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quarta-feira, 14 de março de 2018

SAGITÁRIO (5)


( 1896, ALPHONSE  MUCHA )
Na história de Israel, o  signo de Sagitário marca particularmente o período no qual as forças israelenses conseguiram vencer os exércitos greco-sírios. Para os astrólogos judeus, a Grécia sempre simbolizou o poder negativo do arco sagitariano, isto é, a expressão de uma filosofia materialista e invasora. Os gregos, sabe-se, tentaram destruir a tradição religiosa de Israel, impedindo que os seus textos sagrados circulassem. Esta ação, contudo, teve um lado positivo: provocou um grande desenvolvimento da transmissão oral da Torá. Nesses tempos de perseguição religiosa, destacou-se, na cultura judaica, a figura do tsadik, o homem justo, probo e bom. Esse homem tem em José o seu modelo. Filho de Jacó e de Raquel, José é o modelo do tsadik bíblico.


SEPHIROT

Pela sua conduta e exemplo, como fundamental para o mundo judaico, José sempre foi visto como uma espécie de parceiro de Deus e seu poder era tamanho que até podia anular decretos divinos. Não é por outra razão que na Cabala o tsadik representa a penúltima das sefirots. As sefirots são estruturas divinas através das quais o mundo surgiu pelo processo da emanação, formando os diferentes níveis da realidade. 



JOSÉ  INTERPRETANDO  OS  SONHOS  DO  FARAÓ
( PETER  VON  CORNELIUS , 1783 - 1867 )

O tsadik é o homem santo que governa o mundo do conhecimento, representado astrologicamente por Kislev, o nono mês lunar do calendário hebraico, a contar de Nissan. É o mês do êxodo e o terceiro a partir da festa do ano novo. Começa em fins de novembro ou início de dezembro.  No céu, é Júpiter (Zedek), palavra que
YOD,  HEH,  VAV,  HEH
significa o que é certo e correto. No simbolismo místico da Cabala, o arco vem com três flechas, que significam Graça, Julgamento e Harmonia ou Vitória, Glória e Fundação ou Sabedoria, Compreensão e Conhecimento. Estes atributos são, por sua vez, simbolizados  pelas três primeiras letras do Divino Nome, Yod, Heh e Vav (Y H V H ou Yahweh). Este tetragrama é o nome sob o qual o Eterno se revelou no antigo testamento (Eu sou aquele que é). A tradição rabínica proibiu que estas quatro letras fossem pronunciadas porque a sua pronúncia original se perdeu, provavelmente depois que Moisés as ouviu no Sinai. Na leitura oral, estas letras YHVH são substituídas por Adonai (Meu Senhor) ou por Ha Shem (O Nome).

Kislev, entre os judeus, é o nome do mês de Sagitário, palavra que denota confiança e força interior. A palavra contém também uma ideia de esperança que pode ser alimentada em função de uma atitude previsora. Esta esperança tem relação com o futuro. Os temas que derivam de Kislev vêm da cerimônia da Chanuká
JUDAS   MATATIAS
(dedicação, inauguração em hebraico), festa das luzes pós-bíblica, que dura oito dias e começa a 25 do mês. Esta cerimônia comemora a vitória dos macabeus em 165 aC. sobre os selêucidas da Palestina, que haviam profanado o templo e imposto sua religião helenística aos judeus. Macabeu é o sobrenome de Judas Matatias (200-160 aC), chefe de uma grande família sacerdotal, que comandou a revolta contra os referidos selêucidas. A vitória dos macabeus permitiu que os ensinamentos da Torá fossem preservados e mantidos, enquanto, afirmam os sacerdotes judeus, os de outras culturas, baseados em falsas ideias, já há muito haviam desaparecido. As luzes da Chanuká são consideradas como uma manifestação da luz oculta do Messias. 


SPINOSA
As influências celestes positivas de Kislev ajudam uma pessoa a obter elevação espiritual, a se interessar por questões religiosas, por filosofia, sendo citado o filósofo Baruch Spinosa (1.632-1.677, Holanda) como um exemplo. Os judeus ortodoxos usam o exemplo de Spinosa para falar dos desvios doutrinários negativos de alguém do signo, fato que motivou sua expulsão da sinagoga. Segundo a tradição religiosa judaica, Sagitário, o signo do arco, simboliza o poder da prece que emana das profundezas do coração e que alcança os céus. Expulso da sinagoga, Spinosa encontrou nos meios católicos os mestres que o iniciaram no saber científico (física, geometria e filosofia). Consagrou a sua vida à meditação, ganhando o seu sustento a polir lentes de microscópios. A obra principal de Spinosa chama-se A Ética, uma doutrina da salvação pelo conhecimento de Deus.


As letras do alfabeto hebraico que fazem a ligação com o lado espiritual de Sagitário são Samech e Guimel, esta relacionada como planeta Júpiter. Juntas, elas traduzem uma ideia de segurança, bem-estar e esperança.  Estas ideias estão presentes num
dos símbolos do signo, o arco-íris, fenômeno celeste que, segundo a
Bíblia, apareceu para sinalizar o fim do dilúvio de Noé e indicar novos caminhos para a vida na terra. Segundo o Zohar, o arco-íris é um campo de energia que surge sempre depois de catástrofes, de cataclismas. Lembre-se que o arco-íris em todas as tradições é uma via de comunicação entre o céu e a terra.


ARCO - ÍRIS  ( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

Na medida em que Sagitário, diz-nos a tradição judaica, nos remete a uma ideia de transcendência interior pela qual o instinto e o ego poderão ser ultrapassados em direção do espiritual, do coletivo, da humanidade, pode esse signo ser considerado como a primeira pedra do edifício a ser construído no signo seguinte, de Capricórnio. Pedras, com sabemos, são elementos da coagulatio alquímica, e, como tal, funcionam simbolicamente como elementos de sedentarização, da cristalização de formas. Pedras têm uma função importante ao exprimir realização, construção, perseverança. Assim, a primeira pedra, a pedra fundamental, do edifício que vamos construir no signo seguinte, Capricórnio, signo de ascensão, é fixada em Sagitário. Dizem-nos mais os judeus que assim como as flechas do arco-íris atravessam as várias camadas do ar, assim as flechas de luz disparadas pelo arco sagitariano atravessaram a mundanidade material, rompendo o escudo do mundo sírio-helenístico. 

A   TRIBO   DE   BENJAMIN  ( MARC  CHAGALL )

O mês de Kislev tem relação com a tribo de Benjamin, o filho da mão direita, filho mais jovem de Jacó, nascido de Raquel, sua esposa preferida, que morreu após o parto. Esta criança se tornou no filho mais amado de Jacó e seus irmãos o cercaram de ternura. Sofrendo as dores do parto, Raquel o havia chamado de  Ben-Oni, isto é, o filho de minha Infelicidade, mas o pai mudou o nome, chamando-o de Benjamin, Criança da Felicidade. A tribo de Benjamin foi chamada por Moisés de a bem amada do Senhor. No Gênese, registra-se (49:27) que Jacó será como um lobo arrebatador; pela manhã devorará a presa e à tarde repartirá os despojos, devido às suas aptidões guerreiras. 



ENCONTRO  DE  RAQUEL  COM  JACÓ ( RAFAEL DE SANZIO , 1483 - 1520 )


DAVID   E   BETSABÁ
( MARC  CHAGALL )
Um dos atributos naturais do mês Kislev, segundo alguns intérpretes, é o sono enquanto ele possibilita o acesso a sonhos e às visões que alguém pode obter, como foi o caso do rei Salomão. Terceiro rei de Israel, filho de David e de Betsabá, Salomão recebeu de Deus a sabedoria e tinha o dom da profecia, recebidos num sonho. Salomão personifica o arquétipo da sabedoria e todos os seus atributos mais importantes pertencem a esse simbolismo.

José, o maior dos oniromantes, foi outro personagem a receber o poder de interpretar os sonhos. Na tradição judaica, sonho é chalom, cujo valor numérico é 78, três vezes o valor do nome divino (Yod Heh Vav Heh), cujo valor é 26. As três vezes do nome divino referem-se aos três atributos, Nezach, Hod e Yesod, Vitória, Glória e Fundação, respectivamente, as três flechas do arco de Sagitário. A energia do arco, como expressa nos sonhos de José, associa-se ao sono, atributo de Kislev, a própria natureza do signo. Segundo a astrologia judaica, Sagitário é signo que indica naturalmente habilidade psíquica de modo a permitir a visão de acontecimentos futuros, como a temos, de modo superlativo, em José.    

JOSÉ  ( MARC  CHAGALL )
José foi vendido aos ismaelitas, que simbolizam o arco impuro (o lado negativo de Sagitário), e levado para o Egito. A Grécia, lembremos, era também representada por esse lado impuro do arco para os judeus. O nome genérico dos ismaelitas é arav, que simboliza também Yesod (Vitória), mas aqui relacionada esta última palavra com Eruv, multidão, multiplicidade (a vitória do número, da quantidade, sobre a qualidade). Por estas relações, os astrólogos judeus nos falam da diferença entre o sagrado e o profano em Sagitário. É neste sentido que a multiplicidade de cores do arco-íris tem implicações negativas ao simbolizar o reino dos desejos (hakeshet, o arco, tem as mesmas letras que hatshuka, o desejo, o anseio). O reino do desejo tem o poder elevar o homem ao divino ou rebaixá-lo à materialidade mais vil. É por essa razão que as terras dos ismaelitas são governadas pelo signo de Escorpião (akrab), o mês do dilúvio, cujo término foi indicado a Noé por um arco-íris.


O  ANJO,  ABRAÃO  E  SARA (JAN  PROVOOST ,1465 - 1529)

A ímpia manifestação de Keshet (arco), o poder da luxúria e do que é impuro é para os judeus simbolizado por Ismael (Deus entende, ouve). Ismael é o ancestral dos ismaelitas, os árabes, filho de Abraão e de Agar. Segundo o Gênese, Abraão tinha 86 anos e Sara, sua mulher, era muito velha para gerar filhos. Sara deu sua escrava Agar ao marido para que ela concebesse no seu lugar, Agar pôs no mundo então Ismael, mas Sara, milagrosamente, depois pariu também, gerando Isaac. Ela exigiu então que Abraão expulsasse
EXPULSÃO   DE   AGAR   E   ISMAEL
( PIETER  LASTMAN , 1583 - 1633 )
Agar e Ismael, enxotando-os para o deserto onde ficaram a perambular até que um anjo os guiou na direção de um poço. Nesse lugar, o Senhor lhes anunciou que Ismael seria um verdadeiro asno selvagem, sua mão contra todos, a mão de todos contra ele; e ele poria as suas tendas defronte de todos os seus irmãos. Deus prometeu ainda que de Ismael nasceria uma grande nação cujos membros seriam os filhos do vento, isto é, o povo do deserto, nômade e livre. É por isso que os beduínos se consideram como os únicos descendentes de Ismael, que morreu com 137 anos. Ele deixou doze filhos, chefes de tribos, conforme está no Gênese. 

A relação entre Kislev e Adar é explicada porque ambos são governados pelo mesmo corpo celeste, Zedek ou Tsedek, Júpiter, atuando ele nos festivais da Chanuká e do Purim, ambos associados à figura de José, o patriarca, o justo. Lembram os astrólogos judaicos que em aramaico, língua da antiga Babilônia, o significado da palavra Adar é mastro de barco a vela (Ruach, significando tanto vento como espírito). Isto representa o poder das influências deste mês, durante o qual é possível oferecer resistência a qualquer espírito que interfira na expressão da Torá. Em aramaico, a palavra Adar lembra também o significado de milagre oculto, como está na festa do Purim, cuja mensagem principal é que as coisas não são o que parecem e que Deus, e não o destino, determina o que sucederá.  

Para os judeus, lembre-se, o signo do arco influencia profundamente os períodos seguintes, Tevet (Capricórnio), Shevat (Aquário) e Adar (Peixes), cada um deles tendo atributos essenciais
ESTHER  ( MARC  CHAGALL )
(letras) que preexistem em Keshet (Sagitário).  A substância espiritual de que Capricórnio (Tevet) necessita para suportar os poderes do mal, nele particularmente ativos, é retirada de Keshet. A água, em Aquário, signo de ar, simboliza a tradição oral que veio dos cinco livros (Deuteronômio) onde estavam registradas as palavras de Moisés. Lembram os judeus que o início de sua grande tradição oral começou quando da vitória da festa das luzes (Chanuká). O mês de Adar, cujo signo é Peixes, signo de água, traz a ideia da aceitação voluntária da pureza da tradição oral por parte do povo judeu, segundo o milagre de Esther. 

Segundo a astrologia judaica, as pessoas nascidas em Kislev têm muita confiança em si mesmas, são otimistas e sempre se voltam para o distante. A esperança de algo futuro desperta nelas a força interior para que os obstáculos encontrados sejam removidos, possibilitando-as atingir os objetivos estabelecidos. Estas virtudes encontraram sua maior expressão durante o período em que a dinastia dos hasmoneus (nome dinástico dos macabeus) governou o país até perto do início da era cristã. 

Nessa linha de pensamento, os sagitarianos têm sempre possibilidade de demonstrar um grande prazer pela vida, muito entusiasmo por ela, desde que tudo isto seja inspirado pelos valores espirituais da Torá. Do contrário, a expressão é negativa, há riscos devido ao gosto pela aventura e pelas extravagâncias. É também dado ao sagitariano superior o poder de unificar as massas, representando-o, por isso, mais do que ninguém, o patriarca José, filho de Jacó, que unificou o Egito e os seus irmãos. Etimologicamente, José tem relação com a palavra Asif, que significa reunir, trazer junto. Yasop significa juntar. O nome Joseph, muito rico quando pensamos em jogo de letras e significados, permite lembrar que Raquel deu à luz o filho Joseph depois de um longo período de esterilidade. Esta habilidade que Sagitário tem de unir é indicada também pela aproximação das palavras keshet (arco) e lekasher, (reunir, juntar. A palavra keshet significa também arco-íris, cujas cores indicam harmonia. Segundo a Cabala, as três principais cores do arco-íris, o branco, o amarelo e verde amarelado, simbolizam, respectivamente, Vitória, Glória e Fundação.


ARCO - ÍRIS  ( ROBERT  DELAUNAY , 1885 - 1941 )

Segundo, aliás, uma tradição universal, o arco-íris, por sua forma que lembra uma ponte, sugere a comunicação entre dois mundos. Uma das passagens citadas para confirmar este entendimento é a que se encontra no Gênese, no capítulo IX, em que se declara que o arco-íris é a materialização da aliança entre Deus e os homens, inclusive os das gerações futuras. De um modo geral, é esse fenômeno um sinal do pacto estabelecido com os descendentes de Noé, pacto segundo o qual Deus nunca mais destruiria o mundo dessa maneira. O aparecimento de um arco-íris pode servir todavia de um alerta, pois sua ocorrência poderá ser interpretada como um indício de perda, por parte da humanidade, de valores superiores, honra, justiça, retidão... E isto porque é a vida meritória da humanidade que deve afastar a ameaça de catástrofes. Perdendo-se as referidas qualidades superiores, afastando-se a humanidade da vida meritória, ficam o mundo e tudo o que nele vive desprotegidos, rompendo-se o pacto com o divino. Lembremos que este simbolismo, o do arco-íris, costuma aparecer associado às imagens dos cavaleiros que anunciam o Apocalipse, quando o fogo e a água, conforme as profecias, reinarão juntos num único dia.    

SAINT  MIGUEL  ARCANJO 
O mundo judaico-cristão nos oferece, dentre outras, duas figuras que estão integradas ao ideário sagitariano.  Miguel é uma delas, o arcanjo da mais alta hierarquia. Príncipe da Água e Anjo da Prata, Miguel, no período bíblico, anunciou a Sara que ela daria à luz a Isaac. Ordenou depois, na akedá, que Abraão, não sacrificasse o filho. Lutou contra Jacó e alimentou os israelitas nas suas perambulações pelo deserto. Miguel atua com advogado do povo de Israel e apresenta as preces dos homens diante de Deus. Sua posição o coloca à direita do trono da glória e à direita do homem no plano terrestre. Está associado a Gabriel, Rafael e a Uriel, mas é superior a todos eles porque voa para cumprir as suas missões com um movimento só. Seu principal inimigo é Samael, o anjo caído que lidera as forças do Mal (Sitra Achra) e que faz constantes acusações contra Israel no céu. Miguel acompanha os devotos ao céu após a morte. Na idade do Messias ele fará soar o shofar na ressurreição dos mortos. Foi citado pelo profeta Daniel como um dos protetores de Israel. Os judeus trouxeram do Egito a ideia da psicostasia que, unida à figura de Miguel, deu motivos para que ele fosse representado com uma balança nas mãos. Miguel ficou com o atributo de defensor de Deus, atuando contra os demônios e os vícios. 

No mundo cristão, Miguel é príncipe da milícia celestial, o que combate Satanás desde sempre. Miguel é, por isso, considerado como o patrono dos cavaleiros no ocidente cristão Os pintores do Renascimento o usaram como motivo, sempre apresentado como um homem jovem e vigoroso, com uma espada fulgurante ou uma lança de prata. Como soldado e guerreiro, Miguel é muito popular no Brasil, sendo protetor dos valentes, patrono dos capoeiristas, sendo identificado, pelo sincretismo, como Xangô nas macumbas do Rio de Janeiro, como Oxóssi (orixá das matas, da caça e dos caçadores) na Bahia e como Odé (outro nome de Oxóssi) em Recife.


SÃO JORGE
(GUSTAVE MOREAU ,1826-1898)
No cristianismo, São Jorge costuma aparecer associado a Sagitário. Quase nada se sabe dele. A sua história foi difundida no ocidente pelo compêndio Legenda Áurea, dos fins da Idade Média. Seria ele um mártir cristão cujo culto existia na Lydia (Palestina) desde o séc. V. Ele se tornou conhecido por uma lenda: para salvar uma virgem, teria enfrentado e morto um dragão. O culto de São Jorge se espalhou a partir do séc. VI pela Europa, trazido pelos cruzados. Tornou-se patrono de Gênova, Veneza, Barcelona e da  Inglaterra. Sua festa é celebrada no dia 23 de abril, data em que segundo consta foi martirizado. É muito venerado também na Rússia e em Portugal. Tornou-se uma espécie de Perseu, matador de dragões. Os gregos o chamavam de mégalo mártir. De Portugal, que o recebeu da Inglaterra, seu culto chegou ao Brasil. D.João I, fundador da dinastia de Aviz, tornou-se seu devoto e o fez patrono nacional em substituição a Santiago, que o era dos castelhanos. Na tradição popular, São Jorge é invocado como defensor das almas contra o demônio, as tentações, a suspeita de feitiço, sendo o grande rival de São Miguel. Nos candomblés da Bahia, é identificado com Oxóssi e Odé e nas macumbas do Rio de Janeiro e de Recife com Ogum (orixá do ferro e da guerra). 


SÃO  PEDRO, O  PENITENTE (EL GRECO, 1541-1614)

Astrólogos cristãos costumam aproximar a figura de Pedro, chamado o príncipe dos apóstolos, do signo de Sagitário. Seu nome de origem era Simão, mas Jesus deu-lhe o nome aramaico de Kephas, conforme está em S. João, nome que tem o significado de pedra, cujo equivalente grego tornou-se Pedro, em latim Petrus, nome pelo qual o conhecemos. O nome se explica pelo episódio em que Pedro, quando Simão, declarou: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo. E Jesus lhe disse: Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja. Depois, como se sabe, conferiu-lhe Jesus as chaves do reino dos céus e o poder de ligar e desligar, poder mais tarde estendido a outros apóstolos. 

ESTANDARTES   MEDIEVAIS
Essa ação criou certos rituais como a bênção dos estandartes, a inclusão de preces litúrgicas, a cerimônia da concessão de armas, a adoção de insígnias e brasões, o crescente interesse pelos santos-guerreiros, São Miguel e São Jorge principalmente. 

Os ideais da cavalaria geraram também condições especialmente favoráveis ao desenvolvimento de uma literatura (eixo astrológico III-IX) que se espalhou por toda Europa. Esta literatura se caracterizou sobretudo por ser destinada à recitação pública coletiva, muito mais que à leitura individual. O veículo preferido da expressão literária medieval foi a poesia, muito mais que a prosa, criando-se uma vasta gama de gêneros poéticos. Não podemos esquecer, contudo, que dentro desse mundo a prosa também tinha lugar, ganhando espaço aos poucos o chamado romance narrativo, precursor da novelística moderna.


CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO

A constelação de Sagitário estende-se de 28º Sagitário a 1º Aquário. As estrelas que estão na ponta da flecha têm influências marcianas e lunares; as do arco e à altura da mão que o empalma, jupiterianas e marcianas; as da cintura e das costas, jupiterianas e mercurianas; as dos pés, jupiterianas e saturninas. 

As principais estrelas da constelação, por ordem de importância, são: Rukbat, a mais brilhante, à altura do joelho, Arkab (perna-tornozelo), Al Nasl ou Nushaba (ponta da flecha), Kaus Meridionalis (meio da flecha), Kaus Australis (ao sul do arco), Ascella (axila), Kaus Borealis (ao norte do arco) e a nebulosa Facies (face do arqueiro). Todas, a rigor, têm pouca importância sob o ponto de vista astrológico. Apenas Rukbat e  Facies podem ser consideradas. A primeira, alfa, de 4ª magnitude, é chamada pelos árabes de Al Rami, encontra-se hoje em Capricórnio, a 15º 56', propondo influências jupiterianas e saturninas que falam de estabilidade, regularidade, consistência, tanto sob o ponto de vista físico como mental, dependendo, é claro, do planeta com o qual se relaciona. A nebulosa Facies, a 7º 36´Capricórnio, é quase invisível
SIR   LAURENCE   OLIVIER

do ponto de vista terrestre. A tradição astrológica associa esta nebulosa (como todas) a problemas de visão. Ao que parece, a sua principal influência se caracteriza por uma certa insensibilidade (semelhante ao chamado complexo de Zeus) com relação aos assuntos da casa (ângulos) e àquilo que os planetas com os quais mantém contacto significam. Para estudo, quanto à primeira, lembro o mapa de Laurence Olivier. Quanto à outra, o mapa de Adolf Hitler. 

Lembro, ainda, que atualmente, no final de Sagitário encontramos Aculeus, a 25º 02´, e Acumen, a 28º 03´, oriundas de Escorpião, que formam  a chamada Nebula, que astrologicamente nos fala de desorientação, de indeterminação e principalmente de problemas de visão, cegueira, metaforicamente ou não. Segundo Ptolomeu, Aculeus tem relação com o ferrão de Escorpião e atua com características marcianas e lunares. 




sábado, 14 de janeiro de 2017

ORION, PISCIS AUSTRALIS





ORION – Desde a mais remota antiguidade, os povos do oriente e da bacia do Mediterrâneo sempre atribuíram muita importância às estrelas que apareciam ou que se punham com o Sol. Elas davam o
HÉLIO
nome de helíaco (de Hélio, deus solar entre os gregos) ao nascimento ou ao poente de um astro quando esse acontecimento sucedia ao mesmo tempo que o nascimento ou o poente do Sol. Se esse acontecimento se verificasse quando do nascimento do Sol, o astro que o acompanhava era considerado como uma espécie de arauto do astro-rei, um emissário dele.

CHEIA   DO   NILO
Os astros que tinham seu nascimento heliacal antes do nascer do Sol foram usados em várias civilizações para marcar pontos equinociais ou solsticiais, relacionados com os ciclos da vida vegetal e com a agricultura. Bem antes do sexto milênio aC, no antigo Egito, o equinócio da primavera dava início aos trabalhos agrícolas, período do ano que coincidia com as cheias do Nilo e com aparecimento de Orion, a constelação mais brilhante dos céus. 


HERÓDOTO
Segundo Heródoto, o Egito era uma dádiva do Nilo. Realmente, no Egito tudo dependia do rio, condicionando ele a economia do país, determinando a sua estrutura política, definindo seu calendário e criando valores. Somente quando os egípcios aprenderam a controlar as cheias anuais do rio, muito antes de 5.000 aC, é que  Egito começou a tomar forma como nação. As estações do ano eram três: Inundação (junho a setembro, período da cheia), Emersão dos Campos (outubro a fevereiro, período em que o solo ficava úmido) e Estiagem (fevereiro a junho, período da seca). Dessas definições, surgiu o primeiro calendário prático do país, do qual se originaram todos os demais calendários dos países ocidentais. A esse calendário estava ligada a organização social, pois o rio e o seu comportamento determinavam a distribuição do trabalho.

NILO
Os egípcios associavam nesse tempo as cheias do Nilo à constelação de Orion (há dados astronômicos que parecem confirmar que o último aparecimento de Orion como constelação equinocial se deu por volta de 6.700 aC. A precessão dos equinócios fez contudo com que aos poucos a constelação de Orion mergulhasse no fundo céu, descendo cada vez mais. Assim, sua visibilidade diminui bastante. Somente uma pequena parte sua , muito pequena, aliás, aflorava, mostrando-se acima do horizonte oriental, antes do aparecimento do Sol, perdido todo o seu antigo esplendor. 

OSÍRIS

O mito de Osíris se fechava então provisoriamente, firmando-se para os egípcios a crença de que  sua grande divindade, mergulhando nas águas oceânicas, iria empreender uma longa viagem em direção do mundo subterrâneo. A “morte” de Osíris ocorreu provavelmente no sexto milênio aC, período em que a posição equinocial da constelação de Orion foi alterada. O desaparecimento de Osíris, como o mito nos conta, fez com que seu “trono” fosse transferido para Hórus, seu filho. 




A antiga posição de Orion foi então “herdada” por Taurus, que assumiu o papel de arauto do amanhecer solar. “Morto” Osíris, Taurus herdou o trono solar, passando assim esta constelação a ser "ocupada", desde então, por Hórus, a divindade da nova ordem, pois o pai se retirara,  indo “viver” no mundo subterrâneo, como deus dos mortos. É interessante lembrar que os cristão tentariam mais tarde se aproveitar deste acontecimento ao "cristianizar" o mito Osíris-Hórus, "lendo-o" como uma prefiguração da vinda de Cristo. Os antigos egípcios, contudo, ao se referirem a Orion-Osíris deixaram nas pedras das suas pirâmides uma outra leitura, a de que os deuses também fazem parte da alternância da própria existência: Para acordar é preciso morrer; para viver é preciso morrer.

Horus foi uma divindade representada sob a forma de um falcão ou
HÓRUS
antropomorfizada com a cabeça da ave, representando os seus olhos os dois luminares, o Sol e a Lua. Em períodos muito remotos, chegou Hórus a ser visto como o próprio Sol, como na cidade de Edfu, no alto Egito, a ele consagrada. Logo Hórus se tornou uma divindade real, com a qual o próprio faraó (etimologicamente, casa grande, no antigo egípcio) passou a se identificar. Hórus foi introduzido no ciclo osiriano, cujo culto se havia estendido a todo o país, por volta de 2.400 aC, na quinta dinastia. O faraó defunto passou a ser considerado como imagem de Osíris (o Sol na sua viagem noturna), enquanto Hórus assumia a imagem do faraó vivo. Filho de Osíris e de Isis, Hórus, como infante, era chamado pelos gregos de Harpócrates.


O falcão, segundo os egípcios, voava tão alto que podia se aproximar do Sol. Daí, uns dos apelidos do deus, o Longínquo. É de se lembrar que o falcão também emprestava sua forma a uma outra divindade, Montu, deus guerreiro. Mais ainda: Ísis e Nephtys, quando reanimaram o cadáver de Osíris, e o protegeram com as suas asas, desempenharam essa função sob a forma falconídea.

HARSIESIS
Os gregos e os romanos adotaram a imagem de Harpócrates, transformando Horus, mais tarde no deus do silêncio, honrado sobretudo pelos filósofos místicos greco-alexandrinos. Horus era também chamado de Harsiesis (o filho de Ísis, o vingador do pai). Nos textos das pirâmides, Hórus figura como Re ou Ra,  uma representação solar, em oposição a Seth, a própria imagem da escuridão,  configurando tudo isto a eterna luta entre a luz e as trevas.  Na sua caminhada diurna, de um horizonte a outro,do nascente ao poente, Hórus era chamado pelos gregos de Harakhtes (Hórus horizontino).

Harpócrates era representado como uma criança nua ou, às vezes,
HARPÓCRATES
com algumas poucas joias; na cabeça raspada, apenas uma pequena trança que lhe caía sobre a fronte. Em algumas imagens, Ísis lhe oferecia o seio; noutras, ele aparecia sugando seu próprio polegar, gesto falsamente interpretado pelos gregos, que nele viram um convite à discrição, o que valeu ao deus infante um culto como deus do silêncio pelos greco-egípcios. Adulto, Hórus (identificado também pelos gregos como Apolo) travou incessante luta contra Seth, irmão gêmeo de Osíris, seu tio, portanto, símbolo do mal, das forças opostas à vida. Desde então, a trindade Osíris, Ísis e Hórus formou a base de um sistema patrilinear que tem por finalidade a legitimação da monarquia egípcia e que se articula com o mito da ressurreição do primeiro.

Já Osíris (aquele que está no trono, na língua egípcia) apareceu geralmente antropomorfizado como uma múmia, os braços cruzados sobre o peito, tendo numa das mãos o cetro e na outra um
OSÍRIS
chicote. No rosto, a barba trançada, à maneira dos faraós e dos deuses. Na cabeça, a coroa atef, do alto Egito, uma mitra branca com duas penas de avestruz. Inicialmente adorada como uma divindade das forças vegetais, sua personalidade foi se enriquecendo enquanto seu culto se espalhava. Osíris e Ísis eram tanto, o primeiro, a imagem do Sol fecundando o grão que iria renascer como, a segunda, a cheia do rio Nilo que anualmente transbordava, preparando as terras para as futuras colheitas, trazendo a vida de volta, expulsando o deserto, simbolizado por Seth. Neste sentido, torna-se Osíris  tanto o deus dos mortos como dos renascimentos, do eterno retorno. Como o Sol era o deus que sempre reaparecia a cada manhã depois de ter atravessado as trevas noturnas. Torna-se, por isso, o deus dos mortos, aquele que garantia a sobrevivência humana a partir do mundo subterrâneo e, como tal, prometendo um renascimento espiritual depois da morte.




Invejoso de seu irmão, o “perpetuamente bom”, Seth, “ o perpetuamente mau”, o matou, despedaçando seu corpo, encerrando-o assim num cofre, jogado no rio. Ísis, Hórus e o deus Toth acabarão, depois de muitas peripécias, por encontrar o cofre e trarão Osíris de volta à vida. Ressuscitado pelas artes de Anúbis, deus do inferno,  e de Ísis, Osíris vai reinar desde então entre os mortos, tornando-se o deus da psicostasia e da ressurreição. Aos poucos, seu culto se universalizou no Egito, expandindo-se para fora do país, alcançando a Grécia e o império romano. 


OSÍRIS   RESSUSCITADO


SETH   E   APÓFIS
Seth, no mito osiriano, o eterno adversário do irmão, personifica o deserto, a seca, o vento siroco as trevas, por oposição à terra fértil, a água fecunda, a luz. Tudo o que é benéfico na criação vem de Osíris, tudo que é perversidade e destruição vem de Seth. Os asnos, os antílopes e outros animais do deserto eram sethianos, inclusive o hipopótamo, o varrasco, o crocodilo e o escorpião, no corpo dos quais o deus do mal e seus asseclas procuravam refúgio para escapar dos golpes de Hórus vingador. Foi como um porco negro que Seth, segundo o mito, feriu um dos olhos de Hórus e que a cada mês ele atacava e devorava a Lua, lugar onde se refugiava também a alma de Osíris. Seth era representado normalmente sob os traços de um animal fantástico, focinho fino e recurvado, orelhas retas, cauda fendida.  

Ao projetar nos céus as suas concepções religiosas, os egípcios forneceram modelos dos princípios masculino e feminino que vamos encontrar em várias tradições religiosas posteriormente. Deixando de lado a questão da prioridade (foram os egípcios os primeiros a formulá-los?), o que se constata é que eles construíram,
CRIAÇÃO   DE   EVA
provavelmente entre 10.000 e 8.000 aC, através de Orion, o arquétipo de uma divindade masculina que morria. Deixaram claro que o princípio masculino, como emissor do poder vital,  estava sujeito à morte. O princípio feminino, ao contrário, estava além da morte, representado por Ísis, era portador da vida. Um fecundava, o outro gerava. As religiões patriarcais tentaram subverter esta ordem. No Antigo Testamento, por exemplo, faz-se o princípio feminino proceder do masculino (Adão dando origem a Eva), com a finalidade de não só identificar o masculino com o espiritual mas fazer com que o feminino dele dependesse. 



ZOHAR
Ora, em todas as antigas tradições anteriores ao aparecimento das religiões patriarcais, sempre ficou claro, de modo mais ou menos explícito, que o princípio gerador, feminino, é anterior ao espiritual. Neste sentido, por exemplo, é que o Zohar, a principal obra da Cabala, nos apresenta a imagem da vela, constituída por um elemento feminino e por um elemento masculino, o primeiro dando origem ao segundo, a chama. Aliás, a mesma ideia vamos encontrar na mitologia grega (Hesíodo) que, na sua cosmogonia, nos fala que Geia, o princípio feminino, primeira entidade a sair do Caos, é que deu origem a Urano, o céu, princípio
HESÍODO   E   A   MUSA
( GUSTAVE  MOREAU )
fecundador, masculino-espiritual. Esta mesma verdade está na estrutura do nosso psiquismo, no diálogo subconsciente (inconsciente)-consciente (este procedendo daquele), e por extensão no nosso processo de individuação. É neste sentido também que cosmogonias e processos de individuação são equivalentes. Ambos se opõem ao caos, à indeterminação, ambos nos falam de uma ideia de determinação, de  ordem (cosmos vem de um verbo grego que significa princípio de ordem, organizar). Tomar consciência é separar-se, o princípio consciente (masculino) surgindo do subconsciente (feminino). Conforme o caso, este princípio consciente, masculino, poderá se espiritualizar ou não.


Desde tempos pré-históricos tudo isto já estava claro para os nossos antepassados. Não foi por outra razão que, desde esses tempos, tal estendimento foi levado para os céus.  Refiro-me à leitura que todas
as tradições fizeram das Ursas Maior e Menor, constelações circumpolares que nunca se põem. As deusas podem “empalidecer”, ser maltratadas, espezinhadas, rebaixadas (o tratamento que o patriarcado deu às Grandes-Mães), mas são imortais. Já os deuses que “vivem” na região equatorial (caso de Orion, 24º N-13ºS) ou na eclíptica ficam sujeitos ao vir-a-ser, “morrem”. Nenhuma constelação do céu é tão importante para a história da humanidade quanto a da Ursa Maior como matriz universal.



Além do que já se falou das Ursas, a Maior e a Menor, acrescente-se, principalmente com relação à primeira (muito mais importante que a outra), que ela, dentre todas as constelações, foi a que forneceu à humanidade o maior número de mitos, lendas e crenças. Todos os povos da Terra, em todos os continentes, desde sempre, a conheceram e honraram, o mesmo acontecendo com cada uma das suas sete estrelas.  Os hindus, por exemplo, a vêem como o centro onde se conserva a tradição primordial. Nela está o começo, o ponto de partida, o lugar da suprema substância, o princípio maior indemonstrável, o omphalos universal, o mundo das archai. É da Ursa Maior, desde tempos pré-históricos, que nos vem a ideia de centro, de polo, definindo ela o polo norte celeste, o centro universal em torno do qual tudo gira e se organiza, o centro da suástica, o al  Qutb (polo) da tradição muçulmana, centro e pico da hierarquia espiritual. A estrela Poláris (Ursa Menor) é uma espécie de motor imóvel e centro do universo, em relação ao qual se definem as posições de todas as demais estrelas e daqueles que se lançam nos caminhos da vida já que as agulhas magnéticas de todas as bússolas para ela apontam sempre.  

ORION   E   ÁRTEMIS  ( NICOLAS  POUSSIN )

Quatro mil anos depois dos egípcios, os gregos “leram” a constelação de Orion de outro modo, montando um mito diferente, mas que, no fundo, tem muito a ver com aquilo que os egípcios haviam fixado. Orion, para os gregos, era um gigante da Beócia, famoso por sua beleza, proporcional à sua vaidade, que se entregava aos prazeres da caça e a todos os tipos de excesso, sobretudo sexuais. Era filho de Geia, segundo uns (versão a), de Poseidon e de Euríale (versão b),  e para outros (versão c) de Hirieu, rei da Hiria. O nome Orion em grego vem do verbo orinein, que significa tanto tanger, conduzir, como caçar. O nome se justificava porque Orion, nos céus, parece empurrar as estrelas que tem diante si, estrelas designadas com nomes de animais. Na versão em que tem Poseidon, deus dos oceanos e mares, como pai, há registros de que dele recebeu o dom de andar sobre as ondas.   

Da versão c, consta que um dia, em visita à Terra, Zeus, Hermes e Poseidon foram recebidos hospitaleiramente por Hirieu, que desejava um filho. Em agradecimento à acolhida, os deuses resolveram satisfazer-lhe o desejo. Os deuses enterraram no solo a pele de um bezerro sacrificado e sobre ela urinaram. Nove meses depois, nascia Orion. Esta versão procura estabelecer certamente uma relação homofônica do nome Orion com a palavra grega para urina, oyron. 


NINFAS  ( WILLIAM - ADOLPHE  BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )
Gigantesco, Orion podia caminhar nos mares sem que a sua cabeça ficasse submersa. Dotado de uma força prodigiosa, suas paixões eram a caça, à qual se entregava em companhia de seu cão Sírius, e a perseguição de mulheres, ninfas etc.  Tomou por esposa Side (casca de romã), linda e orgulhosa, que ousou competir em beleza com a deusa Hera. Castigada, foi lançada para todo o sempre, pela Senhora do Olimpo, no tenebroso Tártaro. 

Chamado Chios por seu rei, Enópion, dele recebeu Orion a incumbência de livrar a ilha de vários animais ferozes que a devastavam. Apaixonou-se Orion por Mérope, princesa real. O pai se opôs. Orion começou então a persegui-la. Enópion pediu o auxílio do deus Dioniso, que, atendendo-o, mergulhou o gigante em profundo sono. Cravando duas estacas nos olhos de Orion, Enópion o cegou. Apesar de desorientado, nosso herói soube por um oráculo que poderia recuperar a visão se caminhasse na direção do Sol. Foi então à ilha vulcânica de Lemnos. É recebido pelo deus Hefesto, que lhe deu por guia seu filho Cedalion, grande ferreiro, que o conduziu na direção do oriente. Mal iniciada a caminhada, Orion milagrosamente logo recuperou a visão.



Dirigindo-se à ilha de Creta, Orion entregou-se novamente às suas paixões. Lá, foi notado por Eos, a deusa da aurora, que, impressionada pela sua beleza, o raptou, levando-o para a ilha de Delos. Mas como os seus amores são efêmeros, Eos o encaminhou a Ártemis, para que a deusa lunar o instruísse corretamente na arte venatória e que, com ela, uma deusa virgem, ele aprendesse a controlar a sua hybris com relação às mulheres. Acolhido pela deusa, logo, porém, tentou violentá-la. Para puni-lo, a deusa retirou do interior da terra um ser até então desconhecido, o escorpião, que o picou mortalmente no calcanhar. Desde então, o escorpião é considerado como um instrumento da justiça vindicativa e, como tal, foi colocado entre as constelações para a perpétua lembrança dos seres humanos. 

O mito grego nos informa que tendo descido ao Hades, o eidolon do gigante continuará a caçar as bestas selvagens com uma clava de
ESCORPIÃO
bronze até o final dos tempos. Segundo outras versões, o gigante foi para os céus, onde, coberto com um peitoral de ouro à guisa de armadura e com um gládio nas mãos, brilha esplendidamente como constelação nas noites de inverno. Seu imenso brilho, entretanto, empalidece cada vez mais quando, à medida que a noite avança, as garras da constelação do Escorpião começam a atacá-lo. Orion “foge” na direção oeste enquanto Escorpião se levanta no leste.

Afora estas duas grandes interpretações de Orion, a egípcia e a grega, há também indícios de que o nome Orion teria vindo da região mesopotâmica, mais exatamente da Acádia, que ficava na
ORION  CARREGA  ÁRTEMIS
região superior da baixa Mesopotâmia. Uruanna seria, entre os acádios, uma divindade solar, como nome de Luz do Céu. Transformado depois em Urion, o nome chegou ao Mediterrâneo. Ovídio, poeta latino, chamava Orion de Comesque Bootes. Outros nomes pelos quais a constelação de Orion era designada entre os latinos: Venator, Dianae Comes e Amasius, isto é, Caçador, Companheiro e Amante de Diana. 

Uma das características mais marcantes da constelação de Orion na antiguidade tinha relação com seu aspecto tempestuoso, notado pelos hindus e pelos povos mesopotâmicos. Os escritores latinos

(Virgílio, Horácio e outros) usaram para designá-la adjetivos como aquosus, nimbosus, saevus, tristis, nautis infestu etc. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias,  uma das obras máximas da chamada literatura sapiencial, se refere bastante a Orion, nos trechos referentes ao calendário dos trabalhos e à navegação. Homero fala do gigante como o ilustre Orion, o mais alto e belo dos humanos, mais mesmo que os Alóadas. 


 VARRO
Plauto e Varro, poetas latinos, deram a Orion o nome de Jugula, no sentido de união, isto é, A Unida, uma referência ao osso superior do braço (clavícula), às costas, região em que se encontram duas brilhantes estrelas, unidas por um colar (jugulum) de outras estrelas menores. Outros poetas latinos que se fixaram nessa designação, Jugula, preferem ver nela uma clara referência ao ato de cortar o pescoço, enforcar (jugulare, em latim), o que Orion fazia constantemente ao atacar as suas vítimas.



Os árabes deram a Orion o nome de Al Jabbar, O Gigante, seguindo a tradição ptolomaica. Popularmente, Orion entre os árabes era Al Babadur, O Forte. Antes, porém, de aceitar a tradição
MIKERINOS , KEFREN , KEOPS
ptolomaica, os árabes davam a Orion o nome de Jauzah, A Noz, destacando na sua forma uma figura que lembra um retângulo, dividido em duas partes, o  cinturão formado por três estrelas (Mintaka, Alnilan e Alnitak), de grande importância para os egípcios, usadas por eles para determinar a posição das pirâmides de Mikerinos, Kefren e Keops, perto da Grande Esfinge de Gizé, no Baixo Egito. 

No mundo judaico, nos chamados Livros de Job e de Amós, são encontradas referências a Orion, denominada Kislev, palavra que significa Louco, Ímpio, Inconstante, Orgulhoso. Segundo astrólogos judaicos, o nome Kislev tem a ver com o nono mês do calendário hebraico, novembro-dezembro, devido às tempestades que ocorrem neste período. Outro nome dado pelos judeus a Orion é Gibbor, O Gigante, considerado como Nimrod, expulso do céu por ter se rebelado contra Jeová.

Nimrod é um nome que aparece no Antigo Testamento (Gênesis, 10) para designar um caçador descendente de Noé. Foi o fundador mítico de Nínive (Assíria). É a personificação do império assírio. O
NIMROD
nome Nimrod parece ter sido dado a uma antiga divindade do país, deus da guerra e da caça. Nimrod soube por uma profecia que uma criança chamada Abraão, grande como deuses e reis, estava para nascer. Temendo perder seu reino, Nimrod mandou que seus soldados matassem todas as crianças que fossem nascendo. Deus, contudo, evitou a morte de Abraão.  

Nos textos hindus dos Brahmanes, Orion é personificado como Prajapati sob a forma de um cervo chamado Mriga. A história deste cervo é contada numa famosa peça Mriganka-Lekha, muito
PRAJAPATI
representada em Varanasi. Pelo texto teatral ficamos sabendo que Mriga procura a sua filha, a jovem e bela corça Rohini (estrela Aldebaran). Na busca da filha, Mriga é ferido por uma flecha tripla (o cinturão de Orion), disparada pelo vingativo caçador. Mriga é pai de vinte e sete filhas que dividem com o rei Soma,  o poder lunar sobre as nakshatras, as chamadas mansões lunares, da Astrologia hindu (Jyotish). Inicialmente vinte e sete, o número destas mansões foi elevado para vinte e oito posteriormente. Daksha é o poder espiritual na sua expressão masculina, criadora, geradora inclusive dos deuses. É identificado no mundo védico como Prajapati, o Senhor da Criação. 

No século XVII, Orion foi chamada de Regulon (Chefe), sendo-lhe dada como equivalente a palavra latina Vir (Força). Segundo essa denominação, Orion representaria, conforme a tradição judaica, Jacó, o último dos patriarcas, filho gêmeo e mais moço de Isaac e de Rebeca, em luta contra o anjo. Outra hipótese, ainda segundo a mesma tradição, Orion representaria Josué, guerreiro, sucessor de Moisés, que conduziu os judeus à terra prometida após as suas perambulações pelo deserto.  

Na Cabala, Orion aparece associada à letra Aleph, a primeira letra do alfabeto judaico e arábico. Indica início, começo, figuradamente. Etimologicamente, a raiz semítica aleph (hebraica) e alif (árabe) tem relação com a cabeça do boi que, inicialmente um ideograma, acabou como letra. O grego alpha é calcado na raiz semítica. Os judeus, como se sabe, desenvolveram um conhecimento de alto valor simbólico a partir do seu alfabeto. 

Assim, para a Cabala (tradição recebida) um nome não é senão a essência da coisa nomeada. Todos os nomes do mundo estão dentro do alfabeto, formado por letras, sendo o universo um produto da combinação delas, mas é no homem que esta combinação se manifesta. A Cabala, a partir da combinação de letras, formulou um grande número de especulações cosmogônicas e místicas. A letra aleph evocaria a coroa suprema, o que se dirige para as alturas, simbolizando assim a espiritualidade.

A constelação de Orion estende-se de 6º de Gêmeos a 2º de Câncer. Segundo Ptolomeu, as suas estrelas produziam influências semelhantes às de Marte e Mercúrio: natureza afirmativa mas inconsequente, arrogância, viagens, perigo, sobretudo para a navegação; criação de animais (gado). Quanto a fenômenos atmosféricos, produção de tempestades.



Quanto às estrelas, começa-se por Betelgeuze, alfa, de 1ª magnitude, variável, hoje a 28º03´ de Gêmeos. O nome vem do árabe, Ibt al Jauzah, ou seja, A Axila do Gigante. Antes de prevalecer o nome de Betelgeuze, esta estrela recebeu nomes como Al Mankib (As Espáduas) e Al Dhira (O Braço), além de outros. Por muitos séculos, Orion foi apelidada de Mirzan (O Arauto), a que anuncia o Sol. Esta estrela é uma das maiores do céu, podendo trazer favorecimento, sucesso, embora algumas complicações possam ocorrer. Por suas poderosas vibrações, trata-se de uma estrela cuja influência é claramente notada. Em mapas astrais nos quais ela se posiciona na direção do nadir, sua influência só se tornará evidente mais para o fim da vida ou mesmo só depois da morte. Ascendendo, Betelgeuze costuma trazer muita energia, muitos impulsos, notados logo, projeção. O mapa de Marilyn Monroe é um
JEAN-BAPTISTE  COLBERT
( PHILIPPE  DE CHAMPAGNE ) 
exemplo. Culminando, Betelgeuze, costuma indicar sucesso profissional, mundano, como o apontado no mapa de Jean-Baptiste Colbert. O exemplo que escolhemos para ilustrar Betelgeuze descendendo (a energia da estrela se expressando tardiamente, na maturidade, ou proporcionando reconhecimento longe do lugar de nascimento), o tema de Pierre Auguste Renoir. Planetas que se relacionam com Betelgeuze costumam indicar, se em aspecto harmônico, contribuições positivas para os assuntos da casa onde a estrela se encontra. A estrela tem uma ligação natural com alguma forma de ambição, de busca ascensional, 

Rigel (em árabe, Rijl Jauzah al Yusra, A Perna Esquerda de Jauzah), a 16º08´ de Gêmeos atualmente, embora mais brilhante que Betelgeuze, é catalogada como estrela beta da constelação. No
KEPLER
antigo Egito, era a “ponta do pé” do faraó, o que significava “estar sob a proteção de Osíris”. Seu caráter é jupiteriano: educação, busca de conhecimentos, ensino, expansão em direção da luz, desejo de aprender. Pode ser estudada, por exemplo, em mapas como o de Johannes Kepler e o de Immanuel Kant, no primeiro ela culminava, no segundo ela estava no nadir.

Bellatrix, conhecida como “A Mulher Guerreira”, “A Amazona”. Está a 20º15´de Gêmeos, estrela gama. Tem natureza marciana e mercuriana. Está no ombro esquerdo de Orion. Conhecida também como O Conquistador ou O Leão Rugidor. Há promessa de sucesso, mas o preço costuma ser muito alto. A ascensão não pode deixar de lado o questionamento interior. Marilyn Monroe e Vincent van Gogh  são exemplos. No mapa da primeira, a estrela se punha. Van Gogh é um tipo Bellatrix bem definido. 

As estrelas do cinturão são delta, epsilon e dzeta, Mintaka, Alnilan e Alnitak, a 21º 41´, 22º 46´ e   23º de 12´de Gêmeos, respectivamente, todas de caráter saturnino. A posição destas três estrelas, como se disse, foi usada para a determinação do local em que foram erguidas as pirâmides de Mikerinos, Keops e Kefren, no baixo Egito. A não ser a observação de Ptolomeu (as estrelas que
que não estão no ombro de Orion têm características de Júpiter e de Saturno), nenhum outro registro, ao que me conste, sobre as estrelas do cinturão. Joseph Rigor e Vivian Robson seguem Ptolomeu, isto é, as estrelas do cinturão proporcionam honras passageiras. A título de curiosidade, registre-se que no início do século XIX (1.807) a Universidade de Leipzig, por causa das espetaculares vitórias de Napoleão Bonaparte em várias batalhas, deu o nome de “Napoléon” ao cinturão de Orion. Uma represália aos ingleses, que haviam dado o nome de Nelson (almirante Horatio Nelson), pelas mesmas razões, ao referido cinturão. Felizmente, nenhum dos nomes “pegou”.





PISCIS AUSTRALIS – Esta constelação aparece nos céus intimamente ligada à constelação de Aquário, representada tradicionalmente por um aguadeiro. O líquido que escapa de sua jarra ocupa uma extensa região do céu que os antigos chamavam simplesmente de A Água. O Peixe Austral bebe dessa água através de sua boca, isto é, da sua principal estrela, Fomalhaut (boca de peixe, em árabe). Desde tempos pré-históricos, o peixe está nos céus como um dos grandes arquétipos que a humanidade usa e compartilha pelo seu conteúdo imagístico e simbólico, evidenciável nos mitos, nas religiões, nas histórias e nas lendas. O fluxo no qual o Peixe Austral mergulha a sua boca é, por sua vez, uma representação do próprio fluxo existencial no que ele tem de fertilidade.


Uma das mais antigas leituras desta constelação nós a encontramos entre os antigos persas. Fomalhaut (ligada a ideais e a sonhos), a estrela principal de Peixes Austral, ligava-se, para eles, a Aldebaran (de Touro, ligada ao que é íntegro e honesto), Antares (de Escorpião, ligada ao que é intenso e investigativo) e Regulus (de Leão, ligada ao sucesso sem desforra). Segundo os persas, estas quatro eram as estrelas mais peculiares do céu. Cada uma delas tinha uma forma de agir única numa trajetória de vida, proporcionando lições, podendo trazer sucesso se as pessoas soubessem lidar com os obstáculos que se apresentassem. Cada uma dessas estrelas significava um tipo específico de dilema ou de fraqueza. Havia, com elas, sempre algo enigmático a ser decifrado. Do contrário, trariam fraqueza, levariam à fuga, causando derrotas e fracassos. Segundo os persas, em tempos muito remotos, os quatro cantos do céu foram presididos pelas mencionadas estrelas: a primavera era de Aldebaran; Regulus se relacionava com o verão; Antares tinha a ver com o outono; e Fomalhaut era a guardiã do inverno. 

MAZDA
Antes que Mazda se impusesse como o deus dos deuses, senhor dos céus e criador de todos os seres, mestre e administrador de todos os povos, o panteão persa era muito complexo, nele se entrechocando muitas influências provenientes de seu fundo indo-ariano. Mazda, cujo nome lembra sabedoria, iluminação e embriaguez divina, era também o dispensador de poderes transcendentes, conhecido como Ahura Mazda (Decisão e Conhecimento). Com a reforma de Zaratustra (séc.VI aC), é realizada uma conciliação entre as velhas tradições, que a antiga corporação religiosa dos magos representava, e os novos cultos reais. 

Incorporando depois várias influências, inclusive budistas, e se diversificando (mitraísmo e maniqueísmo), o mundo religioso persa tem como duas figuras principais Ormazd e Ahriman, os dois polos da existência, a vida e a morte, a luz e as trevas, respectivamente. Dois exércitos, o do bem, o dos Amchaspends; o do mal, dos Daevas. Este pensamento vai se refletir na cosmogonia e no aparecimento da vida humana. As duas primeiras criaturas a surgir foram Gayomart, um homem, e Goch, um touro. Ambos morrerão por obra de Ahriman, o gênio do mal. Gayomart, contudo, havia enterrado sua semente, que, protegida por Ormazd, depois de quarenta anos sob a terra, deu origem ao primeiro casal, Machya e Machyoi. Inicialmente puros, foram depois aprisionados pelo mal, embora continuassem apoiados pelas entidades do bem. Aprenderam a dominar o fogo e a usá-lo para satisfazer as suas necessidades. 

Da longa cadeia de descendentes deste primeiro casal, chegamos ao rei Faridun, que, muito velho, dividiu seu imenso império entre seus três filhos. Brigaram eles entre si, matando-se. O poder acabou nas mãos de um neto de Faridun, a quem ele entregou a coroa real. Muito jovem, o novo soberano, Minutcher, teve inicialmente como conselheiro o nobre Sam, governador de uma província do império. Voltando ao seu lugar de origem, Sam tornou-se pai de uma criança como nunca se vira outra. Era bela como o Sol, mas seus cabelos eram brancos como os de um velho. Escandalizado com a presença deste filho, Sam mandou que seus auxiliares o expusessem, levando-o para o alto de distantes das montanhas. Tendo sua atenção despertada pelo choro da criança, Simurgh, o Abutre, o recolheu com as suas possantes garras, levando-o para o pico do monte Alborz. 

A criança cresceu rapidamente, tornando-se, como diz a história, um homem semelhante a um alto cipreste, seu peito era como uma colina de prata.  Cheio de remorsos, avisado por um sonho, o pai pôs-se a procurar o filho. Chegando por fim às montanhas, depois
NASCIMENTO   DE   RUSTEM
de muito procurar, descobriu o pico onde vivia Simurgh, que consentiu que o pai levasse o filho de volta. Dando bênçãos, Sam deu o nome de Zal ao filho. Zal tornou-se logo um herói sábio, vigilante, dando mostras de um grande desprendimento no seu trato com os outros a quem sempre procurava ajudar. Um dia, numa viagem, encontrou Rudabeh, jovem princesa, de um estado vassalo do pai. Depois de muitas peripécias, de muito esforço, casaram-se e, segundo previsões astrológicas, se tornaram pais de Rustem, que se tornaria glorioso e invencível, e de quem sairia a linhagem, desde então, de todos os imperadores persas.   

Para os persas, Zal simboliza o final do solstício de inverno, porta que se abre para a fase ascendente do ciclo anual. A última porta do solstício do verão se abre para a fase descendente deste ciclo. É de se lembrar aqui que as portas solsticiais eram representadas, entre
JANUS
os romanos, por Janus, deus bifronte. Lembro que uma das justificativas para se considerar o nascimento de Cristo no solstício de inverno é justamente esta, a de que ele viria para nos introduzir na fase luminosa do ciclo, ascendente. João Batista, nessa perspectiva, estaria relacionado com o solstício de verão. Seria, pois, a confirmação do texto bíblico: É preciso que ele cresça e que eu decresça (João, 3, 30). Por outro lado, fica a observação que o solstício de verão marca o apogeu do curso solar, seu zênite. Nesse período é que são celebradas as festas do Sol. Na medida em que Cristo é comparado com o Sol, seu signo de nascimento seria o de Câncer solsticial. 


OVÍDIO
A constelação do Peixe Austral era também conhecida na antiguidade pelo nome de Piscis Aquosus, como o poeta Ovídio a ela se refere nas suas Geórgicas. O poeta Virgílio, por sua vez, associa o Peixe Austral ao melhor período para a coleta de mel. Piscis Solitarius é outra designação que aparece. Entre os povos de Ásia Menor, os fenícios principalmente, esta constelação representava o deus marinho Dagon, híbrido, entre o humano e o peixe, simbolizando o princípio da umidade em tudo o que é animado.  

Entre os mesopotâmicos, a divindade marinha na forma de homem-peixe, Oannes, ou Anu, era considerado como O Revelador. Os sacerdotes de seu culto cobriam os ombros com uma capa pisciforme e uma mitra simulando a cabeça de um peixe. Oannes
MATSYA
exercia uma função parecida com a do avatar Matsya, do deus Vishnu, na forma de peixe, que salvou do dilúvio Manu, o primeiro homem mítico, o legislador do presente ciclo. É Matsya quem transmite a ele o conhecimento védico, revelando-lhe o conjunto da ciência secreta, os Vedas. O peixe simboliza aqui a água, isto é, a fecundidade e a sabedoria. Ele as detêm porque vive nas profundezas dos oceanos e, como tal, é penetrado pela força sagrada dos abismos. Os árabes, quando adotaram as constelações gregas, deram a este grupo de estrelas o nome de Al Hut al Janubiy (O Grande Peixe do Sul).


VÊNUS
Os romanos (Varrão, Cícero, Pacúvio) falarão que o peixe foi para os céus como uma homenagem à forma pisciana que Vênus tomava, quando era chamada de Salácia, nome que traduz uma ideia de salto, como o fazem as ondas e os peixes. Lembro que entre os romanos a deusa do amor, conforme a própria etimologia do nome Vênus sugere (amor físico, carnal, apetite sexual), passou a incorporar cada vez mais os traços da Afrodite grega, tornando-se mais úmida, o que se justifica tanto por razões míticas como astrológicas (Vênus, como planeta, se exalta no signo de Peixes).  

PEIXE   AUSTRAL
Peixe Austral estende-se de l5º de Aquário a 5º de Peixes, concentrando-se as interpretações de sua influência em Fomalhaut, estrela de 1ª magnitude, alfa, hoje a 3º 09´ de Peixes. Ptolomeu atribuiu a esta estrela influências semelhantes às de Vênus e de Mercúrio. A tradição fala de espiritualidade, idealismo, imaginação ativa. Por volta de 500 aC, é preciso lembrar, Fomalhaut era reverenciada nas cerimônias que se realizavam nos Mistérios de Elêusis. 


ELÊUSIS

Sempre considerada como uma das estrelas mais benéficas do céu, é preciso, contudo, observá-la com cuidado. Os benefícios proporcionados por ela, mesmo no caso de um boa posição, e aproveitando a deixa mitológica acima mencionada, não virão contudo facilmente, conforme constatei em alguns mapas. Há que se fazer um caminho para se ter acesso ao “tesouro” que ela representa, como no caso da história de Zal. A conquista de Rudabeh não foi fácil. Além do mais, a própria história de Zal, com as suas lutas, deixa claro que a estrela parece só “funcionar” quando o ideal buscado é de natureza humanitária, espiritual, tendo, pois, relação com os dois últimos signos do Zodíaco. Se interesses egoístas estiverem por trás da busca, o fracasso costuma ser total. Com Fomalhaut há sempre necessidade de muita clareza com relação aos objetivos. Esta estrela, se mal posicionada ou aspectada, também pode provocar uma certa alienação com relação à realidade, algo que se aproxima dos famosos complexos de fuga e de evasão dos piscianos. Fantasias, embalos, um estado deambulatório, que, num primeiro momento, aparentemente agradável, pode trazer, em casos extremos, dor, sofrimento e mesmo a morte.


FRÉDÉRIC   CHOPIN  ( EUGÈNE  DELACROIX )

O mapa astral de Frédéric Chopin é um bom exemplo para o estudo de Piscis Australis e de sua grande estrela, Fomalhaut. Chopin nasceu com o Sol no poente, em Peixes, em conjunção com Vênus. Segundo a melhor tradição helenística, a melhor expressão, para o bem ou para mal, de estrelas posicionadas no poente se manifesta na meia idade e/ou longe da pátria.