Mostrando postagens com marcador BACHOFEN. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BACHOFEN. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 12 de abril de 2017

CÂNCER (2)

                          

CÂNCER (ALFONS  MUCHA,1860-1939)
Câncer é um signo lunar, feminino, cardinal, do elemento água, representando a vida e o patrimônio familiar, a mãe, a vida doméstica, os primeiros anos da infância. Na ordem temporal do Zodíaco, situa-se Câncer nove meses antes do signo ascendente,  associado ao signo de Áries (equinócio da primavera). É neste sentido que o signo de Câncer simboliza a fecundação e a concepção, ato pelo qual se dá a junção de gametas (células germinativas) que resultarão na formação de um zigoto (célula resultante da união dos gametas masculino e feminino). 


STONEHENGE


É de se lembrar que em meados do séc. XX, estudiosos ingleses da Universidade de Oxford, pesquisando o famoso monumento megalítico que se encontra no sul da Inglaterra, Stonehenge, há milênios, descobriram que do seu interior era possível se determinar com exatidão, tendo-se em vista a importância que tal determinação tinha para a agricultura, a entrada do Sol nos eixos equinociais e solsticiais. Constatou-se mais que os construtores de tal monumento a ele haviam incorporado conhecimentos matemáticos mais avançados do que aqueles encontrados alguns milênios mais tarde em edificações religiosas egípcias e mesopotâmicas. Mais ainda: constatou-se que nesse monumento e em edificações semelhantes, como as de Carnac, na Bretanha francesa, nos seus dolmens e menhirs, em algumas das enormes pedras usadas, com toneladas de peso, estavam entalhados alguns sinais que mais tarde fariam parte da codificação da linguagem astrológica. Um dos sinais mais notáveis foi um constituído por duas pequenas formas, dispostas horizontalmente, uma entrando na outra, formas muito parecidas com os algarismos seis e nove, que lembravam  bastante o símbolo do signo de Câncer. 


CARNAC ,  BRETANHA , FRANÇA

Desde a mais remota antiguidade, o signo de Câncer ficou conhecido como o signo das Grandes Mães, da Mãe Terra, principalmente, no seio da qual as sementes recebidas se desenvolviam e tomavam forma. Na antiga Caldeia, entre 4.000 e 3.000 anos aC, o signo já era conhecido como o Portal dos Homens, a entrada pela qual todas as almas que desciam dos céus entravam no plano da matéria, assumindo a forma humana. 


VÊNUS   WILLENDORF
Imagens de figuras femininas, pequenas estatuetas, que a arqueologia vem trazendo à luz, permitem-nos afirmar que o culto às Grandes-Mães, no paleolítico, em várias partes do mundo, já era praticado por volta de 30.000 anos aC ou mais, desde tempos mais recuados. A produção dessas estatuetas, muito variada, estendeu-se até a era astrológica de Touro, que se estendeu mais ou menos entre 4.000 e 2.000 aC. Foi por esta época, na transição da era de Touro (signo feminino, lunar) para a era de Áries (signo masculino, marciano), que se concluiu a passagem da tutela da unidade familiar do
 ARTHUR  JOHN  EVANS
feminino matriarcal para o masculino patriarcal. As descobertas de A.C. Evans (1851-1914), em Creta, que aproximaram a História da Mitologia, em fins do século XIX, deixaram claro que por volta de 3.000 aC existia na ilha, na chamada civilização minoana, uma avançada ginecocracia. Esta civilização, como se sabe, foi destruída tanto, em parte, por catástrofes naturais (maremotos) como, principalmente, pela ação dos guerreiros aqueus (micênicos). 






Com base em trabalhos do suíço J.J.Bachofen (1815-1887) e outros, foi possível se estabelecer historicamente uma divisão do matriarcado em três grandes períodos: 1) Heterismo; 2) Amazonismo; 3) Demetrismo. O primeiro período se destacou por apresentar uma espécie de comunismo tribal, com fortes componentes nômades e acentuada promiscuidade sexual. As
JOHANN JAKOB BACHOFEN
mulheres dominavam a vida social nesse período, exercendo os homens, dentre outras funções, menos significativas, a de machos reprodutores. A Grande-Mãe era representada, nesse período, por pequenas figuras femininas obesas, esteatopígicas, uma espécie de proto-Afrodite, no dizer de Bachofen. As estatuetas acentuavam fisicamente sempre o que sobretudo na mulher lembrava a fecundidade, o ventre, os seios, as nádegas e a vulva.


Bachofen fala que na segunda fase do matriarcado, com a diminuição das atividades predadoras e coletoras, um incipiente processo de sedentarização deu origem ao aparecimento da agricultura e de cultos ctônicos, de forte inspiração feminina, adquirindo as Grandes-Mães características lunares, representadas por figuras que lembravam vagamente a Deméter grega. 



AMAZONAS  ( HEINRICH  WILHELM  TISCHBEIN , 1751 - 1829 )


AMAZONA  A  CAVALO
VASO  GREGO
Ao final desta segunda fase surgiu o que os estudiosos chamaram de amazonismo. Os antigos  gregos, como sempre, se encarregaram de explicar um acontecimento social através da sua mitologia. Filhas do deus Ares e da ninfa Harmonia, protegidas pela deusa Ártemis, as amazonas eram mulheres guerreiras que viviam perto do Cáucaso, formando comunidades que se opunham ao poder
HÉRCULES  E  A  RAINHA  DAS  AMAZONAS
( NICOLAS  KNUPFER , 1609 - 1655 )
masculino. O antagonismo entre os dois princípios foi aumentando, acabando o poder feminino por perder os seus antigos privilégios. Heróis dos mitos gregos, saturados de machismo, como Hércules e Teseu, principalmente, encarregar-se-ão de liquidar, no mito, o princípio feminino com as suas façanhas. No seu sexto trabalho (veja-o neste blog), Hércules, comandando um exército, em companhia de outros heróis, foi ao país das amazonas e as exterminou. 

Sob o ponto de vista astrológico, o início do culto às Grandes-Mães se define melhor na era de Câncer, situada mais ou menos entre 8.000 e 6.000 aC, no neolítico, com forte ênfase matriarcal, caracterizado pela crescente sedentarização de contingentes humanos que viviam dispersos, retirando o seu sustento de atividades predadoras. A agricultura e a domesticação de animais ganharam grande impulso no período.

POTNIA   THERON
Nos milênios seguintes, mesopotâmicos, sumérios, egípcios, védicos, fenícios, cretenses, gregos, romanos, celtas, nórdicos, afro-brasileiros e outros, cada um a seu modo, deixaram-nos, para designar as grandes deusas do período matriarcal, nomes como Deusa das Montanhas, Senhora  dos Animais (Potnia Theron), Deusa das Serpentes, Deusa Mãe. Aos poucos, conforme as várias culturas, os mitos,
DEUSA  DAS  SERPENTES
suas histórias e os nomes, em várias regiões da Terra, foram se tornando mais precisos: Tiamat, Aditi, Cibele, Sarasvati, Kali, Isis, Ishtar, Astarte, Eurínome, Geia, Reia, Afrodite, Dana, Freya, Magna Mater (nome de Cibele entre os romanos), Tellus Mater (Mãe Terra), Iemanjá, Iansã e outros.


Na Mesopotâmia, por volta do ano 3.000 aC, encontramos ilustrações da vitória do patriarcado. A mitologia dos mesopotâmicos nos deixou a história da deusa Tiamat, o princípio feminino, sempre confundido com o caos e a desordem, submetido, em nome dos demais deuses celestes, pelo herói Marduk. Os gregos, em sua mitologia, nos deixaram também histórias semelhantes, sobre a total submissão do princípio feminino ao poder masculino. Lembre-se, por exemplo, da conquista de Delfos, guardado pelo dragão Ladon, pelo deus Apolo. Delfos era um centro oracular tutelado pela Grande-Mãe Geia e por sua filha Têmis. Ou, cite-se, a vitória que o herói grego Teseu obteve sobre o Minotauro às custas da princesa cretense Ariadne, depois por ele abandonada. Ou, ainda, a conquista do Velocino de Ouro pelos argonautas, comandados por Jasão. Se não fosse Medeia, princesa e grande maga, sobrinha de Circe, os cinquenta e cinco heróis gregos jamais teriam conquistado o precioso tesouro.  


JASÃO  E  OS  ARGONAUTAS ( CHARLES DE LA FOSSE , 1636 - 1716 )

Ao desenterrar o mundo matriarcal, os pesquisadores nos ajudaram a reavaliar corretamente a história da humanidade e o papel que nela teve a mulher, embora muitas de suas conclusões venham sendo apresentadas com notáveis preconceitos machistas, algo que nem uma pretensa objetividade científica consegue camuflar. Dentre outros preconceitos, destacamos, por exemplo, o nome dado à primeira fase do matriarcado, heterismo, do grego hetaira, prostituta, algo absolutamente incorreto, pois a prostituição (ganho de dinheiro pela prática de atos sexuais) nunca fez parte do mundo matriarcal. O que temos de confirmado é que na ordem matriarcal sabia-se quem era a mãe, não o pai. A transmissão do poder social, inclusive de bens, quando havia, era matrilinear, sendo o pai uma figura bem menos importante, ignorada até sob vários aspectos. As uniões não eram monogâmicas. A vida dependia da mulher, cujo corpo analogicamente se confundia com a própria terra como fonte da existência. 

Foi durante o período matriarcal que a mulher, através das Grandes-Mães, comandou todos os ritos de fertilidade. No período matriarcal ela se tornou tanto dona da vida humana como do solo, da terra e dos animais. Foi neste período que se reforçou a união entre a mulher, o mundo vegetal e o mundo animal, preservando-se e reverenciando-se a fecundidade. Vêm desse mundo, por exemplo, as notáveis relações entre as deusas lunares Hécate e Ártemis com animais que lembram a fertilidade. 

Em Creta, os cultos à Grande-Mãe eram apresentados sob os aspectos da Montanha-Mãe, da Terra-Mãe ou da Deusa das Serpentes. Nas ilhas do Egeu, antes da ocupação pelos aqueus do território  que constituiria depois o mundo grego, os pelasgos
NISABA
cultuavam uma Grande-Mãe como divindade geradora da vida, da natureza, das águas, da fertilidade, doadora da agricultura e inventora da linguagem escrita. Lembre-se que em várias tradições a invenção da linguagem sempre foi atribuída às Grandes-Mães, como o encontramos na Índia (Sarasvati), entre os celtas (Brígida) e os sumérios (Nisaba). 


CIBELE
Na Ásia Menor, na Anatólia, de onde saíram, os cultos de Cibele talvez sejam os que  melhor representem o poder feminino, sob um aspecto tão dominador e cruel quanto o instaurado pelo poder patriarcal. Divindade frígia, seus cultos penetraram na Grécia e em Roma como representação do poder vegetativo e selvagem da natureza. Colocada nos panteões como uma deusa da fertilidade, ela chegou, no mundo mediterrâneo e na Ásia Menor, a dividir, em Roma principalmente, com Júpiter, na religião romana, o poder soberano sobre a reprodução das plantas, dos animais, dos homens e dos deuses. Conduzindo um carro puxado por leões, símbolo da força masculina, ela carregava consigo uma chave que lhe dava acesso, na superfície da Terra, através de uma porta, às riquezas que estavam nas suas profundezas. Na cabeça, ostentava uma coroa, encimada por um crescente lunar, formada por torres, a lembrar que o seu poder se estendia também à vida urbana. 


O  TRIUNFO  DE  CIBELE ( HANS  FRIEDRICH  SCHORER , 1634 )

Os cultos de Cibele, de natureza orgiástica, tinham um forte componente lunar e seus sacerdotes e adoradores, durante os seus solenes festejos, como Magna Mater ou Bona Mater, se
ATIS ( SÉC. II ) 
emasculavam e vestiam roupas femininas. No mito oriental, Cibele tinha por companheiro, Atis, divindade anatólia da vegetação, seu servidor e amante, que morria e renascia anualmente, no que lembra outros personagens míticos, também divindades da vegetação, como Tammuz e Adônis, na forma em que estes aparecem nas histórias de   Ishtar e de Afrodite.  





CÁRITES ( P.P. RUBENS )
Os aqueus, de origem indo-europeia, quando se instalaram no continente, fundando Micenas e Tebas, por volta de 2.000 aC, deram à Grande-Mãe dos pelasgos o nome de Eurínome (etimologicamente, a que governa um grande domínio), criando para ela mitos para enquadrá-la na nova ordem, terminando por rebaixá-la à condição de amante de Zeus, e tornando-a mãe das Cárites e do deus-rio Asopo. 

O que fica do que está acima é que a valorização do meio natural sempre esteve muito mais associada ao mundo feminino que ao mundo masculino. Quando a partir do neolítico as sociedades agrícolas começaram a se formar, criando uma economia baseada na produção da terra, a mulher passou a ocupar um lugar importante socialmente, pois, como a terra, era ela a doadora da vida. Os vegetais brotavam da terra, sendo colhidos no fim do verão. No outono a vida vegetal se recolhia ao interior do solo e lá ficava até o fim do inverno, quando os primeiros sinais do início de um novo subciclo, a primavera, se anunciavam. O degelo chegava ao fim, o carneiro começava a saltar nos campos, o Sol entrava na constelação de Áries. 

Nesse mundo, nascer era sair do ventre da mulher, como a planta saía do interior da terra. Morrer era retornar à terra, dona das forças universais. É desse entendimento que nos vêm as imagens das deusas dessas sociedades, nutridoras, doadoras da vida vegetal, animal e humana, das águas, do céu. Na mitologia grega, quem criou 
ADITI
o céu, em condições de igualdade, para que ele a cobrisse, foi Geia, a Grande-Mãe, suporte de toda existência, inclusive dos deuses celestes. Na Índia, Aditi, uma Grande-Mãe universal, a "liberta e ilimitada", como está no Rig-Veda, representava o céu, contrapondo-se à terra, "finita e limitada". Como Deva-Matri, era a mãe dos deuses celestes, os chamados Adityas, em numero de doze, simbolicamente visualizada pela passagem do Sol pelas constelações zodiacais.

Aos poucos, firmando-se o poder masculino, o céu, um território feminino (entre os antigos egípcios quem o dominava era a deusa Nut), foi passando para a tutela masculina, dando-se, no mundo
DYAUS   PITAR
indo-europeu, à divindade que sobre ele estendeu o seu poder, o nome de Dyaus. Etimologicamente, esse nome vem do radical proto-indo-europeu diw, deiwos, que significa brilhante, celeste, elevado, de onde saíram nomes como Dyaus, Dyaus Pitar, Zeus, Júpiter, Jovis e Deus. Na Índia, temos Dyaus-Pitri, Deus-Pai, considerada a Terra como mãe. Aditi, que dominava sozinha o espaço celeste e suas manifestações, foi rebaixada, passando a chamar-se Prithivi, não mais a "ilimitada", mas, agora, na nova situação, apenas a "ampla", a "vasta", o mundo natural. Prithivi, personificada como divindade, assumiu a tutela da Terra, tomando às vezes o nome de Bhumi, a camada terrestre por oposição à celeste, atmosférica, dominada por Dyaus.  

Na Idade dos Metais, que se seguiu à da Pedra (paleolítico, mesolítico e neolítico), primeiro tivemos o bronze e depois o ferro idade a partir da qual grandes transformações foram introduzidas, com a ascensão e supremacia do princípio masculino. As Grandes-Mães começaram a ceder lugar ao Grande-Pai e seus representantes, os deuses uranianos (Urano, em grego, quer dizer céu, aquele que fecunda), em torno dos quais tudo passou a se organizar. No chamado mundo ocidental, a história da humanidade, as religiões e o conhecimento passaram a ser explicados desde então sob um ponto de vista exclusivamente masculino. Lá pelo meio da era de Áries (1662 aC - 498 dC), as representações míticas começaram a ser deixadas de lado, sendo substituídas por outras, de natureza filosófica e cosmológica. Esse período passou a ser conhecido como da passagem do mito ao logos.

ATON
Na era de Áries, a humanidade ingressou na Idade do Ferro, radicalizando-se a destruição do princípio feminino com as religiões dessa era, inspiradas pelo monoteísmo egípcio (Aton), primeiro o judaísmo e depois as suas dissidências, o cristianismo e o islamismo. Esse rebaixamento fez com que as antigas Grandes-Mães passassem a sobreviver nos novos tempos, nos panteões dominados por divindades masculinas, de modo indigno, inteiramente a eles
DEMÉTER
submetidas. Numa desbotada homenagem às antigas Grandes-Mães, todo poderosas, deu-se o nome de demetrismo a essa última etapa do matriarcado. O nome foi retirado do nome Deméter, deusa grega  dos cereais, dos grãos, ao simbolizar essa deusa a passagem do mundo natural ao mundo da terra já dominada, explorada e organizada segundo uma visão patriarcal.

O rebaixamento das Grandes-Mães trouxe como consequência a desvalorização do mundo natural, que passou a ser considerado somente o ponto de vista material. Afastado o princípio da imanência  do mundo religioso, substituído pelo da transcendência, o mundo patriarcal, com a colaboração das religiões monoteístas, deu início na era de Áries a um longo processo de destruição dos recursos naturais da terra, processo que iria se acentuando nos séculos seguintes, até chegarmos à chamada revolução industrial e aos tempos modernos, onde essa destruição vem atingindo níveis alarmantes. 


SÍTIO  ARQUEOLÓGICO   DE   ELEUSIS  ,  GRÉCIA

A partir do ano 2.000 aC, os ataques à Grande-Mãe se tornaram devastadores. A misoginia religiosa fez com que o poder das Grandes-Mães se ocultasse. Não encontrando meios de se expressar abertamente, esse poder, em termos psicológicos, desceu à vida subconsciente, teve que se ocultar. Uma ilustração do que aqui se diz são os Mistérios de Elêusis, cerimônias instituídas pela deusa Deméter, pelas quais se estabeleceu uma ligação entre a agricultura e a vida psíquica. Não podendo mais se mostrar à luz do dia, encaminhou-se a Grande-Mãe para o mundo das sombras, guiada por Dioniso, o deus das metamorfoses.

TOTEM  E  TABU
A descoberta e a valorização, pelo homem, de seu poder fecundante, associado ao céu, e a desvalorização da função geradora (feminina), de natureza terrestre, desde então impuseram-se universalmente. As mudanças nas estruturas sociais, políticas e religiosas, a partir de então, alteraram radicalmente as relações entre os princípios masculino e feminino. Em Totem e Tabu, Freud, citando Frazer, discorreu sobre isto do seguinte modo: A fonte primeira do totemismo consistia na ignorância na qual se encontravam os primitivos quanto ao modo pelo qual os homens e animais procriavam e perpetuavam a espécie e sobretudo a ignorância do papel que o macho desempenhava na fecundação. Esta ignorância foi favorecida pela duração do intervalo que separa o ato da fecundação do nascimento. O totemismo será assim uma criação do espírito feminino e não do masculino.

O totemismo, como se sabe, é a crença na existência de um parentesco ou afinidade mística entre um grupo humano (ou pessoas) e um totem. Este é um animal, planta ou objeto que serve como símbolo sagrado de um grupo social, clã ou tribo e é considerado como seu ancestral e/ou divindade protetora. Tabu é instituição religiosa que, atribuindo caráter sagrado a determinados seres, objetos ou lugares, proíbe qualquer contacto com eles. A violação desse interdito acarreta (supostamente) castigo divino que pode recair sobre o culpado ou sobre seu grupo.

O caráter de sacralidade da Terra, do mundo natural, na nova ordem masculina, foi transferido para o Céu. O Cosmos começou a ser explicado como obra dos deuses, revelando-se o Céu como altura, onipotência, onisciência,  inacessibilidade, imperscrutabilidade, eternidade, incomensurabilidade, transcendência. Transcendente é o que ultrapassa. Diz-se que algo é transcendente quando este algo, Deus, no caso, ultrapassa o nosso poder de conhecimento. Quando falamos de um Deus transcendente estamos nos referindo a um Deus separado, distinto, de sua criação, conceito masculino que se opõe ao de imanência, panteísta, conceito feminino, segundo o qual Deus está presente no mundo criado. A doutrina da imanência
SPINOZA
revela que Deus e o mundo criado são a mesma coisa. Esta doutrina, na cultura ocidental, foi posta em circulação principalmente pelos estoicos, na antiga Grécia, para os quais Deus era a força vital imanente ao mundo. Foi Spinoza, seguidor desta doutrina (e por causa dela condenado pela Sinagoga Portuguesa de Amsterdam) que nos deixou a sua célebre afirmação: Deus sive natura. 


Os caldeus, na antiga Mesopotâmia, alinham-se entre os primeiros povos a estruturar a matéria astrológica. Desde logo, associaram o signo de Câncer ao caranguejo, no que foram seguidos pelos gregos. Os acadianos, do mesmo país, deram ao signo o nome de O Portão Norte do Sol (mês de Dazu). Como Porta dos Homens (entrada das almas no plano da matéria), os pitagóricos, os órficos e o platonismo assim o conheceram. Na Índia védica, o nome do signo é Kataka. 


AS  TENTAÇÕES  DE  SANTO  ANTÃO 

Desde a mais remota antiguidade, o caranguejo sempre apareceu simbolicamente ligado à Lua porque, como ela, tem uma marcha hesitante, podendo caminhar para a frente e para trás. Por causa de sua marcha retrógrada, em algumas tradições, o caranguejo é considerado como um símbolo da infelicidade, de malefícios. De outro lado, positivamente, o caranguejo sempre foi usado em cerimônias mágicas para provocar chuvas. Ao mesmo tempo, em virtude de seu aspecto repugnante, por causa de suas pinças e de sua carapaça, a "armadura dos demônios", ele foi considerado como uma criatura diabólica. É por essa razão que figura em As Tentações de Santo Antão (tela pintada por Hieronymus Bosch), este considerado como o fundador do monasticismo ocidental. A reputação maléfica do caranguejo é atestada em muitas tradições e se deve naturalmente à sua relação com a Lua, o que é explicado pelo fato de que ambos, a Lua ele, pelo seu caminhar vacilante, dão a impressão de que estão retrocedendo. Nesta perspectiva, o crustáceo e o signo, regido pela Lua, lembram sempre a involução, a indeterminação, a ameaça do caos. 


HÉRCULES  E  A  HIDRA  DE  LERNA

Na mitologia, o caranguejo foi colocado entre as constelações zodiacais em reconhecimento aos serviços que prestou à deusa Hera. Quando do mortal combate que travou Hércules contra a Hidra de Lerna (8º trabalho), o caranguejo foi enviado por Hera para auxiliar o monstro de nove cabeças; Hércules, como se sabe, num tremendo combate, conseguiu submeter a Hidra e matar o caranguejo. 


CARANGUEJO
Enquanto animal aquático, o caranguejo se relaciona com as águas originais, primordiais, não as águas regeneradoras, simbolizadas por Escorpião, outro signo ligado à água, nem as águas que tudo dissolvem, purificadoras, diluvianas, do signo de Peixes, do mesmo elemento. A água em Câncer se apresentas como água original, o que nos leva a associá-la analogicamente ao líquido amniótico, ao leite materno e à seiva vegetal. A água canceriana tem relação com valores que representam a intimidade, a interioridade, lembrando a vida nascente nas suas mais variadas expressões: fontes, regatos, brotos, ervas novas, germes, ovos, fetos, embriões, botões, manifestações que, em grande parte, sempre entram na vida devidamente protegidas por meio de cascas, revestimentos  protetores, carapaças. É por isso o signo de Câncer é conhecido como o "signo do meio", pois nele se faz a passagem do informal ao formal.  

HIPÓCRATES
Em grego, caranguejo é karkinos, cancer, em latim. Hipócrates, o pai da medicina, deu o nome do crustáceo a certos tumores, fazendo uma analogia entre as patas do animal, a sua movimentação e a proliferação anárquica, incontrolável e incessante de células no corpo humano, a partir do referido tumor, proliferação esta capaz de gerar metásteses, que poderão continuar ativas mesmo após a sua retirada cirúrgica.



terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

SEXTO TRABALHO DE HÉRCULES




AMAZONAS

   O CINTURÃO  DA  RAINHA  DAS AMAZONAS - Hércules recebeu ordens de se apoderar do cinturão de Hipólita, a rainha das Amazonas.  As amazonas eram guerreiras que viviam isoladas em seus territórios e não aceitavam o mundo masculino. Sobreviventes de um período histórico chamado matriarcado, no qual as mulheres foram socialmente muito mais importantes que os homens, mantinham um regime político-social que ficou conhecido pelo nome de ginecocracia.

HÉRCULES SE APODERA DO CINTURÃO DE HIPÓLITA

Nos antigos sistemas matriarcais,  a principal figura da unidade familiar era a  mãe, aparecendo os homens apenas como entidades reprodutoras e desempenhando um papel inferior na organização tribal. Eram elas que decidiam sobre os bens comuns a todos, assumindo o controle tanto da sua produção como da sua distribuição. Além disso, centralizavam-se também nelas a identificação dos filhos (matrilinearidade) e a transmissão dos bens, decidindo  elas, no geral, tudo o que dissesse respeito ao mais conveniente para a melhor sobrevivência da tribo.

Os estudos clássicos sobre o matriarcado são os do antropólogo,
J. J. BACHOFEN
filólogo e jurista suiço J.J.Bachofen (1815-1887), defensor da tese segundo a qual esse sistema social estaria na base de todas sociedades humanas. Aos seus trabalhos se juntaram depois os de outros pesquisadores, adotando-se também o nome de sociedades matrifocais para designá-las. Como sempre acontece  quando uma tese inovadora como a de Bachofen é apresentada, os meios oficiais acadêmicos se manifestaram contrários (muitos até violentamente) aos argumentos do estudioso suíço. Outros, em menor número, do
qual fizeram parte alguns escritores, poetas e  mitógrafos,  de  mente mais aberta, como Erich Fromm, Robert Graves, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann, Lewis H.Morgan, Joseph Campbell e Jane Elle Harrison (fig. direita) deram-lhes acolhida muito simpática e até entusiasta (Jane Harrison, por exemplo não só encampou muitos dos argumentos de Bachofen para as suas visões do mito como escreveu uma das grandes obras da mitologia; Themis – A Study of the Social Origins of Greek Religion, na qual as teses matriarcais aparecem com destaque. 

Pesquisas arqueológicas demonstraram e vêm demonstrando que as sociedades matriarcais parecem ter existido realmente. Um exemplo: J.A. Evans (1851-1941), arqueólogo, em fins do séc. XIX, constatou, quando de suas escavações em Creta, que por volta de 3.000 aC existira na ilha uma ginecocracia. Os trabalhos de Evans comprovaram também a veracidade de várias histórias, que, sob a forma de mitos, tidos como fantasiosos, “coisas de poetas”, nos descreviam as relações entre a  ilha e a Grécia continental. Foi ele quem, ao aproximar a matéria histórica e mito,  deu o nome de minoica à esplêndida civilização cretense, a partir de registros míticos que falavam de personagens como Minos, Pasífae, Ariadne, Minotauro e Teseu.

Com base nos trabalhos de Bachofen, os estudiosos modernos dividiram o matriarcado em três fases: 1) Heterismo; 2) Amazonismo; e 3) Demetrismo. A palavra hetera (hetaira, em grego) quer dizer concubina, prostituta. A primeira fase, também destacada nos trabalhos de Bachofen, se caracterizava por uma espécie de comunismo tribal, com fortes componentes nômades e acentuada promiscuidade sexual (poliamor, no dizer de Bachofen). As mulheres dominavam a vida social, exercendo os homens, como se disse, apenas a função de machos reprodutores. A Grande-Mãe era representada por figuras femininas enormes, obesas, esteatopígicas,figuras que no dizer de Bachofen eram uma  espécie de proto-Afrodite. É por essa razão, lembre-se, que essas mães começaram a ser chamadas pelos arqueólogos e pesquisadores acadêmicos  de Vênus, ao qual se acrescentava o nome do lugar em que eram encontradas as estatuetas, Vênus de Willendorf, Vênus de Brassempouy etc.

VÊNUS DE WILLENDORF

As estatuetas dessas Grandes-Mães, como indicaram as pesquisas, já apareciam no paleolítico ( desde 30.000 aC) e sua produção estendeu-se até a era de Touro (mais ou menos entre 4.000-2.000 aC), período em que se concluiu a passagem da tutela da unidade familiar do feminino matriarcal para o masculino patriarcal. Duas observações importantes a se fazer aqui quanto ao nome de Vênus dado às estatuetas: 1) elas são representações da Grande-Mãe, cujas funções nada tem a ver com as atribuições de Afrodite-Vênus, como está na mitologia. As representações acentuam fisicamente  o que sobretudo na mulher lembra fecundidade, ventre, nádegas seios, vulva. 2) Esses pesquisadores, ao desenterrar o mundo matriarcal, nos ajudaram a reavaliar corretamente a história da humanidade e o papel que nela teve a mulher. Contudo, a visão que eles nos apresentaram veio carregada de preconceitos machistas, algo que uma pretensa objetividade científica conseguiu camuflar. A ironia com que trataram o assunto deixa entrever tudo isso. Eles, por exemplo, deram às estatuetas um nome que nada tem a ver com o que elas representam.  Este preconceito pode ser notado também na designação dada à primeira fase do matriarcado, heterismo, pelo qual se procurou comparar o papel da mulher nessas sociedades ao de prostitutas, o que é absolutamente incorreto, pois a prostituição é atividade mais ou menos institucionalizada que visa o ganho de dinheiro com a cobrança por atos sexuais, o que não ocorria em tais sociedades.

TELLUS MATER
   
O que temos de confirmado é que na ordem matriarcal sabia-se quem era a mãe, sendo o pai uma figura apagada e, no geral, ignorada. Assim, as uniões não eram monogâmicas. A vida, a rigor, dependia delas, das mulheres,  cujo corpo analogicamente se confundia com a própria Terra como fonte da vida, de todos os seres. Daí os nomes da Grande-Mãe nas várias mitologias, Geia ou Gaia, Magna Mater, Tellus Mater, Deusa da Montanha do Mundo, Potnia Theron, Maya-Shakti-Devi, Ísis, Cibele, Aditi,  todas doadoras e tomadoras da vida, sempre representadas por figuras enormes, gigantescas, solenes. 

CIBELE
  
Bachofen fala que na segunda fase do matriarcado, com a diminuição das  atividades  predadoras e coletoras, um incipiente processo de sedentarização deu condições ao aparecimento da agricultura e de cultos ctônicos, adquirindo a Grande-Mãe características lunares, representada por figuras que lembravam vagamente a Deméter grega. A esta fase se seguiu outra, a que ele deu o nome de dionisíaca, uma fase onde se notam já interferências masculinas mais ou menos poderosas. 

DEMÉTER
  
Aqui, quanto à chamada fase dionisíaca, outra imprecisão, um erro mesmo. Dioniso não faz a transição do feminino para o masculino. Ele age, isto sim, para destruir as formas que não sabem
DIONISO (MIGUEL ÂNGELO)
se renovar, tanto masculinas como femininas (ele, por exemplo, destruiu Ariadne, divindade do mundo vegetal, do mundo matriarcal). Num mundo saturado de machismo como o grego,tanto histórica como miticamente, Dioniso aparece muito mais ligado ao mundo feminino, sendo, como tal, venerado pelas amazonas. Extremamente complexo como divindade, ele se liga ao mundo animal e ao mundo vegetal, à energia que os percorre. Como deus das metamorfoses, anima a natureza com a sua energia de poder embriagante, confunde-se com a seiva, a própria vida do mundo vegetal.                                           


Dioniso sempre viveu entre mulheres. Sua fidelidade a Sêmele (nome que podemos aproximar de semen, tanto semente animal  como vegetal), filha de Cadmo, sua mãe, é notável. Dioniso, como sabemos, retirou-a do Hades para transformá-la na primeira das suas sacerdotisas, das suas mênades. Lembremos que, no período clássico da história grega, foram as forças dionisíacas que destruíram as formas do poder masculino da polis ateniense, dominada por Apolo, o deus da aristocracia grega. Dioniso intervém sempre que as formas masculinas ou femininas não sabem se renovar, corrompendo-as, apodrecendo-as, aviltando-as, enlouquecendo, conforme o caso, tanto os indivíduos como as coletividades, as sociedades humanas. 

ARIADNE E DIONISO (ANTOINE-JEAN GROS - 1821)

 Muitos séculos e séculos se passaram. Quantos? Aos poucos, na eterna luta dos opostos (masculino-feminino, ativo-passivo), no jogo de alternância das forças cósmicas, o mundo masculino  foi adquirindo poder, fortalecendo-se, conquistando posições políticas e sociais, apossando-se do campo religioso. As mulheres foram sendo rebaixadas. As divindades masculinas, de características fortemente patriarcais, passaram a ocupar as principais posições nos panteões religiosos.

MARDUK E TIAMAT

A ultima fase do matriarcado é chamada por Bachofen de apolínea, fase que, segundo afirma, está na origem da civilização moderna. Com efeito, a liquidação do matriarcado pode ser rastreada em
THEMIS
muitos exemplos míticos como o temos na Mesopotâmia: o domínio de Tiamat, princípio feminino, visto como uma ameaça do caos, pelo herói Marduk. Outro exemplo, muito significativo, foi a tomada do Oráculo de Delfos, de  Geia e de Themis, a Grande-Mãe e sua filha, guardado pelo dragão-serpente Python, por Apolo. Com a vitória de Apolo, a mântica divinatória, por incubação, tipicamente feminina, foi substituída pela mântica profética, apolínea, tipicamente masculina.  


À terceira fase, na visão mais “moderna” das teses matriarcais,  já totalmente dominada pelos homens, deu-se o nome de Demetrismo. Uma homenagem à Grande-Mãe através da deusa Deméter, da agricultura, dos grãos, dos cereais. Honrava-se de alguma modo o feminino, dava-se-lhe uma posição divina, mas absolutamente secundária, subalterna e inferior nos panteões. Uma figura que, embora necessária, pouco ou nenhuma representatividade tinha.

Na mitologia grega, por exemplo, dá para perceber o que aqui se afirma quando pensamos nos grandes operadores do sistema
PALAS ATHENA (GIUSTINIANI)
olímpico. Apolo e Palas Athena, os mais chegados a Zeus, além de Hera, tinham posição privilegiada nos grandes centros urbanos, seus maiores templos ficavam na polis. Uma divindade como Deméter não possuía templos nestes centros. Suas festas eram realizadas no campo, longe Os mistérios de Eleusis eram dela e de Dioniso, mistérios que falavam de morte simbólica e renascimento, algo que, em absoluto, interessava à aristocracia grega. As festas de Palas Athena, ao contrário, eram urbanas, atraíam pessoas do campo para a cidade. Suas festas, as Panateneias, tinham um caráter pan-helênico, citadino, sendo festas totais do mundo grego.


A reação do princípio feminino é consequência da terceira fase apontada por Bachofen. As mulheres procuraram resistir ao crescente aumento do poder masculino. Agruparam-se, formaram sociedades. A estas mulheres se deu o nome de amazonas (em grego, ausência de seio) porque elas, diz o mito, para melhor manejar o arco, arma na qual eram exímias, extirpavam um dos seios. As amazonas, quando precisavam assegurar a continuidade do seu grupo, raptavam homens, usando-os como reprodutores. Se da relação nascesse uma menina, conservavam-na, uma futura amazona. Se nascesse um menino, abandonavam-no ou o matavam.


Quanto à questão das origens, alguns asseguram que elas eram teriam saído  do Irã e passado a viver na Cítia, numa região que ficava perto perto do Ponto Euxino ou Mar Negro, entre a Europa, a Anatólia e o Cáucaso. A palavra amazonas viria  de hamazan, que, em iraniano, quer dizer lutar em grupo, lutar juntamente com alguém. 

 A realidade histórica das amazonas sempre foi questionada; existiram realmente essas guerreiras ou não? O que temos, com relação à antiguidade, aparece nas obras de vários escritores. Heródoto, o pai da História, relata que os sármatas (povo que vivia na região da atual Polônia) eram descendentes delas e dos citas. Já Hipócrates as menciona íntegras, nada dessa história de seio decepado para melhor poder manejar o arco. Diodoro Sículo, ao falar dos trabalhos de Hércules, nos dá notícias de que a capital do país das amazonas era a Temiscira, ao que parece na costa turca. Os depoimentos sobre elas se acumulam, havendo inclusive um,  entre os romanos, o de Júlio Cesar, que disse tê-las conhecido.

 Hércules é um dos mais perfeitos representantes do mundo masculino patriarcal. É filho do maior dos deuses, Zeus; sua mãe era uma princesa mortal e, embora casada, ainda era virgem; foi escolhida pelo Senhor do Olimpo, que a fecundou para torná-la mãe de um herói que simbolizasse a união das forças terrestres com as forças celestes. Hércules é um guerreiro e nunca abriu mão do entendimento de que quem faz o Direito é a Força. 
 
Recebeu nosso herói neste sexto trabalho a incumbência de ir ao país das amazonas com o objetivo de se apoderar, como bem entendesse, de um famoso cinturão que Hipólita, uma filha do deus Ares, a rainha das amazonas, possuía. A previsão de Hércules e de seu pequeno grupo, todos truculentos e violentos guerreiros como ele, era a de uma luta terrível, pois as amazonas sempre se mostraram como temíveis combatentes.

 Nada do previsto, porém, ocorreu. O pequeno grupo chefiado por Hércules foi recebido amistosamente pela rainha. Declarou nosso herói o objetivo de sua missão. Hipólita (etimologicamente, aquela que desatrela os cavalos) respondeu que poderia negociar, discutir a questão, o que seria feito no dia seguinte. Em nome da paz, a rainha se prontificou inclusive a entregar o seu cinturão, símbolo do poder feminino, desde que ambos, o masculino e o feminino passassem a viver em condições de igualdade. 

Os cintos e cinturões dão uma ideia de união, de ligação, de poder, de submissão, de dependência, tudo ao mesmo tempo. Como peça que envolve a cintura, o cinto, no entender dos antigos, separava o corpo em duas partes, a inferior, onde se alojam os órgãos genitais, da superior, sede do coração. Ao envolver a cintura, onde se encontram os rins, órgãos do equilíbrio (signo de Libra, oposto ao de Áries, sede da energia individualizada), o cinto indica assim uma submissão conquistada, ou melhor, uma vontade de se integrar livremente a uma outra para formar um todo maior. 

HÉRCULES MATA HIPÓLITA

Na noite que antecedia o dia da reunião marcada, aproveitando-se da calma que reinava no palácio, Hércules e seu grupo, desconfiados da proposta de Hipólita, e querendo logo resolver a questão,  atacaram de surpresa a rainha e as suas companheiras mais chegadas, não lhes dando a mínima possibilidade de reagir, promovendo uma carnificina sem igual; mataram-nas quase todas, poupadas algumas que foram dadas como escravas aos que do grupo mais se haviam destacado pela violência.  Mais uma vitória, uma grande façanha, sem dúvida.

Esta história é, evidentemente, uma ilustração do conflito entre os mundos masculino e feminino, uma polaridade universal, que aparece em todos os níveis da criação. No ser humano, na sua fisiologia, no seu psiquismo, na vida social, na convivência humana, nas relações entre as nações, na vida religiosa etc., sempre estão em ação estes dois princípios. 

Quando o Sol atravessa a constelação de Virgem, último mês do verão, há uma retração da luz do verão, uma contenção. No mês seguinte, O Sol estará no signo de Libra, equinócio de outono, onde o dia e a noite têm a mesma equivalência. Fica fácil entender: para que possam se unir, os dois lados têm que se equilibrar continuamente, o que nem sempre é fácil. Quando pensamos em Libra, temos que pensar num mundo de medidas, de nuances, de atenuações, de ajustes permanentes, através dos quais o todo caminhará. É por isso que Libra é signo do elemento ar, que pressupõe comunicação. É este jogo de relações e de ajustes permanentes que gera o nascimento, como modelo de convivência, no dizer dos antigos gregos, da Afrodite Dourada. Quem prepara o nosso ingresso consciente no signo de Libra é o signo de Virgem. 

O que a história nos revela é que faltou sensibilidade a Hércules para perceber que lhe estava sendo oferecida uma oportunidade de equilibrar o masculino e o feminino tanto em termos de sua personalidade como de convivência humana, uma possibilidade de entendimento entre estes dois componentes que todo ser humano possui em variados níveis nos seus três corpos, o físico, o emocional e o mental. Mas ele nada disso percebeu. O que lhe interessava era a vitória, a qualquer preço. Faltou-lhe compreensão para notar que se oferecia a ele um meio, ainda que não muito claro, de dar um primeiro passo na direção de algo maior. 

No signo de Virgem, o sexto na ordem zodiacal, surgem, nas suas expressões superiores, ideias de sacrifício, de compreensão e de tolerância em nome do Todo que vier a ser formado. Para isso, há que se purificar o ego nascido no signo anterior (Leão), limpá-lo dos seus excessos luminosos, egoicos, preparando-o para que seja capaz de se ajustar constantemente, diariamente, em Libra, o signo da união. Em Libra, entramos no equinócio do outono, quando momentaneamente os dias e as noites têm a mesma duração. 

O número do signo de Virgem é o seis, que integra dois ternários. Como tal é o número dos dons recíprocos e também dos
antagonismos. A estrela de seis pontas tem relação com uma visão macrocósmica, enquanto a de cinco pontas nos remete à ideia microcósmica, do ser que adquire a luz somente para fins materiais. As seis pontas indicam os dois triângulos entrelaçados e invertidos, o encontro da matéria com o espírito, um encontro que pode significar um sentido evolutivo ou involutivo para a vida.

Os cinco primeiros trabalhos de Hércules cobrem um período de preparação, da construção de um ego autônomo. A partir de Leão uma nova etapa se apresenta. O lado material (ego leonino) deve começar a se subordinar ao espiritual. Nesta etapa virginiana é que temos que nos preparar para todas as formas humanas de contrato, purificando o nosso ego, atenuando-o para que possamos conviver melhor com o outro e, partir dele, nos integrarmos à grande família humana.

Virgo é o ponto intermediário entre a matéria e o espírito. A força de Virgo está na colheita e não na semeadura. Colher e preparar o alimento. Aproveitar o essencial, deitar fora o supérfluo, o inútil,
VIRGO: A COLHEITA
tanto uma função cerebral como intestinal. O perigo de Virgo está na imobilidade diante das escolhas. Em Virgo, surge a ideia de sacrifício, de cortar e de jogar fora, de selecionar e  criticar (verbo e função virginianos). A ação de Virgo tem que se voltar para coisas práticas, pois é através delas que decidimos quanto à organização da nossa vida diária. Em Virgo, temos que dominar os excessos leoninos, o egoísmo, as tendências narcísicas, os excessos da nossa subjetividade, sempre um intransponível obstáculo para  a compreensão e o entendimento.


Os perigos de Virgo estão na exagerada busca da lucidez, na tendência às abstrações, na valorização da memória prática e das infindáveis classificações. Neste sentido, é que o lacre, o selo, o não violado têm a ver com Virgo. Nos tipos malogrados do signo,  comuns as tendências ao celibato, à timidez, à castidade, ao puritanismo, à visão do sexo como sujeira, à mania de limpeza, à hipocondria,  aos transtornos obsessivos compulsivos (TOC).

 Hércules, fixado no seu eu leonino,  não soube se abrir para a oportunidade que Hipólita lhe ofereceu. Permaneceu na horizontalidade do seu ego, não entendendo que o leonino deve procurar a verticalização através da caminhada espiritual a partir de Virgo. Entender-se com o outro (social) para chegar à humanidade, ao coletivo (espiritual).  
 
Do grupo de Hércules, dentre outros, fazia parte Teseu, herói da Ática, tão importante no mito quanto ele, também filho de um deus, Poseidon. Como Hércules, saturado de energia masculina, recebeu como presente pela vitória sobre as amazonas  Antíope, irmã de Hipólita. Uma das versões desse mito nos conta ela foi levada por Teseu para Atenas, passando a viver com ele, tornando-se mãe de Hipólito,  personagem famoso que terá seu nome ligado mais tarde a Fedra, uma outra mulher de Teseu. 

         É neste sexto trabalho de Hércules que temos um dos famosos
MORTE DE LAOMEDONTE
episódios de percurso do nosso herói. Ao retornar do país das amazonas, ele passou por Troia, então vitimada pela peste. Apolo e Poseidon faziam a cidade padecer terrivelmente porque não haviam sido recompensados devidamente pelos serviços que haviam prestado ao rei Laomedonte, a construção das muralhas da cidade. Consultado, um oráculo revelara que o mal só seria afastado se o rei oferecesse em sacrifício a sua filha Hesíone, para ser devorada por um monstro. 


Foi a essa altura que Hércules, passando por Troia, se prontificou, como era de seu costume, a resolver o problema real, desde que Laomedonte lhe desse, em pagamento, umas éguas divinas recebidas de Zeus. Assim foi combinado, cumprindo Hércules a sua parte, isto, é, matando o dragão. Laomedonte, porém, se negou a cumprir o acertado. Furioso, Hércules se retirou da cidade. Tempos depois, contudo, a ela voltou com um pequeno exército. Matou Laomedonte e escravizou os troianos. Deu Hesíona de presente ao herói Telamon, permitindo que ela levasse algum troiano como escravo. Hesíona escolheu o seu próprio irmão, Podarces, resgatando-o antes, porém. Por isso, Podarces teve seu nome mudado para Príamo (etimologicamente, o resgatado, o comprado), quando, mais tarde, por uma virada do destino, assumiu o trono de Troia.


  
A constelação de Virgem estende-se nos céus de 20º Virgem a 6ºScorpio. Está hoje comprovado  que ela já era conhecida pelos egípcios desde remotíssimos tempos pré-dinásticos. Entre, mais ou menos, 10.000 e 8.000 aC, no ciclo das eras cósmicas (2.160 anos cada era)  os egípcios celebraram a passagem do Sol da constelação de Virgem para a de Leão, construindo a sua famosa esfinge no Baixo-Egito, tendo sido mais tarde levantadas ao seu lado as pirâmides  de Keops, Kephren e Mikerinos. 

É de se lembrar que tanto a localização dessas três pirâmides como a da esfinge foram
DENDERAH
determinadas astronomicamente (fato não aceito pela egiptologia oficial). A esfinge já fazia parte do zodíaco de Denderah como uma representação de Ísis, esposa de Osíris e mãe de Hórus. Ela era vista com uma espiga de trigo na mão, por ela lançada no espaço para formar a Via Láctea. O zodíaco de Denderah, um dos maiores monumentos astrológicos da história da humanidade, é um baixo-relevo esculpido no pórtico da câmara do deus Osíris, num templo da deusa Hathor, como mãe do Sol. Está hoje no Museu do Louvre. 

Os árabes chamavam a constelação de Virgem de Al Adhira al
ERÍGONE E DIONISO
Nathifah, A Inocente Donzela. Os chineses a chamaram de A Frígida Donzela. Os gregos tanto a viram como Deméter, deusa dos cereais, como Erígone, filha de Icário, camponês que hospedou o deus Dioniso quando ele desceu ao mundo para ensinar aos humanos a cultura da vinha. Dioniso se apaixonou por Erígone, uniu-se a ela para que nascesse Estáfilo, o “cacho da uva”. 


Uma outra versão grega nos informa que a constelação da Virgem é Astreia (plural de astros). Filha de Zeus e de Themis, deusa das leis imprescritíveis,   Astreia, justa e virtuosa, vivia entre os humanos na Idade do Ouro. Pervertendo-se os humanos, ela, com a sua irmã Aidós, O Pudor, se retirou da Terra, fixando-se como a constelação da Virgem nos céus.

A principal estrela (alfa) da constelação da Virgem é Spica, uma das mais importantes dos céus, hoje a 23º09´Libra. Simboliza a
DIONISO E AMPELO
espiga de trigo, nas mãos da deusa, como uma promessa de dons (agricultura) para a humanidade. Importante também em Virgo é Vindemiatrix, etimologicamente, aquele que colhe cachos de uva. No mito, ele é Ampelo, jovem filho de um sátiro e de uma ninfa, amado por Dioniso. Ao colher um cacho de uvas numa videira que o deus lhe dera de presente, caiu e morreu. Desolado, o deus o transformou então em estrela, que está hoje a 9º15´Libra.


As constelações que associamos a Virgem são a do Pastor, Coma Berenices, Corona Borealis e a Ursa Maior. Na primeira, que se estende de 27ºVirgem-7ºEscorpião, temos a história de Arcas (etimologicamente, o que vem da ursa, arktos), filho de Zeus e de Calisto. A ninfa, grávida, foi transformada em ursa por Ártemis. O filho nasceu, recebeu o nome de Arcas e foi entregue a Maia, mãe do deus Hermes. Tornando-se caçador, Arcas um dia quase matou  a própria mãe transformada em ursa. Para evitar acontecimentos como este, Zeus levou Calisto para os céus como a constelação da Ursa Maior, colocando-a sob a tutela de Arcturus, a estrela alfa da constelação do Pastor ou Boieiro (Arcas).

CALISTO

 Na constelação de Coma Berenices, que vai de 17ºVirgem a
BERENICE
12ºLibra, se registra a história de Berenice, a mulher de Ptolomeu Evergetes. Princesa egípcia, Berenice pertence tanto ao mito como à História. Tendo seu marido partido para fazer a guerra na Síria, Berenice prometeu doar os seus belíssimos cabelos aos deuses se eles o protegessem. Assim aconteceu e Berenice depositou os seus cabelos no templo. Um dia, eles desapareceram. Para acalmar Ptolomeu, disseram-lhe que Afrodite os levara para os céus, transformando-os em constelação.

Corona Borealis (2º a 17ºScorpio), para os gregos, foi o diadema que Afrodite deu a Ariadne quando ela se uniu ao deus Dioniso na
ARIADNE E TESEU
ilha de Naxos, depois de abandonada por Teseu. Ariadne e Teseu, como sabemos, são expressões do matriarcado e do patriarcado, respectivamente. Dioniso, como nos conta o mito, depois dar três filhos à princesa cretense, a sacrificou, colocando o diadema que Afrodite lhe dera como constelação nos céus. O mito narra, numa outra leitura, ainda dentro das aproximações matriarcado x patriarcado, a penetração da cultura da vinha (Dioniso) no Mediterrâneo oriental, simbolizando a morte de Ariadne, como antiga deusa da natureza, o sacrifício da vegetação para que isso se tornasse possível.


A Ursa Maior (10ºCâncer-27ºVirgem) é a mais importante
URSA MAIOR
constelação dos céus, sendo considerada por todos os povos da antiguidade como o “umbigo do céu”.  Desde a pré-história, é um centro universal, fazendo todas as demais constelações um movimento circular à sua volta. Nela, durante milênios, se situou a estrela Polar, a partir da qual todo o universo se movimentou. Hoje, a estrela que desempenha esse papel, como o nome de Polaris (a 27º52´Gêmeos), é da constelação da Ursa Menor.