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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

INFORMAÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO ? II


SARTRE
Se o homem não é, mas se faz e se, em se fazendo, assume a responsabilidade por toda a espécie, se não há moral ou valores dados a priori, mas se, em cada caso, precisamos resolver sós, sem pontos de apoio, sem guias e, no entanto, para todos, como haveríamos de não sentir ansiedade quando temos de agir? Cada um de nossos atos põe em jogo o sentido do mundo e o lugar do homem no universo; através de cada um destes atos, mesmo contra a nossa vontade, constituímos uma escala universal de valores, e ainda se desejaria que não fôssemos possuídos de medo em face de tamanha responsabilidade?  (J.P. Sartre – Action)

MERLEAU-PONTI
O mundo não é o que penso, mas o que vivo, estou aberto ao mundo, comunico-me com ele de modo indiscutível, mas não o possuo, ele é inesgotável... Não temos que perguntar se percebemos verdadeiramente o mundo, mas dizer, ao contrário: o mundo é aquilo que percebemos. No geral, não há que se perguntar se nossas evidências são verdades, ou se, por um vício de nosso espírito, o que é evidente para nós não seria ilusório com relação a uma verdade em si.  (M. Merleau-Ponty – Fenomenologia da Percepção – Prólogo)

Eu próprio me escolho, não no meu ser, mas na minha maneira de ser. (J.P. Sartre – O Ser e o Nada) 

Entre os antigos indianos hinduístas cada ramo do saber estava ligado a um modo de ser, a uma arte especializada, a uma forma de vida. O saber não era recolhido só dos livros, mas devia ser sobretudo obtido através de palestras, reuniões, debates e conversas, a melhor maneira de se abordar as relações entre espiritualidade e vida quotidiana, tendo-se em vista que o que se procurava, além de um desenvolvimento pessoal, era a promoção do desenvolvimento da sociedade como um todo. Assim, o estudo de todas as disciplinas, Gramática, Matemática, História, Geografia, Música etc., sempre procurou se voltar também para um aspecto filosófico-religioso que ia além do pessoal em direção do coletivo. 

RAMAKRISHNA
Este entendimento sempre significou, com relação ao ocidente, uma maneira bem diferente de se considerar o mundo natural e, socialmente, o próximo. Para o Hinduísmo, no dizer de Ramakrishna, a natureza inteira, o ser humano e mesmo Deus, se dele tivermos necessidade, são produtos da diferenciação cíclica do Brahman, do Absoluto, estando todos, por isso, mais ou menos interligados. 

Seguindo esse entendimento, o homem, consequentemente, não sentiria, como no ocidente, que para viver teria que se envolver com uma humanidade invejosa, hostil, contra a qual teria de levantar sempre as suas defesas. Para o Hinduísmo, o cosmos deve ser considerado como uma grande família. Nela, o homem deverá viver sem luta nem competição, com o sentimento de uma vasta colaboração ordenada e harmoniosa. Só a ignorância da consciência humana, a consciência da dualidade, separa o homem dos outros homens, do cosmos ou mesmo de Deus, se quisermos. 

Lembremos que na Filosofia ocidental o conceito da dualidade ganhou a sua primeira e permanente formulação nas propostas da lógica aristotélica. Os princípios lógicos aristotélicos, considerados fundamentais, não têm, segundo os filósofos, necessidade de demonstração alguma, já que são evidentes por si mesmos, “garantia absoluta de sua legitimidade”. Eles são, na filosofia ocidental, os primeiros princípios do conhecer e da realidade. Os dois mais importantes destes princípios são o da não contradição e o da identidade. Quanto ao primeiro: não é possível que a mesma coisa convenha e não convenha a um objeto ao mesmo tempo. Ou seja: A não é não-A. Quanto ao segundo,  uma coisa é idêntica a si mesma (A = A). Ou seja: uma coisa não pode ser ela e outra ao mesmo tempo. 

TEXTOS     ANTIGOS 

Na Índia clássica e até recentemente ainda, ao lado do ensino básico (escrever e ler), de qualquer instrução primária, dava-se grande importância ao cultivo da memória, meio pelo qual foram conservados e transmitidos por centenas de anos muitos textos, verdadeiros monumentos literários. Tais textos só começaram a ser vertidos para o papel a partir do séc. XIX por solicitação ou exigência dos europeus. 

Importante lembrar que a criança, nesse contexto, não era um ser novo, alguém que deveria ser instruído a partir do nada, uma página em branco, como a consideram a Medicina e a Psicologia ocidentais. Ao contrário, para o Hinduísmo todo ser que chegava à vida era uma alma (atma) que já trazia uma longa experiência, muitas vezes maior que a de seus próprios pais. Esta criatura, esta criança, não era um aprendiz que entrava pela primeira vez numa sala de aula, num ateliê. Esta criatura era (fora) alguém, um artífice?, um comerciante?, um professor? um shudra? que talvez até já tivesse praticado alguma coisa do que iria “aprender” na nova encarnação.

VIVEKANANDA
Era a partir destas bases metafísicas que os hindus procuravam  não encher a criança de informações, mas a fazer com que viesse à superfície o que nela já se encontrava em germe ou, como diziam os mestres, fazer evoluir o que nela se encontrava involuído. Mestres hindus comparavam esta atividade com a do papel desempenhado pelo Sol nascente que fazia a flor de lótus se abrir pela manhã. Vivekananda dizia:  A criança deve fazer a sua própria educação. A função dos pais consistirá em lhe fornecer oportunidades para isso, bem como a de lhe ajudar a afastar obstáculos na sua caminhada.

Para os antigos hindus, o discípulo trazia dentro dele certas marcas de vidas passadas que o mestre, ao qual ele prestaria reverência como depositário de um conhecimento superior, ajudaria a revelar e karmicamente resolver. A instrução oral era priorizada, suplementada teoricamente por textos, se necessário. Muitas vezes, o discípulo vivia na residência de seu mestre, para ajudá-lo no seu trabalho, qualquer que fosse ele. As técnicas, se necessárias, eram aprendidas sempre praticamente. O mestre era uma espécie de matriz através da qual o discípulo ia sendo moldado.

 A transmissão das informações, sempre acompanhada por um forte acento prático, era completada por uma forma de vida a ser adotada segundo a personalidade do discípulo, encaminhando-se ele, basicamente, para uma das cinco principais formas do Yoga existentes: Raja, Hatha, Gnana, Karma e Bhakti. Esta concepção pedagógica hinduísta procurava, como se pode ver, integrar personalidade, conduta e ensinamento. Este entendimento, segundo os hinduístas, nos diz que a verdadeira aquisição de uma pessoa, em termos existenciais, tem que ser confirmada pela vida que ela leva. Ou, de outro modo: o valor das palavras ou dos escritos de alguém, de suas teorias, de sua filosofia, depende, em termos de vida, do nível em que eles são demonstrados através de sua existência. 

O meio necessário que os mestres utilizam para que o discípulo transcenda a ilusão fenomênica do mundo (Maya) está, antes de tudo, na percepção de que no universo há coisas permanentes e impermanentes. Somente o Brahman é permanente, afirmam os mestres e os textos filosóficos; tudo o mais é impermanente. Os objetos do mundo podem ser agradáveis aos sentidos, podem nos dar poder, prazeres de qualquer tipo, mas todos são transitórios. Eles nos chegam como resultado de nossas ações (karma), mas podem ser efêmeros, perdidos, também como resultado de nossas ações. 

A segunda atitude que o discípulo do Vedanta deve procurar é o desligamento de qualquer ilusão, desde que assim tenha sido ela entendida por ele. Isto significa na prática o desapego do resultado de nossas ações, com a percepção de que os problemas humanos não estão neles, nos resultados, mas, sim, nas causas das ações. Para chegar a tanto, algumas atitudes, muito trabalhadas interiormente, são necessárias. Uma delas é o que hindus chamam de sama, que podemos traduzir como quietude mental, apaziguamento das paixões. Uma conduta que procura manter a mente livre das perturbações provocadas pelos objetos dos sentidos, pelo que nos entra através dos chamados “cinco portões do Inferno”. 

Com isto, será possível se pensar num certo autodomínio que nos ajude a desenvolver virtudes como as da resistência e da paciência, que permitem suportar as vicissitudes e contrariedades que o mundo oferece. Nada de lamentações, de choradeiras, de queixumes,  no geral cenas lamentáveis, quando se tiver que lidar com as oscilantes marés da vida. Ideias de discriminação, de renúncia, de controle são, dentre outras, meios que o discípulo procura conquistar para chegar a um estado que os hindus chamam, não de conhecimento filosófico, mas de sabedoria filosófica, inspiradora de uma forma de vida superior.

É no sentido acima que a filosofia dos hinduístas se torna uma forma de vidya, ou seja, um conhecimento que implica um fim prático por meio do qual o filósofo se torna dono de sua mente, de seu corpo, controla as suas paixões e reações, tornando-se alguém que, ao viver e agir no mundo, está sempre colaborando para a melhoria do Todo. A filosofia que não traga consigo essa possibilidade de se transformar em vida que leve ao benefício do Todo é irrelevante.  




Qual o ponto de partida para uma melhor compreensão do que está acima? Para nós, ocidentais, é algo escandaloso, sem dúvida, que a chamada espiritualidade hindu se recuse a aceitar como final e unicamente aceitável, para explicar o universo, o testemunho dos sentidos humanos e dos seus acréscimos tecno-científicos. Este testemunho dos nossos sentidos vem afirmando há milênios que a morte é um acontecimento que põe fim à vida. Não aceitam também os ocidentais, diante do que a sua ciência afirma, como a espiritualidade hindu pode “defender” ideias reencarnacionistas, conceitos como os de samsara, karma e outros. Incomodam-se também os ocidentais pelo fato de os hindus “acreditarem” que embora não punidos por faltas e crimes cometidos numa encarnação sentirão certamente as consequências de seus atos, segundo os conceitos de karma e dharma, numa próxima. 


KARMA

Voltemos, porém, diante do que acima se expôs, às teses ocidentais e às propostas hinduístas, tentando explorá-las um pouco mais, comparativamente, nos seus desdobramentos filosóficos e ético-morais. De início, fica aqui a observação de que o ocidente sempre encontrou muita dificuldade, impossibilidade mesmo, de conciliar suas aspirações espirituais e morais com as suas ambições materiais. Por isto, resignaram-se os filósofos ocidentais a encerrar a vida humana num certo número de compartimentos estanques. Assim, temos há muito, cada um destes aspectos transformados em ciência: vida interior, religião, economia, política, vida pública, moral individual, filosofia etc., tendo cada um destes departamentos, a seu modo, muitos “incomunicáveis”, uma vida própria, mas todos, cada um na esfera de sua atuação, geradores do caos individual e coletivo no qual onde hoje nos debatemos em termos globais.

Este caos decorre basicamente da nossa tendência de querer definir tudo com precisão, de classificar com rigidez, de catalogar, de etiquetar tudo o que entra nos domínios da vida humana. Irritamo-nos mesmo quando a natureza se nega a entrar nas categorias que procuramos sempre estabelecer e impor. Esta tendência, como se sabe, é alimentada pelo que os filósofos ocidentais, a partir dos gregos, chamaram de epistemologia. Epistemologia, num sentido amplo, é um ramo da Filosofia que se ocupa do conhecimento científico; é o estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências, com a finalidade de determinar seus fundamentos lógicos, seu valor e sua importância.

Os hindus sempre caminharam no sentido contrário desta maneira de pensar. Para eles, no cosmos em que vivemos, conforme a consciência que dele se tem, temos o fragmento de um vasto continuum que abarca todas as espécies de planos, de estados possíveis e de modos de consciência. Para eles, ciência, filosofia, religião e vida prática não são isoláveis tanto uns com relação aos outros como na sua aplicação e utilização pelo ser humano. É claro que podemos estudá-los isoladamente numa certa perspectiva, mas eles só adquirem um sentido quando os compreendemos à luz de sua interação. 


HINDUÍSMO

É preciso descobrir, entre todos os aspectos a considerar, o que eles têm em comum, planos e modos, qual a coerência que há entre eles, segundo uma consideração intelectual. É evidente que os aspectos levados em consideração são sempre muito complexos, mas é exatamente por isso que os filósofos hinduístas adotam uma lógica diferente da nossa. No Ocidente, a lógica que herdamos de Aristóteles e de Descartes costuma ser aplicada apenas isoladamente, em cada departamento, a cada aspecto. Ficamos satisfeitos ao agir dessa maneira. No Hinduísmo, quando se trata de obter uma visão de conjunto, são levados em conta não só os aspectos visíveis, mas sobretudo os “invisíveis”. Por isso, a lógica ocidental é sempre parcial, insatisfatória. As visões lógicas ocidentais são invariavelmente incompletas, e, por isso, deformadas e contraditórias. 

No Hinduísmo, seus filósofos não opõem por isso a verdade ao erro. Eles, verão, em cada etapa, em cada caso, porém, um certo número de verdades fragmentárias, umas mais complexas e profundas que outras, mas todas “agindo” complementarmente umas com relação às outras. Para eles, a lógica é assim diferente: A poderá ser B, C, D ou outra coisa qualquer. E mesmo esta maneira de entender não esgotará todas as possibilidades possíveis de se considerar o resultado final do que se está a considerar.

DARSHANA
Para o Hinduísmo, a lógica é diferente, talvez muito mais “lógica” e rigorosa que a nossa. Os mestres hindus costumam segui-la com firmeza, pacientemente como é comum, quaisquer que sejam as consequências, jamais se pensando em heterodoxia ou absurdo. Não devemos perder de vista este entendimento quando pensamos nas filosofias da Índia. O termo hindu para designar escola de Filosofia é darshana, palavra que vem de uma raiz que significa ver. Por isso, as escolas de Filosofia no Hinduísmo não são mais que visões, maneiras de se olhar a realidade, visões percebidas segundo determinados ângulos, todos válidos. Algo como fotografias de uma mesma pessoa, tomadas inclusive em idades diferentes, em posições diversas, com roupas variadas. Todas as fotos se completam mutuamente para permitir ao que estuda formar uma imagem de conjunto mais verdadeira. O que se disse também não impedirá que este ou aquele estudante tenha preferência por esta ou aquela foto, por este ou aquele ponto de vista, época da fotografia etc.

Os mestres se esforçam sempre para traçar um painel de conjunto, pondo sistematicamente em relevo tudo o que é comum, se não a todos os grupos, pelo menos à sua grande maioria. Isto se deve particularmente à circunstância de que os hinduístas consideram que as ideias que representam os fatos são sempre representações inadequadas da verdade. Não passa pela cabeça de um “verdadeiro” hinduísta que mesmo fórmulas e palavras sagradas tenham uma importância capital, absoluta. Sua importância decorrerá, sim, das ressonâncias ou evocações que puderem despertar em nós. Assim, não pensarão que na busca espiritual, atestada acima de tudo pela vida vivida, será possível nos colocarmos de acordo através de palavras ou fórmulas diferentes, por mais “sagradas” que sejam. 

SHIVAISTA
Para os hinduístas, nada há que se estranhar quando pessoas até com divergências radicais, que adotam concepções diversas (shivaístas, vishnuístas, adeptos de Yogas diferentes etc.) possam atingir espiritualmente (benefício do Todo) os mesmos resultados, perfeitamente identificadas. Entre os hinduístas, nenhum constrangimento em se admitir que diversas pessoas expressem uma e mesma coisa com termos absolutamente diferentes, sem uma aparente ligação visível entre eles. 

Outra constatação importante a destacar é que para os hindus todas as disciplinas, quaisquer que sejam elas (religiosas, morais, científicas, ascéticas, literárias, artísticas etc.) têm, acima de sua finalidade específica imediata, uma finalidade comum, essencial, que é o desenvolvimento espiritual, cuja preocupação maior é a de fazer com que as pessoas que participam de tais disciplinas se relacionem com o Brahman e a ele possam retornar. Mesmo a ginástica ou o simples estudo de gramática serão sempre meios que o discípulo encontra para se aproximar da verdade e de se tornar um yukta. 

Na índia antiga, cada ramo do saber estava ligado a uma arte, a um modo de vida, a uma concepção de mundo. Este saber (ainda hoje em certos grupos mais fechados às influências modernas) não devia ser colhido só nos livros, mas por meio da aprendizagem com mestres competentes. Procurava-se também com este processo, talvez acima de tudo, uma espécie de transferência psicológica entre mestre e discípulo que deveria ocorrer. O que se procurava era um desenvolvimento gradual do discípulo dentro de um molde disciplinar. 

YOGANANDA
Essa disciplina educativa era acompanhada pela prática de uma forma de vida  (Yoga) que poderia contar para a sua maior eficiência com formas simbólicas, religiosas ou não, cuja função era a de direcionar melhor o pensamento e as ações. É neste sentido que na Índia, com relação ao Hinduísmo, sobretudo, identidade de personalidade, conduta e ensinamento se interligam. A verdadeira aquisição era somente aquela que se encontrava confirmada pela vida vivida. O valor das palavras e dos escritos de alguém dependia do que vida desse alguém demonstrasse com relação às suas  palavras e escritos. 

É importante observar que os preceitos e pontos de vista acima expostos estão presentes em muitas tradições e culturas, inclusive no ocidente. Abafados por razões políticas, religiosas e econômicas, temos, entre nós, nessa situação, a chamada tradição hermética, de fundo greco-egípcio, uma compilação de ensinamentos que apareceu no início da era cristã na cidade de Alexandria.

Os sete princípios sobre os quais se baseia esse conhecimento, constituindo o chamado  Hermetismo, são os seguintes: 1) Mentalismo; 2) Correspondência; 3) Vibração; 4) Polaridade; 5) Ritmo; 6) Causa e efeito; 7) Gênero. 

Ou, de outro modo: 1) O Todo é mente; o universo é mental; 2) O que está acima é como o que está abaixo e vice-versa; 3) Nada está parado; tudo se move e vibra; 4) Tudo é duplo, tudo tem dois polos. Tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; 5) Tudo tem fluxo e refluxo; tudo se manifesta por ações compensadas; 6) Toda causa tem o seu efeito, todo efeito tem a sua causa; o acaso é o nome dado a uma lei não conhecida; 7) O gênero está em tudo, tudo tem o seu princípio masculino e feminino. 


segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.