele sonhara com sete vacas gordas, com sete vacas magras, com sete espigas de trigo cheias e com sete espigas de trigo secas, queimadas pelo vento. José explicou ao faraó as suas visões: sete anos de grande abundância viriam para o Egito; a eles seguir-se-iam sete anos de fome. José propôs ao faraó a administração do problema do seguinte modo: conservar os níveis dos silos reais de modo que quando chegasse o tempo das “vacas magras” ou das “espigas secas”, eles estivessem cheios para que o povo não passasse fome. 

Satisfeito com a resposta, o faraó nomeou José como vizir, dando-lhe o nome de Safenath-Peneah (Deus disse:ele viverá). Aos 30 anos, recebeu como esposa Asenath, que lhe deu dois filhos, Menassé (Aquele que esquece) e Efraim (O fecundo). Durante os sete anos de abundância ele poupou o trigo de tal modo (sem que o povo passasse fome) que, no período das “vacas magras” o Egito era o único país do mundo de então a não ter problemas com a escassez de alimentos. Muita gente, por isso, se dirigiu ao Egito em busca do trigo. José então abriu entrepostos para a venda do trigo excedente, ganhando o país muito dinheiro. Iniciadas as vendas, dentre os primeiros a buscar o alimento, estavam os seus irmãos (que o haviam aprisionado no poço e depois vendido como escravo), vindos do país de Canaã. José não revelou quem era e os irmãos pagaram com muito sacrifício pelo alimento. Retornando, os irmãos encontraram o dinheiro que haviam gasto, devolvido secretamente por José. 

Numa segunda visita ao Egito, os irmãos de José foram denunciados por um roubo que não haviam cometido. José mandou chamá-los e revelando-se lhes pediu que fossem buscar Jacó, o pai
JACÓ  LUTA  COM  ANJO
( REMBRANDT )
de todos, e com ele viessem a se instalar no Egito, em Goshen, a leste do vale do Nilo (Gênese, 45, 1). Jacó, ao receber a notícia, gritou: Meu filho José ainda vive; quero partir e vê-lo antes de morrer. Antes de morrer, Jacó perfilhou seus netos, os filhos de José (Menassé e Efraim), e os abençoou. José morreu com 110 anos, depois de ter obtido dos irmãos, ao morrer, a promessa de que seus ossos seriam levados com eles para onde fossem. Tal aconteceu efetivamente, encarregando-se Moisés de fazê-lo. A conclusão da história de José, segundo a Bíblia é a de que Deus, algumas vezes, transforma as piores ações em boas ações (Gênese, 45. 5-8).


domingo, 28 de dezembro de 2014

CORRESPONDÊNCIAS TAURINAS (O TOURO E ISRAEL)


O ser humano, desde que está na Terra, sempre percebeu que tanto a sua vida pessoal como a das sociedades que procurava organizar estavam ligadas a determinados acontecimentos celestes. No decorrer dos milênios, notaram-se coincidências entre esses acontecimentos e certos ciclos pelos quais passavam o planeta Terra e as pessoas que neles viviam agrupadas, ciclos não só biológicos, demográficos ou climáticos como políticos, econômicos e sociais.

Dentre os astros que circulam, do ponto de vista da Terra, à sua volta, o Sol e a Lua são obviamente os mais importantes para o estudo de tais acontecimentos. Em nome de um discutível espírito científico, que se mostra hoje cada vez mais incapaz de proporcionar o bem-estar dos seres humanos e a sua convivência, o estudo destas relações céu-terra, principalmente para averiguação de algumas questões tão importantes como as espirituais e as psicológicas, foi rejeitado. Nos tempos modernos, sob a acusação de anticientífica, a partir do séc. XVIII, a astrologia, que estudava tais relações, foi expulsa oficialmente das academias.  


COPÉRNICO
Atualmente, muitos dos mais empedernidos inimigos da astrologia, apoiados no que chamam de pensamento racional, mas no geral profundamente ignorantes dos seus princípios e alcance, continuam na mesma batida, considerando-a, além de anticientífica, uma forma de inadmissível superstição quando não de engodo, para iludir crédulos ou donas de casa infelizes (ainda as há,
DARWIN
sim!). Apologistas do pensamento racional, não percebem  eles que (só para ficarmos com o mais evidente) Copérnico, Darwin e Freud já
 nos mostraram o quanto o comportamento do ser humano é  pouco ou mesmo nada racional. 

A astrologia trabalha principalmente com símbolos e analogias, algo muito difícil de ser entendido por pessoas que se acham puramente racionais; no fundo, sem que o saibam, fazem parte daquele mundo positivista, dependentes dos velhos princípios da lógica  aristotélica, o da não contradição, o da identidade e o da exclusão. Ao contrário da análise, útil, sem dúvida, que opera na direção da separação, do individual, a analogia, ao contrário, aponta para a união, para a aproximação, para o social. O pensamento analógico é, por natureza, muito mais rico que o analítico, porque nos faz ver relações onde aparentemente elas não existem. A analogia permite que possamos perceber, sob vários aspectos, semelhanças entre seres, coisas e noções essencialmente diferentes.

Quando, por exemplo, pensamos em economia política e filosofia, não podemos esquecer que foi um autêntico taurino, o judeu Karl
MARX
Marx, quem melhor falou da degradação humana a que conduz o poder do dinheiro na sociedade capitalista. Depois de ter apresentado sua tese universitária sobre Epicuro (filosofia do prazer), dedicou-se Marx ao jornalismo e à atividade política. Deixou uma doutrina que a maior parte dos economistas ocidentais considera hoje ultrapassada, segundo a qual o movimento da História e a evolução das sociedades pode ser explicada pelas realidades econômicas.


As relações entre o signo de Touro, Israel e o dinheiro são um fato. Ao associar simbolicamente os valores do dinheiro e da boca, que a psicanálise freudiana (outro judeu) explicaria depois, a astrologia
SIGNO DE TOURO
nos revela que os nascidos pelo Sol ou pela hora (ascendente) sob a influência do signo de Touro têm a sua vida, em grande parte, relacionada com conceitos de construção, investimento, lucro, avaliação, acumulação, praticidade, recursos, recompensa, remuneração etc., ou, se quisermos, com o mundo do dinheiro e com tudo o que com ele se relacione, direta ou indiretamente, inclusive a avareza e a usura. Realista e prático, o taurino é dotado geralmente de um aparelho sensorial muito desenvolvido; os verbos ter, possuir, acrescentar, acumular, lucrar e somar são verbos que qualquer taurino sente muito prazer em conjugar.


Uma das aproximações mais interessantes que podemos fazer no sentido acima apontado é assim a estreita ligação do povo judeu com o signo astrológico de Touro. A moderna Israel, como se sabe, “nasceu” a 14 de maio de 1948, mês taurino, o segundo da primavera, que no mundo natural corresponde à criação de formas, à exaltação da vida material, tudo relacionado, além do que já se disse, com ideias de massa, abundância, peso, estabilidade e força.


CARTA   ASTROLÓGICA   DE   ISRAEL

Não é por acaso que quando Israel nasceu em 1948, cinco planetas ocupavam os signos de Touro e de Leão, exatamente os mais ligados ao mundo das finanças. Na configuração do mapa, o Sol, em Touro, recebe um quincúncio de Júpiter. Este aspecto pode indicar sucesso na obtenção de apoio e ajuda, quando necessário, no caso dinheiro e armas da Diáspora (judeus no exterior e, principalmente, nos USA, que tem uma população judaica praticamente igual à de Israel). Este aspecto, contudo, exige sempre um comportamento, ético, honesto, para com os outros, pois a "sorte"poderá mudar. Este aspecto indica também uma forte tendência para excessos e desmedidas no plano das ações, por um fazer mais que o necessário. Pela quadratura Sol-Marte, este último um significador de guerras e conflitos (regente noturno do signo de Escorpião, o mundo árabe), muito presentes também possibilidades de que Israel jamais encontre a paz, a não ser que use as virtudes de seu ascendente libriano, já que Libra é o signo da arte, da diplomacia e da paz. Acrescente-se que o Sol não recebe nenhum aspecto favorável, sempre um significador, no caso, de isolamento.  

MOISÉS E O DECÁLOGO
Desde os tempos muito remotos, o povo de Israel apresenta significativas relações com o bovídeo taurino. Moisés, ao descer do monte Sinai, encontrou o seu povo adorando um bezerro de ouro, eguel ha-zahav, em hebraico. A história religiosa de Israel nos revela que Moisés fora ao Sinai para receber o Decálogo. Na volta, enfureceu-se, quebrando as duas tábuas do Decálogo. Aarão, irmão de Moisés e de Miriam, foi o responsável pela construção do bezerro de ouro, em última instância a substituição da vida espiritual pela vida material. 


BEZERRO   DE   OURO

Embora Aarão tenha apresentado uma justificativa para a construção dessa imagem bovídea, a tradição judaica sempre
AARÃO
considerou como o pior, dentre todos os pecados, o da adoração do bezerro de ouro. Todo o sofrimento do povo de Israel bem como o exílio dos tempos posteriores a esse acontecimento podem ser atribuídos a esse pecado, que está nas origens da antiga nação judaica. Segundo consta da mesma tradição, o pecado da adoração do bezerro de ouro foi instigado por uma multidão não-israelita infiltrada quando o povo ficou à espera do retorno de Moisés. Foi essa multidão que desencaminhou os israelitas, muito deprimidos pela longa demora do seu patriarca que subira ao Sinai para conversar com Deus. Embora muito irritado, Moisés puniu os pecadores e obteve o perdão de Deus para os israelitas.


Considerado na antiga Pérsia como um dos primeiros seres criados,
MITRA
associado ao deus Mitra e no Egito ao deus Apis, o touro sempre foi considerado como um deus da fecundação, da fertilidade e também da destruição por sua ação tempestuosa. Nos cultos asiáticos, inclusive na Índia, representava, ao lado da vaca, o céu na sua ação tanto fecundante como destrutiva sobre a Terra. Os termos sânscritos vrisha ou vrishabha tanto designavam o melhor, o príncipe, o primeiro, como se relacionavam com ideias de abundância e fecundidade. Não era por acaso que as mulheres se sentavam sobre uma pele do animal para se tornarem férteis. 



APIS

Javé, a grande divindade dos judeus, que se manifestava sobretudo tempestuosamente nos céus, apresentou estreitas relações com a suprema divindade dos fenícios, El, deus-pai também de natureza
DEUS  LEVA  ENOCH
celeste, representado por um touro. Enoch, personagem bíblico, pai de Matusalém, que se transformou nos céus no anjo Metatron, descreveu a seu filho a visão que teve da criação humanidade, ao mesmo tempo filha e esposa do Senhor Supremo sob os traços de um touro divino. Estas mesmas imagens aparecem também na antiga Grécia, quando Zeus toma a forma taurina para reafirmar, perante os deuses e humanos, o poder celeste. No antigo Egito, quando o faraó Menes unificou o país, ele o fez, principalmente, em nome do deus Apis, unindo-se desde então os cultos taurino e real numa síntese que vai se espalhar por todo mundo antigo, atravessando os séculos.



O  BEZERRO  DE  OURO  DE  JEREBOÃO ( NICHOLAS  POUSSIN )

Ainda com relação aos judeus, não podemos esquecer a história de Jereboão, rei rebelde que fundou um reino ao norte em Israel. Ele introduziu o culto de dois bezerros de ouro para impedir que as pessoas se dirigissem a Jerusalém em peregrinação. Por isso, segundo a tradição, foi condenado por ter induzido o povo de seu reino ao pecado, um pecado que nenhum arrependimento jamais poderia redimir. Deus, porém, com toda a sua magnanimidade, segundo uma versão registrada, mesmo assim, lhe ofereceu um lugar no Jardim do Éden. O rebelde Jereboão, todavia, recusou a oferenda divina, porque no Éden o rei David ocuparia uma posição de maior status que a dele.

Entre os judeus, Touro é Iyar, formado pela letra Vav. O órgão humano que no simbolismo cósmico judaico corresponde a este
VAV
signo é o rim direito, que, segundo o Talmud, é a fonte de bons pensamentos. A tribo com ele relacionada é a de Issakar, a que se dedica ao estudo da Torá. Issakar, no Gênesis, é chamado de asno forte, bom para o trabalho penoso. Noutra passagem (Reis, cap. I), o mês do signo é chamado de Ziv, brilhante, devido ao aumento do poder solar, que nele se torna mais intenso, ou seja, no mês de maio, o auge da primavera. A mesma ideia de luz, de brilho, é encontrada na designação Ohr, usada pelos babilônicos.   

A tribo de Issakar, que trabalhava arduamente com a Torá, era a detentora do conhecimento que conciliava os calendários solar e
TORÁ
lunar e que estabelecia o início de cada mês lunar. Lembremos que o calendário judaico é lunar e o ano, por isso, pode conter doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Segundo a tradição judaica, quando da criação do mundo, os luminares eram iguais em luz, mas como não poderia haver essa igualdade, a luz da Lua foi diminuída. A Lua simboliza o povo de Israel, cuja sorte oscila como ela. A luz da Lua voltará a se igualar à do Sol no final dos tempos, quando da vinda do Messias. Por isso, eclipses lunares são aziagos para os judeus, pois quando a Lua míngua as forças do mal crescem. Dormir à luz da Lua é sempre perigoso por causa da ação de forças demoníacas femininas, diz a tradição judaica.



CALENDÁRIO   LUNAR

O signo de Iyar está relacionado, num primeiro momento, com o temor. A palavra temor em hebraico tem as mesmas letras do signo. O temor de Deus deve nascer logo neste signo porque ele é um pré-requisito para o recebimento da Torá, como nela se estabelece: O temor dos céus é o começo da sabedoria. Astrólogos judeus dizem também que o mês do signo é auspicioso para curas já que a primeira causa das doenças está no consumo de alimentos impróprios e depois numa digestão e assimilação deficientes. Foi durante este mês, no seu décimo quinto dia, numa Lua cheia, que os judeus, vagando pelo deserto com Moisés, começaram a comer o maná, o pão dos céus, chamado de o alimento dos anjos. O maná foi uma espécie de orvalho que alimentou os judeus durante o êxodo. O maná foi produzido ao crepúsculo do sexto dia da Criação e é o alimento dos justos e dos anjos do céu. Era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando resíduos que tivessem que passar pelo sistema digestivo, tendo o sabor que as pessoas quisessem. 

A astrologia judaica nos diz que o elemento de Iyar é a terra, significando isto que o elemento do signo anterior, fogo, entendido espiritualmente, deve no signo que lhe segue procurar um foco, uma objetivação, algo tangível, concreto. Negativamente, as energias de Iyar se manifestam na esfera do desejo, quando os judeus, no deserto, reclamaram a Moisés a falta de carne para comer. Foi durante este mês que eles, no deserto do Sinai, manifestaram também fortes desejos de conforto e relaxamento. Lembram os judeus que o elemento terra é, energeticamente, o de menor vibração. Este comportamento, manifestado no Sinai, dizem os astrólogos, tem relação direta com a natureza teimosa e rebelde do touro. 

Em oposição aos signos de Nissan e de Iyar estão os de Tishrei (Libra) e Heshvan (Escorpião), que caracterizam as tribos de outros dois irmãos, Manassé e Efraim. A tribo de Heshvan tem relação com o olfato, entendido, simbolicamente, como discernimento intuitivo. O episódio que deu origem à interpretação do olfato desta maneira está no episódio bíblico que tem como personagens José, o pai dos dois mencionados irmãos, e da mulher de Putifar, oficial egípcio, uma história cheia de elementos taurinos. 


MULHER  DE  PUTIFAR  ( REMBRANDT)

José é filho do patriarca Jacó e de sua esposa preferida, Raquel, sempre considerado como o modelo do homem justo e probo (tsadik), que é protegido do mal por Deus e cujos descendentes não são afetados pelo mau-olhado. Dez de seus irmãos tramaram matá- lo, jogando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Conseguiu escapar, mas acabou sendo vendido como escravo a Putifar. Lá, conseguiu resistir bravamente ao assédio da mulher de Putifar, Zuleika, porque o pai lhe apareceu em sonhos e salvou-o da tentação. Desde então, todos os membros da tribo de Hashvan adquiriram esse discernimento que pode ser usado não só em questões de sexo, mas em todas as outras da vida material. Esse discernimento se traduz pela pureza das intenções, de pensamentos e sobretudo pelo temor divino. Na Bíblia, em muitas passagens, o sentido do olfato aparece sempre associado à santidade, à pureza e ao discernimento. O nariz, como o olho, é um símbolo de clarividência e da perspicácia, mais intuitivamente que racionalmente. 



                           
                                  JOSÉ SENDO VENDIDO POR SEUS IRMÃOS (FIEDRICH OVERBECK) 

Entre os judeus, José é o sexto dos seus sete pastores (Abraão,
DAVID
Isaac, Jacó, Moisés, Aarão, José e David). Estes sete pastores correspondem aos sete atributos: graça, poder, beleza, vitória, glória, fundação e realeza. O nome de José está ligado entre os judeus a ideias de fecundidade e beleza. Etimologicamente, José (Joseph), significa juntar (yasoph) e reunir e apagar (asoph). Raquel, a mãe de José, diz Deus apagou a minha vergonha, ao dar à luz, depois de estéril por muito tempo. O ph, ao final de José, indica um vivo movimento de libertação (oph quer dizer voar) e soph traduz uma ideia de limite, de fim de uma realização. 


José, por seus méritos de oniromante, demonstrados na prisão, foi chamado à presença do faraó. Interpretou para ele um sonho que ele tivera e que ninguém explicava: ele sonhara com sete vacas gordas, com sete vacas magras, com sete espigas de trigo cheias e com sete espigas de trigo secas, queimadas pelo vento. José explicou ao faraó as suas visões: sete anos de grande abundância viriam para o Egito; a eles seguir-se-iam sete anos de fome. José propôs ao faraó a administração do problema do seguinte modo: conservar os níveis dos silos reais de modo que quando chegasse o tempo das vacas magras ou das espigas secas, eles estivessem cheios para que o povo não passasse fome. 

Satisfeito com a resposta, o faraó nomeou José como vizir, dando-lhe o nome de Safenath-Peneah (Deus disse: ele viverá). Aos 30 anos, recebeu como esposa Asenath, que lhe deu dois filhos,
JOSÉ   E   SEUS   IRMÃOS 
Menassé (Aquele que esquece) e Efraim (O fecundo). Durante os sete anos de abundância, ele poupou o trigo de tal modo (sem que o povo passasse fome) que, no período das vacas magras, o Egito era o único país do mundo de então a não ter problemas com a escassez de alimentos. Muita gente, por isso, se dirigiu ao Egito em busca do trigo. José então abriu entrepostos para a venda do trigo excedente, ganhando o país muito dinheiro. Iniciadas as vendas, dentre os primeiros a buscar o alimento, estavam os seus irmãos (que o haviam aprisionado no poço e depois vendido como escravo), vindos do país de Canaã. José não revelou quem era e os irmãos pagaram com muito sacrifício pelo alimento. Retornando, os irmãos encontraram o dinheiro que haviam gasto, devolvido secretamente por José. 


Numa segunda visita ao Egito, os irmãos de José foram denunciados por um roubo que não haviam cometido. José mandou chamá-los e revelando-se e lhes pediu que fossem buscar Jacó, o pai de todos, e com ele viessem a se instalar no Egito, em Goshen, a leste do vale do Nilo (Gênese, 45, 1). Jacó, ao receber a notícia, gritou: Meu filho José ainda vive; quero partir e vê-lo antes de morrer. Antes de morrer, Jacó perfilhou seus netos, os filhos de José (Menassé e Efraim), e os abençoou. José morreu com 110 anos, depois de ter obtido dos irmãos, ao morrer, a promessa de que seus ossos seriam levados com eles para onde fossem. Tal aconteceu efetivamente, encarregando-se Moisés de fazê-lo. A conclusão da história de José, segundo a Bíblia é a de que Deus, algumas vezes, transforma as piores ações em boas ações (Gênese, 45. 5-8).

É interessante notar que a astrologia sempre associou o mundo árabe a Escorpião, signo astrológico oposto e complementar ao de Touro. Ambos semitas, descendentes de Sem, filho de Noé, judeus e árabes, pelas conhecidas razões histórico-econômico-religiosas (Deus mandou que Abraão, o primeiro dos patriarcas judeus, tomasse posse de uma terra que já tinha dono), vêm ao longo dos séculos se batendo numa luta fratricida. Nos tempos modernos, mais uma vez as coincidências astrológicas continuam a se impor: os ataques israelenses aos árabes têm características nitidamente “taurinas” (pesados, maciços, violentos) enquanto os dos árabes aos israelenses são de inspiração “escorpiana” (tocaia, oportunismo, surpresa). 

A profunda relação que há entre judeus e árabes poderá ser
ABRAÃO  DESPEDE-SE  DE  HAGAR  E  ISMAEL
constatada também se recolhermos da Bíblia (Gênese) a história do nascimento de Ismael, o filho que Abraão teve com a sua segunda esposa, Agar. Conforme o texto bíblico, porque estéril, Sara, a primeira mulher de Abraão, lhe sugeriu que tomasse por esposa Agar, sua escrava egípcia. Tudo se passou em Ur, na Mesopotâmia. Pelas leis mesopotâmicas, Ismael, o filho nascido da relação, deveria ser considerado como o herdeiro natural de Abraão. Anos depois, segundo o mesmo texto bíblico, já na velhice avançada Abraão e Sara, esta tornada milagrosamente fértil, geraram um filho, Isaac. Logo surgiram conflitos entre Ismael e Isaac. Sara pediu a Abraão que expulsasse Agar e seu filho para que Ismael nada pudesse reivindicar quanto à herança paterna. Consultado por Abraão, como está na Bíblia, Deus apoiou a expulsão de Agar e de Ismael e confirmou que tornaria Isaac o patriarca de uma grande nação, a judaica, e que a descendência de Ismael constituiria também uma outra nação (árabes).


Os maiores “templos” do dinheiro no mundo moderno são, como todos sabem, as bolsas de valores. O mais importante desses “templos”, também como é do conhecimento geral, é o de New
TOURO  DIANTE  DA  BOLSA  DE  NOVA  YORK
York, no qual a presença do capital judaico é muito significativa. Pois bem, mais uma vez aqui uma notável “coincidência”: diante da Bolsa de NY encontra-se um “bezerro de ouro”, ou seja, a escultura de um bovídeo, de mais ou menos 3,5 toneladas, que tem papel importante no mercado ações. Quando o mercado está em alta, vendedor, ele é simbolizado pelo touro; se em baixa, é representado pelo urso. Esta interpretação simbólica foi criada analogicamente: o touro, quando ataca, arremete levantando a cabeça, de baixo para cima. Já o urso, ao contrário, ataca com a cabeça voltada para baixo. É a isto que os norte-americanos dão o nome, respectivamente, de Bull Market ou Bear Market. Os aplicadores na bolsa de New York costumam esfregar com as mãos os chifres, o focinho e os escrotos do 
touro, Charging Bull, para atrair a sorte.  Daí o adjetivo bullish, muito usado por eles, com o significado de esperançoso e confiante.

GOLEM
Uma das artes secretas que mais atraiu os judeus, durante toda a Idade Média e depois, foi a alquimia, principalmente no seu aspecto exotérico, que buscava, em laboratório, um meio de transformar metais não-preciosos  em ouro. Um dos mais famosos sábios cabalistas, Judá Loew Ben Bezalel, a quem se creditava a criação do famoso Golem de Praga, no séc. XVI, era citado como um dos que haviam tido sucesso nessa busca.

Diante do que está acima, não é de se estranhar que um judeu,Sigmund Freud (Sol em Touro, ascendente em Escorpião, de onde lhe veio o impulso para vasculhar o mundo ctônico, governado pelo deus Plutão-Hades)), tenha colocado o tema da oralidade como um dos pontos mais altos de sua teoria psicanalítica. A astrologia, lembre-se, sempre associou o signo de Touro à boca, tanto um órgão ligado à alimentação, como à fala, à sexualidade e ao sopro vital,  

Na astrologia, a boca tem ligações profundas com o seio materno, sempre um símbolo de abundância. Inseparável do leite materno, o seio evoca proteção, segurança, fartura, satisfação, saciação. Abertura inicial do tubo digestivo, a boca sugere incorporação, sucção, que o beijo entre dois amantes tão bem representa. 

Por oralidade, segundo Freud, devemos entender a primeira fase da evolução libidinal, caracterizada pelo fato do lactente encontrar
A   SEGURANÇA
prazer na alimentação, na atividade da boca e dos lábios. O prazer de sugar acaba tornando-se uma atividade auto-erótica, de forte conotação sexual. Pela boca, nós (a criança) nos tranquilizamos, deixamos de sofrer, de ter fome. Comer, incorporar, pois, cada vez mais para não sofrer. Possessividade, ciúme do pai, que é “dono” daquela fonte de prazer e segurança. Na criança, essa fase se liga à sua relação com o seio da mãe. Primeiro, ela suga (satisfação); depois, a frustração quando ele é retirado. Da sucção, a criança passa a uma fase sádica (sádico-oral), na qual entram a mordida, o desejo de arrancar o seio, de devorá-lo. 


O taurino, como já se disse, é, no geral, um instintivo oral. Ele costuma se defender contra os perigos da vida pela posse, traduzido
DORIVAL   CAYMMI
geralmente pela busca do conforto e do seu bem-estar material. Por trás de tudo isso estará, com maior ou menor intensidade, de acordo com a dominante de sua personalidade (fogo, ar, água ou terra), o atendimento do que os seus poderosos sentidos reclamam. Muitos taurinos quando não podem alimentar o seu
FREUD
complexo oral pela via materna, procuram os seus equivalentes simbólicos, até com paixão, através dos seus cinco sentidos. É no mundo natural (Mãe Natureza) que estão os seus maiores prazeres, nos pomares, no cheiro das frutas, no verde dos campos, no mar, nas praias e areias, em rios, lagos, nas paisagens montanhosas, todos substitutivos da figura materna. Não é por acaso que um taurino típico como Dorival Caymmi deixou num de seus versos que é doce morrer no mar e que Freud tinha como um de seus prazeres máximos (o único?) o charuto, que ele fumava, ou melhor, mamava gostosamente, do qual, como disse, nunca se afastaria. Mais uma coincidência taurina: Freud, como sabemos, um taurino como poucos, teve que se submeter a dezenas de operações na região bucal.




quinta-feira, 31 de março de 2011

OS (DES)CAMINHOS DA SEDUÇÃO

A palavra Bíblia, como sabemos, quer dizer livros (plural de livro em grego). A Bíblia compreende as Escrituras Sagradas dos judeus e dos cristãos, isto é, os chamados Antigo Testamento e Novo Testamento, dois livros, portanto. Essa denominação não quer dizer, como muitos erradamente supõem, que o Antigo Testamento tenha sido ultrapassado pelo Novo Testamento. Não há entre os dois livros nenhuma ideia de subordinação. Preferível chamar o primeiro livro de Escrituras Sagradas Hebraicas e o segundo de Escrituras Sagradas Cristãs. De um modo geral, quando esses textos são mencionados muitos pensam em santidade, moralidade, sacrifício, pietismo, abstinência sexual, castidade, sofrimento, mortificação, caminhos vários, enfim, pelos quais é possível chegar a Deus, ao Reino dos Céus. 

 A abordagem que vamos fazer se concentra nos textos judaicos que nos levam exatamente no sentido contrário das idéias acima. O nosso ponto de partida é a constatação de que nos referidos textos há uma dessacralização geral do sexo. Estamos, nesses textos, longe da abstinência sexual, da castidade, do recato. Presentes, em grandes doses, ao longo deles, muito erotismo e muitos lances de sedução. Esta constatação afasta também a ideia de que no texto bíblico judaico o sexo só esteja ligado a preocupações de ordem matrimonial ou à procriação, à descendência. A maior parte dos comentadores dos textos sagrados do Antigo Testamento fala muito pouco sobre estas questões de sexualidade ou então silencia mesmo sobre elas. Uma leitura mais atenta dos textos nos revelará, isto sim, que os seus autores não tinham preconceitos contra o sexo nem contra o erotismo em geral. As histórias narradas sobre estes temas são apresentadas sempre de modo muito simples, direto, natural.

Os textos bíblicos judaicos espelham, como se sabe, uma cultura de fundo patriarcal. Esta cultura é a de um povo semi-nômade, abrangendo um período que vai de, mais ou menos, 3.000 a 1.200 aC. Em termos gregos, essa cultura se insere entre as idades do bronze e do ferro e é representativa de diversas tribos que, apesar de algumas diferenças, constituíam, no seu todo, um povo chamado abirus, hebreus, de origem semita, que emigrou da Mesopotâmia em direção da costa mediterrânea, da Palestina, de desertos do sul e do Egito. Com base em antigas tradições orais de mais de mil anos aC, é no Gênesis que encontramos os principais registros da chamada cultura patriarcal.

Ainda que alguns traços de antigas tradições matriarcais possam ser percebidos nesses textos, a figura central desse mundo é o patriarca. Sua autoridade é suprema. Ele é o chefe, o senhor dos bens, das suas esposas, dos seus filhos e de tudo aquilo que o grupo, o clã, possuía. Ele estabelece normas, procura proteger a todos, alimentá-los, defendê-los, orienta as relações internas e externas dos membros do grupo, definindo inclusive com quem seus filhos e filhas poderão se casar. O objetivo final de suas determinações e atitudes era, sem dúvida, a manutenção da coesão grupal. Num meio hostil, como aquele em que viviam, esta condição era indispensável. Além do mais, tudo isto reforçava a responsabilidade coletiva, já que se procurava manter sempre a pureza do sangue.

O casamento nesse mundo era estabelecido entre famílias. Um pacto através do qual o pai da noiva entregava a filha em troca de um dote (mohar) que deveria ser devolvido no caso de divórcio. No Gênesis, exemplos de casamentos podem ser vistos, como o de Isaac, o filho de Abraão e Sara, que se casou com Rebeca. Outro exemplo é o do casamento de Jacó, um dos dois filhos gêmeos de Isaac, narrado com uma grande quantidade de detalhes.



Fixemo-nos neste último, onde temos um caso de amor à primeira vista. Jacó, ao chegar do deserto, fugindo das iras de seu irmão Esaú, viu a pastora Raquel. Esse encontro foi abrasador. Eram primos. Jacó ficou abalado porque Raquel tinha um belo porte e um lindo rosto, conforme está no texto bíblico, que procura sempre ressaltar a beleza feminina. O mesmo problema teve Abraão com Sara, que atraía os olhares de egípcios e beduínos. Por essa razão, ela acabou tantas vezes no harém do faraó e do rei Abimelec. Sara, conforme registros, morreu com 127 anos de idade. Dizia-se que aos cem anos era tão bonita quanto aos vinte. Foi por amor a Abraão que ela concordou em frequentar haréns com o objetivo de salvar a vida do marido.

Não há o que estranhar com relação à predileção de Jacó por Raquel diante da beleza física da jovem e o seu desdém por Lia. Ao pedir a moça ao tio, futuro sogro, este exige que Jacó lhe preste sete anos de serviços como dote em suas propriedades. Tão apaixonado estava que o texto nos fala que "os anos lhe pareceram apenas alguns dias". Evidentemente, uma disposição como esta só seria compreensível numa situação de intensa paixão, provocada pelo poder de sedução de Raquel.

No Eclesiástico, uma coleção de provérbios e máximas composta por Simão Ben Sira, livro que faz parte do AT, encontramos, por exemplo, dentre as muitas observações sobre os perigos da sedução este texto: "Como lâmpada brilhante no candelabro sagrado, tal é a beleza de um rosto num corpo bem acabado. Colunas de ouro sobre bases de prata, assim são as belas pernas sobre sólidos pés."

Raquel, por exemplo, além de sedutora era muito esperta. Quando Jacó percebe que o tio Labão o explorava, põe-se em fuga com as duas irmãs, depois de tê-las consultado, ambas o apoiando. Labão sai em perseguição de Jacó. Alcançando-o, responsabiliza-o pela fuga e exige a devolução dos seus ídolos familiares, roubados por Raquel. Quando o pai aparece para revistar a tenda, a jovem, que colocara as imagens sob a sela do seu camelo e sobre elas se sentara, diz-lhe: "Que meu senhor não fique bravo porque eu não me levanto em sua presença, é que me veio o incômodo das mulheres..."

Labão, pai de Raquel e de Lia, não queria permitir que a primeira se casasse com Jacó antes da outra, mais velha. Enganou Jacó, dando-lhe Lia no lugar de Raquel. Para que o estratagema desse certo, Raquel teve que participar, ajudando a irmã, dizendo-lhe como deveria proceder para convencer Jacó de que era ela, Raquel, e não Lia. Assim procedendo, Raquel abriu mão de seu desejo de casar antes da irmã com Jacó. Só depois tornou-se Raquel esposa de Jacó. Raquel, lembremos, morreria ao dar à luz seu segundo filho, Benjamim, sendo José o primogênito.

O amor no AT tem um caráter profundamente erótico. Nada tem daquela qualidade da qual São Paulo tanto falava, o amor como ágape, isto é, o amor desprovido do seu aspecto carnal. Ágape, entre os antigos gregos, é preciso lembrar, era um banquete de confraternização. No Cristianismo, era uma festa dos primitivos cristãos que consistia numa refeição comum através da qual se celebrava o rito eucarístico. Nessa festa, pobres e ricos eram admitidos, trocavam-se beijos em nome da paz. Aos poucos, porém, essa festa cristã acabou degenerando, tendo sido proibida pela Igreja.

Um dos casos mais interessantes do AT é o que está descrito no Gênesis (XXXIX). Narra-se ali a história de José com a mulher de Putifar, Zuleika, nome que, em árabe, lembra pêssego. José é um dos filhos do patriarca Jacó e de sua esposa preferida Raquel. José é o modelo do tsadik bíblico (homem justo, probo). Sendo o filho preferido, porque relatara ao pai o comportamento inadequado dos irmãos, estes, em número de dez, procuraram matá-lo, lançando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Milagrosamente, José acabou saindo de lá, sendo, entretanto, vendido pelos irmãos como escravo a Putifar, oficial egípcio.


Putifar era um eunuco do faraó, um posto muito importante. Os eunucos, no antigo Egito, eram, como altos funcionários reais, muito próximos do faraó, ocupando elevadas posições, apesar da mutilação. José, como está descrito, era belo de rosto e de corpo, "belo de se ver." Putifar tornou-se dono de José ao comprá-lo. Zuleika tentou seduzi-lo de várias formas. O texto revela que José foi salvo da tentação, resistindo ao assédio de Zuleika, porque a imagem de seu pai, Jacó, lhe apareceu, salvando-o da tentação.

José resistiu à mulher tanto por retidão em relação aos homens como em relação a Deus. "Ela segue, dia após dia, falando a José; mas ele não aceita deitar-se ao lado dela, estar com ela." Decepcionada e humilhada, Zuleika tenta comprometê-lo, agarrando-o por suas vestes. E José, diz o texto, "larga suas vestes nas mãos dela, foge, parte dali." Zuleika, quando chega Putifar, o incrimina (compare com a Fedra de Eurípedes). José será preso e irá para a prisão. Sabemos que, pela graça de Deus, ele ganhou a liberdade e acabou se tornando vice-rei e encarregado da economia do Egito.

Outro famoso caso de sedução está na história de Sansão, personagem que aparece no período bíblico dos Juízes (sécs. XII-XI aC). Sansão é nome que vem do hebreu, com o significado de "pequeno Sol". Era ele um nazarita de nascença. Nazarita era aquele que, desde o nascimento, fazia voto de se abster de tomar vinho, cortar o cabelo e ter contato com mortos. Quando de seu nascimento, sua mãe foi visitada pelo anjo Uriel, às vezes chamado Raziel, o anjo da luz. Dele recebeu a informação de que seu filho iria salvar Israel da opressão dos filisteus.

Sansão nasceu dotado de força sobre-humana, entregando-se, desde cedo, a intensas paixões sexuais. Foi capturado pelos filisteus, graças às intrigas de sua amante, Dalila, que o vendeu por muitas moedas de prata. Os filisteus o cegaram, fato entendido como um castigo por ter cedido à tentação de seus olhos, entregando-se à luxúria. Enquanto prisioneiro, cego, as mulheres iam visitá-lo na prisão para com ele ter relações sexuais, pois não havia perdido os seus encantos e dotes de grande amante. Muitas queriam ter um filho com ele, para que a criança herdasse a sua força e estatura. Sansão escolheu a sua morte quando fez desmoronar o templo dos filisteus, morrendo sob os escombros. Entre os judeus, este gesto é considerado como um martírio altruísta.

Sansão sempre foi um tipo humano cheio de caprichos, de caráter infantil. Jovem ainda, enamorou-se de uma filisteia, Tamna, uma filha de incircuncidados. Casou-se com ela. A festa de seu casamento não terminou bem. Brigou com os filisteus presentes, matando trinta deles, abandonando Tamna nesse mesmo dia. As façanhas de Sansão tornaram-se famosas. Os filisteus contratam, então, Dalila, por milhares de moedas de prata, para causar a perdição do herói, o que de fato aconteceu.

Nosso herói acabou por revelar a Dalila o segredo de sua força descomunal, os seus longos cabelos. Dalila, numa oportunidade em que ele adormeceu no seu colo, cortou-lhe os cabelos. Os filisteus o capturaram, tiraram-lhe os olhos e o reduziram à escravidão. Na prisão, com o tempo, crescendo-lhe os cabelos novamente, e desatentos os filisteus quanto a este detalhe muito importante, voltando-lhe a força, Sansão destruiu tudo. Centenas de mortos. Entre os escombros, seu corpo desfigurado.

Esta história põe em evidência um tema comum a várias tradições religiosas antigas e recorrentes na Bíblia: se a mulher é frágil fisicamente, é forte quando se trata de amor e sedução. Este tema aparece inclusive na tradição cristã: cuidado com a mulher, pois, embora pareça frágil, tem força quase invencível quando se propõe a algo. É através destas histórias que se fixa a figura da mulher como destruidora de homens e fonte do mal, como está, aliás, no referido Ben Sira: "Foi pela mulher que começou o pecado e é por culpa dela que todos morremos."

Uma das mais curiosas histórias de sedução nos textos bíblicos judaicos é a de Judite, viúva de Manassés. A narração começa nos informando que na cidade de Betúlia, sitiada pelos assírios, vivia uma jovem viúva, conhecida por sua beleza, devoção e riqueza. Decide ela um dia, levada pela compaixão que lhe inspira seu povo e pela indignação que sente diante da disposição dos importantes da cidade que a queriam entregar aos inimigos, fazer alguma coisa. Vai então ao acampamento inimigo com uma espada, com o seu talento de grande sedutora. Confia em Deus, é virtuosa, bela, discreta e sábia apesar de jovem.

Sensual e apaixonada, tem o senso da aposta, da aventura, que vive com idealismo. Judite é o feminino de Iehudah, Judah, louvor a Deus. Por trás desse nome está o substantivo yod, braço, mão, daí a louvação a Deus. O nome Judite, Judith, toma um sentido combativo entre os judeus. Lembre-se que Judah é o “homem da mão”, executor e braço de Deus, como Judite.


A descrição de como Judite se preparou para ir ao acampamento inimigo é muito rica de detalhes. Durante a viuvez (já haviam se passado três anos e meio da morte do marido) viveu sempre em sua casa, vestindo pano de saco e usando roupas de viúva, como convinha a uma mulher nessa condição, escondendo o seu corpo e a beleza de seu rosto. O marido deixara-lhe muitos bens. ”Ninguém podia fazer-lhe a mínima crítica, pois era temente a Deus." Judite, no dia em que tomou a decisão de ir ao acampamento assírio, rezou nestes termos: "Concede-me, Senhor, falar com sedução, para ferir mortalmente os que planejaram uma vingança cruel contra teus fiéis, contra tua morada santa, o monte Sião, e a casa de teus filhos." Depois, tirou o pano de saco que lhe cobria o corpo, o vestido de viúva, tomou banho, passou perfume caro no corpo, penteando os cabelos, vestindo-se com roupa de festa; calçou sandálias, enfeitou-se com braceletes, colares, anéis, brincos e todas as suas jóias. Ficou belíssima, capaz de seduzir qualquer homem que a visse.

Conforme o texto bíblico, deslumbrante como uma deusa, apresentou-se Judite a Holofernes, general de Nabucodonosor, chefe das tropas assírias. Todos se encantaram à sua passagem, as portas se abriram, ninguém tão bela. Judite diz ao general que tem um plano para que os assírios tomem a cidade. Segundo o texto, Judite ficou três dias no acampamento assírio. Orava todas as noites, purificava-se tomando banho numa fonte próxima, pois, estava "em contato com incircuncisos." Na quarta noite, um banquete para Judite, só ela e o general. Holofernes, fascinado pela bela mulher e por suas palavras, esperando tê-la definitivamente em seus braços, descuida-se, entrega-se à bebida, "bebe tanto como não o tinha feito em toda a sua vida", diz o texto. Disso se aproveitou Judite. Desembainhando a espada de Holofernes, cortou-lhe a cabeça com dois certeiros golpes, colocou-a então numa bolsa e saiu tranquilamente como todas as noites, dizendo que ia orar.

Escapou, então, em direção de Betúlia. Os oficiais e soldados hebreus, já cientes do ocorrido, atacaram os assírios no dia seguinte, derrotando-os, totalmente desorientados pela morte do seu chefe. O autor da história diz que Judite consagrou ao Senhor todos os objetos de Holofernes e também o mosquiteiro que ela mesma pegara do leito dele. Narra-se também que Judite teve muitos pretendentes, porém nunca mais se casou.
Muitos estudiosos ocidentais da Bíblia já questionaram a moralidade do ato de Judite. Uma preocupação tipicamente ocidental, incompreensível no contexto da mentalidade semita. A arte de Judite, a de seduzir, é neste particular semelhante à arte de vender, isto é, a de saber tirar a maior vantagem na transação, aproveitando-se inclusive da ingenuidade ou da ignorância do comprador, arte na qual os semitas são mestres.
A história de Judite é um "romance", uma "novela" edificante. Tem por objetivo dar coragem aos judeus nos momentos mais difíceis de sua história. Judite serviu-se das armas que Deus lhe deu como mulher para seduzir Holofernes e matá-lo. Nenhuma dúvida quanto aos aspectos morais; nenhum questionamento quanto à legitimidade dos meios que ela empregou. O apoio de Deus é constante. Além disso, nenhuma mancha, nenhuma nódoa no seu caráter. Judite é um instrumento divino e um belo exemplo de patriotismo. A história de Judite repetiu-se muitas vezes ao longo da história da humanidade e tem, sem dúvida, um objetivo pedagógico.

Em vários momentos sua história, além de atrair a atenção de muitos religiosos, seduziu também artistas, músicos, pintores, sendo encenada em feiras e praças públicas nos últimos séculos. Caravaggio, Marc-Antoine Charpentier, Opitz, Scarlatti, Vivaldi, Mozart, Salieri, Hebbel, Jean Giraudoux, Paul Claudel, Georg Kaiser, dentre outros, se apoderaram do tema de Judite, fazendo-a representar, conforme a época, um exemplo de patriotismo, de santidade, de ativismo político, da eterna luta entre o opressor e o oprimido, da minoria que tem o direito de usar todos os meios para se libertar. Nos séculos XVII e XVIII, Judite encarnará a Cristandade diante do Islã e, no século XX, a democracia diante do nazismo.

O maior amante da Bíblia é, sem dúvida, David, cuja extensa história é contada no primeiro livro de Samuel (capítulos 16-31) e no segundo livro. David foi aquele por quem todas as mulheres de Israel se apaixonaram. Seu caso mais famoso foi o que teve com Betsabá (filha do juramento ou casa do juramento), que seria mãe de seu sucessor, Salomão. David se apaixonou por ela quando a viu no banho. Unindo-se a ela, engravidou-a. Tomou providências então para que o marido de Betsabá, Urias, soldado hitita, fosse mandado para casa para que todos pensassem que o filho era dele. Este estratagema não deu certo e David ordenou que Urias fosse destacado para atuar na linha de frente, nas batalhas, a fim de lá morrer. O profeta Natan repreenderá David por esse horrível procedimento. Foi depois de sua união com Betsabá, como se sabe, que começaram os seus infortúnios: violação de sua filha Thamar pelo próprio irmão, Amnon; revolta de seu filho Absalon; usurpação de seu filho Adonias etc.

O nome David (Dauid) merece uma referência especial: ele é o “bem amado, o querido.” Vencedor do gigante Golias, encantou com a sua lira o primeiro rei dos hebreus, Saul, e o sucedeu. David era um pastor em Belém. Tratava os seus carneiros com muito cuidado, sendo, por isso, notado por Deus e por ele escolhido para cuidar de Israel. Como músico, foi chamado para alegrar Saul, muito deprimido, então. Casou-se com Michol, filha do rei Saul,e era amigo de Jonatan, seu irmão. David foi ungido rei aos 28 anos pelo profeta Samuel. Fez de Jerusalém a capital do reino. Grande soldado, músico e poeta,  morreu  numa  festa,  quando  o  Anjo  da  Morte  se aproveitou de sua
desconcentração com relação aos seus estudos. Muito ligado à imagem do carneiro, condutor do rebanho (animal do qual tirava as cordas da sua lira), David jamais abandonou o seu instrumento musical. Dentre as suas várias mulheres, a preferida foi Betsabá, mãe de seu filho Salomão, como se disse.

A imagem de David, devido ao affaire Betsabá, e também por outros casos, diga-se, era bastante negativa. Um texto judaico, o Talmud, sustenta porém que David, ao se unir a Betsabá, não cometera adultério. Isto porque, esclarece o Talmud, todos os soldados que iam para a linha de frente tinham que conceder obrigatoriamente às suas mulheres um atestado de divórcio para a eventualidade de não voltarem do campo de batalha. Assim, quando Betsabá se uniu a David ela já "estaria divorciada". Esclarece-se, também, que quando ela se uniu a David era virgem porque Urias não tivera tempo de consumar seu casamento com ela.

David chegou à velhice muito amargurado devido às revoltas e guerras que se sucediam no seu reino. Uma mulher, contudo, virá cuidar dele nos seus últimos dias. "O rei David ficou velho, com idade avançada; por mais que o cobrissem, ele não conseguia se esquentar. Seus servos então sugeriram: "busquem uma jovem solteira que dê assistência e cuide do senhor nosso rei; ela dormirá em seus braços e o senhor nosso rei se esquentará." Esta jovem foi encontrada, chamava-se Abisag, de Sunam, e a levaram para o rei.

David, ao vencer Golias, símbolo do mal, protetor de Gathes, cidade bíblica, foi considerado posteriormente, por algumas tradições cristãs, como um precursor de Cristo. Pela sua virtuosidade como músico e poeta, é, por outro lado, apontado, por algumas tradições artísticas, como uma “atualização” do Orfeu grego. Como exemplo de sua inspirada poesia, mencionemos os seus Salmos, o mais lido e copiado dos livros bíblicos na Idade Média.

Por último, não há como esquecer de Hadassa (nome hebraico), mais conhecida pelo seu nome de guerra (persa), Ester, grande sedutora e heroína nacional. Ainda muito jovem, órfã, foi comprada por seu primo Mordecai, líder dos exilados judeus no império persa, tornando-se sua filha. Belíssima, “engraçada”, consta que aos quarenta anos, idade avançada para mulheres àquele tempo, tinha a aparência de uma adolescente. A crônica registra que foi o próprio Mordecai que a incentivou a se aproximar do imperador persa, Assuero, que reinava “desde a Índia até a Etiópia.” O rei pediu a seus ministros que buscassem donzelas virgens e formosas, pois aquela que, “entre todas mais agradar aos olhos do rei, essa será rainha em lugar de Vasthi”, a rainha rebelde.

Assim aconteceu. Antes, porém, é preciso mencionar que tanto o nome hebraico (Hadassa) como o persa (Ester) têm a ver com o mirto, vegetal consagrado a Afrodite. A melhor aproximação a Ester que podemos fazer é sem dúvida com a deusa mesopotâmica Ishtar, deusa do amor e da guerra, entre os babilônicos, irmã de Ereshikgal, deusa dos Infernos.

Ao se apresentar ao rei persa Assuero, logo tomada por ele como esposa, conseguiu Ester em pouco, mercê dos seus encantos e da sua perícia nas artes do quarto de dormir, levar os judeus à vitória. Os judeus sempre defenderam a ideia de que a mulher que ia para cama com Assuero não era Ester, mas era um espírito muito parecido com ela, enviado por Deus. Consta mais que antes de se entregar ao rei persa ela jejuou e o próprio Deus a vestiu e a acompanhou. Antes de ir para a cama do rei, Ester passou por doze meses lunares de purificação, seis com óleo de mirto e seis com “odores adocicados” e chuva, no período do verão. Os judeus lembram dessa passagem ao jejuar no dia que antecede ao Purim (festa relacionada astrologicamente com o signo de Peixes), chamando-se essa cerimônia de Tanit Ester.

O Purim era uma festa celebrada no mês que antecedia a primavera, no último mês do inverno, portanto. Os judeus a herdaram dos mesopotâmicos; nessa festa se celebrava a vitória da luz, conduzida pelo deus Marduk (Mordecai), sobre o deus das trevas, Haman (Uman). Este último é o grande representante do mal no Livro de Ester. Ele tinha obtido de Assuero autorização para exterminar os judeus. Ester frustrou então os seus planos. Haman foi enforcado, com seus dez filhos, na mesma árvore que preparara para enforcar Mordecai.

Lembro que o grande gênio do teatro clássico francês, Racine, no séc. XVIII, escreveu uma tragédia em três atos, com coros, sobre o tema, a pedido de Mme. de Maintenon, para as jovens internas de Saint- Cyr.

Como se pode ver, pelos menos quanto às mulheres, o Antigo Testamento, é, sem dúvida, um tratado sobre ciúmes, ardor, paixão, fogo, luxúria, incesto; nada nos falando do amor idealizado, "platônico", ou do amor voltado exclusivamente para a procriação. A mulher bíblica, no AT, longe de ser uma devota triste e submissa, tem orgulho dos seus atributos físicos, da sua beleza. Por isso, não se descuida, procura manter-se bela, aprende a arte de seduzir e a de fazer amor.

Shalom, amén, salam alaikum, ave, namastê...