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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

INFORMAÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO ? II


SARTRE
Se o homem não é, mas se faz e se, em se fazendo, assume a responsabilidade por toda a espécie, se não há moral ou valores dados a priori, mas se, em cada caso, precisamos resolver sós, sem pontos de apoio, sem guias e, no entanto, para todos, como haveríamos de não sentir ansiedade quando temos de agir? Cada um de nossos atos põe em jogo o sentido do mundo e o lugar do homem no universo; através de cada um destes atos, mesmo contra a nossa vontade, constituímos uma escala universal de valores, e ainda se desejaria que não fôssemos possuídos de medo em face de tamanha responsabilidade?  (J.P. Sartre – Action)

MERLEAU-PONTI
O mundo não é o que penso, mas o que vivo, estou aberto ao mundo, comunico-me com ele de modo indiscutível, mas não o possuo, ele é inesgotável... Não temos que perguntar se percebemos verdadeiramente o mundo, mas dizer, ao contrário: o mundo é aquilo que percebemos. No geral, não há que se perguntar se nossas evidências são verdades, ou se, por um vício de nosso espírito, o que é evidente para nós não seria ilusório com relação a uma verdade em si.  (M. Merleau-Ponty – Fenomenologia da Percepção – Prólogo)

Eu próprio me escolho, não no meu ser, mas na minha maneira de ser. (J.P. Sartre – O Ser e o Nada) 

Entre os antigos indianos hinduístas cada ramo do saber estava ligado a um modo de ser, a uma arte especializada, a uma forma de vida. O saber não era recolhido só dos livros, mas devia ser sobretudo obtido através de palestras, reuniões, debates e conversas, a melhor maneira de se abordar as relações entre espiritualidade e vida quotidiana, tendo-se em vista que o que se procurava, além de um desenvolvimento pessoal, era a promoção do desenvolvimento da sociedade como um todo. Assim, o estudo de todas as disciplinas, Gramática, Matemática, História, Geografia, Música etc., sempre procurou se voltar também para um aspecto filosófico-religioso que ia além do pessoal em direção do coletivo. 

RAMAKRISHNA
Este entendimento sempre significou, com relação ao ocidente, uma maneira bem diferente de se considerar o mundo natural e, socialmente, o próximo. Para o Hinduísmo, no dizer de Ramakrishna, a natureza inteira, o ser humano e mesmo Deus, se dele tivermos necessidade, são produtos da diferenciação cíclica do Brahman, do Absoluto, estando todos, por isso, mais ou menos interligados. 

Seguindo esse entendimento, o homem, consequentemente, não sentiria, como no ocidente, que para viver teria que se envolver com uma humanidade invejosa, hostil, contra a qual teria de levantar sempre as suas defesas. Para o Hinduísmo, o cosmos deve ser considerado como uma grande família. Nela, o homem deverá viver sem luta nem competição, com o sentimento de uma vasta colaboração ordenada e harmoniosa. Só a ignorância da consciência humana, a consciência da dualidade, separa o homem dos outros homens, do cosmos ou mesmo de Deus, se quisermos. 

Lembremos que na Filosofia ocidental o conceito da dualidade ganhou a sua primeira e permanente formulação nas propostas da lógica aristotélica. Os princípios lógicos aristotélicos, considerados fundamentais, não têm, segundo os filósofos, necessidade de demonstração alguma, já que são evidentes por si mesmos, “garantia absoluta de sua legitimidade”. Eles são, na filosofia ocidental, os primeiros princípios do conhecer e da realidade. Os dois mais importantes destes princípios são o da não contradição e o da identidade. Quanto ao primeiro: não é possível que a mesma coisa convenha e não convenha a um objeto ao mesmo tempo. Ou seja: A não é não-A. Quanto ao segundo,  uma coisa é idêntica a si mesma (A = A). Ou seja: uma coisa não pode ser ela e outra ao mesmo tempo. 

TEXTOS     ANTIGOS 

Na Índia clássica e até recentemente ainda, ao lado do ensino básico (escrever e ler), de qualquer instrução primária, dava-se grande importância ao cultivo da memória, meio pelo qual foram conservados e transmitidos por centenas de anos muitos textos, verdadeiros monumentos literários. Tais textos só começaram a ser vertidos para o papel a partir do séc. XIX por solicitação ou exigência dos europeus. 

Importante lembrar que a criança, nesse contexto, não era um ser novo, alguém que deveria ser instruído a partir do nada, uma página em branco, como a consideram a Medicina e a Psicologia ocidentais. Ao contrário, para o Hinduísmo todo ser que chegava à vida era uma alma (atma) que já trazia uma longa experiência, muitas vezes maior que a de seus próprios pais. Esta criatura, esta criança, não era um aprendiz que entrava pela primeira vez numa sala de aula, num ateliê. Esta criatura era (fora) alguém, um artífice?, um comerciante?, um professor? um shudra? que talvez até já tivesse praticado alguma coisa do que iria “aprender” na nova encarnação.

VIVEKANANDA
Era a partir destas bases metafísicas que os hindus procuravam  não encher a criança de informações, mas a fazer com que viesse à superfície o que nela já se encontrava em germe ou, como diziam os mestres, fazer evoluir o que nela se encontrava involuído. Mestres hindus comparavam esta atividade com a do papel desempenhado pelo Sol nascente que fazia a flor de lótus se abrir pela manhã. Vivekananda dizia:  A criança deve fazer a sua própria educação. A função dos pais consistirá em lhe fornecer oportunidades para isso, bem como a de lhe ajudar a afastar obstáculos na sua caminhada.

Para os antigos hindus, o discípulo trazia dentro dele certas marcas de vidas passadas que o mestre, ao qual ele prestaria reverência como depositário de um conhecimento superior, ajudaria a revelar e karmicamente resolver. A instrução oral era priorizada, suplementada teoricamente por textos, se necessário. Muitas vezes, o discípulo vivia na residência de seu mestre, para ajudá-lo no seu trabalho, qualquer que fosse ele. As técnicas, se necessárias, eram aprendidas sempre praticamente. O mestre era uma espécie de matriz através da qual o discípulo ia sendo moldado.

 A transmissão das informações, sempre acompanhada por um forte acento prático, era completada por uma forma de vida a ser adotada segundo a personalidade do discípulo, encaminhando-se ele, basicamente, para uma das cinco principais formas do Yoga existentes: Raja, Hatha, Gnana, Karma e Bhakti. Esta concepção pedagógica hinduísta procurava, como se pode ver, integrar personalidade, conduta e ensinamento. Este entendimento, segundo os hinduístas, nos diz que a verdadeira aquisição de uma pessoa, em termos existenciais, tem que ser confirmada pela vida que ela leva. Ou, de outro modo: o valor das palavras ou dos escritos de alguém, de suas teorias, de sua filosofia, depende, em termos de vida, do nível em que eles são demonstrados através de sua existência. 

O meio necessário que os mestres utilizam para que o discípulo transcenda a ilusão fenomênica do mundo (Maya) está, antes de tudo, na percepção de que no universo há coisas permanentes e impermanentes. Somente o Brahman é permanente, afirmam os mestres e os textos filosóficos; tudo o mais é impermanente. Os objetos do mundo podem ser agradáveis aos sentidos, podem nos dar poder, prazeres de qualquer tipo, mas todos são transitórios. Eles nos chegam como resultado de nossas ações (karma), mas podem ser efêmeros, perdidos, também como resultado de nossas ações. 

A segunda atitude que o discípulo do Vedanta deve procurar é o desligamento de qualquer ilusão, desde que assim tenha sido ela entendida por ele. Isto significa na prática o desapego do resultado de nossas ações, com a percepção de que os problemas humanos não estão neles, nos resultados, mas, sim, nas causas das ações. Para chegar a tanto, algumas atitudes, muito trabalhadas interiormente, são necessárias. Uma delas é o que hindus chamam de sama, que podemos traduzir como quietude mental, apaziguamento das paixões. Uma conduta que procura manter a mente livre das perturbações provocadas pelos objetos dos sentidos, pelo que nos entra através dos chamados “cinco portões do Inferno”. 

Com isto, será possível se pensar num certo autodomínio que nos ajude a desenvolver virtudes como as da resistência e da paciência, que permitem suportar as vicissitudes e contrariedades que o mundo oferece. Nada de lamentações, de choradeiras, de queixumes,  no geral cenas lamentáveis, quando se tiver que lidar com as oscilantes marés da vida. Ideias de discriminação, de renúncia, de controle são, dentre outras, meios que o discípulo procura conquistar para chegar a um estado que os hindus chamam, não de conhecimento filosófico, mas de sabedoria filosófica, inspiradora de uma forma de vida superior.

É no sentido acima que a filosofia dos hinduístas se torna uma forma de vidya, ou seja, um conhecimento que implica um fim prático por meio do qual o filósofo se torna dono de sua mente, de seu corpo, controla as suas paixões e reações, tornando-se alguém que, ao viver e agir no mundo, está sempre colaborando para a melhoria do Todo. A filosofia que não traga consigo essa possibilidade de se transformar em vida que leve ao benefício do Todo é irrelevante.  




Qual o ponto de partida para uma melhor compreensão do que está acima? Para nós, ocidentais, é algo escandaloso, sem dúvida, que a chamada espiritualidade hindu se recuse a aceitar como final e unicamente aceitável, para explicar o universo, o testemunho dos sentidos humanos e dos seus acréscimos tecno-científicos. Este testemunho dos nossos sentidos vem afirmando há milênios que a morte é um acontecimento que põe fim à vida. Não aceitam também os ocidentais, diante do que a sua ciência afirma, como a espiritualidade hindu pode “defender” ideias reencarnacionistas, conceitos como os de samsara, karma e outros. Incomodam-se também os ocidentais pelo fato de os hindus “acreditarem” que embora não punidos por faltas e crimes cometidos numa encarnação sentirão certamente as consequências de seus atos, segundo os conceitos de karma e dharma, numa próxima. 


KARMA

Voltemos, porém, diante do que acima se expôs, às teses ocidentais e às propostas hinduístas, tentando explorá-las um pouco mais, comparativamente, nos seus desdobramentos filosóficos e ético-morais. De início, fica aqui a observação de que o ocidente sempre encontrou muita dificuldade, impossibilidade mesmo, de conciliar suas aspirações espirituais e morais com as suas ambições materiais. Por isto, resignaram-se os filósofos ocidentais a encerrar a vida humana num certo número de compartimentos estanques. Assim, temos há muito, cada um destes aspectos transformados em ciência: vida interior, religião, economia, política, vida pública, moral individual, filosofia etc., tendo cada um destes departamentos, a seu modo, muitos “incomunicáveis”, uma vida própria, mas todos, cada um na esfera de sua atuação, geradores do caos individual e coletivo no qual onde hoje nos debatemos em termos globais.

Este caos decorre basicamente da nossa tendência de querer definir tudo com precisão, de classificar com rigidez, de catalogar, de etiquetar tudo o que entra nos domínios da vida humana. Irritamo-nos mesmo quando a natureza se nega a entrar nas categorias que procuramos sempre estabelecer e impor. Esta tendência, como se sabe, é alimentada pelo que os filósofos ocidentais, a partir dos gregos, chamaram de epistemologia. Epistemologia, num sentido amplo, é um ramo da Filosofia que se ocupa do conhecimento científico; é o estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências, com a finalidade de determinar seus fundamentos lógicos, seu valor e sua importância.

Os hindus sempre caminharam no sentido contrário desta maneira de pensar. Para eles, no cosmos em que vivemos, conforme a consciência que dele se tem, temos o fragmento de um vasto continuum que abarca todas as espécies de planos, de estados possíveis e de modos de consciência. Para eles, ciência, filosofia, religião e vida prática não são isoláveis tanto uns com relação aos outros como na sua aplicação e utilização pelo ser humano. É claro que podemos estudá-los isoladamente numa certa perspectiva, mas eles só adquirem um sentido quando os compreendemos à luz de sua interação. 


HINDUÍSMO

É preciso descobrir, entre todos os aspectos a considerar, o que eles têm em comum, planos e modos, qual a coerência que há entre eles, segundo uma consideração intelectual. É evidente que os aspectos levados em consideração são sempre muito complexos, mas é exatamente por isso que os filósofos hinduístas adotam uma lógica diferente da nossa. No Ocidente, a lógica que herdamos de Aristóteles e de Descartes costuma ser aplicada apenas isoladamente, em cada departamento, a cada aspecto. Ficamos satisfeitos ao agir dessa maneira. No Hinduísmo, quando se trata de obter uma visão de conjunto, são levados em conta não só os aspectos visíveis, mas sobretudo os “invisíveis”. Por isso, a lógica ocidental é sempre parcial, insatisfatória. As visões lógicas ocidentais são invariavelmente incompletas, e, por isso, deformadas e contraditórias. 

No Hinduísmo, seus filósofos não opõem por isso a verdade ao erro. Eles, verão, em cada etapa, em cada caso, porém, um certo número de verdades fragmentárias, umas mais complexas e profundas que outras, mas todas “agindo” complementarmente umas com relação às outras. Para eles, a lógica é assim diferente: A poderá ser B, C, D ou outra coisa qualquer. E mesmo esta maneira de entender não esgotará todas as possibilidades possíveis de se considerar o resultado final do que se está a considerar.

DARSHANA
Para o Hinduísmo, a lógica é diferente, talvez muito mais “lógica” e rigorosa que a nossa. Os mestres hindus costumam segui-la com firmeza, pacientemente como é comum, quaisquer que sejam as consequências, jamais se pensando em heterodoxia ou absurdo. Não devemos perder de vista este entendimento quando pensamos nas filosofias da Índia. O termo hindu para designar escola de Filosofia é darshana, palavra que vem de uma raiz que significa ver. Por isso, as escolas de Filosofia no Hinduísmo não são mais que visões, maneiras de se olhar a realidade, visões percebidas segundo determinados ângulos, todos válidos. Algo como fotografias de uma mesma pessoa, tomadas inclusive em idades diferentes, em posições diversas, com roupas variadas. Todas as fotos se completam mutuamente para permitir ao que estuda formar uma imagem de conjunto mais verdadeira. O que se disse também não impedirá que este ou aquele estudante tenha preferência por esta ou aquela foto, por este ou aquele ponto de vista, época da fotografia etc.

Os mestres se esforçam sempre para traçar um painel de conjunto, pondo sistematicamente em relevo tudo o que é comum, se não a todos os grupos, pelo menos à sua grande maioria. Isto se deve particularmente à circunstância de que os hinduístas consideram que as ideias que representam os fatos são sempre representações inadequadas da verdade. Não passa pela cabeça de um “verdadeiro” hinduísta que mesmo fórmulas e palavras sagradas tenham uma importância capital, absoluta. Sua importância decorrerá, sim, das ressonâncias ou evocações que puderem despertar em nós. Assim, não pensarão que na busca espiritual, atestada acima de tudo pela vida vivida, será possível nos colocarmos de acordo através de palavras ou fórmulas diferentes, por mais “sagradas” que sejam. 

SHIVAISTA
Para os hinduístas, nada há que se estranhar quando pessoas até com divergências radicais, que adotam concepções diversas (shivaístas, vishnuístas, adeptos de Yogas diferentes etc.) possam atingir espiritualmente (benefício do Todo) os mesmos resultados, perfeitamente identificadas. Entre os hinduístas, nenhum constrangimento em se admitir que diversas pessoas expressem uma e mesma coisa com termos absolutamente diferentes, sem uma aparente ligação visível entre eles. 

Outra constatação importante a destacar é que para os hindus todas as disciplinas, quaisquer que sejam elas (religiosas, morais, científicas, ascéticas, literárias, artísticas etc.) têm, acima de sua finalidade específica imediata, uma finalidade comum, essencial, que é o desenvolvimento espiritual, cuja preocupação maior é a de fazer com que as pessoas que participam de tais disciplinas se relacionem com o Brahman e a ele possam retornar. Mesmo a ginástica ou o simples estudo de gramática serão sempre meios que o discípulo encontra para se aproximar da verdade e de se tornar um yukta. 

Na índia antiga, cada ramo do saber estava ligado a uma arte, a um modo de vida, a uma concepção de mundo. Este saber (ainda hoje em certos grupos mais fechados às influências modernas) não devia ser colhido só nos livros, mas por meio da aprendizagem com mestres competentes. Procurava-se também com este processo, talvez acima de tudo, uma espécie de transferência psicológica entre mestre e discípulo que deveria ocorrer. O que se procurava era um desenvolvimento gradual do discípulo dentro de um molde disciplinar. 

YOGANANDA
Essa disciplina educativa era acompanhada pela prática de uma forma de vida  (Yoga) que poderia contar para a sua maior eficiência com formas simbólicas, religiosas ou não, cuja função era a de direcionar melhor o pensamento e as ações. É neste sentido que na Índia, com relação ao Hinduísmo, sobretudo, identidade de personalidade, conduta e ensinamento se interligam. A verdadeira aquisição era somente aquela que se encontrava confirmada pela vida vivida. O valor das palavras e dos escritos de alguém dependia do que vida desse alguém demonstrasse com relação às suas  palavras e escritos. 

É importante observar que os preceitos e pontos de vista acima expostos estão presentes em muitas tradições e culturas, inclusive no ocidente. Abafados por razões políticas, religiosas e econômicas, temos, entre nós, nessa situação, a chamada tradição hermética, de fundo greco-egípcio, uma compilação de ensinamentos que apareceu no início da era cristã na cidade de Alexandria.

Os sete princípios sobre os quais se baseia esse conhecimento, constituindo o chamado  Hermetismo, são os seguintes: 1) Mentalismo; 2) Correspondência; 3) Vibração; 4) Polaridade; 5) Ritmo; 6) Causa e efeito; 7) Gênero. 

Ou, de outro modo: 1) O Todo é mente; o universo é mental; 2) O que está acima é como o que está abaixo e vice-versa; 3) Nada está parado; tudo se move e vibra; 4) Tudo é duplo, tudo tem dois polos. Tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; 5) Tudo tem fluxo e refluxo; tudo se manifesta por ações compensadas; 6) Toda causa tem o seu efeito, todo efeito tem a sua causa; o acaso é o nome dado a uma lei não conhecida; 7) O gênero está em tudo, tudo tem o seu princípio masculino e feminino. 


domingo, 17 de outubro de 2021

INFORMAÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO? I

                                                            

A educação moderna redundou em completo malogro por ter exagerado a importância da técnica. Encarecendo-a em demasia, destruímos o homem. Desenvolvendo capacidades e ciência, sem a compreensão da vida, sem uma percepção total dos movimentos da mente e do desejo, tornar-nos-emos cada vez mais cruéis e isso significa fomentar guerras e pôr em perigo a nossa segurança física. O exclusivo cultivo da técnica tem produzido cientistas, matemáticos, construtores de pontes e conquistadores do espaço. Compreenderão esses homens o processo total da vida? Pode um especialista experimentar a vida como um todo? Só se deixar de ser especialista.

        J.Krishnamurti 

As filosofias da Índia sempre deram muito mais importância à vida interior do ser humano do que às suas conquistas externas. Praticamente, isto significou uma preocupação muito maior com transformações internas do ser humano, mudanças quanto ao seu comportamento, do que com a obtenção de informações sobre o mundo e o aumento de sua memória e domínio sobre ele. Neste texto, trataremos de uma maneira de pensar cujo objetivo é também o de fazer com que o ser humano, através de um mental superior, a ser por ele construído, possa transcender o seu eu pessoal, direcionando-o para a totalidade da existência (mundo natural e vida coletiva). Foi a isto que as antigas filosofias da Índia deram o nome de vida espiritual. 

Para os antigos pensadores da Índia, ao tempo em que começaram a formular as bases do que se denominou Vedismo (primeira fase das suas elaborações filosófico-religiosas), a sua principal preocupação, ao mesmo tempo em que procuravam descrever e explicar o mundo visível, foi a de estudar e de entender o que chamaram de eu interior (atma), uma entidade que consideravam como a base da personalidade consciente e do corpo humano. 

Para eles, este atman era uma partícula individualizada, independente, do que chamavam de Brahman, o Todo, a energia universal (alma universal), eterna, imperecível, autoexistente, de onde tudo o que se manifestava material ou imaterialmente provinha e ao qual tudo retornava, num devenir constante e perene. Assim, tudo o que entrava na existência, como o perceberam os pensadores daquele tempo, pertencia ao impermanente, ficava preso às coordenadas do tempo e do espaço, enquanto o eu interior (atman), porque partícula imperecível do Brahman, ficava fora de tudo isto.  

Para os pensadores ocidentais, a Filosofia, a partir dos gregos, dos pré-socráticos, foi, ao contrário, se voltando cada vez mais para o exterior, para o social, para o político, para o científico (principalmente a partir do Renascimento), procurando elaborar doutrinas no sentido de modificar o mundo material, de dominá-lo. Quanto ao eu interior, pouca ou nenhuma atenção a ele. Só no século XIX, voltaria esse tema a ser abordado de modo mais consequente, com as doutrinas psicológicas que então se criaram. Enquanto isso, quanto à Índia, seus filósofos persistiam na mesma direção: maior ênfase nos estudos da vida interior do ser humano, na sua problemática.  Foi esse direcionamento, mantido por séculos, milênios, que deu origem, no ocidente, a avaliações muito pouco favoráveis sobre a índia, de um modo geral. 

Enquanto o ocidente ia se "modernizando", “progredindo”, a Índia, com os seus deuses, seu complicado politeísmo, e seu sistema de castas, com o seu exotismo, com a sua “espiritualidade”, tornara-se um país facilmente conquistável, símbolo do atraso, da miséria, da ignorância, da doença. Era a Índia um país de grandes recursos naturais, uma fácil conquista para os predadores europeus, a Inglaterra, no caso, que lá permaneceu, dominando-a, por mais de dois séculos. 

NAVIO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS
É bom lembrar que muito antes do domínio britânico, a Índia já atraía a cobiça dos europeus. Os primeiros a chegar foram os portugueses, que lá desembarcaram no século XVI, quando estabeleceram feitorias ao longo da costa de Malabar. Depois dos portugueses, vieram holandeses, franceses e britânicos. Os primeiros navios britânicos aportaram na Índia em 1612. Esses navios eram da Companhia Inglesa das Índias Orientais, que estabeleceu feitorias no litoral indiano. Nessas feitorias, eram realizadas trocas comerciais: produtos indianos (seda, algodão, especiarias.) eram trocados por produtos manufaturados ingleses. Só depois de dois séculos, de grandes lutas, conseguiram os indianos expulsar os ingleses em meados do séc. XX (15 de Agosto de 1947), mesmo assim com grandes prejuízos, perdendo grande parte de seu território (Paquistão e Bangladesh).


É bom lembrar também que com as chamadas “ondas de progresso” globalizantes que o ocidente fez chegar à Índia, mais para o fim da segunda metade do século XX, essa visão negativa sobre a Índia (país do atraso, da miséria, das doenças etc.) veio mudando, de modo a se considerá-la hoje quase como, apesar de alguns problemas ainda constatados nas áreas apontadas, um país que vai assumindo os valores do mundo ocidental, se “modernizando”.  

FILÓSOFOS HINDUÍSTAS
Em que pese tudo o que está acima, o que sempre interessou sobretudo aos filósofos hinduístas menos “ocidentalizados”, ao longo da história do país, ao invés dos índices econômicos, foram os valores éticos e morais. Ou seja: sem perder de vista, na medida do possível, o mundo fenomênico e os aspectos visíveis da sua existência (Economia, Ciência, Tecnologia etc.), estudar e analisar, como itens mais importantes, a interioridade do ser humano, as suas faculdades intelectuais, as operações da sua mente, as teorias do entendimento, as leis da lógica, as doutrinas psicológicas etc. Por todos estes fatores é que, ao contrário dos filósofos ocidentais, sempre interessou mais aos filósofos hinduístas o eu interior, a sua transformação, a sua mudança, em níveis tais que, com relação a alguns, podemos pensar a existência humana como uma sucessão de mortes e renascimentos 

É neste sentido que ao invés de procurar mudar o mundo (o que é importante, é claro!), os filósofos do hinduísmo sempre procuraram trabalhar mais com ideias de transformação interior, de transcendência do próprio eu. Transcendência obtida não através da simples compreensão intelectual, de leituras, mas através de mudanças no modo pelo qual o mundo é sentido e sobre ele se age, pois só estas  mudanças têm relação com a existência como um todo. Etimologicamente, transcendência vem do latim, de trans, além de, e de scandere, subir, remontar. Temos, então: escalar, transpor, elevar-se ultrapassando. Ideias de proeminência, sobrepujamento, sublimidade, de ir além das limitações. 

A história do pensamento indiano, no que ela tem de mais consequente, sempre nos mostrou uma crescente importância dada ao eu interior (atman). Ou seja, sem se desconsiderar o mundo exterior, concreto e tangível, o foco foi sendo direcionado para o eu interior, intangível e imaterial. É claro que este entendimento, em muitos períodos históricos, ocasionou uma perigosa desvalorização do mundo material, produzindo muita dor e sofrimento em termos sociais. Contudo, sempre prosseguiram os seus filósofos, procurando permanecer ligados à sua antiga tradição. 

Para uma melhor compreensão do que aqui se expõe, é preciso lembrar que a história filosófico-religiosa da Índia se divide em três grandes períodos:

 1) Védico (2000-600 aC);

 2) Bramânico (600 aC-1200 dC);

 3) Hinduísta (1200 dC em diante).

Os princípios fundamentais do Hinduísmo são os seguintes: 

a) as metas de vida (artha, kama, dharma e moksha);

b) o sistema de castas (varnas); 

c) o Yoga. Artha, kama e dharma são considerados como ocupações mundanas.  

Na primeira, ARTHA, temos as conquistas materiais, o mundo dos valores, dos objetos, que podem ser obtidos e perdidos. Nesse mundo prevalece matysa-nyaya (a lei do peixe), “peixes grandes comem os peixes pequenos”. Nesse mundo, temos arthashastra, “a ciência da riqueza”. 

Na segunda ocupação, lidamos com os desejos. Quem nele atua é o deus kama (Eros dos gregos), mestre e senhor das coisas materiais, que, com o seu arco e as suas flechas, abrasa o nosso coração de desejos. 

No terceiro item, dharma, são discutidas ideias de responsabilidade, obrigações, deveres, os aspectos morais da vida humana. Começa aqui uma noção mais abrangente da vida social. 

O último princípio tem relação com ideias de redenção, espiritualidade. Moksha é palavra que sugere conceitos de liberação de abrir a mão, de libertação. É nesta etapa que podemos ir além da informação, de sua crítica e do conhecimento obtido para chegarmos à sabedoria vivida como doação sem preocupações com ideias de retribuição e reconhecimento. Moksha (libertação), confunde-se aqui com kaivalya (independência) do físico, do afetivo e do mental inferior. 

sistema de castas
As quatro castas, constituídas pelos árias e seus descendentes, são as seguintes: 
1) Brahmanas - que têm por incumbência os deveres filosófico-religiosos, a conservação e a transmissão dos textos da cultura e da ciência, o ensino em todos os seus níveis. Seu caráter é mais ou menos sacerdotal. 
2) Kshatryas – Guerreiros, administradores, políticos, governantes. 
3) Vaishyas - Comerciantes, agricultores e profissões relacionadas com a vida econômica e bens. 4) Shudras -  Operários, trabalhadores, artífices. Fora do sistema de castas, ficavam os chamados intocáveis, asprishyas, formada pelos remanescentes das populações aborígenes. Segundo o governo indiano, hoje, o sistema de castas já não mais existe na Índia, devido a muitas subdivisões introduzidas e novas formas de organização do trabalho. Todavia, na realidade, embora pareça caminhar para a sua extinção, ele ainda se faz presente, interferindo, até bastante, em várias regiões do país, principalmente no sul. 

O Yoga é uma escola filosófica (darshana) que tem a finalidade de levar o adepto a aprender a dominar os seus corpos físico, afetivo-emocional e mental para poder entrar em contacto com o seu eu verdadeiro (atma), aprendendo também o discípulo a usar o seu mental superior (buddhi). Fixando-se no seu eu verdadeiro (atman), o adepto se torna  um "unido" (yukta) ao Brahman. A palavra que designa a transmissão dos ensinamentos do Yoga é parampara, que significa "um depois do outro", indicando-se claramente a sua forma de transmissão de mestre para discípulo.

PATANJALI
De um modo geral, todas as escolas filosóficas aceitam como expressões maiores do Yoga cinco formas: Raja-Yoga, Hatha-Yoga, Gnana-Yoga ou Jnana-Yoga, Karma-Yoga e Bhakti-Yoga. Como requisitos básicos em todas temos os Yamas e os Niyamas, isto é, restrições e observâncias. Qualquer que seja a forma praticada, sempre presente a ideia de que todas levam ao mesmo fim, a uma experiência estática (samadhi), através da aquisição de conhecimento libertador do eu (atma).

Como proposições básicas no Hinduísmo, temos: 

1) a verdade profunda é diferente daquela que obtemos por nossas percepções sensoriais, mesmo que interpretadas com todos os recursos do nosso intelecto; 

2) partindo da imagem que nos fornecem as aparências, nós nos aproximamos tanto mais da verdade profunda quanto mais nos afastamos da multiplicidade em direção de uma ideia de unidade; 

3) a aparição do universo resulta da manifestação do UM sob a aparência do múltiplo; 

4) o mundo das polaridades, isto é, da consciência da multiplicidade, é concepção imperfeita e inexata da Verdade profunda; 

5) a Verdade profunda deve englobar não só o que é mas também aquilo que ainda não entrou nas categorias da existência; 

6) a alma do homem (atman) é idêntica à totalidade. É possível realizar esta unidade por disciplinas apropriadas, sendo este o fim da existência humana; 

7) até que isto aconteça, a alma reencarnará, passando por uma sucessão de estados, sendo os dois principais o nascimento e a morte. O objetivo da existência, pode-se dizer, é o de escapar desta cadeia de reencarnações (samsara); 

8) cada encarnação é consequência das precedentes e determina, em certa medida, a sucedente; 

9) cada encarnação tem características que a individualizam. Ela difere das outras pelas possibilidades que oferece e os deveres que impõe; 

10) toda alma pode chegar à realização da Verdade profunda (liberação), concebida como união, consciência da não-dualidade, estado de consciência que ultrapassa tanto a unidade como a multiplicidade; 11) o intelecto é incapaz de conhecer a Verdade Suprema.

Os textos hinduístas que melhor falam da via mística são os Upanishads, o Bhagavad Gita, as obras do Vedanta e os das escolas filosóficas (Darshanas). Os fundamentos filosóficos da via mística estão nos Darshanas, os aspectos racionais da religião. Há seis sistemas filosóficos (Shad-Darshanas), seis escolas ortodoxas: 
1) Nyaya, Lógica e Dialética; 
2) Vaiseshika, escola atômica; 
3) Samkhya, ateia; cosmogonia e evolução; 
4) Yoga, técnicas de concentração e de união; 
5) Purva-mimansa, estudos exegéticos e práticas rituais; 
6) Uttara-mimansa, o Vedanta.

 Fora do Hinduísmo, há as chamadas escolas heterodoxas (nastika), como o Budismo e as escolas materialistas ateias (charvakas), todas, como as precedentes, diferentes meios de nos aproximarmos da verdade, visões do mundo, jamais conseguindo captar a totalidade.

Para o Hinduísmo, o conhecimento das coisas impermanentes não leva o homem a adotar uma atitude realista para com o mundo e para com a sua própria existência, pois estas coisas não permanecem, eis que carecem de substancialidade, perecem. Em fluxo contínuo, as coisas do mundo se contradizem e refutam constantemente, sendo, nessa perspectiva, ilusórias as formas fenomênicas. Dizem os mestres hindus: quem se apoia no mundo fenomênico sempre encontrará muitas dificuldades na vida. Aparentemente real, ele é, no entanto ilusório, sustentado pela ignorância (avidya) e pela prolongada ação das paixões enganosas.

No Hinduísmo, como na Psicologia ocidental, com algumas poucas variações,  a paixão é uma tendência de maior ou menor duração, acompanhada de estados afetivos e intelectuais, imagens muito poderosas que acabam por se impor, dominando a vida de uma pessoa pela sua intensidade e permanência. Uma inclinação que, instalada, torna-se o centro de tudo, tudo a ela se subordinando. Por isso, a paixão (etimologicamente, sofrimento) lembra cegueira. Nada vemos senão ela. Mesmo no caso de paixões ratificadas pela razão, somos tomados por elas. A paixão pode paralisar a ação normal da razão sobre a nossa conduta, impedindo a determinação da vontade. 

O passional se define por uma oposição ao racional, ao lógico. Neste sentido, é como a loucura. A razão, o racional, liga-se à ordem, à harmonia, à clareza. A paixão lembra irracionalidade, desarmonia, desordem, doença, caos. Desde a antiguidade, a mesma recomendação, na Filosofia, na Religião, na Medicina, na Psicologia, nas doutrinas ocidentais e ocidentais, vigiar as paixões, pois sempre ameaçam a alma e o corpo de desordem, doenças, destruição.

Para os hindus, somente quando trabalhamos com a consciência introvertida, dirigida para o mais profundo do nosso eu (atman) é que podemos alcançar aquele terreno fronteiriço que se situa entre os fenômenos mutáveis, no que eles têm de oscilante e perecível, e a nossa fonte interior, imutável e imperecível. Aquele que procura entender isto pode entrar realmente no conhecimento do próprio eu. Este entendimento tanto nos permite perceber a materialidade do mundo como a sua principal característica, a ilusória, mutável e impermanente, chamada pelos hindus de Maya. 

Este entendimento, que nos fala tão só de energia (Brahman) e de suas transformações, como fica fácil constatar, nada tem de teísta. Nada de mansões celestiais, de Deus, de um Pai ou de uma Mãe celestes ou de intermediários (religiões) a quem possamos dirigir preces ou pedidos salvadores. No lugar de tudo isto, como propõe realmente o Hinduísmo, apenas o ser humano e a sua interioridade, com a sua responsabilidade.

Os mestres hinduístas sempre ensinaram também que o pensamento humano é limitado pelo nosso repertório linguístico disponível. Esse repertório é denominado naman por eles,  nomen em latim, nome em português, o mundo dos nomes. Assim, a substância do ato de pensar, no ser humano, é formada pelo conjunto destes nomes disponíveis, que deve corresponder às formas (rupas, em sânscrito) do mundo exterior percebidas. Rupa é forma, figura, cor. Nama-rupa foi o nome que os mestres hindus deram ao homem que percebe o mundo e o pensa, ou seja, o mundo considerado objetiva e subjetivamente.

Todavia, prosseguem os mestres, porque fenomênico o mundo percebido, os repertórios linguísticos são sempre inadequados para compreendê-lo. Isto é muito notável, por exemplo, quando temos que falar sobre sensações difusas, intuições, ocasião em que normalmente não encontramos sustentação do nosso aparato verbal. Muitas das nossas experiências mentais, dizem eles, vezes sem conta transcendem o nosso pensamento lógico, sendo criadas situações em que nosso repertório linguístico não as consegue descrever.

ARISTÓTELES
A filosofia grega trouxe como resultado prático a destruição da leitura mitológica do mundo, substituindo-a, em nome da eficiência e de resultados concretos ($$$) pela Lógica (Aristóteles), pela Física, pela Astronomia, pelas Ciências Naturais, enfim. A cultura ocidental, a partir das escolas filosóficas pré-socráticas,  sempre considerou, por isso, uma grande vitória do espírito humano a substituição das explicações míticas sobre o universo pelo Logos.

É pelo que acima se expõe que podemos entender porque o pensamento filosófico da Índia se apoia tanto na sua mitologia, razão maior pela qual aqueles que se voltam consciente e honestamente para a cultura indiana costumam destacar essa saudável união entre ambas, tão celebrada por imagens, tradição épica, divindades etc. É por essa razão também que os mestres hindus são profundamente céticos com relação às palavras e com os doutorais textos que o ocidente costuma produzir em geral sobre o pensamento filosófico-religioso. Mais vida e  menos palavras, dizem-nos eles. 

O mundo filosófico-religioso, de um modo geral, e o da Índia em especial, pode ser entendido por nós ocidentais através da teoria dos arquétipos (do grego, arché, antigo, original, e typos, exemplar), por imagens míticas que invadem o campo da nossa consciência. Só as percebemos através de suas manifestações no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, como fatores históricos, biológicos e outros. Em função da vida que levamos, conforme as condições de tempo e lugar, as imagens arquetípicas são apresentadas ao nosso consciente. Os personagens míticos e suas histórias, hindus, gregos ou de outras mitologias, podem atuar sobre a nossa vida consciente também como arquétipos do inconsciente coletivo, despojando-a de sua autonomia, gerando fenômenos de massificação, de alienação, doenças, patologias etc. 

Essas imagens provêm de uma área fora do alcance de nossa vontade consciente, mas fazendo parte de nosso mundo interior. Levam-nos a agir como não pretendemos, impondo-nos papéis que não sabemos por que os desempenhamos, fazem-nos muitas vezes ficar descontentes diante de nossa maneira de agir. Quase sempre, uma sensação de fracasso, de algo que saiu como não queríamos, atos falhos, vexames... Todas estas perturbações têm forte acento emocional e são estritamente pessoais. 

Embora estas imagens se assemelhem de uma pessoa para outra, sua intensidade varia muito. Muitas acabam por formar um núcleo temático, uma espécie de coágulo, e a ele vão se juntando, agregando partículas toda vez que tal núcleo é estimulado por uma referência, por um encontro, por uma palavra que ouvimos, por um acontecimento externo ou interno que não conseguimos resolver, por fraqueza, inabilidade ou incapacidade. 

Esses núcleos temáticos são chamados de complexos. Neles represamos sentimentos, parcial ou totalmente inconscientes, com muita carga afetiva. Às vezes, quietos por longo tempo esses núcleos se ativam, fazendo até oposição às intenções do eu consciente, podendo inclusive romper a sua unidade. Comportamo-nos como se outro eu nos habitasse, dominando-nos. Uns são reconhecidos, outros jamais o serão. O reconhecimento intelectual desses núcleos não basta, pois o fenômeno é valorizado afetivamente. A libertação só virá se desintegrarmos os sentimentos neles represados.

O mundo dos arquétipos é sombrio, insondável e a ele não se tem acesso direto. Só o percebemos por via indireta, através de sua manifestação no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, tanto como fatores históricos ou biológicos, e é através deles que podemos relacionar nossa vida anímica com os mitos. Em função da vida que levamos, conforme as condições existentes internas e externas de tempo, lugar e espaço, as imagens arquetípicas são “apresentadas” ao consciente. O inconsciente coletivo é o conjunto de todos os arquétipos que nele se agrupam, como sedimentos, sempre ativados e propagados pela tradição, migrando de um lado para outro, manifestando-se muitas vezes espontaneamente. O inconsciente coletivo distingue-se do inconsciente pessoal; seus conteúdos nunca estiveram na consciência, devendo-se a sua existência à hereditariedade. Mitologicamente, os arquétipos aparecem como temas, ideias elementares, representações de caráter coletivo, não-pessoal. 

No ocidente, as explorações da teoria do inconsciente coletivo omitem por razões várias que julgamos inoportuno aqui discuti-las, a prioridade do Hinduísmo no que diz respeito à sua formulação. Evidentemente, as elaborações hinduístas não se estruturam como as teses de Jung ou de outros estudiosos que no Ocidente se voltaram para essa teoria,   nem têm a mesma apresentação, mas não se pode deixar de reconhecer a semelhança que a teoria junguiana tem com as formulações hinduístas. 

UPANISHADS
Em alguns Upanishads (Mundaka, Brihad-aranyaka, Taittiriya), encontramos referências a um substrato último da consciência, uma imensidão informal, experimentada ora como vazio, ora como silêncio, ora como obscuridade, considerada como região sem limites que se estende além da vida consciente. É chamada no Vedismo também de atman (alma individual) com o significado,  de alma profunda, identificada com o Brahman, enquanto subjacente ao eu empírico, onde atua a alma individual. 

A alma (atma), coletivamente considerada, se situa no fundo do ser, sendo comum a todos os seres. Os textos  descrevem o inconsciente coletivo como uma espécie de oceano informal de onde poderão emergir aspectos da natureza particularizada de cada ser. Esta imensidade é, no seu todo, impensável, distante, mas poderá estar muito próxima. Este eu profundo não é isto ou aquilo, dizem os textos, é impalpável, não podendo ser destruído. Como oceano é uma unidade, um continuum indivisível que se liga e é comum a todos os seres. O eu pessoal é um nó temporário, um ponto particular da consciência. 


O Hinduísmo fala de um ponto (bindu) onde a alma individual, com o nome de atma encontra a alma universal (atman).

                                       



quinta-feira, 14 de maio de 2020

PRIMATAS, HOMENS E VÍRUS



RAYMOND DART
Há diversas teorias sobre as mudanças que, através de estágios intermediários, foram causando a transformação de primatas em seres humanos. Alimentada tanto por descobertas arqueológicas (fósseis) como pelo desenvolvimento de estudos sobre o comportamento de animais (símios), uma dessas teorias, confirmada por outras, a do antropólogo australiano Raymond Dart, 1893-1957, tornou bastante aceitável a ideia  de que o homem teria se espalhado pelo mundo a partir da África. 

Em 1924, Dart, com base em suas pesquisas e estudos, deu o nome de australopithecus africanus ao primata que, ao longo dos referidos estágios, fora assumindo a posição ereta. Outra questão levantada por Dart foi a de que essa posição, muito adotada por chipanzés, era a melhor para confrontos, tanto  entre eles como entre os seres que deles descenderam, os do gênero Homo.

STANLEY KUBRICK, 1929-1999
Em 1961, Stanley Kubrick baseou-se em afirmações de Dart, algumas postas em circulação por Robert Ardrey, em seu livro African Genesis (A Personal Investigation into the Animal Origins and Nature of Man), para nos dar uma das mais famosas

cenas do cinema no seu fantástico filme "2.001: Uma Odisseia no Espaço". Nesse livro, Ardrey partindo das afirmações de Dart, punha ao alcance do grande público informações como as de que o homem viera do continente africano e que descendia de ancestrais predadores carnívoros que usavam armas, na origem macacos (chipanzés).  

Estudos referentes ao comportamento dos chipanzés, que se fizeram depois, confirmaram o que Dart estabelecera, o que Ardrey divulgara e o que Kubrick nos mostrou em seu grande filme. Muito utilizada também por Kubrick, em entrevistas, uma frase de Dart: nascemos de macacos que se ergueram (homo erectus), fortemente armados, e não de anjos caídos. 



Em termos cronológicos, registre-se que entre, provavelmente, quatro milhões de anos e cinquenta mil anos atrás tivemos, numa sucessão de estágios, o homo erectus (ereto), a seguir, dentre outros, o homo ergaster (trabalhador), o homo habilis (hábil) e o homo sapiens (sábio), este o nosso ancestral mais direto. Como ser racional, o homo sapiens, depois homo sapiens sapiens, foi adquirindo e desenvolvendo ao longo desses milhares de anos, através de muitos confrontos, faculdades de se comunicar por gestos e por sons, de entender suas relações, o que lhe permitiu perceber, enfim, o que lhe acontecia e o que era capaz de fazer. Tudo isto lhe possibilitou que não só pensasse de modo mais complexo, captando mais informações, como pudesse se haver com ideias de reflexão e de comparação, adquirindo a capacidade de prever e de imaginar. Em termos de um número, quanto ao desenvolvimento mental, lembre-se que a transformação do primata em ser humano significou a  passagem de um cérebro de 10 bilhões de neurônios para um de 30 bilhões de neurônios. 
  
Os acontecimentos que mais de perto afetavam os primatas e seus primeiros descendentes eram, apesar da racionalidade conquistada, acontecimentos decorrentes de suas ações, o que eles produziam
quando se relacionavam com os outros seres e com o meio ambiente, de onde retiravam a sua subsistência. Ou seja, principalmente as conseqüências de suas lutas por abrigo, segurança, comida e o seu esforço constante quanto à fabricação de instrumentos e utensílios, além, naturalmente, do domínio das artes ligadas ao fogo.


ADÃO 
(Pierre Montreuil, 1200-1266
Musée de Cluny, Paris)
A palavra homem, hominem (anthropos, em grego), veio para nós do latim e, segundo muitos estudiosos, tem dentro dela o tema humus (terra, chão, barro, limo, cobertura que reveste o solo sem elevação). No antigo hebraico, cunhou-se a palavra Adamah (Adão), para designar esse homem, como animal feito de terra, nome levado à Bíblia pelos escritores judeus Montreuil, 1200-1266, hoje no Musée de Cluny, Paris  

A família dos hominídeos é uma família de mamíferos que compreende hoje uma só espécie, o homem. A sub-espécie do homo sapiens, designada pelo nome de homo neandertalensis, desapareceu por volta de 30.000 aC., conforme nos informa a ciência. Outros estudiosos, por sua vez, lembre-se, por influência religiosa, admitem que a palavra homem teria dentro dela, do grego, homoios, que quer dizer semelhante, semelhante a Deus, no caso. 

Segundo estudos mais ou menos assentados hoje, o homo erectus apareceu primeiramente no continente africano, lá vivendo um longo período, até 150 mil anos atrás. Alimentava-se de vegetais (folhas, frutos e raízes) e animais, usava o fogo, ferramentas e armas, e foi considerado como o primeiro ser a emigrar de lá para outras regiões do nosso planeta, confirmadas assim as especulações de Dart.



À medida que saiu da África, o homo sapiens caminhou pelo mundo, aprendendo, desde esses tempos tão remotos, que para viver melhor, mais equilibradamente, com o ambiente e com os outros seres, precisava se manter dentro de certos limites para evitar tanto agressões de seus semelhantes ou de animais como aquelas  provenientes do meio ambiente (pestes, secas, inundações etc.), de onde retirava a sua subsistência, reações (agressões) que ele, na maior parte das vezes, provocava por suas descontroladas ações, sob pretextos diversos. 

Cena do filme 2001: Uma odisseia no espaço)
Como a história do homem nos revela, porém, o ser humano, descendente dos macacos armados a que se refere Dart, a não ser em breves momentos, jamais conseguiu adotar um comportamento que traduzisse ideias de limites, de harmonia e de solidariedade. Ao contrário, para resolver seus problemas, sempre optou por guerras, genocídios, revoluções, crimes, pela avidez por símbolos de poder e depois pelo ouro, pela violência, em que pese (só para ficarmos com o período entre as origens da civilização ocidental aos nossos dias, isto é dos antigos gregos para cá), em que pese, dizia, o palavrório de muitas doutrinas políticas, religiosas e filosóficas, patrocinadas muitas delas por elites do poder político-religioso (depois econômicas), um palavrório no geral hipócrita e enganador, sempre voltado para a exploração da ignorância e da credulidade das massas.  
  
Particular interesse para nós hoje têm os dois tópicos que decorrem do exposto acima: crescimento descontrolado da população em determinadas áreas e pelas agressões humanas ao meio ambiente. Desde os recuados tempos do homo erectus temos notícias de que desequilíbrios populacionais já eram registrados, neles se incluindo ações conflituosas provocadas, principalmente, pela busca de alimentos, de abrigo, de recursos naturais etc. 

É sabido que o aumento populacional e a disponibilidade de recursos sempre se constituíram num sério problema para essas antigas populações. Ao interagirem com o meio ambiente, esses grupos humanos, no decorrer de séculos e séculos, principalmente os mais ativamente predadores e aguerridos, evidentemente, acabaram por produzir sérios desequilíbrios demográficos, danos e catástrofes no mundo natural, como a história do homem nos conta.
Um dos registros mais interessantes de como o homem sempre se incomodou com excessos demográficos foi conservado, por exemplo, pela mitologia grega. Refiro-me à passagem em que se narra como tais excessos incomodavam muito os gregos.  Trata-se de uma pouco conhecida versão mítica, conservada por poetas,
TROIA
sobre a origem da guerra de Troia, no fundo um conflito entre a Europa (gregos micênicos) e a Ásia Menor (troianos). Conta-nos essa versão que Geia, a Grande Mãe-Terra, muito ressentida com a baderna (conflitos, invasões, excessos populacionais, deslocamentos etc.) que as populações gregas e troianas provocavam com os seus descontroles no  Mar Egeu (Mediterrâneo oriental), pediu que Zeus, o Senhor dos deuses e dos homens, pusesse um fim a isso através de uma guerra, por ele arranjada, que a ambos dizimasse.


É preciso lembrar que foi só a partir da segunda metade do nosso século XIX, através de estudos vários, que começaram a ser abandonadas as “explicações religiosas" e as "bobagens científicas” (terra plana etc) sobre a origem do homem e sua evolução. O atual criacionismo, por exemplo, um rebento dessas “explicações”, ainda é defendido por muitas pessoas em muitos países, inclusive em posições técnicas e matéria de ensino, como no Brasil. 

CHARLES DARWIN
Para entender melhor o tema que abordamos, dentre muitos nomes a destacar, quatro devem ser retidos. Quanto à origem das espécies e sua transformação, o principal nome a registrar é o de Charles Darwin (1809-1882). Claude Bernard (1813-1878) nos deu as bases da fisiologia moderna. Louis Pasteur (1822-1895) nos
LOUIS  PASTEUR
revelou a existência dos micróbios e dos vírus, o que permitiu que se fixassem os princípios da vacinoterapia e da soroterapia. Gregor Mandel (1822-1884) criou a Genética, falando-nos da hereditariedade e do que representavam as partículas que receberam o nome de genes, bases, no ser humano, de caracteres transmissíveis.


CLAUDE  BERNARD
A estes quatro nomes temos que juntar outro, sempre lembrado, principalmente por governos de tendências fascistas, que defenderam posições estapafúrdias quanto ao que está acima. Para que nossas opiniões se fixem melhor, importante citá-lo, pois seu nome vem sendo muito lembrado. Falamos de Thomas Malthus (1766-1834). Com seu Ensaio Geral sobre a População, deixou para nós ideias,

postas em prática, até hoje, como se disse, por muitos governos de tendências fascistas, ideias de que entre os dispositivos mais eficazes para controle demográfico temos, como recurso, as pestes, a fome e as guerras, sempre “ótimos” meios para acabar com excessos demográficos. A estes dispositivos se acrescentariam, dentre outros meios, a castidade antes do casamento e/ou o seu retardamento, a adoção de métodos contraceptivos, composição familiar de acordo com as possibilidades financeiras dos casais etc. 


Se as intervenções malthusianas acima apontadas podem ser estabelecidas por políticas públicas e combatidas, já a outra face do problema nos parece mais dramática. Refiro-me às reações do mundo natural aos descontroles causados pelo próprio homem, sobretudo aqueles que são “vendidos” ao grande público como progresso, conquistas materiais etc. Um exemplo do que citamos aqui é o da deletéria presença de plásticos (plastikos em grego quer dizer flexível), cuja matéria prima é o petróleo, no mundo todo hoje. Não foi preciso muito tempo para se constatar que as vantagens que os plásticos podiam proporcionar eram muito poucas diante dos males por eles causados ao mundo natural e à saúde humana. Sabemos hoje que, pelo continuado uso do plástico pelos seres humanos (quase um século), em todo o mundo, conforme vários estudos de organismos internacionais  comprovam, micro-partículas desse produto já vêm há muito atingindo o intestino, o fígado, a corrente sanguínea e o sistema linfático do ser humano. 

Quanto às reações do mundo natural, a Mãe-Terra dos antigos gregos, não podemos esquecer que a natureza nos faz pagar caríssimo pelas agressões que lhe são feitas. Já se disse que “ela não esquece nem perdoa”, que cedo ou tarde ela revida, tanto levando-nos a guerras, revoluções, à miséria e muito mais, como espalhando violentas doenças contagiosas por agentes que cria, como a que temos hoje nestes tempos de coronavírus.

Estas reações do mundo natural, diante das nefastas e desastrosas intervenções do homem, são, no geral, incubadas às vezes ao longo de muito tempo,  provenientes de inúmeras e continuadas agressões que a ele são feitas. Herdamos da antiga medicina grega os nomes para designar essas reações. Chamamos de epidemia, do grego, epi, sobre, e demos, povo, do verbo epidemein, propagar-se entre o povo, quando temos o caso de uma doença contagiosa que contamina muita gente. Quando a doença se fixa de modo permanente num grupo humano ou numa área, no interior de um país, por exemplo, os gregos a chamavam de endemia (endo, no interior, dentro) e de pandemia (pan, tudo, todos) quando a reação abrangia todos os grupos humanos, se universalizando, como é o caso da doença que hoje está espalhada no mundo todo desde o final de 2.019.

Conforme o seu agente propagador, estas reações da natureza podem ser classificadas como virais, infecciosas ou parasitárias, segundo os “agentes” que ela usa para fazer com que o homem aprenda a não sair de determinados limites. Num sentido mais amplo, vírus é um germe patogênico que não tem condições de
COVID 19
viver muito tempo fora de um organismo, considerado por isso como um parasita de células. Como amplamente divulgado, a pandemia em que hoje estamos mergulhados se deve ao coronavírus (Covid 19), que causa problemas semelhantes aos de uma gripe, agravados seriamente por dificuldades respiratórias agudas que podem levar rapidamente à morte. A principal forma de contágio desse vírus se dá, como sabemos, por contacto com pessoas infectadas que o transmitem  geralmente por partículas de saliva (perdigotos), lançadas por tosse e espirros    


Diante do que o nosso conhecimento vem fixando e por tudo o que desde os remotos tempos de sua história o homem veio acumulando, no sentido de lidar com tais desastres, ganha cada vez mais força a ideia (jamais posta realmente em prática, porém) da necessidade de que, ele, o homem, para viver melhor, isto é, para conviver bem, se desenvolver e procriar harmoniosa e solidariamente, deveria se esforçar para manter um desejável equilíbrio com o meio natural e com os outros seres que o habitam. Quando o ser humano esquece, se descuida ou age criminosamente (o mais comum) com relação a essas obrigações as consequências de suas ações tomam um caráter catastrófico, como hoje.

Fica claro para qualquer pessoa medianamente informada que epidemias e guerras não acontecem por acaso. São produzidas, isto sim, por desequilíbrios introduzidos pelo homem na sua convivência com outros homens e no mundo natural. Nada de considerar esses desastres fruto do acaso, castigos de Deus ou falar que as epidemias ou pandemias são “predadoras gratuitas do progresso humano”, fruto do acaso. Elas aparecem entre nós para que aprendamos, no geral com muito sofrimento, muito sacrifício, a questionar e a corrigir ações humanas, mostrando-nos que não podemos tudo, ou seja, questionar todo um conjunto de sistemas políticos, econômicos e sociais desonestos e corruptos que, a título de trazer o progresso, as vêm gerando  e patrocinando continuamente.

AMAZÔNIA

A eliminação das florestas e da camada de ozônio que envolve a Terra é, como estamos cansados de saber, um crime ambiental que vem sendo cometido diariamente no mundo todo. Por trás dele temos ideias de conquistas materiais, de enriquecimento, de progresso, mas, que no fundo, não passam de omissões governamentais, de irresponsabilidades criminosas, de lucro imoral e criminoso, de avidez desenfreada etc. As intervenções humanas responsáveis por tais fatos criminosos estão provocando no mundo natural, como todos sabemos, o aquecimento do nosso planeta. Já está provado, para não falar de outras possíveis causas destruidoras, que esses acontecimentos podem provocar inclusive o fim da nossa biodiversidade.

DHARMA
O melhor entendimento, acredito, quanto ao que estamos vivendo hoje, com relação  à pandemia que nos atinge em cheio, vem de uma constatação muito simples, a de que ações geram efeitos. O que melhor explica o que estamos vivendo hoje são os conceitos de karma e dharma dos antigos hindus. Etimologicamente, karma, na língua sânscrita, quer dizer ação e, na prática, também aquilo que decorre da ação, do que é feito. É a consequência que não pode ser separada da ação. Quando agimos ou deixamos de agir, quando falamos no nosso celular, dirigimos automóveis, vemos TV, comemos, compramos coisas, jogamos fora o nosso lixo, estamos nos envolvendo com o que os hindus chamam  de karma. Ao agir deste ou daquele modo estamos assumindo o resultado de nossas ações. Se nos alimentamos mal, as consequências deste procedimento estão implícitas neste ato. Se vivemos em ambientes muito poluídos, envenenados, nos arriscamos a ter graves problemas de saúde que poderão inclusive nos levar à morte. 


Karma é, ainda, num sentido amplo, a soma total dos nossos atos.  Tanto aquilo que nos vem do passado e que, embora não o saibamos, interfere na nossa vida atual e com aquilo que estamos fazendo hoje, que afetará também o nosso futuro. Cada semente, cada pensamento, uma palavra, o silêncio, qualquer causa produz um efeito. Isto é o karma. Karma é, portanto, a lei da causação. Sempre que há uma causa um efeito é produzido. Se consideramos a semente como causa, o efeito será a planta, o fruto. Colhemos o que plantamos. 

Não há um efeito, uma conseqüência, no universo sem uma causa que o tenha provocado, antecedido. Quando não conseguimos entender a relação entre o efeito e a sua causa, usamos muito o conceito de acaso para camuflar a nossa ignorância ou a nossa má-fé. À medida, porém, que o conhecimento humano vai aumentando e noções de interdependência (no universo tudo se relaciona com tudo) se confirmam cada vez mais, a argumentação de que as coisas nos acontecem por acaso não pode prevalecer. Nestes tempos de coronavírus, por exemplo, evidentemente, só pessoas muito ignorantes e/ou de má-fé, deixam de ver a relação entre ações humanas, maneiras de se viver, e a epidemia que nos aflige. Nada, pois, de acaso ou de castigo divino. Em qualquer circunstância, o homem é sempre o responsável pelo que lhe acontece, segundo aliás, a própria ideia do que seja o karma nos esclarece, conforme colocaremos mais adiante.  
  
Indo um pouco mais fundo no que estamos a expor, o ser humano, segundo os antigos mestres hindus, tem uma natureza tríplice. Ele é Iccha (sensação, modo de sentir), Gnana (conhecimento) e Kriya (querer, vontade). Estes três elementos, sempre entrelaçados, modelam o karma (ações e efeitos, consequências). Pelos sentidos, tomamos conhecimento das coisas do mundo, de tudo o que nele acontece, de pessoas, de objetos, de automóveis, de roupas, de filosofias de vida, de religiões, de alimentos... Tudo isto, captado através dos nossos sentidos, vai nos afetar de várias maneiras, causando-nos, resumidamente, desejos, promessa de lucros, prazer, vantagens ou aversões, em variados graus, ou indiferença. De um modo geral, os estímulos que nos agradam, mesmo que nos façam mal, nos levam a aproximarmo-nos deles. Outros, que nos causam dor, desprazer, sobretudo ao nível físico, nós os rejeitamos. Em consequência, queremos isto ou aquilo. No geral, tendemos a fugir do que nos causa mal e a aproximarmo-nos, segundo julgamos, do que nos fará algum bem. Ou, então, uma outra possibilidade: permanecemos indiferentes, o estímulo nada provocando em nós, o que é muitíssimo difícil hoje. A maior parte da comunicação coletiva, para não dizer a sua totalidade, tem, como sabemos, por finalidade maior, a transformação de todo ser humano (animais também), de todo indivíduo-cidadão, num consumidor. 

Esse movimento que ativa os seres vivos em função de estímulos externos é chamado de tropismo (tropos, em grego, é direção). Se o ser vai em direção do estímulo, temos o chamado tropismo positivo. Se ele se afasta, temos o tropismo negativo. Mobilizados os nossos sentidos, estimulados, passamos a interpretar o resultado de um acontecimento que vai gerar o que chamamos de desejo. Por exemplo: o objeto que vi me impressionou favoravelmente, julgo que possuí-lo me fará algum bem, julgo. Mas ele é muito caro, pondero. Valerá a pena gastar tanto para obtê-lo? Avalio, tento decidir, angustiando-me até muitas vezes. Alguns objetos do mundo podem nos causar uma impressão tão forte que não tê-los é entrar em grande sofrimento, mesmo que muitas vezes não saibamos bem se esse objeto realmente nos traria algo de bom. Para escapar desta situação dolorosa, de penúria, de carência, empenhamo-nos, procurando um meio de consegui-lo. 

Por trás da ação que me leva a buscar um objeto, alguma coisa, a me aproximar de uma ideia, de uma pessoa, há sempre um desejo. Carente, penso na maneira de obtê-lo, de me relacionar com tal pessoa, ajo então tendo em vista esse fim. Esses três elementos, desejo, pensamento e ação, sempre estão juntos, ligados ao karma. O desejo, no fundo, é o produtor do karma, isto é, da ação. O karma produz os seus frutos, gerando prazer ou dor. Muito prazer? Dou-me por satisfeito? Um pouco? Decepciono-me?

ISAAC  NEWTON
A lei do karma, como lei da causalidade moral, é, no Ocidente, lembremos, também aceita por alguns grupos filosófico-religiosos, adaptada da formulação dos hindus, mas sem o alcance e a importância que eles lhe dão (deram?). A ciência ocidental, recordemos, chegou a ela através de um dos princípios formulados por Isaac Newton (a toda ação corresponde uma reação igual e contrária), entre os sécs. XVII e XVIII, mas considerando-a sempre, somente, sob o ponto de vista científico e não sob o ponto de vista moral. 

Assim como semeamos, assim colheremos, é, pois, a lei. Se praticamos uma má ação, sofreremos sempre, cedo ou tarde, de algum modo, por causa dela. Se praticamos uma boa ação, qualquer que seja o nome que lhe dermos, sentiremos um certo bem-estar, paz interior ou, vá lá!, alguma felicidade.  Não há poder algum no universo que consiga impedir que ações gerem consequências, cedo ou tarde. A lei do karma é inexorável.

As coisas não acontecem no universo por acaso, acidentalmente, de um modo desordenado. Quando não conseguimos perceber a relação entre a causa e o efeito falamos de acaso, dizemos que as coisas acontecem por acaso. O fato é que no universo as coisas se sucedem, umas depois das outras, numa ordem regular, nada de acaso ou caos. Há uma certa e definida conexão entre o que estamos fazendo agora e o que nos acontecerá no futuro. As
VEDAS
pessoas não entendem isto porque vivem, segundo os meus amigos hindus, num estado de avidya (ignorância, literalmente cegueira). Vid quer dizer ver, conhecer; o a é aqui negativo, privativo. O nome dos livros sagrados dos hindus, os Vedas, vem desse verbo. Toda ação produz, assim, um efeito. Esta ação nos dá uma recompensa, um fruto, que vai afetar o nosso caráter. Deixa uma impressão na nossa mente, que nos incitará a repetir ou não o ato.  


Se depositamos uma semente de maçã no solo e a cobrimos com um pouco de terra, depois de algum tempo ali brotará alguma coisa, virão flores e frutos depois. Uma semente de manga gerará mangueiras e assim por diante. Plantando trigo, colheremos trigo; plantando centeio, centeio, e assim por diante. Se plantamos a semente de uma má ação, colheremos dor e sofrimento. A semente de uma ação virtuosa gerará uma colheita de prazer. A lei do Karma nos diz então que semeadura e colheita são inseparáveis.

As nossas ações do passado são responsáveis pelo que somos hoje. Nossas ações de hoje estão modelando o nosso futuro. Nada caótico, pois. Nada acontece por acaso. Não só más ações, mas maus pensamentos também gerarão sofrimento, dificuldades, criando-nos situações de vida insatisfatórias, desfavoráveis, descontentamento, aflição, depressão, desespero.

Se agirmos sempre do mesmo modo, colhemos um hábito. Se ficarmos presos a um hábito, colhemos um caráter. Hábitos repetidos determinam um destino. O destino é produto nosso, nós o construímos. Quebrando essa cadeia, podemos alterar o nosso
JEAN -PAUL  SARTRE, 1905 - 1980.
destino. Corolário: nós não temos a liberdade de determinar o resultado das nossas ações. Temos, sim, a liberdade de determinar o curso das nossas ações. Encontrado num texto hindu: O problema está sempre na ação, não nos frutos. A propósito, compare-se tudo o que aqui se expõe com as teses existencialistas, especialmente com as de Sartre. 


Além disso, fica claro que o que somos hoje é o resultado do que pensamos e fizemos no passado. O que viermos a ser no futuro será o resultado do que pensamos e fazemos hoje. Colhemos o que semeamos. Tudo o que recai sobre nós de bom ou de mau é consequência de ações que praticamos. A lógica da lei do karma é implacável. Sempre seremos punidos ou recompensados, mesmo que não nos lembremos. 
À obrigação que temos de assumir a responsabilidade pelo resultado de nossas ações à doutrina que aqui expomos dá-se o nome de Dharma, palavra que etimologicamente lembra sustentar, suportar, manter, ás vezes com muita dor e sofrimento. Nesse sentido é que este conceito se entrelaça também com o de Karma. Ação, efeitos, conseqüências e responsabilidade. Num sentido mais amplo, dharma é o dever do ponto de vista ético, moral e legal, a justiça, a lei.

O Dharma tem a ver com a função social de cada indivíduo, como ele participa do todo, ao desempenhar os seus papéis. Dessa participação decorrem conceitos de hierarquia, especialização, obrigação, mérito, boa vontade, comportamento, costume. Entendido como virtude, o dharma é o que cada um de nós põe no que faz, perfeição no exercício de seu papel, de sua função. 

A  RODA  DO  DHARMA

No Ocidente essas ideias nos repugnam. Hierarquia social para nós é poder, direitos, prerrogativas, status, dinheiro. O Dharma propõe uma hierarquia de deveres. O arrivismo social, praga ocidental, não existe/não existia na Índia. Impossível a um homem querer enriquecer ou querer se distinguir de qualquer maneira, desertar de sua família, de seus companheiros de juventude, para entrar num meio social diferente. Ele é solidário ao grupo no qual nasceu, dele não pode sair, jamais elevar-se sozinho.