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domingo, 17 de outubro de 2021

INFORMAÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO? I

                                                            

A educação moderna redundou em completo malogro por ter exagerado a importância da técnica. Encarecendo-a em demasia, destruímos o homem. Desenvolvendo capacidades e ciência, sem a compreensão da vida, sem uma percepção total dos movimentos da mente e do desejo, tornar-nos-emos cada vez mais cruéis e isso significa fomentar guerras e pôr em perigo a nossa segurança física. O exclusivo cultivo da técnica tem produzido cientistas, matemáticos, construtores de pontes e conquistadores do espaço. Compreenderão esses homens o processo total da vida? Pode um especialista experimentar a vida como um todo? Só se deixar de ser especialista.

        J.Krishnamurti 

As filosofias da Índia sempre deram muito mais importância à vida interior do ser humano do que às suas conquistas externas. Praticamente, isto significou uma preocupação muito maior com transformações internas do ser humano, mudanças quanto ao seu comportamento, do que com a obtenção de informações sobre o mundo e o aumento de sua memória e domínio sobre ele. Neste texto, trataremos de uma maneira de pensar cujo objetivo é também o de fazer com que o ser humano, através de um mental superior, a ser por ele construído, possa transcender o seu eu pessoal, direcionando-o para a totalidade da existência (mundo natural e vida coletiva). Foi a isto que as antigas filosofias da Índia deram o nome de vida espiritual. 

Para os antigos pensadores da Índia, ao tempo em que começaram a formular as bases do que se denominou Vedismo (primeira fase das suas elaborações filosófico-religiosas), a sua principal preocupação, ao mesmo tempo em que procuravam descrever e explicar o mundo visível, foi a de estudar e de entender o que chamaram de eu interior (atma), uma entidade que consideravam como a base da personalidade consciente e do corpo humano. 

Para eles, este atman era uma partícula individualizada, independente, do que chamavam de Brahman, o Todo, a energia universal (alma universal), eterna, imperecível, autoexistente, de onde tudo o que se manifestava material ou imaterialmente provinha e ao qual tudo retornava, num devenir constante e perene. Assim, tudo o que entrava na existência, como o perceberam os pensadores daquele tempo, pertencia ao impermanente, ficava preso às coordenadas do tempo e do espaço, enquanto o eu interior (atman), porque partícula imperecível do Brahman, ficava fora de tudo isto.  

Para os pensadores ocidentais, a Filosofia, a partir dos gregos, dos pré-socráticos, foi, ao contrário, se voltando cada vez mais para o exterior, para o social, para o político, para o científico (principalmente a partir do Renascimento), procurando elaborar doutrinas no sentido de modificar o mundo material, de dominá-lo. Quanto ao eu interior, pouca ou nenhuma atenção a ele. Só no século XIX, voltaria esse tema a ser abordado de modo mais consequente, com as doutrinas psicológicas que então se criaram. Enquanto isso, quanto à Índia, seus filósofos persistiam na mesma direção: maior ênfase nos estudos da vida interior do ser humano, na sua problemática.  Foi esse direcionamento, mantido por séculos, milênios, que deu origem, no ocidente, a avaliações muito pouco favoráveis sobre a índia, de um modo geral. 

Enquanto o ocidente ia se "modernizando", “progredindo”, a Índia, com os seus deuses, seu complicado politeísmo, e seu sistema de castas, com o seu exotismo, com a sua “espiritualidade”, tornara-se um país facilmente conquistável, símbolo do atraso, da miséria, da ignorância, da doença. Era a Índia um país de grandes recursos naturais, uma fácil conquista para os predadores europeus, a Inglaterra, no caso, que lá permaneceu, dominando-a, por mais de dois séculos. 

NAVIO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS
É bom lembrar que muito antes do domínio britânico, a Índia já atraía a cobiça dos europeus. Os primeiros a chegar foram os portugueses, que lá desembarcaram no século XVI, quando estabeleceram feitorias ao longo da costa de Malabar. Depois dos portugueses, vieram holandeses, franceses e britânicos. Os primeiros navios britânicos aportaram na Índia em 1612. Esses navios eram da Companhia Inglesa das Índias Orientais, que estabeleceu feitorias no litoral indiano. Nessas feitorias, eram realizadas trocas comerciais: produtos indianos (seda, algodão, especiarias.) eram trocados por produtos manufaturados ingleses. Só depois de dois séculos, de grandes lutas, conseguiram os indianos expulsar os ingleses em meados do séc. XX (15 de Agosto de 1947), mesmo assim com grandes prejuízos, perdendo grande parte de seu território (Paquistão e Bangladesh).


É bom lembrar também que com as chamadas “ondas de progresso” globalizantes que o ocidente fez chegar à Índia, mais para o fim da segunda metade do século XX, essa visão negativa sobre a Índia (país do atraso, da miséria, das doenças etc.) veio mudando, de modo a se considerá-la hoje quase como, apesar de alguns problemas ainda constatados nas áreas apontadas, um país que vai assumindo os valores do mundo ocidental, se “modernizando”.  

FILÓSOFOS HINDUÍSTAS
Em que pese tudo o que está acima, o que sempre interessou sobretudo aos filósofos hinduístas menos “ocidentalizados”, ao longo da história do país, ao invés dos índices econômicos, foram os valores éticos e morais. Ou seja: sem perder de vista, na medida do possível, o mundo fenomênico e os aspectos visíveis da sua existência (Economia, Ciência, Tecnologia etc.), estudar e analisar, como itens mais importantes, a interioridade do ser humano, as suas faculdades intelectuais, as operações da sua mente, as teorias do entendimento, as leis da lógica, as doutrinas psicológicas etc. Por todos estes fatores é que, ao contrário dos filósofos ocidentais, sempre interessou mais aos filósofos hinduístas o eu interior, a sua transformação, a sua mudança, em níveis tais que, com relação a alguns, podemos pensar a existência humana como uma sucessão de mortes e renascimentos 

É neste sentido que ao invés de procurar mudar o mundo (o que é importante, é claro!), os filósofos do hinduísmo sempre procuraram trabalhar mais com ideias de transformação interior, de transcendência do próprio eu. Transcendência obtida não através da simples compreensão intelectual, de leituras, mas através de mudanças no modo pelo qual o mundo é sentido e sobre ele se age, pois só estas  mudanças têm relação com a existência como um todo. Etimologicamente, transcendência vem do latim, de trans, além de, e de scandere, subir, remontar. Temos, então: escalar, transpor, elevar-se ultrapassando. Ideias de proeminência, sobrepujamento, sublimidade, de ir além das limitações. 

A história do pensamento indiano, no que ela tem de mais consequente, sempre nos mostrou uma crescente importância dada ao eu interior (atman). Ou seja, sem se desconsiderar o mundo exterior, concreto e tangível, o foco foi sendo direcionado para o eu interior, intangível e imaterial. É claro que este entendimento, em muitos períodos históricos, ocasionou uma perigosa desvalorização do mundo material, produzindo muita dor e sofrimento em termos sociais. Contudo, sempre prosseguiram os seus filósofos, procurando permanecer ligados à sua antiga tradição. 

Para uma melhor compreensão do que aqui se expõe, é preciso lembrar que a história filosófico-religiosa da Índia se divide em três grandes períodos:

 1) Védico (2000-600 aC);

 2) Bramânico (600 aC-1200 dC);

 3) Hinduísta (1200 dC em diante).

Os princípios fundamentais do Hinduísmo são os seguintes: 

a) as metas de vida (artha, kama, dharma e moksha);

b) o sistema de castas (varnas); 

c) o Yoga. Artha, kama e dharma são considerados como ocupações mundanas.  

Na primeira, ARTHA, temos as conquistas materiais, o mundo dos valores, dos objetos, que podem ser obtidos e perdidos. Nesse mundo prevalece matysa-nyaya (a lei do peixe), “peixes grandes comem os peixes pequenos”. Nesse mundo, temos arthashastra, “a ciência da riqueza”. 

Na segunda ocupação, lidamos com os desejos. Quem nele atua é o deus kama (Eros dos gregos), mestre e senhor das coisas materiais, que, com o seu arco e as suas flechas, abrasa o nosso coração de desejos. 

No terceiro item, dharma, são discutidas ideias de responsabilidade, obrigações, deveres, os aspectos morais da vida humana. Começa aqui uma noção mais abrangente da vida social. 

O último princípio tem relação com ideias de redenção, espiritualidade. Moksha é palavra que sugere conceitos de liberação de abrir a mão, de libertação. É nesta etapa que podemos ir além da informação, de sua crítica e do conhecimento obtido para chegarmos à sabedoria vivida como doação sem preocupações com ideias de retribuição e reconhecimento. Moksha (libertação), confunde-se aqui com kaivalya (independência) do físico, do afetivo e do mental inferior. 

sistema de castas
As quatro castas, constituídas pelos árias e seus descendentes, são as seguintes: 
1) Brahmanas - que têm por incumbência os deveres filosófico-religiosos, a conservação e a transmissão dos textos da cultura e da ciência, o ensino em todos os seus níveis. Seu caráter é mais ou menos sacerdotal. 
2) Kshatryas – Guerreiros, administradores, políticos, governantes. 
3) Vaishyas - Comerciantes, agricultores e profissões relacionadas com a vida econômica e bens. 4) Shudras -  Operários, trabalhadores, artífices. Fora do sistema de castas, ficavam os chamados intocáveis, asprishyas, formada pelos remanescentes das populações aborígenes. Segundo o governo indiano, hoje, o sistema de castas já não mais existe na Índia, devido a muitas subdivisões introduzidas e novas formas de organização do trabalho. Todavia, na realidade, embora pareça caminhar para a sua extinção, ele ainda se faz presente, interferindo, até bastante, em várias regiões do país, principalmente no sul. 

O Yoga é uma escola filosófica (darshana) que tem a finalidade de levar o adepto a aprender a dominar os seus corpos físico, afetivo-emocional e mental para poder entrar em contacto com o seu eu verdadeiro (atma), aprendendo também o discípulo a usar o seu mental superior (buddhi). Fixando-se no seu eu verdadeiro (atman), o adepto se torna  um "unido" (yukta) ao Brahman. A palavra que designa a transmissão dos ensinamentos do Yoga é parampara, que significa "um depois do outro", indicando-se claramente a sua forma de transmissão de mestre para discípulo.

PATANJALI
De um modo geral, todas as escolas filosóficas aceitam como expressões maiores do Yoga cinco formas: Raja-Yoga, Hatha-Yoga, Gnana-Yoga ou Jnana-Yoga, Karma-Yoga e Bhakti-Yoga. Como requisitos básicos em todas temos os Yamas e os Niyamas, isto é, restrições e observâncias. Qualquer que seja a forma praticada, sempre presente a ideia de que todas levam ao mesmo fim, a uma experiência estática (samadhi), através da aquisição de conhecimento libertador do eu (atma).

Como proposições básicas no Hinduísmo, temos: 

1) a verdade profunda é diferente daquela que obtemos por nossas percepções sensoriais, mesmo que interpretadas com todos os recursos do nosso intelecto; 

2) partindo da imagem que nos fornecem as aparências, nós nos aproximamos tanto mais da verdade profunda quanto mais nos afastamos da multiplicidade em direção de uma ideia de unidade; 

3) a aparição do universo resulta da manifestação do UM sob a aparência do múltiplo; 

4) o mundo das polaridades, isto é, da consciência da multiplicidade, é concepção imperfeita e inexata da Verdade profunda; 

5) a Verdade profunda deve englobar não só o que é mas também aquilo que ainda não entrou nas categorias da existência; 

6) a alma do homem (atman) é idêntica à totalidade. É possível realizar esta unidade por disciplinas apropriadas, sendo este o fim da existência humana; 

7) até que isto aconteça, a alma reencarnará, passando por uma sucessão de estados, sendo os dois principais o nascimento e a morte. O objetivo da existência, pode-se dizer, é o de escapar desta cadeia de reencarnações (samsara); 

8) cada encarnação é consequência das precedentes e determina, em certa medida, a sucedente; 

9) cada encarnação tem características que a individualizam. Ela difere das outras pelas possibilidades que oferece e os deveres que impõe; 

10) toda alma pode chegar à realização da Verdade profunda (liberação), concebida como união, consciência da não-dualidade, estado de consciência que ultrapassa tanto a unidade como a multiplicidade; 11) o intelecto é incapaz de conhecer a Verdade Suprema.

Os textos hinduístas que melhor falam da via mística são os Upanishads, o Bhagavad Gita, as obras do Vedanta e os das escolas filosóficas (Darshanas). Os fundamentos filosóficos da via mística estão nos Darshanas, os aspectos racionais da religião. Há seis sistemas filosóficos (Shad-Darshanas), seis escolas ortodoxas: 
1) Nyaya, Lógica e Dialética; 
2) Vaiseshika, escola atômica; 
3) Samkhya, ateia; cosmogonia e evolução; 
4) Yoga, técnicas de concentração e de união; 
5) Purva-mimansa, estudos exegéticos e práticas rituais; 
6) Uttara-mimansa, o Vedanta.

 Fora do Hinduísmo, há as chamadas escolas heterodoxas (nastika), como o Budismo e as escolas materialistas ateias (charvakas), todas, como as precedentes, diferentes meios de nos aproximarmos da verdade, visões do mundo, jamais conseguindo captar a totalidade.

Para o Hinduísmo, o conhecimento das coisas impermanentes não leva o homem a adotar uma atitude realista para com o mundo e para com a sua própria existência, pois estas coisas não permanecem, eis que carecem de substancialidade, perecem. Em fluxo contínuo, as coisas do mundo se contradizem e refutam constantemente, sendo, nessa perspectiva, ilusórias as formas fenomênicas. Dizem os mestres hindus: quem se apoia no mundo fenomênico sempre encontrará muitas dificuldades na vida. Aparentemente real, ele é, no entanto ilusório, sustentado pela ignorância (avidya) e pela prolongada ação das paixões enganosas.

No Hinduísmo, como na Psicologia ocidental, com algumas poucas variações,  a paixão é uma tendência de maior ou menor duração, acompanhada de estados afetivos e intelectuais, imagens muito poderosas que acabam por se impor, dominando a vida de uma pessoa pela sua intensidade e permanência. Uma inclinação que, instalada, torna-se o centro de tudo, tudo a ela se subordinando. Por isso, a paixão (etimologicamente, sofrimento) lembra cegueira. Nada vemos senão ela. Mesmo no caso de paixões ratificadas pela razão, somos tomados por elas. A paixão pode paralisar a ação normal da razão sobre a nossa conduta, impedindo a determinação da vontade. 

O passional se define por uma oposição ao racional, ao lógico. Neste sentido, é como a loucura. A razão, o racional, liga-se à ordem, à harmonia, à clareza. A paixão lembra irracionalidade, desarmonia, desordem, doença, caos. Desde a antiguidade, a mesma recomendação, na Filosofia, na Religião, na Medicina, na Psicologia, nas doutrinas ocidentais e ocidentais, vigiar as paixões, pois sempre ameaçam a alma e o corpo de desordem, doenças, destruição.

Para os hindus, somente quando trabalhamos com a consciência introvertida, dirigida para o mais profundo do nosso eu (atman) é que podemos alcançar aquele terreno fronteiriço que se situa entre os fenômenos mutáveis, no que eles têm de oscilante e perecível, e a nossa fonte interior, imutável e imperecível. Aquele que procura entender isto pode entrar realmente no conhecimento do próprio eu. Este entendimento tanto nos permite perceber a materialidade do mundo como a sua principal característica, a ilusória, mutável e impermanente, chamada pelos hindus de Maya. 

Este entendimento, que nos fala tão só de energia (Brahman) e de suas transformações, como fica fácil constatar, nada tem de teísta. Nada de mansões celestiais, de Deus, de um Pai ou de uma Mãe celestes ou de intermediários (religiões) a quem possamos dirigir preces ou pedidos salvadores. No lugar de tudo isto, como propõe realmente o Hinduísmo, apenas o ser humano e a sua interioridade, com a sua responsabilidade.

Os mestres hinduístas sempre ensinaram também que o pensamento humano é limitado pelo nosso repertório linguístico disponível. Esse repertório é denominado naman por eles,  nomen em latim, nome em português, o mundo dos nomes. Assim, a substância do ato de pensar, no ser humano, é formada pelo conjunto destes nomes disponíveis, que deve corresponder às formas (rupas, em sânscrito) do mundo exterior percebidas. Rupa é forma, figura, cor. Nama-rupa foi o nome que os mestres hindus deram ao homem que percebe o mundo e o pensa, ou seja, o mundo considerado objetiva e subjetivamente.

Todavia, prosseguem os mestres, porque fenomênico o mundo percebido, os repertórios linguísticos são sempre inadequados para compreendê-lo. Isto é muito notável, por exemplo, quando temos que falar sobre sensações difusas, intuições, ocasião em que normalmente não encontramos sustentação do nosso aparato verbal. Muitas das nossas experiências mentais, dizem eles, vezes sem conta transcendem o nosso pensamento lógico, sendo criadas situações em que nosso repertório linguístico não as consegue descrever.

ARISTÓTELES
A filosofia grega trouxe como resultado prático a destruição da leitura mitológica do mundo, substituindo-a, em nome da eficiência e de resultados concretos ($$$) pela Lógica (Aristóteles), pela Física, pela Astronomia, pelas Ciências Naturais, enfim. A cultura ocidental, a partir das escolas filosóficas pré-socráticas,  sempre considerou, por isso, uma grande vitória do espírito humano a substituição das explicações míticas sobre o universo pelo Logos.

É pelo que acima se expõe que podemos entender porque o pensamento filosófico da Índia se apoia tanto na sua mitologia, razão maior pela qual aqueles que se voltam consciente e honestamente para a cultura indiana costumam destacar essa saudável união entre ambas, tão celebrada por imagens, tradição épica, divindades etc. É por essa razão também que os mestres hindus são profundamente céticos com relação às palavras e com os doutorais textos que o ocidente costuma produzir em geral sobre o pensamento filosófico-religioso. Mais vida e  menos palavras, dizem-nos eles. 

O mundo filosófico-religioso, de um modo geral, e o da Índia em especial, pode ser entendido por nós ocidentais através da teoria dos arquétipos (do grego, arché, antigo, original, e typos, exemplar), por imagens míticas que invadem o campo da nossa consciência. Só as percebemos através de suas manifestações no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, como fatores históricos, biológicos e outros. Em função da vida que levamos, conforme as condições de tempo e lugar, as imagens arquetípicas são apresentadas ao nosso consciente. Os personagens míticos e suas histórias, hindus, gregos ou de outras mitologias, podem atuar sobre a nossa vida consciente também como arquétipos do inconsciente coletivo, despojando-a de sua autonomia, gerando fenômenos de massificação, de alienação, doenças, patologias etc. 

Essas imagens provêm de uma área fora do alcance de nossa vontade consciente, mas fazendo parte de nosso mundo interior. Levam-nos a agir como não pretendemos, impondo-nos papéis que não sabemos por que os desempenhamos, fazem-nos muitas vezes ficar descontentes diante de nossa maneira de agir. Quase sempre, uma sensação de fracasso, de algo que saiu como não queríamos, atos falhos, vexames... Todas estas perturbações têm forte acento emocional e são estritamente pessoais. 

Embora estas imagens se assemelhem de uma pessoa para outra, sua intensidade varia muito. Muitas acabam por formar um núcleo temático, uma espécie de coágulo, e a ele vão se juntando, agregando partículas toda vez que tal núcleo é estimulado por uma referência, por um encontro, por uma palavra que ouvimos, por um acontecimento externo ou interno que não conseguimos resolver, por fraqueza, inabilidade ou incapacidade. 

Esses núcleos temáticos são chamados de complexos. Neles represamos sentimentos, parcial ou totalmente inconscientes, com muita carga afetiva. Às vezes, quietos por longo tempo esses núcleos se ativam, fazendo até oposição às intenções do eu consciente, podendo inclusive romper a sua unidade. Comportamo-nos como se outro eu nos habitasse, dominando-nos. Uns são reconhecidos, outros jamais o serão. O reconhecimento intelectual desses núcleos não basta, pois o fenômeno é valorizado afetivamente. A libertação só virá se desintegrarmos os sentimentos neles represados.

O mundo dos arquétipos é sombrio, insondável e a ele não se tem acesso direto. Só o percebemos por via indireta, através de sua manifestação no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, tanto como fatores históricos ou biológicos, e é através deles que podemos relacionar nossa vida anímica com os mitos. Em função da vida que levamos, conforme as condições existentes internas e externas de tempo, lugar e espaço, as imagens arquetípicas são “apresentadas” ao consciente. O inconsciente coletivo é o conjunto de todos os arquétipos que nele se agrupam, como sedimentos, sempre ativados e propagados pela tradição, migrando de um lado para outro, manifestando-se muitas vezes espontaneamente. O inconsciente coletivo distingue-se do inconsciente pessoal; seus conteúdos nunca estiveram na consciência, devendo-se a sua existência à hereditariedade. Mitologicamente, os arquétipos aparecem como temas, ideias elementares, representações de caráter coletivo, não-pessoal. 

No ocidente, as explorações da teoria do inconsciente coletivo omitem por razões várias que julgamos inoportuno aqui discuti-las, a prioridade do Hinduísmo no que diz respeito à sua formulação. Evidentemente, as elaborações hinduístas não se estruturam como as teses de Jung ou de outros estudiosos que no Ocidente se voltaram para essa teoria,   nem têm a mesma apresentação, mas não se pode deixar de reconhecer a semelhança que a teoria junguiana tem com as formulações hinduístas. 

UPANISHADS
Em alguns Upanishads (Mundaka, Brihad-aranyaka, Taittiriya), encontramos referências a um substrato último da consciência, uma imensidão informal, experimentada ora como vazio, ora como silêncio, ora como obscuridade, considerada como região sem limites que se estende além da vida consciente. É chamada no Vedismo também de atman (alma individual) com o significado,  de alma profunda, identificada com o Brahman, enquanto subjacente ao eu empírico, onde atua a alma individual. 

A alma (atma), coletivamente considerada, se situa no fundo do ser, sendo comum a todos os seres. Os textos  descrevem o inconsciente coletivo como uma espécie de oceano informal de onde poderão emergir aspectos da natureza particularizada de cada ser. Esta imensidade é, no seu todo, impensável, distante, mas poderá estar muito próxima. Este eu profundo não é isto ou aquilo, dizem os textos, é impalpável, não podendo ser destruído. Como oceano é uma unidade, um continuum indivisível que se liga e é comum a todos os seres. O eu pessoal é um nó temporário, um ponto particular da consciência. 


O Hinduísmo fala de um ponto (bindu) onde a alma individual, com o nome de atma encontra a alma universal (atman).

                                       



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (1)


SAGITÁRIO  ( BOLONHA, SÉCULO XIII )
                                          
Nas antigas tradições astrológicas da Ásia, o signo de Sagitário sempre foi representado por uma flecha ou por uma flecha e um arco. Nomes que o designavam, nomes como Kaman (Pérsia), Yai (Turquia), Kertko /Caldeia), Al Kaus (Arábia), todos, têm relação com a flecha. Há registros de que no antigo Egito a constelação era representada por um cisne ou um íbis, embora o zodíaco de Denderah nos mostre um arqueiro bifronte, uma parte humana e outra leonina. Na Mesopotâmia, a constelação era representada também por uma figura híbrida, um ser muito especial, parecido com um sátiro grego.  Inscrições cuneiformes designam a constelação por nomes como O Forte e O Gigante Rei da Guerra, personificando o arqueiro deus da guerra, Nergal, depois deus dos infernos, confundido às vezes com o planeta Marte. 

Os hindus, há mais de 3.000 anos aC, já representavam Sagitário por um cavalo, por uma cabeça de cavalo ou por um cavaleiro. O nome sânscrito desta constelação que se fixou para nós foi

entretanto o de Dhanus (arco). Na tradição dos Upanishads, o signo de Dhanus propõe a identificação com a flecha, representando o conhecimento que liberta do karma e do ciclo dos renascimentos. No antigo mundo védico, a sílaba sagrada AUM (OM) era o arco, atma, a alma, a flecha, sendo o Brahman, o Todo, o alvo, tudo isto sugerindo a saída da multiplicidade e do samsara pela volta à unidade. 

Nos tempos védicos, os astrólogos davam o nome de Brihaspati a uma dividade que tutelava o planeta Guru, Júpiter na astrologia ocidental, regente de Dhanus. Com o tempo, essa distinção acabou desaparecendo, sendo Brihaspati, denominado como “pai dos deuses” ou “preceptor dos deuses” citado astrologicamente como o próprio regente do signo. Brh é um prefixo sânscrito que significa grande, traduzindo ideias de desenvolvimento, crescimento, expansão. Pati significa senhor. Brihaspati é, assim, aquele que governa porque é grande, porque tem poder  e porque se expande. 

BRIHASPATI
Brihaspati, entre os hindus age como a inteligência e a palavra dos deuses, sendo identificado como a divindade que permite ao ser humano ter acesso a um nível de conhecimento que lhe possibilita ultrapassar o que o mental comum, inconstante e instável, lhe fornece através de budha (o planeta Mercúrio) e das condicionantes impregnações lunares (manas). É o conhecimento proporcionado por Brihaspati (Júpiter), como buddhi, que põe o hindu não só em contacto com o testemunho de grandes sábios do passado como lhe possibilita o acesso a um tipo de conhecimento superior, libertador, estabelecendo uma ligação com o Brahman.

Ao se identificar com a flecha, conforme proposta do nono signo astrológico, Dhanus, o homem adquire o conhecimento que o liberta do ciclo dos renascimentos (samsara), transformando o que nele há de animal e racional em espiritual, liquidando-se, assim, os seus débitos kármicos.  A filosofia vedantina, como sabemos, distingue quatro tipos de karma. O primeiro é o sanchita-karma, a totalidade das sementes (efeitos) acumuladas, provenientes de encarnações anteriores, que ainda não começaram a germinar, encontrado na quarta casa astrológica. 

O segundo é o prarabdha-karma, a parte do anterior que numa encarnação será vivida, colhida, constituindo a nossa presente biografia; são os efeitos que repercutem numa encarnação presente, que estão no Meio do Céu. O terceiro é o kriyamana-karma, a nossa capacidade de discernir quanto às ações do presente que poderão continuar abastecendo o sanchita-karma e que, como tal, deverão ser evitadas; este conhecimento é encontrado (ou não) na nona casa. Finalmente, o agama-karma, a nossa capacidade de prever o resultado futuro de nossas ações, realizemo-las ou não; confunde-se com o nosso livre-arbítrio. Chama-se upaya (método) o conjunto de recursos encontrados (ou não) na nona casa que podem ser usados para nos ajudar a trabalhar com o kriyamana-karma e o  agama-karma. Para os antigos astrólogos hindus, o prarabdha-karma, o kriyamana-karma e o agami-karma, na vida de alguém, seriam explicados por Jyotish. As mudanças e as transformações que alguém desejasse realizar em sua vida só ocorreriam através do conhecimento que ele tivesse do seu kriyamana-karma e do seu agama-karma, isto é, do que astrologicamente significam o signo de Sagitário (Dhanus), a sua nona casa. 


JYOTISH

Além disso, a transformação desejada só se viabilizaria se conhecido como o seu prarabdha-karma (a sua décima casa), no qual está o karma a ser colhido numa presente encarnação, estaria afetando a sua vida em função da  qualidade, da intensidade e das características que apresenta, segundo os seus níveis: 1) karma não-fixo (adridha); 2) karma fixo/não fixo (dridha-adridha); 3) karma fixo (dridha). No primeiro caso, temos o karma que pode ser removido sem grandes problemas, com algum esforço, porém. Um karma leve. No segundo caso, temos o caso de débitos kármicos, de intensidade média, só removidos com muito esforço. No terceiro caso, temos os débitos kármicos muito pesados, severos, que exigirão  esforços constantes por uma vida inteira, jamais removíveis. 

Dhanus encerrava na astrologia védica o terceiro quadrante zodiacal, conhecido pelo nome de Dharma, antecedido pelo segundo e pelo primeiro, designados respectivamente pelos nomes de Kama e de Artha. O quarto quadrante zodiacal tinha o nome de Moksha. Os nomes destes quadrantes designavam as quatro etapas pelas quais todo o hindu deveria passar, quatro metas de vida, sendo a primeira uma preparação para a segunda e assim por diante.



A primeira meta, Artha, tinha a ver com ideias de afirmação e de conquistas materiais. Nessa primeira meta prevalece matsya nyaya, a lei do peixe, da qual se diz que peixes grandes comem peixes pequenos. Grande parte da humanidade vive segundo esta lei, explicada na filosofia ocidental por pensadores como Machiavel, Hobbes e por correntes filosóficas que defendem o pragmatismo e o utilitarismo. Na segunda
THOMAS  HOBBES , 1588 - 1679
meta, temos Kama,  na qual também grande parte da humanidade está fixada: a vida como busca do prazer. Kama é o nome de uma divindade muito parecida com o Eros grego. Kama, com seu arco, dispara flechas que provocam os desejos humanos. Possui cinco flechas, uma para cada um dos sentidos humanos. É Kama a própria encarnação do desejo. 

Na terceira meta, temos Dharma, conceito que lembra ao mesmo tempo responsabilidade, dever e obrigação. É o quadrante da vida social e, neste sentido, se opõe ao primeiro, o da individualidade. Com Dharma, entramos na vida social, que pede uma noção clara dos direitos e dos deveres dos seres humanos. Este quadrante, astrologicamente, é encerrado por Dhanus, signo que nos fala de conhecimentos superiores que nos levam a uma vida espiritual, transindividual e transsocial, que nos põe em relação com a humanidade como um todo. Com as influências de Dhanus, vividas superiormente, deixamos de agir só em função da nossa individualidade e/ou da nossa vida social. 

Para Jyotish, se Dhanus é o signo do conhecimento, o da sabedoria será o de Peixes (Meena), o da doação, onde o conhecimento que leva ao Brahman será passado aos outros, compartilhado, sem nenhuma ideia de reciprocidade. Doar simplesmente com o objetivo de que a vida do Todo, a humanidade e o mundo natural melhorem. É por isso que o signo de Meena, Peixes, fechava o quarto quadrante na astrologia védica, dando-se o nome de Moksha à última etapa da vida no Hinduísmo. Moksha é palavra que etimologicamente nos remete a ideias de desatar, abrir mão, largar, emancipar, terminar. Moksha é conceito que afasta por isso a noção de ego. É em moksha que se vive plenamente uma das máximas hinduístas, a do desapego do resultado das ações praticadas. É através de Moksha que o homem, o chamado liberto em vida, como parte do Todo, do Brahman, pode se projetar além de si mesmo, em direção do mundo natural e dos outros outros homens.


CORRESPONDÊNCIAS   ZODIACAIS

A esta caminhada em direção do Brahman, que na astrologia é orientada a partir de Dhanus, tanto o Hinduísmo como o Budismo dão o nome nirvana marga. Nirvana é palavra que etimologicamente tem relação com um verbo (nirva) que  significa acalmar, extinguir diminuir, atenuar, apagar, mas que, muitas vezes, pode tomar o sentido de ir-se, de atravessar. Todo este campo semântico diz respeito obviamente ao controle do ego, dos seus desejos, dos seus apegos, da sua ignorância. O nirvana é um estado a ser conquistado, um modo de ser que deve ser confirmado pela própria vida daquele que o busca. A via para esse fim é a que tanto a astrologia como as doutrinas filosófico-religiosas chamam de gnana marga ou jñana marga, o caminho do conhecimento.


MESOPOTÂMIA
Ao que parece, dentre os povos da Mesopotâmia, foram os babilônicos os primeiros a estabelecer a ligação entre determinadas constelações com os meses do ano. Sabe-se que por volta do ano 1.000 aC eles já tinham definido  o círculo zodiacal com dezoito constelações, reduzidas depois para doze. Esta redução possibilitou que não só a noção da eclíptica (via solis) se estabelecesse como também a fixação dos eixos equinociais e solsticiais. Foi a partir das definições acima que a eclíptica foi dividade em doze partes iguais, dando-se a elas, como signos, os seus respectivos nomes (traduzidos): O Mercenário (Áries), O Touro e As Estrelas (Touro com as Plêiades), Os Grandes Gêmeos (Gêmeos), O Caranguejo (Câncer), O Leão (Leão), A Balança (Libra), A Espiga (Virgem), O Escorpião (Escorpião), Pabilsag (Sagitário), A Cabra-Peixe (Capricórnio), O Grande (Aquário) e As Caudas (Peixes). Pabilsag (Sagitário) era uma divindade conhecida desde a mais remota antiguidade mesopotâmica. Era filho de Enlil (Grande Montanha), sendo sua esposa a deusa Ninisina, padroeira de Isin, divindade ligada às doenças e às curas. 

Embora os sumérios tinham iniciado na Mesopotâmia a leitura do céu, pelo reconhecimento de algumas constelações e de planetas, foram os babilônicos, mais tarde, por volta de 2.000 aC que deram a esta leitura um sentido diferente, utilizando-a para fazer previsões
ENUMA   ANU   ENLIL
(presságios) quanto aos seres humanos, geralmente pessoas de elevado status, e quanto a acontecimentos relacionados com a vida do país, conflitos, guerras, epidemias, catástrofes. Ficaram famosas as  tabuletas em argila cozida de uma série intitulada Enuma Anu Enlil que registram, desde o período assírio até o babilônico, a posição aparente dos planetas, principalmente Marte e Vênus. O primeiro representa Nergal, deus da guerra, do inferno e da pestilência, e o segundo, associado a Ishtar, relacionado com o amor, a fertilidade e a paz.   


TIAMAT   E   MARDUK

No mundo mesopotâmico, quando a Babilônia se tornou o maior centro político do país, quem passou a reinar absoluto sobre todos os planetas foi o deus Marduk. Uma descrição dos seus feitos pode ser encontrada na quinta tabla da Epopeia de Gilgamés: Ele
ENLIL
construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou
EA
adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era um astro masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa “Casa da Água”, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, lembre-se, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza. Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


UTUKKU

As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukku, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukku chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga, enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz. 

SIN  

Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit. Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, “Fortuna Maior”. 

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk na Mesopotâmia,  Zeus e Júpiter, no mundo greco-romano, associados ao maior planeta  do nosso zodíaco, representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a
MICHEL   GAUQUELIN  ,  1928 - 1991
ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema astrológico de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

Participando do simbolismo do raio de luz e da chuva fertilizante como ligação entre dois estados, o celeste e o terrestre, a flecha lembra passagens rápidas e penetração como união mística. É neste sentido, na tradição hinduísta, que a flecha é sinônimo de celeridade intuitiva fulgurante, do chamado saber rápido. Esta relação da flecha com esse tipo de conhecimento  explica-se melhor na medida em que soubermos que sagitta, flecha, em latim, tem
KIRON
relação com  o verbo sagire, perceber rapidamente e também ter faro. Dentro deste verbo encontramos o radical sag, que, em latim, aparece em palavras como sagus (o que pressagia), sagax (que tem o odor sutil como o cão), sagacitas (que tem os sentidos finos), praesagus (que pressente), sagaciter (saber com penetração). É por esta razão que Sagitário é considerado tradicionalmente como o signo da profecia. Saga, sagae era o nome que os antigos romanos davam às suas bruxas, feiticeiras, as que “sabiam antes.” É de todo esse contexto que sai a palavra cinegética, uma das artes ensinadas pelo centauro Kiron aos seus pupilos, como veremos.

Tudo o que se expôs acima poderá ser melhor entendido se compreendermos que Gêmeos é o signo da informação e que Virgo é o da crítica e da aplicação desta informação para que ela se transforme em conhecimento. É neste sentido que Sagitário se torna
o signo das grandes viagens espirituais e intelectuais através das religiões e dos seus códigos, dos textos legais, da filosofia, do estudo e do ensino superior, da vida universitária, do estudo das línguas e dos costumes dos povos etc.  São representantes de Sagitário, de um modo geral, os religiosos, os catedráticos, os magistrados, os professores, os pregadores, os embaixadores, os exploradores, os viajante etc.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.