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quarta-feira, 13 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (4)

          
ATLAS ( ARTUS QUELLINUS, SÉC.XVII )
Embora a história do titã Atlas seja muitas vezes, sob o ponto de vista astrológico, aproximada de temas taurinos em virtude de características de sua personalidade e destino (suportar a abóbada celeste nos ombros para que ela não desabe sobre a Terra), seu mito tem também, e talvez mais, estreita relação com o universo capricorniano. Da sua relação com Touro ficou, por exemplo, na anatomia humana, o nome da primeira vértebra cervical, atlas, que se articula com a região occipital do crânio e o sustenta. Em português, cervix (nuca, em latim) é toutiço, cachaço, nuca, pescoço. Cervicartrose é o nome de problemas (artrose) nessa região do corpo.   

A relação que encontro entre Atlas e Capricórnio está no seguinte fato: toda vez que aparece um mito que narra uma história de petrificação, de coagulação, sob o ponto de vista alquímico, é possível a meu ver evocar tal relação. É o caso de Atlas, filho de Jápeto e da oceânida Clímene, irmão de Prometeu, Epimeteu e Menécio, sobrinho de Cronos,  este figura máxima da segunda dinastia da mitologia grega. Lembro, a propósito, que atlante, na arquitetura grega, era uma figura ou a metade de uma figura humana, frequentemente masculina, que substitui ou decora um membro, isto é, cada uma das partes de uma obra ou de um todo arquitetônico.


HERÓDOTO
Quando de seu retorno do ocidente, aonde fora matar a Medusa, Perseu petrificou Atlas, mostrando-lhe a cabeça do monstro, a fim de puni-lo não só em virtude dos crimes por ele cometidos no seu passado (a luta contra os olímpicos, ou seja, a matéria que se atreveu a subjugar o espírito), como por sua atitude nada hospitaleira com relação a Hércules quando da execução por parte deste filho de Zeus de seu terceiro trabalho.   


GASTON   BACHELARD
Gaston Bachelard nos falou de um “complexo de Atlas” que, em termos astrológicos, é em última instância uma luta pela verticalidade. Bachelard associa a vértebra atlas ao término do movimento de todas as demais vértebras em direção da verticalidade, sendo o lugar dessa vértebra o ponto onde “o ser se revolta contra a sua sorte.” O complexo de Atlas é definido normalmente em termos psicológicos como uma tendência instintiva que alguém apresenta no sentido de acumular responsabilidades e tensões  nessa região do corpo, nos ombros, traduzida essa tendência, muitas vezes, pela expressão “carregar o mundo nas costas.” As tensões assim acumuladas costumam atingir o tônus do trapézio, o principal músculo que sustenta a cabeça. Daí, dores no pescoço, na nuca, na cabeça, bruxismo, tensão generalizada, enfim. Tudo isso provoca muitas vezes o esgotamento dos estoques de neurotransmissores cerebrais ocasionando estados, no geral, altamente depressivos.

Muitos capricornianos, como se sabe, costumam aderir a este complexo de Atlas sem perceber como isto acontece, vivenciando-o através de crises de responsabilidade, remorso, culpa, renúncia, fatalidade, destino etc. Não nos esqueçamos que Saturno, o planeta de Capricórnio, tanto é previsão, precaução, responsabilidade, seriedade, maturidade de espírito, vontade e reflexão como, além das características negativas acima mencionadas, é o astro que através do intelecto regula a utilização da memória, das funções inibidoras e que provoca o retardamento dos reflexos. Gaston Bachelard, lembro, pôs em evidência com muita propriedade a simbólica da petrificação, nela compreendida as imagens do rochedo, da montanha, do frio, do gelo, da neve e da própria terra.  

Todo capricorniano parece saber que a ameaça da petrificação sempre o ronda. É por isso que ele sabe que tem que se movimentar, se mexer, trabalhar, avançar. Parar, para muitos (a maioria ?) capricornianos, é mergulhar na depressão petrificadora. O tema alquímico da coagulatio é muito importante no universo capricorniano. Esta talvez a razão maior pela qual os do signo tenham a reputação de possuir “tão pouca imaginação”, ao contrário dos nativos de Câncer, o signo que a eles se opõe.

Neste sentido é que podemos dizer que o capricorniano superior se liga muito à imagem do rochedo e ao que dela podemos depreender simbolicamente. Com efeito, por causa de sua dureza, de sua fixidez, da sua permanência e da majestade de suas formas e, muitas vezes, das suas dimensões enormes, a pedra, o rochedo, a montanha, no caso, sempre impressionou os homens desde tempos pré-históricos. Por essa razão, em muitas culturas os rochedos e as montanhas foram transformados em objeto de culto, cujo vestígio pode ser encontrado nos dólmens, menires e pedras sagradas que se espalham por toda a terra. 


DÓLMENS - STONHENGE


FADAS
(M. TARRANT, 1888 - 1959)
Os dólmens são pedras enormes, dispostas verticalmente, agrupadas duas a duas (bilítico), três a três (trilítico) e assim por diante. Segundo alguns pesquisadores (embora haja muitas dúvidas), indicavam necrópoles. Muitos dólmens, ao evocar a forma de casas de pedra, eram conhecidos como residência de fadas e de korrigans (do bretão, korig, anão, pequeno ser), que dançavam nas noites de luar à sua volta. Sob o ponto de vista capricorniano, todavia, o que nos interessa são os menires, dos quais me ocupo a seguir. 


OS   KORRIGANS  -  CARTÃO   POSTAL
  
MENIRES DE CARNAC
A relação dos menires com Capricórnio se evidencia e reforça se soubermos que na origem o menir (men, pedra; hir, longa, na língua bretã) é um monumento megalítico, uma enorme pedra alongada, de altura variável (até cerca de 11 metros), fixada verticalmente no solo, juntamente com uma pedra deitada, sempre considerada como símbolo do renascimento do Sol ou do solstício de inverno. O menir representa também o mais antigo símbolo do andrógino (a junção
LINGAM  E  YONE
das duas pedras brutas), composto pelo princípio viril, a força ativa de um lado, e a matéria, princípio feminino, passivo, e gerador, de outro lado. Na Índia, são, respectivamente, Purusha (espírito) e Prakriti (matéria), ou o lingam e a yone, uma pedra colocada verticalmente dentro de um círculo na terra. Símbolos como este encontram-se em toda as primitivas civilizações.

Uma antiga tradição, atestada ainda no séc. XIX, na França e na Irlanda, ligava os menires a cultos de fecundidade e ao casamento de modo especial. Para obter um esposo, muitas jovens depositavam oferendas junto dessas pedras, ornando-as de guirlandas de flores. Para engravidar, muitas esposas, em razão da sua forma fálica, se esfregavam nessas pedras. Com o avanço do cristianismo no mundo celta, essas pedras começaram a ser chamadas de pedras do Diabo, lançando-se sobre elas toda espécie de descrédito no sentido de destruir o antigo culto que lhes era prestado. 

VIA   LÁCTEA
O esoterismo ismaelita usa o rochedo como um símbolo da condensação, na terra, da parte mais densa da matéria “decaída”, quando da rebelião dos anjos. Na antiguidade grega, os pitagóricos e platônicos antes e os neopitagóricos e neoplatônicos depois, estes últimos já no mundo greco-romano alexandrino, discutiram esta questão através das chamadas "portas do céu". Afirmavam eles, de um modo geral, que no zodíaco há duas portas, situadas nos dois pontos opostos em que a Via Láctea corta o círculo zodiacal e que limitam o curso do Sol. Um ponto está no trópico do verão, no signo de Câncer, sendo chamado de a “porta dos homens”, pela qual se dá a queda das almas na Terra. Outro ponto está no trópico hibernal, no signo de Capricórnio, ao qual dão o nome de “porta dos deuses”, pelo qual as almas fazem o seu retorno ao éter divino. 


HOMERO
Lembremos que Homero procurou simbolizar tudo isto com a alegoria da caverna de Ítaca ou das Ninfas, ideia retomada por Porfírio, que chamou o lugar de Espelho do Mundo, lugar de entrada das almas na Terra. Seduzidas pela enganadora atração da matéria, fala-nos Porfírio, as almas que para cá vieram perderam as suas asas. Chegando à referida caverna (signo de Câncer), nela encontram urnas e cântaros de pedra (a sema, prisão, dos órficos, na expressão soma sema, corpo, prisão da alma), uma metáfora dos corpos terrestres que deverão animar. Na sua caminhada, as almas, entre os signos de Câncer e de Leão, bebem da “taça de Dioniso”, também chamada de “taça do esquecimento” e de embriaguez pelo mundo sensível, ideias que muito nos lembram o conceito de Maya, dos hinduístas. 

Como resistência e obstinação, o rochedo é uma síntese das virtudes dos capricornianos superiores, muitas vezes inconsciente. O rochedo desafia qualquer tentativa de penetração, de apagamento do que foi gravado. É por esses motivos certamente que muitos escultores têm um modo de ser tão saturnizado, como Rodin, por
GOETHE NO CAMPO SAGRADO
( J. H. W. TISCHBEIN, 1751 - 1829 )
exemplo, escultores que como ele têm a paixão pelo material mais resistente, mais duro, granitos, mármores ou madeiras, pois só esse material é digno de seu desafio titânico. Lembro que foi um Virgo saturnizado, Goethe, que associou o granito à educação de uma vontade, não para torná-la inabalável, mas para fazê-la resistir aos golpes e às injúrias do destino. É evidente que ao nos envolvermos com estas questões sempre podemos ficar a um passo da pobreza despojada, do espaço contraído, reduzido a uma cela individual, ficarmos prisioneiros do frio, do gelo e da morte, perigos que sempre ameaçam os capricornianos.



CÍCERO
Há uma frase de Bachelard que, acredito, nos ajuda, e muito, a aumentar a nossa possibilidade de compreensão do signo de que tratamos. Num certo trecho de sua obra sobre o elemento terra ele afirma que o rochedo é um grande moralista. Isto é, o rochedo é um ser moral. A filosofia costuma definir a moral (palavra criada pelo capricorniano Cícero para traduzir do grego a palavra ethikos) como aquilo que concerne aos costumes, às regras de conduta admitidas numa época por uma determinada sociedade. Muitos dos melhores trabalhos sobre a Moral fazem parte do mundo capricorniano. 

Costumes, conduta, convivência, regras, limites, a Moral é certamente um saber capricorniano. Concretamente, a Moral deu origem no Direito à chamada “pessoa moral”, que tanto tem a ver astrologicamente com Libra como com Capricórnio. Enquanto a “pessoa física” está relacionada com o corpo humano como manifestação, uma individualidade biológica, uma função psicológica pela qual um indivíduo se considerada um eu, a “pessoa moral” se refere a esse indivíduo na medida em que ele possui qualidades que lhe permitem participar da sociedade segundo uma noção de valores, que é dada por símbolos como a balança e a régua. A primeira é o instrumento da avaliação, da pesagem, do julgamento, sendo a outra, por excelência, o instrumento da construção. É a régua que nos permite estabelecer o plano diretor dos edifícios, inclusive o social, e verificar quanto à exatidão da sua construção. 

Lembremos que a Moral tem por base aquilo que o tempo consagrou, o chamado direito consuetudinário (consuetudinarius, em latim, é o habitual, o costumeiro, o usual), o direito fundado nos costumes, na prática, e não nas leis escritas. Não foi por acaso que
CARTAS  PERSAS
Montesquieu (Charles-Louis de Secondat), um capricorniano-aquariano, apresentou na Academia de Ciências de Bordeaux trabalhos sobre Anatomia (glândulas renais), sobre Física (o eco, a transparência dos corpos e a lei da gravidade). Sua grande contribuição, entretanto, está no campo da Moral, nos trabalhos que escreveu sobre os costumes, os hábitos, a política e a religião, publicados, dentre outros, com títulos como O Espírito das Leis e As Cartas Persas.

Quando alguém se comporta moralmente, isto significa que este alguém, antes de pensarmos em leis, tem uma conduta que observa as regras admitidas numa determinada época, numa sociedade determinada. Um fato moral é desejável para uma determinada sociedade quando ele se situa no plano médio do conjunto de seus valores, permitindo a realização de uma vida social mais justa, mais humana. 

De um modo geral, a literatura produzida por capricornianos, inclusive a filosófica, privilegia as memórias, os diários, as máximas, a historiografia e a metafísica (La Rochefoucauld, Michelet, Saint-Simon, Maine de Biran etc.). Sempre uma ideia de
MOLIÈRE
( P. MIGNARD, CA.1658 )
ir ao fundo das coisas, às bases, para verificar como tudo se organiza a partir delas. Lembro que foi de um tipo capricorniano mercurizado como Molière que, no séc. XVII, vieram as melhores críticas aos costumes e à vida moral do ser humano de todos os tempos. Kepler, nome importante tanto na astronomia como na astrologia, é outro exemplo; ele nos deu, com as suas leis empíricas, uma descrição exata e coerente dos corpos celestes. Nas artes plásticas, a figura solitária e amargurada de Cézanne é outro exemplo, sempre nos atraindo pelo conjunto de sua obra, na qual se destaca a sua grande obsessão pictórica, o monte Saint Victoire, em Aix-en-Provence, tema de cerca de vinte telas. Se nos voltarmos para exemplos nossos, obrigatória a referência a dois escritores, um poeta, João Cabral de Melo Neto (A Educação pela Pedra), e um romancista, Graciliano Ramos (Vidas Secas), que fazem parte do mundo de Capricórnio. 

AS   GÓRGONAS
( 1902 , G.  KLIMT )
O motivo da petrificação, tão caro a Capricórnio, encontra uma de suas melhores ilustrações na história do herói Perseu. Este herói, como se sabe, destacou-se por ter vencido, com o auxílio dos deuses, um dos maiores monstros da mitologia grega, a Medusa, uma das três Górgonas (As Apavorantes), filhas dos monstros marinhos Forcis e Cetus. Ésteno e Euríale eram as outras duas irmãs da Medusa. Das três, a única realmente perigosa era está última; seu nome vem de um radical indo-europeu, med, que traduz uma ideia de medida, moderação. A Medusa, bem como suas irmãs, tinham a cabeça coberta de serpentes, presas de javali como dentes, mãos de bronze e asas de ouro. Quem trocasse olhares com a Medusa ficaria petrificado. Assim, ao vencê-la, Perseu venceu a petrificação. O tema da petrificação, alquimicamente, se liga à operação chamada coagulatio, cujo simbolismo pertence ao elemento terra. O símbolo maior da coagulatio é, como se sabe, o chumbo, metal de Saturno, de Capricórnio, pois, associado a ideias de depressão, peso, gravidade, limitações mortificantes, vincula-se sempre, psicologicamente, às fortes pressões das particularidades da vida pessoal de alguém.


DÂNAE  ( TICIANO  VECELLIO , 1488 - 1576 )

Astrologicamente, com base naquilo que o mito nos narra, Perseu parece ter, efetivamente, superado, ainda na juventude, a ameaça de coagulação que, na sua vida, o eixo Câncer-Capricórnio (casa IV e meio-do-céu) poderia representar. Um dos problemas deste eixo, é importante salientar,  Perseu já o trazia superado (?) quando nasceu, pois não teve um pai mortal, como era típico na genealogia dos heróis gregos ou não. Era apenas filho de Zeus, pois, antes de concebê-lo, Dânae não conhecera homem algum. O grande problema familiar do nosso herói ficou então centrado diretamente nas suas relações com a mãe e indiretamente com o avô materno. 

Fazendo um breve retrospecto da história, recordemos que um oráculo havia sentenciado que se Dânae tivesse um filho ele destruiria o avô materno, Acrisio. Este, embora tenha tomado todas as providências para evitar o nascimento de um neto, não o conseguira. Zeus, apesar de conhecer a profecia oracular, obviamente, resolveu (os desígnios dos deuses são insondáveis!) ter um filho com a belíssima princesa. Para tanto, penetrou na inexpugnável fortaleza em que o pai a encerrara. Tomando a forma de uma “chuva de ouro”, insinuou-se o Senhor do Olimpo pelas frestas do telhado do edifício, conseguindo chegar ao leito da jovem e, antropomorfizando-se, a fecundou. Dânae, ciente de seu papel nessa epifania (o de que fora escolhida para ser mãe de um ser semi-divino), conseguiu trazer o filho à vida sem que o pai o soubesse. Um dia, porém, Acrisio tomou conhecimento do ocorrido e, embora Dânae tenha tentado convencê-lo da paternidade divina do filho, ele não aceitou a história da filha, mandando  que ela e o menino fossem lançados ao mar, dentro de uma arca. Empurrada pelas correntes marinhas, a arca chegou à ilha de Sérifo, sendo recolhida pelo irmão do seu rei. A mãe e a criança foram levadas para o palácio real, sendo Perseu adotado como filho do rei Polidectes. Vivendo na corte como um príncipe, belíssimo, forte, inteligente, protegia Perseu com muita habilidade a mãe das investidas do rei que sempre desejou tornar Dânae sua concubina.

PERSEU  E  A  CABEÇA  DA  MEDUSA  ( DETALHE )

Certa feita, numa festa de aniversário de Polidectes, os amigos desejaram lhe oferecer um presente real, um cavalo, um soberbo animal como não havia outro no reino. Perseu, contudo, tomando a palavra, prontificou-se a oferecer ao rei algo inusitado, a cabeça da Medusa, monstro horripilante que aterrorizava o país. Todos se espantaram, diante da ousadia do jovem. Polidectes aceita o presente, impondo, porém, uma condição: se Perseu não lhe trouxesse a cabeça do monstro, ele se apossaria de Dânae. Tomando conhecimento do que transcorrera na referida festa, Dânae se desespera, temendo pelo destino de seu filho, ainda muito jovem. Tenta dissuadi-lo de tão perigoso intento, chora, descabela-se, lança-se ao chão, ajoelha-se. O jovem, contudo, embora sofrendo muito, manteve-se firme, deixando a mãe, fazendo-lhe muitas recomendações de cuidado quanto às intenções de Polidectes.   

Como sempre acontece em tais situações, e em se tratando de um filho de Zeus, o candidato a herói é protegido por entidades ou divindades, os chamados “guardiães do limiar”, que o ajudam, de um lado, a vencer possíveis dúvidas ou temores e, de outro, a que seja evitada a hibrys, sempre perigosa, isto é, os descomedimentos, os exageros, o orgulho, características contraditórias, mas muito comuns em heróis semi-divinos. Hermes e Palas Atena acorreram no sentido de auxiliar o jovem. Aconselhado por eles, Perseu se dirigiu primeiramente aos confins do ocidente, indo além das terras dos Cimérios, lugar jamais alcançado pelos raios do Sol, onde viviam as Greias, conhecidas como as Velhas, irmãs mais velhas das Górgonas. Vencendo-as, instruído pelas duas divindades tutelares, Perseu conseguiu delas a informação de como chegar a umas ninfas que tinham em seu poder objetos que muito facilitariam a sua tarefa. 

PÉGASO
Obteve Perseu os referidos objetos sem maiores problemas. Eram eles: um par de sandálias voadoras, um saco (alforje) para guardar a cabeça do monstro e um capacete que tinha a propriedade de tornar invisível quem o usasse, como o do deus Hades. Hermes já lhe havia fornecido uma espada maravilhosa, afiadíssima, e Palas Atena lhe dera o famoso escudo de bronze, tão polido quanto o melhor espelho de cristal. Penetrando na imensa caverna dos monstros pelo ar, calçado com as sandálias voadoras, pairando acima deles, valeu-se do escudo polido para devolver o olhar do
PALAS  ATHENA
monstro, que imediatamente ficou petrificado, do que se aproveitou o jovem para, com um certeiro golpe, decepar a sua cabeça, guardada no alforje que levava. Do pescoço ensanguentado da Medusa nasceram, no ato, dois seres: o cavalo alado Pégaso e o gigante Crisaor, ambos filhos que ela gestava dentro do seu corpo, fruto de relação que mantivera com o deus Poseidon. A cabeça da Medusa, posteriormente, entregue a Palas Atena, foi colocada no seu escudo. 

Com a cabeça da Medusa no alforje, Perseu tomou o caminho o caminho do oriente, chegando à Etiópia. Encontrou o país sob a ameaça de devastação. A rainha Cassiopeia ousara proclamar-se mais bela que as nereidas, mais bela que Hera, afirmavam alguns.
ANDRÔMEDA (G. DORÉ, 1832-1883)
Era preciso punir a rainha por tamanha ousadia. Poseidon enviou um monstro marinho para destruir o país. Diante da iminência do desastre, um oráculo foi consultado. A sentença: o país seria poupado se uma vítima expiatória fosse oferecida ao monstro. Pressionado pela população do reino, Cefeu, o rei, mandou prender a filha, a princesa Andrômeda (a que comanda o homem, a que dá a medida do homem, em grego), num penhasco à beira-mar, para esse fim. É nesse momento que Perseu chega ao país. Viu a cena e ficou profundamente tocado; lágrimas vieram-lhe aos olhos; apaixonou-se pela princesa, que, na sua dignidade calada, além de belíssima, era, sem dúvida, um exemplo inexcedível de piedade filial, pois espontaneamente oferecera-se, sem dramas, para salvar o reino e o país.        

Perseu, a essa altura já muito famoso por ter vencido a Medusa, se propôs a salvar a princesa, fazendo um acordo com Cefeu e Cassiopeia. Salvá-la-ia se ela lhe fosse dada em casamento, o que é aceito. Com as suas armas e sua habilidade, Perseu não teve muito trabalho para liquidar o monstro marinho. Ao se apresentar aos pais da jovem para tomar posse de seu “tesouro”, nosso herói não contava com a intromissão de um irmão de Cefeu, tio da moça, portanto; alegava ele que Andrômeda já lhe fora prometida pelos pais. A luta é encarniçada, mas Perseu a todos venceu, inclusive o exército de Cefeu, que, arrependido, não desejava ver a filha casada com seu irmão.

Perseu e Andrômeda se dirigiram para Sérifo. Toma nosso herói conhecimento que Polidectes expulsara o irmão do reino e que tentara violentar sua mãe. Exibiu ao rei e ao seu grupo a cabeça da Medusa, petrificando a todos. Através do deus Hermes, devolveu os objetos que recebera das ninfas e entregou a cabeça da Medusa à
LARISSA , RUÍNAS 
deusa Palas Atena. Em companhia da mãe e de Andrômeda, não tomou o caminho de sua terra natal, Argos, pois temia o cumprimento do oráculo; dispensou os soldados que o acompanhavam e anonimamente dirigiu-se para Larissa, cidade distante da outra. Como um cidadão comum, inscreveu-se nos agones que se realizavam no ginásio local. Na prova do disco, lançou-o com tal força que a peça, escapando-lhe das mãos, atingiu a cabeça de um espectador que estava na tribuna de honra, matando-o. Era seu avô, que a convite do rei de Larissa, assistia aos jogos. Cumprira-se o oráculo. Identificando-se, Perseu, depois de prestar as honras fúnebres a Acrisio, uma solenidade da qual participaram todos os habitantes da cidade, se dirigiu com Dânae e Andrômeda a Tirinto, onde assumiu o trono, entregando o reino de Argos ao primo Megapentes, mediante uma permuta.


TIRINTO , SÍTIO ARQUEOLÓGICO
Segundo o mito, a história de Perseu terminou aqui; em companhia da mãe, ele e Andrômeda tiveram muitos filhos, vivendo felizes no palácio de Tirinto. Dos filhos que tiveram, sete ao todo, ficaram no mito apenas Electrion (pai de Alcmena, mulher de Anfitrion, mãe de Hércules e de Íficles), Estênelo (rei de Micenas), Helio (filho caçula, que fundou a cidade de Helo, na Lacônia, da qual se tornou herói epônimo) e Gorgófone (a primeira mulher que, no mito, tendo enviuvado, uniu-se em segundo matrimônio, o que era proibido até então).  

Como se pode depreender desta história, o abandono do regaço materno por Perseu é um exemplo típico daquilo que os gregos antigos chamavam de efebia. Na Grécia, em Atenas especialmente, o efebo é o adolescente que, tendo chegado à idade de dezoito anos, tem que passar pela docimasia (etimologicamente, verificar a aptidão, pôr à prova, testar) antes de se inscrever como cidadão nos registros de seu domo. Na polis grega, essa passagem era vivida através do serviço militar que o jovem devia prestar, algo sempre temível diante das inúmeras batalhas que as cidades gregas travavam entre si e, o pior, os conflitos contra invasores externos (a Pérsia, principalmente) e as aventuras colonialistas que os levavam para bem longe da pátria. 

No mito, a efebia se caracterizava por uma exibição de coragem, de destreza, de um ideal viril pelo qual se demonstrasse um pleno domínio das chamadas “artes heroicas”, enfim, numa prova pública a que o jovem candidato a herói deveria se submeter. Matar monstros, vencer malfeitores, gigantes, libertar princesas, apoderar-se de tesouros escondidos, na terra, nas alturas de montanhas inacessíveis, nos mares e nas suas profundezas ou mesmo no mundo infernal, provas que significavam sempre a superação dos limites humanos. A efebia sempre significava o abandono da casa paterna, da vida familiar, ou seja, astrologicamente, a saída do signo de Câncer para o de Leão, da quarta para a quinta casa, decisão que sempre ameaçava o “transgressor” ao fazê-lo viver essa travessia como culpa, remorso. É nesta condição que a figura materna (Dânae), inteiramente e apenas fixada na sua função geradora, tentou se transformar na “mãe devoradora”, voltando-se contra aquele a quem deu à luz (Perseu), impedindo-o de se libertar, sugerindo essa petrificação limitações que podem equivaler à própria morte. 

MEDUSA
É na perspectiva acima que a Medusa pode ser considerada como um dos grandes símbolos da culpa pessoal na medida em que ela revelava através do olhar “devolvido” o que as pessoas que a olhavam eram realmente. Vencer a Medusa é superar as ameaças de paralisação, de imobilismo, de divisão interior na melhor das hipóteses, que a quarta casa pode impor. A Medusa é assim a culpa que petrifica, seja essa culpa objetiva ou não, podendo ser neste segundo caso produto de uma imaginação doentia, lunar, de uma subjetividade patológica, talvez mais nefasta que a da primeira hipótese. Os escritores franceses incluíram a palavra medusa no seu léxico, recebendo-a do grego pela via latina, transformando o nome num verbo, méduser, ao que parece desde o
MEDUSA
séc. XVII, com o sentido de estuporar, siderar, paralisar, estarrecer e, naturalmente, petrificar. Em muitas línguas, a palavra medusa designa também uma mulher muito feia, com ares de bruxa. Na celenterologia, é um pequeno ser marinho de corpo gelatinoso, que lembra um sino ou uma campânula, com tentáculos à sua volta, lado convexo para cima e boca localizada no centro da superfície côncava inferior.    







sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

TOURO (1)

                             
                      


A primeira divindade que os egípcios associaram a uma constelação nos céus foi Osíris, ligando-o à constelação heliacal de Orion. Quando Orion deixou de  desempenhar esta função, tivemos, no mito, a "morte" de Osíris,  que, descendo ao Outro
ESTRELAS  DE  TOURO
Lado, foi governar o mundo dos mortos. O equinócio da primavera foi deslocado então para as estrelas de Touro, por volta de 4.500 aC, assumindo Horus, filho de Osíris, a “titularidade” da nova constelação heliacal, Touro. Chegava-se à era cósmica de Touro, razão pela qual, durante esse período, muitas divindades tomarão a forma taurina em várias civilizações.



APIS
Considerado na Pérsia como um dos primeiros seres criados, associado na antiguidade persa ao deus Mitra e ao deus Apis no Egito, o touro foi sempre um animal usado para representar a fecundidade de forma anárquica, tempestuosa por vezes. Objeto de culto na Índia, era designado o animal pelos termos sânscritos vrisha ou vrishabha, nome pelo qual a Astrologia hindu (Jyotish) designava o signo de Touro.

No primeiro livro dos Vedas, o Rig Veda, Rudra, o Terrível, que muge como um touro bravio, seu símbolo, é a divindade cujo sêmen fertiliza a terra. Violento, ele a fecunda através de
RIG VEDA
tempestades, liberando os seus violentos filhos, os Maruts ou Rudras, que trazem raios e relâmpagos, quando dos aguaceiros que inundam tudo, na primavera. Além de Rudra, o touro é também símbolo de Indra, este considerado como força que traz o calor (é um deus ligado ao quente, como qualidade primitiva, mais solar, portanto), que proporciona o aquecimento ideal do elemento líquido para a necessária manifestação da vida. 

SHIVA   E   NANDI
O touro aparece na Índia ainda associado ao deus Shiva, a terceira pessoa da trimurti védica, sendo Brahma e Vishnu as duas outras pessoas. Shiva representa o aspecto destruidor, transformador, do mundo material. Quando ele vem nessa forma, aparece sempre montado num touro branco chamado Nandi e traz na mão um tridente (trishula), símbolo da dissolução cósmica. Lembremos que o tridente, nessa função de representar a solutio  universal, é, na mitologia grega, do deus Poseidon, deus do elemento líquido, também muitas vezes representado por um touro. 

Possui Shiva inúmeros poderes e sua autoridade está fixada na grande quantidade de epítetos que tem. É representado comumente por uma figura humana, escura, azulada, mergulhada em grande concentração; possui um terceiro olho no meio da testa, um pouco
LINGAM   E   YONE
acima das sobrancelhas, através do qual emite relâmpagos e raios, que tanto lembram onisciência como castigo e punição. Outros símbolos seus são o lingam, uma coluna de pedra, imagem do fogo divino como órgão fálico, colocada dentro de um círculo, também de pedra,
SHIVA  NATARAJA
chamado yone, símbolo do órgão sexual feminino. Por essa razão, Shiva é representado comumente sob a forma andrógina. Com o nome de Shiva Nataraja é o deus da dança, do movimento cósmico, dos átomos. Vem dentro de um círculo de fogo, de onde exerce o seu poder de destruidor dos mundos e de sua renovação.


Vrishabha é o nome do signo de Touro na Astrologia hindu, onde representa o suporte do mundo manifesto. Os touros, tanto na índia como em outras culturas, são cosmóforos, animais que, como a tartaruga, por exemplo, são usados para simbolizar a criação
VRISHABHA
material, o seu sustentáculo. Neste sentido o touro é visto como um centro imóvel que põe em movimento a roda cósmica. No templo de Salomão, entre os judeus, por exemplo, temos os touros com esta mesma função. Doze ao todo, distribuídos em quatro trindades nas quatro faces do edifício, cada uma delas olhando para um ponto cardeal. Nesse entendimento, o templo deve ser um reflexo do mundo divino na terra, uma réplica terrestre dos arquétipos celestes. O touro se solidariza, nessas representações, assim tanto teológica como cosmologicamente. 






Entre os assírios e babilônicos, o touro era representado sob uma forma selênica e solar ao mesmo tempo, uma união da terra e do
TOURO   ALADO
céu. Eram os famosos touros alados, gênios que viviam imediatamente abaixo dos deuses, que desempenhavam uma função protetora dos humanos, defendendo-os contra as potências maléficas. Eram os portadores dos sacrifícios e oferendas aos deuses e deles traziam as dádivas e os dons divinos. Guardavam os templos, representados como touros alados com a cabeça humana. Além desta função, eles também se misturavam com os humanos, participando de seu cotidiano, seguindo-os pelas ruas, acompanhando-os em suas viagens ou quando iam para a guerra, sempre invisíveis, mas presentes.  

Os touros, desde o período neolítico, ou mesmo antes, sempre foram utilizados também para representar as manifestações tempestuosas do céu e, como tal,  emblematizavam as divindades atmosféricas. Considerado sempre um animal lunar, mas às vezes solar, o touro já na antiga Babilônia e no Egito assumia essa ligação. Sin, deus lunar da Mesopotâmia, tinha a forma taurina numa de suas representações. O deus Mitra, divindade iraniana, é idealizado como um jovem herói que corta o pescoço de um touro, cujo sangue dará origem ao mundo vegetal e animal. 


TAUROBOLIUM
Um culto da Ásia Menor, introduzido em Roma no séc. II dC, enriqueceu outro culto anterior, também oriental, já fixado no Lácio, de um rito até então desconhecido, o taurobolium. Era uma iniciação pelo batismo do sangue do animal. Aquele que se submetia a tal iniciação se transformava num renatus in aeternum, ou seja, nascido para uma nova vida para toda a eternidade. O sangue do touro que escorria sobre o iniciado não só lhe transmitia um poder biológico como lhe dava acesso a uma vida espiritual e imortal. 

Entre os fenícios, a base da sua mitologia está centrada no culto dos elementos e dos fenômenos naturais. Todos os seres divinos são antropomorfizados e colocados numa hierarquia rigorosa. El, o grande deus solar, honrado por todos os semitas ocidentais, está no topo do panteão, Ele governa o país de Canaã. É dele que vem a fertilidade da terra. Honrado sob diversas formas, é chamado de O Touro-El.

VACA   SAGRADA
Já a vaca, em virtude do leite e de seus derivados, a manteiga, os cremes e os queijos, é símbolo da abundância e da fecundidade. Daí o caráter sagrado, feminino, que adquire. Particularmente honrada na Índia, a vaca é uma representação celeste viva. Toda mulher, na índia, das camadas mais baixas da população às mais elevadas, que quer se tornar mãe, deve se sentar sobre a pele do animal. Os hindus como os persas utilizavam a urina de vaca em cerimônias de purificação e seus excrementos tinham várias aplicações, como, por exemplo, servir, depois de secos, misturados ao capim, como carvão ou placas para a construção de paredes ou, ainda, ao natural, como proteção contra maus espíritos. 

O touro não é apenas um símbolo animal dominante, mas possui também um significado mais profundo enquanto animal do
ZARATUSTRA
sacrifício. No ritual e na iconografia tem representado ora o Sol, ora Lua, a terra ou o céu, a chuva ou o calor, a fecundidade feminina ou o ardor masculino, a matriarca e o patriarca. Como símbolo da morte, era uma figura central no mitraísmo, um culto persa anterior a Zaratustra, assumido e difundido por todo o império romano, como um rival do cristianismo.  

TIRTHANKARA
Na arte rupestre primitiva, o touro era secundado pelo cavalo como a imagem mais frequentemente pintada da energia vital. Aparece o touro em todos os continentes como símbolo do poder divino. Na Índia, o primeiro dos tirthankaras, Mahavira, da seita jainista, era representado por um touro dourado. Tirthankara, como sabemos, em sânscrito, quer dizer aquele que fez a travessia (do rio), aquele que, no Hinduísmo, se desligou, atingiu moksha, um liberto em vida.

Desde a pré-história, os atributos físicos do touro estão subjacentes ao seu simbolismo. Os seus chifres estão ligados à Lua crescente, a sua corpulência absoluta sugere um suporte para o mundo material, tanto na tradição védica como islâmica. O seu sêmen prolífico, nessa tradição, é armazenado pela Lua e sua energia mugidora característica e o balanço dos seus chifres está muito ligado a trovões e terremotos, sobretudo em Creta. 


PRINCESA   EUROPA  ( REMBRANDT )

Os gregos se apossaram simbolicamente do animal para explicar o nascimento da civilização cretense.  A história começa quando Zeus, sob a forma de um maravilhoso  touro branco raptou a princesa Europa, levando-a, pelo mar, da Fenícia para ilha que futuramente tomaria o nome de Creta. Lá, perto de Gortina, numa praia cheia de plátanos, adquirindo uma forma humana, fez da lindíssima princesa a sua mulher. Dessa relação nasceram três filhos, Minos, Radamanto e Sárpedon. Mais tarde, Zeus fez com que Europa desposasse Asterion, rei da ilha, que adotou os filhos de Europa. Para que o acontecimento fosse lembrado para sempre Zeus colocou a sua forma taurina nos céus, logo depois da constelação do carneiro. 





A civilização que se desenvolveu na ilha é tipicamente um produto da era de Touro. Creta, sempre, desde as suas origens, foi uma ginecocracia, um poder feminino, apesar de governada por reis. No mito, este rei era Minos, nome que, segundo parece, é mais um título dinástico, como césar, czar, do que um nome próprio. A posição da ilha, equidistante de três continentes, favoreceu o nascimento de uma civilização poderosa e original, que floresceu na era de Touro, mais ou menos entre 4.000 a 2.000 aC, governada por uma talassocracia. Deu-se o nome de minoana a essa civilização, que não possuía templos, mas cujas cerimônias religiosas eram celebradas ao ar livre, nas florestas e nas montanhas, por sacerdotisas.


CNOSSOS
A história da brilhante civilização minoana tem por centro, além de outras edificações, o palácio real, chamado de O Labirinto. No ano de 1.100 aC, Creta foi integrada definitivamente à Grécia continental, depois das invasões aqueias e dóricas, perdendo a sua condição de nação independente. Muito contribuiu também para a decadência cretense alguns abalos sísmicos que se verificaram ao longo do período, dois deles devastadores, um em 1.700 e outro em 1.500 aC. 

A Creta minoana tinha como capital Cnossos e era famosa pela sua cerâmica, pelos seus olivais, pelos seus campos de cereais e vinhedos. Mantinha Creta contactos comerciais com todo o Mediterrâneo oriental, Egito e Oriente-Médio. A arquitetura das suas principais cidades, Cnossos, Phaestos, Mália e Zakros era
LABRYS
excepcional, com serviços públicos eficientes e obras de arte de refinado gosto. Esculturas e pinturas murais distribuíam-se ao longo das vias públicas. As pinturas, de linhas puras, evocavam um culto enigmático marcado pelas figuras de um duplo machado cruzado (labrys) e de chifres de touro, além de muitas cenas de tauromaquia ritual e de acrobacias praticadas em corridas de touro. As sacerdotisas figuram também nessa decoração, muito maquiadas, de peito nu, algumas, e elegantemente vestidas.

Miticamente, após a morte de Asterion, que se casara com Europa, reinou na ilha Minos, o primogênito de Europa e de Zeus. Os outros dois irmãos, contudo, resolveram disputar o trono. Minos
MINOTAURO
pediu um sinal aos deuses no sentido de que eles o confirmassem como único soberano da ilha. Poseidon  enviou, pelo mar um sinal divino, na forma de um maravilhoso touro, com a condição de que o animal deveria em seguida ser sacrificado. Minos, já consagrado como indiscutível soberano, desejou todavia conservar o extraordinário animal para utilizá-lo como reprodutor, de modo a aumentar ainda mais o seu já imenso rebanho. 

Poseidon, irritadíssimo, fez com que Pasífae, mulher de Minos, a rainha de Creta, viesse a sentir pelo animal uma incestuosa paixão. Enlouquecida por um furor erótico incontrolável, ela pediu a Dédalo, o famoso inventor grego, então exilado na ilha, que resolvesse o seu problema. Dédalo criou um simulacro perfeito de novilha, no qual a rainha entrou, consumando assim o seu tresloucado intento sexual. Dessa união, nasceu um monstro, o Minotauro. Envergonhados, os soberanos decidiram esconder o monstro.  Para esse fim, chamaram novamente Dédalo, que construiu um imenso palácio em Cnossos, capital da ilha. Deram a esse palácio o nome de Labirinto; com um enorme emaranhado de quartos, salas subterrâneas, corredores, ninguém, a não ser o seu construtor, poderia dele sair se nele entrasse,  Minos mandou então que o monstro, que se alimentava de carne humana, nele fosse encerrado, nos seus subterrâneos mais profundos. 

PASÍFAE  E  MINOTAURO
A ira divina, porém, não ficou restrita a esse triste episódio. Depois de ter mantido relações com Pasífae, o touro divino foi enlouquecido por Poseidon; livrando-se do cercado em que o haviam colocado, pôs-se o animal a destruir todas as plantações da ilha, enchendo de terror os seus habitantes. O segundo trabalho de Hércules (veja-o neste blog) será exatamente o de dominar o enlouquecido animal e levá-lo para Euristeu, rei de Micenas, que, conforme sentença oracular, determinava os trabalhos que o herói deveria realizar para se purificar. 


PINTURA  EM  CNOSSOS
Os gregos atenienses, à época destes acontecimentos, haviam sido submetidos pelos cretenses, a eles ficando obrigados a pagar um pesado tributo por meio do qual o alimento do Minotauro era obtido: deviam enviar anualmente à ilha jovens atenienses para saciar a fome do monstro. Assumindo o trono de Atenas, Teseu, filho de Egeu, resolveu dar um basta a tão horrível submissão. Dirigiu-se a Creta e declarou que estava disposto a enfrentar o monstro, uma prova a que Minos submetia todos os que pretendessem  libertar Atenas do jugo cretense. 


Auxiliado pela princesa Ariadne, que por ele se apaixonou à primeira vista, Teseu dela recebeu, sem que ninguém soubesse, o famoso fio com o qual poderia sair do Labirinto se conseguisse matar o Monstro. O auxílio de Ariadne estava porém condicionado: Teseu deveria, se vencedor, levá-la consigo e com ela se casar em Atenas. De início, as coisas correram de acordo com o combinado. Morto o monstro, Teseu e Ariadne embarcam juntos com destino ao Pireu, porto de Atenas. No meio do caminho fizeram uma parada na ilha de Naxos, onde passaram a noite. Pela manhã, Ariadne procurou Teseu. Ao longe, bem distante da praia, o barco do herói 
ARIADNE   E   DIONISO  ( TINTORETTO )
ateniense era quase um ponto invisível no horizonte. Abandonada e triste, a princesa foi encontrada na ilha pelo deus Dioniso, que voltava de seu périplo à Ásia aonde fora propagar o seu culto. Uniram-se e dessa união nasceram quatro filhos. Como presente de núpcias, o deus lhe deu um diadema, depois transformado em constelação (vide, neste blog, no item constelações boreais, Corona Borealis). 

Quanto aos reis de Creta, a sua história, devidamente interpretada, é uma grande ilustração do que podemos considerar como a vida de alguém pode ser tomada pela cegueira da paixão incontida, de ambos, no caso. De um lado, o desejo do lucro por parte de Minos, que, ao invés de cumprir o que Poseidon determinara, sacrificou no lugar do divino touro um animal  de terceira categoria. Ou seja, o desejo do lucro acima do dever religioso. Com relação a Pasífae, temos o pecado da sensualidade extrema. O fruto dessas paixões é o Minotauro, que precisa ser escondido nos subterrâneos do Labirinto.


ARIADNE   E   TESEU  ( NICOLO  BAMBINI )

O tema do Minotauro é nitidamente taurino sob o ponto de vista astrológico enquanto nele temos ilustrações negativas: uma alegoria do desejo injusto, a submissão à pressão dos sentidos, as concessões mentirosas, os subterfúgios para a obtenção de posses materiais. Psicanaliticamente, o Minotauro é a expressão do recalque, do que não pode ser exibido à luz do dia (admitido pela consciência) e que, por isso, deve ser escondido na escuridão do Labirinto (subconsciente). O recalque, lembremos, é um mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ele ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. 

Dessa história sai também a palavra labirinto (de labrys, o duplo machado, um dos símbolos de Creta, ao lado dos chifres do touro), que pode tomar vários sentidos. A palavra, numa leitura religiosa, serviria para alegorizar o mundo como um labirinto e a queda, a perdição do espírito no plano da matéria, a sua dispersão e sua perplexidade na vida fenomênica. A redenção só seria possível se encontrado um meio de sair dele, o fio de Ariadne. Ariadne e Teseu são também, numa outra leitura, figuras arquetípicas do matriarcado e do patriarcado, respectivamente, que poderiam ser conciliadas, mas que, fixadas nas suas prerrogativas, não sabem ou não querem fazê-lo.

O labirinto pode ser considerado ainda como uma ilustração do mundo do erro, de uma vida vegetativa. Quando nascemos, entramos nele, na escuridão, ficando presos à tirania dos sentidos. Voltar à luz é muito difícil. Em muitas tradições, a
LABIRINTO   DE   CHARTRES
entrada no labirinto lembra também a viagem noturna do Sol. Representa, como tal, o processo mental do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Na Catedral de Chartres e em muitas outras encontramos labirintos esculpidos para simbolizar a vida como peregrinação e as suas dificuldades. Os labirintos eram chamados, nas catedrais, de “caminho de Jerusalém”, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. A arte barroca e rococó, em muitos parques de castelos, públicos ou privados, principalmente na França, usaram a imagem do labirinto para construir, com vegetação alta e espessa, aquilo a que chamaram de dédalos, com o objetivo de divertir os seus visitantes. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.