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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

DEUSES GREGOS: TRANSCENDÊNCIA E IMANÊNCIA


DEUSES GREGOS
  
ARISTÓTELES
É preciso colocar de início para que as ideias fiquem bem claras que a mitologia grega, quanto à cultura ocidental, se inscreve na chamada tradição imanentista por oposição à transcendentalista. Sem nos
KANT
perdermos em maiores discussões sobre esta questão e sua repercussão na Filosofia, de Aristóteles à  Escolástica  e desta  a Kant e aos existencialistas, entendemos que o imanentismo  se caracteriza simplesmente por  tudo aquilo que procede de um ser como expressão do que ele traz em si, de sua participação no mundo e de suas relações com os outros seres humanos. 

Imanente vem do latim, in, em, dentro, e manere, permanecer, ficar, ou seja, aquilo que está no interior de um ser. A moral é imanente, por exemplo, quando decorre da vida social e tem relação com os homens e com os acontecimentos do mundo. No mito, a imanência nos fala da ação do divino (modelos superiores de existência criados pelos humanos) em nosso mundo, sendo-lhe intrínseca; os deuses dele participam, fazem parte de nossa vida, estão na natureza e inspiram as produções superiores do espírito humano, têm a ver com as nossas ações, a nossa arte, a nossa literatura, a nossa música, a nossa poesia como com os nossos crimes e
JUNG
pecados. Os antigos gregos colocaram em seus deuses a totalidade da existência, toda a sua complexidade e diversidade. Aparecem-nos eles assim como modelos de existência, para o bem ou para o mal, são paradigmas, aquilo que alguns chamam de arquétipos ou, melhor, são os revestimentos primários dos arquétipos da cultura ocidental, segundo uma tradição que remonta a Platão, a Fílon de Alexandria, ao Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a Santo Agostinho e, modernamente, a Jung.

A mitologia grega, para a cultura ocidental, como representação das forças que operam no universo, foi penetrando tudo. Acabou por se tornar a fonte de muitas alegorias  que alimentam as grandes

metáforas de muitos filósofos, místicos, cientistas, artistas, poetas, músicos, fazendo parte inclusive do cotidiano do homem comum ao invadir o léxico de várias línguas. Lembremo-nos do que Platão fez com Eros no seu diálogo O Simpósio quando, através de Sócrates, estabelece uma nova gênese do deus para  falar do amor homossexual. Ou, então, daquilo que Édipo significou para Freud na construção da sua Psicanálise ou, ainda, de como a crônica do titã Prometeu se encaixa à perfeição quando falamos de lutas contra a tirania ou do roubo de segredos científicos.

CERES (WATEAU, 1684-1721)
Quanto ao homem comum, a língua e a mitologia greco-latina estão presentes quando comemos cereais (Ceres), nectarinas, ambrosia, quando calçamos sapatos vulcanizados, ou colunas de mercúrio sobem e descem para medir as temperaturas do nosso corpo (termômetros). Vemos filmes épicos, dramáticos, eróticos; afrodisíacos melhoram o desempenho sexual; deuses (Urano, Plutão,
TÂNTALO
( GOYA , 1746 - 1828 )
Hélio, Selene) viraram elementos químicos (urânio, plutônio, hélio, selênio etc.) e um criminoso da mitologia grega deu nome a um dos metais mais valorizados do mundo, mais que o ouro, o tântalo. Utilizado em telefones portáteis, computadores pessoais e eletrônicos automotivos, o tântalo também é usado para fazer ferramentas de metal para usinagem e para a produção de superligas para componentes de motores a jato.


PÂNICO ( O  GRITO , EDWARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Personagens da mitologia grega,invadiram a Psicologia para dar nome a complexos ou síndromes (complexos de Zeus, de Cronos, de Héstia, de Electra ou síndromes do Pânico (do deus Pan), de Medeia. A palavra economia vem do grego (oikos, casa, habitação, mais nomos, lei, ou seja, é, na origem, a lei,  são as regras da casa) ou foram os deuses e heróis para o mundo das finanças para
AQUILES E AJAX (VASO GREGO)
designar o poder oculto do dinheiro (plutocracia) ou acabaram em prateleiras de supermercados como  sabão em pó (Ajax, herói grego, que é vendido como o furacão da limpeza). Foi o maior dos heróis gregos, Hércules, que no seu décimo primeiro trabalho (A limpeza dos estábulos do rei Augias) que inventou a propina. Os mitos e seus personagens estão em livros de Medicina dando o nome a doenças (satiríase, priapismo, erisipela, mercurialismo, saturnismo). Damos o nome de calcanhar de Aquiles a um ponto fraco em nosso corpo. Se mais quisermos  é só abrir os dicionários  e lá os encontraremos: morfina (Morfeu), hermético (Hermes), ciclópico (Ciclopes), tantalizar (Tântalo), nefelibata (Nefele), etérico (Éter), hemeroteca (Hemera), narcótico (Narciso), carisma (Cárites), bacanal (Baco), letargia (Lethe), museu (Musa), hipnose (Hipnos), oniromancia (Oniro). Quase toda as doenças e males que nos atingem são “gregos”: osteopenia, anemia, osteoporose, leucemia, pneumonia, prostatite, rinite, câncer, hidrocefalia, escoliose, psicopatia, nevrose, encefalite etc.  


HESPÉRIDES  ( HANS  VON  MARÉES , 1837 - 1887 )

Ampliando um pouco mais a nossa abordagem, indo noutra direção, tomemos, por exemplo, o universo semântico (possibilidades significativas) que Nix, a deusa da noite, com alguns de seus filhos ou personagens que com ela se apresentam, nos oferecem. É Nix uma das entidades cosmogônicas, nascida do Caos, como está em Hesíodo. Na ordenação cósmica cabem-lhe as trevas superiores, opondo-se ao Érebo, as trevas inferiores, estas as camadas intermediárias do Hades. Nix habita o extremo-ocidente, além da região das Hespérides, as ninfas do poente, suas filhas;  lá tem o seu palácio, de onde só sai quando Hemera, o dia, seu filho, se retira. A região onde  Nix tem o seu palácio, lembremos, é o lugar onde a luz morre. No interior da palavra ocidente esconde-se a raiz cad, que encerra a ideia de tombar, cair; daí, queda da luz, ocidente. Foi para esta região, vizinha do Hades, que se encaminhou Ulisses quando resolveu interrogar as almas dos mortos (nekyia) na esperança de obter informações sobre o seu caminho de volta  para Ítaca. O ocidente , se por um lado lembra declínio, decadência, como lugar noturno e satânico, sinistro, à esquerda, é o lugar das grandes-mães em todos os mitos, e nos diz, por outro, que ele é também o lugar da fertilidade, da fecundidade, lugar da obscuridade, das confidências, da discrição, do entendimento. 

HEMERA
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Retirando-se Hemera, o dia, e mergulhando o deus solar Hélio no oceano ou escondendo-se atrás dos montes, Nix começa  sua viagem pelos céus; vai no seu carro puxado por cavalos negros, com seu vasto manto salpicado de estrelas, franjado de infinito, como diz o poeta. Para muitos, quando ela estende o seu manto, são as horas das trevas, sempre perigosas. O intervalo entre os dois crepúsculos, o vespertino e o matutino, mais o seu ápice, a meia-noite, são as chamadas horas abertas, horas dos acontecimentos maléficos, em que demônios, fantasmas e espectros atuam livres, principalmente nas encruzilhadas. Por sua representação espacial, a encruzilhada propõe múltiplas possibilidades, sugere mudanças, abandono de um caminho por outro. Para tomar o caminho certo temos que enfrentar as criaturas perniciosas  que do lugar  se apossaram como forças do caos, temos que reverenciá-las sempre, vencer os nossos temores, as nossas projeções imaginárias.  

NIX
(BOUGUEREAU,1825-1905)
Nix é tanto ausência de luz quanto escuridão misteriosa, risco de desvios, confusão de distâncias, anulação de evidências. Mas Nix é também protetora dos úteros, das cavernas e das grutas, dos lugares de nascimento e de renascimento.  A não ser que Pothos, a saudade, interfira, porque saudosos não dormimos, Nix  libera  seu filho Hipnos, o sono, que, baixando o seu tridente sobre as nossas pálpebras, traz o sono reparador. Qualquer que seja a sua representação, como um jovem segurando uma papoula ou  uma espécie de cornucópia a gotejar o sono sobre os que dormem ou (melhor ainda) se ele vier com seu filho  Morfeu, o sonho, na forma de Hypar, o sonho premonitório. 

Há ocasiões em que Nix pode retardar a chegada de seus filhos para  favorecer a reflexão, a meditação raciocinada, colocando-se entre a proposta que nos fazem e a decisão que precisamos tomar, evitando precipitações, ensinando serenamente, generosamente. É nesses momentos  que ela toma o nome de Eufrone, a benfazeja, a benevolente, ou de Eulalia, a boa palavra, a mãe do bom conselho. Duas filhas de Nix poderão, contudo, aparecer se Hipnos não vier ou demorar muito para chegar: a irritante Éris, a discórdia, e Apate,
MORFEU
o engano, sempre desagradáveis e perturbadoras. Quando Morfeu, o de mil formas, vem como Oniro, o sonho enganador, Nix deixa de ser benfazeja. Agora, então, à nossa volta, animais fabulosos, luzes espantosas, gritos, gemidos, monstros, abolição do tempo e do espaço. Oniro, com a sua infinita capacidade de mudar de forma, faz surgir personagens como Iquelos  (aparência de realidade), Fobetor  (terrível, assustador), Fantasos (fenômenos enganadores) e muitos outros...                                                

FERNANDO  PESSOA
Os poetas e músicos têm especial predileção  por  Fílotes, a ternura, um dos filhos de Nix. Muitos escreveram ou compuseram sobre este sentimento noturno cujo nome vem do verbo grego amar e que entre os latinos  se liga  ao tenro, ao terno, ao delicado. Fílotes é aconchego, proteção, afago, delicadeza. Fernando Pessoa nos deixou  em Ficções do Interlúdio  (Álvaro de Campos), ao pedir que a Noite viesse, uma ideia  muito  clara desse sentimento noturno: Vem, e embala-nos, vem e afaga-nos.
BAUDELAIRE
Beija-nos silenciosamente na fronte, tão levemente na fonte que não saibamos que nos beijam senão por uma diferença na alma. Ou lembremo-nos de como Baudelaire, com o seu Recueillement, pede à sua dor que ela se tranquilize quando uma atmosfera obscura envolve a cidade, trazendo a uns a paz e a outros, o cuidado. Em ambos a esperança de que  Nix venha com Fílotes.

CHOPIN
(DELACROIX , 1789 - 1863)
São certamente de Fílotes as composições musicais, vocais ou instrumentais, depois sobretudo pianísticas  sem forma especial, de caráter melancólico, triste para alguns,  a que deram o nome de noturno. Peças de atmosfera às quais Chopin, mais do que qualquer outro compositor, tem seu nome ligado. Abandono, solidão, um pedido de socorro... São também desse filho de Nix as chamadas berceuses, canções para fazer as crianças pegarem no sono, ritmo que lembra o balanço delicado de um berço. Para os povos de língua inglesa é a conhecida lullabay. Entre nós, é o acalanto (mitigar, acalmar, aquietar, calar), como Mário de Andrade registrou em Macunaíma, ao pedir que Acutipuru (o esquilo; de acuti: cutia e  puru: enfeitada) devolvesse o sono ausente da criança.
           
SELENE

Antes as trevas, depois a luz, é a sentença latina (Post tenebras lux), o que se torna válido tanto  para as cosmogonias como para o nosso processo de individuação. Importante destacar que Nix por isso é também vista como algo que devemos atravessar. As travessias noturnas são fortemente marcadas pela presença da Lua, a luz noturna, olho de Nix, que entre os gregos toma, dentre outros, o nome de Selene. Embora associada à doçura, à brancura, à proteção e à generosidade, lembrando em muitas tradições as velhas madrinhas. O poder maléfico de Selene pode ser tão grande quanto os bens que  prodigaliza. O ferido por ela chama-se lunático, palavra que na antiguidade e ainda hoje em certas sociedades é sinônimo de epiléptico (agarrado, raptado por cima). Não esqueçamos também que aluado designa o que nasce com perturbações tanto psíquicas (amalucado) quanto físicas, o que nasceu fraco, raquítico, o que não tem coluna vertebral (rhakhis) boa. Tudo isto porque da Lua depende tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta, brotos, crias, ervas, gemas, grelos, rebentos, embriões. É neste sentido que a Lua aparece como deusa das passagens, das travessias, funções que se ampliarão e se fixarão melhor na figura de Ártemis, deusa lunar do panteão olímpico.

HESÍODO
Outra que aparece com Nix é Hécate (a que fere  distância), também  representação lunar como Selene. Vinda de um mundo pré-olímpico, Hesíodo, em sua Teogonia, dá-lhe grande destaque, certamente por ser agricultor além de poeta. Hécate representa os mistérios da noite, todos os seus sortilégios, sua magia, seus encantamentos. Deusa ctônica, dividia o poder sobre as encruzilhadas com o deus Hermes, o deus dos caminhos. Personificava as três fases visíveis da Lua, recebendo, por isso, o nome de Triforme ou Trívia, além dos de  Curótrofa e Enódia, a que faz passar e a dos caminhos. 

Baixava Hécate nas encruzilhadas a cada vinte e oito dias mais ou menos, na Lua nova (ausência de lua no céu). A Lua nova, como se sabe, é tempo de germinações espontâneas, indica que algo vai surgir. Daí um outro nome seu, Numênia, a primeira Lua. Simboliza fecundidade, fertilidade, redes e pomares cheios. Na Alquimia, a Lua nova tem a ver com a primeira etapa da obra alquímica, a nigredo. O séquito da deusa era formado por espectros, fantasmas, demônios, que aterrorizavam os que paravam nas encruzilhadas. Do séquito de Hécate participavam também  cães, éguas e lobas. Os cães, sobretudo, eram muito caros à deusa já que era pelos latidos deles que se anunciava a sua chegada. Fazem também parte do séquito da deusa, às vezes, entidades repulsivas  como a Empusa e a Lâmia, monstros dos terrores noturnos, ligadas aos mundos maternal e infantil. 


HÉCATE  ( WILLIAM BLAKE , 1757 - 1827 )

As almas errantes também faziam, às vezes, parte do cortejo da deusa, almas daqueles que não tinham tido morte ritual, razão pela qual  ficam a perambular pela terra. Hécate tinha, dentre as suas funções, a de estar sempre presente quando a alma entrava e saía do corpo. Daí ser deusa das almas dos mortos. Quando vinha à terra ficava a passear  nos cemitérios entre as tumbas, carregando consigo, em meio a gemidos e ranger de dentes, as almas sedentas, com suas longas vestes. Ao lado dos alimentos que lhe eram oferecidos, sempre juntos da deusa a copa e o cântaro. 

Em muitas tradições místicas, como no Sufismo, bastante comuns as imagens da viagem noturna. Para se chegar ao desejado estado de contemplação é necessário fechar as passagens dos sentidos físicos para que os espíritos, mais profundamente, possam operar com liberdade. É a chamada Noite Mística: barrar as impressões dos sentidos (esperanças, medo, emoções, sentimentos, etc.) para se chegar à luz interior. Para S. Juan de la Cruz, o famoso místico carmelitano, entrar na noite é o caminho da ascese,  a noite escura da alma: 
Oh! Noite que me guiaste! 
Oh! Noite mais amável que a alvorada! 
Oh! Noite que juntaste Amado com Amada, 
Amada já no Amado transformada 
                                     (Canções da Alma).


S. JUAN DE LA CRUZ (BECERRA , 1520 - 1570)


TÂNATOS
Mais radical que Hipnos é seu irmão gêmeo Tânatos, a morte, também conhecido como sono eterno, o que tem alma de ferro e coração de bronze, inacessível à piedade, como diz Hesíodo. As representações terríveis de Tânatos, ao longo da história grega, é bom lembrar, admitiram sempre um lado “positivo”, digamos, na medida em que este filho de Nix significava transição para uma outra vida, acenava com possibilidade de renascimento. Se figuras sinistras como as Keres ou Eurínomo a ele se associavam  havia também a imagem dos Campos Elíseos. As Keres,  filhas de Nix, deusas lúgubres, sempre sedentas de sangue, atacavam os moribundos nos campos de batalha, como Homero nos deixou  no canto XVIII da Ilíada. Quanto a Eurínomo, o monstro escuro que devorava as carnes dos cadáveres, registre-se que é criação artística posterior. Polignoto, o pintor, o coloriu de azul, ao executar suas composições murais sobre temas mitológicos, que Pausânias e Plínio descreveram. Mesmo as Moiras, as donas do fio da vida,  também filhas de Nix, ligadas  a Tânatos, nunca chegaram  a ser representadas  de forma repulsiva ou hedionda. É claro que não podemos perder de vista as contribuições órficas e pitagóricas, já no período helenístico, que suavizaram bastante o tema da morte. 


UM  FIO  DE  OURO (JOHN  MELHUISH  STRUDWICH , 1849 - 1937) 

Ao lado do caráter inexorável, iniludível, da ação das Moiras, Tânatos sempre foi visto como uma espécie de véu que se interpunha entre o morto e a luz, uma espécie de nuvem negra. Olhos que se fechavam, pálpebras baixadas, um ato de compaixão, quase. Um benfeitor especial que trazia o descanso e aliviava as dores. O que sempre se destacou quanto às Moiras, mais do que uma ideia de um inimigo físico foi a de que tanto simbolizavam as três etapas da vida humana: nascimento (Cloto), duração (Láquesis) e morte (Átropos), como a impossibilidade de sabermos de antemão o nosso destino. Uma fatalidade, sim, mas também uma liberação, um acesso, uma revelação. Daí, muitas representações de Tânatos como um belo jovem, como que a dormir, recostado numa árvore, uma tocha apagada ao lado. Ou, como em muitas outras representações, uma coluna partida, uma vela de barco arriada, uma corrente quebrada. Em alguns casos, esculpida na pedra, junto, uma borboleta, a indicar crenças reencarnacionistas. Atenuavam-se as representações violentas de Tânatos, como, por exemplo, as que o faziam semelhante a  Bóreas, o terrível vento hibernal do norte.

MOMO
Próxima de Éris, a Discórdia, estava outra  filha de Nix, Momo, a zombaria, o sarcasmo. Sua ocupação era a de ridicularizar as ações divinas ou humanas, com exceção as de Afrodite, nas quais  não encontrou nada que pudesse ser ridicularizado. No canto II (86) da Odisseia, lá está ela nas palavras de Telêmaco, filho de Ulisses. Momo marcou sua presença  na mitologia grega de modo espetacular ao se tornar a inspiradora da guerra de Troia a Zeus como recurso para a diminuição da densidade demográfica, insuportável àquela altura conforme queixas da grande-mãe Geia. Já Geras, a  velhice, outra filha, a angústia do efêmero, era uma triste divindade. Sempre representada por uma velha mulher, de túnica negra, um bastão de apoio retorcido numa das mãos; na outra, uma taça vazia; ao lado, uma clepsidra quase esgotada
PÍNDARO
Na divisão dos bens do universo, couberam aos humanos, por sua própria culpa, muitos males e misérias, embora, como dizia Píndaro nas Nemeias, deuses e humanos tivessem uma mãe comum. As atividades humanas ficaram restritas a limites impostos pelos deuses. Ultrapassá-los, era ofendê-los. Ofendiam os humanos aquilo que os gregos chamavam de Nêmesis,  grande divindade, filha de Nix, que personificava a justiça distributiva. Mais ainda: admitiam também os gregos que,  por mais rico e poderoso que fosse um homem, os deuses, talvez por inveja, poderiam sujeitá-lo a uma punição. A fortuna demasiada era um insulto aos deuses, sentimento que fazia parte do culto a Nêmesis. A deusa recebia  também o nome de Adastreia  (a da qual não se pode fugir, a necessidade).  Nêmesis marcava os limites dentro dos quais deveriam se distribuir as ações humanas. Não é por outra razão que a Moira é chamada de Aisa, parte igual, o “pedaço” de vida assinalado a cada um de nós.
Os deuses gregos  interferem na vida dos mortais, os efêmeros, os nascidos para um dia; dela participam, misturam-se, chegam facilmente à  promiscuidade, têm paixões, fazem sexo, muitos são declaradamente homossexuais. De outro lado e ao mesmo tempo são imortais (athanatoi), imperecíveis, imputrescíveis, sublimes. Vivem no Éter, gerado por Nix, a camada superior do cosmos, acima da Lua, região da luz eterna. Seu modo de viver é o de um banquete sem fim (thaleia). Difícil compreender, inaceitável mesmo, se não tivermos em mente o caráter imanentista da mitologia grega, que os deuses e sua entourage sejam ao mesmo tempo imortais, isentos de preocupação e de cuidados, estes típicos dos humanos, vivendo numa situação de satisfação sem carências, possam chegar na sua convivência ou envolvidos com mortais a tantas situações de perigo, de risco, de degradação e de vexame. Verdades ou poesia? Sólon já havia observado  que muito mentem os poetas. Xenófanes foi mais claro e Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que entre os homens é vergonhoso e censurável, roubo, adultério e logro mútuo. Por isso, Platão certamente proibiu a entrada de Homero no seu  Estado ideal...

JAVÉ
Na tradição imanentista , as divindades não ficam fora da existência humana, distantes e inacessíveis como um Javé-Adonai, nem a transcendência é transferida para uma outra vida, para o além, fora dos limites da experiência possível. A transcendência é colocada no aqui e no agora, nesta vida, tornando-se algo histórico. Os deuses gregos vão representar o possível dessa transcendência, salientando a importância da existência humana no que ela tem de irredutível. São a consciência permanente que temos de tomar do nosso destino pessoal na medida em que nos arrancamos a cada momento do nada para abrir adiante um futuro onde nossa existência se decidirá. 
Representam assim as divindades gregas os possíveis de nossa transcendência, que não é lançada para uma outra vida, cabendo-nos a escolha ou, se quisermos, a perplexidade diante das várias  possibilidades que tipificam. São eles  em nosso mundo princípios
KIERKGAARD
vitais que nos animam e não algo que vem de fora. A imanência é o momento pelo qual nós, refletindo sobre a nossa existência, experimentando, quem sabe, um sentimento de angústia diante dela; chegamos por nós mesmos ao “divino” ou ao “demoníaco” da divindade que “vive” em nós. É neste sentido que a transcendência só pode se dar pela existência (Kierkgaard).

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A INVEJA

   
A INVEJA
(H. BOSCH, C.1450-1516)
Comumente, a inveja é um sentimento de desgosto provocado pela felicidade ou pela prosperidade alheia. No plano da via afetiva, confunde-se com o ciúme, estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de quem se pretende amor ou fidelidade exclusivos. A inveja e/ou o ciúme são fenômenos passivos, paixões, portanto, que têm como principal característica a paralisação da ação normal da razão. As paixões, como sabemos, quando se instalam, impedem que comandemos a nossa conduta, que determinemos a nossa vontade. 

Os gregos tinham três palavras para falar da inveja, phtonos, dzelos e baskhainia. Baskhanos era o que olhava com maus olhos, era o curioso, o invejoso, o denegridor, o caluniador. Phthoneros era o ciumento, o invejoso. A palavra ciúme veio para nós do grego, dzelos, passando pelo latim, zelumen, zelumis com o sentido de intensa paixão amorosa. Os franceses têm jalousie, sentimento vivo, intenso, sombrio, palavra que veio também pela mesma via acima apontada, dando na língua provençal gilos. Os espanhóis dirão celos, os italianos gelosia e os ingleses jealousy. O ciúme tem a ver com o receio, o pavor, o temor de perda, a desconfiança, a tortura, o masoquismo.


A  INVEJA ( EDWARD  MUNCH, 1863- 1944)

Dos tormentos da alma, o ciúme e a inveja talvez sejam os mais avassaladores. E isto porque eles não existem sem o querer, sem o gostar, sem o amar. Talvez ainda porque eles apareçam sempre associados a outras emoções destrutivas como a dúvida, a angústia, a desconfiança, a mágoa, a solidão, o desamparo, o medo, a rejeição, a paranoia, a necessidade de afirmação pessoal, a autodefesa, o amor próprio etc. Haverá alguém imune à inveja e ao ciúme?

LUPICINIO  RODRIGUES
Inah foi a primeira namorada, a primeira noiva e a primeira desilusão de Lupicínio Rodrigues. Foi também a primeira e única mulata de sua vida. Depois, só teria problemas com louras, como ele mesmo declarou. Com Inah, o romance começou em Santa Maria, lá no Rio Grande do Sul, de onde ele era. Ambos muito jovens, a relação durou seis anos. Terminou porque Lupicínio não se decidia quanto ao casamento. Algum tempo depois de ter tudo findado, Inah se casou com outro. Quando Lupe, como era chamado, a viu de braço com o marido, sentiu um choque tremendo, um misto de ciúme, amizade, despeito e horror, como disse. Adquiriu, como a chamava, uma "dor de cotovelo federal”, daquelas que duram a vida inteira, diferente da dor “estadual” e da dor “municipal”, que também duram, mas passam. O resultado dessa dor de cotovelo “federal” foi Nervos de Aço, samba gravado por Francisco Alves, o primeiro grande sucesso de Lupicínio Rodrigues. 

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? 
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor, 
Nos braços de outro qualquer.
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
E por ele quase morrer?
E depois encontrá-lo em um braço
E nem um pedaço do meu pode ser
Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, amizade, despeito ou horror
Eu só sei que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte e de dor.”

O ciúme e a inveja, nos dicionários, passam por sinônimos. Inveja vem do verbo latino invidere, olhar de modo malévolo, mau olhado, o famoso malòcchio dos italianos. No caso da inveja, o olho se transforma num emissor da energia que está nos sentimentos ruins que experimentamos porque o outro possui alguma coisa que desejamos ou passamos a desejar quando o/a vemos com ela/ele. Este mau olhado recebeu dos italianos o nome de gettatura, do verbo gettare, arremessar, lançar longe. Uma energia destrutiva que se lança contra alguém.

Já os gregos antigos chamavam a inveja “ruim” de phtonos, sentimento em que se misturam à mágoa e à dor uma sensação muito desagradável produzida pela felicidade merecida ou não de alguém da qual não participamos. Phtonos era alegorizada sob a forma de um demônio, um espírito maléfico, que vivia em companhia de muitos outros, no Inferno grego, o  Hades, no Bosque de Perséfone, seu território vestibular. Alguns mitógrafos consideravam Phtonos como filha de Afrodite e de Dioniso.
Dzelos era o nome que os gregos davam a um ciúme ou a uma inveja especial. Quando este sentimento se instalava chamavam-no de dzelotymia. Nesta palavra, juntam-se os termos tymia e zelos, o primeiro tendo relação com afetividade, emoção (a glândula timo é representada em muitas tradições como a sede da vida afetiva; corresponde, no Yoga, ao chakra anahata, também chamado erroneamente de chakra cardíaco). Dzelos era, pois, para os gregos, uma espécie de ciúme positivo, uma inveja saudável, ao levar aquele que a experimentava a tentar se igualar a alguém ou a superá-lo, uma forma de emulação. Uma competição sadia sem sentimentos baixos, sem falsidade. Seria uma forma de cuidado diligente, vigilante, precavido, cauteloso aplicado a um desempenho emulador. 
De dzelos saiu negativamente a palavra zelote. Demonizado, Phtonos se apossa daqueles que fingem ter zelo, que simulam falso comportamento zeloso. A palavra adquiriu também o significado de fanático. O ciúme negativo, a inveja, o mau olhado e todos os demais sentimentos ruins passaram a ser designados pela palavra phtonos. Semelhante é este demônio àquele que entre os romanos representava a Invidia, um espectro feminino com serpentes na cabeça, olhos vesgos, magérrima, com um réptil roendo-lhe o coração. 

SANTO TOMÁS DE AQUINO
Santo Tomás de Aquino diz que é próprio do amor o querer bem ao outro, ao amigo, à mulher amada, ao homem amado, pois, nessa dimensão amorosa, o outro é como se fosse o nosso próprio eu. Os que se entristecem com a felicidade do outro vão de encontro à caridade, pois é através dela que amamos o próximo. A caridade, na doutrina católica, é uma virtude teologal que conduz ao amor a Deus e ao nosso semelhante. Num sentido amplo, ela se constitui de atos pelos quais o próximo é beneficiado, especialmente os pobres e desprotegidos.

Tomás aponta, como “filhas” da inveja, a murmuração, a detração, o ódio,a exultação pela adversidade e a aflição pela prosperidade. Um dos grandes objetivos da inveja é o de impedir a satisfação e o prazer alheios. A inveja usa para isto o que comumente chamamos de “falar mal de alguém”, disfarçada ou abertamente. No primeiro caso temos o que os latinos designavam por sussurratio, que podemos traduzir como fofoca. No segundo caso, temos a detração.

FOFOCA
Fofoca é palavra de origem africana, tendo sido criada a partir de um verbo que tem o sentido de remexer, revolver, esgaravatar. A palavra tomou o sentido de dito maldoso, de divulgação de detalhes da vida de uma pessoa que ela gostaria que não fossem revelados. Detração é difamação, expressão maledicente com o intuito de agredir, de fazer mal.

TOLSTOI
É na literatura, evidentemente, que encontramos os melhores exemplos do ciúme. Na literatura, o tema é tratado de modo admirável por Tolstoi, em A Sonata de Kreutzer (1891). A mulher de Pozdnychev o engana com um violinista e ele a mata. Esta história de adultério permitiu a Tolstoi expor as suas ideias sobre o quão nefasto pode ser amor físico nas circunstâncias por ele apontadas. Shakespeare também tratou do tema em Otelo, o Mouro de Veneza. Ele estrangula Desdêmona, sua esposa, convencido pelo pérfido e traiçoeiro Yago de que ela o enganava.    

Corneile (séc. XVII), dramaturgo francês, dizia: O ciúme, que parece ter por objeto apenas a pessoa que amamos, prova na verdade que amamos só a nós mesmos. De Oscar Wilde (séc. XIX): As não bonitas são sempre ciumentas de seus maridos; as bonitas nunca! Não têm tempo. Estão sempre ocupadas com o ciúme em relação aos maridos de outras mulheres. E Proust arremata: Para aquela (mulher) que é objeto de ciúme, ele passa a ser considerado como desconfiança injuriosa e, por isso, é uma autorização para enganar o ciumento.
Qualquer que seja o ângulo pelo qual o examinemos, o ciúme é sempre um sentimento intenso, hostil, sombrio, que se pode experimentar também quando se vê alguém se aproveitar de algo que não possuimos ou que desejaríamos possuir com exclusividade. Ou, ainda, inquietação que nos toma quando temos de abrir mão de algo que muito prezamos ou estimamos em proveito de outra pessoa. 

BALZAC
Balzac, seguindo os gregos, dizia que o ciúme e a inveja se transformavam em emulação nas pessoas superiores; nos inferiores, se transformavam em ódio. O campo emocional do ciúme é vastíssimo, tem muitas nuances, formas expressivas. Freud, a partir da inveja e do ciúme, criou a expressão inveja do pênis para designar um elemento constitutivo, segundo ele, da sexualidade feminina, que pode se apresentar de diversas formas, indo do desejo frequentemente inconsciente dela própria possuir um pênis para dele gozar à vontade no coito. Lembremo-nos de Mafalda (personagem do grande Quino) ao ver um menino fazendo xixi: Maman, mira maman, que cosita más práctica, comprame una?

Psicólogos, espíritas, médicos, umbandistas, terapeutas, operários, empregados de escritório, fanáticos por novelas de TV, religiosos, conselheiros espirituais, exorcistas, políticos, bispos, pais-de-santo, poetas, músicos, psicopatas, donas de casa, cartomantes, membros de torcidas organizadas, protestantes, professores catedráticos, praticantes de Yoga, evangélicos, cardeais, gente que tem conta no exterior em paraísos fiscais, todos e muitos mais têm sempre o que dizer sobre o ciúme, cada um a seu modo, sem dúvida.

Uma das visões mais lúcidas do tema está na que Astrologia conscientemente praticada oferece. É no eixo Touro-Escorpião, signos fixos, sempre mais sujeitos às paixões, que temos os melhores exemplos do que aqui se trata. É óbvio que o ciúme, tanto num como noutro caso, se manifesta sobretudo, mais agudamente, nos tipos malogrados de ambos os signos. O que aqui observamos quanto aos dois mencionados signos não exclui, contudo, a possibilidade de encontrarmos manifestações de ciúme em outros signos. Quem poderá se declarar imune a esse tipo de paixão? 


Em Machado de Assis, sempre sutil e refinado, encontramos observações como esta (Relíquias da Casa Velha): Havia nela tanta modéstia e recato que o ciúme dele podia dormir com as portas abertas. Se quisermos mais do nosso Machado temos que ir a uma de suas obras máximas, Dom Casmurro, onde ele analisa de modo magistral o ciúme de Bentinho por Capitu, deixando-nos dúvidas que discutimos até hoje. 
No caso de Touro, do elemento terra, o ciúme se liga invariavelmente a um desejo de posse material de um ser, de um objeto amado, ou da fruição ou gozo de alguma sensação prazerosa. Não satisfeitos, tais desejos, pela falta, pela carência, gerarão sempre algum tipo de sofrimento. Por outro lado, satisfeito ou obtido o objeto do desejo, sobre o qual repousa em grande parte a segurança física e psíquica do tipo aqui descrito, o ciúme, latente sempre, acabará se mostrando. 

Já quanto ao escorpiano (elemento água), a segurança está ligada ao emocional. Costumam os escorpianos viver a sua afetividade de modo total, absoluto, na base do tudo ou nada. Muitos escorpianos, quando amam, desejam do outro o corpo, a alma e o resto... Em ambos os casos, o ciúme, com facilidade chega à obsessão, à ideia fixa, podendo o sentimento tomar um caminho destrutivo (se não possuo, ninguém possuirá), patológico. É evidente que quanto maior o número de astros nos signos apontados, principalmente os chamados planetas pessoais, além do ascendente, maior a ênfase passional. Não é por acaso que encontramos nesse eixo as figuras mais emblemáticas da paixão e, consequentemente, do ciúme e da inveja, seja pela sua vida pessoal, por sua atividade profissional ou pela obra que deixaram. Como exemplos, basta citar: Stendhal, Eurípedes, Dostoievski, Lupicínio Rodrigues, Balzac, Goethe, Jean-Paul Sartre, Carlos Drummond de Andrade, Luis Inácio Lula da Silva, Richard Wagner, Picasso, Racine, Restif de la Bretonne, Albert Camus, Henri Georges Clouzot, André Malraux, Freud, Hitler, Kant, Marx etc.

ROLAND  BARTHES
Roland Barthes, semiólogo francês, em Fragmentos de um discurso amoroso, disse, tentando colocar o ciumento contra a parede: Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum. 

A Bíblia é um dos maiores repositórios de exemplos das paixões humanas: o ciúme de Caim; o de Sara, que induziu Abraão a expulsar Agar e seu filho Ismael; as relações entre Esaú e Jacó; a traição de Judas (ciúme de Pedro); a venda de José, como escravo, aos egípcios; o ciúme de Lia diante da beleza de Raquel; o ciúme de Satã por Deus ter criado Adão e muito mais.

APELES
O ciúme e a inveja costumam andar juntos com o ódio, já diziam os gregos. E completam: acompanha-os, de longe, o Arrependimento, sob a figura de uma mulher de luto, com as roupas esfarrapadas, os olhos lavados de lágrimas, em desespero, a procurar com os olhos a Verdade. Uma das melhores ilustrações deste entendimento dos gregos nos foi deixada pelo pintor Apeles (séc. IV aC), amigo e retratista de Alexandre Magno.

MEDEIA  E  FILHOS
(NINO  PISANO, 1334-1336)
No mundo grego, quem melhor falou sobre o sentimento humano foi Eurípedes, conhecido pelo apelido de pintor das paixões, nas suas tragédias, com os seus personagens femininos, dentre os quais, mais que todos, se destaca Medeia. Transtornada pela traição de Jasão, ela se vinga, causando a morte do rei Creonte, de sua filha Creusa e de seus próprios filhos: nada morderá mais rijo o coração de meu marido, é a fala de Medeia.
Não é de estranhar, por exemplo, que no nosso Brasil colonial algumas enciumadas sinhás (tratamento que as escravas davam às patroas) mandassem quebrar os dentes das “negrinhas roliças” ou, então, que mandassem cortar seus seios para servi-los, assados e
temperados, aos maridos, nos jantares. Uma dessas piedosas senhoras, irritada com os elogios que seu marido fizera aos olhos de uma “mulatinha” os serviu em calda, como sobremesa. Por aí, vemos que Peter Greenway não exagerou quando mostrou em seu filme, O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, o marido servindo à esposa o amante morto, temperado e enfeitado numa cerimônia cheia de requinte.

O cinema, aliás, é pródigo em filmes sobre o ciúme. Um deles, por exemplo, é Carmem, baseado no romance de Prosper de Merimée e na ópera de Ceorges Bizet. Grandes nomes do cinema se voltaram para essa fascinante personagem, Chaplin (1916), Lubitsch (1918), Otto Preminger (1954), Peter Brook (1983), Carlos Saura (1984), Godard (1983) e Rossi (1984). Destaque ainda para outros filmes, alguns igualmente importantes: A Caixa de Pandora (Pabst), A Teia de Chocolate (Chabrol), Amar Foi Minha Ruína (Stahl), Atração Fatal (Adrien Lyne), Infielmente Tua (Zieff) etc.

A poesia luso-brasileira guarda preciosidades sobre o tema. 
CASTRO   ALVES

De Castro Alves:

Nas ruínas desta alma a raiva geme.
E cresce o cardo – a morte
Ciúme! Dor! Sarcasmo! Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria.

Um dos maiores textos sobre o ciúme é, sem dúvida, o pequeno poema Cidra, Ciúme, de Soror Maria do Céu (1658-1753), esquecida autora do Barroco português, também atingida pela insidiosa paixão: 

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente, 
Dá-lhe um centro de amor o apelido,
Que o ciúme é amor mas mal sofrido,
Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.

Até em obras aparentemente tão inocentes como na história da Branca de Neve podemos encontrar o veneno do ciúme infiltrado: A madrasta: Dize a pura verdade, dize, espelho meu, há no mundo mulher mais bela que eu? O espelho: Aqui neste quarto sois vós, com certeza, mas Branca de Neve possui mais beleza.

Nada, porém, entre nós, melhor do que o encontrado em doutos tratados que sobre o tema se produzem, como o samba brasileiro para nos falar sobre o ciúme. O patrono dessa produção é, par droît de conquête, o eterno Lupicínio Rodrigues, imbatível no gênero.  É nesse espaço da cultura popular que encontramos obras em que se fixaram expressões como “dor de cotovelo” e “dor de corno”, e conceitos como o de “cornitude” (gênero lítero-musical), todos a discorrer sobre os males das paixões. 
É de Caetano Veloso um dos clássicos no gênero, “Dor de Cotovelo”. Seus primeiros versos nos dizem:
CAETANO  VELOSO

O ciúme dói nos cotovelos
Na raiz dos cabelos
Gela a sola dos pés
Faz os músculos ficarem moles
E o estômago vão
E sem fome
Dói da flor da pele ao pó do osso
Rói do cóccix até o pescoço.

Do grande mestre Lupicínio Rodrigues, Vingança, que bem poderia passar por uma homenagem a Medeia, a fada-madrinha de todos os que matam ou matarão por paixão: 

“Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram chorando, bebendo,
Na mesa de um bar
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar
Ai, mas eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que tive mesmo que fazer esforço
Pra ninguém notar

Mas enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar.

Diante do que expus até agora, nestes momentos finais, para que se complete melhor a visão do tema, obrigatória uma incursão, ainda que breve, à Psicologia e à Psicanálise. Na história do freudismo, os estudos sobre a inveja apareceram totalmente associados à sexualidade feminina. Freud, como se sabe, defendeu a tese de um monismo sexual e de uma essência masculina com relação à libido humana.  Nessa perspectiva de uma libido única, Freud defendia a ideia que, num estágio infantil, as meninas desconheciam a existência da vagina e faziam o clitóris desempenhar o papel de um homólogo do pênis. Daí a sensação que apresentam, segundo ele, de terem nascido providas de um órgão castrado. A sexualidade da menina se organizaria então em torno de um falicismo, isto é, do desejo inconsciente de ser um menino, do desejo que toda mulher tem de ter um pênis.

Mais: segundo algumas doutrinas psicanalíticas, todas as meninas desenvolvem com relação à mãe uma identificação tão completa (inveja) que desejam inconscientemente tomar o seu lugar, eliminá-la, para possuir o pai. A esta atitude emocional, deu-se o nome de complexo de Electra, para Freud o complexo de Édipo às avessas. 


JUNG

Jung, como se sabe, optou pela primeira designação, complexo de Electra. Electra, no mito grego, era filha de Agamemnon, rei de Micenas. Ela instigou seu irmão, Orestes, a vingar a morte do pai, assassinado por sua mulher, Clitemnestra e seu amante. Clitemnestra era mãe de ambos, dela e de Orestes.

MELANIE  KLEIN
Na década de 1920, Melanie Klein, famosa psicanalista inglesa, estudiosa do psiquismo infantil, deslocou o tema da inveja do contexto da sexualidade feminina, ampliando-o. Para ela, o conceito de inveja designaria um sentimento primário e inconsciente de avidez em relação a um objeto que se quer destruir ou danificar. A inveja apareceria então desde o nascimento, sendo inicialmente dirigida contra o seio materno. Na posição esquizo-paranoide ou depressiva, a inveja ataca o objeto “bom” para dele fazer um objeto “mau”, gerando assim um estado de confusão psicótica. 

O IMPÉRIO DOS SENTIDOS
Para uma melhor ilustração do que aqui se coloca com relação às teorias psicanalíticas, inclusive as defendidas por Jacques-Marie Lacan, recomendo para os mais interessados os filmes japoneses O Império dos Sentidos e O Império da Paixão, de Nagisa Oshima.




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

PEIXES (5)

                          

CONSTELAÇÃO   DE   PEIXES

No cristianismo, lembre-se, o ritual da lavagem dos pés dos apóstolos acontece na última ceia. Os teólogos, desconhecendo a correta interpretação desse ritual, sempre o consideraram como um sinal de humildade. Todavia, se recorrermos à astrologia, fica evidente que esse ritual se inscreve no eixo zodiacal Virgem-Peixes, isto é, plexo solar e pés. O plexo solar, como se sabe, é o maior dos plexos (redes ou interconexões de nervos, vasos sanguíneos ou linfáticos) autônomos, situado na frente da artéria aorta e por trás do estômago, enviando ramos a todas as vísceras abdominais. O estômago, situado entre o diafragma e o duodeno, é o órgão onde se depositam os alimentos que ingerimos, sendo ali pré-digeridos e esterilizados, antes de serem enviados aos intestinos. 


CHAKRAS

A analogia salta fácil: a forma do estômago lembra a Lua; o intestino (delgado) é parte do sistema (tubo) digestivo que se estende do estômago ao ânus (parte do intestino grosso). No estômago, região lunar, temos ideias de acolhimento, de preparação (quimificação).O intestino delgado tem relação com Mercúrio, separando-se nele o útil, que o corpo absorverá, do inútil, que o corpo expelirá (quilificação). O intestino grosso tem a ver com Plutão, sugerindo ideias de transformação, de eliminação. No estômago, encontramos também ideias de disposição de ânimo, de energia disponível (“ter estômago para alguma coisa”), de capacidade para enfrentar algum problema, situações difíceis etc. Ter um “estômago de avestruz” é comer muito e de tudo, engolir indiscriminadamente. Já arrotar é emitir gases estomacais pela boca com sonoridade. Eructar no jargão médico. Simbolicamente, arrotar é vangloriar-se, alardear, blasonar. É também a eructação, conforme o caso, um sinal que revela sempre grande dificuldade para a digestão do que foi engolido, metabolismo deficiente, pessoas que não “trocam” bem com o mundo. Um dos focos deste problema é astrologicamente a Lua, que pode imobilizar pela memória. Ácidas ou azedas são designações que usamos, no capítulo  Astrologia & Saúde, para qualificar pessoas que eructam muito. 

É de se salientar que o processo de quimificação, conduzido astrologicamente pela Lua, acima referido, é o de produzir o quimo, produto parcial da digestão do bolo alimentar, que passa do estômago para o duodeno. Já a quilificação, conduzida astrologicamente por Mercúrio, tem a finalidade de preparar a última fase da digestão, quando o alimento se transforma numa massa líquida para ser absorvido em parte pelo organismo. Faz-se então a “separação” entre o útil e o inútil, enviando-se este último para Libra, o signo das águas residuais a eliminar, e Escorpião, o signo dos resíduos imprestáveis, da matéria não digerível.

Toda esta minha peroração, acredito, ganhará maior compreensão se recorrermos ao que os hindus têm a nos dizer sobre o plexo solar, para eles um dos chakras, centros de energia do corpo humano, na sua fisiologia (Yoga). O plexo solar entre os hindus tem o nome de manipura (cidade da joia), localizado na região lombar da coluna vertebral, ao nível do umbigo. Sua sílaba (mantra) é Ram (carneiro), sua divindade é Rudra, seu elemento o fogo, sua cor o vermelho, seu lótus o de dez pétalas, seu mandala o triângulo.
MANIPURACHAKRA
Assemelha-se o manipurachakra a um forno onde se preparo retorno da matéria ingerida a um estado embrionário tendo em vista um renascimento. A substância morre para renascer numa forma sublimada. Juntando-se estas observações ao que a astrologia nos oferece, que pés e plexo solar estão interligados, podemos notar, segundo os princípios da ação reflexa, que ativados os pés, massageados, mergulhados em água morna, fazemos o plexo solar funcionar melhor, energizando-se assim bem mais o nosso corpo. 


PINTURA  EM  PAREDE, 
IGREJA  DE  SANTA  MARIA  DEL  MAR, BARCELONA

Quando Cristo lavou os pés dos apóstolos na última ceia estava, antes de nos dar uma lição de humildade, preparando-os para a grande tarefa que teriam à frente, a de propagar, em longas caminhadas, a doutrina cristã pelo mundo. Sob um  outro enfoque, o que temos aqui é uma aplicação daquilo que as terapias corporais orientais usam, englobadas, no ocidente, sob a designação de reflexoterapia, uma terapêutica que consiste em provocar, por excitação, picada ou cauterização, reflexos em uma parte do corpo afastada do ponto ativado.

ÉDIPO E ANTÍGONA
(A.BRODOWSKI, 1784-1832)
A tragédia de Édipo, narrada pelos trágicos gregos, é, por exemplo, um nó pisciano de mal-entendidos, de incertezas, de coisas que deveriam ter sido ditas e que não foram, um mundo de mentiras protetoras, de mistérios, de subterfúgios e de segredos, uma atmosfera tão a gosto de grande parte dos piscianos. Além do mais, Édipo sempre se contentou com vitórias externas, entrou no papel de salvador da humanidade, um papel no qual os piscianos se sentem muito bem. Édipo jamais se questionou interiormente. Viveu o seu “teatro” até o fim, mesmo já pressentindo que “alguma coisa” não estava certa. Mesmo quando Tirésias e o soldado fujão estavam prestes a pôr tudo à mostra, Édipo afirmou, como se fosse “dono da verdade”, cheio de bazófia, que o responsável por todas aquelas calamidades que estavam sendo narradas merecia bem mais que a morte. A constatação final é a de que o destino, o Fatum, não permitiu que nenhuma consolação lhe fosse oferecida. Uma talvez: Antígone o acompanhou até o fim de seus dias. Mas o que Édipo gerou foi muito além dele, como acontece, aliás, com qualquer ato humano. 

MORTE DE ANTÍGONA
(MICHAEL DAVIS, 1948)
Antígone conhecerá um fim trágico; será condenada pelas leis da cidade (Creonte) por ter dado sepultura a seu irmão Polinice. Creonte, que voltara a assumir a regência de Tebas, será vitimado também pela engrenagem: Antígone se enforca na prisão, como acontecera com sua mãe; seu primo e noivo, Hemon, filho de Creonte, vendo o cadáver da noiva, se mata; a mulher de Creonte, Eurídice, desesperada diante do corpo inerte do filho, suicida-se também. O que podemos dizer, a esta altura, é que os gregos sempre souberam que as desgraças nunca vêm só. Quanto a Creonte, cheio de dor e sofrimento, jamais recomposto das suas tragédias familiares, morrerá mais tarde nas mãos de Teseu, quando de uma batalha travada entre Tebas e Atenas. 

Édipo nunca procurou tomar consciência das forças destrutivas que faziam parte de sua personalidade. Sua inocência, porém, não pode ser contestada. Foi violento como o mar pode ser violento, jamais cruel ou pérfido. Suas intenções nunca foram más. As reações de Édipo, como está na sua crônica, são quase sempre emocionais, como são as dos nativos de Peixes. Édipo sempre foi muito tolerante para consigo mesmo, auto-indulgente. Desde a sua origem, foi um homem de “boa vontade”; afastou-se dos seus “pais” de Corinto, acreditando agir assim da melhor maneira. Não viu nenhuma razão para recusar a mão de Jocasta, cuja identidade ignorava. Tornou-se herói aclamado. Mas tudo isto não bastou...
A casa XII tem analogia com o signo de Peixes, sendo considerada na astrologia ocidental como um lugar de provas, de sacrifícios e também de redenção. Esta casa, como as demais mutáveis, aliás, nos fala sempre de ritos de passagem a serem observados com base em fortes acentos de sacrifícios pessoais. Édipo, mais do que qualquer outro herói grego, tem a sua vida profundamente marcada por este setor do zodíaco; ninguém no mito parece ter acumulado como ele tantas provações. Na sua história, o peso da culpa é imenso, como o é também o de sua irresponsabilidade. A sua cegueira não deixa de ser uma tradução de sua inconsciência, ligando-se o conceito de sacrifício à natureza oblativa dos nativos de Peixes. Para muitos piscianos, o tom maior de sua vida é dado por uma das operações mais radicais da alquimia, a mortificatio, a mais negativa das operações alquímicas, uma variante da solutio.
Em termos alquímicos, o signo de Peixes associa-se à operação que conhecemos pelo nome de solutio, basicamente a transformação de um sólido num líquido. O sólido desaparece no solvente, integrando-se de tal maneira que não mais será possível distinguir um do outro. É, como se depreende, um retorno à indiferenciação. Os hindus costumam representar esta solutio pela dissolução de uma pedra de sal à água.

SOLUTIO
Embora o deus Dioniso seja estudado normalmente por suas ligações com o signo astrológico de Escorpião, não podemos ignorar que a sua atuação tem muito a ver com a solutio pisciana. Para que fique mais clara esta associação de Dioniso com Peixes, precisamos lembrar que uma das principais características, nesta sua área de atuação, é a sua relação com a totalidade. Quando o Sol chega a esta constelação, o último mês do inverno, a totalidade criada chega ao fim. Nada mais ficará preso a uma forma. O signo de Peixes se situa no limite entre dois universos, um que está deixando ser e outro que ainda não é.  Por isso, o símbolo do signo, dois peixes nadando em sentido contrário expressam tão bem esse setor do zodíaco. 

JOHAN SEBASTIAN BACH
É por essa razão que aos nativos do signo é impossível aplicar a lógica do signo oposto, a análise, já que vivem mergulhados na sua interioridade, intimamente relacionados com o êxtase e a compaixão. Eis porque o signo acolhe gente como Johan Sebastian Bach, com as suas catedrais musicais, Michelangelo, o pintor do juízo final, e Einstein, com a sua formulação do infinito cósmico diante da finitude terrestre.

NETUNO E SEU TRIDENTE
É neste período do ano, fevereiro-março, em que o úmido reina soberano, que temos, com toda a sua evidência, sinais de difusão, de diluição, de fusão das partes na totalidade, de imensidão fluida. A água é o elemento em que os mais profundos mistérios da vida se radicam. Nascimento e morte, passado, presente e futuro, tudo se interliga com a água. É por essa razão que os espíritos da água profetizam; para eles, não há fronteiras entre o passado, o presente e o futuro. O tridente de Netuno põe tudo em comum.

Como sabemos, duas divindades atuam nos mistérios de Eleusis, Deméter (signo de Virgem, o pão) e Dioniso (signo de Peixes, o vinho). No santuário de Deméter em Eleusis tinha lugar anualmente um rito iniciático denominado mysteria, no qual os iniciados eram chamados de mystai. Esse nome deriva de myo, calar. Os mystai, nesse ritual, adotavam um comportamento religioso denominado orgiástico, palavra que aproximamos do grego orgas, pleno de seiva; terra fértil; porção de terra muito rica, consagrada a Deméter e a Perséfone; de orge, agitação interior que subjuga a alma; sentimentos violentos e apaixonados; ceder à cólera; frenesi.


CULTO  DIONISÍACO ( WILLIAM A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )

Este comportamento era muito parecido com o das sacerdotisas do deus Dioniso, comportamento ao qual era dado o nome de mania, uma espécie de delírio das bacantes do deus, uma alteração de personalidade, que levava a movimentos convulsivos e espasmódicos, trazendo, ao final do ritual, uma sensação de despersonalização e de invasão do vazio criado (êxtase) por uma entidade divina (entusiasmo).
MISTÉRIO ELEUSINO
A orgia envolvia toda a comunidade (os mystai), tinha um caráter de unanimidade, isto é, ninguém podia deixar de participar. Se tal acontecesse, se alguém deixasse de participar, um que fosse, o objetivo do rito não era alcançado, renascimento para um outro tipo de  vida, a “morte” do eu profano. Os métodos usados para se chegar a este envolvimento total dos participantes consistia em levá-los a um elevado grau de excitação, um paroxismo provocado pela repetição muitas vezes prolongadas de determinas palavras de natureza encantatória, tudo em meio a muita música, com a ingestão de uma bebida enteógena chamada kykeon, uma mistura de vinho e de determinadas ervas. A finalidade era a de provocar uma modificação na personalidade dos participantes que destruísse totalmente o antigo ego, oferecendo um terreno propício para o desenvolvimento de um espírito de seita, inclusive sob o ponto de vista institucional.

Este rito eleuisino tinha claramente uma tendência cultural que pretendia suprimir socialmente a desigualdade, tendência que estava implícita e explícita no “discurso” do deus Dioniso, isto é, a abolição de fronteiras sociais. Não é por outra razão que as pregações nos cultos de Dioniso procuraram atingir, desde os primeiros momentos de sua difusão pelo território grego, os deserdados, as classes menos favorecidas, os marginalizados socialmente, as mulheres, os escravos, os estrangeiros, as crianças. 

RUÍNAS   DE   ERIDU
Dentre os mitos mesopotâmicos que podemos aproximar do signo de Peixes, destacamos o de Adapa. Este personagem faz parte da mitologia da Babilônia. Sua história é conhecida desde o séc.XVI aC. Adapa foi uma espécie de herói, de linhagem divina, mas mortal, que rejeitou a imortalidade que os deuses lhe concederam. Era filho de Ea (Casa da Água), deus da sabedoria, da cidade de Eridu (a primeira cidade a emergir do mar), uma espécie de Poseidon mesopotâmico. 

Ea era deus dos oráculos, sendo representado muitas vezes como um cabrito montês com cauda de peixe. Adapa foi talvez o primeiro rei de Eridu; era pescador. Seu barco, um dia, foi atacado por Ninlil, deus do vento sul. Vingando-se, quebrou as asas do deus. Chamado a se explicar perante Anu, o maior dos deuses, foi aconselhado pelo pai a nada ingerir (bebida ou comida) enquanto estivesse no céu, pois morreria. Com sinceridade, narrou o que lhe aconteceu; Anu ficou impressionado, oferecendo-lhe, ao invés de comida, a imortalidade, por ele rejeitada. Depois, tornou-se Adapa religioso e exorcista. Quando de sua morte, os deuses lhe deram um lugar entre os sete sábios, tendo recebido o nome de Apkalu (Grande Homem da Água). Além de representado numa forma capricorniana, Ea assumia às vezes uma forma humana, de cujos ombros fluíam correntes de água; noutras representações, vinha como um aguadeiro, trazendo nas mãos um enorme vaso cheio de água, que despejava sobre a terra em determinadas épocas do ano. Ea, como se pode perceber, “dominava” o quarto quadrante zodiacal, reunindo as representações dos seus três últimos signos, uma indicação, talvez, de que as fronteiras das referidas três constelações, àquele tempo, ainda não haviam sido definidas.

ADAPA
Outra figura mítica que nos vem da Babilônia, ligada a Peixes, é a de Oannes. Quem nos dá notícias sobre esse personagem é Beroso, séc. III aC., considerado como o primeiro nome da astrologia grega. Beroso era mesopotâmio, caldeu (sinônimo de astrólogo), sacerdote dos cultos de Marduk. Trouxe para o mundo grego a ideia de que a astrologia era uma ciência esotérica. Foi ele quem divulgou no mundo mediterrâneo a história de um ser mítico, Oannes, um educador da humanidade. Descreve-o como sendo um homem-peixe que um dia, saindo das águas do golfo pérsico, alcançou a terra para transmitir aos humanos a escrita, a
OANNES
ciência e as artes em geral, uma espécie de divindade civilizadora. Para muitos, Oannes seria uma personificação do deus Ea. As ligações entre Adapa e, principalmente, Oannes com Matsya, o primeiro avatar do deus Vishnu, na forma de peixe, são possíveis, se lembrarmos que nas histórias o caráter soteriológico é o que mais se destaca. 

MATSYA
A história de Matsya, entre os hindus, se liga ao tema do dilúvio. Vishnu, como Matsya, apareceu na forma de um pequenino peixe para salvar Manu, homem mítico, fundador da atual humanidade. Manu encontrou na água que usava para as suas abluções um pequenino peixe que, escorregando das suas mãos, lhe pediu proteção. Disse-lhe também Matsya que o salvaria quando viesse o dilúvio que destruiria a humanidade. Matsya foi crescendo tanto que Manu foi obrigado a levá-lo para o oceano. Foi nesse momento que o avatar se manifestou. Recomendou a Manu que construísse um grande barco e que para ele levasse os sábios, os animais e as plantas que pudesse. Manu prendeu a embarcação a Matsya com o corpo da serpente Shesha ou Ananta conseguindo se salvar. No mito, quando Vishnu, o aspecto mantenedor da trimurti hinduísta, dorme, o universo se transforma então num grande oceano. O deus repousa então sobre o corpo da grande serpente.

PHILON
A presença da mitologia mesopotâmica na religião judaica é marcante. Os judeus parecem ter herdado dos mesopotâmicos um personagem que usaram para dar nome ao signo de Peixes. No antigo testamento há algumas referências (em José e Samuel) a
DAGON
Dagon, deus semita da fertilidade e da pesca abundante. Quem nos dá também informações sobre Dagon é Philon (fim do séc. I dC), filósofo grego de origem judaica, que, com base num misterioso escritor fenício, se propôs a demonstrar que toda a mitologia grega tinha por base a mitologia fenícia, que explicaria inclusive as primeiras gerações dos seres humanos na terra.

DAGIM
Os judeus dão o nome de Dagim, ao signo de Peixes (dag, em hebraico, é peixe), sendo o mês chamado de Adar. No corpo, a correspondência é com o baço, órgão associado às emoções, ao riso e a paixões sexuais (gargalhadas podem ser sinal de mau funcionamento, de dilatação do baço). A festa mais importante do período é a do Purim, nome persa, que, em hebraico, quer dizer lançar a sorte. O clima é de festa, há representações teatrais, pratica-se a caridade. 

O mês de Adar marca o fim do inverno, opondo-se a Elul, fim do verão. Segundo a astrologia judaica, os piscianos têm uma personalidade muito flexível, adaptam-se facilmente às mudanças, tendo algo neles de teatral. Isto se deve, dizem os judeus, ao fato de ser Peixes o último signo, o que representa a possibilidade, nos do signo, de ser atingido o mais alto nível de desenvolvimento de sua personalidade. Isto se deve ao fato de não se sentirem eles constrangidos por nada materialmente, o que os leva a se adaptar ou mudar com facilidade. 

O mês de Adar simboliza tanto a nação de Israel como a própria Torá. Esta, a Torá, e a nação israelita formam uma analogia: o peixe está em casa na água. O judeu só poderá se sentir bem, como o peixe na água, se observar a Torá. Os dois peixes do símbolo, aliás, correspondem aos dois aspectos da Torá, a escrita e a oral, associando-se ela, neste aspecto, a Gêmeos (Sivan), cuja duplicidade tem o mesmo significado. A água, elemento do signo, é símbolo da Torá, que flui como a água corrente.

Uma das principais características dos nascidos neste mês é a da imitação, uma facilidade para o teatro, para a pantomima, sendo esta uma das razões pelas quais os que participam do Purim usam fantasias e máscaras. Alegria e risadas, proibidas em outras cerimônias são excepcionalmente permitidas neste período. 


ESTER   E   MORDECHAI , 1685  ( ARENT DE GELDER )

De acordo com a astrologia judaica, os piscianos são muito flexíveis, adaptáveis. É isto que os leva, com facilidade, a se associar a outras pessoas, transformando-se muitas vezes em atores. No judaísmo, o grande poder do signo se manifesta, como se disse, na festa do Purim. Duas figuras se destacam dentro deste signo, Esther e Mordechai. A primeira era uma jovem viúva, “bela de se olhar”, como está na Bíblia, que desposou o rei persa Xerxes, salvando os judeus do extermínio, juntamente com seu tutor Mordechai. A festa do Purim foi instituída, nos dias 14 e 15 de Adar, para comemorar essa vitória. O período marca também a aceitação, pelos judeus, da Torá em toda a sua plenitude, fato que proporcionou, desde então, nesse mês, o crescimento do poder espiritual e da santidade do povo judaico.   

É neste mês, dizem os astrólogos judeus, que o homem, através dos poderes de sua alma, pode transcender o seu nível corpóreo, escapar do plano material. Negativamente, esta tendência pode levar ao alcoolismo e às drogas. A tendência à despersonalização pode, por isso, levar o pisciano à mentira e à ignorância das suas responsabilidades materiais. 
ASTROLOGIA  HEBRAICA
Os astrólogos judeus nos explicam também que enquanto um dos peixes do signo olha para Aquário o outro se volta para Áries. O primeiro representa a totalidade do plano físico, o segundo diz respeito à eternidade da energia (alma). Representam também os dois peixes, como se disse, Esther e Mordechai que, através de sua retidão e pureza, muito contribuíram para manter a unidade do povo judeu. Os judeus relacionam ainda os signos de Adar e Sivan, Peixes e Gêmeos, duplos, através, respectivamente, de Esther e  Mordechai o primeiro, e de Moisés e Aaron, o segundo, que libertaram os judeus dos egípcios.

MIRRA
O membro do corpo associado ao signo de Peixes é o pé no que ele tem de mais extremo, de último, a parte que assenta no chão, a mais sensível, lugar das cócegas, de gargalhadas, na sua expressão mais frívola. Outro órgão regido por Peixes, segundo os judeus, é o nariz, onde está sediado o olfato.
MIRTO
Esta relação é estabelecida através de Esther e de Mordechai na medida em que eles se associam a especiarias e doces. O último tem relação com a mirra (
mordror, em hebreu) e Esther, por seu turno, é chamada de Hadassa, o mirto. A primeira é uma planta da qual se extrai uma resina aromática usada desde a antiguidade como incenso e na medicina, considerada então como muito valiosa. O mirto é planta que dá flores e pequenos frutos aromáticos, usados em geleias. Entre os gregos era usado como símbolo de Afrodite. O olfato é tido como o mais espiritual dos sentidos, pois dá prazer à alma. 

A tribo associada a Adar é a de Neftali., o Combatente, sexto filho de Jacó, nascido da serva Bilha; a tribo vivia a oeste do rio Jordão e do lago de Genesareth. Os judeus fazem uma outra associação, relacionando duas outras tribos com o signo, a de Efraim com um dos peixes e a de Menaseh com o outro. O primeiro é o segundo filho de José, que o patriarca Jacó adotou no momento de morrer, colocando-o, embora mais novo que Menaseh, na situação de primogênito. 

CHANUKAH
Entre os judeus, o  planeta que rege Peixes é Júpiter (Tsadik, o probo, o justo), que governa também Sagitário (Kislev). Os sábios judeus instituíram duas festas nestes meses, Chanukah e Purim, períodos em que os poderes do engano e do mal, que caracterizavam os persas e os amalecitas, foram derrotados. O planeta Júpiter associa-se tanto à probidade quanto com a caridade. Segundo a tradição astrológica, no simbolismo do corpo humano, as influências das pernas, que começaram em Kislev, se completam em Adar. Se a letra Kuf “criou” Peixes, Júpiter foi “criado” por Guimel, letra que significa compartilhar. A letra Kuf é a única no alfabeto hebraico que se estende abaixo da linha da escrita, significando isso que ela é dupla, tendo ligações com o mundo das ilusões, da vida subconsciente. Se o fator de correção (tikum, eixo dos nós lunares) de um mapa estiver em Peixes isso pode significar apego demasiado à lógica, a racionalizações em vidas anteriores. O tikum em Peixes sugere que, além da razão, há outro modo, talvez mais importante, de apreender a vida. Há que se deixar de lado, um pouco ou muito, as explicações só racionais.   

A constelação de Peixes estende-se hoje de 15º de Peixes a 26º de Áries. Não há estrelas brilhantes nesta constelação. A única a considerar astrologicamente é Al Rescha, que marca o nó dos cordões que unem os peixes, uma estrela de quarta magnitude, a 28º41´ deÁries. Ptolomeu atribuía-lhe influências marcianas e mercurianas, estas bem moderadas O simbolismo do nó ajuda-nos a interpretar Al Rescha. Onde a tivermos, ali procuraremos unir conceitos, trabalhar com a ideia de aproximar para ampliar a nossa compreensão, para buscar uma visão mais abrangente. Quadrantes em que estiver e planetas em aspecto com ela influenciarão também dessa maneira. Negativamente, o nó é maléfico quando funciona como obstáculo, perturbação da ordem natural das coisas, lugar em que algo pára, um ponto de coagulação. Positivamente, o nó é
CARL  GUSTAV  JUNG
proteção, meio de defesa contra inimigos, grau de iniciação. Um mapa que poderá ser estudado para uma maior compreensão do que Al Rescha  pode significar é o de Carl Gustav Jung, que procurou integrar várias formas de conhecimento na sua psicologia profunda.