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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

PEIXES (5)

                          

CONSTELAÇÃO   DE   PEIXES

No cristianismo, lembre-se, o ritual da lavagem dos pés dos apóstolos acontece na última ceia. Os teólogos, desconhecendo a correta interpretação desse ritual, sempre o consideraram como um sinal de humildade. Todavia, se recorrermos à astrologia, fica evidente que esse ritual se inscreve no eixo zodiacal Virgem-Peixes, isto é, plexo solar e pés. O plexo solar, como se sabe, é o maior dos plexos (redes ou interconexões de nervos, vasos sanguíneos ou linfáticos) autônomos, situado na frente da artéria aorta e por trás do estômago, enviando ramos a todas as vísceras abdominais. O estômago, situado entre o diafragma e o duodeno, é o órgão onde se depositam os alimentos que ingerimos, sendo ali pré-digeridos e esterilizados, antes de serem enviados aos intestinos. 


CHAKRAS

A analogia salta fácil: a forma do estômago lembra a Lua; o intestino (delgado) é parte do sistema (tubo) digestivo que se estende do estômago ao ânus (parte do intestino grosso). No estômago, região lunar, temos ideias de acolhimento, de preparação (quimificação).O intestino delgado tem relação com Mercúrio, separando-se nele o útil, que o corpo absorverá, do inútil, que o corpo expelirá (quilificação). O intestino grosso tem a ver com Plutão, sugerindo ideias de transformação, de eliminação. No estômago, encontramos também ideias de disposição de ânimo, de energia disponível (“ter estômago para alguma coisa”), de capacidade para enfrentar algum problema, situações difíceis etc. Ter um “estômago de avestruz” é comer muito e de tudo, engolir indiscriminadamente. Já arrotar é emitir gases estomacais pela boca com sonoridade. Eructar no jargão médico. Simbolicamente, arrotar é vangloriar-se, alardear, blasonar. É também a eructação, conforme o caso, um sinal que revela sempre grande dificuldade para a digestão do que foi engolido, metabolismo deficiente, pessoas que não “trocam” bem com o mundo. Um dos focos deste problema é astrologicamente a Lua, que pode imobilizar pela memória. Ácidas ou azedas são designações que usamos, no capítulo  Astrologia & Saúde, para qualificar pessoas que eructam muito. 

É de se salientar que o processo de quimificação, conduzido astrologicamente pela Lua, acima referido, é o de produzir o quimo, produto parcial da digestão do bolo alimentar, que passa do estômago para o duodeno. Já a quilificação, conduzida astrologicamente por Mercúrio, tem a finalidade de preparar a última fase da digestão, quando o alimento se transforma numa massa líquida para ser absorvido em parte pelo organismo. Faz-se então a “separação” entre o útil e o inútil, enviando-se este último para Libra, o signo das águas residuais a eliminar, e Escorpião, o signo dos resíduos imprestáveis, da matéria não digerível.

Toda esta minha peroração, acredito, ganhará maior compreensão se recorrermos ao que os hindus têm a nos dizer sobre o plexo solar, para eles um dos chakras, centros de energia do corpo humano, na sua fisiologia (Yoga). O plexo solar entre os hindus tem o nome de manipura (cidade da joia), localizado na região lombar da coluna vertebral, ao nível do umbigo. Sua sílaba (mantra) é Ram (carneiro), sua divindade é Rudra, seu elemento o fogo, sua cor o vermelho, seu lótus o de dez pétalas, seu mandala o triângulo.
MANIPURACHAKRA
Assemelha-se o manipurachakra a um forno onde se preparo retorno da matéria ingerida a um estado embrionário tendo em vista um renascimento. A substância morre para renascer numa forma sublimada. Juntando-se estas observações ao que a astrologia nos oferece, que pés e plexo solar estão interligados, podemos notar, segundo os princípios da ação reflexa, que ativados os pés, massageados, mergulhados em água morna, fazemos o plexo solar funcionar melhor, energizando-se assim bem mais o nosso corpo. 


PINTURA  EM  PAREDE, 
IGREJA  DE  SANTA  MARIA  DEL  MAR, BARCELONA

Quando Cristo lavou os pés dos apóstolos na última ceia estava, antes de nos dar uma lição de humildade, preparando-os para a grande tarefa que teriam à frente, a de propagar, em longas caminhadas, a doutrina cristã pelo mundo. Sob um  outro enfoque, o que temos aqui é uma aplicação daquilo que as terapias corporais orientais usam, englobadas, no ocidente, sob a designação de reflexoterapia, uma terapêutica que consiste em provocar, por excitação, picada ou cauterização, reflexos em uma parte do corpo afastada do ponto ativado.

ÉDIPO E ANTÍGONA
(A.BRODOWSKI, 1784-1832)
A tragédia de Édipo, narrada pelos trágicos gregos, é, por exemplo, um nó pisciano de mal-entendidos, de incertezas, de coisas que deveriam ter sido ditas e que não foram, um mundo de mentiras protetoras, de mistérios, de subterfúgios e de segredos, uma atmosfera tão a gosto de grande parte dos piscianos. Além do mais, Édipo sempre se contentou com vitórias externas, entrou no papel de salvador da humanidade, um papel no qual os piscianos se sentem muito bem. Édipo jamais se questionou interiormente. Viveu o seu “teatro” até o fim, mesmo já pressentindo que “alguma coisa” não estava certa. Mesmo quando Tirésias e o soldado fujão estavam prestes a pôr tudo à mostra, Édipo afirmou, como se fosse “dono da verdade”, cheio de bazófia, que o responsável por todas aquelas calamidades que estavam sendo narradas merecia bem mais que a morte. A constatação final é a de que o destino, o Fatum, não permitiu que nenhuma consolação lhe fosse oferecida. Uma talvez: Antígone o acompanhou até o fim de seus dias. Mas o que Édipo gerou foi muito além dele, como acontece, aliás, com qualquer ato humano. 

MORTE DE ANTÍGONA
(MICHAEL DAVIS, 1948)
Antígone conhecerá um fim trágico; será condenada pelas leis da cidade (Creonte) por ter dado sepultura a seu irmão Polinice. Creonte, que voltara a assumir a regência de Tebas, será vitimado também pela engrenagem: Antígone se enforca na prisão, como acontecera com sua mãe; seu primo e noivo, Hemon, filho de Creonte, vendo o cadáver da noiva, se mata; a mulher de Creonte, Eurídice, desesperada diante do corpo inerte do filho, suicida-se também. O que podemos dizer, a esta altura, é que os gregos sempre souberam que as desgraças nunca vêm só. Quanto a Creonte, cheio de dor e sofrimento, jamais recomposto das suas tragédias familiares, morrerá mais tarde nas mãos de Teseu, quando de uma batalha travada entre Tebas e Atenas. 

Édipo nunca procurou tomar consciência das forças destrutivas que faziam parte de sua personalidade. Sua inocência, porém, não pode ser contestada. Foi violento como o mar pode ser violento, jamais cruel ou pérfido. Suas intenções nunca foram más. As reações de Édipo, como está na sua crônica, são quase sempre emocionais, como são as dos nativos de Peixes. Édipo sempre foi muito tolerante para consigo mesmo, auto-indulgente. Desde a sua origem, foi um homem de “boa vontade”; afastou-se dos seus “pais” de Corinto, acreditando agir assim da melhor maneira. Não viu nenhuma razão para recusar a mão de Jocasta, cuja identidade ignorava. Tornou-se herói aclamado. Mas tudo isto não bastou...
A casa XII tem analogia com o signo de Peixes, sendo considerada na astrologia ocidental como um lugar de provas, de sacrifícios e também de redenção. Esta casa, como as demais mutáveis, aliás, nos fala sempre de ritos de passagem a serem observados com base em fortes acentos de sacrifícios pessoais. Édipo, mais do que qualquer outro herói grego, tem a sua vida profundamente marcada por este setor do zodíaco; ninguém no mito parece ter acumulado como ele tantas provações. Na sua história, o peso da culpa é imenso, como o é também o de sua irresponsabilidade. A sua cegueira não deixa de ser uma tradução de sua inconsciência, ligando-se o conceito de sacrifício à natureza oblativa dos nativos de Peixes. Para muitos piscianos, o tom maior de sua vida é dado por uma das operações mais radicais da alquimia, a mortificatio, a mais negativa das operações alquímicas, uma variante da solutio.
Em termos alquímicos, o signo de Peixes associa-se à operação que conhecemos pelo nome de solutio, basicamente a transformação de um sólido num líquido. O sólido desaparece no solvente, integrando-se de tal maneira que não mais será possível distinguir um do outro. É, como se depreende, um retorno à indiferenciação. Os hindus costumam representar esta solutio pela dissolução de uma pedra de sal à água.

SOLUTIO
Embora o deus Dioniso seja estudado normalmente por suas ligações com o signo astrológico de Escorpião, não podemos ignorar que a sua atuação tem muito a ver com a solutio pisciana. Para que fique mais clara esta associação de Dioniso com Peixes, precisamos lembrar que uma das principais características, nesta sua área de atuação, é a sua relação com a totalidade. Quando o Sol chega a esta constelação, o último mês do inverno, a totalidade criada chega ao fim. Nada mais ficará preso a uma forma. O signo de Peixes se situa no limite entre dois universos, um que está deixando ser e outro que ainda não é.  Por isso, o símbolo do signo, dois peixes nadando em sentido contrário expressam tão bem esse setor do zodíaco. 

JOHAN SEBASTIAN BACH
É por essa razão que aos nativos do signo é impossível aplicar a lógica do signo oposto, a análise, já que vivem mergulhados na sua interioridade, intimamente relacionados com o êxtase e a compaixão. Eis porque o signo acolhe gente como Johan Sebastian Bach, com as suas catedrais musicais, Michelangelo, o pintor do juízo final, e Einstein, com a sua formulação do infinito cósmico diante da finitude terrestre.

NETUNO E SEU TRIDENTE
É neste período do ano, fevereiro-março, em que o úmido reina soberano, que temos, com toda a sua evidência, sinais de difusão, de diluição, de fusão das partes na totalidade, de imensidão fluida. A água é o elemento em que os mais profundos mistérios da vida se radicam. Nascimento e morte, passado, presente e futuro, tudo se interliga com a água. É por essa razão que os espíritos da água profetizam; para eles, não há fronteiras entre o passado, o presente e o futuro. O tridente de Netuno põe tudo em comum.

Como sabemos, duas divindades atuam nos mistérios de Eleusis, Deméter (signo de Virgem, o pão) e Dioniso (signo de Peixes, o vinho). No santuário de Deméter em Eleusis tinha lugar anualmente um rito iniciático denominado mysteria, no qual os iniciados eram chamados de mystai. Esse nome deriva de myo, calar. Os mystai, nesse ritual, adotavam um comportamento religioso denominado orgiástico, palavra que aproximamos do grego orgas, pleno de seiva; terra fértil; porção de terra muito rica, consagrada a Deméter e a Perséfone; de orge, agitação interior que subjuga a alma; sentimentos violentos e apaixonados; ceder à cólera; frenesi.


CULTO  DIONISÍACO ( WILLIAM A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )

Este comportamento era muito parecido com o das sacerdotisas do deus Dioniso, comportamento ao qual era dado o nome de mania, uma espécie de delírio das bacantes do deus, uma alteração de personalidade, que levava a movimentos convulsivos e espasmódicos, trazendo, ao final do ritual, uma sensação de despersonalização e de invasão do vazio criado (êxtase) por uma entidade divina (entusiasmo).
MISTÉRIO ELEUSINO
A orgia envolvia toda a comunidade (os mystai), tinha um caráter de unanimidade, isto é, ninguém podia deixar de participar. Se tal acontecesse, se alguém deixasse de participar, um que fosse, o objetivo do rito não era alcançado, renascimento para um outro tipo de  vida, a “morte” do eu profano. Os métodos usados para se chegar a este envolvimento total dos participantes consistia em levá-los a um elevado grau de excitação, um paroxismo provocado pela repetição muitas vezes prolongadas de determinas palavras de natureza encantatória, tudo em meio a muita música, com a ingestão de uma bebida enteógena chamada kykeon, uma mistura de vinho e de determinadas ervas. A finalidade era a de provocar uma modificação na personalidade dos participantes que destruísse totalmente o antigo ego, oferecendo um terreno propício para o desenvolvimento de um espírito de seita, inclusive sob o ponto de vista institucional.

Este rito eleuisino tinha claramente uma tendência cultural que pretendia suprimir socialmente a desigualdade, tendência que estava implícita e explícita no “discurso” do deus Dioniso, isto é, a abolição de fronteiras sociais. Não é por outra razão que as pregações nos cultos de Dioniso procuraram atingir, desde os primeiros momentos de sua difusão pelo território grego, os deserdados, as classes menos favorecidas, os marginalizados socialmente, as mulheres, os escravos, os estrangeiros, as crianças. 

RUÍNAS   DE   ERIDU
Dentre os mitos mesopotâmicos que podemos aproximar do signo de Peixes, destacamos o de Adapa. Este personagem faz parte da mitologia da Babilônia. Sua história é conhecida desde o séc.XVI aC. Adapa foi uma espécie de herói, de linhagem divina, mas mortal, que rejeitou a imortalidade que os deuses lhe concederam. Era filho de Ea (Casa da Água), deus da sabedoria, da cidade de Eridu (a primeira cidade a emergir do mar), uma espécie de Poseidon mesopotâmico. 

Ea era deus dos oráculos, sendo representado muitas vezes como um cabrito montês com cauda de peixe. Adapa foi talvez o primeiro rei de Eridu; era pescador. Seu barco, um dia, foi atacado por Ninlil, deus do vento sul. Vingando-se, quebrou as asas do deus. Chamado a se explicar perante Anu, o maior dos deuses, foi aconselhado pelo pai a nada ingerir (bebida ou comida) enquanto estivesse no céu, pois morreria. Com sinceridade, narrou o que lhe aconteceu; Anu ficou impressionado, oferecendo-lhe, ao invés de comida, a imortalidade, por ele rejeitada. Depois, tornou-se Adapa religioso e exorcista. Quando de sua morte, os deuses lhe deram um lugar entre os sete sábios, tendo recebido o nome de Apkalu (Grande Homem da Água). Além de representado numa forma capricorniana, Ea assumia às vezes uma forma humana, de cujos ombros fluíam correntes de água; noutras representações, vinha como um aguadeiro, trazendo nas mãos um enorme vaso cheio de água, que despejava sobre a terra em determinadas épocas do ano. Ea, como se pode perceber, “dominava” o quarto quadrante zodiacal, reunindo as representações dos seus três últimos signos, uma indicação, talvez, de que as fronteiras das referidas três constelações, àquele tempo, ainda não haviam sido definidas.

ADAPA
Outra figura mítica que nos vem da Babilônia, ligada a Peixes, é a de Oannes. Quem nos dá notícias sobre esse personagem é Beroso, séc. III aC., considerado como o primeiro nome da astrologia grega. Beroso era mesopotâmio, caldeu (sinônimo de astrólogo), sacerdote dos cultos de Marduk. Trouxe para o mundo grego a ideia de que a astrologia era uma ciência esotérica. Foi ele quem divulgou no mundo mediterrâneo a história de um ser mítico, Oannes, um educador da humanidade. Descreve-o como sendo um homem-peixe que um dia, saindo das águas do golfo pérsico, alcançou a terra para transmitir aos humanos a escrita, a
OANNES
ciência e as artes em geral, uma espécie de divindade civilizadora. Para muitos, Oannes seria uma personificação do deus Ea. As ligações entre Adapa e, principalmente, Oannes com Matsya, o primeiro avatar do deus Vishnu, na forma de peixe, são possíveis, se lembrarmos que nas histórias o caráter soteriológico é o que mais se destaca. 

MATSYA
A história de Matsya, entre os hindus, se liga ao tema do dilúvio. Vishnu, como Matsya, apareceu na forma de um pequenino peixe para salvar Manu, homem mítico, fundador da atual humanidade. Manu encontrou na água que usava para as suas abluções um pequenino peixe que, escorregando das suas mãos, lhe pediu proteção. Disse-lhe também Matsya que o salvaria quando viesse o dilúvio que destruiria a humanidade. Matsya foi crescendo tanto que Manu foi obrigado a levá-lo para o oceano. Foi nesse momento que o avatar se manifestou. Recomendou a Manu que construísse um grande barco e que para ele levasse os sábios, os animais e as plantas que pudesse. Manu prendeu a embarcação a Matsya com o corpo da serpente Shesha ou Ananta conseguindo se salvar. No mito, quando Vishnu, o aspecto mantenedor da trimurti hinduísta, dorme, o universo se transforma então num grande oceano. O deus repousa então sobre o corpo da grande serpente.

PHILON
A presença da mitologia mesopotâmica na religião judaica é marcante. Os judeus parecem ter herdado dos mesopotâmicos um personagem que usaram para dar nome ao signo de Peixes. No antigo testamento há algumas referências (em José e Samuel) a
DAGON
Dagon, deus semita da fertilidade e da pesca abundante. Quem nos dá também informações sobre Dagon é Philon (fim do séc. I dC), filósofo grego de origem judaica, que, com base num misterioso escritor fenício, se propôs a demonstrar que toda a mitologia grega tinha por base a mitologia fenícia, que explicaria inclusive as primeiras gerações dos seres humanos na terra.

DAGIM
Os judeus dão o nome de Dagim, ao signo de Peixes (dag, em hebraico, é peixe), sendo o mês chamado de Adar. No corpo, a correspondência é com o baço, órgão associado às emoções, ao riso e a paixões sexuais (gargalhadas podem ser sinal de mau funcionamento, de dilatação do baço). A festa mais importante do período é a do Purim, nome persa, que, em hebraico, quer dizer lançar a sorte. O clima é de festa, há representações teatrais, pratica-se a caridade. 

O mês de Adar marca o fim do inverno, opondo-se a Elul, fim do verão. Segundo a astrologia judaica, os piscianos têm uma personalidade muito flexível, adaptam-se facilmente às mudanças, tendo algo neles de teatral. Isto se deve, dizem os judeus, ao fato de ser Peixes o último signo, o que representa a possibilidade, nos do signo, de ser atingido o mais alto nível de desenvolvimento de sua personalidade. Isto se deve ao fato de não se sentirem eles constrangidos por nada materialmente, o que os leva a se adaptar ou mudar com facilidade. 

O mês de Adar simboliza tanto a nação de Israel como a própria Torá. Esta, a Torá, e a nação israelita formam uma analogia: o peixe está em casa na água. O judeu só poderá se sentir bem, como o peixe na água, se observar a Torá. Os dois peixes do símbolo, aliás, correspondem aos dois aspectos da Torá, a escrita e a oral, associando-se ela, neste aspecto, a Gêmeos (Sivan), cuja duplicidade tem o mesmo significado. A água, elemento do signo, é símbolo da Torá, que flui como a água corrente.

Uma das principais características dos nascidos neste mês é a da imitação, uma facilidade para o teatro, para a pantomima, sendo esta uma das razões pelas quais os que participam do Purim usam fantasias e máscaras. Alegria e risadas, proibidas em outras cerimônias são excepcionalmente permitidas neste período. 


ESTER   E   MORDECHAI , 1685  ( ARENT DE GELDER )

De acordo com a astrologia judaica, os piscianos são muito flexíveis, adaptáveis. É isto que os leva, com facilidade, a se associar a outras pessoas, transformando-se muitas vezes em atores. No judaísmo, o grande poder do signo se manifesta, como se disse, na festa do Purim. Duas figuras se destacam dentro deste signo, Esther e Mordechai. A primeira era uma jovem viúva, “bela de se olhar”, como está na Bíblia, que desposou o rei persa Xerxes, salvando os judeus do extermínio, juntamente com seu tutor Mordechai. A festa do Purim foi instituída, nos dias 14 e 15 de Adar, para comemorar essa vitória. O período marca também a aceitação, pelos judeus, da Torá em toda a sua plenitude, fato que proporcionou, desde então, nesse mês, o crescimento do poder espiritual e da santidade do povo judaico.   

É neste mês, dizem os astrólogos judeus, que o homem, através dos poderes de sua alma, pode transcender o seu nível corpóreo, escapar do plano material. Negativamente, esta tendência pode levar ao alcoolismo e às drogas. A tendência à despersonalização pode, por isso, levar o pisciano à mentira e à ignorância das suas responsabilidades materiais. 
ASTROLOGIA  HEBRAICA
Os astrólogos judeus nos explicam também que enquanto um dos peixes do signo olha para Aquário o outro se volta para Áries. O primeiro representa a totalidade do plano físico, o segundo diz respeito à eternidade da energia (alma). Representam também os dois peixes, como se disse, Esther e Mordechai que, através de sua retidão e pureza, muito contribuíram para manter a unidade do povo judeu. Os judeus relacionam ainda os signos de Adar e Sivan, Peixes e Gêmeos, duplos, através, respectivamente, de Esther e  Mordechai o primeiro, e de Moisés e Aaron, o segundo, que libertaram os judeus dos egípcios.

MIRRA
O membro do corpo associado ao signo de Peixes é o pé no que ele tem de mais extremo, de último, a parte que assenta no chão, a mais sensível, lugar das cócegas, de gargalhadas, na sua expressão mais frívola. Outro órgão regido por Peixes, segundo os judeus, é o nariz, onde está sediado o olfato.
MIRTO
Esta relação é estabelecida através de Esther e de Mordechai na medida em que eles se associam a especiarias e doces. O último tem relação com a mirra (
mordror, em hebreu) e Esther, por seu turno, é chamada de Hadassa, o mirto. A primeira é uma planta da qual se extrai uma resina aromática usada desde a antiguidade como incenso e na medicina, considerada então como muito valiosa. O mirto é planta que dá flores e pequenos frutos aromáticos, usados em geleias. Entre os gregos era usado como símbolo de Afrodite. O olfato é tido como o mais espiritual dos sentidos, pois dá prazer à alma. 

A tribo associada a Adar é a de Neftali., o Combatente, sexto filho de Jacó, nascido da serva Bilha; a tribo vivia a oeste do rio Jordão e do lago de Genesareth. Os judeus fazem uma outra associação, relacionando duas outras tribos com o signo, a de Efraim com um dos peixes e a de Menaseh com o outro. O primeiro é o segundo filho de José, que o patriarca Jacó adotou no momento de morrer, colocando-o, embora mais novo que Menaseh, na situação de primogênito. 

CHANUKAH
Entre os judeus, o  planeta que rege Peixes é Júpiter (Tsadik, o probo, o justo), que governa também Sagitário (Kislev). Os sábios judeus instituíram duas festas nestes meses, Chanukah e Purim, períodos em que os poderes do engano e do mal, que caracterizavam os persas e os amalecitas, foram derrotados. O planeta Júpiter associa-se tanto à probidade quanto com a caridade. Segundo a tradição astrológica, no simbolismo do corpo humano, as influências das pernas, que começaram em Kislev, se completam em Adar. Se a letra Kuf “criou” Peixes, Júpiter foi “criado” por Guimel, letra que significa compartilhar. A letra Kuf é a única no alfabeto hebraico que se estende abaixo da linha da escrita, significando isso que ela é dupla, tendo ligações com o mundo das ilusões, da vida subconsciente. Se o fator de correção (tikum, eixo dos nós lunares) de um mapa estiver em Peixes isso pode significar apego demasiado à lógica, a racionalizações em vidas anteriores. O tikum em Peixes sugere que, além da razão, há outro modo, talvez mais importante, de apreender a vida. Há que se deixar de lado, um pouco ou muito, as explicações só racionais.   

A constelação de Peixes estende-se hoje de 15º de Peixes a 26º de Áries. Não há estrelas brilhantes nesta constelação. A única a considerar astrologicamente é Al Rescha, que marca o nó dos cordões que unem os peixes, uma estrela de quarta magnitude, a 28º41´ deÁries. Ptolomeu atribuía-lhe influências marcianas e mercurianas, estas bem moderadas O simbolismo do nó ajuda-nos a interpretar Al Rescha. Onde a tivermos, ali procuraremos unir conceitos, trabalhar com a ideia de aproximar para ampliar a nossa compreensão, para buscar uma visão mais abrangente. Quadrantes em que estiver e planetas em aspecto com ela influenciarão também dessa maneira. Negativamente, o nó é maléfico quando funciona como obstáculo, perturbação da ordem natural das coisas, lugar em que algo pára, um ponto de coagulação. Positivamente, o nó é
CARL  GUSTAV  JUNG
proteção, meio de defesa contra inimigos, grau de iniciação. Um mapa que poderá ser estudado para uma maior compreensão do que Al Rescha  pode significar é o de Carl Gustav Jung, que procurou integrar várias formas de conhecimento na sua psicologia profunda. 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

URANO (2)

        
                      
A antiga religião mesopotâmica é a mais antiga dentre as que nos oferecem documentos escritos. A sua base é formada por crenças dos povos que entre 4000 e 3000 aC, ou mesmo antes, chegaram à região, crenças, observe-se, que já àquele tempo proporcionavam orientação espiritual e ética para os negócios humanos. Agricultores do norte emigraram e se estabeleceram na região, que se estenderia da futura Babilônia ao golfo pérsico. Por volta de 3500 a, nômades semitas da Síria e da península arábica invadiram o território mesopotâmico meridional e se mesclaram com as populações que ali viviam. Pela mesma época, os sumérios, provenientes da Ásia central, através do Irã, também ali se estabeleceram.

GILGAMÉS
A cidade de Erech, no território sumério, tornou-se o centro do poder político. Em 2500 aC, Gilgamés, herói  de lendas sumerianas, era o rei que governava a cidade. A esse tempo, as concepções cosmogônicas defendiam a ideia de que o universo era constituído por um todo único, formado pelo céu e pela terra, ao qual se dava o nome de Na-Ki, isto é, céu e terra. Ao redor desse todo, agitava-se o mar, infinito e sem repouso, sustentando miraculosamente toda a criação. As águas desse mar imenso sempre foram consideradas como a origem de tudo, tanto do arco celeste  como do disco terreno. Entre o céu e a terra distribuíam-se os astros, o Sol e a Lua.  

Para as crenças sumérias, o universo era governado por entes
MANIFESTAÇÕES   CELESTES
divinos, antropomorfizados, semelhantes aos humanos, mas não percebidos por eles. Invisíveis, onipotentes e imortais, estes seres eram chamado de dingir. Eles atuavam através das manifestações luminosas do céu, inclusive as pluviosas. Tudo o que viesse do céu para eles, como para os gregos, era uma hierofania, palavra grega que literalmente significa  manifestação do sagrado.


NINHURSAG
Por volta de 2500 aC, a lista dos deuses sumérios alcança algumas centenas. Apesar desse número e da grande complexidade quanto às funções, o panteão agia harmoniosamente, organizado de modo hierárquico. As principais divindades desse panteão, que controlavam os reinos mais importantes do universo era An (Anu), deus do céu; Enlil, deus do ar; Enki, deus das águas; e Ninhursag, a grande Mãe-Terra.






Essas quatro divindades supremas planejavam e organizavam tudo, distribuindo o poder entre diversas outras divindades menores. É de se ressaltar que a  criação e a organização do universo não foi trabalhosa. Segundo o entendimento dos sumérios, bastava apenas à divindade, para criar alguma coisa, falar, enunciar o seu plano de ação, e logo as coisas se concretizavam. Este entendimento foi adotado por todas as manifestações religiosas dos povos do Oriente Próximo. A palavra divina tinha o poder de criar do nada todas as coisas. A noção de palavra fecundante, do verbo que carrega consigo os germes da criação, é considerado aqui como a primeira manifestação divina, antes de as coisas terem tomado forma.   


Esta ideia da palavra fecundante é encontrada no judaísmo, na doutrina da creatio ex nihilo e aceita como interpretação tradicional da história do Gênesis, pela qual o céu e a terra foram trazidos à existência através da palavra divina. Esta ideia se choca com duas outras, encontradas na tradição judaica. Uma delas, a interpretação midráshica, diz que o mundo foi feito de restos de mundos anteriores, que Deus havia destruído por não estar contente com eles. 

Midrash quer dizer busca, procura; é um método de interpretação
TORÁ
bíblica pelo qual o texto é explicado de modo diferente do seu significado literal. Midrash é também o nome de várias coleções de comentários bíblicos extraídos da tradição oral. O símbolo da midrash é um martelo que esfacela em muitos pedaços a Torá, vista como uma rocha. A terceira opinião sobre a criação vem da Cabala, que propõe a ideia da emanação, através da qual os níveis superiores da criação deram origem aos níveis inferiores, descendo do divino ao inferior, material, por gradação. 

Nas concepções sumérias, os deuses banqueteavam-se, eram glutões e barulhentos, casavam-se e tinham filhos. Conforme o caso, podiam mostrar-se amáveis, risonhos, bem-humorados ou melancólicos, cruéis, raivosos, invejosos, violentos e mesquinhos. Sem a mínima explicação, podiam adotar um ou outro comportamento. Eram, em geral, a favor da honestidade e contra as mentiras e as maldades. Quando necessário, viajavam, tendo à sua disposição vários meios de locomoção, nuvens, barcos, carruagens etc.

Nos tempos mais recuados, no começo do quarto milênio aC, quando Erech dominava o poder político e religioso, a principal divindade era Anu, divindade uraniana. Sua elevada posição diante da Grande-Mãe Nammu, a mãe que deu à luz a terra e ao céu, se explica evidentemente pela reconhecida supremacia do mundo masculino já notável àquela época. 


Quando Anu assumiu a supremacia no panteão sumério, passando a controlar as manifestações celestes, as divindades masculinas e femininas já estavam separadas em dois campos distintos, com áreas de atuação bem definidas, formando uma sociedade muito parecida com a dos humanos. Ao nome das divindades femininas se agregava a palavra nin, que tinha o significado de “dona”, “senhora”. Tinham o privilégio da imortalidade, embora submetidos todos às mesmas necessidades e paixões que os humanos. Outra distinção também se estabeleceu com relação às divindades. Os que só atuavam nos céus eram os igigi. Os que só atuavam na terra e no mundo ctônico foram chamados de annunnaki. 


MARDUK   VENCE   TIAMAT

Com o passar do tempo, as principais divindades do panteão mesopotâmico foram organizadas em tríades, cujo  poder  foi estabelecido quando da vitória de Marduk sobre Tiamat. Marduk era filho de Ea, divindade das águas, que atuava no Apsu, um abismo circular líquido que envolvia a Terra. Esta entidade, Ea, apresenta muita semelhança com o deus Oceano dos gregos. Tiamat personificava o mar, representando o elemento feminino, indomável, símbolo das forças cegas do caos primitivo. 

Num acordo estabelecido entre os deuses, conforme O Poema da Criação, Marduk recebeu plenos poderes para lutar contra Tiamat, em nome de todos.  Vitorioso, ele organizou o universo e definiu as atribuições de cada divindade. Criou o homem de seu sangue, tornou-se “mestre da vida e da cura” e tomou o lugar de seu pai como grande divindade da magia e dos encantamentos. Ao restabelecer a paz entre os deuses, Marduk atribuiu aos Igigi três domínios: a Anu coube o céu, a Bel a Terra e a Ea o elemento líquido.  

ANSHAR
Anu era filho de Anshar e de Kishar, o princípio masculino e o princípio feminino, respectivamente, representantes do céu e da terra. A Anu coube os espaços celestes; ele vivia na região superior, região conhecida pelo nome de “céu de Anu”. Era o maior dos deuses ainda que fazendo parte da mencionada trindade. Todas as demais divindades o honravam como pai, como seu chefe. 



KISHER

É ao lado de Anu que todas divindades vinham se refugiar quando em perigo, quando algo as ameaçava, como no caso do dilúvio. Foi, por exemplo, o que aconteceu com a deusa Ishthar quando repelida pelo herói Gilgamés. Ela se queixou a Anu, dizendo que o herói a havia amaldiçoado e ela lhe pediu que criasse um touro celeste para que ela o lançasse contra ele. 


ANSHAR

ADAPA
Anu convocava ao tribunal que presidia todos os casos que julgava merecedores de sua atenção. Quando, por exemplo, Adapa quebrou as asas do Vento Sul, Anu o citou perante o tribunal que presidia. Por essa e outras atitudes pode se perceber que Anu reunia em sua personalidade real os atributos máximos da soberania, inclusive o de ministrar a justiça entre os deuses.



   ERIDU  ( RUÍNAS )
Adapa foi um herói criado por Ea na cidade santa de Eridu para reinar sobre a humanidade. Recebeu para isso grandes orelhas, muita sabedoria e extrema prudência, menos a imortalidade, reservada aos deuses. Adapa gostava de pescar, usando para tanto uma embarcação que possuía. Um dia, uma grande ventania, o Vento Sul, fez com que sua embarcação virasse, descendo Adapa ao fundo do mar, à casa dos peixes.   Furioso, Adapa quebrou as asas do Vento Sul. Durante sete dias, calmaria absoluta, nenhum vento soprou. Anu, que tudo via das suas alturas, convocou Adapa e afinal tudo se resolveu.

Anu usava como símbolos uma espécie de tiara com dois chifres, que representava a sua onipotência. Diante do trono onde normalmente se sentava se alinhavam as várias insígnias de sua realeza: o cetro, o diadema, a coroa e o bastão do comando. Anu dispunha também de um exército formado pelos astros do céu, chamados de “soldados de Anu”, a seu serviço para destruir os maus.

O cetro, associado ao prolongamento do braço e da mão, sempre se ligou simbolicamente às divindades criadoras, doadoras da vida. Na emblemática popular, sua representação tomou uma figuração fálica. É sempre um signo de dignidade real e pertence ao grupo dos símbolos masculinos. Os cetros, por isso, guardam uma dupla possibilidade significativa: ao mesmo tempo em que princípio de fecundidade podem significar sinal de impiedosa cólera que abate os inimigos com o poder destrutivo do raio.

O simbolismo da coroa se associa ao do círculo, da cabeça,

representando sempre a perfeição. A princípio, feitos com a folhagem e ramos de árvores trançados, foram depois confeccionadas com metal. Além representar uma recompensa, a coroa é sempre manifestação de um sucesso decorrente da dignidade e da soberania de quem a usa. 

Anu jamais deixou as regiões celestes. Quando ele se dignava sair de sua imobilidade majestosa, era para passear numa região celeste exclusivamente sua, que tomava o nome de “o caminho de Anu”. Apesar de sua onipotência e de sua incontestável soberania, Anu tinha as suas fraquezas. Isto aconteceu, por exemplo, quando os deuses tiveram que enfrentar Tiamat. Anu teve que recorrer a Marduk para que este, em seu nome e no de outros deuses, enfrentasse o grande monstro feminino, símbolo da indiferenciação primordial, que ameaçava sempre a ordem cósmica implantada pelos deuses.

Anu residia naturalmente no mais elevado das alturas celestes. Seu palácio, no topo da abóbada, jamais poderia ser atingido por qualquer dilúvio. Ele possuía um templo em Uruk, chamado Eanna, que quer dizer “Casa do Céu”. Sendo o soberano por excelência; só os soberanos na terra podiam invocá-lo.



   EANNA , URUK

Mais tarde, muitos de seus poderes, conforme as reviravoltas políticas na terra, serão transferidos para o deus-ar Enlil, deidade guardiã de Nippur, que se transformara no centro político mais importante do país, na Mesopotâmia meridional. Durante um milênio, mais ou menos, Enlil chefiará o panteão sumeriano, o babilônico e o assírio.  



NIPPUR

Ao assumir a condição da maior divindade do país, Enlil, o Senhor
NAMMU
do Ar, provocou a separação do Pai do Céu (Anu) e de Nammu, a Mãe Terra. Esta separação, lembre-se, é muito semelhante àquela que ocorrerá na mitologia grega, quando da castração de Urano por Cronos. Ao destronar o pai, que com Geia formava um todo primordial, Cronos permitiu que o ar e o éter se interpusessem entre os dois, assumindo a Lua a função de marco divisor: acima dela, o éter, região luminosa divina; abaixo dela, o ar, região dos seres humanos e de tudo o que ficava submetido às leis do vir-a-ser.   

No código de Hamurabi (fundador do império babilônico; reinou
   CÓDIGO   DE   HAMURABI
43 anos, a partir de 1730 aC), Anu era chamado de “Rei dos Annunaki”, tendo como epítetos mais comuns “Pai dos Céus” e “Deus dos Céus”. Os astros compunham o seu exército, sendo ele, como acontece com todas divindades uranianas, um deus guerreiro, um chefe de exércitos. Sua principal festa coincidia com a chegada do ano novo, sempre uma criação do mundo a cada ciclo. 

Aos poucos, porém, tais festas do começo do ano começaram a ficar sob a tutela de Marduk, divindade mais jovem, que iniciou sua escalada religiosa, superadas as das tríades anteriores. Mais dinâmico, mais ativo no que diz respeito à sua relação com a humanidade, Marduk havia reorganizado o cosmos. Este renascimento trouxe para o primeiro plano do panteão mesopotâmico, a partir da Babilônia, Enlil-Bel, divindade do ar, do céu tempestuoso, chuvoso e fecundante. Substituía-se, assim, uma divindade inacessível e distante por outra, mais dinâmica, criadora também, porém muito mais próxima.

Enlil assuniu então a condição de “Pai dos Deuses”, fez nascer tudo
NANNA
o que era necessário, inventou instrumentos agrícolas, ajudou os humanos. Todos os deuses o procuraram para conquistar as suas graças, inclusive o poderoso Enki, deus dos mares. A própria Lua, o deus Nanna, titular religioso da importante cidade de Ur, desejoso de garantir tranquilidade para ela, reverenciou Enlil. Os poemas são esclarecedores. Quando Pai Enlil se instala solenemente sob/ o dossel sagrado, o sublime dossel,/ quando exerce o sumo comando e realeza,/ os deuses terrenos se curvam diante dele,/ os deuses celestiais o reverenciam com humildade...

Enlil passa por ter sido o instaurador do Me, um conjunto de leis
ME
universais, preceitos morais, aplicáveis, como um todo, à vida social. Tais leis, a amplitude dos conceitos neles contidos, revelam bem a grande originalidade dos mesopotâmicos, os primeiros a nos deixar pensamentos de ordem especulativa tão ricos. O Me fala de segurança num mundo em guerras constantes. A sua proposta era a de que as coisas continuariam a funcionar sempre adequadamente no universo se obedecidas as leis cósmicas instituídas pelos deuses. Cada aspecto do mundo, da civilização e da cultura tinha o seu Me. Por não ter obedecido as próprias regras que estabelecera (não saber controlar a violência do seu instinto sexual), Enlil perdeu o poder.

Agregados à sabedoria dos Me instituídos por Enlil, os pensadores mesopotâmicos redigiram para a vida prática do homem comum muitos conceitos sob a forma de ditados, alguns com muito humor. Dentre os que chegaram até nós, destacamos: 1)Numa cidade em que não há cães de guarda, a raposa é o vigia. 2) Quem tem muita prata pode ser feliz; quem possui muita cevada pode ser alegre; mas quem nada tem pode dormir. 3) Sê gentil para com teu inimigo como para um velho forno. 4) Quem constrói como um senhor, vive como um escravo; quem constrói como um escravo, vive como um senhor. 5) Para o prazer do homem há o casamento; para pensar melhor, há o divórcio.

Embora jamais tenha qualquer outra divindade contestado o seu universal poder ou a humanidade tenha deixado de venerá-lo, Anu, com tempo, acabou suplantado por outras divindades, que foram assumindo muitas de suas atribuições. O prestígio dessa grande divindade criadora só desapareceu quando as divindades usurpadoras, para se estabelecer solidamente no poder, incorporaram ao seu nome o de Anu.




ZIGURATE   TEMPLO   DA   LUA  ( UR )

A perda do prestígio das divindades celestes, criadoras, ou de qualquer divindade, é motivada normalmente por fenômenos celestes e/ou por revoluções e reviravoltas políticas (a elite que sustentava a divindade é substituída por outra). Essas mudanças ocasionam uma maior ou menor pobreza cultual que tem como característica principal a progressiva diminuição e desaparecimento do número de dias santificados desta ou daquela divindade nos calendários sagrados. Aos poucos, essas divindades vão se tornando cada vez mais inacessíveis, mais distantes, sendo incapazes de atender os inúmeros problemas do cotidiano do homem comum. Ninguém mais recorre a elas, nenhum sacrifício... 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO (3)




 Para os mesopotâmicos, a água era o elemento primordial nos mitos cosmogônicos. É da fusão da água doce, Apsu, com a água salgada,
APSU
Tiamat, que se originam todos os deuses e humanos. Apsu é personificado como um grande abismo de água que envolvia a terra, que tinha a forma de um disco. Sobre a superfície da terra elevavam-se as montanhas, sobre as quais repousava a abóbada celeste. Era de Apsu que provinham as inúmeras fontes que brotavam na superfície terrestre. Como se pode perceber, esta concepção de Apsu tinha muita semelhança com a do rio-mar denominado Oceano, dos gregos, considerado como a origem de todas as coisas.


 Tiamat era a personificação do imenso oceano de água salgada, associado ao gênero feminino, sendo representado pelas forças cegas do caos primitivo contra o qual entrarão em luta as divindades inteligentes e organizadoras.


TIAMAT

Nesse cenário inicial, de Apsu, o mar que circundava a terra, e de Tiamat, o imenso oceano, confundidos, nascem Mumu, o tumulto
BEL-MARDUK
das ondas, e um par de serpentes monstruosas, Lahmu e Lahamu, que, por sua vez, gerarão Anshar, o princípio masculino, e Kishar, o princípio feminino, representando o primeiro o mundo celeste e o outro o mundo terrestre. Para os sumérios e os acadianos, estas duas entidades geraram os grandes deuses, Anu, Bel-Marduk, Ea, os Igigi e os Anunaki.


An ou Anu (etimologicamente, céu) era a primeira das divindades,
ANU
a que punha em movimento a criação. Marduk (etimologicamente, bezerro do Sol; Bel é Senhor) era o deus patrono da Babilônia. Ea, também chamado Enki, deus do elemento líquido. Igigi é palavra que designava os deuses do céu coletivamente. Anunaki (etimologicamente, descendência principesca) também é nome coletivo, usado para designar as primeiras divindades ainda não diferenciadas, individualizadas. 


    O mito nos conta que os novos deuses logo perturbaram a tranquilidade de Apsu, que se queixou a Tiamat. Ambos combinam então a destruição de tudo o que haviam criado. Antecipando-se ao desígnio das duas velhas divindades, Ea (A Casa da Água), entidade da nova geração divina, consegue, com seus poderes mágicos, dominar Apsu e Mumu.


Furiosa, Tiamat gerou então um grande número de monstros, terríveis dragões, cães raivosos, gênios das tempestades, seres teriomórficos, com a forma de enormes escorpiões, peixes e carneiros. Para dirigir este exército do mal, Tiamat deu à luz uma figura feminina pavorosa, de nome Kingu, encarregando-a de assumir o controle do universo depois de destronados os deuses. No seu peito, Tiamat prendeu as pequenas tabuletas do destino.  


 Ea, que percebia todas as coisas, procurou imediatamente o Pai Anshar, queixando-se do furor destrutivo da Grande-Mãe Tiamat. Anu, rei dos espaços celestes, e Ea foram enviados para deter a furiosa Tiamat. Nada conseguiram. Anshar convocou então Bel-Marduk, que se dispôs a enfrentar Tiamat, mas exigiu que, em assembléia geral, os deuses lhe conferissem poderes absolutos. Anshar mandou chamar através de Gaga, seu mensageiro, as divindades que atuavam à distância, como os Igigi.   


Num banquete onde, dentre outros comestíveis, foi servido pão e vinho em abundância, os deuses confirmaram Marduk como chefe supremo de todas as forças do Bem e lhe forneceram, além dos ventos, o dilúvio e os relâmpagos, todas as armas necessárias para a terrível luta, arco, cordas, laços, redes etc. 


A luta foi tremenda, mas Marduk acabou se impondo, compelindo Tiamat a viver dentro de determinados limites, dos quais ela procurou sempre escapar com a colaboração inconsciente dos mortais. Os Anunaki, que viviam nas regiões ctônicas, auxiliares de Tiamat, foram acorrentados no mundo infernal e impedidos, pelo menos momentaneamente, de subir à superfície terrestre para infernizar os vivos. O corpo de Tiamat , como se faz com um peixe, foi dividido em duas partes. Com uma delas, Marduk fez a abóbada celeste, com a outra estabeleceu as estruturas terrestres, nas quais o elemento líquido ocupou cerca de dois terços. Depois, ele organizou o universo; construiu nos céus um imenso palácio para os deuses, fixou o caminho dos astros e determinou a sucessão do tempo. 


MARDUK E TIAMAT

Depois de tudo definido, Marduk, cujo símbolo é a enxada, fixou o destino dos humanos. Em testemunho do seu reconhecimento, os deuses lhe atribuíram cinquenta títulos, cada um correspondendo a um atributo divino. Reunindo a plenitude do divino, Marduk, em companhia de sua esposa Akitu, governou o universo. Na medida em que a Babilônia se transformava na principal cidade da Mesopotâmia, seu poder não deixava de aumentar. Mas veio um dia em que o poder da Babilônia foi sobrepujado pelo de Nínive. Deste modo, a divindade nacional dos assírios, Ashur, que tinha como esposa Ishthar, assumiu a plenitude do poder divino.

ASHUR

Na longa substituição das divindades, Apsu, deus das águas doces circundantes da terra, cedeu lugar a Ea, também chamado Enki, que se tornou a principal divindade do elemento líquido. Ea, literalmente “A Casa da Água”, era a divindade das fontes que brotavam do solo, dos rios que irrigavam a planície caldéia. Suas águas se opunham às de Tiamat, o oceano imenso e indomável. Esta distinção será levada para a Grécia e consolidada na figura do deus Oceano, cujas águas serão benéficas, geradoras de fertilidade e de abundância, diferentes do chamado “mar estéril”. Ea herdou de Apsu a suprema sabedoria, o poder dos encantamentos mágicos e os dons proféticos, oraculares, sendo muito consultado por isso. Ea era, por isso, chamado de “Senhor do Olho Sagrado”, pois nada escapava do seu conhecimento, uma sabedoria vigilante.

ENKI
  
Embora assumindo um caráter de divindade civilizadora, Ea, como Enki, reuniu à sua volta uma poderosa assessoria. Seu principal ministro era Isimud, deus que funcionava como seu embaixador e mensageiro. Era representado como uma divindade bifronte (Janus romano) na forma de um homem-pássaro. 

A ação de Ea estendia-se também, no plano terrestre, à carpintaria, à arte da cantaria e da ourivesaria, sendo o deus considerado como o patrono de todos os profissionais das referidas áreas. A residência terrestre de Ea ficava na cidade santa de Eridu, na extremidade meridional do país. Na condição de deus da terra, Ea recebeu o nome de Enki.


EA  -  ENKI

Deus do saber, Ea mantinha uma atividade oracular importante, fazendo de certa forma oposição a Shamash, divindade solar, de caráter apolíneo, também de natureza oracular, como já se viu. A residência terrestre de Ea, na cidade santa de Eridu, na extremidade meridional do país de Sumer, no golfo pérsico, tinha sido a primeira cidade conquistada do mar. Nela, havia uma árvore maravilhosa, negra, chamada Kishkanu, cuja folhagem tinha o esplendor do lápis-lazúli e que projetava uma sobra equivalente a várias florestas. 

NABU-APPLU-IDDINA REVERENCIANDO SHAMASH

Os sumerianos sempre associaram o lápis-lazúli à abóbada celeste, pois a consideravam como a “pedra das pedras”, uma dádiva celeste. Palavra híbrida, lápis-lazúli vem de lapis, pidis, pedra, em latim, e lazward, quer dizer azul em persa. A pedra sempre foi
LÁPIS-LAZÚLI
considerada um símbolo da noite estrelada, inclusive  na América pré-colombiana. O lápis-lazúli, como todas as pedras azuis, para as antigas culturas do Oriente próximo, sempre foram usadas para afastar o mau olhado, a melancolia, já que incitavam à franqueza, à delicadeza, à finesse d´esprit, criando em torno de quem a usa uma aura de simpatia. Além do mais, favorecia a meditação, acalmava os excitados e proporcionava um bom sono, principalmente o das crianças. Era usada para combater a anemia, as febres, os problemas intestinais, as doenças da pele e dos olhos.



Ea era representado por um cabrito montês com cauda de peixe, símbolo que passará à Astrologia como o signo de Capricórnio. Era visto algumas vezes na forma humana, com fluxos de água jorrando de suas espáduas ou de um vaso que carregava nas mãos (compare com um dos símbolos do signo de Aquário). A companheira de Ea, tinha o nome de Ninki, a “Senhora da Terra”, ou de “Damkina” ou “Damgalnuna”, a “Grande Esposa do Senhor”.

Lagash era outro centro religioso importante no qual Ea/Enki era honrado. A cada ano, num canal vizinho a esta cidade, se realizava uma procissão de barcos que acompanhava Nina, a “Senhora das Águas”, deusa das fontes e dos canais. Nina era filha de Ea/Enki e tinha como emblema um vaso onde nadava um peixe. Irmão de Nina, o deus Enugi velava também pelos canais como a irmã, mas estendia o seu poder também aos diques. Era chamado de o “Inspetor dos Grandes Deuses”. Uma outra deusa ligada a Ea/Enki era Ishara, de origem tradição semítica. Era adorada na Mesopotâmia meridional como esposa do deus Dagan, deus dos grãos (dagan, nas línguas hebraica e ugarítica quer dizer grão). 


Dentro da órbita de influência de Ea/Enki ficavam também as questões relacionadas com as disputas dos humanos sobre águas e terras. Sempre que tais questões não podiam ser resolvidas legalmente (racionalmente), a decisão era levada para a esfera religiosa. Eram invocados Id, deus dos rios, Sazi, seu filho, ou o próprio Ea/Enki. 

As partes envolvidas na questão deviam se submeter a um ordálio: cada um dos litigantes devia mergulhar num rio, num local especialmente determinado, na presença de autoridades, e nadar até um determinado ponto. Aquele que se saísse melhor na prova venceria a questão. O ordálio, como se sabe, é uma prova judiciária feita com a concorrência de elementos da natureza e cujo resultado era interpretado como julgamento divino (juízo de Deus). 


ERECH (RUINAS)

 Nos tempos mais recuados da história mesopotâmica, no início do quarto milênio, quando a cidade de Erech dominava a região meridional, a principal divindade era An, deus do céu. Perdendo Erech o seu prestígio político, An deixou de ocupar a principal posição no panteão do país, sendo transferidos os seus poderes e prerrogativas para Enlil, divindade do elemento ar, da cidade de Nippur, que se tornara o novo centro político e religioso da Mesopotâmia meridional.

Durante um milênio, mais ou menos, de 2.500 a 1.500 aC, Enlil, como o Senhor do Ar, estendeu o seu poder inclusive ao mundo babilônico e assírio. Interpondo-se entre o céu e a terra, assumindo o papel de uma divindade intermediária, mais próxima dos humanos, Enlil fez tudo para lhes assegurar prosperidade e fartura. Ea, como Enki, já então poderosa divindade marinha, depois de ter levantado sua esplêndida Casa do Mar em Eridu, “viajou” até Nippur para obter a bênção de Enlil.  



Os poetas da época dedicaram inúmeros hinos e cânticos a Enlil, louvando-o deste modo: “Quando o Pai Enlil se instala solenemente sob o dossel sagrado, o sublime dossel, quando exerce o sumo comando e realeza, os deuses terrenos se curvam diante dele, os deuses celestiais o reverenciam com humildade...”

ME

Ao longo de seu reinado absoluto, Enlil havia baixado um conjunto de leis que alcançavam a existência como um todo. Cada uma dessas leis abrangia um aspecto da vida universal e garantia os desejos de segurança dos humanos. Me era o nome dado a cada uma dessas leis e também ao seu conjunto (mais de cem).

A palavra me era pronunciada mai e expressava o conceito básico da religião dos sumérios, significando limite, regra, e ordem
ENLIL
(associe-se esta palavra ao radical me, indo-europeu, que traduz uma ideia de medida, e antigo nome da Lua). Ela era usada também para designar as propriedades ou poderes dos deuses que serviam para orientar todas as atividades da vida humana civilizada. A palavra “

me era sempre usada com outra, gis-hur (plano, descrição), indicativa de como o me deveria ser aplicado, uma espécie de Direito Processual com relação ao primeiro.
INNANA E DUMUZI

O Me podia descer a níveis muito concretos da vida coletiva, sempre, porém, com um caráter sagrado e indiscutível. Nesta esfera, outros deuses poderiam também baixá-lo. Quando o Me era deixado de lado, esquecido ou desprezado, tanto pelos deuses como pelos mortais, a sociedade humana entrava em decadência, se desorganizava, se corrompia. No poema Innana e Enki, por exemplo, estes dois deuses embriagados (Innana nem tanto), jogam dados, conseguindo a deusa ardilosamente ganhar o Me de Enki.

Saliente-se que o uso de bebidas alcoólicas (cerveja e vinho) é atestado na Mesopotâmia desde tempos pré-históricos. Textos
HAMURABI
médicos, inclusive, fazem referência a elas. O comércio de bebidas e o seu uso com propósitos medicinais já era comum no segundo milênio aC. (vide leis de Hamurabi). Deuses e humanos costumavam muitas vezes passar da conta no consumo delas. Gilgamés, personagem de um famoso poema épico, quando em busca da imortalidade, encontrou a deusa Siduri, uma espécie de garçonete dos deuses, que o encorajou a abandonar tal busca e a aproveitar, como muito mais agradáveis, os prazeres da vida, neles se incluindo obviamente os do álcool. 


SIDURI

 O Me assegurava que, se respeitado, o universo criado pelos deuses se manteria ordenado, livre da deterioração e da desintegração. Com o Me, tudo permaneceria como deveria permanecer: o céu, apesar de algumas tempestades, continuaria azul e sereno, fertilizando a terra; o mar, embora às vezes bravio, continuaria submetido aos deuses. 

Havia, como se disse, um Me para cada aspecto do universo. Enlil baixou um Me para os deuses, fixando os seus direitos, deveres, privilégios e obrigações. O mesmo fez com relação aos humanos, estabelecendo regras para o culto e ritos que deveriam observar, bem como para as organizações que viessem a criar, cidades e estados, e para todos os ofícios e profissões, inclusive para a arte e para as guerras.


Segundo o mito, foi a desobediência a um Me que levou Enlil à perdição. Embora onipotente e onisciente não soube dominar o seu furor sexual. Certo dia, em Nippur, ele, sob a forma humana, em visita aos mortais, vislumbrou a bela deusa Ninlil que tomava banho num dos canais da cidade. Tomado pelo desejo, resolveu possuí-la imediatamente. Apesar dos seus protestos, atacou-a, violentando-a. Este ato contrariava frontalmente o Me divino e provocou grave perturbação da ordem cósmica. Essa história do banho de Ninlil, que causou a perdição de Enlil, inscreve-se, alquimicamente, no capítulo da solutio. Ela é reproduzida, com algumas modificações, pelos judeus, na história da sedução do rei David pela bela Betsabá. 


Reunidos em assembleia os deuses resolveram intervir e decidiram pela deposição de Enlil e a sua deportação para o mundo infernal. Ninlil, grávida, acompanhou Enlil ao inferno, onde se tornou mãe de Nanna, deus lunar, também chamado Sin, o Senhor do Diadema,  que se fixou na cidade de Ur. Com a descida de Enlil ao mundo infernal, os deuses confiaram a tutela do Me universal a Ea/Enki, deus das águas, que o guardou num santuário nas profundezas do Apsu.


Coube a Enki dar continuidade à obra divina no sentido de se completar a organização do universo. Definiu o nível de prosperidade das terras e para prover as necessidades dos mortais despejou água pura nos rios Tigre e Eufrates, cujas margens foram dotadas de caniços; os rios receberam peixes e os campos, tornados férteis, puderam então ser trabalhados. 


PÓRTICO DE ISHTAR

Sapientíssimo, Enki não conseguiu contudo levar a bom termo a sua obra divina. Não soube respeitar também o Me que lhe havia
ISHTAR
sido confiado. Quem provocou a sua queda foi Innana ou Ishthar (que ora passa por filha de Ea, de Enlil ou do próprio Enki), um dos modelos da Afrodite grega. Adorada em toda a Mesopotâmia, foi a mais importante de suas divindades femininas. Na origem, seu nome era Nin-ana (Senhora do Céu). Innana era a divindade tutelar de Erech e estava determinada a fazer dela o maior centro religioso e cultural da Mesopotâmia. 


Para levar a cabo os seus desígnios, Innana precisava se apoderar do Me universal, em poder de Enki. No seu
INNANA E O LEÃO
“Barco do Céu”, em companhia de sua aia Ninshubur, dirigiu-se ao templo de Enki, no Apsu. Conforme registra o mito, foi recebida calorosamente, com um banquete no qual se serviram iguarias como bolo de cevada e vinho de tâmara, muito apreciado por Enki. Seduzindo-o e embriagando-o, Innana conseguiu obter dele o que pretendia e retornou a Erech. Lembremos que Ísis, no Egito, fez algo semelhante quando, valendo-se de outros artifícios, obteve de Ra o seu nome secreto, o que permitiu a transferência do maat a Osíris. 


Refeito da bebedeira, advertido por acólitos, acabrunhadíssimo, Enki se dispôs a recuperar o Me universal levado por Innana. Enquanto Isimud, seu ministro, tentava, pessoalmente,  interceder, solicitando a devolução do Me, Enki, como o caminho de Innana até Erech era longo, mandou emissários acompanhados de vários monstros marinhos para deter a deusa. A tentativa de recuperação foi frustrada pela astuta Ninshubur, divindade que sempre auxiliou Innana nas suas aventuras. Chegando a Erech com o Me, a deusa foi recebida festivamente pela população, transformando-se logo a cidade no mais importante centro político e cultural da Suméria.   


As criaturas de Enki merecem referência especial, pois lembram
ENKI
muitos os filhos do Poseidon grego, gigantescos e monstruosos, de ambos os sexos, femininos (ninkum) e masculinos (enkun). Eram seres dracônticos, monstros marinhos, sendo os primeiros, os gigantes, chamados lahamas (etimologicamente, ao que parece, os cabeludos, os peludos) muito representados na arte suméria como guardiães de grandes templos, em especial o de Ekur, em Nippur. 


No bestiário mítico mesopotâmico, dois monstros apareciam muito ligados a Ea/Enki: a cabra-peixe e a tartaruga-gigante. O primeiro tinha a cabeça e as patas dianteiras de uma cabra e o corpo de um peixe, adotado depois como símbolo da constelação de Capricórnio. O peixe que entrava na composição dessa criatura era a carpa (montaria de imortais), sendo chamado o todo, com a parte caprina, de “Sahurmasu”.  A imagem possuía poderes protetores e aparecia em companhia de tritões. Personagem de um famoso poema mesopotâmico (Ninurta e a Tartaruga), a tartaruga aparece na arte muitas vezes no dorso da cabra-peixe, sendo considerada como guardiã das tábuas do destino, do Me e dos planos divinos.


 Tritões e sereias sempre existiram na mitologia dos mesopotâmicos
KULULLO
e, como tudo indica, foi deles que saiu o modelo para outras tradições.  Chamados de kulullu o homem-peixe e de kulillu a sereia, nós os encontramos, vivendo no Apsu, como seres de natureza protetora, associados a Ea/Enki, sendo muito representados na arte.


Ea/Enki também teve problemas com uma outra deusa, Ninhursag, uma espécie de Mãe Terra, muito semelhante à Deméter dos gregos. Neste caso, foi um alimento que o perdeu e não a bebida (tema comum, a perdição por um alimento; nós o encontramos, por exemplo, na mitologia grega, na história de Kore, e, entre os judeus, na expulsão de Adão e Eva do Paraíso). O envolvimento de Enki com Ninhursag se deu em Dilmun, atual Bahrain, uma terra, como diz o poema, sagrada, virgem e pura, a própria imagem daquilo que os judeus chamariam de Jardim do Éden. 



Em Dilmun ninguém ficava doente ou envelhecia, um paraíso. A partir de um certo momento, porém, a água começou a escassear nesse paraíso. A pedido de uma filha que tivera com Ninhursag e que acabou por estupar, Enki ordenou a Utu, o deus solar, também
NINHURSAG
chamado Samas, que resolvesse o problema, o que aconteceu quando inúmeras fonte começaram a aparecer nas terras sagradas de Dilmun. Utu era irmão de Nanna, deus lunar, e de Innana ou Ishthar, deusa do amor e do inferno.  


Nas terras deste éden, Ninhursag fez com que brotassem oito plantas maravilhosas. Tomado pela tentação, o deus desejou experimentá-las, ordenando ao seu mensageiro, Isimud, que as obtivesse. Ao se inteirar do ocorrido, a deusa, tomada de grande fúria, proferiu uma maldição em que preconizava a morte de Enki, abandonando em seguida o concílio dos deuses.


A maldição de Ninhursag resultou num mal que atingiu os órgãos
NINHURSAG
vitais do deus. Os deuses começaram a lamentar o fim de Enki, impotentes. O poema nos conta que uma raposa ladina que a tudo assistia resolveu intervir e encontrando Ninhursag convenceu-a a voltar. A deusa então, comovida, resolveu pôr fim ao sofrimento de Enki, criando oito divindades que curaram os seus órgãos enfermos. A raposa, lembremos, em inúmeras tradições populares, é símbolo da astúcia pérfida. Por causa de sua cor, avermelhada, passou a fazer parte do séquito de seres demoníacos, quando não do próprio Diabo. 


A Suméria é uma região meridional mesopotâmica, chamada de Baixa Mesopotâmia, que bordeja o golfo árabo-persa. A população suméria não era semítica, mas aos semitas se misturava. Após a instituição da realeza, por volta de 3.000 aC, em  meio a lutas seculares que ocorreram nas planícies situadas entre os rios Tigre e Eufrates, algumas cidades foram se destacando como centros político-religiosos importantes, muitas delas de nomes que nos são familiares em razão de citações bíblicas.


UR

 O Velho Testamento menciona cidades como Erech e Ur (a Ur dos caldeus), esta última apontada pela tradição como a terra do patriarca Abraão. A primeira cidade que conseguiu estabelecer um controle total sobre a Suméria foi Kish, cujas ruínas encontram-se ainda hoje a 90 km. de Bagdá. Esse controle, com relativa rapidez, foi conquistado por Erech. Esta passagem de poder é representada pela troca de divindades no topo do panteão sumério. Enlil (ar) cedeu seu lugar a Ea ou Enki (água e terra). 

Uma explicação breve: leis e regulamentos (Enlil), sem uma atenção concentrada nos problemas físicos (agricultura), não bastavam. Por isso, Enki subiu ao poder, uma divindade, como se viu, ligada à fertilidade, muito importante para os sumérios e suas terras secas. Enki, segundo uma história que lhe deu muita fama, para aumentar a vazão do rio Tigre costumava ejacular nele sempre nos período de seca. 


Importante também mencionar aqui o problema das inundações na Mesopotâmia. Ambos os rios, o Tigre e o Eufrates, ficavam sujeitos a elas quando recebiam as chuvas da primavera e as águas do degelo. As mais temíveis eram as inundações provocadas pelo Tigre, entre fevereiro e maio. Somente no século XX, com diques e obras de contenção, as catástrofes puderam ser afastadas e, mesmo assim, não de todo. 


Era natural que as inundações dos rios mesopotâmicos fossem usadas pela religião e como imagens literárias e as destrutivas inundações como a metáfora favorita para se falar do poder dos deuses, principalmente quando as inundações coincidiam com tempestades. 


Os deuses mesopotâmicos, como acontece também em outras tradições, resolveram um dia destruir a raça humana, por eles
UTNAPISTIN
mesmo criada. Reunidas na cidade de Surippak, situada às margens do Eufrates, os grandes deuses decidiram mergulhar a terra num dilúvio, assumindo Enlil a responsabilidade de decretá-lo. Mas Ea, que se encontrava dentre eles, teve pena dos humanos. Ele confiou a decisão dos deuses a uma sebe de caniços que, por sua agitação e barulho, possibilitaram que um humano chamado Utnapistin a captasse.


Tendo entendido a mensagem de Ea/Enki, Utnapistin construiu então uma grande embarcação, para ela levando, além de sua família, tudo o que possuía em ouro e prata, mais bens materiais, animais e pássaros. A catástrofe que se abateu sobre a humanidade foi tão terrível que os próprios deuses se sentiram ameaçados. Nada parecia poder parar aquele grande mal. No sétimo dia, enfim, os ventos serenaram e as águas se acalmaram, mas tudo estava totalmente envolvido pela lama.

UTNAPISTI E SUA MULHER

  Diante de tão horrível catástrofe, Utnapistin não conseguiu reter as suas lágrimas. A sua embarcação encalhara no alto do monte Nisir. Utnapistin soltou então uma pomba e uma andorinha que, ao retornar, passaram-lhe a informação de que não haviam encontrado um lugar onde pudessem descansar. Um corvo, solto a seguir, jamais voltou. Resolveu então Utnapistin desembarcar e, depois das libações de praxe, fez uma oferenda aos deuses no alto do monte, que de bom grado a  receberam. Só Bel, dentre os deuses, se irritou. Ea/Enki conseguiu contudo acalmá-lo com um judicioso discurso. Bel aproximou-se então de Utnapistin e de sua mulher, tocando-lhes as mãos, e declarou que ambos doravante seriam semelhantes aos deuses, tendo sua residência fixada na embocadura dos rios, num retiro inviolável.

As coisas não terminaram aqui. Segundo as tradições babilônicas, os deuses voltaram tempos depois a se reunir. Bel declarou que se sentia incomodado pelos clamores dos humanos. Enviou a peste e a tempestade para dizimá-los, que, contudo, não foram suficientes para tanto. Outros malefícios foram então decretados, a seca e a esterilidade. A fome foi horrível. Durante cinco anos a humanidade resistiu. No sexto, os humanos começaram a se devorar. A terra começou a se despovoar rapidamente. 


Ea/Enki, mais uma uma vez, resolveu intervir. Pediu à deusa Mami (deusa mãe da fertilidade) que criasse uma nova raça. A deusa cortou em catorze pedaços a lama, colocando sete pedaços à sua direita e sete à sua esquerda, criando o masculino e o feminino e lhes dando uma forma semelhante à sua. Desde então os seres nascidos do humus viveram em paz com os deuses.


Vimos acima que houve um tempo em que os deuses, desgostosos, resolveram destruir a humanidade. Quase todas as versões míticas são unânimes em afirmar que foi Enlil, quem, sentindo-se ameaçado de perder o poder para os outros deuses (Ea/Enki, especialmente), optou pelo dilúvio, uma forma de extermínio demasiadamente rigorosa, não apoiada pelos demais deuses. Ea/Enki resolveu então passar um aviso do que ocorreria a um mortal, Utnapistin. Chamo a atenção para esta atitude protetora de Ea/Enki, que vai aparecer também no mundo grego, em alguma de suas divindades, como Nereu e Oceano. 


GILGAMESH E UTNAPISTIN

Utnapistin, modelo do Noé bíblico, construiu um barco que resistiu à avassaladora tempestade. Grato por ter sido salvo, ele fez diversas oferendas aos deuses. Enlil, ainda segundo os mitos, devido à sua impiedosa decisão, foi muito censurado pelas demais divindades. A destruição da humanidade, segundo consenso divino, desobedecido por Enlil, deveria ocorrer lentamente. Pela ideia original, os deuses deixariam de intervir na vida dos humanos, o que os levaria à sua própria autodestruição por guerras, conflitos e degradação do mundo natural.

NIBIRU ASSINALADO

Por fim, quanto aos mesopotâmicos do sul, é de se registrar que antigas histórias sumérias nos relatam que, depois do dilúvio, a Terra teria sido habitada por seres andróides, provenientes do planeta Nibiru, que se encontra bem além de Plutão. Para os sumérios, esse planeta, segundo algumas pesquisas, seria o décimo segundo do seu sistema zodiacal. Desse sistema fariam parte o Sol, Mercúrio, Vênus, a Terra, a Lua, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão e mais Nibiru. Doze planetas ao todo. 

ÓRBITA DE NIBIRU

A grande e excêntrica órbita de Nibiru, para os estudiosos do assunto, faz com que esse planeta se torne invisível à observação. Segundo cálculos, o ano de Nibiru corresponderia a três mil e seiscentos anos terrestres. São atribuídos aos annunaki, os seres de Nibiru, a criação da antiga cultura suméria.


Quem expõe de modo mais coerente as informações acima, além de outros pesquisadores, é Zacharia Sitchin, um linguista falecido em
ZACHARIA SITCHIN
2010, perito na escrita cuneiforme, que interpretou a mitologia mesopotâmica, principalmente a suméria. Ele defende a ideia de que a existência dos Annunaki não era uma fantasia. Provenientes de Nibiru, os Anuna, como também eram chamados, palavra que significa “descendência principesca” em sumério antigo, eram conhecidos como divindades não diferenciadas por nomes individuais. No mito, foram eles que construíram os primeiros templos e civilizaram a região, vivendo unidos às chamadas lamas, divindades femininas, a eles semelhantes.


No mito, os Annunaki eram filhos do deus Anu ou Na, palavra suméria quer dizer céu, como vimos. Como deus do céu, Anu era
ERIDU RUINAS
considerado como o senhor de todos os deuses e responsável pelo primeiro ato que pôs em movimento a criação. Para Sitchin, os “Annunaki” puseram os pés na Terra na região de Eridu, ao sul da Mesopotâmia. Eridu, como se viu, é a cidade sagrada do deus Ea/Enki, cidade que os sumérios sempre afirmaram ter mais de 250.000 anos, número que fica bem abaixo do defendido por Sitchin para a chegada dos “Annunaki”, que é de aproximadamente 450.000 anos!  


O CÉU DOS ANNUNAKI

As teorias de Sitchin, embora muito coerentes sob o ponto de vista mítico e linguístico, foram evidentemente rejeitas pela ciência oficial que estuda a Mesopotâmia. Para ele, por exemplo o deus que se associa a Nibiru é Marduk. A luta deste contra Tiamat, também um planeta, mas no mito o grande oceano, símbolo do caos, refletiria uma catástrofe cósmica, descrita no Enuma Elish, o poema da criação, o choque de dois planetas. Para o linguista, esta colisão teria formado a Terra, o cinturão de asteroides e os cometas. 

NEFILINS

Segundo Sitchin, os Annunaki sumérios eram conhecidos na Bíblia pelo nome de nifilins. Ele nos informa ainda que, segundo inscrições muito antigas, a civilização de Sumer se estabeleceu sob a tutela dos annunaki, conhecidos no Poema da Criação, como os “senhores da terra e do céu”. Sitchin usou para construir as suas teorias as traduções que uma equipe, sob sua orientação, fez de textos sumérios, escrituras védicas e de antigos textos bíblicos, redigidos em antigo hebraico e grego.