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domingo, 17 de outubro de 2021

INFORMAÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO? I

                                                            

A educação moderna redundou em completo malogro por ter exagerado a importância da técnica. Encarecendo-a em demasia, destruímos o homem. Desenvolvendo capacidades e ciência, sem a compreensão da vida, sem uma percepção total dos movimentos da mente e do desejo, tornar-nos-emos cada vez mais cruéis e isso significa fomentar guerras e pôr em perigo a nossa segurança física. O exclusivo cultivo da técnica tem produzido cientistas, matemáticos, construtores de pontes e conquistadores do espaço. Compreenderão esses homens o processo total da vida? Pode um especialista experimentar a vida como um todo? Só se deixar de ser especialista.

        J.Krishnamurti 

As filosofias da Índia sempre deram muito mais importância à vida interior do ser humano do que às suas conquistas externas. Praticamente, isto significou uma preocupação muito maior com transformações internas do ser humano, mudanças quanto ao seu comportamento, do que com a obtenção de informações sobre o mundo e o aumento de sua memória e domínio sobre ele. Neste texto, trataremos de uma maneira de pensar cujo objetivo é também o de fazer com que o ser humano, através de um mental superior, a ser por ele construído, possa transcender o seu eu pessoal, direcionando-o para a totalidade da existência (mundo natural e vida coletiva). Foi a isto que as antigas filosofias da Índia deram o nome de vida espiritual. 

Para os antigos pensadores da Índia, ao tempo em que começaram a formular as bases do que se denominou Vedismo (primeira fase das suas elaborações filosófico-religiosas), a sua principal preocupação, ao mesmo tempo em que procuravam descrever e explicar o mundo visível, foi a de estudar e de entender o que chamaram de eu interior (atma), uma entidade que consideravam como a base da personalidade consciente e do corpo humano. 

Para eles, este atman era uma partícula individualizada, independente, do que chamavam de Brahman, o Todo, a energia universal (alma universal), eterna, imperecível, autoexistente, de onde tudo o que se manifestava material ou imaterialmente provinha e ao qual tudo retornava, num devenir constante e perene. Assim, tudo o que entrava na existência, como o perceberam os pensadores daquele tempo, pertencia ao impermanente, ficava preso às coordenadas do tempo e do espaço, enquanto o eu interior (atman), porque partícula imperecível do Brahman, ficava fora de tudo isto.  

Para os pensadores ocidentais, a Filosofia, a partir dos gregos, dos pré-socráticos, foi, ao contrário, se voltando cada vez mais para o exterior, para o social, para o político, para o científico (principalmente a partir do Renascimento), procurando elaborar doutrinas no sentido de modificar o mundo material, de dominá-lo. Quanto ao eu interior, pouca ou nenhuma atenção a ele. Só no século XIX, voltaria esse tema a ser abordado de modo mais consequente, com as doutrinas psicológicas que então se criaram. Enquanto isso, quanto à Índia, seus filósofos persistiam na mesma direção: maior ênfase nos estudos da vida interior do ser humano, na sua problemática.  Foi esse direcionamento, mantido por séculos, milênios, que deu origem, no ocidente, a avaliações muito pouco favoráveis sobre a índia, de um modo geral. 

Enquanto o ocidente ia se "modernizando", “progredindo”, a Índia, com os seus deuses, seu complicado politeísmo, e seu sistema de castas, com o seu exotismo, com a sua “espiritualidade”, tornara-se um país facilmente conquistável, símbolo do atraso, da miséria, da ignorância, da doença. Era a Índia um país de grandes recursos naturais, uma fácil conquista para os predadores europeus, a Inglaterra, no caso, que lá permaneceu, dominando-a, por mais de dois séculos. 

NAVIO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS
É bom lembrar que muito antes do domínio britânico, a Índia já atraía a cobiça dos europeus. Os primeiros a chegar foram os portugueses, que lá desembarcaram no século XVI, quando estabeleceram feitorias ao longo da costa de Malabar. Depois dos portugueses, vieram holandeses, franceses e britânicos. Os primeiros navios britânicos aportaram na Índia em 1612. Esses navios eram da Companhia Inglesa das Índias Orientais, que estabeleceu feitorias no litoral indiano. Nessas feitorias, eram realizadas trocas comerciais: produtos indianos (seda, algodão, especiarias.) eram trocados por produtos manufaturados ingleses. Só depois de dois séculos, de grandes lutas, conseguiram os indianos expulsar os ingleses em meados do séc. XX (15 de Agosto de 1947), mesmo assim com grandes prejuízos, perdendo grande parte de seu território (Paquistão e Bangladesh).


É bom lembrar também que com as chamadas “ondas de progresso” globalizantes que o ocidente fez chegar à Índia, mais para o fim da segunda metade do século XX, essa visão negativa sobre a Índia (país do atraso, da miséria, das doenças etc.) veio mudando, de modo a se considerá-la hoje quase como, apesar de alguns problemas ainda constatados nas áreas apontadas, um país que vai assumindo os valores do mundo ocidental, se “modernizando”.  

FILÓSOFOS HINDUÍSTAS
Em que pese tudo o que está acima, o que sempre interessou sobretudo aos filósofos hinduístas menos “ocidentalizados”, ao longo da história do país, ao invés dos índices econômicos, foram os valores éticos e morais. Ou seja: sem perder de vista, na medida do possível, o mundo fenomênico e os aspectos visíveis da sua existência (Economia, Ciência, Tecnologia etc.), estudar e analisar, como itens mais importantes, a interioridade do ser humano, as suas faculdades intelectuais, as operações da sua mente, as teorias do entendimento, as leis da lógica, as doutrinas psicológicas etc. Por todos estes fatores é que, ao contrário dos filósofos ocidentais, sempre interessou mais aos filósofos hinduístas o eu interior, a sua transformação, a sua mudança, em níveis tais que, com relação a alguns, podemos pensar a existência humana como uma sucessão de mortes e renascimentos 

É neste sentido que ao invés de procurar mudar o mundo (o que é importante, é claro!), os filósofos do hinduísmo sempre procuraram trabalhar mais com ideias de transformação interior, de transcendência do próprio eu. Transcendência obtida não através da simples compreensão intelectual, de leituras, mas através de mudanças no modo pelo qual o mundo é sentido e sobre ele se age, pois só estas  mudanças têm relação com a existência como um todo. Etimologicamente, transcendência vem do latim, de trans, além de, e de scandere, subir, remontar. Temos, então: escalar, transpor, elevar-se ultrapassando. Ideias de proeminência, sobrepujamento, sublimidade, de ir além das limitações. 

A história do pensamento indiano, no que ela tem de mais consequente, sempre nos mostrou uma crescente importância dada ao eu interior (atman). Ou seja, sem se desconsiderar o mundo exterior, concreto e tangível, o foco foi sendo direcionado para o eu interior, intangível e imaterial. É claro que este entendimento, em muitos períodos históricos, ocasionou uma perigosa desvalorização do mundo material, produzindo muita dor e sofrimento em termos sociais. Contudo, sempre prosseguiram os seus filósofos, procurando permanecer ligados à sua antiga tradição. 

Para uma melhor compreensão do que aqui se expõe, é preciso lembrar que a história filosófico-religiosa da Índia se divide em três grandes períodos:

 1) Védico (2000-600 aC);

 2) Bramânico (600 aC-1200 dC);

 3) Hinduísta (1200 dC em diante).

Os princípios fundamentais do Hinduísmo são os seguintes: 

a) as metas de vida (artha, kama, dharma e moksha);

b) o sistema de castas (varnas); 

c) o Yoga. Artha, kama e dharma são considerados como ocupações mundanas.  

Na primeira, ARTHA, temos as conquistas materiais, o mundo dos valores, dos objetos, que podem ser obtidos e perdidos. Nesse mundo prevalece matysa-nyaya (a lei do peixe), “peixes grandes comem os peixes pequenos”. Nesse mundo, temos arthashastra, “a ciência da riqueza”. 

Na segunda ocupação, lidamos com os desejos. Quem nele atua é o deus kama (Eros dos gregos), mestre e senhor das coisas materiais, que, com o seu arco e as suas flechas, abrasa o nosso coração de desejos. 

No terceiro item, dharma, são discutidas ideias de responsabilidade, obrigações, deveres, os aspectos morais da vida humana. Começa aqui uma noção mais abrangente da vida social. 

O último princípio tem relação com ideias de redenção, espiritualidade. Moksha é palavra que sugere conceitos de liberação de abrir a mão, de libertação. É nesta etapa que podemos ir além da informação, de sua crítica e do conhecimento obtido para chegarmos à sabedoria vivida como doação sem preocupações com ideias de retribuição e reconhecimento. Moksha (libertação), confunde-se aqui com kaivalya (independência) do físico, do afetivo e do mental inferior. 

sistema de castas
As quatro castas, constituídas pelos árias e seus descendentes, são as seguintes: 
1) Brahmanas - que têm por incumbência os deveres filosófico-religiosos, a conservação e a transmissão dos textos da cultura e da ciência, o ensino em todos os seus níveis. Seu caráter é mais ou menos sacerdotal. 
2) Kshatryas – Guerreiros, administradores, políticos, governantes. 
3) Vaishyas - Comerciantes, agricultores e profissões relacionadas com a vida econômica e bens. 4) Shudras -  Operários, trabalhadores, artífices. Fora do sistema de castas, ficavam os chamados intocáveis, asprishyas, formada pelos remanescentes das populações aborígenes. Segundo o governo indiano, hoje, o sistema de castas já não mais existe na Índia, devido a muitas subdivisões introduzidas e novas formas de organização do trabalho. Todavia, na realidade, embora pareça caminhar para a sua extinção, ele ainda se faz presente, interferindo, até bastante, em várias regiões do país, principalmente no sul. 

O Yoga é uma escola filosófica (darshana) que tem a finalidade de levar o adepto a aprender a dominar os seus corpos físico, afetivo-emocional e mental para poder entrar em contacto com o seu eu verdadeiro (atma), aprendendo também o discípulo a usar o seu mental superior (buddhi). Fixando-se no seu eu verdadeiro (atman), o adepto se torna  um "unido" (yukta) ao Brahman. A palavra que designa a transmissão dos ensinamentos do Yoga é parampara, que significa "um depois do outro", indicando-se claramente a sua forma de transmissão de mestre para discípulo.

PATANJALI
De um modo geral, todas as escolas filosóficas aceitam como expressões maiores do Yoga cinco formas: Raja-Yoga, Hatha-Yoga, Gnana-Yoga ou Jnana-Yoga, Karma-Yoga e Bhakti-Yoga. Como requisitos básicos em todas temos os Yamas e os Niyamas, isto é, restrições e observâncias. Qualquer que seja a forma praticada, sempre presente a ideia de que todas levam ao mesmo fim, a uma experiência estática (samadhi), através da aquisição de conhecimento libertador do eu (atma).

Como proposições básicas no Hinduísmo, temos: 

1) a verdade profunda é diferente daquela que obtemos por nossas percepções sensoriais, mesmo que interpretadas com todos os recursos do nosso intelecto; 

2) partindo da imagem que nos fornecem as aparências, nós nos aproximamos tanto mais da verdade profunda quanto mais nos afastamos da multiplicidade em direção de uma ideia de unidade; 

3) a aparição do universo resulta da manifestação do UM sob a aparência do múltiplo; 

4) o mundo das polaridades, isto é, da consciência da multiplicidade, é concepção imperfeita e inexata da Verdade profunda; 

5) a Verdade profunda deve englobar não só o que é mas também aquilo que ainda não entrou nas categorias da existência; 

6) a alma do homem (atman) é idêntica à totalidade. É possível realizar esta unidade por disciplinas apropriadas, sendo este o fim da existência humana; 

7) até que isto aconteça, a alma reencarnará, passando por uma sucessão de estados, sendo os dois principais o nascimento e a morte. O objetivo da existência, pode-se dizer, é o de escapar desta cadeia de reencarnações (samsara); 

8) cada encarnação é consequência das precedentes e determina, em certa medida, a sucedente; 

9) cada encarnação tem características que a individualizam. Ela difere das outras pelas possibilidades que oferece e os deveres que impõe; 

10) toda alma pode chegar à realização da Verdade profunda (liberação), concebida como união, consciência da não-dualidade, estado de consciência que ultrapassa tanto a unidade como a multiplicidade; 11) o intelecto é incapaz de conhecer a Verdade Suprema.

Os textos hinduístas que melhor falam da via mística são os Upanishads, o Bhagavad Gita, as obras do Vedanta e os das escolas filosóficas (Darshanas). Os fundamentos filosóficos da via mística estão nos Darshanas, os aspectos racionais da religião. Há seis sistemas filosóficos (Shad-Darshanas), seis escolas ortodoxas: 
1) Nyaya, Lógica e Dialética; 
2) Vaiseshika, escola atômica; 
3) Samkhya, ateia; cosmogonia e evolução; 
4) Yoga, técnicas de concentração e de união; 
5) Purva-mimansa, estudos exegéticos e práticas rituais; 
6) Uttara-mimansa, o Vedanta.

 Fora do Hinduísmo, há as chamadas escolas heterodoxas (nastika), como o Budismo e as escolas materialistas ateias (charvakas), todas, como as precedentes, diferentes meios de nos aproximarmos da verdade, visões do mundo, jamais conseguindo captar a totalidade.

Para o Hinduísmo, o conhecimento das coisas impermanentes não leva o homem a adotar uma atitude realista para com o mundo e para com a sua própria existência, pois estas coisas não permanecem, eis que carecem de substancialidade, perecem. Em fluxo contínuo, as coisas do mundo se contradizem e refutam constantemente, sendo, nessa perspectiva, ilusórias as formas fenomênicas. Dizem os mestres hindus: quem se apoia no mundo fenomênico sempre encontrará muitas dificuldades na vida. Aparentemente real, ele é, no entanto ilusório, sustentado pela ignorância (avidya) e pela prolongada ação das paixões enganosas.

No Hinduísmo, como na Psicologia ocidental, com algumas poucas variações,  a paixão é uma tendência de maior ou menor duração, acompanhada de estados afetivos e intelectuais, imagens muito poderosas que acabam por se impor, dominando a vida de uma pessoa pela sua intensidade e permanência. Uma inclinação que, instalada, torna-se o centro de tudo, tudo a ela se subordinando. Por isso, a paixão (etimologicamente, sofrimento) lembra cegueira. Nada vemos senão ela. Mesmo no caso de paixões ratificadas pela razão, somos tomados por elas. A paixão pode paralisar a ação normal da razão sobre a nossa conduta, impedindo a determinação da vontade. 

O passional se define por uma oposição ao racional, ao lógico. Neste sentido, é como a loucura. A razão, o racional, liga-se à ordem, à harmonia, à clareza. A paixão lembra irracionalidade, desarmonia, desordem, doença, caos. Desde a antiguidade, a mesma recomendação, na Filosofia, na Religião, na Medicina, na Psicologia, nas doutrinas ocidentais e ocidentais, vigiar as paixões, pois sempre ameaçam a alma e o corpo de desordem, doenças, destruição.

Para os hindus, somente quando trabalhamos com a consciência introvertida, dirigida para o mais profundo do nosso eu (atman) é que podemos alcançar aquele terreno fronteiriço que se situa entre os fenômenos mutáveis, no que eles têm de oscilante e perecível, e a nossa fonte interior, imutável e imperecível. Aquele que procura entender isto pode entrar realmente no conhecimento do próprio eu. Este entendimento tanto nos permite perceber a materialidade do mundo como a sua principal característica, a ilusória, mutável e impermanente, chamada pelos hindus de Maya. 

Este entendimento, que nos fala tão só de energia (Brahman) e de suas transformações, como fica fácil constatar, nada tem de teísta. Nada de mansões celestiais, de Deus, de um Pai ou de uma Mãe celestes ou de intermediários (religiões) a quem possamos dirigir preces ou pedidos salvadores. No lugar de tudo isto, como propõe realmente o Hinduísmo, apenas o ser humano e a sua interioridade, com a sua responsabilidade.

Os mestres hinduístas sempre ensinaram também que o pensamento humano é limitado pelo nosso repertório linguístico disponível. Esse repertório é denominado naman por eles,  nomen em latim, nome em português, o mundo dos nomes. Assim, a substância do ato de pensar, no ser humano, é formada pelo conjunto destes nomes disponíveis, que deve corresponder às formas (rupas, em sânscrito) do mundo exterior percebidas. Rupa é forma, figura, cor. Nama-rupa foi o nome que os mestres hindus deram ao homem que percebe o mundo e o pensa, ou seja, o mundo considerado objetiva e subjetivamente.

Todavia, prosseguem os mestres, porque fenomênico o mundo percebido, os repertórios linguísticos são sempre inadequados para compreendê-lo. Isto é muito notável, por exemplo, quando temos que falar sobre sensações difusas, intuições, ocasião em que normalmente não encontramos sustentação do nosso aparato verbal. Muitas das nossas experiências mentais, dizem eles, vezes sem conta transcendem o nosso pensamento lógico, sendo criadas situações em que nosso repertório linguístico não as consegue descrever.

ARISTÓTELES
A filosofia grega trouxe como resultado prático a destruição da leitura mitológica do mundo, substituindo-a, em nome da eficiência e de resultados concretos ($$$) pela Lógica (Aristóteles), pela Física, pela Astronomia, pelas Ciências Naturais, enfim. A cultura ocidental, a partir das escolas filosóficas pré-socráticas,  sempre considerou, por isso, uma grande vitória do espírito humano a substituição das explicações míticas sobre o universo pelo Logos.

É pelo que acima se expõe que podemos entender porque o pensamento filosófico da Índia se apoia tanto na sua mitologia, razão maior pela qual aqueles que se voltam consciente e honestamente para a cultura indiana costumam destacar essa saudável união entre ambas, tão celebrada por imagens, tradição épica, divindades etc. É por essa razão também que os mestres hindus são profundamente céticos com relação às palavras e com os doutorais textos que o ocidente costuma produzir em geral sobre o pensamento filosófico-religioso. Mais vida e  menos palavras, dizem-nos eles. 

O mundo filosófico-religioso, de um modo geral, e o da Índia em especial, pode ser entendido por nós ocidentais através da teoria dos arquétipos (do grego, arché, antigo, original, e typos, exemplar), por imagens míticas que invadem o campo da nossa consciência. Só as percebemos através de suas manifestações no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, como fatores históricos, biológicos e outros. Em função da vida que levamos, conforme as condições de tempo e lugar, as imagens arquetípicas são apresentadas ao nosso consciente. Os personagens míticos e suas histórias, hindus, gregos ou de outras mitologias, podem atuar sobre a nossa vida consciente também como arquétipos do inconsciente coletivo, despojando-a de sua autonomia, gerando fenômenos de massificação, de alienação, doenças, patologias etc. 

Essas imagens provêm de uma área fora do alcance de nossa vontade consciente, mas fazendo parte de nosso mundo interior. Levam-nos a agir como não pretendemos, impondo-nos papéis que não sabemos por que os desempenhamos, fazem-nos muitas vezes ficar descontentes diante de nossa maneira de agir. Quase sempre, uma sensação de fracasso, de algo que saiu como não queríamos, atos falhos, vexames... Todas estas perturbações têm forte acento emocional e são estritamente pessoais. 

Embora estas imagens se assemelhem de uma pessoa para outra, sua intensidade varia muito. Muitas acabam por formar um núcleo temático, uma espécie de coágulo, e a ele vão se juntando, agregando partículas toda vez que tal núcleo é estimulado por uma referência, por um encontro, por uma palavra que ouvimos, por um acontecimento externo ou interno que não conseguimos resolver, por fraqueza, inabilidade ou incapacidade. 

Esses núcleos temáticos são chamados de complexos. Neles represamos sentimentos, parcial ou totalmente inconscientes, com muita carga afetiva. Às vezes, quietos por longo tempo esses núcleos se ativam, fazendo até oposição às intenções do eu consciente, podendo inclusive romper a sua unidade. Comportamo-nos como se outro eu nos habitasse, dominando-nos. Uns são reconhecidos, outros jamais o serão. O reconhecimento intelectual desses núcleos não basta, pois o fenômeno é valorizado afetivamente. A libertação só virá se desintegrarmos os sentimentos neles represados.

O mundo dos arquétipos é sombrio, insondável e a ele não se tem acesso direto. Só o percebemos por via indireta, através de sua manifestação no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, tanto como fatores históricos ou biológicos, e é através deles que podemos relacionar nossa vida anímica com os mitos. Em função da vida que levamos, conforme as condições existentes internas e externas de tempo, lugar e espaço, as imagens arquetípicas são “apresentadas” ao consciente. O inconsciente coletivo é o conjunto de todos os arquétipos que nele se agrupam, como sedimentos, sempre ativados e propagados pela tradição, migrando de um lado para outro, manifestando-se muitas vezes espontaneamente. O inconsciente coletivo distingue-se do inconsciente pessoal; seus conteúdos nunca estiveram na consciência, devendo-se a sua existência à hereditariedade. Mitologicamente, os arquétipos aparecem como temas, ideias elementares, representações de caráter coletivo, não-pessoal. 

No ocidente, as explorações da teoria do inconsciente coletivo omitem por razões várias que julgamos inoportuno aqui discuti-las, a prioridade do Hinduísmo no que diz respeito à sua formulação. Evidentemente, as elaborações hinduístas não se estruturam como as teses de Jung ou de outros estudiosos que no Ocidente se voltaram para essa teoria,   nem têm a mesma apresentação, mas não se pode deixar de reconhecer a semelhança que a teoria junguiana tem com as formulações hinduístas. 

UPANISHADS
Em alguns Upanishads (Mundaka, Brihad-aranyaka, Taittiriya), encontramos referências a um substrato último da consciência, uma imensidão informal, experimentada ora como vazio, ora como silêncio, ora como obscuridade, considerada como região sem limites que se estende além da vida consciente. É chamada no Vedismo também de atman (alma individual) com o significado,  de alma profunda, identificada com o Brahman, enquanto subjacente ao eu empírico, onde atua a alma individual. 

A alma (atma), coletivamente considerada, se situa no fundo do ser, sendo comum a todos os seres. Os textos  descrevem o inconsciente coletivo como uma espécie de oceano informal de onde poderão emergir aspectos da natureza particularizada de cada ser. Esta imensidade é, no seu todo, impensável, distante, mas poderá estar muito próxima. Este eu profundo não é isto ou aquilo, dizem os textos, é impalpável, não podendo ser destruído. Como oceano é uma unidade, um continuum indivisível que se liga e é comum a todos os seres. O eu pessoal é um nó temporário, um ponto particular da consciência. 


O Hinduísmo fala de um ponto (bindu) onde a alma individual, com o nome de atma encontra a alma universal (atman).

                                       



segunda-feira, 8 de junho de 2015

COMPLEXOS

                                                  
O texto que vem a seguir é matéria introdutória de um ciclo de Alquimia Simbólica em que procuramos estudar a origem dos nomes do que várias doutrinas psicológicas chamam de complexos, de modo especial as suas relações com o tema da coagulatio.


Comumente, define-se o complexo, quando pensamos na interioridade do ser humano, como um conjunto de ideias, de imagens, de sentimentos ou de representações parcial ou totalmente inconscientes com enorme carga afetiva. Inativo por muito tempo, este conjunto pode às vezes entrar em atividade, fazendo oposição aberta às intenções do eu que se pretende consciente,  rompendo a sua unidade. Quando isto acontece, temos a sensação de que um outro ser nos habita, impondo a sua vontade, adquirindo vários graus de autonomia, chegando mesmo, em situações extremas, a destruir nossa ideia de identidade.

No geral, porém, a ação de um complexo costuma gerar descontentamento, contrariedade, produzindo uma sensação de fracasso, de que algo não saiu como desejávamos. Estas perturbações internas têm como núcleo temático o referido complexo, que apresenta sempre um caráter eminentemente pessoal, de intensidade variável.

A   SÍNTESE   DA   ALQUIMIA
O complexo, sob o ponto de vista da Alquimia Simbólica, constitui-se numa espécie de coágulo e a ele vão se juntando partículas toda vez que estimulado por uma referência, por um acontecimento externo ou interno que não conseguimos resolver, seja por comodismo, inabilidade, fraqueza ou incapacidade. Forma-se assim uma espécie de nó, um lugar de condensação, de fixação, de agregados, um lugar onde algo é bloqueado, onde algo estaciona, não flui. Um ponto morto.

Na medida em que os nós simbolizam uma parada, um constrangimento que imobiliza, simbolizando um tema existencial que não sabemos resolver, eles, os nós, desde a mais remota antiguidade, adquiriram um valor mágico. Nós criam certos pontos fixos não só no corpo físico como no anímico, sendo esta fixação considerada maléfica, pois impede o normal fluxo da energia, um obstáculo sempre. No corpo físico, por exemplo, falamos de nódulos tireoidianos, de nódulos cervicais, de cistos, de cálculos renais, de nó nas tripas, que podem existir nos mais diversos órgãos e tecidos etc.


O aspecto benéfico dos nós aparece com destaque na literatura e na arte religiosa, simbolizando o poder que une, que integra a um todo maior. Na Alquimia, as operações que têm relação com nós têm o nome de conjunctio (conjunção) e coagulatio (coagulação). Nos Upanishads do Hinduísmo, desfazer o nó (granthi) vital é alcançar a libertação (moksha). O nó de Isis, no antigo Egito, era símbolo de imortalidade. Em muitas tradições religiosas, o adepto reafirma a sua fé através de nós que de tempos em tempos (a cada cinco anos, por exemplo) são dados no cordão com que envolve, na região da cintura, as suas vestes talares (batina, sotaina, loba etc.) que lhe descem pelas pernas quase até o chão. 

Metaforicamente, nós são ligações entre pessoas por parentesco, por afeição, por contrato (casamento, formação de uma sociedade comercial etc.). Nó é também aquilo que é mais importante num assunto. Apertos provocados na garganta por uma emoção são chamados de nós, nós na garganta.  É também pelas razões aqui mencionadas que em muitas ordens religiosas os seus membros ficam proibidos de usar roupas com nós. Era o caso dos sacerdotes de Júpiter na antiga Roma, os flamen dialis, cujas vestes não deviam ter nó algum. A mesma interdição é encontrada na tradição islâmica: os peregrinos que se dirigem a Meca não devem ter nós nas suas roupas. A feitiçaria europeia medieval utilizava frequentemente a ligadura (nós em cordões) com a finalidade de impedir o normal funcionamento de órgãos do corpo da pessoa que a ser atingida. 

THEODOR  ZIEHEN
Na psicoterapia, a palavra nó passou a designar tudo o que delimita, inibe, fixa ou bloqueia, dando-se a ela também o nome de complexo, palavra que vem do latim, complector, que traduz a ideia de abraçar, de cercar, de tomar nas mãos, indicando união, reunião, envolvimento, fechamento. O termo complexo, ao que parece, foi usado pela primeira vez pelo psiquiatra alemão Theodor Ziehen (1862-1950) e depois adotado por Carl Gustav Jung (1875-1961) para designar fragmentos soltos da personalidade ou grupos de conteúdo psíquico separados do consciente e que têm um funcionamento autônomo no inconsciente, de onde podem exercer influência sobre o consciente. Para os freudianos, o termo complexo aparece apenas ligado a dois conjuntos de representações inconscientes na vida psíquica, o de Édipo e o de castração.


CARL   GUSTAV   JUNG

Uns nós só são reconhecidos intelectualmente, outros jamais o serão. De qualquer maneira, todos sempre causarão muito dano, muito sofrimento, muito mal-estar e, às vezes, algum bem. Desfazer um complexo, cortá-lo como um nó górdio, não é conveniente, não seria uma vitória psicológica, essa vitória seria tão precária como a conquista da Ásia por Alexandre. Nós (complexos) não podem ser cortados violentamente. Os chineses sempre nos ensinaram que a melhor maneira de desfazê-los é com paciência, com muita calma, pois assim fazendo é possível assegurar uma vitória mais estável, mais duradoura.

Na vida psíquica, difícil muitas vezes é admiti-los para que sua energia seja canalizada, dissolvida ou descarregada. Tentar relacioná-los, caracterizá-los, é importante. Quase sempre temos que pedir ajuda. Se não dissolvidos, podem mesmo nos dividir. Na maioria dos casos, navegam lá no fundo do nosso psiquismo, tendo voz própria. O certo é que não basta o seu reconhecimento intelectual, pois só libertamos o que é vivido com emoção. Nenhum fenômeno existencial se resolve só pelo intelecto. O fenômeno é tanto sentido intelectualmente como, sobretudo, valorizado afetivamente. Temos então que tentar desintegrar os sentimentos neles represados. Só quando sentimos de um modo diferente é que nossa vida realmente muda.


ASCLÉPIO
Os gregos antigos, através dos seus mitos, já haviam notado a importância deste fenômeno. Perto de Atenas, no santuário médico de Epidauro, de Asclépio, o deus-toupeira, os sacerdotes que lá viviam, dentre outros procedimentos, praticavam a nooterapia para curar as mentes doentes. Esta prática procurava reformar o homem por inteiro, psíquica e fisicamente. O objetivo era o de provocar nos que lá se internavam a metanoia, a transformação dos sentimentos represados (incubatio), que, como agentes mórbidos, eram os causadores das doenças. 


RUÍNAS   DO   SANTUÁRIO   DE   EPIDAURO   

Segundo as doutrinas psicológicas, várias as hipóteses, que podemos formular sobre a existência desses núcleos que navegam na nossa interioridade: 1) eles não chegam ao consciente, isto é, não estão suficientemente encorpados de modo a se fazerem sentidos. Contudo, podem acarretar alguns problemas menores, alguma confusão, sem afetar o todo; 2) ganham corpo, formando uma espécie de segundo eu, dividindo-nos. Tornamo-nos dois. Podemos ficar à mercê desse outro eu. Uma espécie de dragão devorador que pode tomar a figura de um pai que se apossa do filho, de uma mãe castradora, de inúmeras maneiras, enfim, que nos levam muitas vezes a reproduzir o que talvez eles nunca tenham exigido de nós; 3) achamos às vezes que o problema vem de fora (mania de perseguição, paranoia) quando, na verdade, é produto interno; 4) às vezes, identificamos o problema, que estava inconsciente, mas o projetamos sobre outra pessoa, partindo para o confronto (ele ou ela é que são os culpados por nós nos sentirmos assim).

Aos complexos foram sendo dados nomes de personagens do mito, da religião, da literatura, principalmente, nomes que nos ajudaram a definir melhor os comportamentos e os padrões de conduta das pessoas por eles possuídos, formando-se assim uma espécie de demonologia. Para os antigos gregos, os demônios eram seres divinos ou semelhantes aos deuses, já que também possuíam poder. O demônio de alguém acabava se identificando com o próprio destino humano. Depois, a palavra demônio veio a designar deuses inferiores e, por fim, espíritos maus.

Os exemplares desse universo estão nos mitos, nas lendas, em histórias antiquíssimas, tradições às vezes esquecidas ou perdidas, que se encontram em todas as culturas. Muitos os chamam de arquétipos (etimologicamente, forjado há muito tempo e, por isso, muito poderoso, um poder que deriva do tempo). Origem? Saíram de um tronco único? Ou cada sociedade os fabrica? O que parece mais aceitável é que esses padrões aparecem como símbolos quando se tornam claros, quando os identificamos, trazendo-os ao nosso consciente. O revestimento desses arquétipos é dado para a cultura ocidental, em grande parte, pela mitologia grega, mas isto não exclui que outras tradições e culturas também possam lhes dar vida.

FREUD
Para Freud, o inconsciente é um depósito para onde vai o que rejeitamos do consciente, sendo isento de movimento e estático, algo sedimentar. Para Jung, o inconsciente existe a priori, uma espécie de vasto oceano do qual emerge uma pequena ilha, o consciente. Para Jung, o inconsciente não é estático e rígido, é dinâmico, movimenta-se sempre, coagulando-se e se dissolvendo, operando numa relação compensatória e complementar com o consciente. No inconsciente, encontram-se conteúdos pessoais, adquiridos em nossa vida, mais aquilo que o próprio inconsciente traz.

Conteúdos da memória dos quais não temos necessidade constante fazem parte do inconsciente pessoal. Uma espécie de banco de dados que pode alimentar a consciência se necessário. Fazem parte também do inconsciente pessoal os chamados complexos. Mais no fundo, temos o que Jung chama de Inconsciente Coletivo, matéria variada, de caráter hereditário. Não depende ele de experiências pessoais, mas seu conteúdo só se expressa através de experiências reais.

Os complexos, como tudo indica, parecem se formar já nos primeiros anos de nossa vida, encontrando-se sempre na base deles a dualidade amor-ódio. Constituem um entrave na vida de qualquer pessoa, freando o pleno desenvolvimento de qualquer personalidade, criando sempre dificuldades de adaptação. Sociedades muito rígidas, de características marcadamente puritanas, por exemplo, favorecem muito o aparecimento de complexos.

Há alguns psicólogos que não consideram os complexos em si mesmos negativos, podendo mesmo se constituírem em impulsionadores do ser humano na direção do seu desenvolvimento. Para isto, porém, seria necessário não só vivê-los intensamente como compreender o papel que poderiam desempenhar como fonte de inspiração para realizações. Seria algo assim como se nos entregássemos a uma grande paixão, a uma boa obsessão. De qualquer modo, pela carga afetiva e emocional que neles se junta, os complexos, pela autonomia que podem adquirir, sempre nos colocam numa situação passiva.


GEORGE  S.  VIERNERCK
Para uma melhor compreensão do que aqui se coloca, entendo oportuno fazer referência a um trecho de uma entrevista concedida por Freud, em 1930, na Europa, ao jornalista germano-americano George Sylvester Viereck (Glimpses of the Great). Viereck, em determinado momento da entrevista, pediu a Freud que se manifestasse sobre a impressão dele, repórter, de que a psicanálise despertava em todos os que a praticavam o espírito da caridade cristã e de que nada existia na vida humana que a psicanálise não pudesse compreender. A reação de Freud veio pronta e firme: Compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância com o mal não é de maneira alguma um corolário do conhecimento. Mais: Minha língua é o alemão. Minha cultura, minha realização são alemãs. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito antissemita na Alemanha e na Áustria. Desde então prefiro me considerar judeu.

O repórter se surpreendeu, pois, como disse, achava que, mais do que qualquer outra pessoa, Freud, o criador da psicanálise, não estaria sujeito a sentimentos como os que expressava. O repórter então concluiu, dizendo que ficava contente por saber que ele demonstrava assim seus sentimentos, seus complexos, de que ele, assim o fazendo, se mostrava um ser humano mortal e não uma espécie de divindade olímpica. Encerrando a conversa, Freud então arrematou: Nossos complexos são a fonte de nossa fraqueza, mas com frequência são também a fonte de nossa força.


PLATÃO
Ao nos aproximarmos deste mundo dos complexos, não podemos esquecer o que Kant disse das paixões, um câncer da razão, e Platão, doença da alma. Nem do que Hegel nos deixou: nada importante se realiza na História sem paixão ou do que Balzac afirmou: A paixão é universal. Sem ela, a religião, a História, a arte e o romance não existiriam. E, para arrematar, o que Rousseau nos legou: É de se crer que as paixões ditaram os primeiros gestos e arrancaram as primeiras vozes... Não se começou raciocinando,
SPINOSA
mas sentindo. Para comover um jovem coração, para responder a um agressor injusto, a natureza dita acentos, gritos, lamentos. Eis aqui as palavras mais antigas inventadas, e eis aqui porque as primeiras línguas foram melodiosas e apaixonadas antes mesmo de serem simples e metódicas... Eis aqui como o sentido figurado nasce antes do literal, quando a paixão fascina os nossos olhos e a primeira noção que se nos oferece não é a da verdade. Por fim, Spinosa: A única liberdade possível se realiza através do conhecimento das próprias paixões.