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quinta-feira, 18 de maio de 2017

LEÃO (1)

  
  
                     
SEKHMET
A mais antiga referência que temos sobre a constelação do Leão nós a encontramos no Egito, quando da construção da Esfinge de Gizé, monumento astrológico e religioso que marcou a passagem da era de Virgem para a de Leão, entre 10.000 e 8.000 aC. Na mitologia, Sekhmet (Sakhmis, em grego) era o nome, entre os egípcios, de uma deusa da guerra e dos combates, representada comumente como uma leoa ou uma mulher gigantesca com cabeça de leoa. O nome significava A Poderosa, um epíteto da deusa Hathor, grande divindade que os gregos identificaram como a sua Afrodite. 


HATHOR
Deusa do céu, filha de Ra, uma espécie de grande vaca celeste, Hathor tomou a forma de uma leoa e se lançou contra os homens que se revoltaram contra seu pai ou não o reverenciavam, Ra, o deus Sol. Temendo o extermínio da humanidade, por causa da ferocidade de Sekhmet, o pai pediu-lhe que se contivesse um pouco. Não sendo atendido, adotou um estratagema: espalhou sobre a terra milhares de cântaros com uma bebida mágica, feita de cerveja e de suco de romã. Completamente alterada, Sekhmet tomou a bebida por sangue humano e a sorveu em grandes goles, avidamente, embriagando-se. Com isto, a raça humana foi salva, mas, para apaziguar a deusa, Ra decretou que lhe seriam oferecidos no início de cada ano tantos cântaros da bebida quantas fossem as sacerdotisas do Sol.

RA  ,  DEUS   DO   SOL
Esta deusa era chamada também de A Grande Amiga do deus  Ptah (identificado pelos gregos como seu deus Hefesto), passando por sua esposa nos cultos de Mênfis. Sekhmet era a deusa do calor e das epidemias, temível, sempre honrada e apaziguada. Ela costumava se manifestar através do olho direito de Ra quando em fúria. Ra tinha o seu culto na cidade egípcia que os gregos chamavam de Heliópolis.


CIBELE  -  PLAZA  DE  CIBELES , MADRI

Cibele, a grande deusa da Anatólia, cujo culto penetrou no mundo greco-romano por volta do terceiro século aC, parece ter incorporado muitos dos traços de Sekhmet. Cibele era, na origem, uma deusa das cavernas. Personificava a terra em seu estado bruto, selvagem, primitivo. Era adorada também no alto das montanhas. Seu culto se espalhou a partir da Ásia Menor, alcançando todo o Mediterrâneo, como mãe dos deuses. Exercia um grande poder sobre todos os animais, que faziam parte de seu cortejo. Seu carro era puxado por leões, o que simbolizava o seu poder sobre toda a energia vital. Era representada com uma coroa estrelada de sete pontas ou, noutras vezes, vinha com um crescente lunar, o que deixava claro seu poder sobre os ciclos da vida. 

Seu culto tinha um caráter orgiástico, com muita música e dança. O instrumento musical que a simbolizava era o tamborim. Também chamado de tamboril, o tamborim é um instrumento de percussão
TAMBORIM
semelhante a um tambor pequeno, coberto com pele de animal, percutido às vezes com uma baqueta; sendo seu som menos “grave” que o tambor, um som mais agudo, a sugerir sempre agitação, movimento. Seu tambor era muito usado também na Grécia, nos cultos dionisíacos, com a finalidade escandir o ritmo.    

As representações gregas de Cibele conservaram sempre um caráter profundamente asiático. Seu culto se reunia em torno de uma confraria que, com danças convulsivas, ao som de flautas, címbalos e tamborins, reverenciava a deusa, muitas vezes seus adeptos se ferindo voluntariamente e chegando mesmo à emasculação. Essa
CORIBANTES
confraria na Grécia era a dos Coribantes, nascidos de um personagem chamado Corybas, um filho de Cibele. Chamavam-se também os cultores da deusa Galos e Curetes. Estes últimos, como sabemos, aparecem em Creta, como seres demoníacos,  reunidos numa espécie de tribo, que cuidou de Zeus logo após o seu nascimento, quando Reia lá o escondeu para não ser devorado pelo pai. 


ATTIS (OSTIA ANTICA)
Associa-se também ao culto da grande deusa a figura de Attis, uma divindade menor, do mundo vegetal, que nascia e morria periodicamente. Era muito semelhante ao deuses Tamuz e Adônis, como estes apareciam nos cultos da deusa babilônica Ishtar, o primeiro, e da deusa grega Afrodite o segundo. Quando o culto de Cibele se difundiu pelo mundo grego, a figura de Attis se modificou. Ele assumiu a figura de um belo pastor a quem a deusa impusera o voto de castidade. Rompendo-o, Attis se uniu a uma filha do rio Sangarios. Cibele enviou-lhe, então, um delírio frenético, o que fez com ele mesmo se mutilasse, castrando-se. Dentre histórias que cercam a  deusa Cibele, há uma em que se narra a sua união com o rei frígio Górdias, da qual resultou um filho, Midas,  que instituiu cultos de Zeus e da deusa.


ESFINGE   DE   GIZÉ

O grande modelo das esfinges egípcias é a de Gizé, voltada para o Sol nascente, que velava as necrópoles, guardiã de um mundo que se fôra e de outro que viria. As esfinges podiam ter cabeça humana (androsphinx), de carneiro (criosphinx) e de falcão (hieracosphinx). Na tradição oriental, a babilônica, por exemplo, a esfinge era tradicionalmente o monstro a ser enfrentado pelos heróis solares, sendo ela, portanto, um símbolo feminino, como é o caso de Marduk que, na mitologia mesopotâmica, luta contra Tiamat, o feminino caótico.   


FIX
Na Grécia, as características femininas da esfinge foram acentuadas, tornando-se ela Fix (do verbo, sphingein, estrangular, sufocar), um monstro feminino raptor, ao representar a libido insaciável. Era filha de Tifon e de Équidna, irmãos, casal de monstros, o primeiro vencido por Zeus, numa sangrenta batalha pela posse do universo. A segunda é a mãe, lembrando seu nome a palavra grega víbora, serpente. Extremamente férteis, geraram, além de Fix, monstros como o cão tricéfalo Cérbero, o gigante Ortro, a Hidra de Lerna, a Quimera, o Leão de Nemeia, o Abutre que devorava as entranhas de Prometeu, os dragões da Cólquida e do Jardim das Hespérides, guardando o primeiro o Velocino de Ouro e o outro os Pomos de Ouro, 

A esfinge grega tem a sua imagem fixada no mito de Édipo, sendo por isso também conhecida como a Esfinge de Tebas. Este modelo tebano impôs-se a todos os demais: era uma leoa de asas, com cabeça de mulher, seios tumefactos, vaidosos, prometedores, um monstro feminino considerado devorador, raptor, como o eram também as Sereias, as “cruéis cantoras” como ela, e as Harpias. Fix propunha enigmas aos que se aventuravam pelos caminhos e estradas. Se os viajantes não os decifrassem eram devorados. Édipo, graças à sua habilidade e ao poder de sua palavra, conseguiu vencê-la, uma vitória exterior, contudo, que lhe deu muitas recompensas, satisfazendo seus anseios de dominação, uma vitória que, no fundo, acabaria se transformando na causa da sua derrota interior.

Oriundo da família dos labdácidas, filho de Laio (o protetor), rei de Tebas, e de Jocasta (a de brilho sombrio), Édipo (etimologicamente, o que tem defeito nos pés) foi afastado do convívio familiar quando um oráculo previu que ele mataria o pai e desposaria a mãe. Exposto no monte Citeron, foi recolhido e educado pelo rei de Corinto, Polybos. Fugindo de sua pátria para escapar da previsão,
ÉDIPO  E  A  ESFINGE
( GUSTAVE  MOREAU )
entrou em luta, no desfiladeiro de uma estrada, com um viajante e o matou. Este viajante era Laio, seu pai, que usava um disfarce. Indo em direção de Tebas, para fugir do oráculo (Édipo não sabia que Polybos era seu pai adotivo), ele enfrentou um monstro que só trazia desolação e morte para a região. O monstro, Fix, propunha um enigma. Como os que ousavam enfrentá-lo não sabiam decifrá-lo ele os devorava. Édipo, contudo, soube dar a resposta certa, vencendo-o. Agradecidos, os habitantes de Tebas, premiando-o, o proclamaram rei, tornando-se então sua esposa a rainha, viúva de Laio, sua mãe. Cumpria-se assim a sentença oracular. 

Segundo Sófocles, a cidade de Tebas, logo depois destes acontecimentos, se viu atacada por uma peste que a tudo destruía. Consultado um oráculo, soube-se que a cidade só voltaria à normalidade, sanada a pestilência que a tudo degradava, se o assassino de Laio fosse encontrado. Assim é feito, chegando-se a conclusão de que o assassino não era outro senão Édipo, o atual rei, que matara o próprio pai e casara com a própria mãe. Revelando-se tudo, a tragédia se precipitou. Jocasta se enforca. Édipo perfura os
ÉDIPO  E  ANTÍGONA
( S. BRODOWSKI )
seus próprios olhos com o broche do manto (himatio) de sua mãe e esposa. Expulso por seus filhos, ele parte pelas estradas da Ática, totalmente acabrunhado e abatido, guiado por aquela que se tornou a luz de seus olhos, sua filha Antígona. Acabou Édipo chegando a Colona, perto de Atenas, sendo recebido por Teseu. Nessa região, num pequeno bosque, trôpego, em meio a relâmpagos, sob um céu tempestuoso, conseguiu o infeliz herói vencedor da Esfinge ir sozinho em direção de uma caverna que, por piedade dos deuses, se abrira para recebê-lo, descendo ele então ao interior da terra, e desaparecendo.    

A história de Édipo nos foi contada por Sófocles, restando do tema edipiano apenas duas tragédias Édipo-Rei e Édipo em Colona. Posteriormente, Eurípedes e Sêneca abordaram o mesmo tema, mas nunca alcançando o esplendor das tragédias de Sófocles. A literatura dramática francesa, desde o séc. XVI, se voltou para a
OEDIPE  REX , 1936
( J. COCTEAU  E  I. STRAVINSKI )
história de Édipo. Destaques para as obras de Robert Garnier (Antigone, 1.580), Corneille (Oedipe, 1.659), Voltaire (Oedipe, 1.718), André Gide (Oedipe, 1.931), Jean Cocteau (La Machine Infernale, 1.934), Jean Anouilh (Antigone, 1.944). Na música, temos a ópera-oratório de Stravinski e de Jean Cocteau (Oedipe Rex, 1.927) e a ópera de George Enesco  (Oedipe, 1.936).

O mito de Édipo, como se sabe, foi interpretado de várias maneiras ao longo dos séculos. A mais conhecida interpretação é a de Freud, que serve de ilustração para a sua doutrina psicanalítica. Em que pesem as conclusões freudianas e de seus acólitos, que fixam o mito na esfera da sexualidade, o que me parece mais adequado, inclusive segundo uma perspectiva astrológica, é também, e talvez sobretudo, considerá-lo segundo um enfoque social.

A história de Édipo descreve um rito de passagem. O interrogatório da Esfinge é, no fundo, uma prova iniciática, a que os jovens deviam se submeter. Esta prova ocorria na adolescência. Num primeiro momento, ela punha o adolescente diante de duas tarefas muito pesadas, mais de natureza inconsciente que consciente. A rejeição das fantasias incestuosas (fixação no mundo materno) e a libertação da autoridade paterna, para que lhe fosse possível o acesso a uma vida social adulta. Tudo acontecia quando o efebo,
ESFINGE
chegado a idade de dezoito anos, se submetia à docimasia (dokime, em grego, é prova, verificação da experiência; a palavra foi para medicina, aparecendo em expressões como docimasia hepática, a docimasia pulmonar), antes de se inscrever como cidadão nos registros de seu demo. A Esfinge, um monstro erotizado, devorava os que não sabiam assumir a sua nova condição. Era, ao mesmo tempo, sedutora e terrível. Propunha também aos jovens enigmas sobre a sua virilidade e sobre o amor. Era irmã das Sereias, uma “cruel cantora” como elas. 

É neste sentido que a figura de Édipo se confunde com a do ser humano de todos os tempos. Ele é simplesmente um indivíduo que resolveu trilhar o caminho do autoconhecimento, caminho que, na sequência zodiacal,  leva de Câncer a Leão, ou da casa IV à casa V. Conquistada a autonomia na quinta casa astrológica, que fazer?  Por isso, Édipo aparece como um rei no mito, uma figura típica do signo de Leão, o princípio patriarcal que rege o mundo dos deuses na sociedade humana. O rei é concebido como uma projeção do eu superior, lembrando sempre autonomia, autodeterminação e conhecimento integral da própria personalidade. Faltou a Édipo o mais importante, a noção clara desta última qualidade. 

O enigma que a Esfinge propunha era o enigma da própria vida humana. Enigma quer dizer fala obscura, mistério. Édipo soube dar a resposta, mas não compreendeu a profundidade do problema.
ÉDIPO  MATA  O  PAI  ( BAIXO  RELEVO , III  AC
Empolgou-se com a sua personalidade leonina, com a sua habilidade intelectual. A física ele já a havia demonstrado, ao matar o “inimigo” pelo direito de passagem no desfiladeiro). Ele não percebeu que a Esfinge mudara de rosto, aparecendo-lhe a seguir sob a figura de Jocasta. Édipo resolveu o enigma de forma puramente intelectual. 

Édipo, embriagado pelo sucesso, aclamado como rei de Tebas, esqueceu-se de que o caminho da vida deve ser percorrido com as pernas e com os pés; não pela imaginação, pela especulação ou pelo aplauso exterior, mas, sim, pela vitória interior, que ele nunca soube procurar. Tebas foi para ele o mundo ilusório do ego. Ele alcançou o auge (Leão), mas, na realidade, não tinha consciência do que isto significava, que era ali, naquele momento, que devia começar a sua descida. Ao se retirar de Tebas (reino exterior, reino do ego), no final de sua vida, Édipo, cego e alquebrado, a abandonou-o por si mesmo, para buscar a sua verdade interior. São as palavras de Tirésias: Ele, que agora vê, ficará cego; ele, que agora é rico, ficará pobre; e, tateando o chão com um bastão, caminhará por terras estrangeiras.  



A constelação do Leão se acha submetida à influência do astro central do nosso sistema, o Sol. Embora o quinto signo seja considerado como fixo, as forças solares nunca, a rigor, representam uma cristalização, uma concentração, como, por exemplo, ocorre com Capricórnio, onde as forças saturninas dão muito mais concentração ao signo. No Zodíaco, assim, se Áries representa a caminhada em linha reta, para a frente, com desprezo pelos obstáculos, Touro atua mediante acumulação. Gêmeos age através da dispersão, da difusão, em todas as direções. Câncer é um signo que procura resolver sempre a contradição de avançar e retroceder ao mesmo tempo. Já Escorpião desce, muito mais interessado no mundo subterrâneo, no mundo subconsciente e nos seus poderes secretos. Sagitário elege as distâncias. Enquanto os signos de água compartilham essa fossa babélica que é o mundo das emoções e os tormentos do amor, os de fogo simbolizarão sempre a adesão a alguma coisa; seu veículo natural é a ação, a irradiação, a passagem de um estado a outro. 

Uma das grandes características de Leão é a passagem do desequilíbrio a um estado de equilíbrio, pois o elemento ígneo atua, é preciso não esquecer, através do quente, que é expansivo. Lembre-se também que o fogo para fulgurar, para se desenvolver, precisa de ar, de oxigênio. Ou, de outro modo, de trocas; os signos de fogo,
LEÃO
inclusive Leão, exigem comunicação, precisam da passagem rápida de um estado a outro, de uma ação que leve do desequilíbrio ao equilíbrio. Do universo leonino fazem sempre parte o proselitismo (catequese, apostolado) e/ou a pedagogia (ciência que trata da educação dos jovens, que estuda os problemas relacionados com o seu desenvolvimento como um todo). Sempre presente em Leão ideias de guiar, de orientar. 

A “realeza” leonina só se manifesta quando o signo, deixando de lado os restantes pontos cardeais, se encaminha instintivamente para o quinto ponto, o centro, o lugar privilegiado dos leoninos. O centro é o lugar de onde emanam as imposições que vão estabelecer uma ordem, dar uma organização, pois sem ele tudo é caos. O centro implica assim uma ideia de cosmos, de ordem, no qual cada parte encontra a sua função pela relação que com ele mantém.

Outra característica importante de Leão é a necessidade de anexar, sendo por isso o signo inspirador, ao longo da história do homem, de todas as aventuras colonialistas, que precisam de exércitos (Áries) e da religião (Sagitário). Sempre uma ideia de eixo central
NAPOLEÃO  BONAPARTE
( JACQUES LOUIS DAVID )
em torno do qual se alinharão os satélites.  Todo leonino busca um centro, tal como o Sol atua no sistema solar. O melhor exemplo de tudo o que estou aqui a apresentar é o de Napoleão Bonaparte (15 de agosto de 1.769), em torno do quem (França) se alinharam vários satélites. Quanto a este exemplo, é bom lembrar que o império napoleônico, que sucedeu ao consulado, durou exatamente 11 anos (1.804-1.815), um número muito presente na vida de leoninos. 

A digressão que está acima servirá, acredito, para deixar claro que a grande divindade da mitologia grega associada ao signo de Leão é Apolo. Ele era a divindade que inspirava o estabelecimento das colônias (apoikias), unidas à metrópole (Atenas) sobretudo por laços religiosos, embora pudessem eles, os colonizados, manter uma certa autonomia administrativa.  O oráculo apolíneo de Delfos era obrigatoriamente consultado antes que um grego decidisse emigrar. Fracassos de empreendimentos coloniais gregos foram atribuídos ao desprezo dessa prática religiosa. A sentença oracular apontava para as regiões que deviam ser invadidas. Lembremos que Apolo foi a divindade inspiradora do estabelecimento de colônias gregas na Ásia e na África e, por isso, a divindade tutelar do que chamamos de helenismo, o conjunto da civilização e da cultura gregas que se desenvolveram fora da Grécia. 

O  CARRO  DE  APOLO ( GUSTAVE  MOREAU )

De início, no mundo grego, Apolo se apresenta como uma divindade caracterizada por fortes traços de prepotência, de orgulho, de violência, produto de um forte sincretismo (como todos os deuses gregos, aliás, o são) que incorpora elementos asiáticos, hiperbóreos e mediterrâneos. Aos poucos, à medida em que a sociedade grega se tornava mais complexa, as atribuições apolíneas também foram mudando, se alterando. Os primitivos componentes de sua imagem (guerra, invasão, violência) foram se atenuando, se resolvendo, de modo que ele, já ao fim do período arcaico, passará a ser considerado como um ideal de sabedoria, de estilo de vida, que definia o “milagre” grego. 


Todas as colônias, principalmente através de suas elites, sempre adesistas, “reverenciavam” a matriz grega, como acontece, aliás, com as políticas imperialistas postas em prática hoje no mundo moderno. Platão, em A República, recomendou aos legisladores que pensassem sempre em Apolo quando tivessem que estabelecer as leis que deveriam governar a república. Estas leis, todas, de inspiração apolínea, deveriam contemplar questões como: fundação dos templos, ritos sacrificiais, cultos religiosos em geral, definição de vida espiritual,  do que era demoníaco e do que era heroico, do culto dos mortos etc. 

Num plano superior, Apolo será a vitória sobre as pulsões instintivas (Áries), vitória que deve ser objeto de uma conquista
ÉSQUILO
pessoal (quinta casa) e não produto de uma herança (quarta casa). Ésquilo usa uma expressão de forte inspiração astrológica para falar de Apolo: o deus significa ir da caverna aos píncaros, aos cumes celestes ou, traduzindo, ir de Câncer a Capricórnio, porque antes de Câncer não “somos” e depois de Capricórnio estaremos “deixando de ser”.

Apolo, através de sua biografia, ilumina todas estas questões de natureza mítico-astrológica. Não é por acaso que Leto, a mãe, se transformará em loba (símbolo da vida instintiva) e que Apolo será chamado de Licógenes, o gerado pela loba. Aos poucos, através de sua crônica, Apolo vai mudando a valorização do lobo. Se na origem o lobo era sinônimo de selvageria e de depravação (as lobas, principalmente; daí, os prostíbulos serem chamados de lupanar), aos poucos, com Apolo, agregam-se sentidos positivos à palavra, ideias de furor guerreiro, de visão noturna (o lobo sai para caçar antes do nascer do Sol), de heroísmo (luta contra animais maiores), sintetizados pelo adjetivo Lycio. 

Outra passagem importante do mito apolíneo que ilumina bem o mundo leonino é a da posse do oráculo de Delfos. Oráculo, no mundo grego, tanto significava uma profecia feita por um adivinho independente como por um profeta ligado a um santuário. Oráculo
ORÁCULO
também era o nome que se dava ao lugar onde se proferiam sentenças oraculares, certos tipos de profecia. A estes lugares estava associada a figura de um inspirador, de uma divindade, de um herói ou de um morto ilustre. Os grandes oráculos da Grécia eram de Zeus e de Apolo, ao lado dos quais havia santuários colocados sob a tutela de deuses menores.

SANTUÁRIO  DE  DELFOS
Desde a mais remota antiguidade, desde tempos anteriores ao período arcaico da história grega, os oráculos sempre foram um domínio do feminino. Delfos, como oráculo, era de Geia e de Têmis, guardado por um dragão chamado Píton. Para se apossar da tutela desse oráculo, Apolo teve que matar o monstro e substituir a mântica por incubação, feminina, pela mântica dinâmica, masculina, que se realizava através de grandes festas e cantos corais. 


ORÁCULO  ( GRAVURA ALEMÃ )
A mântica por incubação era um procedimento tipicamente feminino. A sacerdotisa, no mais recôndito do oráculo, região cavernosa, cheia de emanações que vinham das profundezas da terra, os chamados vapores divinatórios, era, em nome de Geia, o veículo oracular por excelência. Incubar era, no caso, um processo de interiorização que levava a um transe com a finalidade de se favorecer o desenvolvimento e a uma eclosão (revelação) das sentenças oraculares. Incubar é trazer em estado latente, preparar para dar à luz. 


quarta-feira, 1 de março de 2017

TOURO (3)

        

APIS

Dentre os vários animais sagrados da religião egípcia, um dos mais importantes foi o touro, adorado sob o nome de Apis, transcrição grega de Hapi. Seu principal culto estava centralizado em Mênfis, onde aparecia associado ao deus Ptah. Este deus, protetor dos
PTAH
artesãos e dos artistas, foi identificado pelos gregos como uma das formas possíveis do seu deus Hefesto, deus metalúrgico, mestre das artes do fogo, grande divindade construtora. Ptah foi no Egito o inventor das artes, trabalhando com metais, sendo também uma divindade construtora. Era apresentado como um homem mumificado, num pedestal; nas mãos, um cetro no qual estão reunidos símbolos da vida, da estabilidade e de onipotência.


Era adorado em Mênfis em companhia de sua esposa, a deusa Sekhmet e de seu filho Nefertun. A construção de templos e de monumentos religiosos estava colocada sob a sua tutela, Recebia, por isso, o título de “Grande Chefe das Artes”. Perto de seu santuário em Mênfis se fazia  a adoração do touro Apis, uma encarnação sua. Ainda que se dessem a Ptah qualificativos de beleza (o de bela aparência), Ptah era representado, muitas vezes, como um anão disforme, de pernas tortas, arqueadas, os punhos fincados nas ancas, a cabeça inteiramente raspada, ornada com uma trança. Nessa forma era reverenciado como protetor contra os animais perigosos ou daninhos de qualquer espécie e contra todas as formas do mal. A função a que os gregos chamavam de apotropaica.

Sob a forma de um fogo celeste, como muitas imagens mostravam, Ptah fecundava uma bezerra virgem e renascia através dela como um touro negro, que os sacerdotes reconheciam por certas marcas distintivas, de caráter religioso. Para ser considerado como uma reencarnação de Ptah, o touro deveria ter sob a sua fronte um triângulo branco, sob seu corpo a figura de um abutre de asas abertas, sob seu flanco direito um crescente lunar, na língua a imagem de um escaravelho, devendo os pelos de sua cauda ter uma forma bífida. 

Enquanto vivesse, Apis era alimentado com todo o cuidado num templo de Mênfis, vizinho ao de Ptah. Uma vez por dia, Apis era trazido para um pátio do templo, sendo seus mugidos recebidos com grande alegria por inúmeros visitantes, inclusive de estrangeiros em visita ao país, ainda no período helenístico. Cada um dos movimentos de Apis era interpretado como sinal de algum acontecimento futuro. A morte súbita do príncipe Germanicus, sobrinho do imperador Augusto, segundo consta, foi anunciada pelo touro Apis quando ele recusou receber das mãos do príncipe a comida que ele procurava lhe dar, um sinal de mau augúrio.

Apis geralmente morria de velhice. Quando tal não acontecia, isto é, quando a morte retardava demais a sua chegada, deteriorando-se a sua saúde, Apis era sacrificado. O encontro de um novo Apis era sempre celebrado com muita alegria em todo o país. Em 1.850, arqueólogos descobriram uma necrópole menfita onde foram encontrados vestígios de esplêndidos funerais realizados em homenagem ao touro Apis. 


SERAPEUM


SERAPIS
Os gregos rendiam ao touro cultos funerários como os celebrados em homenagem a Osíris no Egito. Nessa condição, os gregos chamavam o touro egípcio de Osorapis, depois identificado como o deus Serapis, adorado segundo um rito puramente grego no grande Serapeum de Alexandria. Deus infernal, Serapis, confundido com Osorapis, foi adorado ao lado do templo deste em Mênfis.

Hathor era uma divindade feminina na qual os gregos viam traços de sua Afrodite. Deusa celeste, passava por ser filha de Ra e mulher de Horus. Em alguns períodos da história religiosa do Egito, ela passa por mãe de Horus, sendo seu nome traduzido pela expressão “a morada de Horus”, explicada esta designação como sendo ela, a deusa, o lugar onde, a cada crepúsculo, o deus solar se recolhia para depois renascer a cada manhã. De um modo geral, os lugares pantanosos, lugares de origem da vida, eram de Hathor. Antropomorfizada, de rosto redondo, com vasta cabeleira encaracolada, a figura de Hathor, ao evocar a Lua cheia, era particularmente reverenciada pelos beduínos do deserto.

HATHOR
É ela, Hathor, registram os textos, a grande vaca celeste que criou o universo  e tudo o que ele contém, inclusive o Sol. É representada como uma vaca, seu animal sagrado ou como uma figura antropomorfizada, uma deusa com a cabeça do animal. Noutras vezes ainda, uma figura feminina ornada com chifres. 
MENAT
Esta deusa tinha ainda um fetiche no qual gostava de se encarnar, o sistro, instrumento musical também muito usado nos cultos de Ísis, que tinha a finalidade de espantar maus espíritos e de acalmar os deuses. Dentre os objetos mais sagrados de Hathor encontramos também um colar chamado menat, símbolo da fertilidade.

Hathor, às vezes se transformava numa leoa (Pakhet), forma através da qual se ligava aos vales férteis na beira de lugares desérticos, onde animais selvagens indefesos como as corças vinham se abrigar e saciar a sua sede. Honrada como leoa, Hathor era ainda reverenciada nos desertos do Sinai, onde se encontravam minas de  turquesa, pedra da sua predileção. 


DENDERAH

A arquitetura da cidade de Denderah tinha a forma do sistro. A cidade era a capital de um dos nomos do Alto-Egito, colocada sob a tutela de Hathor. Num recinto dessa cidade se realizava uma cerimônia chamada de “união ao disco”, quando das festas do início de cada ano. Nas paredes desse recinto foi encontrada a pintura de uma carta celeste, nela figurando, numa de suas mais antigas representações, o Zodíaco com os seus signos e respectivos decanatos.

Hathor era a protetora das mulheres, governando a estética do mundo feminino (roupas, joias, atavios, penteados, beleza corporal, maquiagem etc.). Sob sua tutela ficavam o amor, a alegria de viver e os prazeres da vida.  Era conhecida no Egito como a “senhora da alegria, da dança, do canto, do enlaçamento das guirlandas”. Seu templo era a morada do prazer, da vida agradável. Alimentava os humanos com o leite de seu seio. Comuns as representações de faraós mamando nas tetas de Hathor. 


LIVRO   DOS   MORTOS

Além de cuidar dos vivos, Hathor se preocupava também com os mortos. Sob o nome de “rainha do Ocidente”, ela é a protetora da necrópole tebana e ilustrações de O Livro dos Mortos mostram-na pontificando para os lados das montanhas da Líbia, limite do mundo dos vivos, pronta para acolher os mortos quando da sua chegada ao Outro Mundo, livrando-os de inúmeros perigos, desde que saibam a ela recorrer com as preces adequadas. Ela é também chamada de “A Deusa do Sicômoro”, pois, ás vezes, ela se refugia na folhagem desta grande árvore, encontrada nos limites dos desertos, para acolher o morto, dando-lhe a água e o pão das boas-vindas. 

Árvore sagrada do Egito, o sicômoro, com a sua abundante ramagem, simbolizava a segurança e a proteção que socorria as almas. Subir num sicômoro era participar da vida espiritual. Contudo, esta subida devia ser feita sempre com cuidado, com humildade. Do contrário, a árvore simbolizaria desinteresse pelas coisas terrestres , desprezo da opinião pública, rebeldia, revolta, vaidade. Denderah era a cidade de Hathor, importante centro astrológico. Lá, Hathor vivia em companhia do marido, Hórus, e de seu filho, Ehi, um menino que agitava o sistro ao lado de sua mãe.

SICÔMORO
O sicômoro, a chamada figueira dos faraós (fycus sycomorus), é uma árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo muito útil também na tinturaria (tingimento de tecidos). Era empregada também, por sua madeira muito resistente, na construção de sarcófagos, de móveis e de instrumentos musicais (Para maiores detalhes, veja neste blog o artigo A Figueira).  


NUT
É preciso não esquecer que no panteão egípcio, nas suas primeiras definições, encontramos a deusa Nut, que os gregos associaram a Reia, filha de Urano e de Geia, uma titânida, irmã e mulher de Cronos. Nut é irmã de Geb, no qual os gregos viram seu deus Cronos. Eles formavam um casal, o segundo na sequência divina desde as origens. Uniram-se contra a vontade de Ra (O Criador, o Sol), que os separou brutalmente, decretando que Nut não poderia parir, que não poderia dar filhos à luz. Segundo o mito, Thot, felizmente, teve pena dela e, jogando damas com a Lua, dela subtraiu energia para que ela, Nut, fizesse mais cinco dias, que ficaram fora do calendário, os chamados dias epagômenos.

Nut conseguiu assim dar à luz cinco filhos: Osíris, Haroeris, Seth, Isis e Nephtys. O nome desta última significa “A Senhora do Castelo”, uma divindade infernal. Unindo-se a Seth, não teve filhos.  Desejou então um filho do irmão mais velho, Osíris. Para
ANÚBIS
tanto, conseguiu embriagá-lo e do conluio amoroso que com ele manteve, sem que ele disso tivesse consciência, nasceu Anúbis, deus chacal, do mundo dos mortos. Nephtys simboliza as margens do deserto, região comumente árida, mas que pode se tornar fecunda. Quando Seth matou Osíris, ajudou Ísis a mumificá-lo, participando da cerimônia fúnebre, entoando com a irmã as lamentações de praxe.


APOPHIS
Seth, também conhecido como Apophis na sua forma dracôntica, é, como sabemos, monstruoso, lembrando o Tifon dos gregos, um agende do caos.É a seca do deserto, a negação da vida, inimigo de tudo o que é bom e justo. Haroeris significa “O Grande Hórus”. Representava, com os seus olhos, os dois luminares. Representava também a eterna oposição entre a luz e as trevas. Era o ancestral de todos os faraós. É diferente de Hórus, do mito osiriano, filho de Ísis e de Osíris, representado pelo falcão.


NUT

Nut é a deusa do espaço celeste, representando-o na forma de uma mulher que, apoiada na ponta dos dedos da mão e dos pés, forma uma curvatura com o seu corpo Seu ventre sempre estrelado, é a abóbada celeste. Uma forma pela qual Nut aparece amiúde nos mitos é a de uma vaca. O ventre de Nut confunde-se com o próprio firmamento, nele estando fixadas todas as constelações. Ela assume a condição de mãe do Sol que nasce de um lado de seu corpo e se põe no outro. Antropomorfizada, carrega na cabeça um pote enorme (hieróglifo de seu nome). Aparece como protetora dos mortos, abraçando fortemente os defuntos,  vela maternalmente as múmias.  

Ligado ao signo de Touro temos o tema do bezerro de ouro, símbolo da riqueza material, na medida em que ele foi (é) idolatrado no lugar de divindades.  Este ídolo começou a ser cultuado quando da ausência de Moisés, que subira ao Sinai para
BEZERRO   DE   OURO
receber os ensinamentos divinos. O ídolo, conforme se sabe, foi construído com os brincos de ouro das mulheres. É um símbolo da fertilidade orgiástica. Como Moisés não dera mais notícias desde que se ausentara e julgando os judeus que ele não mais desceria da montanha, o bezerro de ouro foi construído por Aarão, irmão de Moisés e de Miriam. Alegou ele, para justificar a construção do ídolo, que assim o fazia para que os israelitas não se tornassem culpados pelo pecado maior de matar seu sumo sacerdote, o que certamente fariam se ele recusasse a voltar. Aarão era sumo sacerdote, tido como uma pessoa amante da paz. Sua técnica para obter a paz era a seguinte: numa disputa, tinha a habilidade de ir alternadamente na direção do ponto de vista de ambas partes e, com uma mentira inocente, desculpava-se em nome da outra parte; quando estas se encontrassem, a disputa estaria vencida porque cada uma delas acreditaria que a outra se desculpara.


Depois de fundir o metal, Aarão se dirigiu ao povo e lhe disse que aquele bezerro era o novo deus de Israel. Nesse ínterim, Deus, no alto da montanha, ordenou a Moisés que descesse, pois exterminaria os que se prostravam diante do bezerro e que faria, com os que o seguissem, uma grande nação. Assim, o bezerro de ouro não é mais que grande tentação que tem o ser humano de divinizar os desejos materiais, o prazer sensual, a sede de acumular cegamente. 

Ainda entre os judeus não podemos esquecer a história de Jereboão, rei rebelde, que fundou o Reino do Norte de Israel. Ele introduziu o culto de dois bezerros de ouro, que erigira, para impedir que as pessoas fizessem peregrinação a Jerusalém. Foi condenado a induzir o povo a um pecado que nenhum arrependimento poderia redimir. Consta que apesar disso Deus lhe ofereceu um lugar no Jardim do Éden, por ele recusado orgulhosamente, porque lhe era negado um status mais elevado que o de David (para mais informações sobre as ligações de Israel com o Bezerro de Ouro, veja neste blog o artigo Correspondências Taurinas: Israel e o Touro).


OS  DOIS  BEZERROS DE OURO  ( ANÔNIMO , SÉC. XIV )

Ao longo dos séculos, a constelação de Touro recebeu nomes latinos como Portitor, Proditor Europae, Agenoreus, Amasius Pasiphaes. Entre os árabes, inicialmente designada pelo nome de Al Thaur, passou a Altauro e depois a Ataur. Antes da “adoção” ptolomaica, os árabes tinham a sua própria representação deste espaço celeste, formado, neste caso, por duas mansões lunares. Uma delas correspondia ao asterismo das Plêiades (Al Thuraya, o Touro) e a
AL   THURAYA 
outra ao das Híades (Al Dabaran, A Seguinte). O asterismo de Al Thuraya (Plêiades) é muito popular entre os árabes, já nomeado por um sábio (Luqman), cuja antiguidade remonta ao período em que David era rei dos judeus. Um culto especial era prestado a este asterismo (confirmado inclusive por Al Sufi, no séc.X) que, quando os augúrios eram bons, trazia chuva no seu poente heliacal. Al Thuraya chegou a ser visto pelos árabes como uma divindade da fertilidade, muito celebrada pela poesia no período de expansão do Islã. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (1)



SISTEMA    SOLAR


Júpiter  é o maior planeta do sistema solar. Sua distância da Terra varia entre mais ou menos 600 milhões de km e cerca de 970 milhões de km. Apesar dessa grande distância, pode ser visto sem o auxílio de instrumentos óticos. Seu diâmetro é de aproximadamente 142 mil km (o do Sol é de 1.390.000 km e o da Terra cerca de 12.200 km).

Apesar de gigantesco, a densidade de Júpiter  é de apenas 24% da densidade da Terra, por ser constituído em grande parte de material gasoso. O ano de Júpiter equivale a doze anos nossos, ou seja, ele leva doze anos para fazer uma revolução em torno do Sol. Seu dia, porém, é o mais curto do que o de qualquer planeta, menos de doze horas terrestres. Imenso, gira em torno de seu eixo com uma velocidade de 47.100 km por hora.  

Júpiter dá início à série dos grandes planetas pesados, constituída por ele, Saturno, Urano e Netuno, todos se distinguindo por seu volume, por sua massa e por sua densidade. É o mais volumoso dos planetas do  sistema solar; de Mercúrio a Plutão todos caberiam dentro dele e ainda sobraria algum espaço. É o primeiro dos chamados planetas pesados, isto é, de marcha lenta se o compararmos com os mais rápidos, Mercúrio, Vênus e Marte. Do ponto de vista astrológico, estes três últimos, mais os luminares, são astros que dizem respeito à vida pessoal do ser humano enquanto Júpiter e Saturno relacionam-se com a sua vida social e os transaturninos (Urano, Netuno e Plutão), também chamados transpessoais, invisíveis a olho nu, têm a ver com fatores psíquicos, com a vida inconsciente.

Júpiter ocupa um lugar central com relação aos planetas que orbitam em torno do Sol. Antes dele, temos Mercúrio, Vênus (chamados planetas interiores), mais Terra e Marte; depois de Júpiter, o mesmo número de corpos celestes, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. É devido a esta posição central que Júpiter representa o princípio do equilíbrio, da autoridade, da ordem, da estabilidade e do progresso. É pela mesma razão que Júpiter representa os preliminares da iniciação e que, na antiguidade, imperava sobre sobre as leis, a medicina e a religião, que se nutriam da Tradição.


CONSTELAÇÃO    DE    SAGITÁRIO

Simbolicamente, Júpiter sempre significou legalidade social, abundância, riqueza, otimismo, expansão, confiança. Como planeta regente das constelações de Sagitário e de Peixes, tem, respectivamente, ligação com ideias de justiça e de compaixão ativa. No organismo humano, se mostra através da circulação (a química do sangue, especialmente), os quadris, o coxo-femural e o fígado.  


CONSTELAÇÃO    DE    PEIXES

No mundo mesopotâmico, quem reinava absoluto sobre todos os planetas  era o deus  Marduk, cuja descrição pode ser encontrada na
quinta tablita da Epopeia de Gilgamés: Ele construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


MESOPOTÂMIA     -     BABILÔNIA

APSU
Quando a Babilônia se tornou a cidade principal da Mesopotâmia, submetendo todas as demais, Marduk, de uma divindade local, menor, foi levado à condição de divindade superior. Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa Casa da Água, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza.


MARDUK

Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da Terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


TIAMAT

Da união dos dois princípios, nasceram os grandes deuses: Anu, Bel e Ea, além de outras divindades menores. Instigadas por Tiamat, algumas divindades começaram a perturbar a vida cósmica, especialmente a Terra. Anshar convocou então Marduk, seu filho querido, e o exortou a combater Tiamat. Marduk aceitou, mas exigiu, numa assembleia divina, que lhe fosse dada a autoridade suprema, absoluta. 

Anu, o poderoso, reinava nos espaços celestes e jamais os abandonava. Quando saía de sua imobilidade majestosa, dava apenas um passeio por uma parte do céu, que lhe era exclusiva. Apesar de sua supremacia, não se misturava com as coisas terrestres. Não se envolvia na luta contra Tiamat, deixando nas mãos de Marduk a solução do problema. Vivia majestosamente em companhia da deusa Antu, interessando-se só pelas questões universais.

Bel era diferente, envolvia-se muito com as questões terrestres. Quando a Babilônia se impôs às demais cidades do país, Bel assumiu as atribuições do deus Enlil, então senhor da atmosfera, divindade das tempestades, cuja principal arma era o amaru, o dilúvio. Tornou-se Bel o grande dispensador dos bens e dos males. Podia tudo, destruir os homens ou salvá-los, inclusive intervir na terra para libertá-la dos monstros que a atacavam. 

POSEIDON
Ea é nome que significa casa da água, sendo possível associá-lo ao Poseidon dos gregos. Seu domínio era o Apsu, e sua forma a de uma espécie de serpente líquida que envolvia a terra, no que lembrava o deus grego Oceano. As fontes e os rios eram dele. Governava os oráculos. Envolvia-se nos trabalhos humanos, sendo o patrono dos carpinteiros, dos construtores que trabalhavam pedras e dos metalúrgicos.

Marduk era o filho mais velho de Ea, saído diretamente do Apsu, personificando na origem a ação fecundante das águas, fazendo crescer as plantações, tendo o caráter de uma divindade agrária. Seu emblema era a enxada. Tornando-se a Babilônia, sua cidade de eleição, o centro da vida política da Mesopotâmia, assumiu o lugar mais elevado no panteão do país. 

A plenitude divina era dele e nela se incluíam, além de suas atribuições originais, mais as seguintes características e  funções: 1) a luz do pai que o engendrou; 2) a renovação da ordem divina; 3) o poder dos encantamentos, sendo-lhe possível trazer os mortos à vida; 4) o conhecimento do coração dos deuses; 5) a guarda da Justiça e do Direito; 6) a criação de todas coisas; 7) o poder sobre todos os reis; 8) a ascendência sobre todos os deuses.

Assim, Marduk absorveu todas as atribuições dos demais deuses, fixando-os nos seus domínios, reorganizou o universo e estabeleceu o curso dos astros. Além disso, criou o ser humano a partir do seu sangue, tornando-se o dono das artes da cura, uma espécie de grande-xamã, e patrono de todos os encantamentos mágicos. 


SHAMASH
As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukkus, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor e da guerra) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukkus chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga e enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz.


ISHTAR


SARPANIT
Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit.  



MARDUK    E    TIAMAT


NERGAL

Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, Fortuna Maior

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

AMON - RÁ
Para os egípcios, Júpiter era Amon-Rá, grande divindade, conhecida como o rei dos deuses, muito semelhante ao Zeus grego. Praticamente desconhecido no período do antigo império, antes de 2000 aC, Amon assume uma proeminente posição a partir dos primeiros séculos do médio império. Seu nome provém de uma raiz que significa o escondido. Sua promoção ocorre dentro do sistema cosmogônico de Hermópolis, que tinha em Toth a sua principal divindade. 

AMON
Amon tornou-se aos poucos a divindade suprema do país, já unificado, sendo Tebas a cidade de onde se irradiava todo o seu culto. Aparecia comumente antropomorfizado, com uma cabeça de bronze, coberta com uma espécie de gorro alto em forma de torre, no qual se fixavam duas penas, a simbolizar a união do alto Egito com o baixo Egito. Majestoso no seu trono ou em pé, carregava nas mãos quase sempre um chicote. Muito comum também era a sua representação  com uma cabeça de carneiro, viva encarnação do deus, à qual se juntava simbolicamente um  ganso, seu animal sagrado. 




GANSOS  -  PINTURA   TUMULAR  EGÍPCIA
Quanto ao ganso, registre-se que ele, ao lado do pato e do cisne, faz parte, em antigas tradições mitológicas, de um grupo de aves aquáticas inimigas das trevas. No antigo Egito, a alma do faraó defunto era representada por uma gansa enquanto a designação do novo era anunciada por quatro dessas aves, soltas, lançadas na direção dos quatro cantos do horizonte.   


AMON   ITIFÁLICO

A associação do carneiro a Amon revelava que era dele a força genésica que punha em movimento os ciclos vitais como também o comando de todos os exércitos e das operações militares. Força produtora e geradora, Amon, numa forma itifálica e vegetal, era considerado como o marido de sua mãe (natureza) e, como tal, aquele que mantinha a vida no seu processo criativo. 

A partir do médio império, entre 2133 aC e 1786 aC, Amon tornou-se o grande protetor de todos os faraós do período, durante o qual a centralização do poder político coincidiu com a instauração do monoteísmo religioso, modelo que serviria mais tarde de inspiração para o monoteísmo judaico. 

Tornando-se a grande divindade nacional, Amon começou a ser chamado de Amon-Rá. A classe sacerdotal, como sempre afinada com o poder político do país, manobrou sutilmente para que Amon absorvesse as atribuições de uma antiga divindade solar, Rá, que tinha o título de criador, mestre do céu, cujo santuário ficava na cidade que os gregos chamaram de Heliópolis. Assim, foi sob o nome de Amon-Rá que a nova divindade, nas imagens das tumbas reais, apossou-se da barca do Sol e passou a iluminar o mundo inferior durante as doze horas da noite. 


AMENOPHIS III
Glorioso e onipotente durante alguns séculos, Amon-Rá começou a perder prestígio lá pelo fim do reinado de Amenophis III, ao final do séc. XV aC, quando uma nova divindade começou a se impor, Aton (o disco solar que dá origem ao dia), filho de Amon-Rá e da rainha-mãe, mulher de Thutemosis IV. Quem deu grande impulso ao novo culto foi Amenophis III (etimologicamente, Amon está satisfeito), que adotou um novo nome, Akhenaton (a glória de Aton). 

O reinado do deus Aton durou pouco, entretanto, restaurando-se o poder de Amon pelos faraós da décima nona dinastia. Incorporado
ATON
definitivamente o nome de Rá ao seu, Amon teve o seu prestígio ainda mais aumentado. Durante o império de Ramsés III, um inventário dos bens do deus nos informa que ele possuía, dentre outros itens de riqueza, mais de oitenta mil escravos e mais de quatrocentas mil cabeças de gado. Os sacerdotes de Amon eram escolhidos entre os mais poderosos senhores do país, que logo estabeleceram um sistema hereditário com relação ao poder religioso e à administração dos bens do deus. Com isso, se formou uma espécie de estado teocrático, exercendo o deus o seu poder por oráculos e por uma extensa rede burocrática de caráter administrativo-religioso que tinha como figura principal o faraó. O poder do renovado Amon se estendeu às tribos do deserto, os beduínos, criando-se inclusive muitos centros religiosos para o atendimento do grande número de peregrinos que continuamente afluíam ao país para reverenciar o deus. 


No médio império, toda a vida do país estava impregnada fortemente de religião. Não havia uma separação entre a esfera do religioso e do político, do Estado. Deificado o governante, os assuntos civis e religiosos se processavam em conjunto. Nesse mundo, porém, era possível distinguir algumas subdivisões do poder, uma administração civil, centralizada na figura de um vizir, uma administração dos templos, nas mãos dos sumos sacerdotes, e um exército profissional, que se tornou progressivamente forte em períodos em que o Egito expandiu o seu império, como aconteceu no médio império.

A proeminência de Amon coincidiu com a supressão dos privilégios feudais, com a realização de grandes obras de irrigação, com a ativa exploração das minas de cobre do Sinai e a construção de postos avançados no sul, até a terceira catarata do Nilo. Culturalmente, o chamado período Amon foi de esplendor, dando-se muita ênfase à arte do retrato, à literatura clássica e à construção de templos e de esculturas em escala colossal.

Não podemos esquecer, quando tentamos buscar no Egito as relações entre a religião (mitologia) e a astrologia, que o calendário egípcio foi estabelecido por e para agricultores. Fato importantíssimo nesse cenário era o da inundação do rio Nilo, que se estendia por cerca de um terço do ano. As outras duas partes, sensivelmente iguais, eram a germinação dos vegetais (cereais) e a sua colheita. Tínhamos assim no Egito três estações de quatro meses cada, muito bem demarcadas, de 120 dias cada uma. Akhit era o nome do período da cheia do Nilo; perit, o da germinação dos vegetais; e chemu, a colheita. Muito antes do início da quarta dinastia, o ano egípcio já contava com 365 dias. 


CANIS   MAJOR

Como o início da cheia do Nilo não tinha uma data fixada para começar, foi procurado um ponto de observação o mais estável possível. Esse ponto de observação foi o aparecimento da estrela Sírius (Sothis em grego e Sepedet, em egípcio), que passou a marcar o início do ano. Sírius, como se sabe, é a estrela alfa da constelação do Canis Major, atualmente a 13º24´ de Câncer. Lembro que Ptolomeu afirmava que as influências dessa estrela se assemelhavam às de Júpiter, com um leve toque marciano. Sírius é a estrela mais brilhante do céu depois do Sol; era chamada pelo egípcios de a que seca e queima, a brilhante ou a estrela do Nilo. O Nilo e a sua cheia sempre foram associados a Osíris e Ísis em sua eterna luta contra a desertificação, representada por Seth ou Apófis.


ÍSIS   E   OSÍRIS

Os egípcios sempre observaram os céus com muito interesse. Já distinguiam perfeitamente as estrelas que faziam parte das constelações circumpolares, chamando-as de indestrutíveis porque sempre visíveis. Davam o nome de infatigáveis aos planetas e às estrelas que nem sempre eram permanentemente visíveis. Escolheram 36 estrelas que passaram a presidir as 36 partes do ciclo anual celeste, de dez graus cada uma. No Médio Império foram estabelecidos quadros divididos em 36 colunas verticais e 12 registros horizontais, sendo-lhes possível trabalhar assim com os decanatos.


ASCLÉPIO
A tradição fala de Imhotep, um arquiteto, vizir do faraó Djoser, grande sacerdote de Heliópolis, construtor em Saqqara da primeira pirâmide em degraus, como o pai do calendário egípcio, por ele fixado em 2780 aC. Médico e sábio também, depois de sua morte Imhotep passou a ser venerado como um filho do deus Ptah. Os gregos o associaram à imagem de Asclépio, filho de Apolo, deus médico de Epidauro. 

Parêntese: o cinema americano, num filme, classificado como de terror, intitulado A Múmia, realizado em 1932, dirigido por Karl Freund, com Boris Karloff no papel título, trouxe de volta para nós  a história de Imhotep, cuja múmia, no filme, volta acidentalmente à vida depois de 3.700 anos. O sacerdote-arquiteto fora embalsamado vivo por haver tentado reviver a mulher que amava, após ela ter sido sacrificada. No século XX, o cinema promoveu o encontro deles.

Foi certamente com base no calendário de Imhotep que se procedeu, para fins astrológicos, à fusão da nova divindade do Médio Império, o todo-poderoso Amon, simbolizado nos céus pelo planeta Júpiter, com Rá, antiga divindade, cujo símbolo era o Sol. Na cidade de Denderah, no alto-Egito, perto de Luksor, às margens do Nilo, hoje um sítio arqueológico, descobriu-se há muito uma das mais antigas representações do zodíaco, pintada no teto do templo de Hathor  


HATHOR
Hathor era uma grande divindade celeste, representada por uma vaca, seu animal sagrado, sendo considerada como filha de Ra. A deusa gostava de tomar a forma de um sistro, instrumento de percussão, usado para afastar os maus espíritos. A forma desse instrumento musical foi usada pelos arquitetos para a construção do templo da deusa em Denderah. Protetora das mulheres, deusa do amor, da alegria de viver, soberana da dança, quando os gregos chegaram ao Egito associaram a deusa à sua Afrodite. 

Através do seu animal sagrado, ela saciava a fome da humanidade. Era Hathor conhecida também como a Senhora do Sicomoro; esta árvore, sagrada, muito encontrada nas zonas que faziam a transição dos terrenos férteis para os desérticos, servia de proteção para as almas dos mortos que, tomando a forma de pássaros, vinham se acomodar nos seus galhos. A sombra de sua copa e o macio de sua ramagem eram garantia de acolhimento seguro no Outro Lado. Hathor pontificava no santuário de Denderah em companhia de seu marido, o grande Hórus, que aqui lhe dava precedência; junto deles estava sempre, a agitar o sistro, o filho de ambos, Ehi, na forma de uma criança.  


SANTUÁRIO   DE   DENDERAH

Produzido pela divisão dos céus em doze partes de 30º cada uma, e cada uma delas entregue a uma divindade, o zodíaco de Denderah tem seu ponto de partida no signo de Rá, ou melhor, de Amon-Rá, que se estende de 16 de julho a 15 de agosto no nosso calendário, sendo seu regente o Sol (jupiterizado). Características mais ou menos semelhantes às do signo de Leão do nosso zodíaco, com algumas contribuições arianas e jupiterianas. Presentes sempre ideias de determinação, criatividade, habilidade para a superação de dificuldades, renascimento, combatividade, além de atitudes impositivas e dificuldades para lidar com rejeições.

A deusa que governa o segundo signo, correspondente ao de Virgem (16/8 a 15/9), é Neith, divindade que os gregos associavam
NEITH
a Palas Athena. Neith era protetora da cidade de Sais, no delta do Nilo, com o seu emblema de duas flechas cruzadas sobre a pele de um animal, sendo por isso considerada uma divindade ligada à caça. A arte de tecer bem como as atividades domésticas estavam sob a sua tutela. Era também divindade protetora dos mortos que chegavam ao Outro Mundo, recebendo-os com pão e água. Neith pontificava num famoso templo em Sais (capital do Egito sob o reinado de Psamético I, fundador da XXVI dinastia, em meados do séc. VII aC) junto do qual havia uma escola de medicina, Casa da Vida, que recebia alunos de várias partes do mundo antigo. 



MAAT

A deusa que governava o signo que corresponde ao de Libra (16/9 a 15/10) no nosso zodíaco era Maat, deusa da justiça e da verdade. Seu símbolo eram as penas do avestruz (absolutamente iguais), emblema da equidade. Era filha querida e confidente de Rá, mulher de Thot. Fazia parte do cortejo de Osíris e atuava na psicostasia, juntamente com Osíris, Thot, Anúbis, Amamet, o monstro devorador, e os quarenta e dois juízes. Tolerância, convivência harmoniosa e aconselhamento fazem parte da vida dos nascidos sob a proteção de Maat. Sempre presentes, porém,  riscos de indecisão e de insegurança. 


OSÍRIS
Osiris governava o signo que corresponde ao de Escorpião (16/10 a 15/11) no nosso zodíaco. Foi em vida o primeiro faraó do Egito. Ao levar a sua proposta político-religiosa para o mundo, tendo deixado o poder interinamente nas mãos de sua mulher, Ísis, foi assassinado por seu irmão, o monstruoso Seth. Despedaçado, seu corpo foi depois recomposto pelas artes de sua mulher e do deus Toth. Deixando então o mundo dos vivos, Osíris desceu aos Infernos para se tornar o deus da ressurreição dos mortos, no que lembra muito os deuses Shiva e Dioniso. Os do signo são de temperamento forte, extremistas muitas vezes, principalmente quando contrariados. Sensualidade e persistência são comuns, juntamente com atitudes destrutivas.   
   
Hathor dominava o signo (16/11 a 15/12) que corresponde no nosso zodíaco a Sagitário. Além do que já se disse sobre a deusa, acrescente-se que ela, na astrologia, atuava nos domínios da arte, do conhecimento superior e das viagens. As pessoas protegidas por ela são exuberantes, mas podem se perder devido a exageros e à sua excessiva boa-fé e otimismo. 

ANUBIS
Anúbis, o guardião dos mortos, dominava o signo correspondente a Capricórnio no nosso zodíaco, entre 16/12 a 15/1. Os gregos o identificavam como Hermes psicopompo. Era representado sob a forma de um chacal negro; sua cidade era chamada pelos gregos de Cynopolis. Tinha a ver com os embalsamamentos e com as preces funerárias. Sua atividade dependia muito da balança da verdade. Pessoas tocadas pelo deus são perseverantes, buscam a realização sob o ponto de vista material, no geral, porém, demorada. Gostam muitas vezes de assumir o papel de juízes, tornando-se muitas vezes implacáveis neste papel.


BASTET
A deusa-gata Bastet dominava o signo correspondente a Aquário no nosso zodíaco, entre 16/1 a 15/2. Personificava o calor fecundante do Sol, era considerada como esposa e irmã de Rá. Suas festas envolviam multidões, sempre com muita música e dança, nelas se consumindo muito vinho. Era protetora natural das grandes causas. As pessoas tocadas por ela costumam apresentar um comportamento às vezes inexplicável, como o do felino símbolo do signo.

O signo que corresponde ao de Peixes no nosso zodíaco é dominado pela deusa Taueret (16/2 a 15/3), deusa da fertilidade,
TAUERET
também chamada de Thueris, A Grande, muito popular, relacionada com a maternidade e o aleitamento. Era representada por uma mulher-hipopótamo, com seios pendentes, ereta, apoiada sobre as patas traseiras, e tendo diante dela o hieróglifo da proteção. Adorada especialmente em Tebas, pelas classes média e baixa da sociedade, que costumavam dar seu nome às crianças do sexo feminino e ornar as suas casas com imagens da deusa. Além de muito protetora, compassiva, generosa; algumas pessoas tocadas por ela podiam apresentar dons mediúnicos. Às vezes, Thueris, a par de suas tendências protetoras, mostrava-se, quando não honrada devidamente, muito irritada, até vingativa, afetando desta maneira aqueles atingidos por seus raios.



SEKHMET
Sekhmet era a deusa da guerra. Seu céu correspondia ao do signo de Áries (16/3 a 15/4) no nosso zodíaco. Representada normalmente por uma leoa ou por uma mulher com a cabeça do animal. Seu nome significa A Poderosa. Lançou-se furiosamente contra todos aqueles que se opuseram a Rá, a ponto deste, temendo um extermínio catastrófico, ter que intervir, pedindo-lhe mais calma. Para contê-la, por sugestão do próprio Rá, os humanos instituíram uma festa, sendo a ela oferecidos milhares de tonéis de cerveja, à qual se adicionava suco de romã para torná-la avermelhada, lembrando o sangue, sorvida a bebida com muita avidez pela deusa. A seu culto se ligavam os especialistas em todos os tipos de fraturas.As pessoas tocadas pela deusa são naturalmente enérgicas, autoritárias e intolerantes.

PTAH
Cabia a Ptah o céu de Touro no nosso zodíaco (16/4 a 15/5). Protetor dos artesãos e dos artistas, os gregos o identificaram como o seu Hefesto. Inventor das artes, metalúrgico, grande construtor, Ptah era honrado num dos mais antigos templos egípcios, em Mênfis. Algumas vezes era representado por um anão de pernas tortas, como agente transformador dos recursos naturais. Perseverante, paciente, Ptah protegia os que buscavam segurança e conforto sob o ponto de vista material. 


TOTH
Toth era o dono do signo que correspondia ao de Gêmeos no nosso zodíaco (16/5 a 15/6). Escriba divino, deus da inteligência, como o Hermes grego, era conhecido como deus Djeuthi (Djeuth era o nome do baixo-Egito), divindade lunar, inventor dos hieróglifos. Sua cidade era Hermópolis Parva, depois transferida para o alto-Egito com o nome de Hermópolis Magna. Era comumente representado por um ibis ou às vezes na forma de um macaco. Patrono da história, anunciava o nome dos futuros faraós. Protegia os que viviam da atividade mental e aqueles que se valiam das mãos para a execução de trabalhos. 

ÍSIS

A mais importante das divindades egípcias, Isis, era dona do espaço celeste que correspondia ao nosso signo de Câncer. Identificada pelos gregos ora como Hera, como Deméter, como Selene e até como Afrodite. Seu culto e sua religião de mistério (morte e renascimento) não cessou de se desenvolver ao longo da história do Egito. Grande mãe, maga, protetora, sua adoração estendeu-se até os primeiros séculos do cristianismo. Os tocados por ela são tranquilos, gostam do conforto familiar, possuindo naturalmente o instinto maternal.