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quarta-feira, 14 de março de 2018

SAGITÁRIO (5)


( 1896, ALPHONSE  MUCHA )
Na história de Israel, o  signo de Sagitário marca particularmente o período no qual as forças israelenses conseguiram vencer os exércitos greco-sírios. Para os astrólogos judeus, a Grécia sempre simbolizou o poder negativo do arco sagitariano, isto é, a expressão de uma filosofia materialista e invasora. Os gregos, sabe-se, tentaram destruir a tradição religiosa de Israel, impedindo que os seus textos sagrados circulassem. Esta ação, contudo, teve um lado positivo: provocou um grande desenvolvimento da transmissão oral da Torá. Nesses tempos de perseguição religiosa, destacou-se, na cultura judaica, a figura do tsadik, o homem justo, probo e bom. Esse homem tem em José o seu modelo. Filho de Jacó e de Raquel, José é o modelo do tsadik bíblico.


SEPHIROT

Pela sua conduta e exemplo, como fundamental para o mundo judaico, José sempre foi visto como uma espécie de parceiro de Deus e seu poder era tamanho que até podia anular decretos divinos. Não é por outra razão que na Cabala o tsadik representa a penúltima das sefirots. As sefirots são estruturas divinas através das quais o mundo surgiu pelo processo da emanação, formando os diferentes níveis da realidade. 



JOSÉ  INTERPRETANDO  OS  SONHOS  DO  FARAÓ
( PETER  VON  CORNELIUS , 1783 - 1867 )

O tsadik é o homem santo que governa o mundo do conhecimento, representado astrologicamente por Kislev, o nono mês lunar do calendário hebraico, a contar de Nissan. É o mês do êxodo e o terceiro a partir da festa do ano novo. Começa em fins de novembro ou início de dezembro.  No céu, é Júpiter (Zedek), palavra que
YOD,  HEH,  VAV,  HEH
significa o que é certo e correto. No simbolismo místico da Cabala, o arco vem com três flechas, que significam Graça, Julgamento e Harmonia ou Vitória, Glória e Fundação ou Sabedoria, Compreensão e Conhecimento. Estes atributos são, por sua vez, simbolizados  pelas três primeiras letras do Divino Nome, Yod, Heh e Vav (Y H V H ou Yahweh). Este tetragrama é o nome sob o qual o Eterno se revelou no antigo testamento (Eu sou aquele que é). A tradição rabínica proibiu que estas quatro letras fossem pronunciadas porque a sua pronúncia original se perdeu, provavelmente depois que Moisés as ouviu no Sinai. Na leitura oral, estas letras YHVH são substituídas por Adonai (Meu Senhor) ou por Ha Shem (O Nome).

Kislev, entre os judeus, é o nome do mês de Sagitário, palavra que denota confiança e força interior. A palavra contém também uma ideia de esperança que pode ser alimentada em função de uma atitude previsora. Esta esperança tem relação com o futuro. Os temas que derivam de Kislev vêm da cerimônia da Chanuká
JUDAS   MATATIAS
(dedicação, inauguração em hebraico), festa das luzes pós-bíblica, que dura oito dias e começa a 25 do mês. Esta cerimônia comemora a vitória dos macabeus em 165 aC. sobre os selêucidas da Palestina, que haviam profanado o templo e imposto sua religião helenística aos judeus. Macabeu é o sobrenome de Judas Matatias (200-160 aC), chefe de uma grande família sacerdotal, que comandou a revolta contra os referidos selêucidas. A vitória dos macabeus permitiu que os ensinamentos da Torá fossem preservados e mantidos, enquanto, afirmam os sacerdotes judeus, os de outras culturas, baseados em falsas ideias, já há muito haviam desaparecido. As luzes da Chanuká são consideradas como uma manifestação da luz oculta do Messias. 


SPINOSA
As influências celestes positivas de Kislev ajudam uma pessoa a obter elevação espiritual, a se interessar por questões religiosas, por filosofia, sendo citado o filósofo Baruch Spinosa (1.632-1.677, Holanda) como um exemplo. Os judeus ortodoxos usam o exemplo de Spinosa para falar dos desvios doutrinários negativos de alguém do signo, fato que motivou sua expulsão da sinagoga. Segundo a tradição religiosa judaica, Sagitário, o signo do arco, simboliza o poder da prece que emana das profundezas do coração e que alcança os céus. Expulso da sinagoga, Spinosa encontrou nos meios católicos os mestres que o iniciaram no saber científico (física, geometria e filosofia). Consagrou a sua vida à meditação, ganhando o seu sustento a polir lentes de microscópios. A obra principal de Spinosa chama-se A Ética, uma doutrina da salvação pelo conhecimento de Deus.


As letras do alfabeto hebraico que fazem a ligação com o lado espiritual de Sagitário são Samech e Guimel, esta relacionada como planeta Júpiter. Juntas, elas traduzem uma ideia de segurança, bem-estar e esperança.  Estas ideias estão presentes num
dos símbolos do signo, o arco-íris, fenômeno celeste que, segundo a
Bíblia, apareceu para sinalizar o fim do dilúvio de Noé e indicar novos caminhos para a vida na terra. Segundo o Zohar, o arco-íris é um campo de energia que surge sempre depois de catástrofes, de cataclismas. Lembre-se que o arco-íris em todas as tradições é uma via de comunicação entre o céu e a terra.


ARCO - ÍRIS  ( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

Na medida em que Sagitário, diz-nos a tradição judaica, nos remete a uma ideia de transcendência interior pela qual o instinto e o ego poderão ser ultrapassados em direção do espiritual, do coletivo, da humanidade, pode esse signo ser considerado como a primeira pedra do edifício a ser construído no signo seguinte, de Capricórnio. Pedras, com sabemos, são elementos da coagulatio alquímica, e, como tal, funcionam simbolicamente como elementos de sedentarização, da cristalização de formas. Pedras têm uma função importante ao exprimir realização, construção, perseverança. Assim, a primeira pedra, a pedra fundamental, do edifício que vamos construir no signo seguinte, Capricórnio, signo de ascensão, é fixada em Sagitário. Dizem-nos mais os judeus que assim como as flechas do arco-íris atravessam as várias camadas do ar, assim as flechas de luz disparadas pelo arco sagitariano atravessaram a mundanidade material, rompendo o escudo do mundo sírio-helenístico. 

A   TRIBO   DE   BENJAMIN  ( MARC  CHAGALL )

O mês de Kislev tem relação com a tribo de Benjamin, o filho da mão direita, filho mais jovem de Jacó, nascido de Raquel, sua esposa preferida, que morreu após o parto. Esta criança se tornou no filho mais amado de Jacó e seus irmãos o cercaram de ternura. Sofrendo as dores do parto, Raquel o havia chamado de  Ben-Oni, isto é, o filho de minha Infelicidade, mas o pai mudou o nome, chamando-o de Benjamin, Criança da Felicidade. A tribo de Benjamin foi chamada por Moisés de a bem amada do Senhor. No Gênese, registra-se (49:27) que Jacó será como um lobo arrebatador; pela manhã devorará a presa e à tarde repartirá os despojos, devido às suas aptidões guerreiras. 



ENCONTRO  DE  RAQUEL  COM  JACÓ ( RAFAEL DE SANZIO , 1483 - 1520 )


DAVID   E   BETSABÁ
( MARC  CHAGALL )
Um dos atributos naturais do mês Kislev, segundo alguns intérpretes, é o sono enquanto ele possibilita o acesso a sonhos e às visões que alguém pode obter, como foi o caso do rei Salomão. Terceiro rei de Israel, filho de David e de Betsabá, Salomão recebeu de Deus a sabedoria e tinha o dom da profecia, recebidos num sonho. Salomão personifica o arquétipo da sabedoria e todos os seus atributos mais importantes pertencem a esse simbolismo.

José, o maior dos oniromantes, foi outro personagem a receber o poder de interpretar os sonhos. Na tradição judaica, sonho é chalom, cujo valor numérico é 78, três vezes o valor do nome divino (Yod Heh Vav Heh), cujo valor é 26. As três vezes do nome divino referem-se aos três atributos, Nezach, Hod e Yesod, Vitória, Glória e Fundação, respectivamente, as três flechas do arco de Sagitário. A energia do arco, como expressa nos sonhos de José, associa-se ao sono, atributo de Kislev, a própria natureza do signo. Segundo a astrologia judaica, Sagitário é signo que indica naturalmente habilidade psíquica de modo a permitir a visão de acontecimentos futuros, como a temos, de modo superlativo, em José.    

JOSÉ  ( MARC  CHAGALL )
José foi vendido aos ismaelitas, que simbolizam o arco impuro (o lado negativo de Sagitário), e levado para o Egito. A Grécia, lembremos, era também representada por esse lado impuro do arco para os judeus. O nome genérico dos ismaelitas é arav, que simboliza também Yesod (Vitória), mas aqui relacionada esta última palavra com Eruv, multidão, multiplicidade (a vitória do número, da quantidade, sobre a qualidade). Por estas relações, os astrólogos judeus nos falam da diferença entre o sagrado e o profano em Sagitário. É neste sentido que a multiplicidade de cores do arco-íris tem implicações negativas ao simbolizar o reino dos desejos (hakeshet, o arco, tem as mesmas letras que hatshuka, o desejo, o anseio). O reino do desejo tem o poder elevar o homem ao divino ou rebaixá-lo à materialidade mais vil. É por essa razão que as terras dos ismaelitas são governadas pelo signo de Escorpião (akrab), o mês do dilúvio, cujo término foi indicado a Noé por um arco-íris.


O  ANJO,  ABRAÃO  E  SARA (JAN  PROVOOST ,1465 - 1529)

A ímpia manifestação de Keshet (arco), o poder da luxúria e do que é impuro é para os judeus simbolizado por Ismael (Deus entende, ouve). Ismael é o ancestral dos ismaelitas, os árabes, filho de Abraão e de Agar. Segundo o Gênese, Abraão tinha 86 anos e Sara, sua mulher, era muito velha para gerar filhos. Sara deu sua escrava Agar ao marido para que ela concebesse no seu lugar, Agar pôs no mundo então Ismael, mas Sara, milagrosamente, depois pariu também, gerando Isaac. Ela exigiu então que Abraão expulsasse
EXPULSÃO   DE   AGAR   E   ISMAEL
( PIETER  LASTMAN , 1583 - 1633 )
Agar e Ismael, enxotando-os para o deserto onde ficaram a perambular até que um anjo os guiou na direção de um poço. Nesse lugar, o Senhor lhes anunciou que Ismael seria um verdadeiro asno selvagem, sua mão contra todos, a mão de todos contra ele; e ele poria as suas tendas defronte de todos os seus irmãos. Deus prometeu ainda que de Ismael nasceria uma grande nação cujos membros seriam os filhos do vento, isto é, o povo do deserto, nômade e livre. É por isso que os beduínos se consideram como os únicos descendentes de Ismael, que morreu com 137 anos. Ele deixou doze filhos, chefes de tribos, conforme está no Gênese. 

A relação entre Kislev e Adar é explicada porque ambos são governados pelo mesmo corpo celeste, Zedek ou Tsedek, Júpiter, atuando ele nos festivais da Chanuká e do Purim, ambos associados à figura de José, o patriarca, o justo. Lembram os astrólogos judaicos que em aramaico, língua da antiga Babilônia, o significado da palavra Adar é mastro de barco a vela (Ruach, significando tanto vento como espírito). Isto representa o poder das influências deste mês, durante o qual é possível oferecer resistência a qualquer espírito que interfira na expressão da Torá. Em aramaico, a palavra Adar lembra também o significado de milagre oculto, como está na festa do Purim, cuja mensagem principal é que as coisas não são o que parecem e que Deus, e não o destino, determina o que sucederá.  

Para os judeus, lembre-se, o signo do arco influencia profundamente os períodos seguintes, Tevet (Capricórnio), Shevat (Aquário) e Adar (Peixes), cada um deles tendo atributos essenciais
ESTHER  ( MARC  CHAGALL )
(letras) que preexistem em Keshet (Sagitário).  A substância espiritual de que Capricórnio (Tevet) necessita para suportar os poderes do mal, nele particularmente ativos, é retirada de Keshet. A água, em Aquário, signo de ar, simboliza a tradição oral que veio dos cinco livros (Deuteronômio) onde estavam registradas as palavras de Moisés. Lembram os judeus que o início de sua grande tradição oral começou quando da vitória da festa das luzes (Chanuká). O mês de Adar, cujo signo é Peixes, signo de água, traz a ideia da aceitação voluntária da pureza da tradição oral por parte do povo judeu, segundo o milagre de Esther. 

Segundo a astrologia judaica, as pessoas nascidas em Kislev têm muita confiança em si mesmas, são otimistas e sempre se voltam para o distante. A esperança de algo futuro desperta nelas a força interior para que os obstáculos encontrados sejam removidos, possibilitando-as atingir os objetivos estabelecidos. Estas virtudes encontraram sua maior expressão durante o período em que a dinastia dos hasmoneus (nome dinástico dos macabeus) governou o país até perto do início da era cristã. 

Nessa linha de pensamento, os sagitarianos têm sempre possibilidade de demonstrar um grande prazer pela vida, muito entusiasmo por ela, desde que tudo isto seja inspirado pelos valores espirituais da Torá. Do contrário, a expressão é negativa, há riscos devido ao gosto pela aventura e pelas extravagâncias. É também dado ao sagitariano superior o poder de unificar as massas, representando-o, por isso, mais do que ninguém, o patriarca José, filho de Jacó, que unificou o Egito e os seus irmãos. Etimologicamente, José tem relação com a palavra Asif, que significa reunir, trazer junto. Yasop significa juntar. O nome Joseph, muito rico quando pensamos em jogo de letras e significados, permite lembrar que Raquel deu à luz o filho Joseph depois de um longo período de esterilidade. Esta habilidade que Sagitário tem de unir é indicada também pela aproximação das palavras keshet (arco) e lekasher, (reunir, juntar. A palavra keshet significa também arco-íris, cujas cores indicam harmonia. Segundo a Cabala, as três principais cores do arco-íris, o branco, o amarelo e verde amarelado, simbolizam, respectivamente, Vitória, Glória e Fundação.


ARCO - ÍRIS  ( ROBERT  DELAUNAY , 1885 - 1941 )

Segundo, aliás, uma tradição universal, o arco-íris, por sua forma que lembra uma ponte, sugere a comunicação entre dois mundos. Uma das passagens citadas para confirmar este entendimento é a que se encontra no Gênese, no capítulo IX, em que se declara que o arco-íris é a materialização da aliança entre Deus e os homens, inclusive os das gerações futuras. De um modo geral, é esse fenômeno um sinal do pacto estabelecido com os descendentes de Noé, pacto segundo o qual Deus nunca mais destruiria o mundo dessa maneira. O aparecimento de um arco-íris pode servir todavia de um alerta, pois sua ocorrência poderá ser interpretada como um indício de perda, por parte da humanidade, de valores superiores, honra, justiça, retidão... E isto porque é a vida meritória da humanidade que deve afastar a ameaça de catástrofes. Perdendo-se as referidas qualidades superiores, afastando-se a humanidade da vida meritória, ficam o mundo e tudo o que nele vive desprotegidos, rompendo-se o pacto com o divino. Lembremos que este simbolismo, o do arco-íris, costuma aparecer associado às imagens dos cavaleiros que anunciam o Apocalipse, quando o fogo e a água, conforme as profecias, reinarão juntos num único dia.    

SAINT  MIGUEL  ARCANJO 
O mundo judaico-cristão nos oferece, dentre outras, duas figuras que estão integradas ao ideário sagitariano.  Miguel é uma delas, o arcanjo da mais alta hierarquia. Príncipe da Água e Anjo da Prata, Miguel, no período bíblico, anunciou a Sara que ela daria à luz a Isaac. Ordenou depois, na akedá, que Abraão, não sacrificasse o filho. Lutou contra Jacó e alimentou os israelitas nas suas perambulações pelo deserto. Miguel atua com advogado do povo de Israel e apresenta as preces dos homens diante de Deus. Sua posição o coloca à direita do trono da glória e à direita do homem no plano terrestre. Está associado a Gabriel, Rafael e a Uriel, mas é superior a todos eles porque voa para cumprir as suas missões com um movimento só. Seu principal inimigo é Samael, o anjo caído que lidera as forças do Mal (Sitra Achra) e que faz constantes acusações contra Israel no céu. Miguel acompanha os devotos ao céu após a morte. Na idade do Messias ele fará soar o shofar na ressurreição dos mortos. Foi citado pelo profeta Daniel como um dos protetores de Israel. Os judeus trouxeram do Egito a ideia da psicostasia que, unida à figura de Miguel, deu motivos para que ele fosse representado com uma balança nas mãos. Miguel ficou com o atributo de defensor de Deus, atuando contra os demônios e os vícios. 

No mundo cristão, Miguel é príncipe da milícia celestial, o que combate Satanás desde sempre. Miguel é, por isso, considerado como o patrono dos cavaleiros no ocidente cristão Os pintores do Renascimento o usaram como motivo, sempre apresentado como um homem jovem e vigoroso, com uma espada fulgurante ou uma lança de prata. Como soldado e guerreiro, Miguel é muito popular no Brasil, sendo protetor dos valentes, patrono dos capoeiristas, sendo identificado, pelo sincretismo, como Xangô nas macumbas do Rio de Janeiro, como Oxóssi (orixá das matas, da caça e dos caçadores) na Bahia e como Odé (outro nome de Oxóssi) em Recife.


SÃO JORGE
(GUSTAVE MOREAU ,1826-1898)
No cristianismo, São Jorge costuma aparecer associado a Sagitário. Quase nada se sabe dele. A sua história foi difundida no ocidente pelo compêndio Legenda Áurea, dos fins da Idade Média. Seria ele um mártir cristão cujo culto existia na Lydia (Palestina) desde o séc. V. Ele se tornou conhecido por uma lenda: para salvar uma virgem, teria enfrentado e morto um dragão. O culto de São Jorge se espalhou a partir do séc. VI pela Europa, trazido pelos cruzados. Tornou-se patrono de Gênova, Veneza, Barcelona e da  Inglaterra. Sua festa é celebrada no dia 23 de abril, data em que segundo consta foi martirizado. É muito venerado também na Rússia e em Portugal. Tornou-se uma espécie de Perseu, matador de dragões. Os gregos o chamavam de mégalo mártir. De Portugal, que o recebeu da Inglaterra, seu culto chegou ao Brasil. D.João I, fundador da dinastia de Aviz, tornou-se seu devoto e o fez patrono nacional em substituição a Santiago, que o era dos castelhanos. Na tradição popular, São Jorge é invocado como defensor das almas contra o demônio, as tentações, a suspeita de feitiço, sendo o grande rival de São Miguel. Nos candomblés da Bahia, é identificado com Oxóssi e Odé e nas macumbas do Rio de Janeiro e de Recife com Ogum (orixá do ferro e da guerra). 


SÃO  PEDRO, O  PENITENTE (EL GRECO, 1541-1614)

Astrólogos cristãos costumam aproximar a figura de Pedro, chamado o príncipe dos apóstolos, do signo de Sagitário. Seu nome de origem era Simão, mas Jesus deu-lhe o nome aramaico de Kephas, conforme está em S. João, nome que tem o significado de pedra, cujo equivalente grego tornou-se Pedro, em latim Petrus, nome pelo qual o conhecemos. O nome se explica pelo episódio em que Pedro, quando Simão, declarou: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo. E Jesus lhe disse: Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja. Depois, como se sabe, conferiu-lhe Jesus as chaves do reino dos céus e o poder de ligar e desligar, poder mais tarde estendido a outros apóstolos. 

ESTANDARTES   MEDIEVAIS
Essa ação criou certos rituais como a bênção dos estandartes, a inclusão de preces litúrgicas, a cerimônia da concessão de armas, a adoção de insígnias e brasões, o crescente interesse pelos santos-guerreiros, São Miguel e São Jorge principalmente. 

Os ideais da cavalaria geraram também condições especialmente favoráveis ao desenvolvimento de uma literatura (eixo astrológico III-IX) que se espalhou por toda Europa. Esta literatura se caracterizou sobretudo por ser destinada à recitação pública coletiva, muito mais que à leitura individual. O veículo preferido da expressão literária medieval foi a poesia, muito mais que a prosa, criando-se uma vasta gama de gêneros poéticos. Não podemos esquecer, contudo, que dentro desse mundo a prosa também tinha lugar, ganhando espaço aos poucos o chamado romance narrativo, precursor da novelística moderna.


CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO

A constelação de Sagitário estende-se de 28º Sagitário a 1º Aquário. As estrelas que estão na ponta da flecha têm influências marcianas e lunares; as do arco e à altura da mão que o empalma, jupiterianas e marcianas; as da cintura e das costas, jupiterianas e mercurianas; as dos pés, jupiterianas e saturninas. 

As principais estrelas da constelação, por ordem de importância, são: Rukbat, a mais brilhante, à altura do joelho, Arkab (perna-tornozelo), Al Nasl ou Nushaba (ponta da flecha), Kaus Meridionalis (meio da flecha), Kaus Australis (ao sul do arco), Ascella (axila), Kaus Borealis (ao norte do arco) e a nebulosa Facies (face do arqueiro). Todas, a rigor, têm pouca importância sob o ponto de vista astrológico. Apenas Rukbat Facies podem ser consideradas. A primeira, alfa, de 4ª magnitude, é chamada pelos árabes de Al Rami, encontra-se hoje em Capricórnio, a 15º 56', propondo influências jupiterianas e saturninas que falam de estabilidade, regularidade, consistência, tanto sob o ponto de vista físico como mental, dependendo, é claro, do planeta com o qual se relaciona. A nebulosa Facies, a 7º 36´Capricórnio, é quase invisível
SIR   LAURENCE   OLIVIER

do ponto de vista terrestre. A tradição astrológica associa esta nebulosa (como todas) a problemas de visão. Ao que parece, a sua principal influência se caracteriza por uma certa insensibilidade (semelhante ao chamado complexo de Zeus) com relação aos assuntos da casa (ângulos) e àquilo que os planetas com os quais mantém contacto significam. Para estudo, quanto à primeira, lembro o mapa de Laurence Olivier. Quanto à outra, o mapa de Adolf Hitler. 

Lembro, ainda, que atualmente, no final de Sagitário encontramos Aculeus, a 25º 02´, e Acumen, a 28º 03´, oriundas de Escorpião, que formam  a chamada Nebula, que astrologicamente nos fala de desorientação, de indeterminação e principalmente de problemas de visão, cegueira, metaforicamente ou não. Segundo Ptolomeu, Aculeus tem relação com o ferrão de Escorpião e atua com características marcianas e lunares. 




domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião.