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quinta-feira, 25 de março de 2021

OS MONSTROS - II

              

SOLUTIO

Evidentemente estas experiências relacionadas com a solutio são sempre dolorosas, pois, no geral, se dão, em meio a muito sofrimento, por uma descida ao mundo inconsciente, ao nosso inferno pessoal. Uma espécie de imersão acompanhada sempre de muita angústia e medo porque, de qualquer maneira, ela é sempre um desmentido da pretensa autonomia e do poder do nosso ego. Pode-se dizer, por isso, correndo o risco da generalização, que não há uma solutio agradável ou feliz.


O caos, na perspectiva em que aqui o abordamos, precede sempre a existência. Lembre-se: a constituição da ordem cósmica implica três elementos, fixados na seguinte ordem, segundo A Teogonia, o poema de Hesíodo: caos, existência e cosmos. Esta é também a ordem do nosso processo de individuação, se o entendemos segundo a lei universal da correspondência:   inconsciente, consciente e supraconsciente. Por essa lei, sabemos que existe uma correspondência entre as leis e os fenômenos da natureza nos diversos planos da existência. Esta lei pode ser assim também resumida: o que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima, tudo para que se perpetue a unidade. Esta lei não nos fala de igualdade ou semelhança, mas de analogia, de correspondência. 


GEIA  ( BRONZE )
A primeira entidade a sair do caos foi Geia, a Grande-Mãe Terra, o ponto de partida de todo processo criador, fato que consagra indiscutivelmente o princípio feminino como o ponto de partida de tudo o que entra na existência. Distando de Geia, simetricamente dispostos, um em oposição ao outro, temos acima dela o céu, por ela gerado, “em igualdade de esplendor e beleza para que ele a cubra”, como diz Hesíodo, e de outro, abaixo dela, o Tártaro, a mais profunda camada do mundo infernal, escuridão absoluta, região jamais atingida pela luz. Ou, se quisermos, sob o ponto de vista psicológico, de um lado, o céu para o supraconsciente e o inferno para o subconsciente (inconsciente). Entre eles, a Terra, para o homem e a sua consciência, o sentimento que cada ser humano tem de sua existência e de seus atos.

É próprio da matéria caótica e dos seres maléficos, monstruosos, que nela "vivem", oporem-se a qualquer tentativa de controle, de imposição de uma ordem. E mesmo que dominados a matéria caótica e os seus monstros  temos sempre, de um lado, quanto à primeira, a sua constante luta para escapar dos limites que a ela se procure impor e, de outro, quanto aos outros, o fato de, mesmo "morrendo", renascerem, ou se reproduzirem com extrema facilidade através de processos que lembram biologicamente a cissiparidade, a neoplasia  e  a partenogênese. Embora momentaneamente dominados, aproveitam-se os "nossos" monstros de qualquer oportunidade para retornar, ameaçando a nossa suposta autonomia, conquistada com tantos esforços.

Uma das ilustrações do que estamos a dizer pode ser encontrada na escuridão dos nossos intestinos. Pela lei da correspondência, por exemplo, como uma contrapartida do que acontece no nosso psiquismo, ocultamente aninhados, fazendo-nos muito mal, podemos  detectar alguns “monstros”, vermes cestoides, como as tênias, que, como se sabe, costumam atingir vários metros de comprimento. 


PHTONOS
Uma  analogia do que aqui estamos a dizer pode ser encontrada, pela lei da correspondência, quando aproximamos mente humana (vida psíquica) e intestinos. Em ambos temos ideias de escuridão, interioridade, inconsciência. Os monstros que vivem no Jardim de Perséfone, como Lyssa (Raiva), Phtonos (Inveja), Apateia (Apatia), Eris (Discordia), Algia (Dor), Geras (Velhice) e outros,  perfeitamente identificados no mito, que, do nosso inconsciente pessoal, invadem o campo da nossa consciência, infernizando a nossa vida, são equivalentes àqueles que na escuridão dos nossos intestinos, como tênias (vermes cestoides) e outros, por exemplo, podem ali ficar a se nutrir do que ingerimos. 

MERCÚRIO

A ciência moderna, hoje, combate com relativa facilidade os nossos vermes e outros seres que atacam o nosso a parelho gástrico, mas parece fracassar com relação aos monstros que se acomodam, com muita facilidade, no nosso psiquismo. Talvez um dia as coisas melhorem quando os homens da ciência entenderem que Mercúrio (Hermes grego), astrologicamente, é a  divindade que tanto governa  a mente humana como os intestinos. Sua função é a de receber o que entra, avaliar, separar, discriminar devidamente, rejeitar o desnecessário (dando a este o respectivo destino final) e distribuir adequadamente o aproveitável, o saudável, para garantir a nossa higidez em ambas as áreas, física e mental. Vale aqui lembrar o trabalho que damos ao nosso Mercúrio Virgo quando não temos noção de hábitos alimentares mais saudáveis, a sobrecarga que a ele "levamos" quando não controlamos  o que ingerimos. Ou, no outro plano, no mental, quando nos submetemos passivamente aos imbecilizantes  processos comunicacionais que a moderna tecnologia põe hoje em circulação em escala mundial.

Antes, porém, como caracterizar um monstro mítico? Para os nossos propósitos, ele não é, antes de mais nada, uma besta ou um animal qualquer que foi parar nas histórias mitológicas, um leão, um cavalo ou um cão. O que o caracteriza sobretudo é que ele não existe realmente, é uma invenção da nossa mente (imaginação) humana, mas sua  “realidade” é indiscutível. Não faz parte do mundo objetivo. Isto é, tem existência subjetiva, opondo-se, neste sentido, ao conceito de existência material, positiva. Monstros são símbolos, algo que o homem construiu para representar certos estados interiores que experimenta, medo, inveja, incerteza, culpa, remorso etc., que dificultam ou se opõem ao que ele considera como buscas de um sentido evolutivo de vida, desejos de sucesso, de felicidade, de transcendência.

CAPRICHOS  ( GOYA, 1746 - 1828 )

Desde a pré-história, os homens usam certas coisas, como imagens ou objetos, nas quais vêm alguma relação com o que querem representar, para significar outras, dando-lhes sentidos e valor. Este é o chamado processo simbólico, talvez a principal característica a distinguir o homem dos animais. Estes, ao que parece, não usam símbolos. Os homens, ao contrário, vivem mergulhados num universo simbólico. Lutam e morrem por eles, tornam-se brutais e violentos por causa deles, fazem guerras. 

Sabemos que dentre todas as formas de simbolismo a linguagem humana é a mais desenvolvida. Podemos fazer com que determinados sons que produzimos representem certos coisas que nos acontecem, afetando o nosso sistema nervoso. Mensagens verbais ou escritas que emitimos, risos, palmas, assobios, gritos são exemplos do que estamos a dizer. Na Internet, nos USA, inclusive, em certos meios, usar maiúsculas pode ser um sinal de agressividade. 


AQUILES
De um modo geral, aparentemente, acentue-se, símbolos e coisas simbolizadas não têm nada em comum. Entretanto, se os observarmos mais detidamente poderemos perceber que entre coisas tão distintas às vezes pode haver muita semelhança. Dá-se o nome de analogia a essa relação. O prefixo ana da palavra analogia, como se sabe, tem o sentido de repetição. Daí se falar em analogia entre sentimentos e cores, entre metais e seres humanos. O vermelho sempre expressou violência. Não é por acaso que Aquiles, o maior dos guerreiros gregos, tem um temperamento colérico e é ruivo, avermelhado; podemos falar de pessoas-antimônio, próximas da “perfeição”, mas que podem às vezes cair das suas “alturas”, ou de pessoas-chumbo, taciturnas, rabugentas, que vivem olhando para o passado e que podem ser um modelo de autodisciplina.

AMMIT
Os antigos egípcios, ainda exemplificando, quando tiveram que construir uma imagem para representar o assustador monstro devorador das almas condenadas que atuava na sua psicostasia, Ammit ou Ammut, o compuseram com partes do crocodilo, do hipopótamo e da pantera. O primeiro é um réptil, um animal das águas primordiais, uma sobrevivência ameaçadora, um representante do mal. Voraz e hipócrita (sempre com uma “cara” de quem não quer nada) infestava as águas do rio Nilo. Ele faz parte da grande galeria dos devoradores, animais que se 
MAKARA
distinguiam por sua enorme boca e goela com relação ao corpo (jaguar, lobo, leão, sucuri, anaconda, baleia, crocodilo) e que, por isso, foram usados para simbolizar as trevas, como a noite que tudo engole. Na Índia o crocodilo aparece associado ao solstício de inverno, período do ano em que o Sol é “engolido” pelas trevas hibernais, dando-se o nome de Makara (crocodilo, em sânscrito) a  Capricórnio, signo no qual o Sol ingressa em 21 de dezembro, anualmente (solstício de inverno).

SOBEK

Os egípcios, diga-se de passagem, davam uma posição proeminente no seu panteão ao deus-crocodilo Sobek ou Soukhos, ainda que uma aura de maldição cercasse esta divindade. Tal se devia a uma história em que se narrava o assassinato do deus Osíris por seu irmão Seth, que, para fugir da responsabilidade pelo crime, encontrara refúgio no corpo de um crocodilo. 


BEHEMOT ( WILLIAM BLAKE, 1757 - 1827 )

Já o hipopótamo (cavalo de rio), muito comum no Nilo, é um herbívoro, conhecido como devorador de colheitas. É considerado uma manifestação das forças negativas universais e inimigo dos humanos. Faz parte do séquito de Seth, gênio do mal, grande inimigo de Osíris. Lembremos que um dos grandes demônios do mundo judaico, Behemot (fera, em hebraico) teve a sua forma inspirada pelo hipopótamo egípcio.

MÊNADE COM TIRSO E PANTERA
Quanto à pantera (etimologicamente, animal do grande todo), consagrado a Dioniso na Grécia, é tradicionalmente vista como símbolo da astúcia diabólica e da heresia, “escondendo sob uma expressão de alabastro uma alma de ébano”, como nos dizem antigos textos. Além de Dioniso, a pantera aparece associada a Afrodite, à Grande-Mãe Cibele, da Ásia Menor, e à maga Circe.

GOLEM E RABINO

Os monstros podem ser formados por várias partes de animais diferentes como é o caso de Ammit, acima apontado, ou do centauro-peixe apontado no início deste texto. Noutras vezes, são criados por multiplicação de partes do corpo, como  a Hidra de Lerna, com as suas nove cabeças, ou como Cérbero, cão infernal, tricéfalo. Alguns combinam o animal e o humano, como o Centauro, a Sereia ou o Minotauro. Outros são fabricados artificialmente, como o Golem ou Frankenstein, a partir do modelo humano.


TIFON ( VASO GREGO )
Não podemos esquecer, como já mencionei, aliás, que há uma estreita ligação entre os mitos de criação nas várias tradições e monstros. Lembremos da tradição mesopotâmica (O Épico da Criação), em que Tiamat, monstro feminino, símbolo do caos primordial, personificação do grande oceano, cria um grupo de monstros para a auxiliar na luta que trava contra Marduk, o deus-herói, que a obrigará a se fixar em determinados limites. Depois, Marduk matará os monstros por ela criados.

ÉQUIDNA
O drama da criação entre os gregos também inclui o aparecimento de monstruosas criaturas, como Tifon (Tempestade) e Équidna (Serpente), ambos filhos de Geia e do Tártaro, ou seja, da Terra e do Não-Ser. Agentes do caos, irmãos, ambos são poderosíssimos. A cabeça de Tifon ultrapassava as mais altas nuvens do céu; de braços abertos, ele alcançava com facilidade o leste e o oeste. Possuía asas, soltava fogo pelos olhos,  seu corpo era coberto de serpentes. Ao andar pelos oceanos, sua cabeça ficava sempre acima da superfície das águas. Équidna era mulher até a cintura e monstro daí para baixo. Muito fértil, unida ao irmão, o único que podia fecundá-la, gerou inúmeros monstros que tanto infelicitam a humanidade. É um dos grande símbolos da libido insaciável.

VRITRA
Dentre as várias características dos monstros míticos ressaltamos uma, muito importante, a da posse e o controle das forças naturais e dos elementos por alguns deles, como a água e o fogo. Em muitas histórias, temos dragões que soltam fogo pelas ventas ou que através do elemento líquido provocam grandes catástrofes. Na China, ao contrário do ocidente, os dragões exercem ações benéficas, controlando as águas e distribuindo as chuvas na medida certa, na estação devida. Recorde-se que na mitologia hindu, o dragão Vritra, demônio da seca, tem a sua casa nos céus e é responsável por longos períodos de estiagem que tanto prejudicam o território indiano. É preciso que Indra, o senhor do raio e dos elementos, o ataque para que a terra receba as chuvas necessárias, que podem vir dos céus, inclusive com grande violência. 

HESPÉRIDES

Dragões e serpentes na mitologia costumam exercer a função de guardiões, servindo de exemplos o de Delfos, de nome Piton, morto por Apolo, e o de nome Ladon, que dava assistência às ninfas do poente, as Hespérides, que guardavam no seu jardim os pomos de ouro recebidos por Zeus e Hera, da Mãe Geia, quando de seu casamento (3º trabalho de Hércules).

SÃO  JORGE  E  O DRAGÃO  ( PAOLO  UCCELLO, 1397 - 1475 )


A arte, a escultura principalmente, é de grande valia para o estudo dessas criaturas, muito usadas, pelo seu hibridismo, para marcar certas fronteiras e  limites entre o demoníaco, o humano e o sagrado. No Antigo Testamento, o dragão está na causa da morte, do afastamento do divino, e na origem do pecado. Estas ideias foram levadas para o Novo Testamento, passando o dragão a representar tudo que era de Satã e obra dele. O dragão foi muito usado pela Igreja Católica para simbolizar também a heresia. 

Na Idade Média, como se sabe, no seio da cristandade, surgiram várias heresias e cismas; quanto às primeiras, negações de doutrinas da Igreja oficialmente definidas e, quanto aos outros, movimentos de deliberada separação para a constituição de um corpo separado. O grande símbolo destes movimentos separatistas era o dragão, tendo sido fundadas diversas ordens de cavalaria que tinham por objetivo a “morte do dragão”, como foi o caso, exemplificando, da cruzada contra Jan Hus, reformador religioso tcheco (séc. XV).

Na Idade Média cristã, as bestas míticas perderam um pouco a sua dimensão de inimigas da ordem cósmica e da sua grande ferocidade, tornando-se, em muitos casos, símbolos das paixões humanas e dos ataques do mundo sobrenatural àqueles que pretendiam trilhar o caminho da ascese cristã. Por essa razão, por exemplo, o Lycorne (Lyon Cornu, Leão de Chifre), símbolo do signo astrológico de Capricórnio foi transformado no doce e gentil Unicórnio sob as carícias da Dame, como temos no fantástico  conjunto das seis tapeçarias de La Dame à la Licorne, confeccionadas entre 1484 e 1500, por Jean La Viste, hoje no Museu Nacional da Idade Média, nas Termas de Cluny, em Paris, França.


Este conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos, que se fecha, na sexta tapeçaria, com uma frase que a encima: À mon seul désir, ou seja, segundo o meu livre-arbítrio, sem nenhuma sujeição ao que os sentidos pedem. Esta tapeçaria lembra, sob o ponto de vista astrológico, que o caminho de Leão, quinto signo zodiacal, até Capricórnio, o décimo, passa obrigatoriamente pela Dama (sétima casa astrológica), pela integração do masculino e do feminino. Ou seja, o nosso caminho de Leão, que tem a ver com a conquista de um eu autônomo, até Capricórnio, simbolizado por picos de montanhas, tem que admitir a participação do outro, a sétima casa astrológica, Libra, a Dame da tapeçaria, e o controle dos nossos desejos pessoais. É nesse sentido que Capricórnio (10) é duas vezes Leão (5).   

ILUMINURA ,   IDADE   MÉDIA

Historicamente, é oportuno lembrar que no final da Idade Média, com o término das guerras e das cruzadas (a violência permitida em nome de Deus, segundo tese de Santo Agostinho), os cavaleiros voltaram para os castelos, para os seus feudos. Embora aristocratas (aristocracia: governo dos bons), eram grossos, boçais, sujos e mal-educados. Alguns meios católicos procuraram, pelo incentivo da adoção de regras de boas maneiras, da cortesia & mesura, amenizar um pouco esse cenário de deseducação e ignorância, movimento que recebeu uma apreciável contribuição da arte, principalmente da produção poética da época.  A tapeçaria acima mencionada pede obrigatoriamente referências a este contexto histórico e à matéria astrológica para um melhor alcance de todas as suas possibilidades significativas. 



segunda-feira, 28 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (2)

                            
RUÍNAS  NO  PARNASO
Os gregos, por exemplo, “descobriram” o oráculo de Delfos, no alto do Parnaso, devido à grande excitação que tomava as cabras quando se aproximavam do local. Constataram que fortes emanações saíam das entranhas da terra, de cavernas profundas, emanações que punham, também as mulheres, num estado mediúnico que as levava a um transe profético. 


MOISÉS NO MONTE SINAI
(GUSTAVE DORÉ, 1832-1883)
Um outro exemplo muito significativo no qual se reúnem os elementos acima apontados nós o temos, entre os judeus, no episódio em que Javé se manifestou, em meio a trovões e relâmpagos, no monte Sinai a Moisés. Como lembrança deste acontecimento, a cobertura do tabernáculo (santuário portátil que levava a arca da aliança e demais objetos sagrados) era feita com um tecido de pelos de cabra.  

Embora a Bíblia faça muitas referências ao aspecto divino das montanhas (sacrifício de Isaac, monte Carmelo, monte Horeb, Gólgota, monte das Oliveiras, sermão da montanha etc.), elas são consideradas também, segundo várias passagens do seu texto, como símbolos da pretensão dos homens chegar às alturas, do seu desejo de ascensão. Por mais que façam, contudo, quanto a isto, dizem-nos os mesmos textos que nunca poderão escapar à onipotente presença divina. É por esta razão, ainda segundo os textos bíblicos, que o judaísmo e, depois, o cristianismo esperam um desaparecimento das montanhas no sentido de um nivelamento. Para os judeus, quando Deus reunir de novo o seu povo pondo fim ao exílio, as elevações serão suprimidas. O fim do mundo trará como consequência, em primeiro lugar, o desmoronamento das montanhas.

TORRE  DE  BABEL
(P. BRUEGEL, O VELHO, 1525-1569)
Deus, continuam os judeus, se comunica, é certo, nas alturas montanhosas, mas as montanhas que o homem galga apenas para adorar o próprio homem e seus símbolos ascensionais, e não o verdadeiro Deus, não passam de sinais de orgulho e presságio de destruição, cujo maior exemplo está no arquétipo da torre de Babel e nos símbolos que ao longo dos milênios malogradamente tentaram atualizá-lo.


FOGUEIRA DE VALBURGA, SUÉCIA
É preciso lembrar ainda que se o alto das montanhas aparece associado à comunicação com o divino e à pureza (brancura imaculada da neve, geleiras, rarefação do ar) ele é também um lugar muito procurado para a realização de cerimônias sabáticas,
SANTA  VALBURGA, C.710 - C.777
frequentadas, com o intuito de desmerecer as tradições judaico-cristãs, por demônios e feiticeiros. Um exemplo: na noite de 30 de abril para 1º de maio, em Brocken, no alto do maciço chamado Harz (Saxe), se realiza a famosa noite de Walpurgis. Santa Walpurgis ou Valburga era o nome de uma religiosa beneditina inglesa, chamada à Alemanha por São Bonifácio para chefiar a abadia Heldenheim. Do túmulo desta religiosa, milagrosamente, se afirmava, exsudava um líquido maravilhoso, milagroso, que o povo chamava de óleo de Santa Valburga. Na noite que precedia a
NOITE DE WALPURGIS
(GUSTAVE  DORÉ, 1832-1883)
realização da festa da santa, noite de 30 de abril, se realizava, segundo a lenda, a noite de Walpurgis, festa na qual demônios e feiticeiros se reuniam, conforme está em O Fausto, de Goethe. Para os judeus, Sabá (do verbo shabater, cessar de crescer, a Lua) é o dia de descanso obrigatório; vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite. É o dia que Deus abençoou, ao descansar do trabalho da criação que realizou em seis dias.

LICORNE
TAPEÇARIA MEDIEVAL
O terceiro nível do signo de Capricórnio, representado pelo Licorne (Lycornu, etimologicamente leão de chifre) aponta para os tipos que desenvolvem, como os do segundo (o tipo cabra montanhesa), uma tendência de caráter ascensional, com a diferença de que a subida não fica exclusivamente voltada para fins materiais, deixando o alto da montanha de ser visto por eles apenas como um lugar de chegada. Será considerado, ao contrário, como um ponto de partida para formas de vida ainda mais elevadas. 

A ideia acima exposta nos leva a entender que em Capricórnio o poder que o homem tem de criar materialmente termina, entendimento que nos faz pensar no signo como uma porta de saída para algo maior, para o coletivo, para o transpessoal, e, no caso dos tipos mais espiritualizados, para o que os hindus chamam de moksha, para a retirada do mundo.

As alturas das montanhas nos explicam também dois conceitos presentes no signo, a crucificação e a transfiguração. Para o capricorniano que sobe, que procura se elevar na vida só materialmente, a tendência à transfiguração  não está presente; ficará ele preso, crucificado, no plano da matéria. A cruz, como está em todas as representações simbólicas, tem relação com o número quatro e com o quadrado, imagens da coagulação, da condensação, do imobilismo, antíteses da transfiguração, da transformação, da transcendência. Cristo foi crucificado no alto de um monte, operação alquímica que teve por finalidade a destruição do seu aspecto material. A crucificatio e a putrefactio são variantes da mortificatio, a mais radical operação alquímica, associada sempre à mutilação, à morte e ao apodrecimento. É uma operação sempre vista negativamente, pois sua cor é o negro; positivamente considerada, porém, leva à ressurreição, ao renascimento. A putrefactio, realizada no alto da montanha, anula e destrói o velho ego, transmuta as coisas, gerando algo novo. Em algumas imagens que os egípcios nos deixaram esculpidas nas pedras essa representação chegou simbolicamente até nós: grãos nascendo do cadáver de Osíris. São Paulo, na epístola aos coríntios, nos traduz tudo isto de outro modo: Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitarão em incorrupção. Semeia-se em desonra; ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza; ressuscitará em vigor. Semeia-se o corpo natural; ressuscitará o corpo espiritual.”     

O símbolo deste terceiro tipo capricorniano, como se disse, é o Licorne (nada a ver com o Unicórnio, uma besta mítica de características lunares). Raro, mas não impossível encontrar este
AQUÁRIO ( W. HONE, 1780-1842 )
tipo que trabalha normalmente com as expressões mais elevadas do signo. Ainda que saiba converter em capital as coisas valiosas e de qualidade, este tipo, embora ligado ao passado, tem os olhos voltados para o futuro, para o alto, tendo sempre uma clara noção da futilidade da maior parte dos desejos, das ações e das ambições do homem. É neste sentido que temos a lição astrológica ao nos indicar que Saturno é regente noturno do signo de Aquário, o signo do futuro. 

Ele, o capricorniano, sabe que, embora possa ter conquistado posições de autoridade e de influência, ele tem consciência de que sempre há algo mais elevado, poderes maiores, aos quais ele saberá se ligar. O zênite capricorniano do tipo simbolizado pelo licorne tem características mais públicas, mais universais, do que sociais. É por isso que o homem superior de Capricórnio mostra a tendência de se ocupar, de algum modo, com uma atividade pública, atividade que lhe permitirá aplicar as suas aptidões em benefício da humanidade. Os tipos mais bem logrados do signo sabem que toda verdadeira ascensão só se torna possível através de uma comunhão com o universo. A ajuda mais poderosa que este tipo encontra estará na sua capacidade de ultrapassar continuamente toda etapa conquistada, entendendo que onde quer que esteja ele não é mais que uma parte do todo. 

LEÃO
Muito ao contrário do que a tradição cristã propagou, o licorne é um símbolo da penetração do espírito no plano da matéria, como indicado pelo chifre na cabeça do leão, dando-se ao ego leonino um sentido de elevação, transcendência, de eminência. Este entendimento ficará mais claro se considerarmos que o número do signo do Leão é cinco e que o de Capricórnio é dez. 

O número cinco, como sabemos, é o “número do homem”, representando a totalidade do mundo sensível, os cinco sentidos e as cinco formas sensíveis da matéria. Em todas as tradições cinco é o número de saída do quatro (signo de Câncer) e, num segundo momento, da aquisição de uma luz própria (signo de Leão); é o número daquele que é o seu próprio centro, daquele que se auto-determinou. Na China, lembremos, o cinco era o número do
DESENHOS  DE  MING TANG
imperador, daquele que saiu da multiplicidade, dos quatro cantos do quadrado, ao vencer o dragão da dispersão, e foi ocupar o trono no centro deste quadrado (ming tang). Astrologicamente, tudo isto quer dizer que o fogo que o leonino conquista é de natureza racional, fogo que lhe permite apenas vitórias no plano da vida material. A caminhada deste ego, que a partir da casa cinco adquiriu autonomia, pode ter, segundo a ordem zodiacal, um sentido evolutivo no plano da vida material ou da vida espiritual. Em Virgo (sexta casa) é feita esta escolha, num sentido ou noutro, sendo as demais casas, até a décima (meio do céu), ajustadas segundo o que se decidiu na referida sexta casa. 

Se o número cinco já indica uma tendência totalizante, o número dez, o duplo do cinco, indica mais ainda, revelando-nos que o poder do homem criar materialmente termina, isto é, o poder de agir com as duas mãos. Evidentemente, a maior parte das pessoas vê Capricórnio tão somente como um ponto de chegada sob o ponto de vista material, o topo da montanha alcançado a partir da conquista de um ego na quinta casa. Tudo isto sempre terá uma inspiração material, mundana,  podendo ser alcançado com sacrifício, ambição, perseverança e disciplina, ou, o mais comum hoje, de modo aético, amoral e, sobretudo, ilegal. Ao prevalecer em Capricórnio esta tendência puramente material é que o signo pode ser considerado como o das possibilidades inversas, evolutivas ou involutivas, topo da montanha ou abismo, tensão permanente sempre a rondar os capricornianos que tentam chegar às alturas presos somente a objetivos materiais.

AQUÁRIO
( MUCHA, 1860 - 1939 ) 
O licorne, como, acredito, já deu para se depreender do exposto, será o símbolo daquele capricorniano que entendeu que o signo (casa dez) que marca o solstício de inverno corresponde não só à possibilidade máxima que o homem tem de criar materialmente (o poder dos dez dedos) como pode ser também o começo de um novo ciclo, o das realizações impessoais em direção do grande Todo, que leva a Aquário, signo que nos fala do coletivo, da humanidade, das gerações futuras, e a Peixes, o signo da sabedoria, onde temos de pôr em prática, como doação, tudo o que adquirimos ou não nos onze signos e casas precedentes. 


PÃ
O chifre (unicórnio), em todas as tradições míticas e religiosas, sempre foi visto como um símbolo de poder, imagem retirada de certos animais vigorosos, poderosos, touros, carneiros, rinocerontes etc. Passaram os chifres, por isso, a ornar a fronte de deuses e de poderosos, Amon no Egito, Dioniso, da Grécia, Júpiter em Roma, Alexandre, o Grande, Moisés etc. É de se notar, porém, que os chifres apresentam como símbolos uma certa ambivalência. Não só nos falam de poder, mas podem nos apontar também para forças regressivas (uma forma fálica alterada), como é o caso do deus Pã, dos sátiros, dos faunos, dos egipãs,  dos demônios etc. 

Há dois tipos de cornos a considerar quando discutimos este símbolo, o único e o par. Relacionados com a geometria, o primeiro
RUÍNAS  EM  DELOS
corresponde ao triângulo com o vértice para cima, o segundo tem relação com o triângulo invertido, chamado dent (dente) em heráldica. A relação do corno com o triângulo direito é confirmada pelo radical krn, que quer dizer alto lugar, no sentido de polar, de montanha sagrada. Entre os celtas, o túmulo de pedra que apontava para o alto, tinha relação com a palavra corno (cairn). Numerosos altares antigos tinham cornos como emblemas, com o Keraton apolíneo de Delos, feito inteiramente de chifres. 


APOLO   KARNEIOS
Relacionado com o sentido de elevação e de eminência, o corno sempre representou também o poder (Apolo Karneios) como princípio ativo, penetrante. Nas tradições judaica e cristã, o corno aparece muito associado ao raio, à luz que vem do céu. Quando Moisés desceu do monte Sinai seu rosto irradiava luzes. É por essa razão que os artistas, desde o início da Idade Média, sempre representaram
SHIVA
Moisés com chifres. Os dois chifres que ostentava eram, no caso, um aspecto do crescente lunar. Lembremos que a Lua tem tradicionalmente o nome de cornuda, símbolo da fertilidade; é a Lua que forma o chamado corno perfeito na fronte do deus Shiva. É neste sentido lunar, na forma de crescente, que o chifre também pode ser visto como um símbolo da mudança, pois é fechado e aberto, concentração e expansão ao mesmo tempo, representando a ressurreição para os muçulmanos. 

Em algum período da Idade Média a imagem do leão se “perdeu”, passando-se a dar o nome de unicórnio ou de licorne à figura de um animal ambíguo, ora cabra, ora cavalo, acabando por se fixar o símbolo numa forma eqüina, de um pequeno potro. A iconografia cristã se apoderou desta forma para representar a penetração do divino na Virgem Maria, isto é, a virgem fecundada pelo Espírito Santo. Afastaram-se com isto a figura do leão cornudo e a lógica astrológica que dava suporte ao símbolo, ou seja, a da espiritualização da matéria, a ideia de que Capricórnio era a “porta dos deuses”, signo de ingresso numa vida superior, transpessoal.

A imagem do unicórnio como um potrinho delicado, azulado, algumas vezes, dócil, poderia ser admitida, contudo, literariamente digamos, como uma representação do controle da vida instintiva e da sexualidade.  Enquanto a imagem do licorne esteve presa ao leão, esta explicação me parece plausível. Ao início da baixa Idade Média, período em que o ímpeto guerreiro se atenuou, em que a cavalaria teve a sua importância diminuída, em que a virilidade guerreira precisou ser domesticada, em que militares se viram obrigados a frequentar a vida palaciana, em que a poesia cortês entrou em moda, o forte componente marciano do mundo masculino medieval foi contido. A vida na corte exigia “boas maneiras”. 


AMOR  CORTÊS ,  ILUMINURA  MEDIEVAL

Papel importante nesse contexto tiveram as mulheres, inspiradoras do chamado amor cortês, sentimento amoroso que floresceu na Idade Média e que se caracterizou por uma espécie de vassalagem amorosa em que o cavaleiro deveria ser fiel à dama eleita, servindo-a com cortesia e respeito. Apareceu largamente na literatura medieval, especialmente ao fim da Idade Média, caracterizando um amor profano, em contraste com o amor à Virgem Maria, incentivado pela Igreja católica.

A maior contribuição para a fixação do licorne como um potrinho veio de um conjunto de seis tapeçarias fabricadas entre 1.484 e 1.500 por Jean Le Viste com base em desenhos de um artista cujo nome se perdeu. Em cada pano, sobre um fundo ornado de millefleurs e de animais, uma mesma jovem é representada, envolvendo-a emblemas heráldicos, especialmente um leão e um licorne (potrinho). O conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos. O sexto panô ostenta uma inscrição: À mon seul désir, isto é, segundo o meu livre-arbítrio, sem nenhuma sujeição aos sentidos. Essa fantástica tapeçaria se encontra no Museu Nacional da Idade Média, nas termas de Cluny, desde o ano de 1.882.  
   
TAPEÇARIA ( MUSEU  NACIONAL  DA  IDADE  MÉDIA )


CHIFRE
(ABADIA DE SAINT DENIS)
O chifre como símbolo extraído desde contexto tem naturalmente um sentido fálico ao evocar, associado ao raio, solar ou não, uma ideia de fecundação espiritual, de intuição, de luz divina que penetra o espírito do homem. Na Idade Média, a tradição cristã aceitava a existência do licorne e afirmava que o animal só poderia ser capturado por uma virgem, pois simbolizava a pureza e a religião. O chifre, segundo a mesma afirmação, tinha o poder de revelar e de neutralizar venenos, fazendo parte dos tesouros da Igreja (da abadia de Saint Denis, por exemplo). Na mitologia chinesa, o licorne fazia parte, com o dragão, a fênix e a tartaruga, do conjunto de quatro animais fabulosos que significavam bondade, bom augúrio e felicidade com relação ao nascimento de crianças.



terça-feira, 24 de junho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO TRABALHO



 
EURISTEU,  CÉRBERO  E  HÉRCULES  
                    
Capturar o cão infernal Cérbero - Filho dos monstruosos Tifon e de Équidna, Cérbero, o cão tricéfalo, cauda de dragão, cheio de serpentes pelo corpo, guardava as portas de entrada do Tártaro, no Hades, onde Plutão e Perséfone viviam no seu palácio.  Cérbero jamais permitia a saída dos que para o Tártaro fossem enviados. A tarefa de Hércules era muito difícil, já que só as almas podiam descer ao reino infernal. Nosso herói, para o cumprimento dessa missão, recebeu, por ordem de Zeus, o auxílio de Hermes, o deus psicopompo. Hermes era a divindade encarregada de transportar as almas para o Hades, reino subterrâneo, para onde elas iam obrigatoriamente, quando do desaparecimento do corpo físico.


O   HADES  

Antes, por sugestão da deusa Palas Athena, Hércules procurou informações sobre o que seria uma catábase infernal, visitando, para tanto, o Santuário de Eleusis. Lá tomou conhecimento de que o Hades era um lugar onde as almas eram julgadas conforme o que tivessem feito os seus donos na sua vida terrena. Um julgamento desfavorável poderia significar a danação eterna para os grandes criminosos e pecadores, como Sísifo e Tântalo, que foram enviados para o Tártaro, o “inferno dos maus”, a região mais profunda do mundo infernal. Ou então poderia significar, se os crimes cometidos não tivessem sido tão graves assim, uma permanência demorada, sofrida, mas provisória, num lugar chamado Érebo. Um julgamento favorável significaria a permanência provisória, isenta de qualquer sofrimento, nos Campos Elíseos, outra região infernal. Nos casos de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elíseos, as almas, depois de beber das águas do rio Lethe, o rio do esquecimento, poderiam reencarnar.

Sabe-se por Eurípedes e por Isócrates que a iniciação de Hércules
ARISTÓFANES
nos Mistérios de Eleusis era necessária para que ele pudesse cumprir a tarefa que lhe fora determinada, pois os que deles participavam aprendiam a lidar com a morte, aceitando-a como algo natural e não aterrorizante. É de se lembrar que Aristófanes, o comediógrafo, com sua peça As Rãs, usou este episódio da descida de Hércules ao Hades para nos dar um grande trabalho crítico sobre o teatro grego, a tragédia, em especial.

Como Hércules era um estrangeiro (era natural do Peloponeso) e Eleusis ficava perto de Atenas, na Ática, nosso herói teve que ser adotado antes por um ateniense (estrangeiros não podiam participar dos Mistérios), o que de fato ocorreu, e passar por uma purificação por causa da morte dos centauros (sétimo trabalho). Depois dessas providências, sabe-se que a proibição acabou sendo revogada, transformando-se Eleusis num santuário pan-helênico, o que possibilitou que qualquer grego ou mesmo estrangeiros dele pudessem participar. 




Depois dessa iniciação, Hércules em companhia de Hermes, dirigiu-se ao cabo Tênero, na Lacônia, uma das mais conhecidas entradas do Hades na Grécia. Começaram a descer, indo em direção do rio Estige, um dos cinco rios infernais. Estige, etimologicamente o que causa horror, é um rio infernal de águas geladas, sendo enviados para as suas margens as almas dos que haviam cometido principalmente crimes de perjúrio. É de se lembrar que quando da vitória dos deuses olímpicos contra os Gigantes, Zeus, devido à grande colaboração que recebeu de Estige, então a mais velha das oceânidas, lhe concedeu, quando transformada em rio infernal, o privilégio do horkos, ou seja, era em seu nome que os deuses faziam os seus mais solenes juramentos; se os desrespeitassem seriam expulsos do Olímpo, com a ameaça de exílio ou mesmo de uma permanência no Hades. 

HERMES  PSICOPOMPO
As almas que se encontravam às margens do Estige fugiram assustadas, diante da insólita presença de nosso herói. Dali, Hermes conduziu Hércules até o rio Aqueronte, o principal rio infernal, aquele que verdadeiramente dava acesso ao Outro Lado. Tão espantado ficou o barqueiro Caronte que se esqueceu até de pedir o óbolo de praxe, que as almas deviam lhe entregar para poder ter acesso ao palácio dos reis do Inferno. Por causa dessa falta profissional, sabe-se que Caronte passou um ano encarcerado, preso a ferros.

Na ocorrência da morte, a alma (psykhe), desprendendo-se do corpo  físico   (soma),   tomava   a   forma   de   um   eidolon,   uma
NEKYIA
representação que lembrava vagamente o corpo físico. Chamada também de opsis (aparência) ou de skia (sombra), a alma como eidolon conservava de modo latente uma espécie de inteligência que podia ser ativada se os  familiares e amigos do morto procurassem manter a lembrança dele através de determinada cerimônia, regularmente realizada, chamada nekyia, da qual faziam parte sacrifícios e invocações para que fosse possível mantido o devido contacto. Energizadas pelos sacrifícios e invocações, as almas poderiam então falar, geralmente para se queixar e invariavelmente manifestando muito rancor com relação ao mundo dos vivos. 


MAPA   DO   HADES

O rio Aqueronte (etimologicamente, tanto pantanoso, lamacento, como o das dores) era o mais importante do Hades. A ele se juntavam os rios Piriflegetonte (o de chamas sulfurosas) e o Cocito (o dos gritos, uivos). A travessia do Aqueronte era feita por um barco conduzido Caronte, o barqueiro infernal, um dos agentes do Hades, que ia no leme; os remadores eram as próprias almas. Feio, magérrimo, de barba hirsuta, sempre com as vestes sujas, manchadas pelo limo esverdeado das águas do rio, Caronte era uma figura sinistra, muito temida e odiada. 


CARONTE
  
Hércules, ao sair da barca, percebeu duas figuras próximas, a Medusa e Meléagro. Ao tentar golpear a primeira com a sua espada, Hermes o dissuadiu, aquela figura era apenas uma sombra (skia), uma sombra, porém, muito importante pois ela era dona de uma ilha, a chamada Ilha dos Mortos, que ficava no meio do Aqueronte. Nessa ilha ficavam as almas daqueles que não haviam tido sua morte ritualizada, exigência indispensável para que pudessem realmente ingressar no mundo infernal.


ILHA   DOS   MORTOS   ( BÖCKLIN )

MELÉAGRO
Quanto ao outro, disposto também a atacá-lo, Hércules ouviu-o por um momento. Meléagro começou então a contar a sua história ao nosso herói, narrando-lhe os últimos momentos em que passara na terra. Hércules se comoveu tanto que lhe prometeu, quando de seu retorno, desposar Dejanira, sua irmã.  O que mais tocou Hércules foi Meléagro ter-lhe dito que sua irmã, a de nuca delicada, ficara só em casa e que era ignorante das coisas do amor, nada sabia das artes da Afrodite dourada, como enfatizou. 

Prosseguindo na sua caminhada pelo Hades, Hércules encontrou Teseu e Piritoo, o Lápita, aprisionados por Plutão nas famosas "cadeiras do esquecimento", de onde nunca mais deveriam se libertar, pois haviam tentado raptar Perséfone. Hércules, contudo, grande amigo do famoso herói ateniense, o libertou, arrancando-o tão violentamente da cadeira-prisão que pedaços das nádegas de Teseu nela ficam presos. Piritoo, filho de Ixion, o pai dos centauros, foi esquecido e lá permanecerá certamente até o final dos tempos.

O que se conhece desta passagem, como está em Racine, que quem
PERSÉFONE   E   ASCÁLAFO
alimentava esperanças de fazer sexo com Perséfone, a rainha do Hades, era Piritoo e não Teseu.  Mais à frente, Hércules encontrou Ascálafo, filho de uma ninfa do rio Estige e do deus-rio Aqueronte, e também resolveu libertá-lo. Este personagem presenciara o momento em que Plutão-Hades pusera nas mãos de Kore as famosas sementes vermelhas de uma romã, tornando-a fértil. Indiscreto, Ascálafo divulgara o acontecimento, narrando-o de um modo tão debochado que denegrira a pureza da jovem. Deméter o puniu, colocando-o sob um imenso rochedo. Libertado por Hércules, Ascálafo não conseguiu contudo viver sob a sua antiga forma. Deméter imediatamente o transformou numa coruja, substituindo um castigo por outro.

Em seguida, muito sensibilizado pelas multidões de almas que encontrou vagando às margens dos rios infernais, Hércules tentou fazer alguns sacrifícios sangrentos com animais do grande rebanho do deus dos infernos com o objetivo de energizá-las um pouco, dando-lhes alguma vida. Menetes, funcionário do Hades, que cuidava dos animais, ao tentar impedir a ação do nosso herói, foi ameaçado de morte por ele. Foi nesse momento que Perséfone, aparecendo e reconhecendo Hércules como seu irmão (eram ambos filhos de Zeus), o informou que seu marido estava pronto para recebê-lo.

HÉRCULES   E   CÉRBERO
Exposta a razão do trabalho, Plutão consentiu que Hércules levasse Cérbero à presença de Euristeu, desde que conseguisse vencê-lo numa luta em que não usasse armas metálicas, inclusive escudos de qualquer natureza. Para se proteger, Hércules pôs sobre os seus ombros e cabeça a pele do leão que costumava usar e muniu-se de algumas pedras pontudas. Atracando-se com o monstro, depois de terrível luta, conseguiu subjugá-lo, amarrando-o com grossas cordas que levara consigo. Afastando-se rapidamente do mundo infernal com a sua presa às costas, Hércules, com enorme esforço, guiado por Hermes, conseguiu chegar finalmente a Micenas. Vendo o monstruoso animal, Euristeu se assustou tanto que imediatamente ordenou ao nosso herói que o levasse até uma das muitas entradas do Hades e que o libertasse para que o monstro pudesse voltar a seu amo.

Os gregos sempre consideraram o acônito, planta venenosa, como infernal, nascida da baba de Cérbero, segundo uma versão. A deusa triforme Hécate, como contado por vários mitógrafos, possuía em seu jardim, no Hades, uma grande plantação desse vegetal, usado na feitiçaria e na magia negra. Muito tóxico, o acônito, extraído da planta, era chamado entre os romanos de “Carro de Vênus” ou de
ACÔNITO
“Capacete de Júpiter” porque, suas flores, invertidas, no primeiro caso, pareciam com um carro puxado por duas pombas ou, no segundo caso, como uma espécie de protetor da cabeça. Era muito usado, desde a mais remota antiguidade, para afastar vampiros e lobisomens, sendo, segundo a tradição, remédio infalível para curar a licantropia. Desde esses antigos tempos, o acônito sempre foi usado para combater a ansiedade, o cansaço, a fadiga, quando apresentam aspectos depressivos.



CAPRICÓRNIO

O décimo trabalho de Hércules tem a ver com Capricórnio, o décimo signo na ordem zodiacal. Este signo, como se sabe, é cardinal e do elemento terra. Astrologicamente, Capricórnio lembra ascensão, conquistas materiais, elevação. Ideias que representam a possibilidade máxima das conquistas materiais. Como tal, é um signo ligado ao zênite mundano. Os capricornianos positivos estão bem qualificados para assumir responsabilidades em empreendimentos de natureza prática, tanto os relacionados com a vida privada ou com a vida pública. Conceitos de ambição, de aspiração, de realização são comuns nos do signo, aliando-se a eles grande persistência, obstinação. Os capricornianos não são imediatistas e, de um modo geral, preferem trabalhar com metas de médio para longo prazo e procuram dar consistência e solidez ao que produzem.




As três cabeças de Cérbero simbolizam astrologicamente o triângulo formado pelos três signos zodiacais do elemento terra, Touro, Virgem e Capricórnio. O elemento terra representa o concreto, o sólido, o tangível e, por extensão, a vida material. Ou seja: ocupado com as pressões do ter, do possuir (Touro) e de, através das conquistas materiais, chegar ao topo da montanha (Capricórnio), muitos homens organizam as suas vidas nesse  sentido, montando uma agenda voltada exclusivamente para esse fim (Virgem).

Este foco na ascensão material costuma eliminar tudo o mais, família, filhos, divertimentos, amigos. Se aberto um espaço para eles, serão para a “conquista da montanha”. Uma festa familiar, por exemplo, será organizada com essa finalidade: convidar pessoas que poderão ser úteis, abrir algumas portas, favorecer de algum modo tal objetivo. A vida social, clubes, academias de ginástica etc.,tudo caminhará também nessa direção: frequentá-los para estabelecer relações “certas”, que possam facilitar a "subida da montanha".  

Esta terceira cabeça, relacionada com o signo de Virgem, costuma representar também tudo aquilo que deveria ter sido feito e que não foi para que a vida fosse orientada numa outra direção: nela estão as mudanças que não aconteceram, os hábitos que se instalaram tiranicamente, as purificações e depurações que não foram feitas, o cuidado corporal protelado, os espaços que não foram abertos no dia-a-dia para divertimentos saudáveis, para uma melhor convivência familiar etc. No lugar, como atitude dominante, sempre uma absurda ênfase em justificativas que falam de “dever cumprido”, o apego às tarefas difíceis, trabalhosas, ingratas ou penosas, a pretensão de satisfazê-las, a prioridade absoluta para tudo que signifique segurança material e, com ela, o reconhecimento social pelos resultados obtidos, a conquista do topo da montanha.

Uma das grandes debilidades de Capricórnio está, com frequência, numa natureza exageradamente séria e taciturna. Tal atitude
SATURNO
costuma gerar muita desconfiança, o que leva muitos que têm que conviver com capricornianos a achá-los, ainda que não o sejam, controladores, manipuladores, frios, calculistas. O planeta de Capricórnio é Saturno, que governa o princípio da cristalização. Este planeta tanto pode fazer dos capricornianos seres disciplinados, obstinados, metódicos e persistentes, como pode lhes proporcionar uma natureza excessivamente contida, tradicionalista, apegada aos valores do passado.

Vários temas se destacam neste trabalho. O tema da descida, da catábase, é o da morte simbólica, já prefigurada na passagem dos Mistérios de Eleusis. Ir ao Hades, lugar onde só entramos sem o corpo físico. Ou seja, aprender a nos livrarmos da forma, das prisões materiais, representadas pelas três cabeças do monstro. Não mais colocar a nossa consciência no material, nos desejos, no corpo físico. Usá-lo, mas a ele não nos prendermos. O centro (a cabeça central, Capricórnio) tem que estar mais acima, num plano que esteja acima da forma. Descer ao Hades é, pois, o início da subida da montanha.  

É neste sentido que Capricórnio deve representar um tipo de
SIGNO   DE   CAPRICÓRNIO
iniciação superior através da qual começamos o ciclo das realizações impessoais (Hércules se sensibilizando com os seres abúlicos que encontrou, com as almas penadas que perambulavam perdidas pelo Hades, muitas "vivendo" na ilha dos Mortos. A ideia de serviço, de consciência grupal "nasce" aqui, se se considerar que o signo de Capricórnio abre o último quadrante  zodiacal, que corresponde ao coletivo, à humanidade como um todo, com relação aos anteriores: o primeiro representa o individual, o segundo o familiar e o terceiro o social, um nos preparando para aceder ao outro. A partir de Capricórnio temos simbolicamente que aprender a nos “desmaterializar”. É por esta razão, por exemplos, que os hindus dão o nome de moksha a esta última etapa, palavra que tem o sentido de desatar nós, romper ligações.  

Três virtudes são requeridas quando pensamos em Capricórnio, conscientemente: silêncio, solidão e trabalho. Neste sentido, Capricórnio   é   um   signo   triste,   de  desapego,  de vida superior,
impessoal. Por isso, desapego de tudo o que é pessoal, pela expansão do pessoal (minha casa, minha família, meus bens, minha posição mundana etc) em direção de outros níveis, que podemos chamar de espirituais. Ao contrário, usar tudo isto, todos os valores materiais como um meio de saída, tornar-se mais leve, de modo a entender que o centro está mais acima. É neste sentido que em todas as tradições as montanhas são sacralizadas, o alto das montanhas, as acrópoles, como símbolos de saída para níveis de vida superior. Em Capricórnio termina o social e começa o coletivo, surge a noção de humanidade

Basicamente,  três  são  os  tipos  capricornianos:  o  defensivo,  o
aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo Crocodilo, pela Cabra e pelo Licorne. Animal de enorme bocarra, o crocodilo é usado para representar o período do ano em que o Sol é engolido pelas trevas, o inverno. Jamais ousando, prisioneiro do poder dos mais velhos, o capricorniano deste primeiro nível vive neste cenário: obediente, precavido em demasia, exageradamente metódico, tradicionalista, respeitador, não consegue empreender nada. É, como tal, um servidor, tornando-se geralmente vítima dos complexos de Cronos ou de Isaac. Pode ser representado também pelo chumbo, o ponto mais baixo a que se pode descer simbolicamente no processo de materialização. O chumbo, como sabemos, inibe qualquer tipo de mudança. Os hindus, com razão, dão o nome de Makara ao signo de Capricórnio, o primeiro mês do inverno, quando a luz solar é “engolida” pelas trevas hibernais, simbolizadas pela imensa bocarra desse animal.


O tipo aspirativo é representado pela cabra montanhesa, animal que procura  viver  nas  alturas.   Sem  os  exageros  do  primeiro tipo, disciplinado, perfeitamente centrado na caminhada aspirativa, muitos capricornianos do tipo “cabra montanhesa” podem se tornar grandes realizadores, até grandes construtores de impérios materiais. Stalin, Adenauer, Mao-Tse-Tung, Amador Aguiar
RICHARD   NIXON
(fundador de um império bancário no Brasil) são bons exemplos. Um exemplo bastante malogrado deste segundo tipo é o presidente Richard Nixon. Foi para o topo da montanha, mas, por não calcular bem os seus “pulos”, levou um tombo mortal.

O capricorniano de terceiro nível, representado pelo Licorne (o Leão de Chifre) é aquele que entende que em Capricórnio o poder de se criar materialmente termina. Como tal, para este tipo, Capricórnio será um signo de saída para o coletivo, para o transpessoal (Aquário). É aqui que ocorre a chamada transfiguração (transformação, metamorfose, mudança na maneira de pensar, de sentir, de proceder, do material para o espiritual). Se não ocorrer essa transfiguração, teremos a crucificação, a prisão na materialidade, o eu (Sol) inteiramente engolido pela vida material, pelas as três cabeças de Cérbero. Lembremos que na Alquimia a crucificação (crucifixio) e a mortificação (mortificatio) são praticamente equivalentes. 

Em todos estes exemplos, a montanha, uma das grandes imagens do signo, sempre apareceu simbolicamente como proposta de elevação, participando de ideais de transcendência enquanto lugar de teofanias, de hierofanias. É o lugar onde a terra e o céu se aproximam mais, lugar onde o divino é reverenciado e, ao mesmo, nele temos o fim das possibilidades aspirativas do ser humano.

A origem deste animal mítico, o Licorne, tem relação com a penetração da matéria pelo divino, que o chifre representa. É o tema do leão (lyon) de chifre (cornu),  sendo o chifre entendido como abundância espiritual e não material, ou seja, a espiritualização da matéria.  Não esquecer que o número de Leão é cinco e o de Capricórnio é dez, um duplo leão, portanto. O eu racional (Leão) se transforma em eu espiritual (Licorne) a partir de Capricórnio.


Uma explicação sobre o licorne: no século XII, ocorreu no ocidente uma transformação dos cavaleiros europeus, de guerreiros andantes em aristocratas rurais. O leão, que sempre aparecera simbolicamente associado ao poder, desde a antiguidade, sendo usado para representar deuses, reis, heróis e chefes militares, sofreu uma espécie de capitis diminutio. Sua imagem foi suavizada, espiritualizada. Surge o licorne, palavra que se decompõe em lyon e cornu, o leão de chifre. O simbolismo do chifre, ao mesmo tempo que encerra um sentido de poder, traz consigo ideias  de elevação, de eminência, de espiritualização (veja neste blog, no e-book, Exercícios de Leitura, a matéria “Os Chifres”, pag. 92, para melhores explicações).  

Historicamente, como sabemos, foi na virada do séc. XII para o séc. XIII, período em que alguns situam o primeiro Renascimento, que o amor se torna cortês e que a coleção de contos tendo como personagens o rei Artur e os Cavaleiros da Távora Redonda representou a expressão maior da cavalaria romântica e espiritualizada (busca do Santo Graal). Foi por essa época também que o românico deu lugar ao gótico e que os cultos marianos passaram a receber grande impulso, redefinindo-se os papéis da mulher na sociedade medieval.

NOTRE  DAME  DE  PARIS
A catedral de Notre Dame, em Paris, é um exemplo do que está acima: ela era não só uma invocação à Virgem, mas uma exaltação que se lhe fazia com a sua ornamentação. Maria foi retratada não só como Mãe de Deus, mas como Rainha do Céu e Advogada dos pecadores, tornando-se o próprio símbolo da Igreja. Um dos mais belos monumentos artísticos à glorificação do feminino é, nesse sentido, a catedral de Chartres, na qual a importância de Maria equivale à de Jesus.



NOTRE   DAME  -  CHARTRES

Foi em algum ponto na virada dos mencionados séculos que, por influência da Igreja Católica, certamente, a palavra  licorne começou a ser usada (indevidamente) para designar um símbolo do poder feminino que vinha de longe, encontrado em várias tradições, um pequeno cavalo unicornudo, que uma virgem acariciava, como imagem da pureza e da sublimação da vida carnal. Uma das mais conhecidas alegorias medievais do que estas figuras representam, com várias possibilidades interpretativas, é o conjunto de seis tapeçarias, do séc. XVI, La Dame à la Licorne (em português, A Dama e o Unicórnio), exposto no Museu de Cluny, em Paris. Numa das peças, vemos o leão (sem chifre) e o unicórnio, como imagem da união do princípio masculino (o leão, o noivo) e o princípio feminino (o unicórnio, a noiva) sob a tutela da Santa Madre Igreja (a Virgem).     


LA   DAME   À   LA   LICORNE  -  TAPEÇARIA

Em Capricórnio temos a desmaterialização daquilo que começou
VESTIMENTA   SUFI
em Câncer. Libertação da matéria, o poder da Lua, mãe das formas, termina. Daí as grandes virtude do signo, frugalidade, ascetismo, concentração. O emblema desta destas virtudes na vida ascética é o cilício, tecido feito com lã de cabra que os Sufis usam. Na Homeopatia, é a Calcárea carbônica, remédio das crianças "velhas", que se dá para o raquitismo, para os que têm falta de confiança, para os que custam a andar, para os debilitados, deprimidos.

Lutar, pois, contra a matéria que nos "prende", desmaterializarmo-
MORTIFICÁCIO : CINTO   DE  CILÍCIO
nos como disse. Penitência, mortificações, se necessário, para libertar a alma. A cabra, como símbolo aspirativo, pode chegar às alturas. Mas as alturas da cabra, como exemplificado,, são sempre perigosas, a rondá-las sempre uma ideia de imprevisibilidade, de capricho (palavra que vem de capris, cabra), tanto em razão de um salto mal calculado (o tombo é quase sempre mortal) como devido à própria imprevisibilidade do clima nas alturas. 

Capricórnio é assim um signo de conclusão. Não podemos ir além dele, impossível o progresso sob o ponto de vista formal. Temos que escolher os nossos meios de elevação. Primeiro, evitar distrações, trabalhar com seriedade, lucidez, inteligência, realismo, sem pieguices. Depois, concentração no mais significativo, sacrifício do supérfluo, silêncio. A misantropia e a misoginia  são perigos  do signo.  Lugares solitários, retiros e vida austera são muitas vezes procurados. No mais, ideias de firmar bases sólidas, de pedras assentadas, não afetadas pelo tempo. 

Dominadas as cabeças de Cérbero, surgirão outros valores, o altruísmo no signo seguinte (Aquário) e a doação desinteressada no último deles (Peixes). Desprendimento e desapego. Nada de futilidades, de leviandade, de irresponsabilidade. Linha dura, autocensura, humildade, "ajoelhar-se" para subir a montanha. Nada de descontroles emocionais, de caprichos, de den guices (Lua exilada), nada de descomedimentos, nem se acomodar à tentação de herdar posições por “razões de sangue” (Júpiter em queda). Observar Vênus, invariavelmente mal em Capricórnio: cuidado para não unir amor e alpinismo social ou ter medo de amar para não dividir; conflitos entre ambição, poder, cálculo e vida afetiva. Cuidados com a diminuição dos interesses afetivos, com a distância da vida instintiva (Marte), já que há a propensão de amortecimento de impulsos vitais importantes em nome de um sistema de segurança que procura organizar e consolidar posições. Fleugma, indiferença e insensibilidade podem aparecer. O que se perde em calor, elã vital, pode ser compensado (?) pela calma, pelo autodomínio, pela constância. Nem sempre contudo será possível manter o mundo à distância. 

De outro ângulo, podemos vislumbrar dois tipos básicos em Capricórnio, o material e o imaterial. O primeiro lembra muitas dificuldades afetivas. Não podendo amar o mundo, procura dominá-lo, colocando-o a seu serviço. Busca de elevação, posições eminentes; cálculo, frieza, caráter determinado, senso político, visão de futuro, calculista. Regras, regulamentos, controle, obediência, proeminência. Nos inferiores, cinismo, insensibilidade, manipulação, desconfiança, aspereza, castração. Bom administrador, assume tudo, inclusive a vida dos outros. São os solitários nas alturas montanhosas.. O segundo tipo é despojado, procura a renuncia ao material, nada de realizações mundanas (Saint Simon); serenidade, frugalidade (Proudhon, opção pela pobreza), desprezo pela ambição temporal, a vida como protesto contra os bens do mundo. Alguns costumam separar-se, isolando-se, buscando "picos" mais altos. Nos inferiores, desprezo, isolamento, melancolia, anulação da vida instintiva, pele e osso, predomínio total das virtudes frias.

Fisicamente, em Capricórnio, temos o corpo resistente, rugas precoces (Saturno é pele e osso), problemas cutâneos, cabelos precocemente embranquecidos, reumatismos, problemas nas articulações, joelhos, artrite, osteoporose, males do frio, lesões ósseas, deformações, luxações, anciloses, paralisias, problemas com o regime do cálcio, ossos em geral, dentes, unhas (paratireoide), dermatoses etc.

Fazem parte da galeria capricorniana, pelo Sol ou pelo Ascendente,dentre outros: Cézanne, Rodin, Adenauer, Bach, Tolstoi, Gavino Leda (veja o filme Pai, Patrão),  Savanarola,  Simone Weil, André Malraux, Montesquieu,  Pablo Casals, Johann Keppler,  Simone de Beauvoir,  Richard Nixon, Schopenhauer, Molière, Anton Tchekov, Edgar Allan Poe...

Quanto à origem da constelação de Capricórnio, temos que  ir ao mito do deus Pan. Ele era filho do deus Hermes e da mortal Dríope. Rejeitado pela mãe por causa de seu aspecto monstruoso, teriomorfo, foi envolvido pelo pai numa pele de cabra e levado para o Olimpo. Os deuses se encantaram com a criança, de modo especial o deus Dioniso, de cujo cortejo ele viria mais tarde a fazer parte. Recebeu dos Imortais, pela alegria que lhes causou, o nome de Pan, pois nele viram que um filho de Hermes, deus que unia o céu, a terra e o inferno e que, no plano terrestre, dominava as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), só poderia encarnar a totalidade universal criada. 

Seu corpo era peludo, possuindo ele no lugar de pés cascos e chifres como os de bode e orelhas pontiagudas.  Prodigiosamente ágil, perambulava pelos bosques e vales tocando a sirinx, sempre à procura de ninfas para atacá-las e com elas copular. Quando não as encontrava, masturbava-se furiosamente. Primitivamente, foi reverenciado como deus dos rebanhos e dos pastores, passando a encarnar depois o princípio da ordem universal, invocado inclusive nas litanias órficas como um princípio amoroso, criador, incorporado à matéria e formador do mundo. Neste sentido, era fonte e origem de todas as coisas, representando a matéria animada pelo espírito divino (princípio da imanência), a natureza como um todo, nele se concentrando os quatro elementos constitutivos do universo. Era dele que provinham as criaturas mistas, sátiros, silenos, egipãs, faunos etc. 

 A aparição de Pan provocava o pânico, um  terror  inexplicável,
PAN
paralisante, que se apossava das pessoas que o viam. Gostava Pan de repousar nos períodos de calor intenso, ninguém ousando perturbá-lo, ficando tudo silencioso e calmo na natureza. Aqueles que o perturbassem incorriam na sua ira; eram por ele atacados, inspirando-lhe o deus o pânico. Consta que na batalha de Maratona, atacou os persas, o que praticamente determinou a vitória dos gregos sobre os seus figadais inimigos. Em agradecimento ao deus, os gregos erigiram um templo em sua homenagem na Acrópole.

Na história de Pan, há registros que nos falam de seu amor por Selene, a Lua, e pela ninfa Eco, às quais teria oferecido, como presente, rebanhos de bois brancos. Um dos acontecimento mais importantes na crônica desse deus tem relação com Tifon, o maior dos monstros descritos pela mitologia grega. Filho de Geia e do Tártaro, era Tifon um agente do caos, uma perigosa ameaça para a ordem cósmica. Podia andar pelos mares mais profundos sem que sua cabeça fosse coberta pela água; sua estatura ultrapassava em muito os picos das maiores montanhas, indo além das nuvens mais altas; ao abrir os braços, suas mãos alcançavam com facilidade o oriente e o ocidente. Seu corpo era coberto por víboras, possuía asas e seus olhos lançam dardos de fogo.

Para escapar do ataque de Tifon ao Olimpo, os deuses gregos fugiram espavoridos, inclusive Pan, que se lançou num rio com a intenção de se transformar em peixe. Tudo aconteceu tão rapidamente que Pan ganhou apenas uma cauda pisciforme. Quando retornou de seu mergulho, soube que Zeus havia sido mutilado pelo monstro, que lhe cortara os tendões dos braços e das pernas. Em companhia do pai (Hermes), Pan conseguiu, contudo, afastar Tifon com o seu famoso grito que causava terror e fuga. Dirigindo-se depois a uma gruta, onde o Senhor do Olimpo jazia inerte, ambos, pai e filho, conseguiram reconstituí-lo, ligando os seus tendões, dando-lhe assim uma nova forma, equivalente a um segundo nascimento, que o projetou num nível superior de existência divina. Assim recomposto, Zeus, como sabemos, voltou a
MONTE   ETNA
se defrontar com Tifon, que se refugiou na ilha da Sicília. Zeus o perseguiu, a batalha foi terrível. Ao final, Zeus conseguiu vencê-lo, lançando sobre ele o monte Etna. Aprisionado, mas não morto, Tifon, até hoje, através de labaredas e gases, continua a dar sinais de sua presença, lembrando-nos que as forças do caos, ainda que dominadas momentaneamente, se constituem numa ameaça permanente. Segundo os gregos, para recompensar Pan dos inestimáveis serviços que lhe prestou, Zeus o colocou nos céus como a constelação de Capricórnio.

Pelos seus múltiplos aspectos, é de Pã, no mundo grego, que parte a ideia que vai invadir a filosofia, ideia que acabou por constituir a doutrina que tomou o nome de panteísmo. Esta doutrina, como sabemos, na filosofia grega, é de inspiração da corrente estoica, para a qual a força vital imanente ao mundo se confunde com a própria divindade. Spinoza a retomará, sintetizando-a na frase Deus sive Natura, o mesmo fazendo Hegel, que descreve a realização divina não só através da história humana como através do que
NOVALIS
chama de “dialética da natureza.” Lembremos que todo o romantismo filosófico do final do séc. XVIII e início do XIX na Alemanha (Novalis, Schlegel, Jacobi, Scheling) foi profundamente afetado por estas ideias. A teologia cristã moderna (veja inclusive a condenação de Spinoza pela sinagoga) identificou o panteísmo como um ateísmo por que ele recusava a ideia de um Deus pessoal. O panteísmo evoca a ideia de uma força impessoal presente em todo o universo e no homem, ideia que encontra a sua melhor formulação no Brahman dos hindus.


Esta identificação de Pan com o Todo, como a antiguidade no-la legou, encontra a meu ver a sua melhor explicação se considerarmos que  Capricórnio é o signo que abre o quarto quadrante  zodiacal, quadrante que nos coloca na décima casa, o
QUADRANTES   ASTROLÓGICOS
meio-do-céu, o setor astrológico que marca a possibilidade da mais elevada realização individual, o mais elevado grau de influência que podemos ter sobre o mundo material. Esta influência, para a maioria, só tomará o caminho da vida material (cabra montanhesa), para outros, uma significativa minoria, ela unirá o material e o espiritual (licorne). Para chegar a esse ponto da montanha, temos que ter vivido conscientemente os quadrantes anteriores, desde o primeiro e o segundo, onde temos os nossos talentos individuais e a contribuição familiar, passando pelo terceiro, no qual encontramos aqueles com quem nos associamos e deles recebemos ou não colaboração e recursos. A partir de Capricórnio é que o Todo, isto é, Pan, poderá se abrir para nós. No quarto quadrante, que termina pelo signo da sabedoria, Peixes, é que, conforme o aprendizado do terceiro, sobretudo, conquistaremos efetivamente a nossa liberdade, cuja característica mais marcante nesta última etapa está na liberdade de assumir deveres e responsabilidades que independem de retribuição ou reconhecimento. È no último quadrante zodiacal que podemos trabalhar com conceitos de altruísmo, fraternidade, humanitarismo.

A antiguidade grega atribuía a Pan dons proféticos, os mesmos que encontramos em outros seres telúricos, mais instintivos, que, ao invés da razão, preferem ouvir aquele “saber” espontâneo que “sabe” mais que o racional, aquele saber que percebe as verdades essenciais, as que têm importância realmente quando pensamos em vida digna. A parte “úmida” de Capricórnio (a cauda pisciforme de Pan) tem, astrologicamente, muito a ver com o lado inconsciente do signo, lado que, ao invés de causar problemas maiores, contribui positivamente, principalmente quando pensamos nos tipos superiores do signo que se transformam em servidores da humanidade. É este lado úmido que faz com que, embora possa se encontrar numa posição de poder ou de influência, o capricorniano de terceiro tipo (licorne) sabe que além dos poderes superiores, representado pelo pico das montanhas, há uma autoridade mais alta,  uma autoridade real ou simbólica diante da qual terá que se curvar, o poder das origens (Câncer), que nunca poderá ser esquecido.

O lado úmido de Capricórnio (Pan), segundo o mito, teria vindo do delfim, o peixe sempre associado a Apolo e ao oráculo de Delfos. Uma versão mitológica nos informa que os delfins são antigos piratas que, depois de terem atacado Dioniso, caíram na água e se arrependeram. Tornando-se símbolos da regeneração, estes peixes, ainda segundo o mito, ajudam os náufragos, muitos deles inclusive, para salvá-los, empurrando-os até as praias. Plutarco, o escritor e moralista, sacerdote de Apolo em Delfos, conta que o poeta e músico Arion (séc. VII aC) foi salvo dessa maneira. Os delfins eram muitos conhecidos pela sua sabedoria e prudência (virtudes capricornianas), sendo considerados, pela sua maneira de se deslocar, como mestres navegadores.