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terça-feira, 17 de julho de 2018

AQUÁRIO (1)

   

Por volta de 4000 aC, a constelação de Aquário sinalizava para os povos do Oriente Próximo o solstício de inverno, visualizada nos céus como um gigante com um recipiente nas mãos, a derramar água. A área celeste governada por esse gigante era imensa, sendo chamada simplesmente de A Água, dela fazendo parte as seguintes constelações: Pisces, Cetus, Capricornus, Delphinus, Eridanus, Pisces Australis e Hydra, todas relacionadas com o elemento líquido.


ERÍDANO
Muitos povos que viviam em extensas regiões situadas entre a Europa e Ásia davam também à mencionada área celeste, pela mesma razão, o nome de O Mar. Essa região se estendia para eles, a partir da chamada Cabra Marítima (Capricórnio), na direção do oriente, nela se situando Peixes: na direção  noroeste fica o agrupamento estelar chamado Delfim; na direção sul, ficava o agrupamento Peixes Astral; e na direção se encontrava a Baleia. Os gregos deram o nome de Erídano ao uma faixa estrelada que, atravessando a Baleia (Cetus, desaguava na constelação de Orion. Erídano, lembremos, na mitologia grega foi um dos muitos filhos dos deuses marinhos  Oceano e Tétis. Era um deus-rio que aparece associado ao terceiro trabalho de Hércules e à história do malogrado herói Faetonte.

CONSTELAÇÃO  DE  AQUÁRIO
Os babilônicos davam às estrelas de Aquário o nome de “Assento das Águas Moventes”, nelas vendo a origem das tempestades de inverno e das correntes que um dia haviam precipitado o dilúvio sobre a terra. As primeiras referências que temos sobre o dilúvio, cujas águas teriam vindo dessa região do céu, nós as encontramos, até onde a pesquisa histórica conseguiu se estender,nos antigos textos de uma famosa epopeia sumero-babilônica nos quais se conta a história do herói mítico Gilgamés. Pelos referidos textos ficamos sabendo que os humanos, criados pelos deuses, devido aos seus pecados, nunca muito claramente definidos, deveriam ser destruídos. A decisão foi tomada pelos deuses (Anu, Bel, Ninib e Enugi), numa assembleia divina, realizada na cidade de Suripak, às margens do rio Eufrates. Ea (etimologicamente, a casa da água), identificado pelos gregos como Poseidon, deus do Apsu (rio-mar que envolvia e suportava a terra), sentindo muita pena da humanidade, resolveu intervir, ajudando-a. 


UTNAPISHTIN
Ea recomendou a Utnapishtin, um dos habitantes de Suripak, que construísse um barco de cento e vinte côvados (medida equivalente a 66 cm.), cerca de 80 metros, e o carregasse com todos os bens que pudesse, para que ele e sua família, mais os animais e os pássaros recolhidos, se salvassem quando a tormenta se abatesse. Depois de seis dias e seis noites de tempestades jamais vistas, tudo se acalmou, mas a terra havia se transformado num grande lamaçal. Da sua barca, encalhada no alto de um monte, Utnapishtin soltou sucessivamente uma andorinha, uma pomba e um corvo. Os dois primeiros, depois de muito tempo, voltaram à embarcação porque não haviam encontrado onde pousar. O corvo nunca mais voltou, nunca se sabendo o que lhe aconteceu. 

Utnapishtin desceu então do seu barco, fez uma libação aos deuses e depositou uma oferenda no alto da montanha. Por intervenção de Ea, mais uma vez, os deuses aceitaram os sacrifícios e Bel, tomando as mãos de Utnapishtin e de sua mulher, lhes disse que a partir daquele momento constituiriam a raça humana, semelhante à dos deuses, fixando-lhes, para que pudessem viver a salvo dos cataclismos, um retiro inviolável e paradisíaco na embocadura dos rios. 

Passaram-se desde então séculos e séculos. Os humanos, esquecidos das  promessas que haviam feito, abandonados os sacrifícios, o “alimento” dos deuses, voltaram a proceder mal, fechados cada vez mais no seu egoísmo. A mais remota ideia que temos da instituição do sacrifício nos vem desses tempos.





Foi no mundo mesopotâmico que se fixou a ideia, depois levada para outras civilizações, que o homem havia sido criado pelos deuses para não só servi-los como para vesti-los e alimentá-los, além de lhes dar muitos presentes. Dentre os sacrifícios mais comuns estava o de aninais, cujo sangue ratificava a ligação entre o homem e o divino. Muito importante, nessas cerimônias, era o item  dos alimentos oferecidos aos deuses, os mesmos que os humanos mais apreciavam, peixes, carne, cremes, mel, bolos e cerveja, esta também muito utilizada pelos egípcios, conhecida como a bebida da imortalidade.

OSSO   SACRO
O tema do sacrifício, salienta-se, sempre este presente em todas civilizações da antiguidade. Os presentes e os sacrifícios, por exemplo, vão aparecer também  na Bíblia, no Gênesis. A palavra veio do latim, sacrificium, para nós. Ou melhor,  de sacrum facere, realização do sagrado. Esta realização era feita, principalmente, pelo oferecimento do chamado osso sacro aos deuses. 


HIPÓCRATES
A título de curiosidade, registre-se que osso em grego é osteon. Quando da tradução da obra de Hipócrates, o pai da medicina, do grego para o latim, o tradutor, com muita propriedade, acrescentou a palavra hieron (sagrado) para designar esse osso, ao qual se deu o nome de sagrado porque na cavidade por ele formada alojavam-se os órgãos genitais, através dos quais, pela atividade sexual, os seres humanos eram trazidos à vida, uma função sagrada. Não é por outra razão, aliás, que as mais antigas tradições astrológicas atribuem a tutela dessa região do corpo onde o osso sacro se encontra a Sagitário, cujo planeta regente é Júpiter.  
  
Encerrado este breve comentário sobre o tema do sacrifício, nossa história prossegue: reunidos, os imortais decidiram mais uma vez punir os humanos, tornados cada vez mais estéreis. Os campos perderam o seu verde, nada mais brotava. Durante cinco anos, apesar de grande sofrimento, a humanidade contudo resistiu. A partir do sexto ano, porém, os humanos começaram a se devorar entre si. A terra se despovoou rapidamente, o mundo vegetal foi sendo aniquilado rapidamente, os mares e rios começaram a secar, catástrofes nunca imaginadas. 

MAMI
Por iniciativa de Ea, novamente, a terra foi então repovoada por uma nova raça humana, criada por Mami, deusa dos destinos. Ela cortou catorze pedaços de lama, colocando sete partes à sua direita e outros sete à sua esquerda, partes que, respectivamente, deram origem então ao mundo masculino e ao mundo feminino, como os temos até hoje.


GILGAMÉS
Todas estas catástrofes, como nos revelam os mitos mesopotâmicos, vieram da mencionada região do céu, mais exatamente da constelação que no calendário babilônico recebeu o nome de Gu, palavra que significava ânfora, um recipiente sagrado; para os babilônicos, a referida constelação sempre apareceu associada às grandes inundações do solstício de inverno e à ideia de salvação da humanidade. Na sequência zodiacal estabelecida pelos mesopotâmicos, Aquário ou Gu, o último dos signos fixos, aparece com destaque na epopeia de Gilgamés, na qual encontramos também muitas referências à figura de Utanapisthin, este figura, desde então, associada ao signo.

Para melhor compreender esta associação, devemos lembrar alguns detalhes da grande epopeia de Gilgamés, composta provavelmente por volta de 2.000 aC. Por ela ficamos sabendo que nosso herói,
RUÍNAS  DE  URUK
certamente um personagem histórico evemerezado (rei do país de Sumer, 3.000 aC ?), o grande construtor das muralhas de Uruk, era tirânico, poderoso, cruel e opressor. Logo nos primeiros versos do poema se narra que Gilgamés não deixava nenhum filho para seu pai; dia e noite a sua violência continuava irrefreada; apesar disso, ele era o pastor de Uruk. Ele era um pastor, forte, magnânimo e sábio. Gilgamés não deixava nenhuma virgem para o amante, a filha de um guerreiro, a escolhida de um nobre. O lamento do povo era ouvido pelos deuses constantemente.



ENKIDU
Ouvindo os clamores do povo, Anu, o deus celeste, ordenou a Aruru, a deusa-mãe, que criasse “um igual” a Gilgamés, com o qual ele pudesse lutar, esquecendo-se assim de atormentar seu povo. É criado então Enkidu, uma espécie de gêmeo de Gilgamés, mas muito primitivo e selvagem, um ser que gostava de viver entre os animais. Logo ele e Gilgamés se tornaram companheiros inseparáveis. Um dia, porém, os deuses resolveram que Enkidu devia morrer (doença enviada pela deusa Ishtar). Não se conformando, Gilgamés resolveu trazê-lo de volta a vida. Para tanto, largou-se pelo mundo em busca da erva da imortalidade. Quem a conhecia era Utanapisthin, seu guardião, tornado imortal pelos deuses depois do dilúvio.

A epopeia nos relata que Gilgamés chorou amargamente a morte do amigo. Partiu então à procura de Utnapishtin, a quem os deuses haviam acolhido depois do dilúvio e instalado na terra de Dilmun, o paraíso sumério (talvez na região do golfo pérsico), descrito como o lugar onde nasce o Sol. Era protegido do deus Ea, deus da água doce e da sabedoria; patrono das artes e um dos criadores da humanidade. Com a conivência de Ea, Utnapishtin sobrevivera ao dilúvio na companhia da sua família e das “sementes de todas as criaturas vivas”. Depois disso, foi levado pelos deuses para viver para sempre na foz dos rios Tigre e Eufrates e recebeu o apelido de “O Longínquo”. 

Para chegar a Utnapishtin, Gilgamés, que em companhia de Enkidu havia vencido um touro bravio enviado por Ishtar, teve que
SHAMASH
enfrentar depois vários leões e os perigosos homens-escorpião, três situações em que temos uma clara referência à passagem do Sol pelos três signos fixos que antecedem Aquário, Touro, Leão e Escorpião. Os homens-escorpião, lembremos, são sentinelas das montanhas onde o Sol se põe ao cair da noite. Ao atravessar essas montanhas, sempre na direção do oeste, depois de muito perambular pela escuridão, Gilgamés chegou a um jardim a beira-mar. Shamash, o deus Sol, o viu e lhe disse que nunca encontraria a vida que procurava. A resposta de Gilgamés foi, como está no poema, um “discurso” tipicamente aquariano: Então, depois de errar e de me esfalfar pela vastidão selvagem, terei ainda de dormir e deixar que a terra cubra para sempre a minha cabeça? Que meus olhos vejam o Sol até que por ele sejam ofuscados. Embora eu não seja melhor do que um morto, porém que eu veja a luz do Sol.



SIDURI
Dito isto, e afastando-se, caminhou nosso herói em direção de uma mulher que por perto fabricava bebidas. Era Siduri, entidade divina que vivia à beira do mar, preparando vinhos, no jardim do Sol. Ao notar a presença de Gilgamés, Siduri passou o ferrolho na porta que dava acesso ao jardim. Gilgamés a questionou. Ela, então, lhe perguntou porque ele apresentava um ar tão faminto e o seu rosto estava tão macilento; qual o motivo de tanto desespero no seu coração, a sua abatida expressão de cansaço, como a de alguém que houvesse feito uma grande viagem. Gilgamés, depois de falar de suas aflições, da morte de Enkidu, do seu temor também de virar pó, perguntou-lhe como chegar a Utapishtin. Ela o mandou procurar o barqueiro Urshanabi. Assim foi feito e, depois de muitas peripécias, nosso herói conseguiu se apresentar a Utnapishtin. 

Gilgamés contou a sua história e pediu que O Longínquo, instruindo-o sobre a vida e a morte, lhe dissesse como encontrar a vida eterna que procurava. A resposta que obteve foi a de que tudo era impermanente e que os deuses é que distribuíam a vida e a morte, mas que o dia da morte eles nunca o revelariam. Utapishhtin acabou, contudo, por revelar ao nosso herói que o que ele procurava. A vida eterna poderia ser obtida se mergulhasse nas profundezas do oceano e de lá trouxesse uma planta maravilhosa, com espinhos, que devolvia ao homem a juventude perdida, tornando-o imortal. Assim fez Gilgamés, pensando em oferecer a planta aos homens para deles afastar para sempre temida ideia da morte. 

COM  A  PLANTA  DA  VIDA
Ao tomar o caminho de volta a Uruk, com a planta nas mãos, Gilgamés resolveu contudo descansar e banhar-se num lago, junto a uma fonte. Depositou a planta numa pedra e entrou na água. Mas nas profundezas desse lago havia uma serpente que, sentindo o doce perfume que emanava da planta, saiu da água e a arrebatou, abocanhando-a, voltando de novo às águas profundas do lago. Gilgamés nada viu. Olhou desesperadamente à sua volta, as águas silenciosas do lago nada lhe disseram. Angustiado como nunca, sentou-se sobre uma pedra e chorou por ter perdido a planta do rejuvenescimento.

Qual a lição a retirar desta história sob o ponto de vista aquariano? A imagem de imortalidade para Gilgamés era a de uma uma vida apenas prolongada, um antigo anseio da humanidade. Seu objetivo, desde o começo, foi o de um ego ambicioso e ávido de poder. As vitórias que Gilgamés sempre procurou voltavam-se tão só para o exterior, como as de Édipo, por exemplo. Além do mais, sua grande vitória dependia, como o mito nos mostra claramente, da posse de um produto, muito semelhante àquele que os alquimistas orientados para conquistas materiais sempre buscaram e jamais obtiveram, o cinábrio, a droga da imortalidade, que provocava uma regeneração física perpétua.

A volta de Gilgamés para Uruk, depois do seu fracasso, parece apontar para um recomeço. Teria sido sua longa jornada em vão? Ele não obteve a vida eterna que tanto desejava, objetivo último de suas aspirações. Igualar-se talvez aos deuses? Não será esse o grande sonho aquariano? Palavras de Gilgamés no poema: Ó Urshanabi, foi para isto que eu trabalhei com as minhas mãos, e para isto que o meu coração ficou sem sangue? Porque para mim nada ganhei; agora o animal da terra (a serpente) a tem em vez de mim. Já a correnteza a arrastou vinte léguas para os canais onde a encontrei. Eu achei um sinal e agora o perdi. Deixemos o barco na margem e vamos.


A  VITÓRIA  DA  SERPENTE
O poema se fecha com a “vitória” da serpente. Nada se soube se Gilgamés entendeu que a renovação da vida pertencia de fato à serpente. A conclusão a que muitos chegaram ao tomar conhecimento da sua busca é a de que nosso herói não estava ainda preparado para alcançar a imortalidade. Não entendeu a “lição” da serpente, desse “animal terrestre” como ele a chamou, que estava no centro de um complexo arquetipal de grande riqueza simbólica ao representar a vida das profundezas, reservatório de onde provinham todas as manifestações que apareciam na superfície. 

Gilgamés era um ser da superfície, fixado apenas nesta polaridade, nas conquistas de cima. O poema deixa subtendido que é a vida profunda, simbolizada pela serpente que vai se refletir na consciência diurna, da superfície. Não é por outra razão que os povos da Mesopotâmia, os antigos caldeus, principalmente, designavam vida e serpente por uma mesma palavra. Por isso, para eles, a serpente visível nada mais seria que uma fugaz encarnação do grande arquétipo urobórico, causal e atemporal, mestre do princípio vital e de todas as forças em operação no cosmos. Gilgamés não souber ler isto. 

Os antigos mesopotâmicos sempre afirmaram, comentando a história de nosso herói, que os deuses, por alguma razão insondável, não permitiram que ele conservasse a erva da vida. Uma explicação possível talvez pudesse ser tentada: ela não representaria muito provavelmente nas suas mãos uma mudança do homem interior nem corresponderia a um desejo profundo de iluminação e de expansão da consciência. Gilgamés, do começo ao fim da sua viagem, sempre permanecera fixado no seu ego. Nada mais restou então a ele senão voltar a Uruk, recomeçar a sua vida e assumir a sua condição de mortal. Como está no poema, Gilgamés cansou-se, exauriu-se em trabalhos e, ao retornar, descansou e gravou na pedra toda a sua história.


A história de Gilgamés tem astrologicamente óbvias relações com eixo Leão-Aquário e, por isso, com o domínio do fogo na sua expressão leonina. O nome Gilgamés, escrito muitas vezes como Gibilgamesh, contém o nome Gibil, um deus do fogo dos sumérios, no que se aproxima muito de Prometeu, também um sacerdote ligado ao fogo.. A história deste herói mesopotâmico parece ter servido de base para outros mitos e lendas cujos personagens são figuras representativas do descontrole do elemento ígneo no nível da vida instintiva (ariana) e racional (leonina) e do seu reflexo no polo oposto (Aquário). Prometeu, Hércules, Sansão, Noé, Tubalcain, Deucalião, Catapatha Brahmana e outros, neste sentido, “descendem” diretamente do herói mesopotâmico.

Numa síntese final da história de Gilgamés e de suas profundas ressonâncias aquarianas, não é possível deixar de se destacar a grande lição da serpente (vida subconsciente) que nosso herói não entendeu. Uma lição elaborada há milhares de anos e perfeitamente atual. Nosso herói, como fica fácil perceber para os familiarizados com uma leitura mais consequente dos mitos, também não entendeu que só lhe cabia viver como homem e não como um deus. Gilgamés fracassou e só lhe restaria morrer e deixar que cobrissem a sua cabeça com a terra, como ele mesmo reconheceu.

Utanapishtin lhe disse que jamais conquistaria a vida eterna. Não lhe caberia, como homem, outra alternativa senão a de encher a barriga, dançar, lavar-se, usar roupas limpas, cuidar do filho e tornar a sua mulher feliz. Este era o destino dos homens e com ele Gilgamés deveria se conformar. Aceitar a vida terrestre e aproveita-la. Seria a erva da imortalidade uma brincadeira dos deuses? O fato é que depois da oportunidade (?) perdida, Gilgamés se pôs a chorar. 

Como Orfeu, outro fracassado, ele não teria uma segunda chance. Vencido, deprimido e reduzido a um simples mortal, não lhe coube outra saída senão a de louvar a sua própria criação, os esplendores de Uruk. Seus discurso é doloroso, mas era a única coisa que poderia fazer: Vem, vem,
URSHANABI
Urshanabi, ver os muros da cidade, o seu terraço, toca neste trabalho feito na pedra, nos tijolos recozidos, magníficos. Os sete sábios edificaram as fundações destes muros. Olha esta cidade,  seus jardins, os terrenos à sua volta. Uruk, a minha cidade, ela é tudo isso. A lição que ficou para Gilgamés foi a de compreender que, para os mortais, a sabedoria consiste tão só em aproveitar, como puderem, a vida terrestre, já que, athanatoi (imortais), só os deuses, como diziam os gregos.

domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião. 

                            

sábado, 9 de julho de 2011

A BOIUNA & O BOTO


A boiuna é uma serpente que faz parte de um mito hídrico de origem ameríndia americana, mais localizado nas águas da bacia amazônica. Trata-se de uma enorme serpente escura, voracíssima, capaz de tomar a forma de qualquer embarcação, uma canoa, um veleiro ou de sedutora mulher. Ao atravessar os rios, a boiuna produz um ruído que tanto lembra o das cachoeiras quanto o das hélices das grandes embarcações. Seu prestígio vem do pavor provocado pela sua voracidade e pela enorme capacidade que tem de se disfarçar, de mudar de forma. Nenhum culto lhe é devotado. O que se sabe é que para ela convergem mitos como os da mãe-d’água, da iara, do boto e outros. Para os indígenas, matá-la é pior que encontrá-la, pois isto significaria a própria morte e a destruição da tribo.

O nome vem mboya, cobra, e una, preta, na língua tupi. Os olhos do monstro são luminosos como dois faróis ou archotes que desnorteiam todos os que estão por perto. As populações ribeirinhas anunciam sua presença nos rios, lagos, lagoas e igarapés sempre com muito temor. Vive na parte mais funda dos rios e mede, segundo os depoimentos, entre 20 e 45 metros de comprimento. Quando sobe à terra, deixa sulcos que se transformam em igarapés.
É conhecida também pelos nomes de cobra-norato, mãe-do-rio e senhora-das-águas. O mito teria derivado de histórias relacionadas com a sucuri ou sucuruji, serpente da água que se alimenta de pequenos animais, que chega mesmo a atacar e matar os maiores. Em Belém, acredita-se que uma boiuna esteja com a cabeça na Sé e a cauda na igreja do Carmo. No dia em que a boiuna despertar e for para o mar, diz a lenda, a cidade desaparecerá. De certo, porém, ainda segundo a lenda, é que quando a boiuna se mexe a terra treme.
A sucuri ou sucuruji, como se sabe, é uma serpente da família das boídeos (família de cobras tropicais com cerca de quarenta espécies que incluem, entre outras, a jiboia), encontrada em muitas regiões da América do Sul. É a maior serpente do mundo, podendo alcançar de dez a doze metros de comprimento; vive à beira dos rios ou mergulhada em lagos e lagoas; alimenta-se de vertebrados de tamanho variado, que são mortos por ela por constrição. E também conhecida pelo nome de anaconda, nome este importado da Asia, da língua tâmil (sul da Índia e Ceilão), palavra que significa “a que mata elefante”.
O tema da sucuri, no folclore brasileiro, aparece num ciclo que tem o nome de “Cobra Grande”. Nesse ciclo, a cobra-grande ou sucuri é a senhora dos elementos e, como tal, tem poderes cosmogônicos, sendo dela o dia e a noite. Esse ciclo foi aos poucos se fragmentando, tomando a forma de histórias, contos maravilhosos, referentes a cultos astrolátricos que nos falam de constelações e de tarefas agrícolas.


Conta a lenda que a cobra-grande, também chamada de coisa-má, engravidou uma cunhã, que deu à luz uma cobra, que passou a perseguir a mãe por toda a parte. A cunhã, contudo, conseguiu esconder-se de tal modo que nunca mais foi encontrada. Desiludida, a cobra voou para os céus, tomando a forma da constelação do Serpentário, cujas estrelas anunciam o início do verão na região amazônica. Essa constelação também brilha muito em setembro, marcando o início do plantio nas roças, época importante para Guaraci, o Sol.


A constelação do Serpentário é austral, sendo chamada pelos gregos de Ophiuchus, visualizada como um homem que segura uma serpente dividida em duas partes, Serpens Caput e Serpens Cauda. Os gregos identificavam a figura humana como a do seu deus médico Asclépio, que aprendeu as artes da cura com o centauro Kiron. Na Idade Média, astrólogos judeus viram Moisés na figura humana desta constelação; os cristãos, uns, nela viram São Paulo com a víbora que lhe picou a mão e outros nela identificaram São Bento, de pé, entre espinhos. Ressalte-se que a constelação do Serpentário, astrologicamente, sempre apareceu ligada a influências médicas e à produção de drogas em geral a partir de ervas, como no caso dos monges beneditinos, que fabricavam um famoso álcool.
A sucuri não é venenosa, sua cor é pardo-azeitonada, com uma grande série dupla de manchas pretas. De hábitos semi-aquáticos, alimenta-se de peixes, aves e pequenos mamíferos que surpreende nos bebedouros (capivaras, antas, veados, bois etc.). Utilizando a sua extraordinária força muscular, enrosca-se nas presas, cujos ossos tritura, preparando assim o alimento para a deglutição. Apesar de poder dominar animais de maior porte (há registros de sucuris que atacaram crianças e adultos), só os ataca eventualmente, preferindo os menores.
Por oportuno, transcrevemos aqui um trecho do livro Viagem pelo Brasil, de J.B. von Spix e de C.F.P. von Martius, sobre os mitos amazônicos. Spix e Martius, alemães, vieram ao Brasil em 1817 com a missão científica austríaca, aqui permanecendo por três anos para fazer principalmente um levantamento da fauna brasileira, chegando a classificar 3.381 espécies de animais: “A dar-se crédito às inúmeras narrações de pessoas simplórias, as profundezas do Amazonas hospedam, além dos grandes anfíbios acima mencionados, ainda uma espécie de cobras-de-água, que são peculiares a esse rio e aos seus maiores afluentes, porém, que evitam as águas das ipueiras e lagoas vizinhas. Têm-se visto enormes serpentes, esverdeadas ou pardas, nadando como se fossem troncos flutuantes, e, segundo dizem, crianças e adultos já foram arrebatados, quando acaso elas saem em terra. A esse monstro os índios dão o nome de Mãe-d’Água (paranamaia, de paraná, rio, e maia, mãe), temem encontrá-lo e ainda mais medo têm de matá-lo, porque então é certa a própria ruína, bem como a de toda a tribo. Um velho remador de nossa canoa afirmava haver avistado essa terrível cobra-d’água perto do Gurupá, e, dois dias depois, ela enroscou e arrebatou o seu irmão. Este passeava com a noiva, à margem do rio, e, chegando a um ponto onde havia no fundo um barro preto fino, com que as índias tingem os tecidos de algodão, ela pediu-lhe que colhesse uma mão-cheia. O rapaz mergulhou, mas a noiva em vão o esperou por muito tempo. Quando, depois, observou, aflita, mais de perto, o lugar onde ele sumira, não viu mais a sombra dele no fundo, e, no meio do rio, a Mãe-d’Água sacudia a terrível cauda furiosamente e o noivo lhe tinha sido arrebatado para sempre. Já desde milênios se preocupa a imaginação dos povos com tais idéias de cobras gigantescas, habitantes do fundo das águas, e que só raramente emergem das mesmas, para terror e desgraça dos homens.
Na Europa, admiramos o primor artístico do Laocoonte, originado dessa lenda; na América, a fantasia toma proporções colossais no cenário agigantado, quando delineia esses monstros. O aparecimento, tantas vezes confirmado, da serpente do mar nas costas norte-americana deu ensejo a semelhante crendice acerca das águas, tão cheias de vida, do Amazonas. Cumpre dizê-lo, porém: os índios enfeitam os mais simples fatos com exageros fabulosos. Assim, eles contam que, de quando em quando, aparece a Mãe-d’Água com um diadema de brilhantes ou deixa emergir a cabeleira luminosa fora do rio, quando o nível da água baixa em extremo, com isso determinando a propagação das doenças decorrentes. A firme crença, com que os índios contam tais lendas, é uma das feições do seu caráter, e o viajante, neste país, deve ficar prevenido disso, para descontar a parte da imaginação nos fatos maravilhosos que ouvir da boca dos Peles-Vermelhas. Florear os mais simples fenômenos da natureza com galas da fantasia é a única poesia de que é capaz a alma soturna e obscura do índio. De igual modo, quase todos os fatos naturais, que se assinalam por qualquer distintivo, logo se transformam em fábulas. De muitos animais e plantas, os índios contam as maiores extravagâncias. As lendas das Amazonas, de homens sem cabeça e com a cara no peito, de outros que têm terceiro pé no peito ou possuem cauda, do conúbio de índias com os macacos coatás etc., são idênticos produtos da fantasia sonhadora dessa raça de homens.”
Alguns estudiosos aproximam o mito da lara ao das ondinas e sereias do Mediterrâneo. Iara (Yara, senhora, na língua tupi) seria o nome literário da Mãe-d’Água. As ondinas são ninfas da mitologia escandinavo-germânica, ninfas do amor que vivem nas águas, seduzindo, desencaminhando marinheiros e navegadores. Na mitologia grega, as sereias, um ser metade peixe (a parte inferior do corpo) e metade mulher lindíssima (a parte superior do corpo), são atraentes e perigosas. Antigos navegadores falam delas, do seu canto mavioso; quem o ouvisse não resistiria. Atraíam os marinheiros, que, lançando- se ao mar, pereciam afogados. De acordo com o mito, habitavam a costa sul da Itália. Aparecem em várias histórias, sendo a mais famosa a de Ulisses (Odisseia), de Homero.
O mito da Mãe d’Água, ou Iara, ganha, contudo, outro sentido, ampliando-se bastante, se o associarmos, como de fato devemos fazê-lo, ao do Boto. O boto (butis, em latim, barrica, odre de vinho) é um cetáceo encontrado no mar e em rios, em várias partes do mundo, sendo chamado também de golfinho e toninha. Nos mitos amazônicos, o Boto é um personagem que seduz as moças que vivem perto dos rios. Por esse motivo, o Boto passa por ser o pai de crianças com paternidade desconhecida. Há registros de depoimentos sinceros de mulheres ribeirinhas que confirmam essa história. É comum, por exemplo, no Pará, a alusão ao “filho do boto”, isto é, a criança sem pai.
O mito do Boto nos conta que ele, perto do anoitecer, transforma-se num belíssimo jovem, branco, grande dançarino e bom de copo; surge nos bailes, ficando todas as mulheres caídas por ele. Um fato notável: jamais esse Boto-Homem tira o chapéu da cabeça. Explicação: como o boto, o misterioso dançarino tem um orifício no alto da testa, razão pela qual usa o chapéu, para ocultá-lo. Depois de dançar e brincar com todas as belas jovens, desaparece misteriosamente. Volta à água, tomando a sua forma primitiva. Uma ou mais das jovens presentes aparecerão grávidas, tendo, no tempo devido, um filho, o “filho do boto”.

Este mito é muito diferente do mito do Ipupiara, uma espécie de homem marinho, como narram os índios, inimigo dos pescadores, que vira embarcações, que afoga e mata. O Boto, pelo contrário, é um sedutor irresistível, sente o cheiro de mulher a enorme distância. Pode virar às vezes as embarcações, quando vislumbra uma mulher que lhe apetece. Nesse momento, vira Boto-Homem, mantendo relações sexuais com a escolhida. Não há registros de acontecimentos dessa natureza que tenham provocado a morte da mulher. As mulheres que tiveram contacto com o Boto-Homem, conforme vários depoimentos, sempre guardaram do acontecimento uma lembrança muito agradável...
Uma versão tardia do mito do Boto nos revela, contudo, uma dominante feminina ao lado da masculina. Essa versão nos fala que o Boto se transforma muitas vezes numa sedutora mulher, a Mãe-d’Água, que atrai os jovens para os rios, seja para manter relações com eles ou para puni-los por terem feito mal a alguma cunhã. Esta versão introduz o hermafroditismo no mito, provavelmente uma contribuição das populações ribeirinhas mestiças da Amazônia. Dessas histórias sai por exemplo a grande fama que o olho de boto tem como talismã, uma infalível eficácia nas coisas do amor, no erotismo. Mas, para funcionar, o olho do boto deve ser convenientemente preparado numa pajelança (rituais que o pajé executa em determinadas ocasiões com o objetivo de cura ou magia).
Lembremos que há uma longa tradição que nos fala do sucesso do delfim, isto é do boto, na magia amorosa. Ele tem um papel de destaque na mitologia grega. Está relacionado com diversas divindades, Apolo (Delphinios), Poseidon, Eros, Dioniso e Afrodite. No mundo grego e romano, o delfim, quanto à magia amorosa, era de Afrodite. Os delfins eram tidos como voluptuosos e enamorados, sendo a eles atribuído também o sentimento da saudade (pothos). Os gregos viam nos movimentos do delfim, seu dorso descendo e se elevando acima da superfície das águas, uma grande semelhança com os movimentos que o corpo do homem faz no ato sexual.
Uma das melhores histórias que a tradição conserva desde a antiguidade pela via mitológica sobre o delfim é a do seu afeto pelo homem. Com efeito, muito se fala sobre ele como salvador de náufragos. Por isso, o delfim foi utilizado pela iconografia cristã para representar o amor de Cristo pelos humanos, amor que, através da Eucaristia, os tira da condição de náufragos. O delfim é, assim, um agente do retorno daquele que se perdeu na imensidão oceânica da vida. O perdido retorna à matriz da qual todos saíram Não é outra, aliás, a origem da palavra delfim (delphys, em grego, quer dizer matriz, seio, entranhas, o umbigo, e, por extensão, o centro da terra). Por isso é que o deus ApoIo instalou o seu oráculo em Delfos, lugar de renascimento para aqueles que iam procurar a sua sentença oracular. Mais ainda: a palavra grega para designar irmão é adelphos, uma palavra que exprime a ideia de extração ou a separação de uma mesma matriz, de um mesmo seio. Dentro deste campo semântico pode ser colhida também a palavra delfim como a usam os franceses como título do primogênito do rei da França.
É nesta perspectiva que esse mamífero aquático, o delfim, é o mais difundido símbolo da salvação, da transformação e do amor. É por essa razão, segundo os gregos, que o deus Poseidon colocou o delfim nos céus como constelação, junto das constelações de Aquário e da Águia. Amigável, brincalhão e inteligente, o delfim se integrou a várias expressões mitológicas e religiosas. Os etruscos, gregos e cretenses diziam que o golfinho salvava os náufragos de afogamento ou levava as almas dos que morriam para as ilhas dos Abençoados. O aproveitamento das histórias do delfim pelo Cristianismo encontra certamente justificativa pelo fundo mítico que já estava pronto, conforme se explica acima. Como emblema do Cristo sacrificial, o delfim pode aparecer perfurado por um tridente ou com o símbolo secreto da cruz veiculado pela âncora. Quando entrelaçado com a âncora, o delfim se torna um símbolo da prudência (velocidade controlada).
Voltando às serpentes, registremos que no folclore brasileiro, popularmente, há dois tipos delas, a de sangue quente, não peçonhenta, e a de sangue frio, venenosa. Quando a de sangue frio vai beber água num rio, diz a tradição popular, deixa seu veneno escondido numa folha. Ainda segundo a tradição possivelmente herdada de Portugal, as cobras costumam procurar mulheres que amamentam, para sugar-lhes o peito, dando o seu rabo à criança. Uma simpatia eficaz para prender cobra: a mulher deve virar o cós de uma saia branca; se estiver menstruada, basta tocar numa cobra para matá-la.
A lenda da cobra-norato é muito popular no norte brasileiro. Diz-se que engravidada pela boiuna (como Boto), numa região próxima ao município de Óbidos, entre os rios Amazonas e Trombetas, uma cunhã pariu duas crianças. Pressionada pelo pajé, atirou-as no rio, onde se criaram como cobras-d’água. O menino chamava-se Honorato (Norato) era de boa índole; sua irmã, porém, chamada Maria Caninana, perseguia animais, virava embarcações, matava os náufragos. Tantas fez Maria Caninana que seu irmão Norato para poder viver em paz a matou. Norato gostava muito de dançar. À noite, ele se transformava em rapaz elegante e frequentava as festas. Na margem dos rios, quando isso acontecia, deixava o seu couro imenso. Para se quebrar esse encanto, dizia-se que seria preciso que alguém com coragem se aproximasse dele como boto e deitasse leite em sua boca; na cabeça de Norato como boto seria preciso também dar uma cutilada de sair sangue. Se isso fosse feito, ele voltaria a ser inteiramente humano. Diz a lenda que foi um soldado que vivia em Cametá, no Pará, que realizou esta proeza, libertando Norato para sempre, mas isso nunca foi inteiramente confirmado.
A ideia de que a serpente expresse ao mesmo tempo a polaridade feminina e masculina é encontrada em muitas tradições. É a serpente neste sentido um ser cosmogônico, das origens, dos momentos da formação inicial do cosmos, dos tempos primordiais, quando as polaridades ainda não estavam bem definidas. Por isso, em muitos mitos ela oscila entre o macho e a fêmea. Como fêmea, ela se enrosca, envolve, estreita, abafa, engole, devora, digere. Noutros momentos, ela assume um papel masculino, se apropria, é poder, conquista. A fêmea é portadora da vida, é princípio anterior e, como tal, ela é quem dá origem ao masculino, como está aliás em todas as mitologias. O mito da boiuna, como tantos outros de mesma elaboração, não é mais que uma reminiscência dos momentos originais, quando os sexos ainda não estavam totalmente separados ou definidos.
Nas primeiras elaborações cosmogônicas, o ser é andrógino. A chamada arte primitiva, dos povos africanos ou indígenas, ou a oriental, principalmente a da Índia (Shiva), escandalizam ainda hoje muitos ocidentais ignorantes e/ou desinformados pela sua simbologia erótica. Não chegou e nunca chegará talvez ao grande público que no plano da sexualidade ninguém é totalmente masculino ou feminino. O mito da boiuna não é mais do que uma tradução desta dualidade num nível mais elevado e extensivo, no contexto dos povos ameríndios. O fenômeno da androginia aparece no início e ao final dos tempos. A mitologia, de um modo geral, sempre participou dessa compreensão, antecipando-se não só às conquistas da Biologia como da Psicologia. Na mitologia grega, por exemplo, inúmeros e fortes traços andróginos são encontrados em deuses e heróis como Dioniso, Adônis, Aquiles, Palas Atena, Tirésias, Castor e Polux, Ártemis etc. A rigor, toda divindade grega é bissexual. Por isso, as tendências ao transformismo ou travestismo que muitas delas apresentam.
Os mitos primitivos deixam claro que a dualidade em que o ser humano vive é falsa, mentirosa. As oposições fundamentais do céu e da terra, do dia e da noite, do calor e do frio, do masculino e do feminino nunca se resolvem totalmente. A plenitude do ser só se resolve momentânea e precariamente pela fusão das partes numa integração sempre buscada, conquistada e perdida. O masculino e o feminino não são mais que dois aspectos de uma multiplicidade de opostos que sempre se interpenetram.
Não é por outra razão que o mito da boiuna aparece dentro de um ciclo indígena maior sobre a origem da noite. Nesse mito, a boiuna casa a filha e manda-lhe a noite presa num caroço de tucumã. Os emissários da boiuna, no meio do caminho, muito curiosos, abrem o caroço e libertam a noite. A tucumã é uma palmeira que tem um caroço escuro. Como o ovo, o caroço simboliza a germinação, o princípio da manifestação a partir do qual aparecerá a dualidade e se desenvolverá a multiplicidade. Esta ideia está presente em todas as mitologias. Ovos e caroços nos mitos contêm em potencial a diferenciação progressiva dos seres.
Raul Bopp (1898-1984), descendente de alemães, nasceu no Rio Grande do Sul. Desejando conhecer o mundo, saiu pelo Brasil afora. Nesse meio tempo fez o curso de Direito, completado em três capitais (Recife, Belém e Rio de Janeiro). Na Amazônia, não demorou muito, como disse, para começar a acreditar nos seres fantásticos da floresta: o Minhocão, o Curupira, o Caapora, o Mapinguari. Ouviu muitos “causos” dos canoeiros. Poeta, participou do chamado grupo Verde e Amarelo do Modernismo brasileiro. Publicou, em 1931, o livro-poema Cobra Norato, em versos brancos, por ele mesmo definido como “obra de audácias extragramaticais e uma movimentação da matéria de camada popular”. Prendendo-se a esse grande tema das melhores tradições indígenas do norte do Brasil, o da boiuna, o poeta realizou uma fusão da linguagem poética e dialetal com a visão fantástica de uma Amazônia em que os cipós e as raízes se entrelaçam com as evocações de animais fabulosos. Em 1932, ingressou na carreira diplomática. 
Dentro do movimento modernista deflagrado em 1922, a literatura teve um papel muito importante, nela se destacando principalmente a produção poética. Uma das vertentes da produção poética foi a nacionalista, enfatizando-se especialmente o folclore e os mitos históricos brasileiros. Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Menotti Dei Picchia, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Jorge de Lima, Raul Bopp, Augusto Meyer e outros, todos se voltaram para os temas brasileiros. Oswald de Andrade, em 1924, lança o Manifesto Pau-Brasil e Menotti DeI Picchia o Manifesto Verde-Amarelo. O objetivo de ambos era o de levantar e usar um ternário artístico exclusivamente brasileiro.
É no quadro sumariamente acima apresentado que o livro-poema de Raul Bopp se situa. Cobra-Norato e outras produções como Macunaíma, de Mário de Andrade, e Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, constituem as três principais obras poéticas sobre a mítica brasileira segundo a proposta modernista.