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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (3)

                  
SAGITÁRIO
VITRAL DA CATEDRAL DE CHARTRES
A flecha sagitariana, em muitas tradições astrológicas, cortada por um pequeno traço de modo a se introduzir no símbolo do signo uma cruz, nos remete a ideias de transcendência e de totalização com relação aos planos terrestres. A cruz, é bom lembrar, se liga, acima de tudo, ao simbolismo do quatro e, como tal, está na base dos quatro pontos cardeais, que determinam as nossas possibilidades de orientação espacial no planeta Terra. Quanto à dimensão temporal, seus braços, ao dividir o círculo em quatro partes, quadrantes, apontam para os eixos equinocial e solsticial, para um tempo circular, o do ciclo anual com os seus quatro sub-ciclos.    


FLECHA   DE   SAGITÁRIO
A cruz na flecha de Sagitário nos indica de modo indiscutível que a transcendência proposta pelo signo será sempre a da ultrapassagem do nível ou do limite existencial em que o homem se encontra. Não sugere este símbolo, ainda que seja Sagitário considerado com o signo das religiões, uma transcendência em “direção do céu”, de uma ordem extraterrena. O homem, na ordem zodiacal, que a perspectiva sagitariana confirma, é sempre um ser a se fazer e a se refazer aqui, na terra, entre os outros homens. Sagitário não propõe uma transcendência em direção de um absoluto que esteja fora do humano, mas de um absoluto sempre entendido com relação ao próprio homem. O homem será, então, sempre, aquele que tem a se fazer a si mesmo constantemente. É em Sagitário que o homem começa aprender a conquistar uma dimensão espiritual, a ir além de si mesmo e da sua vida social, a caminhar em direção da humanidade (de Aquário e de Peixes). Antes, porém, terá que vencer a prova da montanha com relação aos significados de Capricórnio.

ILUMINURA   MEDIEVAL  ,  SÉCULO  XI

O que está acima acredito será suficiente para se entender que o tempo da astrologia deve ser considerado ciclicamente, como o fizeram os antigos astrólogos gregos e   védicos e não linearmente, como o viram os astrólogos medievais. A noção de que  a astrologia e, consequentemente, Sagitário têm a ver com o tempo linear é produto do pensamento judaico-cristão e foi introduzida já no início da Idade Média com a vitória das religiões patriarcais. A
HORÓSCOPO  NA  TORRE  DOS  MOUROS , VENEZA
concepção linear do tempo o entende como uma sequência irrepetível e irreversível de eventos que vão se encaminhando para um determinado fim, em direção de uma divindade transcendente. Transcendente, neste sentido, refere-se a uma realidade que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão ao apontar para um criador distinto da sua criação.  A concepção circular zodiacal nos indica claramente que no universo tudo está em permanente devenir e sujeito a um eterno retorno.   


CENTAURO   KIRON   ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 ) 

O fogo sagitariano não se liga tanto à ação (Áries) ou à individuação (Leão) mas, sim, estando já o mundo natural no seu declínio (outono, quase inverno), liga-se a uma ideia de que, com ele, o homem poderá ir além de si mesmo. Esta transcendência, pelo lado da flecha, sempre significará, nos tipos evoluídos, uma espécie de transporte espiritual, um fogo que tanto fale de purificação como de iluminação e sagração. Lembremos que o terceiro signo do terceiro quadrante indica que o social está chegando ao fim e que o coletivo está para começar (quarto quadrante). Nesta etapa, o distante começa a triunfar sobre o próximo. Com Sagitário chegamos ao fim da trindade do fogo. Se em Áries, ele é movimento visceral, se em Leão ele é a expansão do eu e a sua magnificência, em Sagitário ele será a decantação espiritual, a iluminação do espírito, pela qual o instinto e o ego devem ser ultrapassados. 


KIRON
Para uma melhor compreensão do signo de Sagitário, no cenário acima descrito, importante será não se perder de vista a polaridade entre Kiron e Ixion. Essa polaridade permite que, para fins práticos, seja possível definir os dois tipos humanos básicos do signo, consideradas as dominantes elementares de cada caso: do lado do primeiro, Kiron, temos ideais de sabedoria, de luz interior, o que lembra uma certa nobreza no trato das questões práticas; presente muitas vezes um espírito idealista,
SUPLÍCIO  DE  IXION, 330 aC
embora, pelo lado ígneo do signo, o entusiasmo e a falta de paciência com detalhes possa ocasionar até problemas mais sérios quanto à continuidade da ação. Do lado do segundo, Ixion, de início, uma observação que me parece muito adequada aos sagitarianos “ixiônicos”. Há neles, no eu visível, em maior ou menor grau, um certo teriomorfismo equino, muitas vezes visível por um rosto impregnado de tristeza, a refletir a grande pressão da vida instintiva, animal, sobre possíveis aspirações à transcendência. 




BELEROFONTE   E   A   QUIMERA  ( MOSAICO )

Além disso, há a considerar que o tipo “ixiônico” parece guardar muitas marcas do signo anterior, nele predominando um lado animal, mais “escuro”, menos consciente, enquanto no primeiro tipo, inspirado por Kiron, o aspecto humano, mais iluminado, costuma se revestir de impulsos ascensionais mais firmes. Da história dos centauros é que vêm para os do signo, onde o lado animal prevalece, traços como a irracionalidade, a insolência, a falta de domínio dos sentidos. Para aqueles que muitas vezes  julgam ter alcançado o terceiro nível do signo, comuns a falsa autoconfiança, a presunção, que a história do herói Belerofonte talvez descreva melhor do que qualquer outra.

É a partir deste ponto que podemos também definir, de outro modo, como fizemos com relação a Ixion e Kiron, dois grandes tipos do signo, complementares àqueles: o introvertido, que enxerga longe, e o extrovertido, que tem a paixão dos caminhos, a necessidades dos largos horizontes. Um é vertical (angulação de 45º), o outro se projeta só no horizontal. O que fica claro para nós, a partir destas cogitações, qualquer que seja o tipo sagitariano, é que as conexões próximas com o mundo, estabelecidas através de Gêmeos (signo oposto ao de Sagitário, que governa o mental inferior e as pequenas viagens), se ampliam na direção das conexões de longo alcance (grandes viagens) ou com a finalidade de integrar o social e o espiritual. Com relação a estes, supera-se a individualidade, sendo possível chegar-se ao metafísico. O ser se unifica pela correta compreensão dos seus três níveis: o animal (instinto) se submete ao racional e este se põe a serviço do espiritual, como já foi dito.


KIRON , MESTRE  DE  AQUILES
As cinco grandes artes ensinadas por Kiron a seus discípulos foram a Hípica, a Cinegética, a Mântica, a Agonística e a Iátrica, entendidas tanto literalmente como metaforicamente. A Hípica é, numa palavra, a arte de dominar cavalos. Metaforicamente, como se disse, será a arte do domínio do psiquismo inconsciente, das forças obscuras que “vivem” na interioridade do homem, que o animal simboliza. Se o cavaleiro não for mestre da montaria, ele será “conduzido” pela besta,  cavalgado pelo seu psiquismo inconsciente, se transformando num “cavalo”.


MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
Nos cultos dionisíacos, como nos mistérios de Elêusis, dizia-se que os seus adeptos eram cavalgados pelo deus, sendo essa uma das razões pela qual há nas religiões de mistério e nos cultos das Grandes-Mães tantas figuras hipomorfas. Os sátiros, os silenos, as mênades, as figuras e personagens ligados a cultos orgiásticos ou nos quais a vida inconsciente domina a consciente, costumam ter nomes em cuja composição entra frequentemente o radical hipo ou hip: Hipólito (filho de Teseu e de Antíope, amazona); Hipe (filha de Kiron, raptada por Éolo); Hipo (jovem beócia, filha de Cédaso); Alcipe (filha do deus Ares); Melanipo (filho do deus Ares), Hipocoonte (envolvido em lutas pelo trono de Esparta), Hipodamia (princesa de Pisa, na Elida), Hipóloco (filho de Belerofonte) etc. 



BATALHA   DAS   AMAZONAS

Uma das histórias da mitologia grega mais ligadas a cavalos é a das Amazonas. Certas passagens da crônica dessas guerreiras deixaram lembrança na vida dos povos. A de Pentesileia (a que luta e sofre por seu povo, etimologicamente), filha do deus Ares, rainha das
AQUILES E PENTESILEIA
J.H.W. TISHBEIN, 1751-1829
mulheres guerreiras, é uma das mais notáveis. Depois da morte de Heitor, ela seguiu para Troia para lutar ao lado dos troianos contra os aqueus. Muito corajosa, excepcional guerreira, sempre deu demonstrações de muita bravura nos campos de batalha. Enfrentou Aquiles de igual para igual, mas morreu ao ter o herói aqueu trespassado o seu seio com uma lança. Diante da bravura de Pentesileia e de sua beleza, Aquiles se comoveu muito, chegando às lágrimas. Um de seus companheiros, Tersites, covarde e atrevido, ao tentar ridicularizá-lo pelas lágrimas derramadas diante do corpo de Pentesileia e além do mais tendo procurando desfigurá-la, foi morto a socos pelo nosso herói.

Outro exemplo, é o de Antíope, irmã de Hipólita, rainha das amazonas. Vencida por Teseu (sexto trabalho de Hércules), por ele será desposada, da união nascendo Hipólito (etimologicamente,
STRABON
aquele que libera os cavalos), mais tarde enteado de Fedra, iniciado nos cultos de Ártemis. Digno de registro é o fato de que todos os heróis gregos que lutaram contra essas guerreiras se impressionarem muito com elas, pela sua capacidade de luta, pela sua beleza, inclusive a elas se unindo muitas vezes. O famoso geógrafo Strabon (58 aC-25 dC), que muito estudou a origem dos povos da antiguidade, deixou registros sobre elas. Fala de várias gerações de mulheres belicosas que lutavam a cavalo, vivendo ao norte da África, na Líbia. Abandonando a vida nômade, passaram a viver na ilha da Samotrácia, ilha grega do mar Egeu.

Com efeito, as amazonas sempre foram consideradas como as primeiras cavaleiras da História. Extremamente hábeis, elas pareciam fazer um só corpo com as suas montarias, percorrendo as estepes ao norte do mundo grego, embriagadas de liberdade. Traços dessas mulheres podem ser encontrados na Europa, na região do Cáucaso e na Cítia, na Ásia Menor, e principalmente nas margens do mar Negro. 


AMAZONA  ( ESCULTURA  EM  MÁRMORE )
Grandes caçadoras, vivendo da pilhagem, habilíssimas no arco e na lança, uma vez por ano “encontravam-se” com homens, por elas raptados, a fim de garantir sua sobrevivência. As meninas que nasciam desses relacionamentos eram educadas para se tornarem futuras amazonas. Os meninos eram devolvidos ao mundo masculino ou mortos, raramente sobrevivendo. Atribuem-se a elas a fundação de muitas cidades e de templos, especialmente o de Éfeso, na costa da Ásia Menor, dedicado a Ártemis, deusa muito cultuada por elas, templo considerado uma das sete maravilhas do mundo, incendiado por Erostrato em 365 aC. Há registros de que elas teriam invadido e se apoderado da cidade de Troia, perecendo nos combates então travados a sua rainha, Marpessa.

CAVALARIA  MEDIEVAL
Como afirmamos em Sagitário (2), desde a antiguidade grega  que o aspecto noturno do cavalo, como símbolo do psiquismo descontrolado do homem, veio sendo atenuado, suavizado. Um grande esforço aconteceu nesse sentido já nos primeiros séculos da Idade Média quando a cavalaria medieval passou a ser considerada como um código de honra de uma aristocracia marcialmente orientada. Floresceu mais esse entendimento entre meados do sécs. XII e XVI. Seu estudo à luz da astrologia é muito importante para uma compreensão mais rica e abrangente dos valores sagitarianos.

A influência religiosa da Igreja católica foi muito grande sobre o mundo da cavalaria. Com sua ação, a Igreja católica procurou mudar a noção do chamado comportamento cavaleiresco. Procurou ela conter de algum modo o ímpeto guerreiro, dando um outro sentido às virtudes da bravura e da coragem, tornando o cavaleiro mais gentil, menos violento, trazendo ideias de respeito pela vida e da dignidade humana, até mesmo em ocasiões de envolvimento com inimigos mortais.


TORNEIO   MEDIEVAL

Nesse período, outro elemento que se inseriu fortemente na história cavaleiresca foi o feminino. As mulheres passaram a frequentar como espectadoras os torneios, as justas que começaram a se realizar. As ideias do cavaleiro servir à sua dama se firmam, ganhando elas uma expressão literária, as chamadas produções do amor cortês, do qual passa a fazer parte uma grande quantidade de símbolos, lembranças e emblemas femininos que o cavaleiro levava consigo ao partir para as suas viagens e aventuras. O ideário cavaleiresco da época (séc.XIII) procurou fixar, dentre as obrigações do cavaleiro,  quatro principais: a) repudiar o falso julgamento e a traição; b) honrar as mulheres; c) assistir à missa diariamente; d) jejuar às sextas-feiras.


LA   DAME   À   LA   LICORNE

Um dos documentos básicos medievais, de grande expressão artística, no qual o cavalo e a mulher aparecem associados é a famosa tapeçaria de La Dame à La Licorne, já mencionada. Essa peça é formada por seis tapeçarias confeccionadas entre os sécs. XV e XVI, para Jean Le Viste, um importante magistrado da época. Em cada uma das seis grandes partes do conjunto, sob um fundo azul de millefleurs e de animais, uma jovem mulher é representada, cercada por emblemas heráldicos, notadamente um leão e um licorne (unicórnio). O conjunto, hoje no Museu de Cluny, forma uma a alegoria sobre os cinco sentidos, apresentando a sexta parte a inscrição à mon seul désir, que podemos traduzir como segundo meu livre arbítrio, ou seja, sem submissão aos sentidos.

O licorne é um animal fabuloso, que possui o corpo de um pequeno cavalo branco, com um chifre, a cujo simbolismo sua imagem parece se ligar de modo especial. Símbolo fálico, o chifre evoca aqui ideias de fecundação espiritual no plano humano, no plano da matéria. Ctônico e infernal na origem, o cavalo se torna branco, solar, passando ele a simbolizar aqui o controle dos sentidos pela intervenção do feminino. A inspiração é grega, como a encontramos na história do corno da abundância, criado por Zeus, a partir dos chifres da cabra Amalteia). A Igreja católica, na Idade Média, encampou a lenda do unicórnio com a conotação de que esse animal fabuloso só poderia ser capturado por uma virgem, o que deu à história e às suas representações um sentido religioso, enaltecendo-se sempre o mundo feminino e a sua pureza. 

O cavalo, como vimos, na figura do centauro, simboliza a parte
KIRON  ( VASO  GREGO )
instintiva, o potencial energético, que deverá ser encaminhado para fins elevados. Toda esta simbologia transforma, sem dúvida, a figura do centauro Kiron numa das mais belas imagens criadas para representar a trajetória evolutiva do animal ao homem superior. O grande alcance desta representação se amplia se lembrarmos que, segundo a astrologia, as partes do corpo humano têm relação com os signos. As coxas (região coxo-femural) são exatamente o lugar onde se concentra a energia dos nativos do signo de Sagitário, área corporal de extrema importância para os cavaleiros, na medida em que envolvem as ilhargas do animal, região do abdome e das costelas.

A mitologia grega nos deixou várias histórias de heróis e de suas montarias, histórias que, se interpretadas à luz da astrologia, nos oferecem muitas ilustrações sobre o mundo sagitariano. Uma delas, muito instrutiva, é a de Belerofonte, acima mencionado. Como ocorre com muitos heróis gregos, Belerofonte tinha dois pais, um divino e um humano. Seu pai divino era Poseidon, deus dos oceanos e dos mares. A mãe chamava-se Eurínome, uma princesa, filha do rei de Mégara. Seu pai humano era Glauco, este por sua vez filho Sísifo, o inteligente e esperto rei de Corinto, conhecido como o mais inescrupuloso dos mortais, um herói que se transformou num dos maiores  criminosos da mitologia.



PÉGASO, PALAS  ATHENA  E  BELEROFONTE ( J. BOECKHORST , C.1680 )  

Da casa real de Corinto, Belerofonte, depois de inúmeras aventuras, feitos e malfeitos, conseguiu, com o auxílio de Palas Athena, domar Pégaso, o que lhe deu condições de praticar excepcionais atos heroicos como o de matar a Quimera, pavoroso monstro, de vencer  um povo selvagem, os Solymos, filhos de Ares, e suas aliadas, as Amazonas, e de eliminar os piratas que infestavam as costas da Cária.  Casado, com filhos, reconhecido como herói, tudo parecia ir bem, vivendo nosso herói, reverenciado por todos. Sem que ninguem explicasse, um certo dia, tomado por imensa e incontrolável hybris, tentou Belerofonte, montado no Pégaso, invadir o Olimpo, na esperança de conquistar a imortalidade. Desconhecendo o seu metron, tentou ultrapassar limites que nunca deveria ter rompido. Fulminado por Zeus, foi devolvido à Terra. Zeus não o matou, porém. Fez com que sobrevivesse, rebaixado, humilhado e esquecido por todos, perdido, a perambular pelos caminho da Terra. Sua morte não é registrada pelo mito. 

CONSTELAÇÃO
Quanto a Pégaso, foi ele colocado nos céus na forma de uma constelação boreal, numa região situada entre o final de Aquário e o início de Áries. Influencia essa constelação os humanos principalmente através de sua estrela alfa, Markab, predispondo-os a um comportamento ambicioso, vaidoso, entusiasta, caprichoso, mas falho quanto às suas avaliações. Os gregos, como se sabe, têm um ditado: Os deuses enlouquecem aqueles a quem querem perder. Tomar um lugar entre os olímpicos, torna-se imortal, desposar Hera? Mais outro: Quanto maior a ambição, maior a queda. Belerofonte sonhou alto demais, foi além do seu metron, um dos maiores pecados sagitarianos. 

Evidentemente, os discípulos de Kiron eram exímios cavaleiros. No entanto, pelas lições do centauro-mestre, aprenderam também que a Hípica por ele ensinada dizia mais respeito ao controle da sua vida interior do que propriamente à sua habilidade com os animais. Foi a partir destas lições de Kiron que Asclépio, como deus médico, pode desenvolver no seu santuário de Epidauro conceitos como o  de nooterapia (terapia da mente), que levava à metanoia  (transformação de sentimentos), conceitos sempre associados, por exemplo, dentre outras práticas, à oniromancia (interpretação dos sonhos).

Inseparável do homem como montaria por milhares de anos, esta dialética noturna e diurna do cavalo, lunar e solar, se quisermos, se fixou simbolicamente no funcionamento da sua vida psíquica. Para que o animal se tornasse solar, celeste, cabia ao cavaleiro assumir o seu controle, adquirindo uma técnica ensinada por Kiron. Na antiga
USHAS
índia, lembre-se, este cavalo solar era chamado de asha, palavra que significa percuciente, perspicaz, penetrante, numa referência ao poder que tem a luz de penetrar e clarear tudo. Asha era palavra usada também com o significado de desejo e espaço. É por essa razão que os Ashwins (nome do signo de Gêmeos), os Dioscuros védicos, mestres cavaleiros, na astrologia hindu, vêm montados a cavalo, trazendo consigo, Ushas, a deusa da aurora, uma ilustração da transição das trevas para a luz. 

Outra arte ensinada por Kiron aos seus discípulos era a cinegética, a arte de caçar com cães. Participando de um rico universo simbólico, o cão, dentre as suas múltiplas funções, trouxe da pré-história para o mito a de guia psicopompo, guia do homem na noite da morte depois de tê-lo acompanhado à luz do dia. Temos registros em muitas tradições de cães que quando da morte de seu dono foram sacrificados para ajudá-lo a encontrar o bom caminho na vida depois da morte. O dom de clarividência que o cão tem, a sua familiaridade com as forças invisíveis, fez dele um companheiro inseparável do caçador, um farejador, um indicador de trilhas que levam à boa caça. 

TAROT
A moderna psicologia liga o cão ao processo da individuação do ser humano considerando-o como representante do primeiro estágio da sua evolução psíquica. Na astrologia e no Tarot encontramos estas mesmas ideias, já abordadas neste blog, no item constelações austrais, nos tópicos referentes às constelações do Cão Maior e do Cão Menor. A arte cinegética que Kiron ensinava aos seus discípulos é, se a iluminamos com a astrologia, metaforicamente evidente: é a arte de caçar oportunidades de crescimento. 

A cinegética de Kiron tinha por objetivo maior, além de elevar as pressões do lado animal, possibilitar ao discípulo a aquisição de um mental superior que o pusesse em contacto com o mundo espiritual. Um mental  que tanto o ajudasse a discriminar como decidir quanto  ao rumo de suas ações, de modo que cada uma delas pudesse beneficiá-lo, mas que isto não significasse a perda da perspectiva espiritual, ou seja, a de que o Todo (as pessoas e o mundo natural) fosse igualmente ou até mais favorecido. O ensinamento de Kiron respondia a objetivos que valorizassem a vida espiritual, interesses muito diferentes daqueles a que se entregava a humanidade, sempre desejosa de satisfações passageiras, presa a insaciáveis prazeres sensíveis. 


DHANUS
Crescer no sentido aqui colocado tanto poderá significar progresso material, conquista de posições mundanas como, sobretudo, se quisermos melhorar realmente o mundo em que vivemos, buscar conhecimentos moralmente orientados para inspirar nossas ações. É neste sentido que a cinegética de Kiron se aproxima muito da visão que os antigos povos védicos tinham de Dhanus (Sagitário). 

Para tanto será preciso considerar que conhecimento deve ser informação processada e transformada em experiência pelo indivíduo. Como atividade intelectual, a aquisição de conhecimentos é processo através do qual, em função da informação recebida, questionamos, indagamos, relacionamos e comparamos as coisas do mundo. Só assim o conhecimento poderá ser acrescentado a um repertório individual que tanto eleve intelectualmente o homem como o espiritualize.  

Onde obter conhecimentos hoje? Lembremos que atualmente, se nos restringirmos aos conceitos urano-geminianos vigentes, baseados sobretudo na renovação constante das informações em função de critérios de obsolescência  programados pelo Mercado,  com um instrumental tecnológico adrede preparado, pouco ou nenhum tempo teremos para criticar e assentar as informações, a fim de transformá-las em conhecimento, e muito menos distribuí-las como sabedoria. Este é hoje um perigo que, como nunca aconteceu antes historicamente, ronda o homem moderno, incentivando-o a passar os seus dias e noites digitando computadores, tablets, notebooks e smarts etc sem nenhuma noção de quem seja Kiron com as suas flechas.

É preciso lembrar que Sagitário propõe um estágio de desenvolvimento através do qual podemos ativar nossas energias vitais num grau máximo de expansão e mobilidade. Visão ampla,
CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO
alargamento de níveis de consciência, pulsações criativas, viagens físicas, mentais ou espirituais, exploração de novos meios de expressão. Tudo isto nos é indicado nos céus se sabemos olhar para  a constelação do centauro Kiron, que parece apontar a flecha para a estrela Antares, o coração vermelho de Escorpião, ao mesmo tempo em que parece, com as suas estrelas, se abrir para uma enorme nuvem estelar, composta de milhões de sóis, a nuvem mais luminosa da Via-Láctea, e também para gigantescas nebulosas e massas escuras de poeira cósmica.






quarta-feira, 12 de abril de 2017

CÂNCER (2)

                          

CÂNCER (ALFONS  MUCHA,1860-1939)
Câncer é um signo lunar, feminino, cardinal, do elemento água, representando a vida e o patrimônio familiar, a mãe, a vida doméstica, os primeiros anos da infância. Na ordem temporal do Zodíaco, situa-se Câncer nove meses antes do signo ascendente,  associado ao signo de Áries (equinócio da primavera). É neste sentido que o signo de Câncer simboliza a fecundação e a concepção, ato pelo qual se dá a junção de gametas (células germinativas) que resultarão na formação de um zigoto (célula resultante da união dos gametas masculino e feminino). 


STONEHENGE


É de se lembrar que em meados do séc. XX, estudiosos ingleses da Universidade de Oxford, pesquisando o famoso monumento megalítico que se encontra no sul da Inglaterra, Stonehenge, há milênios, descobriram que do seu interior era possível se determinar com exatidão, tendo-se em vista a importância que tal determinação tinha para a agricultura, a entrada do Sol nos eixos equinociais e solsticiais. Constatou-se mais que os construtores de tal monumento a ele haviam incorporado conhecimentos matemáticos mais avançados do que aqueles encontrados alguns milênios mais tarde em edificações religiosas egípcias e mesopotâmicas. Mais ainda: constatou-se que nesse monumento e em edificações semelhantes, como as de Carnac, na Bretanha francesa, nos seus dolmens e menhirs, em algumas das enormes pedras usadas, com toneladas de peso, estavam entalhados alguns sinais que mais tarde fariam parte da codificação da linguagem astrológica. Um dos sinais mais notáveis foi um constituído por duas pequenas formas, dispostas horizontalmente, uma entrando na outra, formas muito parecidas com os algarismos seis e nove, que lembravam  bastante o símbolo do signo de Câncer. 


CARNAC ,  BRETANHA , FRANÇA

Desde a mais remota antiguidade, o signo de Câncer ficou conhecido como o signo das Grandes Mães, da Mãe Terra, principalmente, no seio da qual as sementes recebidas se desenvolviam e tomavam forma. Na antiga Caldeia, entre 4.000 e 3.000 anos aC, o signo já era conhecido como o Portal dos Homens, a entrada pela qual todas as almas que desciam dos céus entravam no plano da matéria, assumindo a forma humana. 


VÊNUS   WILLENDORF
Imagens de figuras femininas, pequenas estatuetas, que a arqueologia vem trazendo à luz, permitem-nos afirmar que o culto às Grandes-Mães, no paleolítico, em várias partes do mundo, já era praticado por volta de 30.000 anos aC ou mais, desde tempos mais recuados. A produção dessas estatuetas, muito variada, estendeu-se até a era astrológica de Touro, que se estendeu mais ou menos entre 4.000 e 2.000 aC. Foi por esta época, na transição da era de Touro (signo feminino, lunar) para a era de Áries (signo masculino, marciano), que se concluiu a passagem da tutela da unidade familiar do
 ARTHUR  JOHN  EVANS
feminino matriarcal para o masculino patriarcal. As descobertas de A.C. Evans (1851-1914), em Creta, que aproximaram a História da Mitologia, em fins do século XIX, deixaram claro que por volta de 3.000 aC existia na ilha, na chamada civilização minoana, uma avançada ginecocracia. Esta civilização, como se sabe, foi destruída tanto, em parte, por catástrofes naturais (maremotos) como, principalmente, pela ação dos guerreiros aqueus (micênicos). 






Com base em trabalhos do suíço J.J.Bachofen (1815-1887) e outros, foi possível se estabelecer historicamente uma divisão do matriarcado em três grandes períodos: 1) Heterismo; 2) Amazonismo; 3) Demetrismo. O primeiro período se destacou por apresentar uma espécie de comunismo tribal, com fortes componentes nômades e acentuada promiscuidade sexual. As
JOHANN JAKOB BACHOFEN
mulheres dominavam a vida social nesse período, exercendo os homens, dentre outras funções, menos significativas, a de machos reprodutores. A Grande-Mãe era representada, nesse período, por pequenas figuras femininas obesas, esteatopígicas, uma espécie de proto-Afrodite, no dizer de Bachofen. As estatuetas acentuavam fisicamente sempre o que sobretudo na mulher lembrava a fecundidade, o ventre, os seios, as nádegas e a vulva.


Bachofen fala que na segunda fase do matriarcado, com a diminuição das atividades predadoras e coletoras, um incipiente processo de sedentarização deu origem ao aparecimento da agricultura e de cultos ctônicos, de forte inspiração feminina, adquirindo as Grandes-Mães características lunares, representadas por figuras que lembravam vagamente a Deméter grega. 



AMAZONAS  ( HEINRICH  WILHELM  TISCHBEIN , 1751 - 1829 )


AMAZONA  A  CAVALO
VASO  GREGO
Ao final desta segunda fase surgiu o que os estudiosos chamaram de amazonismo. Os antigos  gregos, como sempre, se encarregaram de explicar um acontecimento social através da sua mitologia. Filhas do deus Ares e da ninfa Harmonia, protegidas pela deusa Ártemis, as amazonas eram mulheres guerreiras que viviam perto do Cáucaso, formando comunidades que se opunham ao poder
HÉRCULES  E  A  RAINHA  DAS  AMAZONAS
( NICOLAS  KNUPFER , 1609 - 1655 )
masculino. O antagonismo entre os dois princípios foi aumentando, acabando o poder feminino por perder os seus antigos privilégios. Heróis dos mitos gregos, saturados de machismo, como Hércules e Teseu, principalmente, encarregar-se-ão de liquidar, no mito, o princípio feminino com as suas façanhas. No seu sexto trabalho (veja-o neste blog), Hércules, comandando um exército, em companhia de outros heróis, foi ao país das amazonas e as exterminou. 

Sob o ponto de vista astrológico, o início do culto às Grandes-Mães se define melhor na era de Câncer, situada mais ou menos entre 8.000 e 6.000 aC, no neolítico, com forte ênfase matriarcal, caracterizado pela crescente sedentarização de contingentes humanos que viviam dispersos, retirando o seu sustento de atividades predadoras. A agricultura e a domesticação de animais ganharam grande impulso no período.

POTNIA   THERON
Nos milênios seguintes, mesopotâmicos, sumérios, egípcios, védicos, fenícios, cretenses, gregos, romanos, celtas, nórdicos, afro-brasileiros e outros, cada um a seu modo, deixaram-nos, para designar as grandes deusas do período matriarcal, nomes como Deusa das Montanhas, Senhora  dos Animais (Potnia Theron), Deusa das Serpentes, Deusa Mãe. Aos poucos, conforme as várias culturas, os mitos,
DEUSA  DAS  SERPENTES
suas histórias e os nomes, em várias regiões da Terra, foram se tornando mais precisos: Tiamat, Aditi, Cibele, Sarasvati, Kali, Isis, Ishtar, Astarte, Eurínome, Geia, Reia, Afrodite, Dana, Freya, Magna Mater (nome de Cibele entre os romanos), Tellus Mater (Mãe Terra), Iemanjá, Iansã e outros.


Na Mesopotâmia, por volta do ano 3.000 aC, encontramos ilustrações da vitória do patriarcado. A mitologia dos mesopotâmicos nos deixou a história da deusa Tiamat, o princípio feminino, sempre confundido com o caos e a desordem, submetido, em nome dos demais deuses celestes, pelo herói Marduk. Os gregos, em sua mitologia, nos deixaram também histórias semelhantes, sobre a total submissão do princípio feminino ao poder masculino. Lembre-se, por exemplo, da conquista de Delfos, guardado pelo dragão Ladon, pelo deus Apolo. Delfos era um centro oracular tutelado pela Grande-Mãe Geia e por sua filha Têmis. Ou, cite-se, a vitória que o herói grego Teseu obteve sobre o Minotauro às custas da princesa cretense Ariadne, depois por ele abandonada. Ou, ainda, a conquista do Velocino de Ouro pelos argonautas, comandados por Jasão. Se não fosse Medeia, princesa e grande maga, sobrinha de Circe, os cinquenta e cinco heróis gregos jamais teriam conquistado o precioso tesouro.  


JASÃO  E  OS  ARGONAUTAS ( CHARLES DE LA FOSSE , 1636 - 1716 )

Ao desenterrar o mundo matriarcal, os pesquisadores nos ajudaram a reavaliar corretamente a história da humanidade e o papel que nela teve a mulher, embora muitas de suas conclusões venham sendo apresentadas com notáveis preconceitos machistas, algo que nem uma pretensa objetividade científica consegue camuflar. Dentre outros preconceitos, destacamos, por exemplo, o nome dado à primeira fase do matriarcado, heterismo, do grego hetaira, prostituta, algo absolutamente incorreto, pois a prostituição (ganho de dinheiro pela prática de atos sexuais) nunca fez parte do mundo matriarcal. O que temos de confirmado é que na ordem matriarcal sabia-se quem era a mãe, não o pai. A transmissão do poder social, inclusive de bens, quando havia, era matrilinear, sendo o pai uma figura bem menos importante, ignorada até sob vários aspectos. As uniões não eram monogâmicas. A vida dependia da mulher, cujo corpo analogicamente se confundia com a própria terra como fonte da existência. 

Foi durante o período matriarcal que a mulher, através das Grandes-Mães, comandou todos os ritos de fertilidade. No período matriarcal ela se tornou tanto dona da vida humana como do solo, da terra e dos animais. Foi neste período que se reforçou a união entre a mulher, o mundo vegetal e o mundo animal, preservando-se e reverenciando-se a fecundidade. Vêm desse mundo, por exemplo, as notáveis relações entre as deusas lunares Hécate e Ártemis com animais que lembram a fertilidade. 

Em Creta, os cultos à Grande-Mãe eram apresentados sob os aspectos da Montanha-Mãe, da Terra-Mãe ou da Deusa das Serpentes. Nas ilhas do Egeu, antes da ocupação pelos aqueus do território  que constituiria depois o mundo grego, os pelasgos
NISABA
cultuavam uma Grande-Mãe como divindade geradora da vida, da natureza, das águas, da fertilidade, doadora da agricultura e inventora da linguagem escrita. Lembre-se que em várias tradições a invenção da linguagem sempre foi atribuída às Grandes-Mães, como o encontramos na Índia (Sarasvati), entre os celtas (Brígida) e os sumérios (Nisaba). 


CIBELE
Na Ásia Menor, na Anatólia, de onde saíram, os cultos de Cibele talvez sejam os que  melhor representem o poder feminino, sob um aspecto tão dominador e cruel quanto o instaurado pelo poder patriarcal. Divindade frígia, seus cultos penetraram na Grécia e em Roma como representação do poder vegetativo e selvagem da natureza. Colocada nos panteões como uma deusa da fertilidade, ela chegou, no mundo mediterrâneo e na Ásia Menor, a dividir, em Roma principalmente, com Júpiter, na religião romana, o poder soberano sobre a reprodução das plantas, dos animais, dos homens e dos deuses. Conduzindo um carro puxado por leões, símbolo da força masculina, ela carregava consigo uma chave que lhe dava acesso, na superfície da Terra, através de uma porta, às riquezas que estavam nas suas profundezas. Na cabeça, ostentava uma coroa, encimada por um crescente lunar, formada por torres, a lembrar que o seu poder se estendia também à vida urbana. 


O  TRIUNFO  DE  CIBELE ( HANS  FRIEDRICH  SCHORER , 1634 )

Os cultos de Cibele, de natureza orgiástica, tinham um forte componente lunar e seus sacerdotes e adoradores, durante os seus solenes festejos, como Magna Mater ou Bona Mater, se
ATIS ( SÉC. II ) 
emasculavam e vestiam roupas femininas. No mito oriental, Cibele tinha por companheiro, Atis, divindade anatólia da vegetação, seu servidor e amante, que morria e renascia anualmente, no que lembra outros personagens míticos, também divindades da vegetação, como Tammuz e Adônis, na forma em que estes aparecem nas histórias de   Ishtar e de Afrodite.  





CÁRITES ( P.P. RUBENS )
Os aqueus, de origem indo-europeia, quando se instalaram no continente, fundando Micenas e Tebas, por volta de 2.000 aC, deram à Grande-Mãe dos pelasgos o nome de Eurínome (etimologicamente, a que governa um grande domínio), criando para ela mitos para enquadrá-la na nova ordem, terminando por rebaixá-la à condição de amante de Zeus, e tornando-a mãe das Cárites e do deus-rio Asopo. 

O que fica do que está acima é que a valorização do meio natural sempre esteve muito mais associada ao mundo feminino que ao mundo masculino. Quando a partir do neolítico as sociedades agrícolas começaram a se formar, criando uma economia baseada na produção da terra, a mulher passou a ocupar um lugar importante socialmente, pois, como a terra, era ela a doadora da vida. Os vegetais brotavam da terra, sendo colhidos no fim do verão. No outono a vida vegetal se recolhia ao interior do solo e lá ficava até o fim do inverno, quando os primeiros sinais do início de um novo subciclo, a primavera, se anunciavam. O degelo chegava ao fim, o carneiro começava a saltar nos campos, o Sol entrava na constelação de Áries. 

Nesse mundo, nascer era sair do ventre da mulher, como a planta saía do interior da terra. Morrer era retornar à terra, dona das forças universais. É desse entendimento que nos vêm as imagens das deusas dessas sociedades, nutridoras, doadoras da vida vegetal, animal e humana, das águas, do céu. Na mitologia grega, quem criou 
ADITI
o céu, em condições de igualdade, para que ele a cobrisse, foi Geia, a Grande-Mãe, suporte de toda existência, inclusive dos deuses celestes. Na Índia, Aditi, uma Grande-Mãe universal, a "liberta e ilimitada", como está no Rig-Veda, representava o céu, contrapondo-se à terra, "finita e limitada". Como Deva-Matri, era a mãe dos deuses celestes, os chamados Adityas, em numero de doze, simbolicamente visualizada pela passagem do Sol pelas constelações zodiacais.

Aos poucos, firmando-se o poder masculino, o céu, um território feminino (entre os antigos egípcios quem o dominava era a deusa Nut), foi passando para a tutela masculina, dando-se, no mundo
DYAUS   PITAR
indo-europeu, à divindade que sobre ele estendeu o seu poder, o nome de Dyaus. Etimologicamente, esse nome vem do radical proto-indo-europeu diw, deiwos, que significa brilhante, celeste, elevado, de onde saíram nomes como Dyaus, Dyaus Pitar, Zeus, Júpiter, Jovis e Deus. Na Índia, temos Dyaus-Pitri, Deus-Pai, considerada a Terra como mãe. Aditi, que dominava sozinha o espaço celeste e suas manifestações, foi rebaixada, passando a chamar-se Prithivi, não mais a "ilimitada", mas, agora, na nova situação, apenas a "ampla", a "vasta", o mundo natural. Prithivi, personificada como divindade, assumiu a tutela da Terra, tomando às vezes o nome de Bhumi, a camada terrestre por oposição à celeste, atmosférica, dominada por Dyaus.  

Na Idade dos Metais, que se seguiu à da Pedra (paleolítico, mesolítico e neolítico), primeiro tivemos o bronze e depois o ferro idade a partir da qual grandes transformações foram introduzidas, com a ascensão e supremacia do princípio masculino. As Grandes-Mães começaram a ceder lugar ao Grande-Pai e seus representantes, os deuses uranianos (Urano, em grego, quer dizer céu, aquele que fecunda), em torno dos quais tudo passou a se organizar. No chamado mundo ocidental, a história da humanidade, as religiões e o conhecimento passaram a ser explicados desde então sob um ponto de vista exclusivamente masculino. Lá pelo meio da era de Áries (1662 aC - 498 dC), as representações míticas começaram a ser deixadas de lado, sendo substituídas por outras, de natureza filosófica e cosmológica. Esse período passou a ser conhecido como da passagem do mito ao logos.

ATON
Na era de Áries, a humanidade ingressou na Idade do Ferro, radicalizando-se a destruição do princípio feminino com as religiões dessa era, inspiradas pelo monoteísmo egípcio (Aton), primeiro o judaísmo e depois as suas dissidências, o cristianismo e o islamismo. Esse rebaixamento fez com que as antigas Grandes-Mães passassem a sobreviver nos novos tempos, nos panteões dominados por divindades masculinas, de modo indigno, inteiramente a eles
DEMÉTER
submetidas. Numa desbotada homenagem às antigas Grandes-Mães, todo poderosas, deu-se o nome de demetrismo a essa última etapa do matriarcado. O nome foi retirado do nome Deméter, deusa grega  dos cereais, dos grãos, ao simbolizar essa deusa a passagem do mundo natural ao mundo da terra já dominada, explorada e organizada segundo uma visão patriarcal.

O rebaixamento das Grandes-Mães trouxe como consequência a desvalorização do mundo natural, que passou a ser considerado somente o ponto de vista material. Afastado o princípio da imanência  do mundo religioso, substituído pelo da transcendência, o mundo patriarcal, com a colaboração das religiões monoteístas, deu início na era de Áries a um longo processo de destruição dos recursos naturais da terra, processo que iria se acentuando nos séculos seguintes, até chegarmos à chamada revolução industrial e aos tempos modernos, onde essa destruição vem atingindo níveis alarmantes. 


SÍTIO  ARQUEOLÓGICO   DE   ELEUSIS  ,  GRÉCIA

A partir do ano 2.000 aC, os ataques à Grande-Mãe se tornaram devastadores. A misoginia religiosa fez com que o poder das Grandes-Mães se ocultasse. Não encontrando meios de se expressar abertamente, esse poder, em termos psicológicos, desceu à vida subconsciente, teve que se ocultar. Uma ilustração do que aqui se diz são os Mistérios de Elêusis, cerimônias instituídas pela deusa Deméter, pelas quais se estabeleceu uma ligação entre a agricultura e a vida psíquica. Não podendo mais se mostrar à luz do dia, encaminhou-se a Grande-Mãe para o mundo das sombras, guiada por Dioniso, o deus das metamorfoses.

TOTEM  E  TABU
A descoberta e a valorização, pelo homem, de seu poder fecundante, associado ao céu, e a desvalorização da função geradora (feminina), de natureza terrestre, desde então impuseram-se universalmente. As mudanças nas estruturas sociais, políticas e religiosas, a partir de então, alteraram radicalmente as relações entre os princípios masculino e feminino. Em Totem e Tabu, Freud, citando Frazer, discorreu sobre isto do seguinte modo: A fonte primeira do totemismo consistia na ignorância na qual se encontravam os primitivos quanto ao modo pelo qual os homens e animais procriavam e perpetuavam a espécie e sobretudo a ignorância do papel que o macho desempenhava na fecundação. Esta ignorância foi favorecida pela duração do intervalo que separa o ato da fecundação do nascimento. O totemismo será assim uma criação do espírito feminino e não do masculino.

O totemismo, como se sabe, é a crença na existência de um parentesco ou afinidade mística entre um grupo humano (ou pessoas) e um totem. Este é um animal, planta ou objeto que serve como símbolo sagrado de um grupo social, clã ou tribo e é considerado como seu ancestral e/ou divindade protetora. Tabu é instituição religiosa que, atribuindo caráter sagrado a determinados seres, objetos ou lugares, proíbe qualquer contacto com eles. A violação desse interdito acarreta (supostamente) castigo divino que pode recair sobre o culpado ou sobre seu grupo.

O caráter de sacralidade da Terra, do mundo natural, na nova ordem masculina, foi transferido para o Céu. O Cosmos começou a ser explicado como obra dos deuses, revelando-se o Céu como altura, onipotência, onisciência,  inacessibilidade, imperscrutabilidade, eternidade, incomensurabilidade, transcendência. Transcendente é o que ultrapassa. Diz-se que algo é transcendente quando este algo, Deus, no caso, ultrapassa o nosso poder de conhecimento. Quando falamos de um Deus transcendente estamos nos referindo a um Deus separado, distinto, de sua criação, conceito masculino que se opõe ao de imanência, panteísta, conceito feminino, segundo o qual Deus está presente no mundo criado. A doutrina da imanência
SPINOZA
revela que Deus e o mundo criado são a mesma coisa. Esta doutrina, na cultura ocidental, foi posta em circulação principalmente pelos estoicos, na antiga Grécia, para os quais Deus era a força vital imanente ao mundo. Foi Spinoza, seguidor desta doutrina (e por causa dela condenado pela Sinagoga Portuguesa de Amsterdam) que nos deixou a sua célebre afirmação: Deus sive natura. 


Os caldeus, na antiga Mesopotâmia, alinham-se entre os primeiros povos a estruturar a matéria astrológica. Desde logo, associaram o signo de Câncer ao caranguejo, no que foram seguidos pelos gregos. Os acadianos, do mesmo país, deram ao signo o nome de O Portão Norte do Sol (mês de Dazu). Como Porta dos Homens (entrada das almas no plano da matéria), os pitagóricos, os órficos e o platonismo assim o conheceram. Na Índia védica, o nome do signo é Kataka. 


AS  TENTAÇÕES  DE  SANTO  ANTÃO 

Desde a mais remota antiguidade, o caranguejo sempre apareceu simbolicamente ligado à Lua porque, como ela, tem uma marcha hesitante, podendo caminhar para a frente e para trás. Por causa de sua marcha retrógrada, em algumas tradições, o caranguejo é considerado como um símbolo da infelicidade, de malefícios. De outro lado, positivamente, o caranguejo sempre foi usado em cerimônias mágicas para provocar chuvas. Ao mesmo tempo, em virtude de seu aspecto repugnante, por causa de suas pinças e de sua carapaça, a "armadura dos demônios", ele foi considerado como uma criatura diabólica. É por essa razão que figura em As Tentações de Santo Antão (tela pintada por Hieronymus Bosch), este considerado como o fundador do monasticismo ocidental. A reputação maléfica do caranguejo é atestada em muitas tradições e se deve naturalmente à sua relação com a Lua, o que é explicado pelo fato de que ambos, a Lua ele, pelo seu caminhar vacilante, dão a impressão de que estão retrocedendo. Nesta perspectiva, o crustáceo e o signo, regido pela Lua, lembram sempre a involução, a indeterminação, a ameaça do caos. 


HÉRCULES  E  A  HIDRA  DE  LERNA

Na mitologia, o caranguejo foi colocado entre as constelações zodiacais em reconhecimento aos serviços que prestou à deusa Hera. Quando do mortal combate que travou Hércules contra a Hidra de Lerna (8º trabalho), o caranguejo foi enviado por Hera para auxiliar o monstro de nove cabeças; Hércules, como se sabe, num tremendo combate, conseguiu submeter a Hidra e matar o caranguejo. 


CARANGUEJO
Enquanto animal aquático, o caranguejo se relaciona com as águas originais, primordiais, não as águas regeneradoras, simbolizadas por Escorpião, outro signo ligado à água, nem as águas que tudo dissolvem, purificadoras, diluvianas, do signo de Peixes, do mesmo elemento. A água em Câncer se apresentas como água original, o que nos leva a associá-la analogicamente ao líquido amniótico, ao leite materno e à seiva vegetal. A água canceriana tem relação com valores que representam a intimidade, a interioridade, lembrando a vida nascente nas suas mais variadas expressões: fontes, regatos, brotos, ervas novas, germes, ovos, fetos, embriões, botões, manifestações que, em grande parte, sempre entram na vida devidamente protegidas por meio de cascas, revestimentos  protetores, carapaças. É por isso o signo de Câncer é conhecido como o "signo do meio", pois nele se faz a passagem do informal ao formal.  

HIPÓCRATES
Em grego, caranguejo é karkinos, cancer, em latim. Hipócrates, o pai da medicina, deu o nome do crustáceo a certos tumores, fazendo uma analogia entre as patas do animal, a sua movimentação e a proliferação anárquica, incontrolável e incessante de células no corpo humano, a partir do referido tumor, proliferação esta capaz de gerar metásteses, que poderão continuar ativas mesmo após a sua retirada cirúrgica.