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quinta-feira, 3 de junho de 2021

A PEÔNIA


PEÔNIA
No Ocidente, as sementes e raízes da peônia, desde a antiguidade, têm uma reputação medicinal. É a peônia uma flor do gênero das ranuculáceas (família de plantas venenosas, cujas raízes lembram as patas de uma rã). O nome da flor foi retirado da palavra grega curandeiro (paion). Paion, nome já registrado em Creta, bem antes de seu aparecimento na Grécia, é um dos apelidos do deus Apolo, o médico dos deuses, pai de Asclépio, divindade médica de Epidauro; era Apolo irmão gêmeo de Ártemis, deusa lunar. Outro nome da peônia entre os gregos: rosa sem espinhos, por sua cor e semelhança com a rosa.

APOLO
Em grego, ferir é paiein. Apolo era aquele que "como num golpe de mágica" curava as feridas, as doenças. Próximo deste verbo temos em grego pauein, que significa acalmar, suprimir, fazer cessar as moléstias. Com o tempo, o apelido Peã se juntou ao nome de Apolo para designá-lo como uma espécie de deus curandeiro, a grande divindade das curas. A palavra serviu também para designar um hino de agradecimento cantado por aqueles que tinham a sua saúde por ele restaurada. O poeta Píndaro é o maior cultor deste gênero poético, um gênero do qual saíram muitos ditirambos (hinos gregos antigos, cantados e dançados em honra a Dioniso, peãs (hinos gregos em homenagem a Diana) e trenos, estes últimos lamentos fúnebres, cantos chorosos. 

ASCLÉPIO
Para Homero, Apolo-Peã foi o deus médico que curou as feridas dos deuses Hades e Ares, agredidos por Hércules. Asclépio, filho de Apolo, também acabou por receber o apelido. Os deuses tinham os seus males (feridas) curados por um bálsamo aplicado por Apolo. O poeta da Ilíada prestou grandes homenagens aos poderes deste deus, que ensinou inclusive aos humanos a colecionar ervas dessecadas, conservadas e organizadas segundo uma sistemática, dando origem ao que passou a ser conhecido mais tarde como fitotaxonomia, ciência que lida com a descrição, identificação e classificação dos vegetais. 

A peônia era considerada por Homero (Ilíada) como a “rainha das ervas”; na poesia bucólica grega (séc.III DC) tinha o mesmo status, sendo aclamada inclusive por sua beleza e poderes curativos, tornando-se, nas mãos de Apolo, uma verdadeira panaceia, aliás, nome de uma das filhas de Asclépio, Panaceia (a que socorre a todos). As demais filhas de Asclépio eram Áceso, a que cuida de; Iaso, a cura; e Higeia, a Saúde (há uma bela estátua desta última no MASP, em São Paulo). 

HIGEIA ( MASP )
O nome Asclépio tem relação com a palavra grega, toupeira, animal insetívoro, de olhos muito diminutos, quase cego, corpo alongado, com patas traseiras adaptadas para cavar. Simbolicamente, no mito, a toupeira aparece como um animal de natureza ctônica, que conhece as profundezas da terra. Figuradamente, designa pessoas que trabalham em lugares escuros. Os sacerdotes de Asclépio “desciam” à escuridão do psiquismo dos doentes que procuravam a clínica de Epidauro. Para tanto, sabiam usar com grande habilidade a oniromancia, a técnica de interpretação dos sonhos. 

HÉCATE
A peônia era também encontrada nos jardins da deusa Hécate, que tinha um conhecimento profundo das ervas, o que confirma os seus poderes de maga. Segundo consta, Hécate, a deusa triforme das encruzilhadas, que vivia no mundo infernal, num palácio ao lado do deus Hades, mantinha um jardim famoso na Cólquida, perto do Mar Negro, cercado por altas muralhas, com o auxílio de Medeia (sobrinha da maga Circe), que às vezes passava por sua filha. Já entre os judeus, a flor era conhecida por causa de Moisés, que sabia de suas virtudes anti-demoníacas. Conta-se que ele aconselhou sua sogra, perturbada por espíritos infernais, a se dirigir ao pico de uma montanha, onde Deus lhe indicaria lugares em que a peônia crescia.  


Dioscórides, médico e botânico grego do séc. I, compilou a primeira descrição sistemática de 579 plantas da Grécia e definiu cerca de 4.700 usos medicinais dessas plantas e o seu modo de ação. Seu trabalho chegou até nós pela tradução latina do texto De Materia Medica (c.65 dC). Esse trabalho teve importância fundamental para a medicina europeia até o séc. XVII. Galeno, nascido em 131 dC, registrou mais tarde as propriedades das plantas descritas por Dioscórides e desenvolveu a concepção humoral do corpo humano.   

Dentre as prescrições de Dioscórides, destacamos: para conter o fluxo menstrual, dar, numa taça de vinho, de dez a doze sementes da peônia vermelha; para combater pesadelos, histeria e dores uterinas, elevar a dose, dando-se quinze sementes. Depois do parto, para rápido restabelecimento das mulheres, acrescentar ao vinho raízes secas da planta.


DIOSCÓRIDES
Nos trabalhos de botânica que deixou, Dioscórides fez a descrição de dois tipos de peônia, uma chamada "macho" e outra "fêmea", mencionando que cresciam em zonas montanhosas, mais nos picos, e nos seus contrafortes. Plínio, o Velho, grande naturalista e enciclopedista romano, nos fala que as peônias cresciam nas áreas sombrias das montanhas e que eram um ótimo remédio para pessoas que tinham pesadelos. Já Teofrasto, grego, sécs. IV-III AC, grande botânico, discípulo de Platão e depois de Aristóteles, mencionara o valor medicinal da peônia, desfazendo inclusive a história que herboristas haviam espalhado, a de que sua colheita só deveria ser feita à noite para que fossem evitados ataques de pássaros. A história, evidentemente, procurava evitar que pessoas não iniciadas se entregassem à colheita predatória da flor.

THESSALUS
No tempo do imperador Nero, havia um médico, Thessalus (nome grego, de um filho do famoso Hipócrates) de enorme fama, que freneticamente denunciou todos os seus colegas como incapazes. Foi enterrado na Via Appia. Uma inscrição, em grego na lápide, proclamava-o o Conquistador dos Doutores. Thessalus enviou uma carta a Nero, aliás muito chegado a convulsões (epilético?), e nela discorria sobre a peônia, afirmando que ela crescia e minguava simpaticamente como a Lua; se arrancada na fase crescente, sua raiz não pode ser utilizada para a expulsão dos demônios, agravando ela a moléstia do paciente. Deve-se arrancá-la na fase decrescente lunar.

Astrologicamente ligadas ao Sol, as raízes da peônia, segundo antigas crenças, só podem ser colhidas à noite e, mesmo assim, se um cão a ela estiver amarrado (?), porque ela pode soltar um grito, fatal para quem ouvi-lo. Este cuidado evitará também um possível ataque de aves, no caso o pica-pau, ave de Marte. Esta ave, como se sabe, era muito honrada na Roma antiga, pois alimentou Rômulo e Remo quando o leite da loba se tornou insuficiente.

SHISHI.
Na China, como flor nacional, a peônia se liga a significados de riqueza e de honras, tanto pelo seu porte como pela sua cor vermelha; está muito presente em todas as festividades populares, especialmente nas da primavera, em casamentos e nascimentos. Na China era conhecida com a rainha das flores. Já no Japão, também, era a flor da boa sorte, da beleza, da fertilidade, da longevidade e da prosperidade. Ao lado do leão, formava o símbolo shishi, como representação do equilíbrio entre o poder e a beleza. Associa-se também ao cinábrio e à fênix, o primeiro, droga alquímica e a outra, ave mítica, ambos trazendo ideia de longevidade e de imortalidade..

Por causa de sua cor, avermelhada, que sugere vitalidade, a peônia foi também muito apreciada na Idade Média. Os grânulos e raízes de uma peônia colhida em noite sem Lua e aplicados em compressas sobre os pulsos ou colocados em volta do pescoço, como um colar, eram remédios excelentes contra a epilepsia. Lembre-se que ainda hoje, em alguns países da Europa (no interior da França, por exemplo), um colar feito com sete raízes da planta, colhida na Lua decrescente, entre a meia-noite e o nascer do Sol, é considerado um remédio eficaz contra a dança de São Guido ou de São Vito, coreia, um mal nervoso acompanhado de convulsões. 

PAEONIA OFFICINALIS
Chamada na Europa de rosa de Nossa Senhora, símbolo da Virgem Maria, a peônia dos jardins (Paeonia Officinalis), sempre foi muito procurada por suas inúmeras virtudes: ajudava as crianças quando do aparecimentos dos primeiros dentes; era, para muitos, além do que já se apontou acima, remédio infalível contra a asma e a gota. Recomendava-se também a peônia aos homens do mar, pois ela evitava tempestades.


PRINCESA   AYA  E  PEÔNIAS

Ao longo dos séculos, inúmeros poetas escolheram a flor como seu tema predileto, aproximando-o das belas donzelas, como a concubina favorita do imperador. Neste particular, merece referência também a ópera O Pavilhão das Peônias que exalta a coragem dos jovens contra os costumes da sociedade confuciana feudal, especialmente contra o casamento arranjado. Um dos textos mais famosos sobre a flor é o da lenda Os Galanteios de Lu Dongbin para a Peônia, que narra o assédio amoroso de um imortal taoista à fada Peônia para obter o grampo sagrado da Rainha Celestial a fim de salvar uma aldeia.

MANUSCRITO DO SÉC. XIII
Devido ao seu aspecto exuberante, farto, ereto e elegante, a peônia como flor nacional sempre nos apontou para símbolos relacionados com a nobreza e a riqueza. Invariavelmente, sempre foi representada junto de outros vegetais, frutos e flores para que se associem os seus símbolos. Com hibiscos, temos, por exemplo,  riqueza e reputação, com maçãs sinalizam riqueza e bom crédito, com pêssegos apontam sobretudo para longevidade. Quer pensemos em regiões geográficas diferentes do país ou grupos étnicos que parecem pouco ou nada terem em comum, é sempre através dela e de sua simbologia, que espantosamente vamos encontrar algo como um grande centro que a todos e tudo une.  






segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DEUSES GREGOS: TRANSCENDÊNCIA E IMANÊNCIA


DEUSES GREGOS
  
ARISTÓTELES
É preciso colocar de início para que as ideias fiquem bem claras que a mitologia grega, quanto à cultura ocidental, se inscreve na chamada tradição imanentista por oposição à transcendentalista. Sem nos
KANT
perdermos em maiores discussões sobre esta questão e sua repercussão na Filosofia, de Aristóteles à  Escolástica  e desta  a Kant e aos existencialistas, entendemos que o imanentismo  se caracteriza simplesmente por  tudo aquilo que procede de um ser como expressão do que ele traz em si, de sua participação no mundo e de suas relações com os outros seres humanos. 

Imanente vem do latim, in, em, dentro, e manere, permanecer, ficar, ou seja, aquilo que está no interior de um ser. A moral é imanente, por exemplo, quando decorre da vida social e tem relação com os homens e com os acontecimentos do mundo. No mito, a imanência nos fala da ação do divino (modelos superiores de existência criados pelos humanos) em nosso mundo, sendo-lhe intrínseca; os deuses dele participam, fazem parte de nossa vida, estão na natureza e inspiram as produções superiores do espírito humano, têm a ver com as nossas ações, a nossa arte, a nossa literatura, a nossa música, a nossa poesia como com os nossos crimes e
JUNG
pecados. Os antigos gregos colocaram em seus deuses a totalidade da existência, toda a sua complexidade e diversidade. Aparecem-nos eles assim como modelos de existência, para o bem ou para o mal, são paradigmas, aquilo que alguns chamam de arquétipos ou, melhor, são os revestimentos primários dos arquétipos da cultura ocidental, segundo uma tradição que remonta a Platão, a Fílon de Alexandria, ao Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a Santo Agostinho e, modernamente, a Jung.

A mitologia grega, para a cultura ocidental, como representação das forças que operam no universo, foi penetrando tudo. Acabou por se tornar a fonte de muitas alegorias  que alimentam as grandes

metáforas de muitos filósofos, místicos, cientistas, artistas, poetas, músicos, fazendo parte inclusive do cotidiano do homem comum ao invadir o léxico de várias línguas. Lembremo-nos do que Platão fez com Eros no seu diálogo O Simpósio quando, através de Sócrates, estabelece uma nova gênese do deus para  falar do amor homossexual. Ou, então, daquilo que Édipo significou para Freud na construção da sua Psicanálise ou, ainda, de como a crônica do titã Prometeu se encaixa à perfeição quando falamos de lutas contra a tirania ou do roubo de segredos científicos.

CERES (WATEAU, 1684-1721)
Quanto ao homem comum, a língua e a mitologia greco-latina estão presentes quando comemos cereais (Ceres), nectarinas, ambrosia, quando calçamos sapatos vulcanizados, ou colunas de mercúrio sobem e descem para medir as temperaturas do nosso corpo (termômetros). Vemos filmes épicos, dramáticos, eróticos; afrodisíacos melhoram o desempenho sexual; deuses (Urano, Plutão,
TÂNTALO
( GOYA , 1746 - 1828 )
Hélio, Selene) viraram elementos químicos (urânio, plutônio, hélio, selênio etc.) e um criminoso da mitologia grega deu nome a um dos metais mais valorizados do mundo, mais que o ouro, o tântalo. Utilizado em telefones portáteis, computadores pessoais e eletrônicos automotivos, o tântalo também é usado para fazer ferramentas de metal para usinagem e para a produção de superligas para componentes de motores a jato.


PÂNICO ( O  GRITO , EDWARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Personagens da mitologia grega,invadiram a Psicologia para dar nome a complexos ou síndromes (complexos de Zeus, de Cronos, de Héstia, de Electra ou síndromes do Pânico (do deus Pan), de Medeia. A palavra economia vem do grego (oikos, casa, habitação, mais nomos, lei, ou seja, é, na origem, a lei,  são as regras da casa) ou foram os deuses e heróis para o mundo das finanças para
AQUILES E AJAX (VASO GREGO)
designar o poder oculto do dinheiro (plutocracia) ou acabaram em prateleiras de supermercados como  sabão em pó (Ajax, herói grego, que é vendido como o furacão da limpeza). Foi o maior dos heróis gregos, Hércules, que no seu décimo primeiro trabalho (A limpeza dos estábulos do rei Augias) que inventou a propina. Os mitos e seus personagens estão em livros de Medicina dando o nome a doenças (satiríase, priapismo, erisipela, mercurialismo, saturnismo). Damos o nome de calcanhar de Aquiles a um ponto fraco em nosso corpo. Se mais quisermos  é só abrir os dicionários  e lá os encontraremos: morfina (Morfeu), hermético (Hermes), ciclópico (Ciclopes), tantalizar (Tântalo), nefelibata (Nefele), etérico (Éter), hemeroteca (Hemera), narcótico (Narciso), carisma (Cárites), bacanal (Baco), letargia (Lethe), museu (Musa), hipnose (Hipnos), oniromancia (Oniro). Quase toda as doenças e males que nos atingem são “gregos”: osteopenia, anemia, osteoporose, leucemia, pneumonia, prostatite, rinite, câncer, hidrocefalia, escoliose, psicopatia, nevrose, encefalite etc.  


HESPÉRIDES  ( HANS  VON  MARÉES , 1837 - 1887 )

Ampliando um pouco mais a nossa abordagem, indo noutra direção, tomemos, por exemplo, o universo semântico (possibilidades significativas) que Nix, a deusa da noite, com alguns de seus filhos ou personagens que com ela se apresentam, nos oferecem. É Nix uma das entidades cosmogônicas, nascida do Caos, como está em Hesíodo. Na ordenação cósmica cabem-lhe as trevas superiores, opondo-se ao Érebo, as trevas inferiores, estas as camadas intermediárias do Hades. Nix habita o extremo-ocidente, além da região das Hespérides, as ninfas do poente, suas filhas;  lá tem o seu palácio, de onde só sai quando Hemera, o dia, seu filho, se retira. A região onde  Nix tem o seu palácio, lembremos, é o lugar onde a luz morre. No interior da palavra ocidente esconde-se a raiz cad, que encerra a ideia de tombar, cair; daí, queda da luz, ocidente. Foi para esta região, vizinha do Hades, que se encaminhou Ulisses quando resolveu interrogar as almas dos mortos (nekyia) na esperança de obter informações sobre o seu caminho de volta  para Ítaca. O ocidente , se por um lado lembra declínio, decadência, como lugar noturno e satânico, sinistro, à esquerda, é o lugar das grandes-mães em todos os mitos, e nos diz, por outro, que ele é também o lugar da fertilidade, da fecundidade, lugar da obscuridade, das confidências, da discrição, do entendimento. 

HEMERA
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Retirando-se Hemera, o dia, e mergulhando o deus solar Hélio no oceano ou escondendo-se atrás dos montes, Nix começa  sua viagem pelos céus; vai no seu carro puxado por cavalos negros, com seu vasto manto salpicado de estrelas, franjado de infinito, como diz o poeta. Para muitos, quando ela estende o seu manto, são as horas das trevas, sempre perigosas. O intervalo entre os dois crepúsculos, o vespertino e o matutino, mais o seu ápice, a meia-noite, são as chamadas horas abertas, horas dos acontecimentos maléficos, em que demônios, fantasmas e espectros atuam livres, principalmente nas encruzilhadas. Por sua representação espacial, a encruzilhada propõe múltiplas possibilidades, sugere mudanças, abandono de um caminho por outro. Para tomar o caminho certo temos que enfrentar as criaturas perniciosas  que do lugar  se apossaram como forças do caos, temos que reverenciá-las sempre, vencer os nossos temores, as nossas projeções imaginárias.  

NIX
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Nix é tanto ausência de luz quanto escuridão misteriosa, risco de desvios, confusão de distâncias, anulação de evidências. Mas Nix é também protetora dos úteros, das cavernas e das grutas, dos lugares de nascimento e de renascimento.  A não ser que Pothos, a saudade, interfira, porque saudosos não dormimos, Nix  libera  seu filho Hipnos, o sono, que, baixando o seu tridente sobre as nossas pálpebras, traz o sono reparador. Qualquer que seja a sua representação, como um jovem segurando uma papoula ou  uma espécie de cornucópia a gotejar o sono sobre os que dormem ou (melhor ainda) se ele vier com seu filho  Morfeu, o sonho, na forma de Hypar, o sonho premonitório. 

Há ocasiões em que Nix pode retardar a chegada de seus filhos para  favorecer a reflexão, a meditação raciocinada, colocando-se entre a proposta que nos fazem e a decisão que precisamos tomar, evitando precipitações, ensinando serenamente, generosamente. É nesses momentos  que ela toma o nome de Eufrone, a benfazeja, a benevolente, ou de Eulalia, a boa palavra, a mãe do bom conselho. Duas filhas de Nix poderão, contudo, aparecer se Hipnos não vier ou demorar muito para chegar: a irritante Éris, a discórdia, e Apate,
MORFEU
o engano, sempre desagradáveis e perturbadoras. Quando Morfeu, o de mil formas, vem como Oniro, o sonho enganador, Nix deixa de ser benfazeja. Agora, então, à nossa volta, animais fabulosos, luzes espantosas, gritos, gemidos, monstros, abolição do tempo e do espaço. Oniro, com a sua infinita capacidade de mudar de forma, faz surgir personagens como Iquelos  (aparência de realidade), Fobetor  (terrível, assustador), Fantasos (fenômenos enganadores) e muitos outros...                                                

FERNANDO  PESSOA
Os poetas e músicos têm especial predileção  por  Fílotes, a ternura, um dos filhos de Nix. Muitos escreveram ou compuseram sobre este sentimento noturno cujo nome vem do verbo grego amar e que entre os latinos  se liga  ao tenro, ao terno, ao delicado. Fílotes é aconchego, proteção, afago, delicadeza. Fernando Pessoa nos deixou  em Ficções do Interlúdio  (Álvaro de Campos), ao pedir que a Noite viesse, uma ideia  muito  clara desse sentimento noturno: Vem, e embala-nos, vem e afaga-nos.
BAUDELAIRE
Beija-nos silenciosamente na fronte, tão levemente na fonte que não saibamos que nos beijam senão por uma diferença na alma. Ou lembremo-nos de como Baudelaire, com o seu Recueillement, pede à sua dor que ela se tranquilize quando uma atmosfera obscura envolve a cidade, trazendo a uns a paz e a outros, o cuidado. Em ambos a esperança de que  Nix venha com Fílotes.

CHOPIN
(DELACROIX , 1789 - 1863)
São certamente de Fílotes as composições musicais, vocais ou instrumentais, depois sobretudo pianísticas  sem forma especial, de caráter melancólico, triste para alguns,  a que deram o nome de noturno. Peças de atmosfera às quais Chopin, mais do que qualquer outro compositor, tem seu nome ligado. Abandono, solidão, um pedido de socorro... São também desse filho de Nix as chamadas berceuses, canções para fazer as crianças pegarem no sono, ritmo que lembra o balanço delicado de um berço. Para os povos de língua inglesa é a conhecida lullabay. Entre nós, é o acalanto (mitigar, acalmar, aquietar, calar), como Mário de Andrade registrou em Macunaíma, ao pedir que Acutipuru (o esquilo; de acuti: cutia e  puru: enfeitada) devolvesse o sono ausente da criança.
           
SELENE

Antes as trevas, depois a luz, é a sentença latina (Post tenebras lux), o que se torna válido tanto  para as cosmogonias como para o nosso processo de individuação. Importante destacar que Nix por isso é também vista como algo que devemos atravessar. As travessias noturnas são fortemente marcadas pela presença da Lua, a luz noturna, olho de Nix, que entre os gregos toma, dentre outros, o nome de Selene. Embora associada à doçura, à brancura, à proteção e à generosidade, lembrando em muitas tradições as velhas madrinhas. O poder maléfico de Selene pode ser tão grande quanto os bens que  prodigaliza. O ferido por ela chama-se lunático, palavra que na antiguidade e ainda hoje em certas sociedades é sinônimo de epiléptico (agarrado, raptado por cima). Não esqueçamos também que aluado designa o que nasce com perturbações tanto psíquicas (amalucado) quanto físicas, o que nasceu fraco, raquítico, o que não tem coluna vertebral (rhakhis) boa. Tudo isto porque da Lua depende tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta, brotos, crias, ervas, gemas, grelos, rebentos, embriões. É neste sentido que a Lua aparece como deusa das passagens, das travessias, funções que se ampliarão e se fixarão melhor na figura de Ártemis, deusa lunar do panteão olímpico.

HESÍODO
Outra que aparece com Nix é Hécate (a que fere  distância), também  representação lunar como Selene. Vinda de um mundo pré-olímpico, Hesíodo, em sua Teogonia, dá-lhe grande destaque, certamente por ser agricultor além de poeta. Hécate representa os mistérios da noite, todos os seus sortilégios, sua magia, seus encantamentos. Deusa ctônica, dividia o poder sobre as encruzilhadas com o deus Hermes, o deus dos caminhos. Personificava as três fases visíveis da Lua, recebendo, por isso, o nome de Triforme ou Trívia, além dos de  Curótrofa e Enódia, a que faz passar e a dos caminhos. 

Baixava Hécate nas encruzilhadas a cada vinte e oito dias mais ou menos, na Lua nova (ausência de lua no céu). A Lua nova, como se sabe, é tempo de germinações espontâneas, indica que algo vai surgir. Daí um outro nome seu, Numênia, a primeira Lua. Simboliza fecundidade, fertilidade, redes e pomares cheios. Na Alquimia, a Lua nova tem a ver com a primeira etapa da obra alquímica, a nigredo. O séquito da deusa era formado por espectros, fantasmas, demônios, que aterrorizavam os que paravam nas encruzilhadas. Do séquito de Hécate participavam também  cães, éguas e lobas. Os cães, sobretudo, eram muito caros à deusa já que era pelos latidos deles que se anunciava a sua chegada. Fazem também parte do séquito da deusa, às vezes, entidades repulsivas  como a Empusa e a Lâmia, monstros dos terrores noturnos, ligadas aos mundos maternal e infantil. 


HÉCATE  ( WILLIAM BLAKE , 1757 - 1827 )

As almas errantes também faziam, às vezes, parte do cortejo da deusa, almas daqueles que não tinham tido morte ritual, razão pela qual  ficam a perambular pela terra. Hécate tinha, dentre as suas funções, a de estar sempre presente quando a alma entrava e saía do corpo. Daí ser deusa das almas dos mortos. Quando vinha à terra ficava a passear  nos cemitérios entre as tumbas, carregando consigo, em meio a gemidos e ranger de dentes, as almas sedentas, com suas longas vestes. Ao lado dos alimentos que lhe eram oferecidos, sempre juntos da deusa a copa e o cântaro. 

Em muitas tradições místicas, como no Sufismo, bastante comuns as imagens da viagem noturna. Para se chegar ao desejado estado de contemplação é necessário fechar as passagens dos sentidos físicos para que os espíritos, mais profundamente, possam operar com liberdade. É a chamada Noite Mística: barrar as impressões dos sentidos (esperanças, medo, emoções, sentimentos, etc.) para se chegar à luz interior. Para S. Juan de la Cruz, o famoso místico carmelitano, entrar na noite é o caminho da ascese,  a noite escura da alma: 
Oh! Noite que me guiaste! 
Oh! Noite mais amável que a alvorada! 
Oh! Noite que juntaste Amado com Amada, 
Amada já no Amado transformada 
                                     (Canções da Alma).


S. JUAN DE LA CRUZ (BECERRA , 1520 - 1570)


TÂNATOS
Mais radical que Hipnos é seu irmão gêmeo Tânatos, a morte, também conhecido como sono eterno, o que tem alma de ferro e coração de bronze, inacessível à piedade, como diz Hesíodo. As representações terríveis de Tânatos, ao longo da história grega, é bom lembrar, admitiram sempre um lado “positivo”, digamos, na medida em que este filho de Nix significava transição para uma outra vida, acenava com possibilidade de renascimento. Se figuras sinistras como as Keres ou Eurínomo a ele se associavam  havia também a imagem dos Campos Elíseos. As Keres,  filhas de Nix, deusas lúgubres, sempre sedentas de sangue, atacavam os moribundos nos campos de batalha, como Homero nos deixou  no canto XVIII da Ilíada. Quanto a Eurínomo, o monstro escuro que devorava as carnes dos cadáveres, registre-se que é criação artística posterior. Polignoto, o pintor, o coloriu de azul, ao executar suas composições murais sobre temas mitológicos, que Pausânias e Plínio descreveram. Mesmo as Moiras, as donas do fio da vida,  também filhas de Nix, ligadas  a Tânatos, nunca chegaram  a ser representadas  de forma repulsiva ou hedionda. É claro que não podemos perder de vista as contribuições órficas e pitagóricas, já no período helenístico, que suavizaram bastante o tema da morte. 


UM  FIO  DE  OURO (JOHN  MELHUISH  STRUDWICH , 1849 - 1937) 

Ao lado do caráter inexorável, iniludível, da ação das Moiras, Tânatos sempre foi visto como uma espécie de véu que se interpunha entre o morto e a luz, uma espécie de nuvem negra. Olhos que se fechavam, pálpebras baixadas, um ato de compaixão, quase. Um benfeitor especial que trazia o descanso e aliviava as dores. O que sempre se destacou quanto às Moiras, mais do que uma ideia de um inimigo físico foi a de que tanto simbolizavam as três etapas da vida humana: nascimento (Cloto), duração (Láquesis) e morte (Átropos), como a impossibilidade de sabermos de antemão o nosso destino. Uma fatalidade, sim, mas também uma liberação, um acesso, uma revelação. Daí, muitas representações de Tânatos como um belo jovem, como que a dormir, recostado numa árvore, uma tocha apagada ao lado. Ou, como em muitas outras representações, uma coluna partida, uma vela de barco arriada, uma corrente quebrada. Em alguns casos, esculpida na pedra, junto, uma borboleta, a indicar crenças reencarnacionistas. Atenuavam-se as representações violentas de Tânatos, como, por exemplo, as que o faziam semelhante a  Bóreas, o terrível vento hibernal do norte.

MOMO
Próxima de Éris, a Discórdia, estava outra  filha de Nix, Momo, a zombaria, o sarcasmo. Sua ocupação era a de ridicularizar as ações divinas ou humanas, com exceção as de Afrodite, nas quais  não encontrou nada que pudesse ser ridicularizado. No canto II (86) da Odisseia, lá está ela nas palavras de Telêmaco, filho de Ulisses. Momo marcou sua presença  na mitologia grega de modo espetacular ao se tornar a inspiradora da guerra de Troia a Zeus como recurso para a diminuição da densidade demográfica, insuportável àquela altura conforme queixas da grande-mãe Geia. Já Geras, a  velhice, outra filha, a angústia do efêmero, era uma triste divindade. Sempre representada por uma velha mulher, de túnica negra, um bastão de apoio retorcido numa das mãos; na outra, uma taça vazia; ao lado, uma clepsidra quase esgotada
PÍNDARO
Na divisão dos bens do universo, couberam aos humanos, por sua própria culpa, muitos males e misérias, embora, como dizia Píndaro nas Nemeias, deuses e humanos tivessem uma mãe comum. As atividades humanas ficaram restritas a limites impostos pelos deuses. Ultrapassá-los, era ofendê-los. Ofendiam os humanos aquilo que os gregos chamavam de Nêmesis,  grande divindade, filha de Nix, que personificava a justiça distributiva. Mais ainda: admitiam também os gregos que,  por mais rico e poderoso que fosse um homem, os deuses, talvez por inveja, poderiam sujeitá-lo a uma punição. A fortuna demasiada era um insulto aos deuses, sentimento que fazia parte do culto a Nêmesis. A deusa recebia  também o nome de Adastreia  (a da qual não se pode fugir, a necessidade).  Nêmesis marcava os limites dentro dos quais deveriam se distribuir as ações humanas. Não é por outra razão que a Moira é chamada de Aisa, parte igual, o “pedaço” de vida assinalado a cada um de nós.
Os deuses gregos  interferem na vida dos mortais, os efêmeros, os nascidos para um dia; dela participam, misturam-se, chegam facilmente à  promiscuidade, têm paixões, fazem sexo, muitos são declaradamente homossexuais. De outro lado e ao mesmo tempo são imortais (athanatoi), imperecíveis, imputrescíveis, sublimes. Vivem no Éter, gerado por Nix, a camada superior do cosmos, acima da Lua, região da luz eterna. Seu modo de viver é o de um banquete sem fim (thaleia). Difícil compreender, inaceitável mesmo, se não tivermos em mente o caráter imanentista da mitologia grega, que os deuses e sua entourage sejam ao mesmo tempo imortais, isentos de preocupação e de cuidados, estes típicos dos humanos, vivendo numa situação de satisfação sem carências, possam chegar na sua convivência ou envolvidos com mortais a tantas situações de perigo, de risco, de degradação e de vexame. Verdades ou poesia? Sólon já havia observado  que muito mentem os poetas. Xenófanes foi mais claro e Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que entre os homens é vergonhoso e censurável, roubo, adultério e logro mútuo. Por isso, Platão certamente proibiu a entrada de Homero no seu  Estado ideal...

JAVÉ
Na tradição imanentista , as divindades não ficam fora da existência humana, distantes e inacessíveis como um Javé-Adonai, nem a transcendência é transferida para uma outra vida, para o além, fora dos limites da experiência possível. A transcendência é colocada no aqui e no agora, nesta vida, tornando-se algo histórico. Os deuses gregos vão representar o possível dessa transcendência, salientando a importância da existência humana no que ela tem de irredutível. São a consciência permanente que temos de tomar do nosso destino pessoal na medida em que nos arrancamos a cada momento do nada para abrir adiante um futuro onde nossa existência se decidirá. 
Representam assim as divindades gregas os possíveis de nossa transcendência, que não é lançada para uma outra vida, cabendo-nos a escolha ou, se quisermos, a perplexidade diante das várias  possibilidades que tipificam. São eles  em nosso mundo princípios
KIERKGAARD
vitais que nos animam e não algo que vem de fora. A imanência é o momento pelo qual nós, refletindo sobre a nossa existência, experimentando, quem sabe, um sentimento de angústia diante dela; chegamos por nós mesmos ao “divino” ou ao “demoníaco” da divindade que “vive” em nós. É neste sentido que a transcendência só pode se dar pela existência (Kierkgaard).

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O CÉU E O TEMPO - II

              
OS  QUATRO  ELEMENTOS
O doze é o número que simboliza o universo em toda a sua complexidade interna. Os quatro elementos (fogo, terra, ar e água) pelos três estados de cada um deles (impulso, estabilidade e transformação), as suas fases de evolução, culminação e involução. O doze é o número sagrado de todos os povos, sendo o número do realizado, do ciclo que se fecha involutivamente, mas cujo final deve ser considerado como o ponto de partida para um novo nascimento. 


O  DIA  E  A  NOITE ( M. CHAGALL, 1887 - 1985 )

O dia e a noite receberam, então, a divisão duodecimal, chamando-se hora (divisão de tempo) cada uma das divisões fixadas, segmento de tempo equivalente à vigésima quarta parte do tempo que o planeta leva para fazer um giro em torno si mesmo. Aos poucos, por razões de ordem prática, as distinções foram sendo feitas, hora sideral, hora solar verdadeira, hora solar média, hora astronômica, hora do meridiano de Greenwich. Cada civilização,
MOMENTOS  DO  DIA
contudo, foi estabelecendo os seus critérios, muito semelhantes, aliás. Os gregos antigos, por exemplo, inicialmente, designavam de maneira vaga os diferentes momentos do dia, falando primeiro da alvorada, depois referiam-se ao momento (hora) em que o mercado atingia o seu maior movimento (meio da manhã); o Sol a pino dava o meio-dia e assim por diante. A partir de meados do séc. V aC, os gregos possuíam dois aparelhos para medir o tempo, o quadrante solar ou gnômon, herdado do Oriente, e a clepsidra ou ampulheta de água, que indicava a duração do tempo pelo escoamento de uma certa quantidade de líquido.



OS  TEMPOS  DO  DIA  ( ALFONS MUCHA , 1860 - 1939 ) 

Todavia, por outras razões, como as religiosas, as horas foram recebendo outros nomes. O Cristianismo, desde os seus primeiros séculos, procurou dar ao tempo civil uma divisão eclesiástica, criando as chamadas horas canônicas. Terminando a primeira hora às sete da manhã, às nove horas teríamos a terça; ao meio-dia, a sexta; a noa ou nona às quinze horas; as vésperas às dezoito horas. Já a noite era dividida em quatro vigílias, das dezoito às seis horas do dia seguinte. 


DE  "MORANGOS  SILVESTRES"
( INGMAR  BERGMAN)
Ao homem primitivo bastava a distinção entre dia e noite, com as suas vinte e quatro horas. No correr dos séculos, porém, novas necessidades, apesar da vida simples. A fração do número doze, a hora, precisava ser também fracionada, pois fatos importantes ocorriam entre uma hora e outra. No início, era só repetir o processo, isto é, dividir a hora por doze (os cinco minutos dos nossos relógios). Mas a divisão mostrou-se insuficiente. Logo se chegou à divisão da hora por sessenta (5 x 12), o minuto, palavra que vem do particípio passado do verbo latino minuere, fazer em pedaços, esmigalhar. E do minuto passamos ao segundo, conforme o processo anterior, assim chamado por ser a segunda divisão sexagesimal. No latim medieval, o minuto era chamado de primus minutus e o segundo, de secundus minutus". E os números se fixaram: entre dois nascimentos do Sol, 24 horas, 1.440 minutos e 86.400 segundos. Por alguns milhares de anos esses números bastaram...

Se o dia é um produto solar, a semana é lunar. O homem sentiu necessidade de estabelecer medidas maiores que aquelas que se interpunham entre dois crepúsculos matutinos. A Lua sempre impressionou demais, tanto quanto o Sol, o homem pré-histórico. Ela não impunha ao ser humano tantos sofrimentos como o Sol. Ela não se afastava como ele, fazendo as longas viagens hibernais, flagelando-o e até matando-o muitas vezes de frio, nem tornava tudo seco como em alguns verões. A Lua participava da vida humana, era companheira e vigia dos que andavam pelas noites, pastores, marinheiros, vigias, viajantes. Assim como governava o movimento das marés, governava as marés internas (a vida emocional) do homem. A Lua, como o ser humano, crescia, tornava-se plena, minguava, desaparecia. Como o ser humano, também estava submetida à lei do devenir, tinha, como o ser humano, o seu período de decrepitude e a sua morte. Mas a morte da Lua era sempre seguida de um renascimento, seu desaparecimento nunca era definitivo. Quem sabe isto também fosse aplicável ao ser humano... Estes ritmos lunares, esta periodicidade sem fim, fazem da Lua a controladora de todos os planos cósmicos submetidos à lei do vir-a-ser cíclico: águas, chuva, vegetação, fertilidade. 


O SOL E A LUA
( GIORGIO DE CHIRICO , 1888 - 1978 )


ÉTER LUTA COM LEÃO
Não foi por acaso que os antigos gregos, depois da castração de Urano, quando Céu e Terra se separaram, consideraram a Lua como o mais importante marco divisório celeste. Acima da Lua, entre ela e Urano, o Céu, ficava o Éter (do verbo grego aíthein, queimar, arder, brilhar), camada superior do cosmos, o chamado céu dos deuses, de luz puríssima. Abaixo da Lua ficava o ar e tudo o que estava submetido à mudança, à transformação. Na Teogonia, poema de Hesíodo, Éter é filho de Nix, a Noite, e irmão de Hemera, o Dia.


CONCILIO DE NICEIA II
( ÍCONE )
Ao contar os dias entre cada fase lunar, para obter uma medida de tempo superior ao dia, chegou-se ao número sete, número que rege o tempo e o espaço, recebendo esse período o nome de septimana (sete manhãs). Com maior ou menor aproximação, todos os povos da antiguidade chegaram a esse número, egípcios, caldeus, persas, etc. A legalização da semana para o Ocidente acorreu somente no concílio de Niceia, em 325 de nossa era. 

As fases da Lua, no hemisfério norte, de um modo geral, nas várias tradições que as destacaram, sempre apareceram entendidas da seguinte maneira: a nova representando a infância. A Lua crescente foi usada para simbolizar a juventude, a adolescência, lembrando uma abertura indiscriminada para as coisas do mundo, correspondendo, por isso, ao tipo humano extrovertido. Já a Lua cheia foi relacionada com a maturidade enquanto a decrescente, o hemisfério à esquerda do astro iluminado,  simbolizou sempre o declínio da vida, representando tipo introvertido, voltado para a vida interior, para o sono, para o inconsciente coletivo. Esta última fase decrescente é chamada pelos alquimistas de Lua balsâmica já que, encerrando-se com ela um ciclo vital, o homem tende a se elevar espiritualmente assim como o incenso (bálsamo) dos sacrifícios buscam os céus.  Com relação à chamada Lua negra, período de alguns dias de invisibilidade lunar, ela sempre foi considerada como símbolo do inacessível, aparecendo associada a Lilith, “deusa do desejo absoluto” e/ou a Hécate, deusa infernal, atuando ela traiçoeiramente na profundeza da interioridade dos homens, simbolizando as forças psíquicas impossíveis de serem controladas pelo consciente. 

A tradição colocou os dias da semana sob a proteção dos astros. Ao maior, o Sol, a própria manifestação da divindade, coube o primeiro dia, o domingo, o dies solis ou dies dominicus, dia do Senhor no Cristianismo. À Lua coube o segundo dia; à Marte, o senhor da guerra, fiador dos destinos de Roma, coube o terceiro; Mercúrio, deus do comércio e do progresso, recebeu a tutela do quarto dia; o quinto dia, a de Júpiter; a Vênus e Saturno couberam, respectivamente, o sexto e o sétimo dias. Roma levou esta tradição a todos os pontos do mundo que foi conquistando. 

O mês, como a semana, vem da Lua. Os nossos ancestrais observaram que entre uma Lua nova e outra havia uma certa regularidade, transcorria um número  certo de dias. A rigor, o período era de 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 2 segundos. Dispensada a precisão, ficamos com o número redondo, alongado o
ASTRÔNOMOS  DA  BABILÔNIA 
período para trinta dias. O primeiro calendário (calendas, o primeiro dia do mês romano, dia em que as contas deveriam ser pagas; livro de contas) usado pelo homem é mesopotâmico, um calendário lunar, igualmente adotado por todas as culturas, inclusive pelos indígenas brasileiros, que mediam o tempo pela sucessão das lunações (lunação é tanto o período entre duas luas novas como a sucessão das fases lunares nesse período). 

Do mês lunar passamos ao ano (annus, círculo), período de doze lunações de trinta dias cada uma, ou o tempo médio entre uma primavera e outra. Estudos posteriores, entretanto, revelaram que um cálculo mais exato para o ano seria feito pelo ciclo solar, a passagem do Sol duas vezes seguidas por uma estrela fixa. Comparadas as duas maneiras de calcular o ano, chegou-se à conclusão que, pelas lunações, havia uma duração, para menos, de onze dias. Os antigos sacerdotes-astrônomos da Babilônia se decidiram pelo entendimento de que o Sol era melhor que a Lua para dividir certos períodos de tempo. A Lua era feminina, sofria "atrasos"...


AS  ESTAÇÕES  DO  ANO ( ALFONS  MUCHA , 1860 - 1939 )

Foram os egípcios os primeiros a medir o ano com razoável exatidão, fixando-o em 365 dias. Mesmo assim ficaram de fora alguns números, mais exatamente 5 horas, 48 minutos e 46,7 segundos. O povo e os verdadeiramente sábios nunca ligaram muito para este detalhe. Contudo, no correr dos séculos, a entrada das estações começou a não corresponder ao calendário, pois havia
SOSÍGENES  DE  ALEXANDRIA
um atraso de um quarto de dia, de seis horas a cada ano. Os romanos, práticos como sempre, fizeram o acerto. Quem o determinou foi Júlio Cesar; chamou à Roma o astrônomo Sosígenes de Alexandria que, com uma equipe de especialistas, corrigiu os cálculos. Os gregos (Aristarco e Hiparco), saliente-se, já haviam feito as contas antes e apontado os erros. Só no ano de 1900, contudo, os números chegariam a uma aceitável exatidão.

Para a sua atividade voltada para a vida material, cultural e espiritual, o homem foi criando outros anos. Ano anomalístico, ano bissexto, ano civil, ano climatérico ou ano decretório, ano comercial, ano fiscal, ano galáctico, ano sabático, etc... Dos anos passamos aos decênios ou décadas, aos quartéis, aos séculos e aos milênios.

HENRI  BERGSON
Na história das religiões, um dos capítulos mais interessantes é aquele em que distinções são estabelecidas entre o tempo profano e o tempo sagrado, o tempo mágico-religioso. Evidentemente, esta distinção decorre da maneira pela qual o tempo é experimentado. O tempo profano, identificado como duração, só encontraria na Filosofia sua discussão definitiva na obra do filósofo francês Henri Bergson (1859-1941). Para o filósofo, a "duração real" (expressão dele) é realidade feita de experiência. Diz Bergson: A pura duração é a forma que toma a sucessão de nossos estados de consciência quando nosso eu se deixa viver, quando ele se abstém de estabelecer uma separação entre o estado presente e os estados anteriores. Prosseguindo, afirma que durar é mudar, pois um eu que não muda não dura. Mais adiante: Não haverá senão o presente, não o prolongamento do passado no momento atual, nada de evolução, nada de duração concreta. A duração é o progresso contínuo do passado que rói o  vir-a-ser e que dele se intumesce ao avançar. O tempo, para Bergson, é algo que se sente a partir de "dentro". É por este
NORBERT  ELIAS
caminho que seguem pensadores modernos como Norbert Elias (1897-1990), um dos grandes estudiosos do tema. Diz Elias que o tempo não existe em si, que não é um dado objetivo como queria Newton, nem uma estrutura a priori do espírito como queria Kant. O tempo é, antes de tudo, para ele, um símbolo social, resultado de um longo processo de aprendizagem, acabando por se tornar a consciência que dele tem homem uma segunda natureza.

A esta altura, como que abrindo um parêntese no nosso tema, é interessante lembrar, sob o ponto de vista filosófico, algumas intervenções modernas sobre o tempo. Uma delas nos leva para a questão do tempo como medida da duração. Tempo e duração não são a mesma coisa. Uma coisa é o tempo como intervalo objetivo, medido por relógios; outra é o tempo vivido como duração. A duração, desde Bergson, é uma noção que se opõe naturalmente à do tempo objetivo. A duração é a experiência viva, concreta, do tempo. O tempo medido, o chamado tempo matemático, é abstrato. Já a duração é uma “realidade” subjetiva, psicológica. Ou seja, uma hora na cadeira de um dentista é muito diferente de uma hora passada numa reunião, a conversar com “amigos do coração”. Ou, ainda: uma hora pode ser “longa” ou “curta”, apesar de, objetivamente, uma hora ser sempre uma hora, sessenta minutos, quer a vivamos aborrecida ou alegremente. 

Ainda dentro deste desvio momentâneo do nosso tema, será também oportuno mencionar a noção de temporalidade que os filósofos da Fenomenologia e do Existencialismo chamaram de “consciência do tempo”. Esta noção decorre das características da atividade em que nos empenhamos, quer estejamos trabalhando, enfrentando as oito horas regulamentares de nossa jornada de trabalho, quer estejamos a participar de alguma atividade esportiva, assistindo a um filme ou metidos numa assembleia sindical para
EDMUND  HUSSERL
discussão de problemas salariais etc. A noção de temporalidade (característica do que é temporal) poderá não ser a mesma para um mesmo intervalo de tempo considerado. Esta noção, desenvolvida principalmente por Husserl, se aproxima da de duração, acima exposta. A noção de duração, ao que nos parece, é “sentida” mais passivamente. Já a noção proposta por Husserl se liga principalmente a uma atividade humana, exigindo, segundo nosso entendimento, um nível de consciência superior.  

Voltando ao nosso tema, é claro que as noções de tempo para as sociedades arcaicas e modernas diferem. O tempo profano, historicamente, precede e se segue ao tempo sagrado. O sagrado é um tempo de celebrações, um tempo mítico, que é vivido diferentemente do profano. Uma de suas principais características é que ele leva à repetição de atos de modo a atualizar arquétipos míticos, como, por exemplo, certas hierofanias lunares, comemoradas periodicamente. Neste sentido, o tempo sagrado é supra ou trans-histórico. O tempo sagrado propõe uma nova dimensão à vida humana. O significado metafísico-religioso das festas da Primavera é um exemplo. Temos nelas a ideia de renovação da vida, não apenas um fenômeno natural, mensurável, datável. Além disso, a periodicidade do tempo sagrado quer dizer a possibilidade de uma volta permanente ao ato ritual, de modo a inscrevê-lo num eterno presente, o que implica sempre uma diacronia e uma sincronia. Três grandes características no tempo sagrado, pois: periodicidade, repetição e eterno presente, ou seja, a duração transformada em eternidade. A cada ano, uma nova cosmogonia e, num outro plano, a ela semelhante, uma nova proposta para o nosso processo de individuação, seu equivalente. 



FESTA DA PRIMAVERA (SIR  LAWRENCE ALMA-TADEMA, 1936-1912)

O tempo sempre se constituiu numa das categorias fundamentais da psicologia do homem e num item fundamental da cultura humana. Lembremos que Buda recomendava a seus discípulos que nunca se ativessem ao tempo e ao espaço, já que a proposta básica do seu ensinamento era a da permanência num eterno presente, através da extinção completa das paixões. Foi pela observação dos astros (tempo profano) que o homem procurou inicialmente "controlar" o tempo, organizando-o para viver melhor. Ao considerar mais atentamente o movimento dos astros, percebeu que tal movimento implicava uma concepção cíclica do tempo que voltava continuamente, um eterno retorno. Esse tempo cíclico que decorria da trajetória uniforme de elementos móveis, os astros, era a própria imagem da eternidade, invariável, mas sempre idêntica a si mesma. Um tempo diferente daquele que o homem usava nas experiências da sua vida cotidiana, tempo este que "decorria" entre as duas margens, o nascimento e a morte. Na expressão de Aristóteles: O tempo é a expressão numérica do movimento.


O  ENIGMA  DAS  HORAS (G. DE CHIRICO,1888-1978)

O tempo mágico-religioso, sagrado, sempre se revela através de ações rituais, procedimentos, um conjunto de cerimônias e de regras praticadas e observadas por grupos ou seitas com o objetivo de assegurar o controle das forças naturais em ação ou orientar uma força oculta no sentido de uma ação determinada. Um dos grandes elementos do tempo sagrado é, sem dúvida, a memória. A ação ritual é uma espécie de recuo no tempo e uma atualização do passado, indo, pois, esta ação, na direção contrária da temporalidade existencial. Ao se inserir no tempo sagrado, o homem recorda e, ao mesmo, continua na sua projeção em direção do futuro, não parando de fluir. Este enfoque permite-nos considerar que as ações rituais (tempo sagrado), as festividades que se celebram, têm o objetivo de evitar que o passado, naquilo em que ele é mais importante, desapareça. Ao mesmo tempo, quem sabe, uma tentativa de escapar do futuro, vivendo num eterno presente. Assim o fazendo, o homem se liga a um tempo primordial, o tempo das origens, prolongado, justificando-se os possíveis excessos e descontroles cometidos nas festividades. 

As ações rituais em tais ocasiões permitem a transgressão, controlando-a de certa maneira. Exemplo particularmente ilustrativo deste fenômeno são as festas do deus Dioniso, que deram origem ao teatro ou a sua participação nos Mistérios de Elêusis. A finalidade destas festas, de forte caráter transgressivo, trazendo muitas vezes propostas de subversão social e/ou sexual, não era tanto a oposição ao presente, mas, sim, a sua regeneração pela inoculação, no presente, do tempo mítico primordial. As ações rituais com seus excessos acabam funcionando como uma espécie de phármakon contra o esquecimento e a morte. 

Estas festas se realizam assim num tempo sagrado, uma espécie de parênteses no cotidiano, possibilitando que o homem restaure o seu passado sem deixar de caminhar em direção do seu futuro. Daí, a ausência do sentimento de culpa, pois nessas festas repetem-se ritualmente comportamentos e atos primordiais de deuses e heróis, mas, nem por isso, a repetição fará daqueles que no processo se envolvem deuses ou heróis. Sem abandonar a sua condição presente, o homem reencontrará, apenas momentaneamente, as energias dos tempo originais. 


PESSACH ( MARC CHAGALL, 1887-1985 )
Como exemplo do que acima está lembremos as Saturnálias romanas, que se realizavam no solstício de Inverno, na Roma antiga, com a finalidade de restaurar, por uma semana, a idade áurea, em que o deus reinou. Já entre os judeus, o exemplo do Pessach mostra como um ritual sacrificial arcaico e sazonal se transformou numa instituição perpétua, ao tomar por base um fato histórico, a saída dos judeus do Egito. Outro exemplo, ligado ao Pessach, pode ser encontrado na festa dos ázimos, que se seguia à noite pascal, no mês das espigas. Era uma festa de natureza agrícola, que durava sete dias. O pão será comido sem fermento para que todos continuassem a se lembrar do período em que saíram do Egito. Se alguém comesse pão fermentado nesse período, a punição era clara, conforme está no Êxodo: quer se trate de estrangeiro, quer se trate de natural do país, expulsão da comunidade de Israel. Era o "pão da aflição", que trazia para o presente, a cada festa, a lembrança  da saída apressada do Egito.

O Cristianismo, numa outra ilustração, propõe que o homem pratique o modelo divino através da imitatio dei, a imitação de Jesus Cristo, uma repetição dos principais atos de sua vida. É o tempo litúrgico (função em serviço público, depois procedimentos religiosos), que permitirá tanto a lembrança da vida de Cristo (nascimento, epifania, ensinamento, paixão, morte, ressurreição e ascensão) como uma antecipação do que virá. O acontecimento divino é "distribuído" no tempo profano. O Natal, lembremos, é celebrado como o nascimento de um tempo novo, tendo sido fixada a data de sua comemoração no solstício de Inverno, ao contrário de tradições orientais e mediterrâneas que, com muito maior propriedade e lógica, festejavam o início  do tempo novo no equinócio da Primavera. Assim, o tempo litúrgico atualiza acontecimentos do passado, sendo ele considerado não só como lembrança (mneme) mas também como ação (imitatio dei), já que por esses dois aspectos o fiel introduz na sua existência o modelo divino.

Na Roma antiga, lembre-se, um dos deuses mais homenageados era Saturno, o deus da famosa idade de ouro, um antigo estado paradisíaco, mítico, que os romanos tinham vivido em tempos remotíssimos. As festas inicialmente duravam um dia, chegando mais tarde a durar uma semana, de 17 a 23 de dezembro. Nessas festas, celebrava-se um período de abundância, de paz, de liberdade, de fraternidade. Com essas festas, os romanos procuravam também obter as graças do deus para a atividade agrícola. Nessas festas, a cidade parava. Os poderes públicos deixavam de funcionar, o senado, os tribunais, ninguém trabalhava. Os condenados à morte podiam em alguns casos escapar, sendo soltos, penas eram comutadas. Os jogos de azar, proibidos, eram liberados. Nesses dias, criava-se algo parecido com um paraíso de natureza terrestre, material, esqueciam-se momentaneamente os sofrimentos.Escravos e senhores trocavam de papéis. Os escravos eram servidos pelos patrões, estes até muito insultados por aqueles, que lhes lembravam as suas torpezas e vícios. A semana era de orgias, quebravam-se resistências e a hierarquia.


MITRA
O Cristianismo, como religião vencedora em Roma, aproveitou o período das Saturnais ou Saturnálias para nele celebrar o Natal, fixando num de seus dias a data de nascimento de Cristo. Os romanos também celebravam à mesma época uma festa que haviam importado da antiga Pérsia em honra do deus Mitra, à qual deram o nome de Sol Invictus. Esta festa era celebrada no dia 25 de dezembro, dia em que se celebrava o solstício de inverno, o renascimento do Sol (Sol Natalis). Este culto foi introduzido em Roma, alguns séculos antes de Cristo, passando depois às regiões dominadas pelos romanos, em todo o baixo Mediterrâneo.