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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

PERMANÊNCIA DA MITOLOGIA GREGA.


UNIVERSIDADE  DE  ATENAS ( FRONTÃO )

A Grécia nos deixou uma vasta herança que se confunde com toda a cultura ocidental: sua arquitetura, sua escultura, seus elementos linguísticos, sua busca de perfeição e equilíbrio na arte, a loucura de seus heróis, a amoralidade e a crueldade dos seus deuses, suas escolas de filosofia, suas receitas políticas e científicas, um imenso legado, enfim, que está presente em todos os campos do conhecimento humano e também na vida do homem comum em sua vida diária.

Quantas palavras, oriundas da mitologia grega, estão nos nossos dicionários? De um levantamento começado e abandonado, retive algumas, umas muito conhecidas e usadas, outras nem tanto e umas poucas jamais as vi empregadas por alguém. Dentre as conhecidas, destaco, por exemplo, eólico, afrodisíaco, ambrosia, selênio, anfitrião, museu, uranografia, titânio, ninfa, hélio, erótico, apolíneo, atlas, carisma, atropina, bacanal, momo, narcisista, olímpico, nióbio, nano, sibilino, satírico, psique, hermético, odisseia, iridiscente, crônico, pitonisa, hipnose, hermafrodito, ciclópico, quimera. Os nossos dicionaristas, por exemplo, com base em Tântalo, um dos grandes criminosos da mitologia grega, registram o verbo tantalizar (torturar, prometer e não cumprir etc.).

 RIO  ESTIGE , TÁRTARO , 1861  ( G. DORÉ )

É de se lembrar que os grandes criminosos da mitologia grega que estão no Tártaro (a camada mais profunda do Hades, o Inferno grego) lá permanecerão até o final dos tempos submetidos a penas terríveis. Tais penas apresentam uma característica cruel: o criminoso ficará preso a situações absurdas que o obrigarão a repetir eternamente um gesto, um suplício que não termina nunca. Nenhuma possibilidade de mudança, de transformação, de mudança. As Danaides, por exemplo, lá estão no Tártaro a encher de água para todo o sempre toneis sem fundo ou, segundo outros, a carregar água numa peneira de um lado para outro. Não foi por outra razão que Platão interpretou este suplício como uma entrega insaciável do ser humano a paixões eternamente insatisfeitas. 

SÍSIFO , 1920 ( FRANZ VON STUCK )
Algo semelhante ocorre com Sísifo, o mais astuto e inescrupuloso dos mortais, que tentou enganar os deuses. Está condenado, até o final dos tempos, a rolar uma imensa pedra montanha acima na esperança de um dia, quem sabe, fazê-la atingir a outra vertente, livrando-se da pena. Mas tal não acontece, as forças lhe faltam sempre que ele está quase conseguindo realizar o seu intento. Terá o nosso herói que recomeçar a sua obrigação diariamente, que há de durar até o final dos tempos. Sísifo: uma imagem da condição humana? Essa, sem dúvida a razão pela qual Albert Camus o utilizou (Le Mythe de Sysiphe) para ilustrar as suas teses sobre a filosofia do absurdo. O absurdo de uma existência desprovida de sentido e de transcendência, num mundo ininteligível, que requer sempre nosso esforço.

É pelos mitos das várias tradições que o ser humano pode iluminar e compreender melhor o seu presente. Ou seja, diacronicamente ir a eles, no passado distante, trazê-los para o presente e, com eles, sincronicamente, explicar melhor o que acontece, sobretudo com relação à sua conduta e às daqueles com os quais convive. Todo mito oferece, em última instância, sob uma forma alegórica, explicações do inexplicável. Este entendimento se fez presente quando, por exemplo, os nossos cientistas, bem assessorados, não há dúvida, recorreram ao nome do desditoso e orgulhoso Tântalo para designar um metal recentemente descoberto.

Com efeito, por sua grande inércia, o tântalo logo se tornou um metal que está no centro da mais sangrenta guerra civil de que se tem notícia nos tempos modernos, na República do Congo. O tântalo, chamado também de ouro azul, é imune à corrosão e entra na confecção de dispositivos eletrônicos portáteis. Por essa razão, é considerado como um dos metais mais importantes até hoje descobertos sob o ponto de vista científico, industrial, comercial e estratégico. Por trás da guerra civil no Congo, onde já morreram cerca de cinco milhões de pessoas, sob o silêncio da grande imprensa mundial, estão as grandes potências estrangeiras de sempre, poderosas multinacionais e grupos regionais. Fica, então, a pergunta: por qual razão se deu o nome de tântalo a esse metal?
O TORMENTO DE TÂNTALO , 1731
( BERNARD PICART )
Tântalo, como está acima, foi condenado a viver até o final dos tempos no Tártaro, submerso até o pescoço, submetido ao suplício da fome e da sede. Os alimentos e a água estão ao alcance de suas mãos. Quando ele estende a mão para pegá-los ou para saciar a sua sede, tudo lhe escapa, inexplicavelmente. Mas Tântalo, embora sofrendo eternamente, não morre. Por sua grande capacidade de sobreviver deste modo é que a ciência moderna lhe prestou a tão significativa homenagem, dando seu nome a esse metal absolutamente imune à corrosão.   
   
MEDUSA  (G.L. BERNINI, 1598-1680)
Os nossos dicionaristas bem poderiam, numa próxima revisão que fizerem, indo à mitologia de várias tradições incluir no nosso léxico, por exemplo, honrando a monstruosa  Medusa, o verbo medusar. Os franceses já o registram desde o século XIX, méduser, com o sentido de estuporar, assombrar, paralisar. Poderíamos criar, para gente mais interessada em cultura, obviamente, o adjetivo sisífico para designar tarefas que, embora não o sejam, possam parecer sem sentido ou inúteis, um trabalho sísifico. Registrar um adjetivo com base no nome das Danaides, danáidico, talvez, que significasse um trabalho que, executado, só nos causa frustração, pois nenhum resultado é obtido. 

Para dar um certo ar cultural a um personagem que tem papel importante no mundo da homossexualidade, tão infestado hoje de termos anglo-americanos, poderíamos, com a inestimável colaboração da mitologia grega, incluir no nosso léxico a palavra catamita. A língua inglesa já a registra. Lá está no Webster: catamite: a boy kept for pederasty. Explico-me: os latinos, conforme está no Dicionário Ilustrado Latim-Francês, de Félix Gaffiot, deram o nome de Catamitus a Ganimedes atribuindo-lhe o significado, como está em Plínio e Cícero, de homme debauché, mignon. 


GANIMEDES
 (P.P.RUBENS, 1577-1640)
Ganimedes foi um príncipe troiano, raptado por Zeus na forma de uma águia e levado ao Olimpo para ser não só seu escravo sexual como para servir na nobre função de escanção (o que serve o vinho) dos deuses nas festas do Olimpo. Inflamado pela beleza do jovem, sobretudo pelas suas esplêndidas coxas, como disse o poeta, Zeus o presenteou com um galo, um anel e um par de asas. O primeiro, ave fálica, afasta as trevas, anunciando a aurora; o segundo é um emblema de totalidade; as asas, símbolos de liberdade e de ascensão espiritual.


O mito de Ganimedes, nome que lembra o jorro do vinho, era muito popular na Grécia antiga e em Roma. A história foi muito usada para justificar a prática de homens adultos tomarem como amantes jovens machos de grande beleza. Foi durante a Idade Média que o nome Ganimedes tornou-se equivalente a homossexual. O banquete, entre os antigos gregos, era realizado em muitas ocasiões, como festa de casamento, como cerimônia fúnebre e como evento social e cultural. Neste último, o banque, de modo especial, se integrou à filosofia através de Platão: uma reunião durante a qual os convidados bebiam vinho e sobretudo conversavam sobre variados temas artísticos e filosóficos. Este banquete era chamado de symposiom (posis, em grego, é ação de beber, gole de bebida), sendo presidido por um symposiarkhes (simposiarca), encarregado de manter as conversas animadas, dosando, para isso, o teor alcoólico do vinho distribuído entre os convivas. 

DIONISO , MÁRMORE ANTIGO
O vinho, enquanto “sangue” da vinha nos remete a uma ideia de princípio vital considerado sob o ponto de vista espiritual, isto é, da totalidade. Assim como o sangue, através da circulação arterial, energiza os órgãos do corpo, fazendo-os funcionar corretamente em benefício do todo, assim o vinho, bebida da imortalidade, leva à transcendência do individual em direção do coletivo, da humanidade. Astrologicamente, não podemos esquecer que Urano, planeta regente do signo de Aquário, se exalta em Escorpião, signo no qual “vive” Dioniso, o deus  inventor do vinho. Aliás, o vinho, em todas as tradições, sempre teve um valor cultural, muito superior ao da cerveja, favorecendo aqueles que sabem consumi-lo numa forma de convívio inteligente e culto. 



É nesta perspectiva que se coloca a obra (diálogos) de Platão, de modo especial o seu Symposiom, O Banquete, em português, que tem por cenário uma reunião patrocinada pelo poeta Agatho, da qual participam os seus amigos. Nessa reunião são abordados temas referentes ao amor à ciência e ao belo. Cada um dos convivas faz um elogio a ambos os temas, tomando Sócrates depois a palavra para fazer uma reflexão aos belos corpos, às belas almas e à beleza de um modo geral, encerrando-a com uma louvação à vida espiritual superior.  

O meu destaque vai neste trabalho para os temas míticos. Obrigo-me, porém, antes a fixar melhor o que entendo por mitologia. Como o próprio nome sugere, mitologia é um conjunto de mitos. Mitos são relatos fantásticos de tradição oral, depois registrados por escrito, geralmente protagonizados por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana. São também lendas, fábulas, narrativas dos tempos heroicos encontrados em todas as culturas, que sempre guardam um fundo de verdade. O mito, porém, ressalte-se, não é grego nem pertence a uma cultura específica. Ele existe desde sempre, nasceu com o homem, aparecendo em todas as culturas e sendo apresentado sob variadíssimas formas.

Até hoje, sentimos a presença dos deuses e heróis gregos como parte de nossos pensamentos e anseios. Estudiosos, desde a antiguidade, e modernamente os terapeutas da mente, apoderaram-se dos mitos, esmiuçaram seu simbolismo e, principalmente, suas implicações psicológicas. Criaram, por exemplo, o conceito de arquétipo e abriram a possibilidade da percepção das relações entre a vida consciente e inconsciente do homem. Para as correntes junguianas, por exemplo, arquétipo é o conteúdo imagístico e simbólico do inconsciente coletivo, compartilhado por toda a humanidade, evidenciável nos mitos e lendas de um povo ou no imaginário individual, especialmente em sonhos, delírios, manifestações artísticas etc. 

Nesta linha de pensamento, o inconsciente coletivo é parte do inconsciente pessoal e contém ideias inatas ou a tendência a organizar a experiência vivida em padrões predeterminados, comuns a todos os homens. Não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo, portanto, uma aquisição pessoal. O conteúdo do inconsciente coletivo é constituído essencialmente de arquétipos, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar.

Esse sistema psíquico, de caráter coletivo, não pessoal, coexiste com o chamado inconsciente pessoal. Ele não se desenvolveu individualmente, mas é herdado. Ele consiste de formas preexistentes, arquetípicas, que só secundariamente podem tornar-se conscientes, conferindo uma forma definida aos conteúdos da consciência.  O mito é, pois, uma narrativa que explica as causas primeiras (cosmogonias e teogonias) e relata como uma realidade chega à existência.  

É como diz Fernando Pessoa, em Ulisses:

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo-
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
FERNANDO  PESSOA

Este eu aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Embaixo, a vida, metade
De nada, morre.


PROMETEU (NICOLAS-SÉBASTIEN ADAM, 1705-1778)

Das várias mitologias que penetraram, teceram e permearam a cultura ocidental, a grega é, sem dúvida alguma, a mais notável. E isto apesar da apropriação indevida que muitos, já na antiguidade, dela fizeram. Platão é um conhecido desfigurador de mitos, como se sabe. Utilizou ao todo dezessete deles, modificando-os para que coubessem nos seus argumentos. Um dos exemplos mais notáveis do que aqui afirmo foi o que ele fez com o mito de Prometeu.

Ao longo dos séculos, desde a antiguidade, sobretudo para fins econômicos e políticos, certos filósofos, escritores, poetas, músicos e, mais recentemente, muitos roteiristas que escrevem argumentos para o cinema, descaracterizaram-nos, distorcendo-os e rebaixando-os à vontade, seja por ignorância ou por má-fé, com a finalidade de manipular a mente de leitores e de espectadores, no geral, totalmente desatentos e desinformados.

GUERRA  NAS  ESTRELAS
Um dos exemplos mais interessantes do que está acima foi o que ocorreu com um dos maiores blockbusters do cinema americano de todos os tempos, Guerra nas Estrelas (Stars War), dirigido por George Lucas. Sabemos que este diretor se inspirou bastante nas ideias de Joseph Campbell para realizar principalmente os filmes IV, V e VI da série que teve início na década de 1970 para se transformar num negócio de 30 bilhões de dólares. Ao que consta, Campbell, durante meses, hospedou-se no
SKYWALKER  RANCH
rancho de Lucas, o Skaywalker Ranch, “alimentado-o” (ele e a sua equipe) de suas ideias sobre a mitologia. Um dos mais perversos objetivos deste filme foi, para os mais atentos, é claro, o de dar um substrato mítico ao Projeto Guerra nas Estrelas, para transformá-lo em mass communication, projeto criado originalmente no governo Reagan (1983) com a finalidade de manter um estado de beligerância permanente, a chamada Guerra Fria, contra a antiga União Soviética. O objetivo desse projeto era o de criar um sofisticado arsenal, que ficaria na órbita da Terra, a fim de destruir, com o uso de canhões lase
l, qualquer míssil balístico que viesse a ser lançado contra os Estados Unidos e seus aliados. Dentro e fora dos USA, apesar de todo o seu sucesso editorial, como se sabe, as ideias e pesquisas de Campbell, na área da mitologia, sempre foram  muito contestadas.   
  
AS  GEÓRGICAS
Um dos casos que exemplifica notavelmente o que acabo de afirmar foi que aconteceu com o mito referente a Orfeu. A história trágica do cantor trácio com a jovem Eurídice, depois dos textos de Virgílio (As Geórgicas) e de Ovídio (Metamorfoses), deu origem a uma grande tradição literária, artística e musical que se valeu do tema. A maior parte dos artistas que se serviu do mito o deturpou, tratando-o ingênua ou negligentemente
METAMORFOSES
sem saber do que ele significava realmente, embora muitos tivessem obtido grande sucesso de crítica e de público. A maior parte dos artistas esvaziou o mito do que ele tinha de mais importante, o seu caráter político-social, uma força reacionária, originária de um mundo aristocrático, apolíneo, que procurou se opor de modo inglório ao dionisíaco. 

OFFENBACH
Dentre as obras mais importantes e aclamadas sobre Orfeu, que nem por isso deixaram de ser falsas sob o viés de que falamos, muitas amplamente mais conhecidas, podemos citar as óperas de Monteverdi, Gluck, Haydn, Offenbach, dramas coreográficos e balés diversos, como os de Angelo Pliciano, de Lope de Vega etc. Nas artes plásticas, podemos apontar Brueguel, Tintoreto, Poussin, Delacroix etc. No cinema, os filmes de Jean Cocteau e de Marcel Camus. 

Para se fixar melhor o que está acima, é preciso lembrar que o libreto da ópera de Monteverdi foi escrito por Alessandro Striggio, à época, início do séc. XVII, um jovem advogado, que ingressara na carreira diplomática, a serviço do duque Vincenzo Gonzaga, de Mantova. Para escrever o libreto, Striggio se valeu principalmente, além de outras fontes, das Metamorfoses de Ovídio, livros 10 e 11, e do livro quarto das Geórgicas, de Virgílio. 
    
RETRATO DE MONTEVERDI
( B. STROZZI , 1640 )
O teatro musical que se fazia no final do Renascimento guardava ainda uma certa influência declamatória do antigo teatro grego (tragédia). Com as modificações introduzidas por Claudio Monteverdi, ornamentação musical mais elaborada, polifonia mais sofisticada, diversificação de técnicas e de performances instrumentais, introdução do bel canto, ficou aberto o caminho para a fixação do Barroco, como um novo gênero musical. O Orfeo de Monteverdi é, por isso, considerado como uma das últimas peças do Renascimento e a primeira de um gênero, então chamado de dramma per musica ou favola in musica, que receberia depois o nome de ópera, opera seria, no alto Barroco.

Quanto ao libreto de Striggio, a coisa vai mais ou menos bem até o quarto ato, seguindo o mito grego. No último ato, porém, tudo desanda. No mito, Orfeu, depois de ter tocado o coração de Perséfone (Proserpina para os latinos), a rainha do Inferno, com a sua história, recebeu permissão de Plutão (Hades) para levar Eurídice de volta à vida, ele caminhando à frente dela. Ele só poderia olhá-la quando ambos estivessem fora dos territórios infernais. Entretanto, tomado por invencível pothos (saudade), Orfeu voltou-se para vê-la, perdendo-a então definitivamente. Ao sair do Inferno, só e acabrunhado, depois de ter perdido Eurídice, renegou o mundo feminino. O final já é conhecido: nosso poeta-cantor foi estraçalhado pelas mênades, as sacerdotisas de Dioniso. 


ORFEU , MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

Alessandro Striggio, evidentemente, adaptou o mito ao gosto da época, isto é, aos círculos elitistas de Mantova, pois não “ficaria bem” que um dramatic entertainment como era Orfeu terminasse dessa maneira tão chocante. O que Striggio nos descreve é que Orfeu, consumido pela dor, foi levado para os céus por seu pai Apolo (no mito, o poeta é filho de Calíope, a mais importante das Musas, e o do deus-rio Eagro; foi o machismo da religião grega, quando o Orfismo se tornou uma importante seita religiosa, que lhe deu Apolo como pai). Muita gente até hoje, principalmente músicos, ignorando toda a complexidade da crônica órfica, principalmente sob o ponto de vista histórico e político, aceita passivamente o “embelezamento” ou o “enobrecimento”, de tendência espiritualizante, do nosso herói mítico.   

ILUSTRAÇÃO
ARTHUR  RACKHAM, 1867 - 1985 )
Durante a Idade Média, na Europa, os mitos utilizados por artistas vão dizer respeito mais diretamente à mitologia celta (Tristão e Isolda, que tão bem explora a fatalidade da paixão), riquíssima, que possui muitos elementos trazidos do Oriente através de povos árabes, elementos esses quase sempre originários da Índia ou do Irã. Devemos considerar também a mitologia nórdica, em especial O anel dos Nibelungos, tema aproveitado por Richard Wagner. Poderíamos citar também vários outros exemplos, como os contos que mais tarde foram transformados, nos chamados Contos de Fadas, tão ricos, em arquétipos e que grandes linguistas, pedagogos e principalmente psicólogos estudam e usam em seus trabalhos.

Há arquétipos facilmente reconhecíveis nas Canções de Gesta e nas Canções de Amor medievais, ligadas ao "maravilhoso", ao "fantástico". Arquétipos que mudam, é claro, adaptando-se-os a hábitos e costumes de diferentes épocas e lugares. Assim temos, por exemplo, fazendo parte de muitas histórias onde exercem papéis e funções diferentes, o rouxinol, a madressilva, a cotovia, os dragões, as fadas, a fada-madrinha, a madrasta, as sereias, os ventos, os mares, os amuletos, os talismãs, os oráculos, o uso simbólico dos números, o conflito entre o amor e o gosto da aventura e muito, muito mais.


CANÇÃO  DE  GESTA , ILUMINURA

Quem olha dentro da água, o mar, pode ver a sua própria imagem ou seres vivos, peixes, possivelmente inofensivos, habitantes das suas profundezas. Mas como a mente humana é tão perturbada, tão “mal-assombrada”, não temos porque nos espantar se pessoas  nele “sentem” a presença de seres ameaçadores, terríveis. Trata-se de seres aquáticos de um tipo especial. Às vezes, o pescador apanha uma ninfa em sua rede, um peixe feminino, semi-humano. Ninfas são criaturas fascinantes:

A meias ela o atraía
A meias ele se dava
E nunca mais o encontraram.  (Goethe, Balada)

A sereia é um estágio ainda mais instintivo de um ser mágico feminino, que designamos pelo nome de anima. Também podem ser ondinas, melusinas, ninfas dos bosques etc...

Sabemos que, embora fosse proibido, eruditos leigos ou religiosos estudavam textos gregos durante a Idade Média. Mas é a partir da Renascença que a influência grega se faz sentir mais diretamente e com força cada vez maior. Os humanistas franceses do século XVI se inspiraram na Antiguidade (língua, doçura de viver, sabedoria, a
COLÉGIO  DE  FRANÇA , PARIS
cultura chamada humanitas, preocupação global com o corpo, harmonia, lógica, tendências confusas em direção da ordem...), enfim, toda uma filosofia de vida. O grande Francisco I° vai incentivar estes elãs e facilitar sua realização, inclusive criando o Colégio de Leitores Reais, atual Colégio de França (cujos professores eram encarregados de ensinar o latim, o grego e o hebreu), e abrindo sua biblioteca aos humanistas e a enriquecendo com manuscritos gregos. Assim, os textos antigos encontraram meios preciosos de difusão.

Artes plásticas, pintura e escultura, sem esquecermos arquitetura (os castelos em suas concepções gerais e seus elementos decorativos), inspiraram-se também em modelos gregos. Há um intercâmbio intenso com a Itália, que já há séculos admirava e
PHILOMÈLE  OU  ROUXINOL
copiava a perfeição grega. Esta presença grega pode ser percebida em citações diretas, referências a deuses, ninfas, musas, heróis, filósofos, aspectos os mais variados da mitologia, uso de nomes que encerram significados que enriquecem o texto. Ouso mesmo dizer que, desconhecendo estes significados, alguns textos permanecem incompreendidos. Por exemplo: Philomèle é o rouxinol, pássaro da noite, que em seus cantos chora a morte do filho; Aurora é a deusa que abre as portas do céu ao carro do Sol. 

Do século XVI citarei com destaque Marot, Rabelais, Du Bellay¹, Ronsard² e Montaigne, poetas e/ou filósofos. Mas é de se deixar bem claro que não só as pessoas mais letradas e cultas faziam sérios estudos helenísticos. Pessoas pertencentes às camadas mais privilegiadas econômica e socialmente também se dedicavam a esses estudos, ainda que não "profissionais" como aqueles.  

 1 - Feliz quem como Ulisses...
DU  BELLAY

Feliz quem, como Ulisses, fez uma bela viagem,
Ou como um certo alguém que conquistou o tosão, 
E depois voltou cheio de experiência e razão,
Viver entre os seus pelo resto de sua vida.(......)


2 - Combate entre Deuses e Gigantes, A floresta de Gasine (floresta da Arcádia onde Hércules matou um porco do mato), O amor picado por uma abelha (além das citações diretas, o poeta faz um estudo de ritmo, sons e ambientação baseado em Anacreonte).

O século XVII, lembremos, foi o da grandeza, da ordem racional e estável, da autoridade, da razão lúcida, enfim do classicismo, representa o auge da influência helênica. Algumas citações: o racionalismo de Descartes, La Bruyère (Philémon, Iphis), Fénélon; Telêmaco é o que combate de longe, i.é, com armas de arremesso; Anfitrite (deusa do mar, filha de Oceano, esposa de Poseidon), La Fontaine (3) e, principalmente, Molière (Alcmenes, Anfitrião, Cleanto ou Cleantes, Harpagon), Corneille (Medeia, Édipo, Psiquê, Polyeucte (a muito desejada), Nicomedes (o que planeja a vitória), Racine (Ifigênia, Fedra, Oenone, Teseu, Hipólito, Aricia e tantos mais). Na tragédia temos violência x fraqueza, lucidez x cegueira, orgulho x humilhação, a fatalidade da paixão, a dignidade, a verdade humana eterna, o inconsciente coletivo e seus arquétipos.

LA  FONTAINE

3 - Amores de Psiquê  (epicurista)

Amo a diversão, o amor, os livros, a música,
A cidade e o campo, enfim tudo; não há nada
Que não me seja um soberano bem,
Nem mesmo o sombrio prazer de um coração melancólico.(......)

O século XVIII é uma continuação dos séculos anteriores ao exacerbar a paixão pelas ideias, pela filosofia, pelas ciências, pela confiança na razão humana, pelo exame crítico de textos sagrados diversos, pelo estudo dos astros, dos fenômenos naturais, pela política, pela economia etc. Seus escritores, como não poderia deixar de ser, vão também fazer referências diretas ou indiretas à cultura grega, como Marivaux quando fala de Eufrosina (uma das

três Graças, a que dá forma às alegrias da alma), ou Montesquieu, em seu importante Espírito das leis, quando estuda a democracia, a monarquia, a aristocracia, o despotismo etc. e quando fala dos Trogloditas (habitantes das cavernas). Voltaire, por sua vez, nomeia um de seus personagens Micromégas (micrós, pequeno, megas, grande). Rousseau, em seu discurso sobre as ciências e as cortes analisa gregos e romanos, discorre sobre a justiça social e as instituições políticas.

Durante o Romantismo (que surge no final do século XVIII e atravessa grande período do século XIX, seguido pelo Realismo e, mais tarde, pelo Simbolismo) há uma volta à Idade Média, uma busca de religiões ou mitologias. Chateaubriand é fascinado pela Grécia, presente, sob todos os aspectos, em vários trechos de suas
MIRTA
obras. O mesmo se dá com Lamartine, Vigny, Hugo, Musset, Nerval, Balzac, Stendhal, G. Sand, só para citar alguns. Baudelaire, num de seus poemas, se dirige a Andrômaca, fala de Heitor, de Citera (ilha consagrada a Afrodite), da mirta (planta de Afrodite) e assim por diante. Não esqueçamos que em todos os últimos séculos citados pintores, escultores e músicos também realizaram obras inspiradas em temas e personagens da mitologia grega.

ORFEU
No século XX não poderia ser diferente; o teatro e o cinema já estão muito invadidos pelo universo grego. É o caso, por exemplo, de Jean Cocteau (Orfeu), de Cacá Diegues (Orfeu do Carnaval), de Marcel Camus (Orfeu Negro) e de muitos outros cineastas que utilizaram fontes gregas, como o fizeram também muitos escritores. Sartre (Les mouches), Anouilh (Antígona), Giraudoux (Electra, Anfitrião), Albert Camus (O mito de Sísifo). Ulisses, por exemplo, ganhou vida através de Kirk Douglas. Brad Pitt, num filme baseado em Homero, foi parar em Tróia. Hércules é o personagem principal de The Rock, filme de 2014, de Brett Ratner etc., etc., etc....  






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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (3)



HADES

A reputação de Hades, como deus do inferno, do mundo subterrâneo, tanto entre os imortais como entre os humanos era péssima. Sinistro, taciturno, seus irmãos e pares jamais o viam, não participando ele, por seu lado, das famosas reuniões olímpicas. Ele não visitava ninguém, todos o temiam. Quanto aos mortais, todos evitavam pronunciar seu nome, usando eufemismos, como o nome Plutão, o rico, para se referir a ele. Entretanto, se considerado mais de perto, se levada em conta toda a sua história, Hades era um deus justo. Com ele, nada de favores, de tratamentos especiais. Todos, ricos ou pobres, eram recebidos do mesmo modo no seu reino. Nem justo ou injusto, simplesmente inexorável por que desconhecia sentimentos como piedade ou compaixão. Cumpria a sua função, governando com eficiência a parte que lhe coube quando da divisão do universo entre ele, Poseidon e Zeus.


REINO   DE   HADES ( GRAVURA / ANÔNIMO )
Os mortos, no reino de Hades, não eram senão sombras sem consciência ou sangue, eidola. Moviam-se mecanicamente, tudo era repetitivo, não passavam de fantasmas errantes que perambulavam por planícies de asfódelos, tão tristes e soturnas como eles. Os gregos, desde Homero, davam à alma (psyche), além de eidolon, nomes como skia (sombra), opsis (aparência),  phantasma (fantasma) e onar (sonho), sempre uma forma frágil, volátil, à qual faltava o corpo (soma), razão do seu esplendor. 

CÉRBERO   E   HÉRCULES ( P. P. RUBENS , 1636 )

Cérbero, o cão tricéfalo, além de cuidar para que as almas não escapassem do destino que lhes cabia, impedia que os mortos descessem ao mundo ctônico sem terem passado ritualmente pela morte. Caronte, o barqueiro, por sua vez. só admitia no seu barco,
CARONTE (G. DORÉ, 1832 - 1883)
para o devido cruzamento do rio Aqueronte, as almas que lhe entregassem o devido óbolo. Julgadas no Tribunal da Verdade presidido por Minos, eram elas encaminhadas, conforme o caso, ao Érebo, ao Tártaro ou aos Campos Elíseos. Para este último iam algumas almas de elite, onde ficariam aguardando o retorno à vida sem sofrimento. Mas eram poucos, muitos poucos, aqueles que podiam sonhar com esse território idílico. Mesmo muitos heróis não os atingiram, o que fazia supor que apenas ter coragem não bastava para que alguém escapasse dos castigos do Hades.


HIPNOS   E   THANATOS   CARREGAM   HERÓI   MORTO

Alguns falavam que o Érebo acolhia os mortos privados de sepultura. Era nele, segundo depoimentos, que ficavam os Palácios
MORFEU , 1777  ( J.F.HOUDON )
de Thanatos, de Hipnos e de seu filho Morfeu, os dois primeiros irmãos gêmeos. O Palácio das Eríneas, deusas do remorso, ficava por perto. Um pouco mais ao longe, tínhamos os domínios de Nyx, a grande deusa da Noite, que, segundo Hesíodo, nasceu diretamente do Caos e gerou muitas calamidades que atacavam os humanos. Nas camadas mais profundas do Hades ficava o Tártaro, lugar jamais alcançado pela luz, prisão eterna dos maus, lugar sem saída. Foi nele, um lugar ao mesmo tempo glacial e fervente, que Urano lançou os seus filhos e que Zeus aprisionou os titãs. Nele, com permanência até o final dos tempos, estão criminosos famosos como Sísifo, Tântalo, Ixion, as Danaides e outros,  devorados por seus remorsos e culpas.

HÉCATE  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1828 )

Tão ou mais poderosa que Perséfone, vivia nesse mundo Hécate, deusa dos encantamentos e da magia, a maior e a mais bela de todas as feiticeiras, uma Deusa Tripla, Grande Mãe, na origem. Para uns filha de Nix e do Tártaro, para outros, descendente dos Titãs; o que se sabe de certo é que quando os olímpicos assumiram o poder ela já pontificava e no reino deles conservou os seus privilégios e até os aumentou, sempre muito respeitada. Apesar das tentativas de “enegrecê-la”, ela, quando adequadamente honrada, continuou favorecendo os humanos, proporcionando-lhes prosperidade material, o dom da eloquência nas assembleias, vitórias nos jogos e nas batalhas, pesca abundante e rebanho numeroso. 


HÉCATE
Hécate (a que fere à distância, de longe, etimologicamente) é uma deusa lunar trívia (as três fases lunares visíveis), honrada nas encruzilhadas, que visitava a cada vinte e oito dias, quando subia à superfície terrestre, acompanhada de animais que simbolizavam a fecundidade. As encruzilhadas, como se sabe, são lugares de mudança, de transformação, de viradas de destino. O poder que a deusa tinha sobre elas era dividido com Hermes, também nelas honrado, na sua forma itifálica. Profundamente misteriosa, tinha Hécate relação direta com a Lua Nova, período em que aparecia nas encruzilhadas. Presidia às aparições de fantasmas e de espectros, assumindo então a função de senhora dos malefícios, dos pesadelos, deusa perigosa, terrível, sempre temida, que destruía aqueles que ficavam “prisioneiros”, imobilizados, sem nada decidir, nas encruzilhadas. Era, como tal, invocada secretamente no curso de todas as operações de magia negra. 


ERÍNIAS
Tinha Hécate como atributos a tocha que iluminava o caminho que levava aos infernos, o punhal sacrificial, o chicote para despertar as consciências sonolentas e a chave que abria as portas de acesso a lugares proibidos ou secretos. Como Ísis e outras Grandes Mães, Hécate possuía poderes que lhe permitiam intervir em todo o universo. As Erínias, grandes divindades dos remorsos e das culpas, nas incursões que faziam em conjunto, a acompanhavam sempre respeitosamente, com grande deferência. Ativa colaboradora do Hades, Hécate sempre se manteve muito à vontade nas suas atividades, mesmo depois de Perséfone ter recebido o título de rainha dos infernos. 

HADES  RAPTA  KÓRE
( 1621/22 , G.L. BERNINI )
Por sua associação com o mundo subterrâneo e com os temas de morte e renascimento, Escorpião sempre foi conhecido como o signo da vida subconsciente. Inicialmente, na mitologia grega, como sabemos, o mundo subterrâneo foi governado apenas por uma divindade masculina, Hades. Quando ele raptou Kóre para transformá-la em Perséfone, restaurava-se com esse ato, quanto ao mundo infernal, a dignidade do princípio feminino, entendendo então os gregos que o vasto, inexplorado e inexplicado mundo da vida subconsciente pertencia, de fato, ao elemento feminino. 

Esse entendimento, aliás, já estava implícito na ação da deusa
PLUTÃO
Hécate, e mesmo quando o patriarcado tomou posse do oráculo de Delfos. Apolo só conseguiu sentenciar oracularmente quando se valeu das sibilas, isto é, quando recorreu ao feminino. O mito do Hades como um todo nos revela que os princípios masculino e feminino devem sempre operar através do equilíbrio e de compensações. É por isso que Plutão, num mapa astrológico, é tão feminino quanto masculino. 

 Na astrologia, assinale-se, Plutão é o grande reformador que destrói para reconstruir melhorando, que questiona tudo, abolindo usos e costumes para reformulá-los mais eficazmente, forçando as reciclagens. É por essa razão que Dioniso tanto é chamado de Faleno como é considerado como o mais feminino dos deuses gregos, lembrando-nos sempre que toda produção terrestre tem como origem mais profunda e última (ou primeira) as profundezas infernais. 

MEMÓRIA
( MAGRITTE , 1898-1967 )
Na Psicologia, como se sabe, pertence ao subconsciente (feminino) aquele conjunto de fatos ou vivências pouco conscientes ou que estão fora do limiar da consciência atual ou aos quais ela não pode ter acesso. Nem tudo que está na esfera do subconsciente, entretanto, é inconsciente; alguma coisa pode subir, dela se pode ter consciência. Diz-se, por isso, que no inconsciente estão abrangidos todos os conteúdos ou processo psíquicos que não são conscientes, isto é, que não estão referidos ao eu de um modo perceptível.

A questão de se apurar em que estado se encontra um conteúdo inconsciente escapa de toda possibilidade de conhecimento direto. Também é impossível se determinar a dimensão desse mundo inconsciente. Só através das constatações existenciais pode ele ser percebido, embora nunca muito claramente. O que se sabe é que conteúdos conscientes podem se tornar inconscientes em razão de uma perda de energia. É o que chamamos de esquecimento. Esses conteúdos, também nos diz a experiência, podem emergir do seu afundamento sob determinadas condições, através de sonhos, hipnose, práticas de livre associação etc.


SONHO  (1956 , SALVADOR  DALÍ)
É possível também que os conteúdos conscientes possam ficar submersos sem grandes perdas de sua energia em virtude de esquecimentos intencionais, como é o caso da repressão de conteúdos penosos (recalques). Em casos de dissociação da personalidade, pela dissolução da unidade da consciência, em virtude de um violento choque nervoso ou de uma profunda e intensa afeição podemos ter também casos de submersão ou de repressão como mencionamos. 

Os conteúdos inconscientes permitem que uma tentativa classificatória possa ser estabelecida. É possível, por isso, falar de um inconsciente pessoal, que compreenda todas as aquisições de uma existência pessoal, tudo aquilo que, em suma, é esquecido, reprimido, sentido, pensado para além do limiar da consciência. Além desses conteúdos pessoais inconscientes podemos admitir que existam outros que não provêm de aquisições pessoais, mas que se originam de ideias inatas e que fazem com que as experiências vividas sejam organizadas através  de determinados padrões de comportamento comuns a toda a humanidade. O inconsciente coletivo é, nesse sentido, uma espécie de reservatório ancestral de experiências, herança racial jamais tornada consciente, mas que se manifesta nos sonhos por imagens arquetípicas em ligação com mitos, lendas etc.

FREUD,1926 (SCHMUTZER)
Freud distingue no psiquismo três instâncias: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente, correspondentes a níveis decrescentes a partir do primeiro. Tanto na Psicologia como na Psicanálise, o consciente (masculino) é o aspecto da psiquê que constitui o lado da vida mental a que se tem acesso instantâneo e que está em maior contacto com a realidade exterior. Esta realidade exterior é simbolicamente a superfície terrestre, o mundo natural, onde o ser humano vive, se locomove e age. Logo abaixo da superfície terrestre (feminino), sempre simbolicamente, começamos a descer, como os mitos explicam, em direção do Hades através de certas aberturas, cavernas, grutas e regiões pantanosas. Os gregos chamaram essa região vestibular do Hades de “O Bosque de Perséfone”, um lugar lúgubre, desolado, onde vivem espectros, fantasmas, e seres que se fixaram num estado entre a vida e a morte, que não morreram ritualmente. 


BOSQUE DE PERSÉFONE
( G. DORÉ , 1832 - 1883 )
Dentre os fantasmas e espectros desse mundo, destacamos Algos (Dor), Geras (Velhice), Ponos (Fadiga), Metanoia (Arrependimento), Ftonos (Inveja), Penia (Pobreza), Hybris (Desmedida) etc. A analogia entre o “Bosque de Perséfone” e a vida pré-consciente parece bastante aceitável, principalmente se lembrarmos, segundo a própria doutrina freudiana, que faz parte dela tudo aquilo que não está presente na consciência, mas que pode ser lembrado sem resistência ou repressão internas. O pré-consciente é uma espécie de antecâmara, está dotado de uma certa memória que provém da vida pulsional. As entidades que o habitam, conforme o caso, embora não presentes na consciência, a invadem muitas vezes, podendo gerar muitos problemas. 

INFERNO  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1928 )

Não é por acaso que muitos mitólogos consideram as entidades acima mencionadas como divindades alegóricas. A alegoria (do grego, dizer outra coisa além do seu sentido literal) é um processo que nos permite representar pensamentos, ideias ou qualidades sob forma figurada em que cada elemento funciona como disfarce da ideia representada. Nesta linha de raciocínio, o Érebo e o Tártaro constituiriam a vida inconsciente, as camadas mais profundas do Hades. Lembremos que qualquer coisa que escape de nossa consciência, ela não cessa de existir, ela não desaparece. Nós a perdemos de vista somente. Grande parte da nossa vida inconsciente é assim constituída por uma multidão de pensamentos, de impressões, imagens temporariamente obliteradas, não conscientes, mas que continuam a nos influenciar. O Érebo (obscuridade, escurecimento, etimologicamente) é no mito, como sabemos, uma prisão onde as almas ficam aprisionadas por longo tempo, submetidas a sofrimentos indescritíveis. O escurecimento do Érebo tem um caráter involutivo, regressivo, negativo. O interior da terra é escuro, negro, mas é nele que irá se operar a regeneração do mundo diurno, o mundo de cima. Na escuridão temos o desaparecimento de todo o conhecimento distinto, analítico, exprimível, privação de toda evidência 


TÁRTARO  ( J. VAN SWANENBURG , 1571 - 1638 )

A última camada do Hades é o Tártaro, encontrando-se a Terra simetricamente distante dele e do céu. Ele é o abismo mais profundo das entranhas da Terra, lugar de escuridão absoluta, que a luz jamais alcança, símbolo da inconsciência total, prisão dos grandes criminosos, de onde ninguém escapa. Sempre a cercar o Tártaro ideias de impotência, de impossibilidade de mudança, de tortura. As almas nele encerradas não alimentam nenhuma esperança de fuga, de consolação ou socorro. 


SOLUTIO
Alquimicamente, lembremos, o signo de Escorpião tem relação com a solutio, operação típica do elemento água. É neste sentido, da solutio, por exemplo, que Dioniso atua quando leva, através do kykeon, na fase da orgia,  os participantes dos Mistérios de Elêusis à dissolução do seu ego, proporcionando-lhes um verdadeiro banho de imersão orgiástico na vida instintiva. Essa experiência apaga diferenças em nome de uma identificação coletiva dos mystai. Os aspectos fixos e estáticos da personalidade dos participantes são dissolvidos ou reduzidos a estágios primordiais que podem até anteceder a própria vida instintiva. É nestas ocasiões que a solutio dionisíaca poderá ser vivida como aniquilação do ego,  passível de proporcionar o surgimento de uma nova forma. 

A solutio, vivida como  putrefação,  mortificação ou outra operação qualquer do gênero, na linguagem dos alquimistas, equivale à nigredo, ao desaparecimento da forma, uma experiência que lembra sempre a morte. Como o próprio nome indica, a cor da nigredo é o negro, cor do signo de Escorpião. O negro caracteriza, num primeiro momento, as trevas, a tristeza, o nada, a anulação de toda evidência e esperança. Entre os gregos, o negro era a cor do luto, da mágoa, da lástima; no latim, temos o verbo latino lugere, chorar a perda, de onde saiu a palavra luto. Uma operação que os alquimistas associam à solutio e à mortificatio é a putrefactio, a decomposição que destrói os corpos orgânicos mortos; está ela vinculada ao apodrecimento, que, sob o ponto de vista astrológico, é o prelúdio do renascimento, uma imagem escorpiana altamente positiva. Era por essa razão que muitos ritos de iniciação na antiguidade se realizavam à noite; o postulante atravessava uma morte simbólica num lugar escuro para se tornar um homem novo e renascer para a vida espiritual depois dessa travessia.

SERQET
Entre os egípcios, lembremos, o escorpião era consagrado à deusa Serqet, conhecida desde os tempos pré-dinásticos. O ideograma de seu nome lembra um escorpião aquático (nepa, para os latinos) e seus sacerdotes assumiam uma importante função na área médica, em particular quanto à cura de picadas de animais venenosos. Esta deusa era companhia inseparável de Ísis, que a levava em todas as suas peregrinações, devendo-se a ela, talvez, em parte, o poder desta última de transmitir a vida através da morte (renascimento), como nos informam os chamados Mistérios de Ísis.

Acolitada por Nephtis, Neith e Serqet, Ísis aparece também como  guardiã e protetora das vísceras e dos corpos a serem reanimados. Serqet desempenhava um importante papel nas cerimônias de embalsamamento como protetora das entranhas dos mortos. Era ela quem tomava conta do canopo (vaso destinado a conservar as vísceras), encarregada de manter “saudáveis” os intestinos. Aparecia a deusa, por essa razão, como grande protetora do morto e de seu sarcófago. Não é por acaso que no Egito um dos mais antigos hieróglifos é o do escorpião, encontrado no alto de alguns cetros de faraós.  
  
PUTREFACTIO
A putrefactio é a operação que melhor caracteriza o signo de Escorpião na medida em que durante o período em que o Sol o atravessa fica mais claro, mais nítido para nós, o desaparecimento da vida vegetal da face da terra. Chuvas e frio, galhos que se retorcem, que se quebram, folhas que rodopiam ao vento, tudo se espalhando sobre a terra para dar origem ao húmus, o elemento que possibilitará o aparecimento de novas formas de vida mais adiante. As águas perdem a sua fluidez, fixam-se, tornam-se escuras, lamacentas, trazendo, de um lado, imagens de estagnação, silêncio, decomposição, lodo, onde micro-organismos trabalham invisivelmente, e, de outro, invadindo tudo, odores fétidos materializados pelo gás metano, o gás dos pântanos. 

Os pântanos, como o de Lerna (oitavo trabalho de Hércules), carregados de matéria em decomposição, ao estender a sua influência pestilenta, sempre apareceram relacionados com o império do mal, do pecado e da perdição. A cercá-los sempre uma ideia de imobilismo, de uma passividade feminina. Foi por essa razão que o Budismo fez dos pântanos símbolos dos prazeres sensuais, obstáculos para a caminhada pela via óctupla. Lembremos que os pântanos, na Psicanálise, são imagens da vida inconsciente e lugar de germinações invisíveis. Na China, os pântanos são “centros espirituais”, onde o poder do céu se manifesta.
  
Toda operação alquímica, como se sabe, tem aspectos positivos e negativos. A solutio, quando experimentada como putrefacfio, é sempre negativa, dolorosa, um retorno, num primeiro momento, à prima materia dos alquimistas, para, quem sabe, dali se partir para  uma outra forma. Não é por acaso que figuradamente apodrecer pode tomar o sentido de permanecer muito tempo num lugar, inibir mudanças, transformações, apodrecer num emprego, por exemplo, ainda que sempre presentes, de médio para longo prazo, ideias de corrupção, de deterioração, de perversão. A putrefação é, nesse sentido, o triunfo da morte, de Thanatos.

THANATOS
(VON DER MARK, SÉC.XVIII) 
Thanatos é palavra que em grego sugere extinção, dissipação, transformação, escuridão. Insensível, Thanatos, dizia-se (Hesíodo), possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte que estava sempre presente quando Átropo, a Moira, punha fim à vida de alguém, cortando o fio que o prendia à existência. A palavra Thanatos toma o sentido de ocultação, de algo que vai se desvanecendo, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente a forma física. 



G. DE  CHIRICO ( 1888 - 1978)
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para os gregos o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviando sua alma (psyche) ao Hades. Para Homero, psyche, ao se retirar do corpo físico na ocorrência da morte, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo do herói (soma) num cadáver sem movimento que logo iria de putrefazer. 

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte podia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas para um reino diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam apenas desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror e olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também neste sentido libertação do sofrimento e das preocupações. 
                         
É no signo de Escorpião que encontramos, além das histórias de Hades, de Thanatos, de Osíris e de Dioniso, as Shiva que, talvez mais do que quaisquer outras divindades, nos fale da morte como de preparação para uma vida nova. Terceira pessoa da trimurti hinduísta, na qual exerce a função destruidora e, como tal, renovadora, é (foi) neste sentido, muito mais reverenciado pelos antigos povos védicos que Brahma (criação) e Vishnu (conservação), as outras duas pessoas da mencionada trimurti. 

SHIVA
Shiva nos diz que tudo que teve um começo, tudo o que entrou na existência e que adquiriu uma forma deve necessariamente ter um fim. Tudo que nasceu deve morrer. Tudo que tomou forma deve se desintegrar. O poder de destruição é a via que conduz à cessação do existir. Este poder universal de destruição pelo qual toda existência termina e do qual toda existência emana é chamado pelos hindus de Shiva. Ele é a tendência à dispersão, ao apodrecimento, à desintegração, à decomposição, à aniquilação. Quando o universo se estende indefinidamente, ele se dissolve gradualmente e cessa de existir enquanto organismo. Nada que existe escapa deste processo. Por

isso, a existência é apenas um estágio num universo que se estende (coagulatio) e se decompõe continuamente (solutio). É por isso, como nos dizem os hindus, que a destruição é tão divina quanto a criação e a manutenção. Ou seja, a destruição é a causa última, origem primeira, invisível, de toda a criação. Ele, Shiva, é para os hindus o estágio supremo do real, pois além dele só podemos falar do não-existente. Por isso, os Upanishads o descrevem como um abismo sem fundo.

Na sua forma destrutiva, Shiva aparece montado num touro branco (Nandi) e carrega nas mãos um tridente (trikala, trishula), símbolo da dissolução universal, um retorno à indiferenciação. Enquanto destruidor de todas as coisas, ele é Kala, o Senhor do Tempo. Lembremos que para os hindus há duas espécies de tempo. Um é corolário do espaço, o que nós percebemos, outro é o chamado Grande Tempo (Maha-Kala), uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Shiva é o dono dos dois. Nesse cenário, para os hindus, são os planetas que determinam os ritmos do tempo relativo, as condições do mundo como as percebemos, sendo os agentes das leis cósmicas que regem o destino humano 

SHIVA   E  TOURO  NANDI
Shiva encarna a tendência centrífuga, tem três olhos (Sol, Lua e Fogo). Seu olho central, frontal, é o da percepção transcendente. Quando ele olha através dele tudo é destruído, reduzido a cinzas. Sob sua fronte, ele leva um crescente lunar, como um diadema, para mostrar o seu poder de procriação, que sempre anda junto com o da destruição. O rio Ganges desceu dos céus em direção da Terra através de seus cabelos, sempre molhados por isso. Rios, simbolicamente, indicam o fluir das formas. A descida do Ganges em direção do oceano representa o retorno à indiferenciação; subi-lo, no sentido contrário, é  acesso ao Princípio, à Fonte Original. 


SHAKIT  DE  SHIVA
O lado feminino (Shakti) de Shiva tem como montaria (vahana) o tigre, sendo a pele do animal um de seus símbolos. Os quatro braços do deus representam a dominação universal; nesse sentido ele é dono das quatro direções do espaço e eles indicam também o seu poder sobre os elementos. O tridente, símbolo da solutio universal, é também nas suas mãos um instrumento de punição. A arma predileta de Shiva é, entretanto, o bastão (Pashupata), uma espécie de porrete com ponta de ferro, com o qual ele aniquila os seres do mal (daityas) e com o qual, no fim dos tempos, como ele o faz ciclicamente, destruirá o universo inteiro. Ao assim agir destrutivamente, ele usa, como Kali, uma de suas formas femininas, um colar de cabeças  em torno do pescoço. Além do porrete e do tridente, Shiva usa também o machado, o laço e o arco. Ao se apresentar sempre com uma serpente enrolada no seu corpo, ele nos dá a entender que ela é um emblema da imortalidade, ao representar o conjunto dos ciclos da manifestação universal, o samsara, encadeamento do ser no vir-a-ser, indefinidamente, da morte ao renascimento. 

Shiva nos anuncia também que a serpente é o símbolo do conhecimento perigoso, o da descoberta da sexualidade. Em muitas tradições, por isso, ela aparece como a tentação, portadora de forças perigosas e maléficas. Os hindus fizeram da serpente uma imagem da kundalini, a energia cósmica e sexual, o poder vital ou libido, adormecido no chakra básico (muladhara), entre a região anal e o sexo, devendo ele ser despertado, vitalizado e dirigido na direção do chakra da coroa (sahasrara), passando por centros vitais intermediários, sublimação compreendo sempre muitos tropeços e fracassos. 


ANANTA
Na Índia, há a imagem da grande serpente Ananta, que estendida sobre as águas primordiais, personifica a eternidade, formando ela com Shiva Narayana, a tripla manifestação da energia cósmica, una e imperecível. A  cidade luminosa de Shiva é Kashi (kash, brilhar), chamada de Varanasi, às margens do rio Ganges, onde se encontram os seus mais famosos templos.



VARANASI   OU   BENARES