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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

PEIXES (4)


AFRODITE  E  EROS  ( DAVID  TENIERS, 1610 - 1690 )

Em algumas versões gregas, a origem do signo de Peixes é explicada por uma história que tem como personagens Eros e Afrodite, perseguidos por Tifon, o maior dos monstros e pai de tantos outros. Não vendo saída diante da tenaz perseguição queTifon movia contra ambos, Eros e Afrodite se lançaram ao mar. Poseidon, a grande divindade dos oceanos, resolveu intervir, salvando-os. Para tanto, enviou dois maravilhosos golfinhos que os levaram para bem longe de Tifon. Em sinal de agradecimento, Afrodite colocou os dois delfins no céu, no zodíaco, entre Aquário e Áries. 

Contrariamente à aventura de Derceto, o mergulho de Eros e de Afrodite no mar constitui um ato de fé, uma manifestação de confiança na providência divina. Confiaram em algo que ignoravam e foram salvos. Ou, se quisermos, acreditaram e sobreviveram. Derceto não tinha fé em sua natureza de mulher nem na providência, ao contrário de Eros e de Afrodite, que se abandonaram a ela. Este duplo movimento é central no signo, cujos nativos, excedendo-se mesmo algumas vezes, se entregam ao Céu, à Providência, sem procurar conhecer melhor a realidade em que vivem. Complexo de fuga, escapismo? Procuram, por isso, muitas vezes, por todos os meios, subterfúgios e táticas, escapar do mundo real, contra toda lógica, toda evidência, razão pela qual acredito que fazem parte do signo de Peixes, nele coexistindo, toda a sabedoria e toda a inconsciência do mundo.


Na antiguidade, como sabemos, o cristianismo adotou o peixe como símbolo, associando seu nome em grego, ikhthus, a um acróstico formado com as iniciais das palavras que formam a locução Iesos Christos Theou Uios Soter (Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador). O peixe como símbolo cristão está relacionado com as primeiras pias batismais, chamadas à época de piscinas, literalmente recipientes para peixes. É de se notar também que os peixes aparecem como alimento no milagre da multiplicação
MULTIPLICAÇÃO DOS PEIXES
E DOS PÃES ( ÍCONE )
 dos pães (evangelho de Lucas), depreendendo-se deste acontecimento que, nele, Cristo aparece sob duas referidas formas, o peixe e o pão. Lucas relata que, tendo ressuscitado, Cristo comeu um pedaço de peixe assado, tendo-lhe oferecido também os apóstolos um favo de mel. O peixe, desde então tornou-se um símbolo da refeição eucarística, aparecendo amiúde ao lado do pão, alimento sagrado em muitas tradições, como a mitraísta, dos persas. 

TERTULIANO
Escritores cristãos como Tertuliano (150-230) chamavam os primeiros convertidos ao cristianismo de pisciulli (peixinhos). Lembravam esses mesmos escritores que quando do dilúvio original, o peixe foi preservado com relação à cólera divina, já se prenunciando o papel simbólico que ele viria a desempenhar no cristianismo. Não é por outra razão que muitos santos da igreja católica têm relação com peixes, santos como André, Antônio de Pádua e outros. André, como se sabe, natural da Galileia, foi pescador em Betsaida, tendo sido o primeiro a ser chamado por Cristo, a quem apresentou seu irmão Simão, depois chamado de Pedro. Antonio de Pádua, nascido em Lisboa, em 1195, possuidor do dom da oratória, fez pregações aos peixes.

Se nos voltarmos para o novo testamento, veremos que os milagres de Cristo têm, na sua maioria, uma estreita ligação com os símbolos que encontramos no signo de Peixes. Comecemos pela água, elemento do signo, como já se explicou. Simbolicamente, a água é regeneração e, como tal, é um poder cósmico. Ela purifica e regenera: imergir na água é retornar às fontes, entrar em contacto com o seu imenso potencial renovador. Não é outra a finalidade do batismo: a água batismal apaga (lava) o pecado original e leva a um novo nascimento. 


BATISMO  DE  CRISTO
(ANDREA DEL VERROCHIO , 1435-1488)

Nas escrituras cristãs, com o batismo de Cristo por João Batista começam os três anos do seu ministério. João Batista era um típico representante do signo de Aquário já que é através dele que é feita a ligação do homem com a consciência universal (Peixes). O rito do batismo não só purifica como simboliza a mudança que vai significar o abandono do ego pessoalmente orientado para a realização de um destino universal. Esta passagem é representada no evangelho de João por Cristo: Em verdade, em verdade, vos digo: quem não nascer de novo não poderá ver o reino de Deus.
NICODEMOS
(BOM JESUS DE BRAGA
Nicodemos, no evangelho de João, fariseu que mais tarde se tornaria discípulo de Jesus e ajudaria José de Arimateia a sepultá-lo, perguntou então: Como pode um homem nascer, sendo já velho? Poderá entrar uma segunda vez no ventre de sua mãe e nascer?” Respondeu-lhe então Jesus: Em verdade, em verdade, vos digo: quem não nascer da água e do espírito não poderá entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, o que nasceu do espírito é espírito.

O que temos aqui é uma ilustração da ideia da morte do ego. Morte que, libertando a alma, permite que ela retorne ao todo, que renasça em espírito. Morrer, nestes termos, implicaria assim a libertação do ego da prisão corpórea para que alma voltasse ao todo. Estas ideias, lembremos, expostas desta maneira, já estavam presentes, por exemplo, no mundo védico e na doutrina dos órficos. 

Origem e veículo da vida, a água nas tradições orientais sempre significou sabedoria, graça e virtude, além de, como já se viu, símbolo de fertilidade e de fecundidade. Estes mesmos temas são encontrados no Corão e na tradição judaico-cristã, nas quais, perto de fontes e poços, é que se dão os “encontros essenciais”. No Gênese, “o sopro de Deus de Deus cobria a superfície das águas.” Se as águas calmas, na Bíblia, significam paz e ordem, a água que fecunda as terras, mas que alaga e afoga, é “fonte de morte”. As “grandes águas”, como está na Bíblia são sempre sinônimo de grandes provações; o descontrole das águas é anúncio de calamidades. 


PESCA  MILAGROSA
( PETER PAUL RUBENS , 1557 - 1640 )

Depois de ser batizado por João Batista, Jesus passou a procurar homens que pudessem ajudá-lo a propagar a sua doutrina. Escolheu doze discípulos entres os pescadores e lhes disse: Não tenhais medo! Doravante sereis pescadores de homens, com está em Lucas. Na tradição cristã, o pescador é aquele que captura as almas, o prosélito. No judaísmo, prosélito era o indivíduo recém-convertido. O pescador era o catequista (catequese: ação de instruir oralmente), o apóstolo (o enviado). Os peixes eram os infiéis a converter. Na psicanálise, lembro, a “pescaria” é usada na técnica da livre-associação, método privilegiado de investigação do inconsciente. O paciente deve exprimir todos os seus pensamentos, ideias, imagens e emoções, tais como se apresentam a ele, sem seleção e restrição, mesmo que tal material lhe pareça incoerente, impudico, impertinente ou desprovido de interesse. Tais associações podem
TRIDENTE
ser induzidas por uma palavra, um elemento de sonho ou qualquer outro objeto de pensamento espontâneo. O terapeuta, bem treinado, mestre na sua arte, “pescará” então nesse mar de palavras aquilo que lhe parecer mais interessante. Para isso, simbolicamente, estará usando o tridente de Poseidon, instrumento de pesca juntamente com a rede, símbolo astrológico do planeta Netuno, regente do signo de Peixes.

JESUS ANDANDO SOBRE O MAR
( GUSTAVO  DORÉ , 1832 - 1883 )
Ainda com relação ao cristianismo, podemos citar a questão dos “milagres”. Cristo seduziu os seus discípulos com um “milagre” que temos que analisar no contexto pisciano: João relata em seu evangelho (capítulo VI) que os discípulos viram Jesus andando sobre o mar. Como interpretar este “milagre”? A água, como venho colocando, está relacionada com o mundo das emoções, do movimento. Emocionar é ato de deslocar, impressionar, comover. É algo que nos põe em movimento, um fenômeno afetivo que tem origem fora de nós (ação do exterior) ou interna (memórias, lembranças), que nos inclina em várias direções (tendência, sentimento, simpatia, antipatia, paixão etc.). A emoção tem um caráter espontâneo, não a comandamos, é reativa, um modo de reagir. Impondo-se, as emoções, dependendo da sua intensidade sobre nós, podem (sempre) nos tornar vítimas. 

Ora, parece-me que esta passagem bíblica, escoimada do maravilhoso, que é comum neste tipo de literatura, tinha / tem uma mensagem clara: o homem deve se situar acima das suas emoções, das suas superstições, das suas fobias, dos seus medos. Isto é, deve “andar sobre a água” para se tornar um mestre de si mesmo, um discurso muito semelhante ao que encontramos em Buda, no Taoísmo, no Budismo Zen e em outras tradições. O corpo emocional mais o corpo físico e o corpo do mental inferior, como nos revelaram os mestres védicos há muito tempo, são responsáveis pela nossa perda de liberdade. Podem nos escravizar, impedindo-nos de agir livremente.

SIGMUND  FREUD
Dentre alguns mitos que podemos associar ao signo de Peixes (signo que tem, no corpo físico do homem, relação com os pés) há um que, parece-me, se destaca bastante, o de infeliz herói tebano Édipo, “o de pés inchados”. Valho-me de Freud para entrar nessa história. Segundo o mestre austríaco, Édipo é o exemplo de alguém que vive a sua vida sempre fora do tempo, defasado. O nosso herói toma consciência da realidade sempre um pouco tarde, incapaz de dominar os acontecimentos de sua vida, que sempre parecem lhe escapar. Aliás, a etimologia do seu nome, “o de pés inchados” parece sugerir esse descompasso com a vida. 

LAIO  E  CRISIPO
( CERÂMICA  ANTIGA  GREGA )
Édipo é um descendente da família dos labdácidas, família real de Tebas. Com a morte de Lábdaco, despedaçado pelas mênades por ter se oposto à entrada do culto de Dioniso na pólis tebana, Laio, seu filho, assumiu o trono, com a regência do tio, Lico. Este foi assassinado e Laio, temendo destino igual, fugiu, refugiando-se na corte de Pélops. Bem recebido, trai, contudo, as regras da hospitalidade; sentindo forte atração sexual por Crisipo, jovem filho de Pélops, que o acolhera, raptou-o.

JOCASTA
(LILLAH MAC CARTHY,1875-1960 
Morrendo os usurpadores, Laio reassumiu o trono de Tebas, levando consigo Crisipo. Pélops amaldiçoou publicamente a Laio e a deusa Hera, a protetora dos amores legítimos, anatematizou a ambos. Crisipo,que correspondera à paixão de Laio, envergonhado, suicidou-se. Tempos depois, Laio se casou com Jocasta (a que brilha sombriamente), também chamada de Epicasta. Dessa união nasceria Édipo, marcado por terrível maldição. Tebas só seria salva se Laio morresse sem descendência, dizia uma antiga sentença oracular. Ainda no ventre materno, foi reafirmada a sentença, com a previsão que o filho de Laio o mataria e causaria a ruína completa da orgulhosa família real dos labdácidas. Laio, apesar dessa reafirmação, resolveu correr o risco.

Dentre as várias versões que temos sobre o que aconteceu depois do nascimento da criança, ficamos com a da sua exposição. Com os pés fortemente atados e, segundo outros, também com os calcanhares perfurados, por onde se passou um fio para pendurá-la numa árvore, a criança, com poucos dias de vida, foi abandonada, exposta, no alto do monte Citeron. Pastores que andavam pela montanha ouvem o choro da criança; recolhem-na e a entregam aos reis de Corinto, que não tinham filhos, recebendo ela o nome de Édipo e sendo educada na corte como um jovem príncipe, forte, belo, orgulhoso, de temperamento colérico, apesar dos seus pés “problemáticos”, sem ter a mínima noção de sua origem, dele escondida. 

ÉDIPO  MATA  LAIO 
Um dia, num banquete, um convidado, embriagado, chamou-o insultuosamente de plastós, postiço, filho falso. Interpelados, os reis de Corinto negaram veementemente o que Édipo ouvira do bêbado conviva, afirmando que ele era filho legítimo e muito amado.  A pretexto de procurar uns cavalos que haviam sido roubados dos estábulos reais, Édipo, sem nada comentar, saiu do palácio resolvido a investigar a sua origem. Foi a Delfos. A sibila, consultada, em transe, escandalizou os sacerdotes pela sentença que proferira: o jovem príncipe mataria o pai e se uniria sexualmente à própria mãe. O resto da história é bem conhecido: Édipo, com medo de que a sentença se cumprisse, tomou o sentido contrário de Corinto. No caminho, numa disputa de passagem com um estrangeiro, que vinha numa carruagem, acompanhado de dois soldados e de um arauto que o escoltavam além do cocheiro, matou a todos, com exceção de um dos soldados que fugiu, com certeiros golpes de seu bastão. Diz uma versão do mito que a viagem de Laio fora motivada pelo seu desejo de ir a Delfos com a finalidade de obter maiores informações sobre a sua descendência. Tirésias, o vidente cego, o advertira: que fizesse antes de partir um sacrifício à deusa Hera, a deusa das justas núpcias. 
ÉDIPO  E  A  ESFINGE
( G. MOREAU, 1826 - 1898 )
Édipo escondeu-se por uns tempos nas montanhas. Jocasta assumiu o provisoriamente o reino de Tebas, depois da morte do marido, morto por “assaltantes” segundo a notícia que lhe foi transmitida mentirosamente pelo soldado fujão. Os deuses, contudo, precisavam fazer a engrenagem do destino se movimentar. Uma parte do oráculo já se cumprira, sem que ninguém soubesse. Um dia, Édipo resolveu abandonar as montanhas, afastando-se de Corinto, indo em direção de Tebas. No caminho, tomou conhecimento da existência de um monstro, Fix, a Esfinge, que devorava todos os que se dirigissem ou saíssem da cidade. Só não o faria se alguém decifrasse um enigma que propunha, o que nunca acontecera. 
Édipo resolveu enfrentar o terrível monstro. Não só decifrou o enigma como o matou. O prêmio para quem matasse o monstro era a mão da rainha Jocasta, ainda muito jovem e bela. Assim aconteceu, o grande herói uniu-se à rainha e viveram felizes por uns tempos, nascendo quatro filhos dessa união, Etéocles, Polinice, Antigone e Ismene, segundo os trágicos gregos. 

TIRÉSIAS
(J.H.FÜSSLI,1741-1825)
Tempos depois, uma nova catástrofe se abate sobre a cidade, a peste. Creonte, irmão de Laio, regente do trono, vai a Delfos e ouve da sibila que a peste era um castigo porque a morte de Laio ainda não havia sido reparada. Tirésias, o vidente cego, é convocado. As Erínias, grandes figuras da Anankê, voltavam a acionar a terrível engrenagem para restabelecer os limites que haviam sido rompidos. O soldado fujão, que não era outro
IRÍNIAS
(GUSTAVE DORÉ, 1832-1883)
senão o que levara a criança para a montanha, reconheceu Édipo como o assassino de Laio. Com medo, escondera-se, mas agora revelava a verdade. O final é sabido: diante da tragédia, Jocasta, que pressentira tudo, se suicida; Édipo, que também há tempos já desconfiava de que “algo muito ruim” ocultava-se dentro da sua glória de rei e de matador da Esfinge, ao constatar a evidência dos fatos, que conscientemente se recusara sempre a aceitar (morte do pai e casamento com a própria mãe e irmão de seus filhos), privou-se da sua própria visão; mutilou-se, vazando os seus olhos com o broche da mãe e esposa; perdeu a visão externa para, quem sabe, chegar à sua verdade interna, que sempre ignorara. 

FILME DE PASOLINI
Dois de seus filhos, como se sabe, Polinice e Etéocles, haviam morrido numa luta fratricida. Largando tudo, amargurado, cego e alquebrado, conduzido por Antígone, Édipo desapareceu da vista dos tebanos; foi mantido numa masmorra pelas filhas e por Creonte por um longo período. Depois, como um fantasma, guiado por Antígone, a mais velha e a mais forte dos filhos, perambulou pelas estradas até chegar a Atenas, onde recebido por Teseu, entregou-se finalmente em segredo à morte. Tal aconteceu em Colona, um lugar afastado da cidade, um bosque inviolável, junto de um monte rochoso do deus Poseidon; sem que ninguém visse, nem Antígone, Édipo, trôpego, claudicante, guiado por Hermes, o deus psicopompo, foi descendo em direção do interior da terra, que se abriu para acolhê-lo.
Na astrologia, como se disse, os pés constituem a zona pisciana do corpo humano. Numa analogia evolucionista, os pés, não se pode esquecer, foram um dia barbatanas. É bom lembrar, quanto a este particular, que ainda não aprendemos a fazer essa relação, barbatanas-pés, algo que nos permitiria entender bem melhor a nossa origem marinha. 
Os pés, já em antigas tradições, estavam simbolicamente ligados à alma, ou melhor, ao destino que a alma devia suportar. Os pés, com seu movimento ambivalente, alternativamente movimentados, impostos ao chão e dele nos retirando, são, ao mesmo tempo, um símbolo de poder, de partida e de chegada, de comando, como também de apoio, de suporte e de humildade, pois são eles que afinal sustentam tudo que está acima deles, mantendo contacto com a terra, com o chão, de onde o homem sempre procurou se afastar orgulhosamente. Assim como a terra simbolicamente se opõe ao céu, os pés de opõem à cabeça. 

É neste sentido que os pés representam um princípio passivo, pois entram contacto direto com a Grande-Mãe, o aspecto feminino, oposto ao princípio masculino da manifestação. Ao deixar marcas nos caminhos trilhados, marcas boas ou más, lembranças de uma passagem, os pés significam também livre-arbítrio. É por isto que a cabeça nada pode sem os pés; ambos precisam trabalhar juntos, o que nunca aconteceu com Édipo. Estas ideias explicam em parte
CERIMÔNIA  DE  LAVA  -  PÉS
alguns ritos de purificação associados aos pés, lavá-los para lembrar que eles devem sempre nos conduzir para longe dos caminhos do erro. Além do mais, como sabemos, a lavagem dos pés, como a encontramos em muitas tradições religiosas, vai muito além de um ritual que simboliza gentileza para com os hóspedes ou a submissão humilde e recíproca entre os apóstolos e ministros de Cristo. 

Com efeito, no primeiro livro de Samuel (cap. XXV) se relata que Abigail (personagem bíblica, a bela viúva do rico Nabal) se dispôs a lavar os pés dos emissários do rei David. Eles a procuraram para lhe dizer do grande desejo de David, que ele a queria como sua segunda esposa (o que de fato aconteceu). No evangelho de João (cap. XIII) encontramos: Jesus lançou água numa bacia e começou
ENTRADA   DE   MESQUITA
a lavar os pés de seus discípulos e a limpá-los com a toalha com que os estava cingindo. Entre os muçulmanos encontramos, no capítulo das abluções, a descrição do ato de purificação pelo qual o crente deixa o universo profano para entrar no sagrado. Esse ato consiste numa série de lavagens ritualizadas que compreendem as mãos, os braços, os cotovelos (antebraços), o rosto e os pés.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

LEÃO (1)

  
  
                     
SEKHMET
A mais antiga referência que temos sobre a constelação do Leão nós a encontramos no Egito, quando da construção da Esfinge de Gizé, monumento astrológico e religioso que marcou a passagem da era de Virgem para a de Leão, entre 10.000 e 8.000 aC. Na mitologia, Sekhmet (Sakhmis, em grego) era o nome, entre os egípcios, de uma deusa da guerra e dos combates, representada comumente como uma leoa ou uma mulher gigantesca com cabeça de leoa. O nome significava A Poderosa, um epíteto da deusa Hathor, grande divindade que os gregos identificaram como a sua Afrodite. 


HATHOR
Deusa do céu, filha de Ra, uma espécie de grande vaca celeste, Hathor tomou a forma de uma leoa e se lançou contra os homens que se revoltaram contra seu pai ou não o reverenciavam, Ra, o deus Sol. Temendo o extermínio da humanidade, por causa da ferocidade de Sekhmet, o pai pediu-lhe que se contivesse um pouco. Não sendo atendido, adotou um estratagema: espalhou sobre a terra milhares de cântaros com uma bebida mágica, feita de cerveja e de suco de romã. Completamente alterada, Sekhmet tomou a bebida por sangue humano e a sorveu em grandes goles, avidamente, embriagando-se. Com isto, a raça humana foi salva, mas, para apaziguar a deusa, Ra decretou que lhe seriam oferecidos no início de cada ano tantos cântaros da bebida quantas fossem as sacerdotisas do Sol.

RA  ,  DEUS   DO   SOL
Esta deusa era chamada também de A Grande Amiga do deus  Ptah (identificado pelos gregos como seu deus Hefesto), passando por sua esposa nos cultos de Mênfis. Sekhmet era a deusa do calor e das epidemias, temível, sempre honrada e apaziguada. Ela costumava se manifestar através do olho direito de Ra quando em fúria. Ra tinha o seu culto na cidade egípcia que os gregos chamavam de Heliópolis.


CIBELE  -  PLAZA  DE  CIBELES , MADRI

Cibele, a grande deusa da Anatólia, cujo culto penetrou no mundo greco-romano por volta do terceiro século aC, parece ter incorporado muitos dos traços de Sekhmet. Cibele era, na origem, uma deusa das cavernas. Personificava a terra em seu estado bruto, selvagem, primitivo. Era adorada também no alto das montanhas. Seu culto se espalhou a partir da Ásia Menor, alcançando todo o Mediterrâneo, como mãe dos deuses. Exercia um grande poder sobre todos os animais, que faziam parte de seu cortejo. Seu carro era puxado por leões, o que simbolizava o seu poder sobre toda a energia vital. Era representada com uma coroa estrelada de sete pontas ou, noutras vezes, vinha com um crescente lunar, o que deixava claro seu poder sobre os ciclos da vida. 

Seu culto tinha um caráter orgiástico, com muita música e dança. O instrumento musical que a simbolizava era o tamborim. Também chamado de tamboril, o tamborim é um instrumento de percussão
TAMBORIM
semelhante a um tambor pequeno, coberto com pele de animal, percutido às vezes com uma baqueta; sendo seu som menos “grave” que o tambor, um som mais agudo, a sugerir sempre agitação, movimento. Seu tambor era muito usado também na Grécia, nos cultos dionisíacos, com a finalidade escandir o ritmo.    

As representações gregas de Cibele conservaram sempre um caráter profundamente asiático. Seu culto se reunia em torno de uma confraria que, com danças convulsivas, ao som de flautas, címbalos e tamborins, reverenciava a deusa, muitas vezes seus adeptos se ferindo voluntariamente e chegando mesmo à emasculação. Essa
CORIBANTES
confraria na Grécia era a dos Coribantes, nascidos de um personagem chamado Corybas, um filho de Cibele. Chamavam-se também os cultores da deusa Galos e Curetes. Estes últimos, como sabemos, aparecem em Creta, como seres demoníacos,  reunidos numa espécie de tribo, que cuidou de Zeus logo após o seu nascimento, quando Reia lá o escondeu para não ser devorado pelo pai. 


ATTIS (OSTIA ANTICA)
Associa-se também ao culto da grande deusa a figura de Attis, uma divindade menor, do mundo vegetal, que nascia e morria periodicamente. Era muito semelhante ao deuses Tamuz e Adônis, como estes apareciam nos cultos da deusa babilônica Ishtar, o primeiro, e da deusa grega Afrodite o segundo. Quando o culto de Cibele se difundiu pelo mundo grego, a figura de Attis se modificou. Ele assumiu a figura de um belo pastor a quem a deusa impusera o voto de castidade. Rompendo-o, Attis se uniu a uma filha do rio Sangarios. Cibele enviou-lhe, então, um delírio frenético, o que fez com ele mesmo se mutilasse, castrando-se. Dentre histórias que cercam a  deusa Cibele, há uma em que se narra a sua união com o rei frígio Górdias, da qual resultou um filho, Midas,  que instituiu cultos de Zeus e da deusa.


ESFINGE   DE   GIZÉ

O grande modelo das esfinges egípcias é a de Gizé, voltada para o Sol nascente, que velava as necrópoles, guardiã de um mundo que se fôra e de outro que viria. As esfinges podiam ter cabeça humana (androsphinx), de carneiro (criosphinx) e de falcão (hieracosphinx). Na tradição oriental, a babilônica, por exemplo, a esfinge era tradicionalmente o monstro a ser enfrentado pelos heróis solares, sendo ela, portanto, um símbolo feminino, como é o caso de Marduk que, na mitologia mesopotâmica, luta contra Tiamat, o feminino caótico.   


FIX
Na Grécia, as características femininas da esfinge foram acentuadas, tornando-se ela Fix (do verbo, sphingein, estrangular, sufocar), um monstro feminino raptor, ao representar a libido insaciável. Era filha de Tifon e de Équidna, irmãos, casal de monstros, o primeiro vencido por Zeus, numa sangrenta batalha pela posse do universo. A segunda é a mãe, lembrando seu nome a palavra grega víbora, serpente. Extremamente férteis, geraram, além de Fix, monstros como o cão tricéfalo Cérbero, o gigante Ortro, a Hidra de Lerna, a Quimera, o Leão de Nemeia, o Abutre que devorava as entranhas de Prometeu, os dragões da Cólquida e do Jardim das Hespérides, guardando o primeiro o Velocino de Ouro e o outro os Pomos de Ouro, 

A esfinge grega tem a sua imagem fixada no mito de Édipo, sendo por isso também conhecida como a Esfinge de Tebas. Este modelo tebano impôs-se a todos os demais: era uma leoa de asas, com cabeça de mulher, seios tumefactos, vaidosos, prometedores, um monstro feminino considerado devorador, raptor, como o eram também as Sereias, as “cruéis cantoras” como ela, e as Harpias. Fix propunha enigmas aos que se aventuravam pelos caminhos e estradas. Se os viajantes não os decifrassem eram devorados. Édipo, graças à sua habilidade e ao poder de sua palavra, conseguiu vencê-la, uma vitória exterior, contudo, que lhe deu muitas recompensas, satisfazendo seus anseios de dominação, uma vitória que, no fundo, acabaria se transformando na causa da sua derrota interior.

Oriundo da família dos labdácidas, filho de Laio (o protetor), rei de Tebas, e de Jocasta (a de brilho sombrio), Édipo (etimologicamente, o que tem defeito nos pés) foi afastado do convívio familiar quando um oráculo previu que ele mataria o pai e desposaria a mãe. Exposto no monte Citeron, foi recolhido e educado pelo rei de Corinto, Polybos. Fugindo de sua pátria para escapar da previsão,
ÉDIPO  E  A  ESFINGE
( GUSTAVE  MOREAU )
entrou em luta, no desfiladeiro de uma estrada, com um viajante e o matou. Este viajante era Laio, seu pai, que usava um disfarce. Indo em direção de Tebas, para fugir do oráculo (Édipo não sabia que Polybos era seu pai adotivo), ele enfrentou um monstro que só trazia desolação e morte para a região. O monstro, Fix, propunha um enigma. Como os que ousavam enfrentá-lo não sabiam decifrá-lo ele os devorava. Édipo, contudo, soube dar a resposta certa, vencendo-o. Agradecidos, os habitantes de Tebas, premiando-o, o proclamaram rei, tornando-se então sua esposa a rainha, viúva de Laio, sua mãe. Cumpria-se assim a sentença oracular. 

Segundo Sófocles, a cidade de Tebas, logo depois destes acontecimentos, se viu atacada por uma peste que a tudo destruía. Consultado um oráculo, soube-se que a cidade só voltaria à normalidade, sanada a pestilência que a tudo degradava, se o assassino de Laio fosse encontrado. Assim é feito, chegando-se a conclusão de que o assassino não era outro senão Édipo, o atual rei, que matara o próprio pai e casara com a própria mãe. Revelando-se tudo, a tragédia se precipitou. Jocasta se enforca. Édipo perfura os
ÉDIPO  E  ANTÍGONA
( S. BRODOWSKI )
seus próprios olhos com o broche do manto (himatio) de sua mãe e esposa. Expulso por seus filhos, ele parte pelas estradas da Ática, totalmente acabrunhado e abatido, guiado por aquela que se tornou a luz de seus olhos, sua filha Antígona. Acabou Édipo chegando a Colona, perto de Atenas, sendo recebido por Teseu. Nessa região, num pequeno bosque, trôpego, em meio a relâmpagos, sob um céu tempestuoso, conseguiu o infeliz herói vencedor da Esfinge ir sozinho em direção de uma caverna que, por piedade dos deuses, se abrira para recebê-lo, descendo ele então ao interior da terra, e desaparecendo.    

A história de Édipo nos foi contada por Sófocles, restando do tema edipiano apenas duas tragédias Édipo-Rei e Édipo em Colona. Posteriormente, Eurípedes e Sêneca abordaram o mesmo tema, mas nunca alcançando o esplendor das tragédias de Sófocles. A literatura dramática francesa, desde o séc. XVI, se voltou para a
OEDIPE  REX , 1936
( J. COCTEAU  E  I. STRAVINSKI )
história de Édipo. Destaques para as obras de Robert Garnier (Antigone, 1.580), Corneille (Oedipe, 1.659), Voltaire (Oedipe, 1.718), André Gide (Oedipe, 1.931), Jean Cocteau (La Machine Infernale, 1.934), Jean Anouilh (Antigone, 1.944). Na música, temos a ópera-oratório de Stravinski e de Jean Cocteau (Oedipe Rex, 1.927) e a ópera de George Enesco  (Oedipe, 1.936).

O mito de Édipo, como se sabe, foi interpretado de várias maneiras ao longo dos séculos. A mais conhecida interpretação é a de Freud, que serve de ilustração para a sua doutrina psicanalítica. Em que pesem as conclusões freudianas e de seus acólitos, que fixam o mito na esfera da sexualidade, o que me parece mais adequado, inclusive segundo uma perspectiva astrológica, é também, e talvez sobretudo, considerá-lo segundo um enfoque social.

A história de Édipo descreve um rito de passagem. O interrogatório da Esfinge é, no fundo, uma prova iniciática, a que os jovens deviam se submeter. Esta prova ocorria na adolescência. Num primeiro momento, ela punha o adolescente diante de duas tarefas muito pesadas, mais de natureza inconsciente que consciente. A rejeição das fantasias incestuosas (fixação no mundo materno) e a libertação da autoridade paterna, para que lhe fosse possível o acesso a uma vida social adulta. Tudo acontecia quando o efebo,
ESFINGE
chegado a idade de dezoito anos, se submetia à docimasia (dokime, em grego, é prova, verificação da experiência; a palavra foi para medicina, aparecendo em expressões como docimasia hepática, a docimasia pulmonar), antes de se inscrever como cidadão nos registros de seu demo. A Esfinge, um monstro erotizado, devorava os que não sabiam assumir a sua nova condição. Era, ao mesmo tempo, sedutora e terrível. Propunha também aos jovens enigmas sobre a sua virilidade e sobre o amor. Era irmã das Sereias, uma “cruel cantora” como elas. 

É neste sentido que a figura de Édipo se confunde com a do ser humano de todos os tempos. Ele é simplesmente um indivíduo que resolveu trilhar o caminho do autoconhecimento, caminho que, na sequência zodiacal,  leva de Câncer a Leão, ou da casa IV à casa V. Conquistada a autonomia na quinta casa astrológica, que fazer?  Por isso, Édipo aparece como um rei no mito, uma figura típica do signo de Leão, o princípio patriarcal que rege o mundo dos deuses na sociedade humana. O rei é concebido como uma projeção do eu superior, lembrando sempre autonomia, autodeterminação e conhecimento integral da própria personalidade. Faltou a Édipo o mais importante, a noção clara desta última qualidade. 

O enigma que a Esfinge propunha era o enigma da própria vida humana. Enigma quer dizer fala obscura, mistério. Édipo soube dar a resposta, mas não compreendeu a profundidade do problema.
ÉDIPO  MATA  O  PAI  ( BAIXO  RELEVO , III  AC
Empolgou-se com a sua personalidade leonina, com a sua habilidade intelectual. A física ele já a havia demonstrado, ao matar o “inimigo” pelo direito de passagem no desfiladeiro). Ele não percebeu que a Esfinge mudara de rosto, aparecendo-lhe a seguir sob a figura de Jocasta. Édipo resolveu o enigma de forma puramente intelectual. 

Édipo, embriagado pelo sucesso, aclamado como rei de Tebas, esqueceu-se de que o caminho da vida deve ser percorrido com as pernas e com os pés; não pela imaginação, pela especulação ou pelo aplauso exterior, mas, sim, pela vitória interior, que ele nunca soube procurar. Tebas foi para ele o mundo ilusório do ego. Ele alcançou o auge (Leão), mas, na realidade, não tinha consciência do que isto significava, que era ali, naquele momento, que devia começar a sua descida. Ao se retirar de Tebas (reino exterior, reino do ego), no final de sua vida, Édipo, cego e alquebrado, a abandonou-o por si mesmo, para buscar a sua verdade interior. São as palavras de Tirésias: Ele, que agora vê, ficará cego; ele, que agora é rico, ficará pobre; e, tateando o chão com um bastão, caminhará por terras estrangeiras.  



A constelação do Leão se acha submetida à influência do astro central do nosso sistema, o Sol. Embora o quinto signo seja considerado como fixo, as forças solares nunca, a rigor, representam uma cristalização, uma concentração, como, por exemplo, ocorre com Capricórnio, onde as forças saturninas dão muito mais concentração ao signo. No Zodíaco, assim, se Áries representa a caminhada em linha reta, para a frente, com desprezo pelos obstáculos, Touro atua mediante acumulação. Gêmeos age através da dispersão, da difusão, em todas as direções. Câncer é um signo que procura resolver sempre a contradição de avançar e retroceder ao mesmo tempo. Já Escorpião desce, muito mais interessado no mundo subterrâneo, no mundo subconsciente e nos seus poderes secretos. Sagitário elege as distâncias. Enquanto os signos de água compartilham essa fossa babélica que é o mundo das emoções e os tormentos do amor, os de fogo simbolizarão sempre a adesão a alguma coisa; seu veículo natural é a ação, a irradiação, a passagem de um estado a outro. 

Uma das grandes características de Leão é a passagem do desequilíbrio a um estado de equilíbrio, pois o elemento ígneo atua, é preciso não esquecer, através do quente, que é expansivo. Lembre-se também que o fogo para fulgurar, para se desenvolver, precisa de ar, de oxigênio. Ou, de outro modo, de trocas; os signos de fogo,
LEÃO
inclusive Leão, exigem comunicação, precisam da passagem rápida de um estado a outro, de uma ação que leve do desequilíbrio ao equilíbrio. Do universo leonino fazem sempre parte o proselitismo (catequese, apostolado) e/ou a pedagogia (ciência que trata da educação dos jovens, que estuda os problemas relacionados com o seu desenvolvimento como um todo). Sempre presente em Leão ideias de guiar, de orientar. 

A “realeza” leonina só se manifesta quando o signo, deixando de lado os restantes pontos cardeais, se encaminha instintivamente para o quinto ponto, o centro, o lugar privilegiado dos leoninos. O centro é o lugar de onde emanam as imposições que vão estabelecer uma ordem, dar uma organização, pois sem ele tudo é caos. O centro implica assim uma ideia de cosmos, de ordem, no qual cada parte encontra a sua função pela relação que com ele mantém.

Outra característica importante de Leão é a necessidade de anexar, sendo por isso o signo inspirador, ao longo da história do homem, de todas as aventuras colonialistas, que precisam de exércitos (Áries) e da religião (Sagitário). Sempre uma ideia de eixo central
NAPOLEÃO  BONAPARTE
( JACQUES LOUIS DAVID )
em torno do qual se alinharão os satélites.  Todo leonino busca um centro, tal como o Sol atua no sistema solar. O melhor exemplo de tudo o que estou aqui a apresentar é o de Napoleão Bonaparte (15 de agosto de 1.769), em torno do quem (França) se alinharam vários satélites. Quanto a este exemplo, é bom lembrar que o império napoleônico, que sucedeu ao consulado, durou exatamente 11 anos (1.804-1.815), um número muito presente na vida de leoninos. 

A digressão que está acima servirá, acredito, para deixar claro que a grande divindade da mitologia grega associada ao signo de Leão é Apolo. Ele era a divindade que inspirava o estabelecimento das colônias (apoikias), unidas à metrópole (Atenas) sobretudo por laços religiosos, embora pudessem eles, os colonizados, manter uma certa autonomia administrativa.  O oráculo apolíneo de Delfos era obrigatoriamente consultado antes que um grego decidisse emigrar. Fracassos de empreendimentos coloniais gregos foram atribuídos ao desprezo dessa prática religiosa. A sentença oracular apontava para as regiões que deviam ser invadidas. Lembremos que Apolo foi a divindade inspiradora do estabelecimento de colônias gregas na Ásia e na África e, por isso, a divindade tutelar do que chamamos de helenismo, o conjunto da civilização e da cultura gregas que se desenvolveram fora da Grécia. 

O  CARRO  DE  APOLO ( GUSTAVE  MOREAU )

De início, no mundo grego, Apolo se apresenta como uma divindade caracterizada por fortes traços de prepotência, de orgulho, de violência, produto de um forte sincretismo (como todos os deuses gregos, aliás, o são) que incorpora elementos asiáticos, hiperbóreos e mediterrâneos. Aos poucos, à medida em que a sociedade grega se tornava mais complexa, as atribuições apolíneas também foram mudando, se alterando. Os primitivos componentes de sua imagem (guerra, invasão, violência) foram se atenuando, se resolvendo, de modo que ele, já ao fim do período arcaico, passará a ser considerado como um ideal de sabedoria, de estilo de vida, que definia o “milagre” grego. 


Todas as colônias, principalmente através de suas elites, sempre adesistas, “reverenciavam” a matriz grega, como acontece, aliás, com as políticas imperialistas postas em prática hoje no mundo moderno. Platão, em A República, recomendou aos legisladores que pensassem sempre em Apolo quando tivessem que estabelecer as leis que deveriam governar a república. Estas leis, todas, de inspiração apolínea, deveriam contemplar questões como: fundação dos templos, ritos sacrificiais, cultos religiosos em geral, definição de vida espiritual,  do que era demoníaco e do que era heroico, do culto dos mortos etc. 

Num plano superior, Apolo será a vitória sobre as pulsões instintivas (Áries), vitória que deve ser objeto de uma conquista
ÉSQUILO
pessoal (quinta casa) e não produto de uma herança (quarta casa). Ésquilo usa uma expressão de forte inspiração astrológica para falar de Apolo: o deus significa ir da caverna aos píncaros, aos cumes celestes ou, traduzindo, ir de Câncer a Capricórnio, porque antes de Câncer não “somos” e depois de Capricórnio estaremos “deixando de ser”.

Apolo, através de sua biografia, ilumina todas estas questões de natureza mítico-astrológica. Não é por acaso que Leto, a mãe, se transformará em loba (símbolo da vida instintiva) e que Apolo será chamado de Licógenes, o gerado pela loba. Aos poucos, através de sua crônica, Apolo vai mudando a valorização do lobo. Se na origem o lobo era sinônimo de selvageria e de depravação (as lobas, principalmente; daí, os prostíbulos serem chamados de lupanar), aos poucos, com Apolo, agregam-se sentidos positivos à palavra, ideias de furor guerreiro, de visão noturna (o lobo sai para caçar antes do nascer do Sol), de heroísmo (luta contra animais maiores), sintetizados pelo adjetivo Lycio. 

Outra passagem importante do mito apolíneo que ilumina bem o mundo leonino é a da posse do oráculo de Delfos. Oráculo, no mundo grego, tanto significava uma profecia feita por um adivinho independente como por um profeta ligado a um santuário. Oráculo
ORÁCULO
também era o nome que se dava ao lugar onde se proferiam sentenças oraculares, certos tipos de profecia. A estes lugares estava associada a figura de um inspirador, de uma divindade, de um herói ou de um morto ilustre. Os grandes oráculos da Grécia eram de Zeus e de Apolo, ao lado dos quais havia santuários colocados sob a tutela de deuses menores.

SANTUÁRIO  DE  DELFOS
Desde a mais remota antiguidade, desde tempos anteriores ao período arcaico da história grega, os oráculos sempre foram um domínio do feminino. Delfos, como oráculo, era de Geia e de Têmis, guardado por um dragão chamado Píton. Para se apossar da tutela desse oráculo, Apolo teve que matar o monstro e substituir a mântica por incubação, feminina, pela mântica dinâmica, masculina, que se realizava através de grandes festas e cantos corais. 


ORÁCULO  ( GRAVURA ALEMÃ )
A mântica por incubação era um procedimento tipicamente feminino. A sacerdotisa, no mais recôndito do oráculo, região cavernosa, cheia de emanações que vinham das profundezas da terra, os chamados vapores divinatórios, era, em nome de Geia, o veículo oracular por excelência. Incubar era, no caso, um processo de interiorização que levava a um transe com a finalidade de se favorecer o desenvolvimento e a uma eclosão (revelação) das sentenças oraculares. Incubar é trazer em estado latente, preparar para dar à luz. 


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

SEXTO TRABALHO DE HÉRCULES




AMAZONAS

   O CINTURÃO  DA  RAINHA  DAS AMAZONAS - Hércules recebeu ordens de se apoderar do cinturão de Hipólita, a rainha das Amazonas.  As amazonas eram guerreiras que viviam isoladas em seus territórios e não aceitavam o mundo masculino. Sobreviventes de um período histórico chamado matriarcado, no qual as mulheres foram socialmente muito mais importantes que os homens, mantinham um regime político-social que ficou conhecido pelo nome de ginecocracia.

HÉRCULES SE APODERA DO CINTURÃO DE HIPÓLITA

Nos antigos sistemas matriarcais,  a principal figura da unidade familiar era a  mãe, aparecendo os homens apenas como entidades reprodutoras e desempenhando um papel inferior na organização tribal. Eram elas que decidiam sobre os bens comuns a todos, assumindo o controle tanto da sua produção como da sua distribuição. Além disso, centralizavam-se também nelas a identificação dos filhos (matrilinearidade) e a transmissão dos bens, decidindo  elas, no geral, tudo o que dissesse respeito ao mais conveniente para a melhor sobrevivência da tribo.

Os estudos clássicos sobre o matriarcado são os do antropólogo,
J. J. BACHOFEN
filólogo e jurista suiço J.J.Bachofen (1815-1887), defensor da tese segundo a qual esse sistema social estaria na base de todas sociedades humanas. Aos seus trabalhos se juntaram depois os de outros pesquisadores, adotando-se também o nome de sociedades matrifocais para designá-las. Como sempre acontece  quando uma tese inovadora como a de Bachofen é apresentada, os meios oficiais acadêmicos se manifestaram contrários (muitos até violentamente) aos argumentos do estudioso suíço. Outros, em menor número, do
qual fizeram parte alguns escritores, poetas e  mitógrafos,  de  mente mais aberta, como Erich Fromm, Robert Graves, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann, Lewis H.Morgan, Joseph Campbell e Jane Elle Harrison (fig. direita) deram-lhes acolhida muito simpática e até entusiasta (Jane Harrison, por exemplo não só encampou muitos dos argumentos de Bachofen para as suas visões do mito como escreveu uma das grandes obras da mitologia; Themis – A Study of the Social Origins of Greek Religion, na qual as teses matriarcais aparecem com destaque. 

Pesquisas arqueológicas demonstraram e vêm demonstrando que as sociedades matriarcais parecem ter existido realmente. Um exemplo: J.A. Evans (1851-1941), arqueólogo, em fins do séc. XIX, constatou, quando de suas escavações em Creta, que por volta de 3.000 aC existira na ilha uma ginecocracia. Os trabalhos de Evans comprovaram também a veracidade de várias histórias, que, sob a forma de mitos, tidos como fantasiosos, “coisas de poetas”, nos descreviam as relações entre a  ilha e a Grécia continental. Foi ele quem, ao aproximar a matéria histórica e mito,  deu o nome de minoica à esplêndida civilização cretense, a partir de registros míticos que falavam de personagens como Minos, Pasífae, Ariadne, Minotauro e Teseu.

Com base nos trabalhos de Bachofen, os estudiosos modernos dividiram o matriarcado em três fases: 1) Heterismo; 2) Amazonismo; e 3) Demetrismo. A palavra hetera (hetaira, em grego) quer dizer concubina, prostituta. A primeira fase, também destacada nos trabalhos de Bachofen, se caracterizava por uma espécie de comunismo tribal, com fortes componentes nômades e acentuada promiscuidade sexual (poliamor, no dizer de Bachofen). As mulheres dominavam a vida social, exercendo os homens, como se disse, apenas a função de machos reprodutores. A Grande-Mãe era representada por figuras femininas enormes, obesas, esteatopígicas,figuras que no dizer de Bachofen eram uma  espécie de proto-Afrodite. É por essa razão, lembre-se, que essas mães começaram a ser chamadas pelos arqueólogos e pesquisadores acadêmicos  de Vênus, ao qual se acrescentava o nome do lugar em que eram encontradas as estatuetas, Vênus de Willendorf, Vênus de Brassempouy etc.

VÊNUS DE WILLENDORF

As estatuetas dessas Grandes-Mães, como indicaram as pesquisas, já apareciam no paleolítico ( desde 30.000 aC) e sua produção estendeu-se até a era de Touro (mais ou menos entre 4.000-2.000 aC), período em que se concluiu a passagem da tutela da unidade familiar do feminino matriarcal para o masculino patriarcal. Duas observações importantes a se fazer aqui quanto ao nome de Vênus dado às estatuetas: 1) elas são representações da Grande-Mãe, cujas funções nada tem a ver com as atribuições de Afrodite-Vênus, como está na mitologia. As representações acentuam fisicamente  o que sobretudo na mulher lembra fecundidade, ventre, nádegas seios, vulva. 2) Esses pesquisadores, ao desenterrar o mundo matriarcal, nos ajudaram a reavaliar corretamente a história da humanidade e o papel que nela teve a mulher. Contudo, a visão que eles nos apresentaram veio carregada de preconceitos machistas, algo que uma pretensa objetividade científica conseguiu camuflar. A ironia com que trataram o assunto deixa entrever tudo isso. Eles, por exemplo, deram às estatuetas um nome que nada tem a ver com o que elas representam.  Este preconceito pode ser notado também na designação dada à primeira fase do matriarcado, heterismo, pelo qual se procurou comparar o papel da mulher nessas sociedades ao de prostitutas, o que é absolutamente incorreto, pois a prostituição é atividade mais ou menos institucionalizada que visa o ganho de dinheiro com a cobrança por atos sexuais, o que não ocorria em tais sociedades.

TELLUS MATER
   
O que temos de confirmado é que na ordem matriarcal sabia-se quem era a mãe, sendo o pai uma figura apagada e, no geral, ignorada. Assim, as uniões não eram monogâmicas. A vida, a rigor, dependia delas, das mulheres,  cujo corpo analogicamente se confundia com a própria Terra como fonte da vida, de todos os seres. Daí os nomes da Grande-Mãe nas várias mitologias, Geia ou Gaia, Magna Mater, Tellus Mater, Deusa da Montanha do Mundo, Potnia Theron, Maya-Shakti-Devi, Ísis, Cibele, Aditi,  todas doadoras e tomadoras da vida, sempre representadas por figuras enormes, gigantescas, solenes. 

CIBELE
  
Bachofen fala que na segunda fase do matriarcado, com a diminuição das  atividades  predadoras e coletoras, um incipiente processo de sedentarização deu condições ao aparecimento da agricultura e de cultos ctônicos, adquirindo a Grande-Mãe características lunares, representada por figuras que lembravam vagamente a Deméter grega. A esta fase se seguiu outra, a que ele deu o nome de dionisíaca, uma fase onde se notam já interferências masculinas mais ou menos poderosas. 

DEMÉTER
  
Aqui, quanto à chamada fase dionisíaca, outra imprecisão, um erro mesmo. Dioniso não faz a transição do feminino para o masculino. Ele age, isto sim, para destruir as formas que não sabem
DIONISO (MIGUEL ÂNGELO)
se renovar, tanto masculinas como femininas (ele, por exemplo, destruiu Ariadne, divindade do mundo vegetal, do mundo matriarcal). Num mundo saturado de machismo como o grego,tanto histórica como miticamente, Dioniso aparece muito mais ligado ao mundo feminino, sendo, como tal, venerado pelas amazonas. Extremamente complexo como divindade, ele se liga ao mundo animal e ao mundo vegetal, à energia que os percorre. Como deus das metamorfoses, anima a natureza com a sua energia de poder embriagante, confunde-se com a seiva, a própria vida do mundo vegetal.                                           


Dioniso sempre viveu entre mulheres. Sua fidelidade a Sêmele (nome que podemos aproximar de semen, tanto semente animal  como vegetal), filha de Cadmo, sua mãe, é notável. Dioniso, como sabemos, retirou-a do Hades para transformá-la na primeira das suas sacerdotisas, das suas mênades. Lembremos que, no período clássico da história grega, foram as forças dionisíacas que destruíram as formas do poder masculino da polis ateniense, dominada por Apolo, o deus da aristocracia grega. Dioniso intervém sempre que as formas masculinas ou femininas não sabem se renovar, corrompendo-as, apodrecendo-as, aviltando-as, enlouquecendo, conforme o caso, tanto os indivíduos como as coletividades, as sociedades humanas. 

ARIADNE E DIONISO (ANTOINE-JEAN GROS - 1821)

 Muitos séculos e séculos se passaram. Quantos? Aos poucos, na eterna luta dos opostos (masculino-feminino, ativo-passivo), no jogo de alternância das forças cósmicas, o mundo masculino  foi adquirindo poder, fortalecendo-se, conquistando posições políticas e sociais, apossando-se do campo religioso. As mulheres foram sendo rebaixadas. As divindades masculinas, de características fortemente patriarcais, passaram a ocupar as principais posições nos panteões religiosos.

MARDUK E TIAMAT

A ultima fase do matriarcado é chamada por Bachofen de apolínea, fase que, segundo afirma, está na origem da civilização moderna. Com efeito, a liquidação do matriarcado pode ser rastreada em
THEMIS
muitos exemplos míticos como o temos na Mesopotâmia: o domínio de Tiamat, princípio feminino, visto como uma ameaça do caos, pelo herói Marduk. Outro exemplo, muito significativo, foi a tomada do Oráculo de Delfos, de  Geia e de Themis, a Grande-Mãe e sua filha, guardado pelo dragão-serpente Python, por Apolo. Com a vitória de Apolo, a mântica divinatória, por incubação, tipicamente feminina, foi substituída pela mântica profética, apolínea, tipicamente masculina.  


À terceira fase, na visão mais “moderna” das teses matriarcais,  já totalmente dominada pelos homens, deu-se o nome de Demetrismo. Uma homenagem à Grande-Mãe através da deusa Deméter, da agricultura, dos grãos, dos cereais. Honrava-se de alguma modo o feminino, dava-se-lhe uma posição divina, mas absolutamente secundária, subalterna e inferior nos panteões. Uma figura que, embora necessária, pouco ou nenhuma representatividade tinha.

Na mitologia grega, por exemplo, dá para perceber o que aqui se afirma quando pensamos nos grandes operadores do sistema
PALAS ATHENA (GIUSTINIANI)
olímpico. Apolo e Palas Athena, os mais chegados a Zeus, além de Hera, tinham posição privilegiada nos grandes centros urbanos, seus maiores templos ficavam na polis. Uma divindade como Deméter não possuía templos nestes centros. Suas festas eram realizadas no campo, longe Os mistérios de Eleusis eram dela e de Dioniso, mistérios que falavam de morte simbólica e renascimento, algo que, em absoluto, interessava à aristocracia grega. As festas de Palas Athena, ao contrário, eram urbanas, atraíam pessoas do campo para a cidade. Suas festas, as Panateneias, tinham um caráter pan-helênico, citadino, sendo festas totais do mundo grego.


A reação do princípio feminino é consequência da terceira fase apontada por Bachofen. As mulheres procuraram resistir ao crescente aumento do poder masculino. Agruparam-se, formaram sociedades. A estas mulheres se deu o nome de amazonas (em grego, ausência de seio) porque elas, diz o mito, para melhor manejar o arco, arma na qual eram exímias, extirpavam um dos seios. As amazonas, quando precisavam assegurar a continuidade do seu grupo, raptavam homens, usando-os como reprodutores. Se da relação nascesse uma menina, conservavam-na, uma futura amazona. Se nascesse um menino, abandonavam-no ou o matavam.


Quanto à questão das origens, alguns asseguram que elas eram teriam saído  do Irã e passado a viver na Cítia, numa região que ficava perto perto do Ponto Euxino ou Mar Negro, entre a Europa, a Anatólia e o Cáucaso. A palavra amazonas viria  de hamazan, que, em iraniano, quer dizer lutar em grupo, lutar juntamente com alguém. 

 A realidade histórica das amazonas sempre foi questionada; existiram realmente essas guerreiras ou não? O que temos, com relação à antiguidade, aparece nas obras de vários escritores. Heródoto, o pai da História, relata que os sármatas (povo que vivia na região da atual Polônia) eram descendentes delas e dos citas. Já Hipócrates as menciona íntegras, nada dessa história de seio decepado para melhor poder manejar o arco. Diodoro Sículo, ao falar dos trabalhos de Hércules, nos dá notícias de que a capital do país das amazonas era a Temiscira, ao que parece na costa turca. Os depoimentos sobre elas se acumulam, havendo inclusive um,  entre os romanos, o de Júlio Cesar, que disse tê-las conhecido.

 Hércules é um dos mais perfeitos representantes do mundo masculino patriarcal. É filho do maior dos deuses, Zeus; sua mãe era uma princesa mortal e, embora casada, ainda era virgem; foi escolhida pelo Senhor do Olimpo, que a fecundou para torná-la mãe de um herói que simbolizasse a união das forças terrestres com as forças celestes. Hércules é um guerreiro e nunca abriu mão do entendimento de que quem faz o Direito é a Força. 
 
Recebeu nosso herói neste sexto trabalho a incumbência de ir ao país das amazonas com o objetivo de se apoderar, como bem entendesse, de um famoso cinturão que Hipólita, uma filha do deus Ares, a rainha das amazonas, possuía. A previsão de Hércules e de seu pequeno grupo, todos truculentos e violentos guerreiros como ele, era a de uma luta terrível, pois as amazonas sempre se mostraram como temíveis combatentes.

 Nada do previsto, porém, ocorreu. O pequeno grupo chefiado por Hércules foi recebido amistosamente pela rainha. Declarou nosso herói o objetivo de sua missão. Hipólita (etimologicamente, aquela que desatrela os cavalos) respondeu que poderia negociar, discutir a questão, o que seria feito no dia seguinte. Em nome da paz, a rainha se prontificou inclusive a entregar o seu cinturão, símbolo do poder feminino, desde que ambos, o masculino e o feminino passassem a viver em condições de igualdade. 

Os cintos e cinturões dão uma ideia de união, de ligação, de poder, de submissão, de dependência, tudo ao mesmo tempo. Como peça que envolve a cintura, o cinto, no entender dos antigos, separava o corpo em duas partes, a inferior, onde se alojam os órgãos genitais, da superior, sede do coração. Ao envolver a cintura, onde se encontram os rins, órgãos do equilíbrio (signo de Libra, oposto ao de Áries, sede da energia individualizada), o cinto indica assim uma submissão conquistada, ou melhor, uma vontade de se integrar livremente a uma outra para formar um todo maior. 

HÉRCULES MATA HIPÓLITA

Na noite que antecedia o dia da reunião marcada, aproveitando-se da calma que reinava no palácio, Hércules e seu grupo, desconfiados da proposta de Hipólita, e querendo logo resolver a questão,  atacaram de surpresa a rainha e as suas companheiras mais chegadas, não lhes dando a mínima possibilidade de reagir, promovendo uma carnificina sem igual; mataram-nas quase todas, poupadas algumas que foram dadas como escravas aos que do grupo mais se haviam destacado pela violência.  Mais uma vitória, uma grande façanha, sem dúvida.

Esta história é, evidentemente, uma ilustração do conflito entre os mundos masculino e feminino, uma polaridade universal, que aparece em todos os níveis da criação. No ser humano, na sua fisiologia, no seu psiquismo, na vida social, na convivência humana, nas relações entre as nações, na vida religiosa etc., sempre estão em ação estes dois princípios. 

Quando o Sol atravessa a constelação de Virgem, último mês do verão, há uma retração da luz do verão, uma contenção. No mês seguinte, O Sol estará no signo de Libra, equinócio de outono, onde o dia e a noite têm a mesma equivalência. Fica fácil entender: para que possam se unir, os dois lados têm que se equilibrar continuamente, o que nem sempre é fácil. Quando pensamos em Libra, temos que pensar num mundo de medidas, de nuances, de atenuações, de ajustes permanentes, através dos quais o todo caminhará. É por isso que Libra é signo do elemento ar, que pressupõe comunicação. É este jogo de relações e de ajustes permanentes que gera o nascimento, como modelo de convivência, no dizer dos antigos gregos, da Afrodite Dourada. Quem prepara o nosso ingresso consciente no signo de Libra é o signo de Virgem. 

O que a história nos revela é que faltou sensibilidade a Hércules para perceber que lhe estava sendo oferecida uma oportunidade de equilibrar o masculino e o feminino tanto em termos de sua personalidade como de convivência humana, uma possibilidade de entendimento entre estes dois componentes que todo ser humano possui em variados níveis nos seus três corpos, o físico, o emocional e o mental. Mas ele nada disso percebeu. O que lhe interessava era a vitória, a qualquer preço. Faltou-lhe compreensão para notar que se oferecia a ele um meio, ainda que não muito claro, de dar um primeiro passo na direção de algo maior. 

No signo de Virgem, o sexto na ordem zodiacal, surgem, nas suas expressões superiores, ideias de sacrifício, de compreensão e de tolerância em nome do Todo que vier a ser formado. Para isso, há que se purificar o ego nascido no signo anterior (Leão), limpá-lo dos seus excessos luminosos, egoicos, preparando-o para que seja capaz de se ajustar constantemente, diariamente, em Libra, o signo da união. Em Libra, entramos no equinócio do outono, quando momentaneamente os dias e as noites têm a mesma duração. 

O número do signo de Virgem é o seis, que integra dois ternários. Como tal é o número dos dons recíprocos e também dos
antagonismos. A estrela de seis pontas tem relação com uma visão macrocósmica, enquanto a de cinco pontas nos remete à ideia microcósmica, do ser que adquire a luz somente para fins materiais. As seis pontas indicam os dois triângulos entrelaçados e invertidos, o encontro da matéria com o espírito, um encontro que pode significar um sentido evolutivo ou involutivo para a vida.

Os cinco primeiros trabalhos de Hércules cobrem um período de preparação, da construção de um ego autônomo. A partir de Leão uma nova etapa se apresenta. O lado material (ego leonino) deve começar a se subordinar ao espiritual. Nesta etapa virginiana é que temos que nos preparar para todas as formas humanas de contrato, purificando o nosso ego, atenuando-o para que possamos conviver melhor com o outro e, partir dele, nos integrarmos à grande família humana.

Virgo é o ponto intermediário entre a matéria e o espírito. A força de Virgo está na colheita e não na semeadura. Colher e preparar o alimento. Aproveitar o essencial, deitar fora o supérfluo, o inútil,
VIRGO: A COLHEITA
tanto uma função cerebral como intestinal. O perigo de Virgo está na imobilidade diante das escolhas. Em Virgo, surge a ideia de sacrifício, de cortar e de jogar fora, de selecionar e  criticar (verbo e função virginianos). A ação de Virgo tem que se voltar para coisas práticas, pois é através delas que decidimos quanto à organização da nossa vida diária. Em Virgo, temos que dominar os excessos leoninos, o egoísmo, as tendências narcísicas, os excessos da nossa subjetividade, sempre um intransponível obstáculo para  a compreensão e o entendimento.


Os perigos de Virgo estão na exagerada busca da lucidez, na tendência às abstrações, na valorização da memória prática e das infindáveis classificações. Neste sentido, é que o lacre, o selo, o não violado têm a ver com Virgo. Nos tipos malogrados do signo,  comuns as tendências ao celibato, à timidez, à castidade, ao puritanismo, à visão do sexo como sujeira, à mania de limpeza, à hipocondria,  aos transtornos obsessivos compulsivos (TOC).

 Hércules, fixado no seu eu leonino,  não soube se abrir para a oportunidade que Hipólita lhe ofereceu. Permaneceu na horizontalidade do seu ego, não entendendo que o leonino deve procurar a verticalização através da caminhada espiritual a partir de Virgo. Entender-se com o outro (social) para chegar à humanidade, ao coletivo (espiritual).  
 
Do grupo de Hércules, dentre outros, fazia parte Teseu, herói da Ática, tão importante no mito quanto ele, também filho de um deus, Poseidon. Como Hércules, saturado de energia masculina, recebeu como presente pela vitória sobre as amazonas  Antíope, irmã de Hipólita. Uma das versões desse mito nos conta ela foi levada por Teseu para Atenas, passando a viver com ele, tornando-se mãe de Hipólito,  personagem famoso que terá seu nome ligado mais tarde a Fedra, uma outra mulher de Teseu. 

         É neste sexto trabalho de Hércules que temos um dos famosos
MORTE DE LAOMEDONTE
episódios de percurso do nosso herói. Ao retornar do país das amazonas, ele passou por Troia, então vitimada pela peste. Apolo e Poseidon faziam a cidade padecer terrivelmente porque não haviam sido recompensados devidamente pelos serviços que haviam prestado ao rei Laomedonte, a construção das muralhas da cidade. Consultado, um oráculo revelara que o mal só seria afastado se o rei oferecesse em sacrifício a sua filha Hesíone, para ser devorada por um monstro. 


Foi a essa altura que Hércules, passando por Troia, se prontificou, como era de seu costume, a resolver o problema real, desde que Laomedonte lhe desse, em pagamento, umas éguas divinas recebidas de Zeus. Assim foi combinado, cumprindo Hércules a sua parte, isto, é, matando o dragão. Laomedonte, porém, se negou a cumprir o acertado. Furioso, Hércules se retirou da cidade. Tempos depois, contudo, a ela voltou com um pequeno exército. Matou Laomedonte e escravizou os troianos. Deu Hesíona de presente ao herói Telamon, permitindo que ela levasse algum troiano como escravo. Hesíona escolheu o seu próprio irmão, Podarces, resgatando-o antes, porém. Por isso, Podarces teve seu nome mudado para Príamo (etimologicamente, o resgatado, o comprado), quando, mais tarde, por uma virada do destino, assumiu o trono de Troia.


  
A constelação de Virgem estende-se nos céus de 20º Virgem a 6ºScorpio. Está hoje comprovado  que ela já era conhecida pelos egípcios desde remotíssimos tempos pré-dinásticos. Entre, mais ou menos, 10.000 e 8.000 aC, no ciclo das eras cósmicas (2.160 anos cada era)  os egípcios celebraram a passagem do Sol da constelação de Virgem para a de Leão, construindo a sua famosa esfinge no Baixo-Egito, tendo sido mais tarde levantadas ao seu lado as pirâmides  de Keops, Kephren e Mikerinos. 

É de se lembrar que tanto a localização dessas três pirâmides como a da esfinge foram
DENDERAH
determinadas astronomicamente (fato não aceito pela egiptologia oficial). A esfinge já fazia parte do zodíaco de Denderah como uma representação de Ísis, esposa de Osíris e mãe de Hórus. Ela era vista com uma espiga de trigo na mão, por ela lançada no espaço para formar a Via Láctea. O zodíaco de Denderah, um dos maiores monumentos astrológicos da história da humanidade, é um baixo-relevo esculpido no pórtico da câmara do deus Osíris, num templo da deusa Hathor, como mãe do Sol. Está hoje no Museu do Louvre. 

Os árabes chamavam a constelação de Virgem de Al Adhira al
ERÍGONE E DIONISO
Nathifah, A Inocente Donzela. Os chineses a chamaram de A Frígida Donzela. Os gregos tanto a viram como Deméter, deusa dos cereais, como Erígone, filha de Icário, camponês que hospedou o deus Dioniso quando ele desceu ao mundo para ensinar aos humanos a cultura da vinha. Dioniso se apaixonou por Erígone, uniu-se a ela para que nascesse Estáfilo, o “cacho da uva”. 


Uma outra versão grega nos informa que a constelação da Virgem é Astreia (plural de astros). Filha de Zeus e de Themis, deusa das leis imprescritíveis,   Astreia, justa e virtuosa, vivia entre os humanos na Idade do Ouro. Pervertendo-se os humanos, ela, com a sua irmã Aidós, O Pudor, se retirou da Terra, fixando-se como a constelação da Virgem nos céus.

A principal estrela (alfa) da constelação da Virgem é Spica, uma das mais importantes dos céus, hoje a 23º09´Libra. Simboliza a
DIONISO E AMPELO
espiga de trigo, nas mãos da deusa, como uma promessa de dons (agricultura) para a humanidade. Importante também em Virgo é Vindemiatrix, etimologicamente, aquele que colhe cachos de uva. No mito, ele é Ampelo, jovem filho de um sátiro e de uma ninfa, amado por Dioniso. Ao colher um cacho de uvas numa videira que o deus lhe dera de presente, caiu e morreu. Desolado, o deus o transformou então em estrela, que está hoje a 9º15´Libra.


As constelações que associamos a Virgem são a do Pastor, Coma Berenices, Corona Borealis e a Ursa Maior. Na primeira, que se estende de 27ºVirgem-7ºEscorpião, temos a história de Arcas (etimologicamente, o que vem da ursa, arktos), filho de Zeus e de Calisto. A ninfa, grávida, foi transformada em ursa por Ártemis. O filho nasceu, recebeu o nome de Arcas e foi entregue a Maia, mãe do deus Hermes. Tornando-se caçador, Arcas um dia quase matou  a própria mãe transformada em ursa. Para evitar acontecimentos como este, Zeus levou Calisto para os céus como a constelação da Ursa Maior, colocando-a sob a tutela de Arcturus, a estrela alfa da constelação do Pastor ou Boieiro (Arcas).

CALISTO

 Na constelação de Coma Berenices, que vai de 17ºVirgem a
BERENICE
12ºLibra, se registra a história de Berenice, a mulher de Ptolomeu Evergetes. Princesa egípcia, Berenice pertence tanto ao mito como à História. Tendo seu marido partido para fazer a guerra na Síria, Berenice prometeu doar os seus belíssimos cabelos aos deuses se eles o protegessem. Assim aconteceu e Berenice depositou os seus cabelos no templo. Um dia, eles desapareceram. Para acalmar Ptolomeu, disseram-lhe que Afrodite os levara para os céus, transformando-os em constelação.

Corona Borealis (2º a 17ºScorpio), para os gregos, foi o diadema que Afrodite deu a Ariadne quando ela se uniu ao deus Dioniso na
ARIADNE E TESEU
ilha de Naxos, depois de abandonada por Teseu. Ariadne e Teseu, como sabemos, são expressões do matriarcado e do patriarcado, respectivamente. Dioniso, como nos conta o mito, depois dar três filhos à princesa cretense, a sacrificou, colocando o diadema que Afrodite lhe dera como constelação nos céus. O mito narra, numa outra leitura, ainda dentro das aproximações matriarcado x patriarcado, a penetração da cultura da vinha (Dioniso) no Mediterrâneo oriental, simbolizando a morte de Ariadne, como antiga deusa da natureza, o sacrifício da vegetação para que isso se tornasse possível.


A Ursa Maior (10ºCâncer-27ºVirgem) é a mais importante
URSA MAIOR
constelação dos céus, sendo considerada por todos os povos da antiguidade como o “umbigo do céu”.  Desde a pré-história, é um centro universal, fazendo todas as demais constelações um movimento circular à sua volta. Nela, durante milênios, se situou a estrela Polar, a partir da qual todo o universo se movimentou. Hoje, a estrela que desempenha esse papel, como o nome de Polaris (a 27º52´Gêmeos), é da constelação da Ursa Menor.