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quinta-feira, 25 de março de 2021

OS MONSTROS - II

              

SOLUTIO

Evidentemente estas experiências relacionadas com a solutio são sempre dolorosas, pois, no geral, se dão, em meio a muito sofrimento, por uma descida ao mundo inconsciente, ao nosso inferno pessoal. Uma espécie de imersão acompanhada sempre de muita angústia e medo porque, de qualquer maneira, ela é sempre um desmentido da pretensa autonomia e do poder do nosso ego. Pode-se dizer, por isso, correndo o risco da generalização, que não há uma solutio agradável ou feliz.


O caos, na perspectiva em que aqui o abordamos, precede sempre a existência. Lembre-se: a constituição da ordem cósmica implica três elementos, fixados na seguinte ordem, segundo A Teogonia, o poema de Hesíodo: caos, existência e cosmos. Esta é também a ordem do nosso processo de individuação, se o entendemos segundo a lei universal da correspondência:   inconsciente, consciente e supraconsciente. Por essa lei, sabemos que existe uma correspondência entre as leis e os fenômenos da natureza nos diversos planos da existência. Esta lei pode ser assim também resumida: o que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima, tudo para que se perpetue a unidade. Esta lei não nos fala de igualdade ou semelhança, mas de analogia, de correspondência. 


GEIA  ( BRONZE )
A primeira entidade a sair do caos foi Geia, a Grande-Mãe Terra, o ponto de partida de todo processo criador, fato que consagra indiscutivelmente o princípio feminino como o ponto de partida de tudo o que entra na existência. Distando de Geia, simetricamente dispostos, um em oposição ao outro, temos acima dela o céu, por ela gerado, “em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cubra”, como diz Hesíodo, e de outro, abaixo dela, o Tártaro, a mais profunda camada do mundo infernal, escuridão absoluta, região jamais atingida pela luz. Ou, se quisermos, sob o ponto de vista psicológico, de um lado, o céu para o supraconsciente e o inferno para o subconsciente (inconsciente). Entre eles, a Terra, para o homem e a sua consciência, o sentimento que cada ser humano tem de sua existência e de seus atos.

É próprio da matéria caótica e dos seres maléficos, monstruosos, que nela "vivem", oporem-se a qualquer tentativa de controle, de imposição de uma ordem. E mesmo que dominados a matéria caótica e os seus monstros  temos sempre, de um lado, quanto à primeira, a sua constante luta para escapar dos limites que a ela se procure impor e, de outro, quanto aos outros, o fato de, mesmo "morrendo", renascerem, ou se reproduzirem com extrema facilidade através de processos que lembram biologicamente a cissiparidade, a neoplasia  e  a partenogênese. Embora momentaneamente dominados, aproveitam-se os "nossos" monstros de qualquer oportunidade para retornar, ameaçando a nossa suposta autonomia, conquistada com tantos esforços.

Uma das ilustrações do que estamos a dizer pode ser encontrada na escuridão dos nossos intestinos. Pela lei da correspondência, por exemplo, como uma contrapartida do que acontece no nosso psiquismo, ocultamente aninhados, fazendo-nos muito mal, podemos  detectar alguns “monstros”, vermes cestoides, como as tênias, que, como se sabe, costumam atingir vários metros de comprimento. 


PHTONOS
Uma  analogia do que aqui estamos a dizer pode ser encontrada, pela lei da correspondência, quando aproximamos mente humana (vida psíquica) e intestinos. Em ambos temos ideias de escuridão, interioridade, inconsciência. Os monstros que vivem no Jardim de Perséfone, como Lyssa (Raiva), Phtonos (Inveja), Apateia (Apatia), Eris (Discordia), Algia (Dor), Geras (Velhice) e outros,  perfeitamente identificados no mito, que, do nosso inconsciente pessoal, invadem o campo da nossa consciência, infernizando a nossa vida, são equivalentes àqueles que na escuridão dos nossos intestinos, como tênias (vermes cestoides) e outros, por exemplo, podem ali ficar a se nutrir do que ingerimos. 

MERCÚRIO

A ciência moderna, hoje, combate com relativa facilidade os nossos vermes e outros seres que atacam o nosso a parelho gástrico, mas parece fracassar com relação aos monstros que se acomodam, com muita facilidade, no nosso psiquismo. Talvez um dia as coisas melhorem quando os homens da ciência entenderem que Mercúrio (Hermes grego), astrologicamente, é a  divindade que tanto governa  a mente humana como os intestinos. Sua função é a de receber o que entra, avaliar, separar, discriminar devidamente, rejeitar o desnecessário (dando a este o respectivo destino final) e distribuir adequadamente o aproveitável, o saudável, para garantir a nossa higidez em ambas as áreas, física e mental. Vale aqui lembrar o trabalho que damos ao nosso Mercúrio Virgo quando não temos noção de hábitos alimentares mais saudáveis, a sobrecarga que a ele "levamos" quando não controlamos  o que ingerimos. Ou, no outro plano, no mental, quando nos submetemos passivamente aos imbecilizantes  processos comunicacionais que a moderna tecnologia põe hoje em circulação em escala mundial.

Antes, porém, como caracterizar um monstro mítico? Para os nossos propósitos, ele não é, antes de mais nada, uma besta ou um animal qualquer que foi parar nas histórias mitológicas, um leão, um cavalo ou um cão. O que o caracteriza sobretudo é que ele não existe realmente, é uma invenção da nossa mente (imaginação) humana, mas sua  “realidade” é indiscutível. Não faz parte do mundo objetivo. Isto é, tem existência subjetiva, opondo-se, neste sentido, ao conceito de existência material, positiva. Monstros são símbolos, algo que o homem construiu para representar certos estados interiores que experimenta, medo, inveja, incerteza, culpa, remorso etc., que dificultam ou se opõem ao que ele considera como buscas de um sentido evolutivo de vida, desejos de sucesso, de felicidade, de transcendência.

CAPRICHOS  ( GOYA, 1746 - 1828 )

Desde a pré-história, os homens usam certas coisas, como imagens ou objetos, nas quais vêm alguma relação com o que querem representar, para significar outras, dando-lhes sentidos e valor. Este é o chamado processo simbólico, talvez a principal característica a distinguir o homem dos animais. Estes, ao que parece, não usam símbolos. Os homens, ao contrário, vivem mergulhados num universo simbólico. Lutam e morrem por eles, tornam-se brutais e violentos por causa deles, fazem guerras. 

Sabemos que dentre todas as formas de simbolismo a linguagem humana é a mais desenvolvida. Podemos fazer com que determinados sons que produzimos representem certos coisas que nos acontecem, afetando o nosso sistema nervoso. Mensagens verbais ou escritas que emitimos, risos, palmas, assobios, gritos são exemplos do que estamos a dizer. Na Internet, nos USA, inclusive, em certos meios, usar maiúsculas pode ser um sinal de agressividade. 


AQUILES
De um modo geral, aparentemente, acentue-se, símbolos e coisas simbolizadas não têm nada em comum. Entretanto, se os observarmos mais detidamente poderemos perceber que entre coisas tão distintas às vezes pode haver muita semelhança. Dá-se o nome de analogia a essa relação. O prefixo ana da palavra analogia, como se sabe, tem o sentido de repetição. Daí se falar em analogia entre sentimentos e cores, entre metais e seres humanos. O vermelho sempre expressou violência. Não é por acaso que Aquiles, o maior dos guerreiros gregos, tem um temperamento colérico e é ruivo, avermelhado; podemos falar de pessoas-antimônio, próximas da “perfeição”, mas que podem às vezes cair das suas “alturas”, ou de pessoas-chumbo, taciturnas, rabugentas, que vivem olhando para o passado e que podem ser um modelo de autodisciplina.

AMMIT
Os antigos egípcios, ainda exemplificando, quando tiveram que construir uma imagem para representar o assustador monstro devorador das almas condenadas que atuava na sua psicostasia, Ammit ou Ammut, o compuseram com partes do crocodilo, do hipopótamo e da pantera. O primeiro é um réptil, um animal das águas primordiais, uma sobrevivência ameaçadora, um representante do mal. Voraz e hipócrita (sempre com uma “cara” de quem não quer nada) infestava as águas do rio Nilo. Ele faz parte da grande galeria dos devoradores, animais que se 
MAKARA
distinguiam por sua enorme boca e goela com relação ao corpo (jaguar, lobo, leão, sucuri, anaconda, baleia, crocodilo) e que, por isso, foram usados para simbolizar as trevas, como a noite que tudo engole. Na Índia o crocodilo aparece associado ao solstício de inverno, período do ano em que o Sol é “engolido” pelas trevas hibernais, dando-se o nome de Makara (crocodilo, em sânscrito) a  Capricórnio, signo no qual o Sol ingressa em 21 de dezembro, anualmente (solstício de inverno).

SOBEK

Os egípcios, diga-se de passagem, davam uma posição proeminente no seu panteão ao deus-crocodilo Sobek ou Soukhos, ainda que uma aura de maldição cercasse esta divindade. Tal se devia a uma história em que se narrava o assassinato do deus Osíris por seu irmão Seth, que, para fugir da responsabilidade pelo crime, encontrara refúgio no corpo de um crocodilo. 


BEHEMOT ( WILLIAM BLAKE, 1757 - 1827 )

Já o hipopótamo (cavalo de rio), muito comum no Nilo, é um herbívoro, conhecido como devorador de colheitas. É considerado uma manifestação das forças negativas universais e inimigo dos humanos. Faz parte do séquito de Seth, gênio do mal, grande inimigo de Osíris. Lembremos que um dos grandes demônios do mundo judaico, Behemot (fera, em hebraico) teve a sua forma inspirada pelo hipopótamo egípcio.

MÊNADE COM TIRSO E PANTERA
Quanto à pantera (etimologicamente, animal do grande todo), consagrado a Dioniso na Grécia, é tradicionalmente vista como símbolo da astúcia diabólica e da heresia, “escondendo sob uma expressão de alabastro uma alma de ébano”, como nos dizem antigos textos. Além de Dioniso, a pantera aparece associada a Afrodite, à Grande-Mãe Cibele, da Ásia Menor, e à maga Circe.

GOLEM E RABINO

Os monstros podem ser formados por várias partes de animais diferentes como é o caso de Ammit, acima apontado, ou do centauro-peixe apontado no início deste texto. Noutras vezes, são criados por multiplicação de partes do corpo, como  a Hidra de Lerna, com as suas nove cabeças, ou como Cérbero, cão infernal, tricéfalo. Alguns combinam o animal e o humano, como o Centauro, a Sereia ou o Minotauro. Outros são fabricados artificialmente, como o Golem ou Frankenstein, a partir do modelo humano.


TIFON ( VASO GREGO )
Não podemos esquecer, como já mencionei, aliás, que há uma estreita ligação entre os mitos de criação nas várias tradições e monstros. Lembremos da tradição mesopotâmica (O Épico da Criação), em que Tiamat, monstro feminino, símbolo do caos primordial, personificação do grande oceano, cria um grupo de monstros para a auxiliar na luta que trava contra Marduk, o deus-herói, que a obrigará a se fixar em determinados limites. Depois, Marduk matará os monstros por ela criados.

ÉQUIDNA
O drama da criação entre os gregos também inclui o aparecimento de monstruosas criaturas, como Tifon (Tempestade) e Équidna (Serpente), ambos filhos de Geia e do Tártaro, ou seja, da Terra e do Não-Ser. Agentes do caos, irmãos, ambos são poderosíssimos. A cabeça de Tifon ultrapassava as mais altas nuvens do céu; de braços abertos, ele alcançava com facilidade o leste e o oeste. Possuía asas, soltava fogo pelos olhos,  seu corpo era coberto de serpentes. Ao andar pelos oceanos, sua cabeça ficava sempre acima da superfície das águas. Équidna era mulher até a cintura e monstro daí para baixo. Muito fértil, unida ao irmão, o único que podia fecundá-la, gerou inúmeros monstros que tanto infelicitam a humanidade. É um dos grande símbolos da libido insaciável.

VRITRA
Dentre as várias características dos monstros míticos ressaltamos uma, muito importante, a da posse e o controle das forças naturais e dos elementos por alguns deles, como a água e o fogo. Em muitas histórias, temos dragões que soltam fogo pelas ventas ou que através do elemento líquido provocam grandes catástrofes. Na China, ao contrário do ocidente, os dragões exercem ações benéficas, controlando as águas e distribuindo as chuvas na medida certa, na estação devida. Recorde-se que na mitologia hindu, o dragão Vritra, demônio da seca, tem a sua casa nos céus e é responsável por longos períodos de estiagem que tanto prejudicam o território indiano. É preciso que Indra, o senhor do raio e dos elementos, o ataque para que a terra receba as chuvas necessárias, que podem vir dos céus, inclusive com grande violência. 

HESPÉRIDES

Dragões e serpentes na mitologia costumam exercer a função de guardiões, servindo de exemplos o de Delfos, de nome Piton, morto por Apolo, e o de nome Ladon, que dava assistência às ninfas do poente, as Hespérides, que guardavam no seu jardim os pomos de ouro recebidos por Zeus e Hera, da Mãe Geia, quando de seu casamento (3º trabalho de Hércules).

SÃO  JORGE  E  O DRAGÃO  ( PAOLO  UCCELLO, 1397 - 1475 )


A arte, a escultura principalmente, é de grande valia para o estudo dessas criaturas, muito usadas, pelo seu hibridismo, para marcar certas fronteiras e  limites entre o demoníaco, o humano e o sagrado. No Antigo Testamento, o dragão está na causa da morte, do afastamento do divino, e na origem do pecado. Estas ideias foram levadas para o Novo Testamento, passando o dragão a representar tudo que era de Satã e obra dele. O dragão foi muito usado pela Igreja Católica para simbolizar também a heresia. 

Na Idade Média, como se sabe, no seio da cristandade, surgiram várias heresias e cismas; quanto às primeiras, negações de doutrinas da Igreja oficialmente definidas e, quanto aos outros, movimentos de deliberada separação para a constituição de um corpo separado. O grande símbolo destes movimentos separatistas era o dragão, tendo sido fundadas diversas ordens de cavalaria que tinham por objetivo a “morte do dragão”, como foi o caso, exemplificando, da cruzada contra Jan Hus, reformador religioso tcheco (séc. XV).

Na Idade Média cristã, as bestas míticas perderam um pouco a sua dimensão de inimigas da ordem cósmica e da sua grande ferocidade, tornando-se, em muitos casos, símbolos das paixões humanas e dos ataques do mundo sobrenatural àqueles que pretendiam trilhar o caminho da ascese cristã. Por essa razão, por exemplo, o Lycorne (Lyon Cornu, Leão de Chifre), símbolo do signo astrológico de Capricórnio foi transformado no doce e gentil Unicórnio sob as carícias da Dame, como temos no fantástico  conjunto das seis tapeçarias de La Dame à la Licorne, confeccionadas entre 1484 e 1500, por Jean La Viste, hoje no Museu Nacional da Idade Média, nas Termas de Cluny, em Paris, França.


Este conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos, que se fecha, na sexta tapeçaria, com uma frase que a encima: À mon seul désir, ou seja, segundo o meu livre-arbítrio, sem nenhuma sujeição ao que os sentidos pedem. Esta tapeçaria lembra, sob o ponto de vista astrológico, que o caminho de Leão, quinto signo zodiacal, até Capricórnio, o décimo, passa obrigatoriamente pela Dama (sétima casa astrológica), pela integração do masculino e do feminino. Ou seja, o nosso caminho de Leão, que tem a ver com a conquista de um eu autônomo, até Capricórnio, simbolizado por picos de montanhas, tem que admitir a participação do outro, a sétima casa astrológica, Libra, a Dame da tapeçaria, e o controle dos nossos desejos pessoais. É nesse sentido que Capricórnio (10) é duas vezes Leão (5).   

ILUMINURA ,   IDADE   MÉDIA

Historicamente, é oportuno lembrar que no final da Idade Média, com o término das guerras e das cruzadas (a violência permitida em nome de Deus, segundo tese de Santo Agostinho), os cavaleiros voltaram para os castelos, para os seus feudos. Embora aristocratas (aristocracia: governo dos bons), eram grossos, boçais, sujos e mal-educados. Alguns meios católicos procuraram, pelo incentivo da adoção de regras de boas maneiras, da cortesia & mesura, amenizar um pouco esse cenário de deseducação e ignorância, movimento que recebeu uma apreciável contribuição da arte, principalmente da produção poética da época.  A tapeçaria acima mencionada pede obrigatoriamente referências a este contexto histórico e à matéria astrológica para um melhor alcance de todas as suas possibilidades significativas. 



quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

PEIXES (1)

                  
CONSTELAÇÃO    DE   PEIXES

O peixe, em todas as tradições, sempre foi considerado como um símbolo da água. Seu corpo não se compõe de partes distintas, é um todo no qual tudo se une, ao contrário do ser humano e da maior parte de outros animais. Por essa razão, como a água, o peixe sempre foi visto como um símbolo da indiferenciação, uma totalidade indistinta. 

TALES
Já em virtude de sua excepcional prolificidade e da grande abundância de suas ovas, o peixe e a água se unem simbolicamente na medida em que têm relação com ideias de origem, de lugar de nascimento e de fecundidade.  O primeiro filósofo da primeira escola da filosofia grega, surgida na Jônia, séc. VII aC., Tales, considerava a água como o princípio de todas as coisas. Para ele, a água era


o que não tinha princípio, sendo uma força animada, ativa, dela tudo derivando. A multiplicidade das coisas, para ele, tinha sua profunda unidade neste princípio, animado e animador, eterno.  Anaximandro, outro filósofo grego desse período, registrou que alguns povos da Ásia Menor proibiam o consumo da carne de peixe, já que ele era considerado um ancestral da raça humana.
TIRÉSIAS
Oportuno também é lembrar que os peixes, em muitas culturas, sempre apareceram associados à sabedoria e à adivinhação. O mais famoso dos videntes gregos, o cego Tirésias, recorria muito à prática da ictiomancia, uma forma de adivinhação baseada no movimento dos peixes dentro da água. Famosos, no mundo grego, eram os peixes de um enorme tanque que havia no santuário de Apolo,
DELFOS
em Delfos, deus da mântica profética; segundo se afirmava, eles tinham o dom da profecia. Apuleio, “aquele que queria descobrir o segredo de todas as coisas”, do séc. II dC, escritor neoplatônico latino, dentre outras acusações que lhe foram feitas, estava a de ter consultado os peixes de Apolo para obter informações que o ajudassem a ficar com o dinheiro de uma rica viúva que com ele se engraçara.

Por viver no elemento líquido, símbolo do inconsciente, sempre se propagou desde a antiguidade,  que os peixes davam corpo aos conteúdos “vivos” das camadas mais profundas da personalidade do homem, conteúdos estes associados à ideia de fecundidade e de forças vitais interiores. É por isso que nos sonhos o peixe é também visto como um intermediário entre as camadas profundas do psiquismo e um aspecto do inconsciente tornado acessível. Os grandes peixes, como a baleia, podem ser vistos, nesta perspectiva, por outro lado, como possibilidade de risco de devoração das forças conscientes pelas energias profundamente introjetadas no inconsciente.

PIA  BATISMAL
O simbolismo do peixe é inseparável do da água, evocando a ideia de renascimento como um acontecimento cósmico (renovação anual da natureza, fim do inverno, início da primavera), cuja simbologia, por isso, foi estendida à vida religiosa e psicológica. Associado ao renascimento, o peixe é nas religiões um símbolo do batismo (palavra que, em grego, traduz uma ideia de mergulho). É por essa razão que os primeiros cristãos atribuíam às virtudes das águas das pias batismais à ação invisível de Cristo, fazendo-se do peixe, habitante das águas, o símbolo deste sacramento. Fizeram os primeiros cristãos também do peixe, gravando sua imagem nas pedras, o símbolo do Salvador oferecendo-se como alimento aos seus fiéis.

VARUNA
Na Índia, o peixe é montaria do deus Varuna, aquele que tudo envolve, deus das vastidões do céu noturno e dos oceanos. Varuna monta monstros marinhos como Makara, um claro indício de que seu poder se estende a todas as formas e estruturas. Makara, como monstro marinho, uma espécie de crocodilo, símbolo do signo de Capricórnio, simboliza a ambição, representada aqui pela voracidade da sua mordida. Predador, Makara é anfíbio, sendo monstro em dois elementos, na água e
MAKARA
na terra. Apesar de todo o seu poder, Makara tem que se submeter a Vishnu; é a  montaria (vahana) deste deus. Vishnu, como encarnação da própria lei divina (2ª pessoa da trindade hinduísta), nos lembra que tudo o que toma forma, por mais resistente que seja, está destinado, cedo ou tarde, à dissolução. Varuna é particularmente venerado no período das secas; usa uma armadura dourada e leva nas mãos uma rede, símbolo dos pescadores, no que se parece muito com o Poseidon dos gregos.


PEIXES ,  ILUSTRAÇÃO  INDIANA 

Na astrologia hindu, Mina (peixe, em sânscrito) é o nome do signo, cosmologicamente relacionado com o akasha (éter para os gregos), o quinto elemento na filosofia hindu. No início da criação só existe o akasha, a existência onipresente que tudo impregna. No início da criação só existe ele, ao final só ele também, o que nos lembra muito o signo zodiacal de Peixes, ao mesmo tempo fim do inverno e início da primavera. Tudo que tem uma forma, tudo que é produto de uma combinação provém dele, do éter, a substância indiferenciada. É o akasha que se torna ar, que se transforma em líquido, que se torna fogo e terra. O akasha e os outros quatro elementos que são formados a partir dele constituem os chamados mahabhutas, os cinco elementos. É o akasha que se torna Sol, planetas, estrelas, que se torna corpo humano, animal, vegetal, mineral, que se torna tudo que tem uma forma, perceptível ou não. No início da criação só existe ele; ao fim dos ciclos dos sólidos, líquidos e gases tudo volta a ele.
ÁGUAS   PRIMORDIAIS
Não será preciso muito esforço para perceber uma analogia entre o signo de Peixes e a imagem das águas primordiais como as encontramos em várias tradições míticas e religiosas. Nessas tradições, a egípcia e a hinduísta, por exemplo, o nascimento da vida e da terra era concebido como uma emersão que ocorria no elemento líquido, uma imagem muito rica nelas. A vida nascente, para os egípcios,  era representada por montículos de terra que afloravam à superfície das águas quando da vazante do rio Nilo. Os hindus nos falavam do aparecimento do lótus  como um símbolo da primeira manifestação de vida sobre a superfície das águas. 
Os hindus sempre associaram o peixe às renovações cíclicas. Foi por essa razão que o primeiro avatar do deus Vishnu, 2ª pessoa da trindade hinduísta, é Matsya, o peixe, que veio para salvar Manu, o homem mítico, do dilúvio. Manu é o progenitor da raça humana do presente ciclo (manvantara).  Foram o
MATSYA   E   MANU
s hindus, ao que parece, os primeiros a associar a imagem do peixe à ideia da salvação, pois segundo os Vedas, foi Matsya quem revelou também a Manu a ciência sagrada dos Vedas. Uma ideia semelhante à que aparece no cristianismo, onde Cristo é representado muitas vezes como um pescador, sendo os cristãos, os peixes, salvos da imensidão oceânica, e depois mergulhados nas águas santificadas do batismo, agora o seu elemento natural e instrumento de sua regeneração. A mesma ideia aparece, ainda no Budismo, quando o boddhisttava Avalokiteshvara diz ter obtido a revelação do Yoga depois de ter se transformado num peixe. 

TOHU-BOHU , C.1645
( ANTOINE SOMMAVILLE )
O signo de Peixes, como se sabe, situado antes do equinócio da primavera, é um signo mutável, lembrando características de inconsistência, de extrema receptividade, de dissolução, uma massa movente e anônima, onde tudo aparece misturado e nada tem forma. É neste sentido que o signo sempre apareceu associado às catástrofes renovadoras que ciclicamente trazem a renovação da vida. Estas catástrofes aparecem em todas as tradições. Dentre as mais notáveis temos o Apocalipse (tradição cristã), o Tohu-Bohu, o Dilúvio e o Dia do Juízo (tradição judaica), Ragnarok (tradição escandinavo-germânica), Saltstraumen (tradição escandinava), Pralaya (tradição hinduísta) etc.


JUÍZO  FINAL , C. 1435  ( STEFAN  LOCHMER )

O Apocalipse, palavra grega, quer dizer revelação, ou seja, ação inversa (apo) de esconder ou velar (kalyptein). Exegetas cristãos e protestantes atribuem sua autoria a João, o mesmo autor do Evangelho Segundo João. Ele teria recebido a mensagem divina quando, conforme narrou, numa gruta da ilha de Patmos, arrebatado em espírito, ouviu do Senhor as espantosas revelações sobre o final dos tempos (Juízo Final), interpretadas de diversas maneiras por vários segmentos cristãos. A humanidade seria dividida entre santos (aqueles que aceitaram Jesus Cristo como Messias) e pecadores, que se negaram a aceitá-lo. O Juízo Final trará o Céu para os santos e o Inferno para os pecadores. Satanás e seus anjos (demônios) seriam então lançados ao fogo. Algumas tradições
MAÇONARIA
esotéricas e místicas como a Gnose, o Rosacrucianismo e a Maçonaria trabalham com a ideia de que o Apocalipse deve ser considerado segundo a sua linguagem simbólica, apontando o seu texto para processos de transformação pelos quais os homens devem passar para atingir a plenitude do seu ser e a união com o divino. Na Maçonaria, há graus de transmissão do conhecimento desse simbolismo, de modo especial os graus 17 (graus capitulares – Cavaleiro do Oriente e do Ocidente), 19 (graus filosóficos – Grande Pontífice ou Sublime Escocês) e 22 (graus filosóficos – Cavaleiro do Real Machado ou Príncipe do Líbano).
O Tohu-Bohu (inculto e deserto, em hebraico, numa tradução, e desordem e vazio, noutra), segundo o Gênese, seria o estado caótico primordial da Terra quando ela estava deserta e vazia. Estes termos são encontrados em Jeremias e Isaías, em ambos significando destruição e desolação. Algumas tradições consideram que a expressão designa uma situação anárquica, que precede a manifestação de qualquer forma. Tomou depois o sentido de desordem e caos, inclusive no sentido psicológico, indicando regressão e loucura no processo de individuação. 


O   DILÚVIO  ( LÉON  COMERRE , 1859 - 1955 )

O Dilúvio (Mabul, em hebraico), como se sabe, ocorreu no tempo de Noé e causou a destruição da vida humana e animal, durando quarenta dias e quarenta noites. O modelo judaico é uma evidente transposição de tema semelhante encontrado na epopeia mesopotâmica de Gilgamés. O Dilúvio, entre os judeus, foi uma inundação cataclismática de toda a superfície terrestre. A palavra passou a significar chuva muito abundante, torrencial e demorada, que alaga vastas extensões de terra. Dilúvio vem do verbo latino diluo, desagregar, dissolver, dissipar. O Dia do Juízo (iom ha-din, em hebraico) ocorrerá no final dos dias, no tempo do Messias, quando tiver lugar a ressurreição dos mortos, todos, judeus ou não, chamados ao julgamento divino pelo som do grande shofar. O dia do juízo final será apavorante, escuro, com tempestades e grandes incêndios.


JUÍZO  FINAL, C.1535 ( MICHELANGELO  BUONARROTI )

Os escandinavo-germânicos não acreditavam na eternidade do mundo e muito menos na dos deuses e dos humanos. Como os humanos, os deuses tinham que lutar constantemente contra inimigos invejosos e astutos. Apesar de todas as virtudes que possuíam e da sua grande habilidade guerreira, os deuses tinham que
EDDAS
sucumbir ao ataque dos seus inimigos, os grandes monstros. O universo, que eles sustentavam e protegiam, seria destruído juntamente com eles. Esta gigantesca catástrofe é contada num grande poema, Voluspa, que faz parte de um conjunto chamado Eddas. O nome desta catástrofe é Ragnarok, ou seja, o destino fatal, o fim dos deuses. 
Segundo o mito, a serpente Midgard, identificada com o próprio oceano, mais antiga que os próprios deuses, é a dona das águas primordiais, rodeando toda a terra. Um dia, porque os deuses não cumprem o prometido de dar felicidade à humanidade, ela, enigmática e imprevisível, em cólera, sairá das profundezas
BALDER
oceânicas para, com toda a sua fúria, destruir tudo, inclusive os deuses. Conjugado com o fogo, o mar cobrirá tudo. Os monstros, o lobo Fenris, o cão Garm, os gigantes e os anões, até então contidos pelos deuses, se libertarão, mergulhando a Terra numa grande convulsão. Os deuses serão derrotados. Depois de tudo destruído, então, o mundo renascerá para uma nova idade do ouro, guiada pelo deus Balder (deus da luz, da justiça e da beleza), ressuscitado. 



Os escandinavos puseram em circulação o nome Saltstraument para designar um enorme remoinho de água de tremendo potencial destrutivo. Uma variante deste fenômeno, um pouco menos destrutiva, é o Maelstrom, palavra posta em circulação por Edgar Allan Poe no seu conto A Descida num Maelstrom (1841). Jules Verne foi outro que usou a palavra, em 20.000 Léguas Submarinas, contando-nos ele que o capitão Nemo entrou num Maelstrom com o seu submarino Nautilus. Os latinos, lembro, davam o nome de vertex (vortex) a um imenso turbilhão de água ou de ar, gerador de uma força violentíssima, irresistível. Na filosofia cartesiana, vertex é um rapidíssimo movimento rotatório de matéria cósmica em torno de um centro, para dentro do qual tudo é sugado.

ILUSTRAÇÃO
Indo mais ao passado, recordemos que Homero, na Odisseia, nos fala que Ulisses, ao atravessar o estreito de Messina, entre a Itália e a Sicília, se viu diante de dois monstros, Cila e Caribdes, a primeira filha do deus marinho Forcis e a segunda de Geia e de Poseidon. Cila era um dragão com seis cabeças, com cães furiosos em torno do corpo, e devorava tudo o que passasse pelo estreito. A outra, também voracíssima, cujo nome se liga à mesma etimologia do da parceira, absorvia e vomitava diariamente enormes quantidades de água.

Cila e Caribdes, na realidade, eram dois sorvedouros que todos os marinheiros do Mediterrâneo conheciam, circulando entre os homens do mar, como provérbio, a seguinte frase: Sair de Caribdes, cair em Cila.  Guardavam os dois monstros uma travessia estreita, fazendo ela parte do simbolismo dos lugares de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido e o desconhecido. Cila e Caribdes, para o homem mediterrâneo, configuravam uma situação de escolha entre duas alternativas igualmente indesejáveis. 

POSEIDON
Astrologicamente, saliente-se, o planeta Netuno (deus Poseidon) rege todas as formas de implosão conhecidas. Implodir, como se sabe, é provocar ou sofrer colapso para dentro. Colapso, figuradamente, é derrocada, desmoronamento, prostração, ruína. Uma das melhores imagens da implosão é, por exemplo, o sorvedouro, o vertex, a que acima nos referimos. Sorvedouros são redemoinhos de água que se formam em mares ou rios e que levam tudo para o fundo. 

PLUTÃO
Na mitologia, o deus Plutão, rei dos infernos, tinha grande receio das implosões que seu irmão, Poseidon, sempre ameaçou provocar, pois seu reino poderia ser invadido por ele, isto é, pelas águas oceânicas. Tais implosões, como é fácil perceber, poderiam expor à luz as “trevas infernais”, destruindo-se assim as apavorantes imagens que a humanidade sempre construiu em torno dele devido à sua invisibilidade. Plutão temia que o seu reino, exposto à luz, talvez não fosse considerado tão terrível assim... Astronomicamente, como sabemos, vertex é o ponto de intersecção da eclíptica com o meridiano que liga o zênite ao nadir. Na astrologia, não há estudos confiáveis sobre a sua aplicação.

TSUNAMI
Recentemente entrou em circulação a palavra tsunami (onda que atinge o cais, onda de porto, em japonês). O termo é muitas vezes aplicado para designar maremotos, sismos que ocorrem no fundo do mar, muito semelhantes aos sismos que só afetam a crosta terrestre, os primeiros, sim, tidos como causadores de tsunamis. Ao contrário do saltstraument ou do maelstrom dos escandinavos, o tsunami movimenta as águas para cima, o que nos leva a associá-lo também, astrologicamente, à ação de Urano (o epicentro dos abalos sísmicos de onde partem os tsunamis). É de se lembrar que quando Urano transitou pelo signo de Peixes, no início do séc. XXI (2003-2010), os tsunamis entraram na ordem do dia, ganhando muito destaque nos meios de comunicação.  Explosões vulcânicas, deslizamentos de terra subaquáticos ou mesmo quedas de meteoros podem também causar tsunamis. 

Grandes quantidades de água são assim deslocadas pelos tsunamis, atingindo o litoral, através de ondas enormes, causando devastação e morte. Um dos mais famosos maremotos (hoje tsunamis) conhecidos ocorreu no mar Mediterrâneo (eles são muitos mais comuns no oceano Pacífico) entre os anos de 1650 e 1600 aC, devido a uma violenta erupção vulcânica na ilha de Santorini. Esse violento fenômeno provocou a formação de ondas cuja altura máxima, segundo a tradição narra, teria oscilado entre 100 e 150 metros de altura. Toda a costa norte da ilha de Creta foi destruída. O início do fim da civilização minóica foi principalmente atribuído a este acontecimento. Quando da explosão da ilha-vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883, ondas devastadoras se elevaram a cerca de 40 metros de altura. Segundo os antigos gregos, tudo isto sempre foi causado pela ação do deus Poseidon, que, por insondáveis desígnios, tanto pode, com o seu tridente, agitar ou acalmar os mares...
NETUNO
É de se lembrar, quando associamos Poseidon às implosões, que o planeta Netuno, astrologicamente, é o arquétipo da dissolução (solutio) universal. Como tal, onde o temos num mapa astrológico ali a terra pode nos fugir dos pés devido à sua ação assolapadora, uma das várias formas de dissolução. Solapar é destruir as bases de alguma coisa, aluir, minar, abalar os fundamentos. Assim, onde temos Poseidon (Netuno), há esse risco. Aliás, as patologias de Netuno podem nos lançar em sorvedouros semelhantes, como é, por
PROSPER  MÉNIÈRE
1799 - 1862
exemplo, o caso da chamada síndrome de Ménière (distúrbio de equilíbrio muito semelhante aos que ocorrem em viagens marítimas, mas que podem também ocorrer em terra), confundida às vezes com avcs. A síndrome a que nos referimos aparece relacionada com “ataques” a Vênus (planeta que se exalta em Peixes e que tanto tem a ver com a audição e o equilíbrio), com Netuno (regente do signo, que nos fala de vertigens, de sorvedouros) e com Mercúrio, que juntamente com Vênus, governa o labirinto, sistema de canais semicirculares e cavidades comunicantes no interior do ouvido, responsável pelo equilíbrio do corpo humano.


domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.