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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (1)


SAGITÁRIO  ( BOLONHA, SÉCULO XIII )
                                          
Nas antigas tradições astrológicas da Ásia, o signo de Sagitário sempre foi representado por uma flecha ou por uma flecha e um arco. Nomes que o designavam, nomes como Kaman (Pérsia), Yai (Turquia), Kertko /Caldeia), Al Kaus (Arábia), todos, têm relação com a flecha. Há registros de que no antigo Egito a constelação era representada por um cisne ou um íbis, embora o zodíaco de Denderah nos mostre um arqueiro bifronte, uma parte humana e outra leonina. Na Mesopotâmia, a constelação era representada também por uma figura híbrida, um ser muito especial, parecido com um sátiro grego.  Inscrições cuneiformes designam a constelação por nomes como O Forte e O Gigante Rei da Guerra, personificando o arqueiro deus da guerra, Nergal, depois deus dos infernos, confundido às vezes com o planeta Marte. 

Os hindus, há mais de 3.000 anos aC, já representavam Sagitário por um cavalo, por uma cabeça de cavalo ou por um cavaleiro. O nome sânscrito desta constelação que se fixou para nós foi

entretanto o de Dhanus (arco). Na tradição dos Upanishads, o signo de Dhanus propõe a identificação com a flecha, representando o conhecimento que liberta do karma e do ciclo dos renascimentos. No antigo mundo védico, a sílaba sagrada AUM (OM) era o arco, atma, a alma, a flecha, sendo o Brahman, o Todo, o alvo, tudo isto sugerindo a saída da multiplicidade e do samsara pela volta à unidade. 

Nos tempos védicos, os astrólogos davam o nome de Brihaspati a uma dividade que tutelava o planeta Guru, Júpiter na astrologia ocidental, regente de Dhanus. Com o tempo, essa distinção acabou desaparecendo, sendo Brihaspati, denominado como “pai dos deuses” ou “preceptor dos deuses” citado astrologicamente como o próprio regente do signo. Brh é um prefixo sânscrito que significa grande, traduzindo ideias de desenvolvimento, crescimento, expansão. Pati significa senhor. Brihaspati é, assim, aquele que governa porque é grande, porque tem poder  e porque se expande. 

BRIHASPATI
Brihaspati, entre os hindus age como a inteligência e a palavra dos deuses, sendo identificado como a divindade que permite ao ser humano ter acesso a um nível de conhecimento que lhe possibilita ultrapassar o que o mental comum, inconstante e instável, lhe fornece através de budha (o planeta Mercúrio) e das condicionantes impregnações lunares (manas). É o conhecimento proporcionado por Brihaspati (Júpiter), como buddhi, que põe o hindu não só em contacto com o testemunho de grandes sábios do passado como lhe possibilita o acesso a um tipo de conhecimento superior, libertador, estabelecendo uma ligação com o Brahman.

Ao se identificar com a flecha, conforme proposta do nono signo astrológico, Dhanus, o homem adquire o conhecimento que o liberta do ciclo dos renascimentos (samsara), transformando o que nele há de animal e racional em espiritual, liquidando-se, assim, os seus débitos kármicos.  A filosofia vedantina, como sabemos, distingue quatro tipos de karma. O primeiro é o sanchita-karma, a totalidade das sementes (efeitos) acumuladas, provenientes de encarnações anteriores, que ainda não começaram a germinar, encontrado na quarta casa astrológica. 

O segundo é o prarabdha-karma, a parte do anterior que numa encarnação será vivida, colhida, constituindo a nossa presente biografia; são os efeitos que repercutem numa encarnação presente, que estão no Meio do Céu. O terceiro é o kriyamana-karma, a nossa capacidade de discernir quanto às ações do presente que poderão continuar abastecendo o sanchita-karma e que, como tal, deverão ser evitadas; este conhecimento é encontrado (ou não) na nona casa. Finalmente, o agama-karma, a nossa capacidade de prever o resultado futuro de nossas ações, realizemo-las ou não; confunde-se com o nosso livre-arbítrio. Chama-se upaya (método) o conjunto de recursos encontrados (ou não) na nona casa que podem ser usados para nos ajudar a trabalhar com o kriyamana-karma e o  agama-karma. Para os antigos astrólogos hindus, o prarabdha-karma, o kriyamana-karma e o agami-karma, na vida de alguém, seriam explicados por Jyotish. As mudanças e as transformações que alguém desejasse realizar em sua vida só ocorreriam através do conhecimento que ele tivesse do seu kriyamana-karma e do seu agama-karma, isto é, do que astrologicamente significam o signo de Sagitário (Dhanus), a sua nona casa. 


JYOTISH

Além disso, a transformação desejada só se viabilizaria se conhecido como o seu prarabdha-karma (a sua décima casa), no qual está o karma a ser colhido numa presente encarnação, estaria afetando a sua vida em função da  qualidade, da intensidade e das características que apresenta, segundo os seus níveis: 1) karma não-fixo (adridha); 2) karma fixo/não fixo (dridha-adridha); 3) karma fixo (dridha). No primeiro caso, temos o karma que pode ser removido sem grandes problemas, com algum esforço, porém. Um karma leve. No segundo caso, temos o caso de débitos kármicos, de intensidade média, só removidos com muito esforço. No terceiro caso, temos os débitos kármicos muito pesados, severos, que exigirão  esforços constantes por uma vida inteira, jamais removíveis. 

Dhanus encerrava na astrologia védica o terceiro quadrante zodiacal, conhecido pelo nome de Dharma, antecedido pelo segundo e pelo primeiro, designados respectivamente pelos nomes de Kama e de Artha. O quarto quadrante zodiacal tinha o nome de Moksha. Os nomes destes quadrantes designavam as quatro etapas pelas quais todo o hindu deveria passar, quatro metas de vida, sendo a primeira uma preparação para a segunda e assim por diante.



A primeira meta, Artha, tinha a ver com ideias de afirmação e de conquistas materiais. Nessa primeira meta prevalece matsya nyaya, a lei do peixe, da qual se diz que peixes grandes comem peixes pequenos. Grande parte da humanidade vive segundo esta lei, explicada na filosofia ocidental por pensadores como Machiavel, Hobbes e por correntes filosóficas que defendem o pragmatismo e o utilitarismo. Na segunda
THOMAS  HOBBES , 1588 - 1679
meta, temos Kama,  na qual também grande parte da humanidade está fixada: a vida como busca do prazer. Kama é o nome de uma divindade muito parecida com o Eros grego. Kama, com seu arco, dispara flechas que provocam os desejos humanos. Possui cinco flechas, uma para cada um dos sentidos humanos. É Kama a própria encarnação do desejo. 

Na terceira meta, temos Dharma, conceito que lembra ao mesmo tempo responsabilidade, dever e obrigação. É o quadrante da vida social e, neste sentido, se opõe ao primeiro, o da individualidade. Com Dharma, entramos na vida social, que pede uma noção clara dos direitos e dos deveres dos seres humanos. Este quadrante, astrologicamente, é encerrado por Dhanus, signo que nos fala de conhecimentos superiores que nos levam a uma vida espiritual, transindividual e transsocial, que nos põe em relação com a humanidade como um todo. Com as influências de Dhanus, vividas superiormente, deixamos de agir só em função da nossa individualidade e/ou da nossa vida social. 

Para Jyotish, se Dhanus é o signo do conhecimento, o da sabedoria será o de Peixes (Meena), o da doação, onde o conhecimento que leva ao Brahman será passado aos outros, compartilhado, sem nenhuma ideia de reciprocidade. Doar simplesmente com o objetivo de que a vida do Todo, a humanidade e o mundo natural melhorem. É por isso que o signo de Meena, Peixes, fechava o quarto quadrante na astrologia védica, dando-se o nome de Moksha à última etapa da vida no Hinduísmo. Moksha é palavra que etimologicamente nos remete a ideias de desatar, abrir mão, largar, emancipar, terminar. Moksha é conceito que afasta por isso a noção de ego. É em moksha que se vive plenamente uma das máximas hinduístas, a do desapego do resultado das ações praticadas. É através de Moksha que o homem, o chamado liberto em vida, como parte do Todo, do Brahman, pode se projetar além de si mesmo, em direção do mundo natural e dos outros outros homens.


CORRESPONDÊNCIAS   ZODIACAIS

A esta caminhada em direção do Brahman, que na astrologia é orientada a partir de Dhanus, tanto o Hinduísmo como o Budismo dão o nome nirvana marga. Nirvana é palavra que etimologicamente tem relação com um verbo (nirva) que  significa acalmar, extinguir diminuir, atenuar, apagar, mas que, muitas vezes, pode tomar o sentido de ir-se, de atravessar. Todo este campo semântico diz respeito obviamente ao controle do ego, dos seus desejos, dos seus apegos, da sua ignorância. O nirvana é um estado a ser conquistado, um modo de ser que deve ser confirmado pela própria vida daquele que o busca. A via para esse fim é a que tanto a astrologia como as doutrinas filosófico-religiosas chamam de gnana marga ou jñana marga, o caminho do conhecimento.


MESOPOTÂMIA
Ao que parece, dentre os povos da Mesopotâmia, foram os babilônicos os primeiros a estabelecer a ligação entre determinadas constelações com os meses do ano. Sabe-se que por volta do ano 1.000 aC eles já tinham definido  o círculo zodiacal com dezoito constelações, reduzidas depois para doze. Esta redução possibilitou que não só a noção da eclíptica (via solis) se estabelecesse como também a fixação dos eixos equinociais e solsticiais. Foi a partir das definições acima que a eclíptica foi dividade em doze partes iguais, dando-se a elas, como signos, os seus respectivos nomes (traduzidos): O Mercenário (Áries), O Touro e As Estrelas (Touro com as Plêiades), Os Grandes Gêmeos (Gêmeos), O Caranguejo (Câncer), O Leão (Leão), A Balança (Libra), A Espiga (Virgem), O Escorpião (Escorpião), Pabilsag (Sagitário), A Cabra-Peixe (Capricórnio), O Grande (Aquário) e As Caudas (Peixes). Pabilsag (Sagitário) era uma divindade conhecida desde a mais remota antiguidade mesopotâmica. Era filho de Enlil (Grande Montanha), sendo sua esposa a deusa Ninisina, padroeira de Isin, divindade ligada às doenças e às curas. 

Embora os sumérios tinham iniciado na Mesopotâmia a leitura do céu, pelo reconhecimento de algumas constelações e de planetas, foram os babilônicos, mais tarde, por volta de 2.000 aC que deram a esta leitura um sentido diferente, utilizando-a para fazer previsões
ENUMA   ANU   ENLIL
(presságios) quanto aos seres humanos, geralmente pessoas de elevado status, e quanto a acontecimentos relacionados com a vida do país, conflitos, guerras, epidemias, catástrofes. Ficaram famosas as  tabuletas em argila cozida de uma série intitulada Enuma Anu Enlil que registram, desde o período assírio até o babilônico, a posição aparente dos planetas, principalmente Marte e Vênus. O primeiro representa Nergal, deus da guerra, do inferno e da pestilência, e o segundo, associado a Ishtar, relacionado com o amor, a fertilidade e a paz.   


TIAMAT   E   MARDUK

No mundo mesopotâmico, quando a Babilônia se tornou o maior centro político do país, quem passou a reinar absoluto sobre todos os planetas foi o deus Marduk. Uma descrição dos seus feitos pode ser encontrada na quinta tabla da Epopeia de Gilgamés: Ele
ENLIL
construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou
EA
adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era um astro masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa “Casa da Água”, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, lembre-se, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza. Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


UTUKKU

As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukku, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukku chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga, enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz. 

SIN  

Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit. Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, “Fortuna Maior”. 

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk na Mesopotâmia,  Zeus e Júpiter, no mundo greco-romano, associados ao maior planeta  do nosso zodíaco, representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a
MICHEL   GAUQUELIN  ,  1928 - 1991
ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema astrológico de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

Participando do simbolismo do raio de luz e da chuva fertilizante como ligação entre dois estados, o celeste e o terrestre, a flecha lembra passagens rápidas e penetração como união mística. É neste sentido, na tradição hinduísta, que a flecha é sinônimo de celeridade intuitiva fulgurante, do chamado saber rápido. Esta relação da flecha com esse tipo de conhecimento  explica-se melhor na medida em que soubermos que sagitta, flecha, em latim, tem
KIRON
relação com  o verbo sagire, perceber rapidamente e também ter faro. Dentro deste verbo encontramos o radical sag, que, em latim, aparece em palavras como sagus (o que pressagia), sagax (que tem o odor sutil como o cão), sagacitas (que tem os sentidos finos), praesagus (que pressente), sagaciter (saber com penetração). É por esta razão que Sagitário é considerado tradicionalmente como o signo da profecia. Saga, sagae era o nome que os antigos romanos davam às suas bruxas, feiticeiras, as que “sabiam antes.” É de todo esse contexto que sai a palavra cinegética, uma das artes ensinadas pelo centauro Kiron aos seus pupilos, como veremos.

Tudo o que se expôs acima poderá ser melhor entendido se compreendermos que Gêmeos é o signo da informação e que Virgo é o da crítica e da aplicação desta informação para que ela se transforme em conhecimento. É neste sentido que Sagitário se torna
o signo das grandes viagens espirituais e intelectuais através das religiões e dos seus códigos, dos textos legais, da filosofia, do estudo e do ensino superior, da vida universitária, do estudo das línguas e dos costumes dos povos etc.  São representantes de Sagitário, de um modo geral, os religiosos, os catedráticos, os magistrados, os professores, os pregadores, os embaixadores, os exploradores, os viajante etc.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

TOURO (1)

                             
                      


A primeira divindade que os egípcios associaram a uma constelação nos céus foi Osíris, ligando-o à constelação heliacal de Orion. Quando Orion deixou de  desempenhar esta função, tivemos, no mito, a "morte" de Osíris,  que, descendo ao Outro
ESTRELAS  DE  TOURO
Lado, foi governar o mundo dos mortos. O equinócio da primavera foi deslocado então para as estrelas de Touro, por volta de 4.500 aC, assumindo Horus, filho de Osíris, a “titularidade” da nova constelação heliacal, Touro. Chegava-se à era cósmica de Touro, razão pela qual, durante esse período, muitas divindades tomarão a forma taurina em várias civilizações.



APIS
Considerado na Pérsia como um dos primeiros seres criados, associado na antiguidade persa ao deus Mitra e ao deus Apis no Egito, o touro foi sempre um animal usado para representar a fecundidade de forma anárquica, tempestuosa por vezes. Objeto de culto na Índia, era designado o animal pelos termos sânscritos vrisha ou vrishabha, nome pelo qual a Astrologia hindu (Jyotish) designava o signo de Touro.

No primeiro livro dos Vedas, o Rig Veda, Rudra, o Terrível, que muge como um touro bravio, seu símbolo, é a divindade cujo sêmen fertiliza a terra. Violento, ele a fecunda através de
RIG VEDA
tempestades, liberando os seus violentos filhos, os Maruts ou Rudras, que trazem raios e relâmpagos, quando dos aguaceiros que inundam tudo, na primavera. Além de Rudra, o touro é também símbolo de Indra, este considerado como força que traz o calor (é um deus ligado ao quente, como qualidade primitiva, mais solar, portanto), que proporciona o aquecimento ideal do elemento líquido para a necessária manifestação da vida. 

SHIVA   E   NANDI
O touro aparece na Índia ainda associado ao deus Shiva, a terceira pessoa da trimurti védica, sendo Brahma e Vishnu as duas outras pessoas. Shiva representa o aspecto destruidor, transformador, do mundo material. Quando ele vem nessa forma, aparece sempre montado num touro branco chamado Nandi e traz na mão um tridente (trishula), símbolo da dissolução cósmica. Lembremos que o tridente, nessa função de representar a solutio  universal, é, na mitologia grega, do deus Poseidon, deus do elemento líquido, também muitas vezes representado por um touro. 

Possui Shiva inúmeros poderes e sua autoridade está fixada na grande quantidade de epítetos que tem. É representado comumente por uma figura humana, escura, azulada, mergulhada em grande concentração; possui um terceiro olho no meio da testa, um pouco
LINGAM   E   YONE
acima das sobrancelhas, através do qual emite relâmpagos e raios, que tanto lembram onisciência como castigo e punição. Outros símbolos seus são o lingam, uma coluna de pedra, imagem do fogo divino como órgão fálico, colocada dentro de um círculo, também de pedra,
SHIVA  NATARAJA
chamado yone, símbolo do órgão sexual feminino. Por essa razão, Shiva é representado comumente sob a forma andrógina. Com o nome de Shiva Nataraja é o deus da dança, do movimento cósmico, dos átomos. Vem dentro de um círculo de fogo, de onde exerce o seu poder de destruidor dos mundos e de sua renovação.


Vrishabha é o nome do signo de Touro na Astrologia hindu, onde representa o suporte do mundo manifesto. Os touros, tanto na índia como em outras culturas, são cosmóforos, animais que, como a tartaruga, por exemplo, são usados para simbolizar a criação
VRISHABHA
material, o seu sustentáculo. Neste sentido o touro é visto como um centro imóvel que põe em movimento a roda cósmica. No templo de Salomão, entre os judeus, por exemplo, temos os touros com esta mesma função. Doze ao todo, distribuídos em quatro trindades nas quatro faces do edifício, cada uma delas olhando para um ponto cardeal. Nesse entendimento, o templo deve ser um reflexo do mundo divino na terra, uma réplica terrestre dos arquétipos celestes. O touro se solidariza, nessas representações, assim tanto teológica como cosmologicamente. 






Entre os assírios e babilônicos, o touro era representado sob uma forma selênica e solar ao mesmo tempo, uma união da terra e do
TOURO   ALADO
céu. Eram os famosos touros alados, gênios que viviam imediatamente abaixo dos deuses, que desempenhavam uma função protetora dos humanos, defendendo-os contra as potências maléficas. Eram os portadores dos sacrifícios e oferendas aos deuses e deles traziam as dádivas e os dons divinos. Guardavam os templos, representados como touros alados com a cabeça humana. Além desta função, eles também se misturavam com os humanos, participando de seu cotidiano, seguindo-os pelas ruas, acompanhando-os em suas viagens ou quando iam para a guerra, sempre invisíveis, mas presentes.  

Os touros, desde o período neolítico, ou mesmo antes, sempre foram utilizados também para representar as manifestações tempestuosas do céu e, como tal,  emblematizavam as divindades atmosféricas. Considerado sempre um animal lunar, mas às vezes solar, o touro já na antiga Babilônia e no Egito assumia essa ligação. Sin, deus lunar da Mesopotâmia, tinha a forma taurina numa de suas representações. O deus Mitra, divindade iraniana, é idealizado como um jovem herói que corta o pescoço de um touro, cujo sangue dará origem ao mundo vegetal e animal. 


TAUROBOLIUM
Um culto da Ásia Menor, introduzido em Roma no séc. II dC, enriqueceu outro culto anterior, também oriental, já fixado no Lácio, de um rito até então desconhecido, o taurobolium. Era uma iniciação pelo batismo do sangue do animal. Aquele que se submetia a tal iniciação se transformava num renatus in aeternum, ou seja, nascido para uma nova vida para toda a eternidade. O sangue do touro que escorria sobre o iniciado não só lhe transmitia um poder biológico como lhe dava acesso a uma vida espiritual e imortal. 

Entre os fenícios, a base da sua mitologia está centrada no culto dos elementos e dos fenômenos naturais. Todos os seres divinos são antropomorfizados e colocados numa hierarquia rigorosa. El, o grande deus solar, honrado por todos os semitas ocidentais, está no topo do panteão, Ele governa o país de Canaã. É dele que vem a fertilidade da terra. Honrado sob diversas formas, é chamado de O Touro-El.

VACA   SAGRADA
Já a vaca, em virtude do leite e de seus derivados, a manteiga, os cremes e os queijos, é símbolo da abundância e da fecundidade. Daí o caráter sagrado, feminino, que adquire. Particularmente honrada na Índia, a vaca é uma representação celeste viva. Toda mulher, na índia, das camadas mais baixas da população às mais elevadas, que quer se tornar mãe, deve se sentar sobre a pele do animal. Os hindus como os persas utilizavam a urina de vaca em cerimônias de purificação e seus excrementos tinham várias aplicações, como, por exemplo, servir, depois de secos, misturados ao capim, como carvão ou placas para a construção de paredes ou, ainda, ao natural, como proteção contra maus espíritos. 

O touro não é apenas um símbolo animal dominante, mas possui também um significado mais profundo enquanto animal do
ZARATUSTRA
sacrifício. No ritual e na iconografia tem representado ora o Sol, ora Lua, a terra ou o céu, a chuva ou o calor, a fecundidade feminina ou o ardor masculino, a matriarca e o patriarca. Como símbolo da morte, era uma figura central no mitraísmo, um culto persa anterior a Zaratustra, assumido e difundido por todo o império romano, como um rival do cristianismo.  

TIRTHANKARA
Na arte rupestre primitiva, o touro era secundado pelo cavalo como a imagem mais frequentemente pintada da energia vital. Aparece o touro em todos os continentes como símbolo do poder divino. Na Índia, o primeiro dos tirthankaras, Mahavira, da seita jainista, era representado por um touro dourado. Tirthankara, como sabemos, em sânscrito, quer dizer aquele que fez a travessia (do rio), aquele que, no Hinduísmo, se desligou, atingiu moksha, um liberto em vida.

Desde a pré-história, os atributos físicos do touro estão subjacentes ao seu simbolismo. Os seus chifres estão ligados à Lua crescente, a sua corpulência absoluta sugere um suporte para o mundo material, tanto na tradição védica como islâmica. O seu sêmen prolífico, nessa tradição, é armazenado pela Lua e sua energia mugidora característica e o balanço dos seus chifres está muito ligado a trovões e terremotos, sobretudo em Creta. 


PRINCESA   EUROPA  ( REMBRANDT )

Os gregos se apossaram simbolicamente do animal para explicar o nascimento da civilização cretense.  A história começa quando Zeus, sob a forma de um maravilhoso  touro branco raptou a princesa Europa, levando-a, pelo mar, da Fenícia para ilha que futuramente tomaria o nome de Creta. Lá, perto de Gortina, numa praia cheia de plátanos, adquirindo uma forma humana, fez da lindíssima princesa a sua mulher. Dessa relação nasceram três filhos, Minos, Radamanto e Sárpedon. Mais tarde, Zeus fez com que Europa desposasse Asterion, rei da ilha, que adotou os filhos de Europa. Para que o acontecimento fosse lembrado para sempre Zeus colocou a sua forma taurina nos céus, logo depois da constelação do carneiro. 





A civilização que se desenvolveu na ilha é tipicamente um produto da era de Touro. Creta, sempre, desde as suas origens, foi uma ginecocracia, um poder feminino, apesar de governada por reis. No mito, este rei era Minos, nome que, segundo parece, é mais um título dinástico, como césar, czar, do que um nome próprio. A posição da ilha, equidistante de três continentes, favoreceu o nascimento de uma civilização poderosa e original, que floresceu na era de Touro, mais ou menos entre 4.000 a 2.000 aC, governada por uma talassocracia. Deu-se o nome de minoana a essa civilização, que não possuía templos, mas cujas cerimônias religiosas eram celebradas ao ar livre, nas florestas e nas montanhas, por sacerdotisas.


CNOSSOS
A história da brilhante civilização minoana tem por centro, além de outras edificações, o palácio real, chamado de O Labirinto. No ano de 1.100 aC, Creta foi integrada definitivamente à Grécia continental, depois das invasões aqueias e dóricas, perdendo a sua condição de nação independente. Muito contribuiu também para a decadência cretense alguns abalos sísmicos que se verificaram ao longo do período, dois deles devastadores, um em 1.700 e outro em 1.500 aC. 

A Creta minoana tinha como capital Cnossos e era famosa pela sua cerâmica, pelos seus olivais, pelos seus campos de cereais e vinhedos. Mantinha Creta contactos comerciais com todo o Mediterrâneo oriental, Egito e Oriente-Médio. A arquitetura das suas principais cidades, Cnossos, Phaestos, Mália e Zakros era
LABRYS
excepcional, com serviços públicos eficientes e obras de arte de refinado gosto. Esculturas e pinturas murais distribuíam-se ao longo das vias públicas. As pinturas, de linhas puras, evocavam um culto enigmático marcado pelas figuras de um duplo machado cruzado (labrys) e de chifres de touro, além de muitas cenas de tauromaquia ritual e de acrobacias praticadas em corridas de touro. As sacerdotisas figuram também nessa decoração, muito maquiadas, de peito nu, algumas, e elegantemente vestidas.

Miticamente, após a morte de Asterion, que se casara com Europa, reinou na ilha Minos, o primogênito de Europa e de Zeus. Os outros dois irmãos, contudo, resolveram disputar o trono. Minos
MINOTAURO
pediu um sinal aos deuses no sentido de que eles o confirmassem como único soberano da ilha. Poseidon  enviou, pelo mar um sinal divino, na forma de um maravilhoso touro, com a condição de que o animal deveria em seguida ser sacrificado. Minos, já consagrado como indiscutível soberano, desejou todavia conservar o extraordinário animal para utilizá-lo como reprodutor, de modo a aumentar ainda mais o seu já imenso rebanho. 

Poseidon, irritadíssimo, fez com que Pasífae, mulher de Minos, a rainha de Creta, viesse a sentir pelo animal uma incestuosa paixão. Enlouquecida por um furor erótico incontrolável, ela pediu a Dédalo, o famoso inventor grego, então exilado na ilha, que resolvesse o seu problema. Dédalo criou um simulacro perfeito de novilha, no qual a rainha entrou, consumando assim o seu tresloucado intento sexual. Dessa união, nasceu um monstro, o Minotauro. Envergonhados, os soberanos decidiram esconder o monstro.  Para esse fim, chamaram novamente Dédalo, que construiu um imenso palácio em Cnossos, capital da ilha. Deram a esse palácio o nome de Labirinto; com um enorme emaranhado de quartos, salas subterrâneas, corredores, ninguém, a não ser o seu construtor, poderia dele sair se nele entrasse,  Minos mandou então que o monstro, que se alimentava de carne humana, nele fosse encerrado, nos seus subterrâneos mais profundos. 

PASÍFAE  E  MINOTAURO
A ira divina, porém, não ficou restrita a esse triste episódio. Depois de ter mantido relações com Pasífae, o touro divino foi enlouquecido por Poseidon; livrando-se do cercado em que o haviam colocado, pôs-se o animal a destruir todas as plantações da ilha, enchendo de terror os seus habitantes. O segundo trabalho de Hércules (veja-o neste blog) será exatamente o de dominar o enlouquecido animal e levá-lo para Euristeu, rei de Micenas, que, conforme sentença oracular, determinava os trabalhos que o herói deveria realizar para se purificar. 


PINTURA  EM  CNOSSOS
Os gregos atenienses, à época destes acontecimentos, haviam sido submetidos pelos cretenses, a eles ficando obrigados a pagar um pesado tributo por meio do qual o alimento do Minotauro era obtido: deviam enviar anualmente à ilha jovens atenienses para saciar a fome do monstro. Assumindo o trono de Atenas, Teseu, filho de Egeu, resolveu dar um basta a tão horrível submissão. Dirigiu-se a Creta e declarou que estava disposto a enfrentar o monstro, uma prova a que Minos submetia todos os que pretendessem  libertar Atenas do jugo cretense. 


Auxiliado pela princesa Ariadne, que por ele se apaixonou à primeira vista, Teseu dela recebeu, sem que ninguém soubesse, o famoso fio com o qual poderia sair do Labirinto se conseguisse matar o Monstro. O auxílio de Ariadne estava porém condicionado: Teseu deveria, se vencedor, levá-la consigo e com ela se casar em Atenas. De início, as coisas correram de acordo com o combinado. Morto o monstro, Teseu e Ariadne embarcam juntos com destino ao Pireu, porto de Atenas. No meio do caminho fizeram uma parada na ilha de Naxos, onde passaram a noite. Pela manhã, Ariadne procurou Teseu. Ao longe, bem distante da praia, o barco do herói 
ARIADNE   E   DIONISO  ( TINTORETTO )
ateniense era quase um ponto invisível no horizonte. Abandonada e triste, a princesa foi encontrada na ilha pelo deus Dioniso, que voltava de seu périplo à Ásia aonde fora propagar o seu culto. Uniram-se e dessa união nasceram quatro filhos. Como presente de núpcias, o deus lhe deu um diadema, depois transformado em constelação (vide, neste blog, no item constelações boreais, Corona Borealis). 

Quanto aos reis de Creta, a sua história, devidamente interpretada, é uma grande ilustração do que podemos considerar como a vida de alguém pode ser tomada pela cegueira da paixão incontida, de ambos, no caso. De um lado, o desejo do lucro por parte de Minos, que, ao invés de cumprir o que Poseidon determinara, sacrificou no lugar do divino touro um animal  de terceira categoria. Ou seja, o desejo do lucro acima do dever religioso. Com relação a Pasífae, temos o pecado da sensualidade extrema. O fruto dessas paixões é o Minotauro, que precisa ser escondido nos subterrâneos do Labirinto.


ARIADNE   E   TESEU  ( NICOLO  BAMBINI )

O tema do Minotauro é nitidamente taurino sob o ponto de vista astrológico enquanto nele temos ilustrações negativas: uma alegoria do desejo injusto, a submissão à pressão dos sentidos, as concessões mentirosas, os subterfúgios para a obtenção de posses materiais. Psicanaliticamente, o Minotauro é a expressão do recalque, do que não pode ser exibido à luz do dia (admitido pela consciência) e que, por isso, deve ser escondido na escuridão do Labirinto (subconsciente). O recalque, lembremos, é um mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ele ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. 

Dessa história sai também a palavra labirinto (de labrys, o duplo machado, um dos símbolos de Creta, ao lado dos chifres do touro), que pode tomar vários sentidos. A palavra, numa leitura religiosa, serviria para alegorizar o mundo como um labirinto e a queda, a perdição do espírito no plano da matéria, a sua dispersão e sua perplexidade na vida fenomênica. A redenção só seria possível se encontrado um meio de sair dele, o fio de Ariadne. Ariadne e Teseu são também, numa outra leitura, figuras arquetípicas do matriarcado e do patriarcado, respectivamente, que poderiam ser conciliadas, mas que, fixadas nas suas prerrogativas, não sabem ou não querem fazê-lo.

O labirinto pode ser considerado ainda como uma ilustração do mundo do erro, de uma vida vegetativa. Quando nascemos, entramos nele, na escuridão, ficando presos à tirania dos sentidos. Voltar à luz é muito difícil. Em muitas tradições, a
LABIRINTO   DE   CHARTRES
entrada no labirinto lembra também a viagem noturna do Sol. Representa, como tal, o processo mental do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Na Catedral de Chartres e em muitas outras encontramos labirintos esculpidos para simbolizar a vida como peregrinação e as suas dificuldades. Os labirintos eram chamados, nas catedrais, de “caminho de Jerusalém”, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. A arte barroca e rococó, em muitos parques de castelos, públicos ou privados, principalmente na França, usaram a imagem do labirinto para construir, com vegetação alta e espessa, aquilo a que chamaram de dédalos, com o objetivo de divertir os seus visitantes. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (1)



SISTEMA    SOLAR


Júpiter  é o maior planeta do sistema solar. Sua distância da Terra varia entre mais ou menos 600 milhões de km e cerca de 970 milhões de km. Apesar dessa grande distância, pode ser visto sem o auxílio de instrumentos óticos. Seu diâmetro é de aproximadamente 142 mil km (o do Sol é de 1.390.000 km e o da Terra cerca de 12.200 km).

Apesar de gigantesco, a densidade de Júpiter  é de apenas 24% da densidade da Terra, por ser constituído em grande parte de material gasoso. O ano de Júpiter equivale a doze anos nossos, ou seja, ele leva doze anos para fazer uma revolução em torno do Sol. Seu dia, porém, é o mais curto do que o de qualquer planeta, menos de doze horas terrestres. Imenso, gira em torno de seu eixo com uma velocidade de 47.100 km por hora.  

Júpiter dá início à série dos grandes planetas pesados, constituída por ele, Saturno, Urano e Netuno, todos se distinguindo por seu volume, por sua massa e por sua densidade. É o mais volumoso dos planetas do  sistema solar; de Mercúrio a Plutão todos caberiam dentro dele e ainda sobraria algum espaço. É o primeiro dos chamados planetas pesados, isto é, de marcha lenta se o compararmos com os mais rápidos, Mercúrio, Vênus e Marte. Do ponto de vista astrológico, estes três últimos, mais os luminares, são astros que dizem respeito à vida pessoal do ser humano enquanto Júpiter e Saturno relacionam-se com a sua vida social e os transaturninos (Urano, Netuno e Plutão), também chamados transpessoais, invisíveis a olho nu, têm a ver com fatores psíquicos, com a vida inconsciente.

Júpiter ocupa um lugar central com relação aos planetas que orbitam em torno do Sol. Antes dele, temos Mercúrio, Vênus (chamados planetas interiores), mais Terra e Marte; depois de Júpiter, o mesmo número de corpos celestes, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. É devido a esta posição central que Júpiter representa o princípio do equilíbrio, da autoridade, da ordem, da estabilidade e do progresso. É pela mesma razão que Júpiter representa os preliminares da iniciação e que, na antiguidade, imperava sobre sobre as leis, a medicina e a religião, que se nutriam da Tradição.


CONSTELAÇÃO    DE    SAGITÁRIO

Simbolicamente, Júpiter sempre significou legalidade social, abundância, riqueza, otimismo, expansão, confiança. Como planeta regente das constelações de Sagitário e de Peixes, tem, respectivamente, ligação com ideias de justiça e de compaixão ativa. No organismo humano, se mostra através da circulação (a química do sangue, especialmente), os quadris, o coxo-femural e o fígado.  


CONSTELAÇÃO    DE    PEIXES

No mundo mesopotâmico, quem reinava absoluto sobre todos os planetas  era o deus  Marduk, cuja descrição pode ser encontrada na
quinta tablita da Epopeia de Gilgamés: Ele construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


MESOPOTÂMIA     -     BABILÔNIA

APSU
Quando a Babilônia se tornou a cidade principal da Mesopotâmia, submetendo todas as demais, Marduk, de uma divindade local, menor, foi levado à condição de divindade superior. Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa Casa da Água, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza.


MARDUK

Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da Terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


TIAMAT

Da união dos dois princípios, nasceram os grandes deuses: Anu, Bel e Ea, além de outras divindades menores. Instigadas por Tiamat, algumas divindades começaram a perturbar a vida cósmica, especialmente a Terra. Anshar convocou então Marduk, seu filho querido, e o exortou a combater Tiamat. Marduk aceitou, mas exigiu, numa assembleia divina, que lhe fosse dada a autoridade suprema, absoluta. 

Anu, o poderoso, reinava nos espaços celestes e jamais os abandonava. Quando saía de sua imobilidade majestosa, dava apenas um passeio por uma parte do céu, que lhe era exclusiva. Apesar de sua supremacia, não se misturava com as coisas terrestres. Não se envolvia na luta contra Tiamat, deixando nas mãos de Marduk a solução do problema. Vivia majestosamente em companhia da deusa Antu, interessando-se só pelas questões universais.

Bel era diferente, envolvia-se muito com as questões terrestres. Quando a Babilônia se impôs às demais cidades do país, Bel assumiu as atribuições do deus Enlil, então senhor da atmosfera, divindade das tempestades, cuja principal arma era o amaru, o dilúvio. Tornou-se Bel o grande dispensador dos bens e dos males. Podia tudo, destruir os homens ou salvá-los, inclusive intervir na terra para libertá-la dos monstros que a atacavam. 

POSEIDON
Ea é nome que significa casa da água, sendo possível associá-lo ao Poseidon dos gregos. Seu domínio era o Apsu, e sua forma a de uma espécie de serpente líquida que envolvia a terra, no que lembrava o deus grego Oceano. As fontes e os rios eram dele. Governava os oráculos. Envolvia-se nos trabalhos humanos, sendo o patrono dos carpinteiros, dos construtores que trabalhavam pedras e dos metalúrgicos.

Marduk era o filho mais velho de Ea, saído diretamente do Apsu, personificando na origem a ação fecundante das águas, fazendo crescer as plantações, tendo o caráter de uma divindade agrária. Seu emblema era a enxada. Tornando-se a Babilônia, sua cidade de eleição, o centro da vida política da Mesopotâmia, assumiu o lugar mais elevado no panteão do país. 

A plenitude divina era dele e nela se incluíam, além de suas atribuições originais, mais as seguintes características e  funções: 1) a luz do pai que o engendrou; 2) a renovação da ordem divina; 3) o poder dos encantamentos, sendo-lhe possível trazer os mortos à vida; 4) o conhecimento do coração dos deuses; 5) a guarda da Justiça e do Direito; 6) a criação de todas coisas; 7) o poder sobre todos os reis; 8) a ascendência sobre todos os deuses.

Assim, Marduk absorveu todas as atribuições dos demais deuses, fixando-os nos seus domínios, reorganizou o universo e estabeleceu o curso dos astros. Além disso, criou o ser humano a partir do seu sangue, tornando-se o dono das artes da cura, uma espécie de grande-xamã, e patrono de todos os encantamentos mágicos. 


SHAMASH
As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukkus, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor e da guerra) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukkus chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga e enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz.


ISHTAR


SARPANIT
Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit.  



MARDUK    E    TIAMAT


NERGAL

Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, Fortuna Maior. 

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

AMON - RÁ
Para os egípcios, Júpiter era Amon-Rá, grande divindade, conhecida como o rei dos deuses, muito semelhante ao Zeus grego. Praticamente desconhecido no período do antigo império, antes de 2000 aC, Amon assume uma proeminente posição a partir dos primeiros séculos do médio império. Seu nome provém de uma raiz que significa o escondido. Sua promoção ocorre dentro do sistema cosmogônico de Hermópolis, que tinha em Toth a sua principal divindade. 

AMON
Amon tornou-se aos poucos a divindade suprema do país, já unificado, sendo Tebas a cidade de onde se irradiava todo o seu culto. Aparecia comumente antropomorfizado, com uma cabeça de bronze, coberta com uma espécie de gorro alto em forma de torre, no qual se fixavam duas penas, a simbolizar a união do alto Egito com o baixo Egito. Majestoso no seu trono ou em pé, carregava nas mãos quase sempre um chicote. Muito comum também era a sua representação  com uma cabeça de carneiro, viva encarnação do deus, à qual se juntava simbolicamente um  ganso, seu animal sagrado. 




GANSOS  -  PINTURA   TUMULAR  EGÍPCIA
Quanto ao ganso, registre-se que ele, ao lado do pato e do cisne, faz parte, em antigas tradições mitológicas, de um grupo de aves aquáticas inimigas das trevas. No antigo Egito, a alma do faraó defunto era representada por uma gansa enquanto a designação do novo era anunciada por quatro dessas aves, soltas, lançadas na direção dos quatro cantos do horizonte.   


AMON   ITIFÁLICO

A associação do carneiro a Amon revelava que era dele a força genésica que punha em movimento os ciclos vitais como também o comando de todos os exércitos e das operações militares. Força produtora e geradora, Amon, numa forma itifálica e vegetal, era considerado como o marido de sua mãe (natureza) e, como tal, aquele que mantinha a vida no seu processo criativo. 

A partir do médio império, entre 2133 aC e 1786 aC, Amon tornou-se o grande protetor de todos os faraós do período, durante o qual a centralização do poder político coincidiu com a instauração do monoteísmo religioso, modelo que serviria mais tarde de inspiração para o monoteísmo judaico. 

Tornando-se a grande divindade nacional, Amon começou a ser chamado de Amon-Rá. A classe sacerdotal, como sempre afinada com o poder político do país, manobrou sutilmente para que Amon absorvesse as atribuições de uma antiga divindade solar, Rá, que tinha o título de criador, mestre do céu, cujo santuário ficava na cidade que os gregos chamaram de Heliópolis. Assim, foi sob o nome de Amon-Rá que a nova divindade, nas imagens das tumbas reais, apossou-se da barca do Sol e passou a iluminar o mundo inferior durante as doze horas da noite. 


AMENOPHIS III
Glorioso e onipotente durante alguns séculos, Amon-Rá começou a perder prestígio lá pelo fim do reinado de Amenophis III, ao final do séc. XV aC, quando uma nova divindade começou a se impor, Aton (o disco solar que dá origem ao dia), filho de Amon-Rá e da rainha-mãe, mulher de Thutemosis IV. Quem deu grande impulso ao novo culto foi Amenophis III (etimologicamente, Amon está satisfeito), que adotou um novo nome, Akhenaton (a glória de Aton). 

O reinado do deus Aton durou pouco, entretanto, restaurando-se o poder de Amon pelos faraós da décima nona dinastia. Incorporado
ATON
definitivamente o nome de Rá ao seu, Amon teve o seu prestígio ainda mais aumentado. Durante o império de Ramsés III, um inventário dos bens do deus nos informa que ele possuía, dentre outros itens de riqueza, mais de oitenta mil escravos e mais de quatrocentas mil cabeças de gado. Os sacerdotes de Amon eram escolhidos entre os mais poderosos senhores do país, que logo estabeleceram um sistema hereditário com relação ao poder religioso e à administração dos bens do deus. Com isso, se formou uma espécie de estado teocrático, exercendo o deus o seu poder por oráculos e por uma extensa rede burocrática de caráter administrativo-religioso que tinha como figura principal o faraó. O poder do renovado Amon se estendeu às tribos do deserto, os beduínos, criando-se inclusive muitos centros religiosos para o atendimento do grande número de peregrinos que continuamente afluíam ao país para reverenciar o deus. 


No médio império, toda a vida do país estava impregnada fortemente de religião. Não havia uma separação entre a esfera do religioso e do político, do Estado. Deificado o governante, os assuntos civis e religiosos se processavam em conjunto. Nesse mundo, porém, era possível distinguir algumas subdivisões do poder, uma administração civil, centralizada na figura de um vizir, uma administração dos templos, nas mãos dos sumos sacerdotes, e um exército profissional, que se tornou progressivamente forte em períodos em que o Egito expandiu o seu império, como aconteceu no médio império.

A proeminência de Amon coincidiu com a supressão dos privilégios feudais, com a realização de grandes obras de irrigação, com a ativa exploração das minas de cobre do Sinai e a construção de postos avançados no sul, até a terceira catarata do Nilo. Culturalmente, o chamado período Amon foi de esplendor, dando-se muita ênfase à arte do retrato, à literatura clássica e à construção de templos e de esculturas em escala colossal.

Não podemos esquecer, quando tentamos buscar no Egito as relações entre a religião (mitologia) e a astrologia, que o calendário egípcio foi estabelecido por e para agricultores. Fato importantíssimo nesse cenário era o da inundação do rio Nilo, que se estendia por cerca de um terço do ano. As outras duas partes, sensivelmente iguais, eram a germinação dos vegetais (cereais) e a sua colheita. Tínhamos assim no Egito três estações de quatro meses cada, muito bem demarcadas, de 120 dias cada uma. Akhit era o nome do período da cheia do Nilo; perit, o da germinação dos vegetais; e chemu, a colheita. Muito antes do início da quarta dinastia, o ano egípcio já contava com 365 dias. 


CANIS   MAJOR

Como o início da cheia do Nilo não tinha uma data fixada para começar, foi procurado um ponto de observação o mais estável possível. Esse ponto de observação foi o aparecimento da estrela Sírius (Sothis em grego e Sepedet, em egípcio), que passou a marcar o início do ano. Sírius, como se sabe, é a estrela alfa da constelação do Canis Major, atualmente a 13º24´ de Câncer. Lembro que Ptolomeu afirmava que as influências dessa estrela se assemelhavam às de Júpiter, com um leve toque marciano. Sírius é a estrela mais brilhante do céu depois do Sol; era chamada pelo egípcios de a que seca e queima, a brilhante ou a estrela do Nilo. O Nilo e a sua cheia sempre foram associados a Osíris e Ísis em sua eterna luta contra a desertificação, representada por Seth ou Apófis.


ÍSIS   E   OSÍRIS

Os egípcios sempre observaram os céus com muito interesse. Já distinguiam perfeitamente as estrelas que faziam parte das constelações circumpolares, chamando-as de indestrutíveis porque sempre visíveis. Davam o nome de infatigáveis aos planetas e às estrelas que nem sempre eram permanentemente visíveis. Escolheram 36 estrelas que passaram a presidir as 36 partes do ciclo anual celeste, de dez graus cada uma. No Médio Império foram estabelecidos quadros divididos em 36 colunas verticais e 12 registros horizontais, sendo-lhes possível trabalhar assim com os decanatos.


ASCLÉPIO
A tradição fala de Imhotep, um arquiteto, vizir do faraó Djoser, grande sacerdote de Heliópolis, construtor em Saqqara da primeira pirâmide em degraus, como o pai do calendário egípcio, por ele fixado em 2780 aC. Médico e sábio também, depois de sua morte Imhotep passou a ser venerado como um filho do deus Ptah. Os gregos o associaram à imagem de Asclépio, filho de Apolo, deus médico de Epidauro. 

Parêntese: o cinema americano, num filme, classificado como de terror, intitulado A Múmia, realizado em 1932, dirigido por Karl Freund, com Boris Karloff no papel título, trouxe de volta para nós  a história de Imhotep, cuja múmia, no filme, volta acidentalmente à vida depois de 3.700 anos. O sacerdote-arquiteto fora embalsamado vivo por haver tentado reviver a mulher que amava, após ela ter sido sacrificada. No século XX, o cinema promoveu o encontro deles.

Foi certamente com base no calendário de Imhotep que se procedeu, para fins astrológicos, à fusão da nova divindade do Médio Império, o todo-poderoso Amon, simbolizado nos céus pelo planeta Júpiter, com Rá, antiga divindade, cujo símbolo era o Sol. Na cidade de Denderah, no alto-Egito, perto de Luksor, às margens do Nilo, hoje um sítio arqueológico, descobriu-se há muito uma das mais antigas representações do zodíaco, pintada no teto do templo de Hathor  


HATHOR
Hathor era uma grande divindade celeste, representada por uma vaca, seu animal sagrado, sendo considerada como filha de Ra. A deusa gostava de tomar a forma de um sistro, instrumento de percussão, usado para afastar os maus espíritos. A forma desse instrumento musical foi usada pelos arquitetos para a construção do templo da deusa em Denderah. Protetora das mulheres, deusa do amor, da alegria de viver, soberana da dança, quando os gregos chegaram ao Egito associaram a deusa à sua Afrodite. 

Através do seu animal sagrado, ela saciava a fome da humanidade. Era Hathor conhecida também como a Senhora do Sicomoro; esta árvore, sagrada, muito encontrada nas zonas que faziam a transição dos terrenos férteis para os desérticos, servia de proteção para as almas dos mortos que, tomando a forma de pássaros, vinham se acomodar nos seus galhos. A sombra de sua copa e o macio de sua ramagem eram garantia de acolhimento seguro no Outro Lado. Hathor pontificava no santuário de Denderah em companhia de seu marido, o grande Hórus, que aqui lhe dava precedência; junto deles estava sempre, a agitar o sistro, o filho de ambos, Ehi, na forma de uma criança.  


SANTUÁRIO   DE   DENDERAH

Produzido pela divisão dos céus em doze partes de 30º cada uma, e cada uma delas entregue a uma divindade, o zodíaco de Denderah tem seu ponto de partida no signo de Rá, ou melhor, de Amon-Rá, que se estende de 16 de julho a 15 de agosto no nosso calendário, sendo seu regente o Sol (jupiterizado). Características mais ou menos semelhantes às do signo de Leão do nosso zodíaco, com algumas contribuições arianas e jupiterianas. Presentes sempre ideias de determinação, criatividade, habilidade para a superação de dificuldades, renascimento, combatividade, além de atitudes impositivas e dificuldades para lidar com rejeições.

A deusa que governa o segundo signo, correspondente ao de Virgem (16/8 a 15/9), é Neith, divindade que os gregos associavam
NEITH
a Palas Athena. Neith era protetora da cidade de Sais, no delta do Nilo, com o seu emblema de duas flechas cruzadas sobre a pele de um animal, sendo por isso considerada uma divindade ligada à caça. A arte de tecer bem como as atividades domésticas estavam sob a sua tutela. Era também divindade protetora dos mortos que chegavam ao Outro Mundo, recebendo-os com pão e água. Neith pontificava num famoso templo em Sais (capital do Egito sob o reinado de Psamético I, fundador da XXVI dinastia, em meados do séc. VII aC) junto do qual havia uma escola de medicina, Casa da Vida, que recebia alunos de várias partes do mundo antigo. 



MAAT

A deusa que governava o signo que corresponde ao de Libra (16/9 a 15/10) no nosso zodíaco era Maat, deusa da justiça e da verdade. Seu símbolo eram as penas do avestruz (absolutamente iguais), emblema da equidade. Era filha querida e confidente de Rá, mulher de Thot. Fazia parte do cortejo de Osíris e atuava na psicostasia, juntamente com Osíris, Thot, Anúbis, Amamet, o monstro devorador, e os quarenta e dois juízes. Tolerância, convivência harmoniosa e aconselhamento fazem parte da vida dos nascidos sob a proteção de Maat. Sempre presentes, porém,  riscos de indecisão e de insegurança. 


OSÍRIS
Osiris governava o signo que corresponde ao de Escorpião (16/10 a 15/11) no nosso zodíaco. Foi em vida o primeiro faraó do Egito. Ao levar a sua proposta político-religiosa para o mundo, tendo deixado o poder interinamente nas mãos de sua mulher, Ísis, foi assassinado por seu irmão, o monstruoso Seth. Despedaçado, seu corpo foi depois recomposto pelas artes de sua mulher e do deus Toth. Deixando então o mundo dos vivos, Osíris desceu aos Infernos para se tornar o deus da ressurreição dos mortos, no que lembra muito os deuses Shiva e Dioniso. Os do signo são de temperamento forte, extremistas muitas vezes, principalmente quando contrariados. Sensualidade e persistência são comuns, juntamente com atitudes destrutivas.   
   
Hathor dominava o signo (16/11 a 15/12) que corresponde no nosso zodíaco a Sagitário. Além do que já se disse sobre a deusa, acrescente-se que ela, na astrologia, atuava nos domínios da arte, do conhecimento superior e das viagens. As pessoas protegidas por ela são exuberantes, mas podem se perder devido a exageros e à sua excessiva boa-fé e otimismo. 

ANUBIS
Anúbis, o guardião dos mortos, dominava o signo correspondente a Capricórnio no nosso zodíaco, entre 16/12 a 15/1. Os gregos o identificavam como Hermes psicopompo. Era representado sob a forma de um chacal negro; sua cidade era chamada pelos gregos de Cynopolis. Tinha a ver com os embalsamamentos e com as preces funerárias. Sua atividade dependia muito da balança da verdade. Pessoas tocadas pelo deus são perseverantes, buscam a realização sob o ponto de vista material, no geral, porém, demorada. Gostam muitas vezes de assumir o papel de juízes, tornando-se muitas vezes implacáveis neste papel.


BASTET
A deusa-gata Bastet dominava o signo correspondente a Aquário no nosso zodíaco, entre 16/1 a 15/2. Personificava o calor fecundante do Sol, era considerada como esposa e irmã de Rá. Suas festas envolviam multidões, sempre com muita música e dança, nelas se consumindo muito vinho. Era protetora natural das grandes causas. As pessoas tocadas por ela costumam apresentar um comportamento às vezes inexplicável, como o do felino símbolo do signo.

O signo que corresponde ao de Peixes no nosso zodíaco é dominado pela deusa Taueret (16/2 a 15/3), deusa da fertilidade,
TAUERET
também chamada de Thueris, A Grande, muito popular, relacionada com a maternidade e o aleitamento. Era representada por uma mulher-hipopótamo, com seios pendentes, ereta, apoiada sobre as patas traseiras, e tendo diante dela o hieróglifo da proteção. Adorada especialmente em Tebas, pelas classes média e baixa da sociedade, que costumavam dar seu nome às crianças do sexo feminino e ornar as suas casas com imagens da deusa. Além de muito protetora, compassiva, generosa; algumas pessoas tocadas por ela podiam apresentar dons mediúnicos. Às vezes, Thueris, a par de suas tendências protetoras, mostrava-se, quando não honrada devidamente, muito irritada, até vingativa, afetando desta maneira aqueles atingidos por seus raios.



SEKHMET
Sekhmet era a deusa da guerra. Seu céu correspondia ao do signo de Áries (16/3 a 15/4) no nosso zodíaco. Representada normalmente por uma leoa ou por uma mulher com a cabeça do animal. Seu nome significa A Poderosa. Lançou-se furiosamente contra todos aqueles que se opuseram a Rá, a ponto deste, temendo um extermínio catastrófico, ter que intervir, pedindo-lhe mais calma. Para contê-la, por sugestão do próprio Rá, os humanos instituíram uma festa, sendo a ela oferecidos milhares de tonéis de cerveja, à qual se adicionava suco de romã para torná-la avermelhada, lembrando o sangue, sorvida a bebida com muita avidez pela deusa. A seu culto se ligavam os especialistas em todos os tipos de fraturas.As pessoas tocadas pela deusa são naturalmente enérgicas, autoritárias e intolerantes.

PTAH
Cabia a Ptah o céu de Touro no nosso zodíaco (16/4 a 15/5). Protetor dos artesãos e dos artistas, os gregos o identificaram como o seu Hefesto. Inventor das artes, metalúrgico, grande construtor, Ptah era honrado num dos mais antigos templos egípcios, em Mênfis. Algumas vezes era representado por um anão de pernas tortas, como agente transformador dos recursos naturais. Perseverante, paciente, Ptah protegia os que buscavam segurança e conforto sob o ponto de vista material. 


TOTH
Toth era o dono do signo que correspondia ao de Gêmeos no nosso zodíaco (16/5 a 15/6). Escriba divino, deus da inteligência, como o Hermes grego, era conhecido como deus Djeuthi (Djeuth era o nome do baixo-Egito), divindade lunar, inventor dos hieróglifos. Sua cidade era Hermópolis Parva, depois transferida para o alto-Egito com o nome de Hermópolis Magna. Era comumente representado por um ibis ou às vezes na forma de um macaco. Patrono da história, anunciava o nome dos futuros faraós. Protegia os que viviam da atividade mental e aqueles que se valiam das mãos para a execução de trabalhos. 

ÍSIS

A mais importante das divindades egípcias, Isis, era dona do espaço celeste que correspondia ao nosso signo de Câncer. Identificada pelos gregos ora como Hera, como Deméter, como Selene e até como Afrodite. Seu culto e sua religião de mistério (morte e renascimento) não cessou de se desenvolver ao longo da história do Egito. Grande mãe, maga, protetora, sua adoração estendeu-se até os primeiros séculos do cristianismo. Os tocados por ela são tranquilos, gostam do conforto familiar, possuindo naturalmente o instinto maternal.