Mostrando postagens com marcador ANU. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ANU. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de abril de 2016

URANO (2)

        
                      
A antiga religião mesopotâmica é a mais antiga dentre as que nos oferecem documentos escritos. A sua base é formada por crenças dos povos que entre 4000 e 3000 aC, ou mesmo antes, chegaram à região, crenças, observe-se, que já àquele tempo proporcionavam orientação espiritual e ética para os negócios humanos. Agricultores do norte emigraram e se estabeleceram na região, que se estenderia da futura Babilônia ao golfo pérsico. Por volta de 3500 a, nômades semitas da Síria e da península arábica invadiram o território mesopotâmico meridional e se mesclaram com as populações que ali viviam. Pela mesma época, os sumérios, provenientes da Ásia central, através do Irã, também ali se estabeleceram.

GILGAMÉS
A cidade de Erech, no território sumério, tornou-se o centro do poder político. Em 2500 aC, Gilgamés, herói  de lendas sumerianas, era o rei que governava a cidade. A esse tempo, as concepções cosmogônicas defendiam a ideia de que o universo era constituído por um todo único, formado pelo céu e pela terra, ao qual se dava o nome de Na-Ki, isto é, céu e terra. Ao redor desse todo, agitava-se o mar, infinito e sem repouso, sustentando miraculosamente toda a criação. As águas desse mar imenso sempre foram consideradas como a origem de tudo, tanto do arco celeste  como do disco terreno. Entre o céu e a terra distribuíam-se os astros, o Sol e a Lua.  

Para as crenças sumérias, o universo era governado por entes
MANIFESTAÇÕES   CELESTES
divinos, antropomorfizados, semelhantes aos humanos, mas não percebidos por eles. Invisíveis, onipotentes e imortais, estes seres eram chamado de dingir. Eles atuavam através das manifestações luminosas do céu, inclusive as pluviosas. Tudo o que viesse do céu para eles, como para os gregos, era uma hierofania, palavra grega que literalmente significa  manifestação do sagrado.


NINHURSAG
Por volta de 2500 aC, a lista dos deuses sumérios alcança algumas centenas. Apesar desse número e da grande complexidade quanto às funções, o panteão agia harmoniosamente, organizado de modo hierárquico. As principais divindades desse panteão, que controlavam os reinos mais importantes do universo era An (Anu), deus do céu; Enlil, deus do ar; Enki, deus das águas; e Ninhursag, a grande Mãe-Terra.






Essas quatro divindades supremas planejavam e organizavam tudo, distribuindo o poder entre diversas outras divindades menores. É de se ressaltar que a  criação e a organização do universo não foi trabalhosa. Segundo o entendimento dos sumérios, bastava apenas à divindade, para criar alguma coisa, falar, enunciar o seu plano de ação, e logo as coisas se concretizavam. Este entendimento foi adotado por todas as manifestações religiosas dos povos do Oriente Próximo. A palavra divina tinha o poder de criar do nada todas as coisas. A noção de palavra fecundante, do verbo que carrega consigo os germes da criação, é considerado aqui como a primeira manifestação divina, antes de as coisas terem tomado forma.   


Esta ideia da palavra fecundante é encontrada no judaísmo, na doutrina da creatio ex nihilo e aceita como interpretação tradicional da história do Gênesis, pela qual o céu e a terra foram trazidos à existência através da palavra divina. Esta ideia se choca com duas outras, encontradas na tradição judaica. Uma delas, a interpretação midráshica, diz que o mundo foi feito de restos de mundos anteriores, que Deus havia destruído por não estar contente com eles. 

Midrash quer dizer busca, procura; é um método de interpretação
TORÁ
bíblica pelo qual o texto é explicado de modo diferente do seu significado literal. Midrash é também o nome de várias coleções de comentários bíblicos extraídos da tradição oral. O símbolo da midrash é um martelo que esfacela em muitos pedaços a Torá, vista como uma rocha. A terceira opinião sobre a criação vem da Cabala, que propõe a ideia da emanação, através da qual os níveis superiores da criação deram origem aos níveis inferiores, descendo do divino ao inferior, material, por gradação. 

Nas concepções sumérias, os deuses banqueteavam-se, eram glutões e barulhentos, casavam-se e tinham filhos. Conforme o caso, podiam mostrar-se amáveis, risonhos, bem-humorados ou melancólicos, cruéis, raivosos, invejosos, violentos e mesquinhos. Sem a mínima explicação, podiam adotar um ou outro comportamento. Eram, em geral, a favor da honestidade e contra as mentiras e as maldades. Quando necessário, viajavam, tendo à sua disposição vários meios de locomoção, nuvens, barcos, carruagens etc.

Nos tempos mais recuados, no começo do quarto milênio aC, quando Erech dominava o poder político e religioso, a principal divindade era Anu, divindade uraniana. Sua elevada posição diante da Grande-Mãe Nammu, a mãe que deu à luz a terra e ao céu, se explica evidentemente pela reconhecida supremacia do mundo masculino já notável àquela época. 


Quando Anu assumiu a supremacia no panteão sumério, passando a controlar as manifestações celestes, as divindades masculinas e femininas já estavam separadas em dois campos distintos, com áreas de atuação bem definidas, formando uma sociedade muito parecida com a dos humanos. Ao nome das divindades femininas se agregava a palavra nin, que tinha o significado de “dona”, “senhora”. Tinham o privilégio da imortalidade, embora submetidos todos às mesmas necessidades e paixões que os humanos. Outra distinção também se estabeleceu com relação às divindades. Os que só atuavam nos céus eram os igigi. Os que só atuavam na terra e no mundo ctônico foram chamados de annunnaki. 


MARDUK   VENCE   TIAMAT

Com o passar do tempo, as principais divindades do panteão mesopotâmico foram organizadas em tríades, cujo  poder  foi estabelecido quando da vitória de Marduk sobre Tiamat. Marduk era filho de Ea, divindade das águas, que atuava no Apsu, um abismo circular líquido que envolvia a Terra. Esta entidade, Ea, apresenta muita semelhança com o deus Oceano dos gregos. Tiamat personificava o mar, representando o elemento feminino, indomável, símbolo das forças cegas do caos primitivo. 

Num acordo estabelecido entre os deuses, conforme O Poema da Criação, Marduk recebeu plenos poderes para lutar contra Tiamat, em nome de todos.  Vitorioso, ele organizou o universo e definiu as atribuições de cada divindade. Criou o homem de seu sangue, tornou-se “mestre da vida e da cura” e tomou o lugar de seu pai como grande divindade da magia e dos encantamentos. Ao restabelecer a paz entre os deuses, Marduk atribuiu aos Igigi três domínios: a Anu coube o céu, a Bel a Terra e a Ea o elemento líquido.  

ANSHAR
Anu era filho de Anshar e de Kishar, o princípio masculino e o princípio feminino, respectivamente, representantes do céu e da terra. A Anu coube os espaços celestes; ele vivia na região superior, região conhecida pelo nome de “céu de Anu”. Era o maior dos deuses ainda que fazendo parte da mencionada trindade. Todas as demais divindades o honravam como pai, como seu chefe. 



KISHER

É ao lado de Anu que todas divindades vinham se refugiar quando em perigo, quando algo as ameaçava, como no caso do dilúvio. Foi, por exemplo, o que aconteceu com a deusa Ishthar quando repelida pelo herói Gilgamés. Ela se queixou a Anu, dizendo que o herói a havia amaldiçoado e ela lhe pediu que criasse um touro celeste para que ela o lançasse contra ele. 


ANSHAR

ADAPA
Anu convocava ao tribunal que presidia todos os casos que julgava merecedores de sua atenção. Quando, por exemplo, Adapa quebrou as asas do Vento Sul, Anu o citou perante o tribunal que presidia. Por essa e outras atitudes pode se perceber que Anu reunia em sua personalidade real os atributos máximos da soberania, inclusive o de ministrar a justiça entre os deuses.



   ERIDU  ( RUÍNAS )
Adapa foi um herói criado por Ea na cidade santa de Eridu para reinar sobre a humanidade. Recebeu para isso grandes orelhas, muita sabedoria e extrema prudência, menos a imortalidade, reservada aos deuses. Adapa gostava de pescar, usando para tanto uma embarcação que possuía. Um dia, uma grande ventania, o Vento Sul, fez com que sua embarcação virasse, descendo Adapa ao fundo do mar, à casa dos peixes.   Furioso, Adapa quebrou as asas do Vento Sul. Durante sete dias, calmaria absoluta, nenhum vento soprou. Anu, que tudo via das suas alturas, convocou Adapa e afinal tudo se resolveu.

Anu usava como símbolos uma espécie de tiara com dois chifres, que representava a sua onipotência. Diante do trono onde normalmente se sentava se alinhavam as várias insígnias de sua realeza: o cetro, o diadema, a coroa e o bastão do comando. Anu dispunha também de um exército formado pelos astros do céu, chamados de “soldados de Anu”, a seu serviço para destruir os maus.

O cetro, associado ao prolongamento do braço e da mão, sempre se ligou simbolicamente às divindades criadoras, doadoras da vida. Na emblemática popular, sua representação tomou uma figuração fálica. É sempre um signo de dignidade real e pertence ao grupo dos símbolos masculinos. Os cetros, por isso, guardam uma dupla possibilidade significativa: ao mesmo tempo em que princípio de fecundidade podem significar sinal de impiedosa cólera que abate os inimigos com o poder destrutivo do raio.

O simbolismo da coroa se associa ao do círculo, da cabeça,

representando sempre a perfeição. A princípio, feitos com a folhagem e ramos de árvores trançados, foram depois confeccionadas com metal. Além representar uma recompensa, a coroa é sempre manifestação de um sucesso decorrente da dignidade e da soberania de quem a usa. 

Anu jamais deixou as regiões celestes. Quando ele se dignava sair de sua imobilidade majestosa, era para passear numa região celeste exclusivamente sua, que tomava o nome de “o caminho de Anu”. Apesar de sua onipotência e de sua incontestável soberania, Anu tinha as suas fraquezas. Isto aconteceu, por exemplo, quando os deuses tiveram que enfrentar Tiamat. Anu teve que recorrer a Marduk para que este, em seu nome e no de outros deuses, enfrentasse o grande monstro feminino, símbolo da indiferenciação primordial, que ameaçava sempre a ordem cósmica implantada pelos deuses.

Anu residia naturalmente no mais elevado das alturas celestes. Seu palácio, no topo da abóbada, jamais poderia ser atingido por qualquer dilúvio. Ele possuía um templo em Uruk, chamado Eanna, que quer dizer “Casa do Céu”. Sendo o soberano por excelência; só os soberanos na terra podiam invocá-lo.



   EANNA , URUK

Mais tarde, muitos de seus poderes, conforme as reviravoltas políticas na terra, serão transferidos para o deus-ar Enlil, deidade guardiã de Nippur, que se transformara no centro político mais importante do país, na Mesopotâmia meridional. Durante um milênio, mais ou menos, Enlil chefiará o panteão sumeriano, o babilônico e o assírio.  



NIPPUR

Ao assumir a condição da maior divindade do país, Enlil, o Senhor
NAMMU
do Ar, provocou a separação do Pai do Céu (Anu) e de Nammu, a Mãe Terra. Esta separação, lembre-se, é muito semelhante àquela que ocorrerá na mitologia grega, quando da castração de Urano por Cronos. Ao destronar o pai, que com Geia formava um todo primordial, Cronos permitiu que o ar e o éter se interpusessem entre os dois, assumindo a Lua a função de marco divisor: acima dela, o éter, região luminosa divina; abaixo dela, o ar, região dos seres humanos e de tudo o que ficava submetido às leis do vir-a-ser.   

No código de Hamurabi (fundador do império babilônico; reinou
   CÓDIGO   DE   HAMURABI
43 anos, a partir de 1730 aC), Anu era chamado de “Rei dos Annunaki”, tendo como epítetos mais comuns “Pai dos Céus” e “Deus dos Céus”. Os astros compunham o seu exército, sendo ele, como acontece com todas divindades uranianas, um deus guerreiro, um chefe de exércitos. Sua principal festa coincidia com a chegada do ano novo, sempre uma criação do mundo a cada ciclo. 

Aos poucos, porém, tais festas do começo do ano começaram a ficar sob a tutela de Marduk, divindade mais jovem, que iniciou sua escalada religiosa, superadas as das tríades anteriores. Mais dinâmico, mais ativo no que diz respeito à sua relação com a humanidade, Marduk havia reorganizado o cosmos. Este renascimento trouxe para o primeiro plano do panteão mesopotâmico, a partir da Babilônia, Enlil-Bel, divindade do ar, do céu tempestuoso, chuvoso e fecundante. Substituía-se, assim, uma divindade inacessível e distante por outra, mais dinâmica, criadora também, porém muito mais próxima.

Enlil assuniu então a condição de “Pai dos Deuses”, fez nascer tudo
NANNA
o que era necessário, inventou instrumentos agrícolas, ajudou os humanos. Todos os deuses o procuraram para conquistar as suas graças, inclusive o poderoso Enki, deus dos mares. A própria Lua, o deus Nanna, titular religioso da importante cidade de Ur, desejoso de garantir tranquilidade para ela, reverenciou Enlil. Os poemas são esclarecedores. Quando Pai Enlil se instala solenemente sob/ o dossel sagrado, o sublime dossel,/ quando exerce o sumo comando e realeza,/ os deuses terrenos se curvam diante dele,/ os deuses celestiais o reverenciam com humildade...

Enlil passa por ter sido o instaurador do Me, um conjunto de leis
ME
universais, preceitos morais, aplicáveis, como um todo, à vida social. Tais leis, a amplitude dos conceitos neles contidos, revelam bem a grande originalidade dos mesopotâmicos, os primeiros a nos deixar pensamentos de ordem especulativa tão ricos. O Me fala de segurança num mundo em guerras constantes. A sua proposta era a de que as coisas continuariam a funcionar sempre adequadamente no universo se obedecidas as leis cósmicas instituídas pelos deuses. Cada aspecto do mundo, da civilização e da cultura tinha o seu Me. Por não ter obedecido as próprias regras que estabelecera (não saber controlar a violência do seu instinto sexual), Enlil perdeu o poder.

Agregados à sabedoria dos Me instituídos por Enlil, os pensadores mesopotâmicos redigiram para a vida prática do homem comum muitos conceitos sob a forma de ditados, alguns com muito humor. Dentre os que chegaram até nós, destacamos: 1)Numa cidade em que não há cães de guarda, a raposa é o vigia. 2) Quem tem muita prata pode ser feliz; quem possui muita cevada pode ser alegre; mas quem nada tem pode dormir. 3) Sê gentil para com teu inimigo como para um velho forno. 4) Quem constrói como um senhor, vive como um escravo; quem constrói como um escravo, vive como um senhor. 5) Para o prazer do homem há o casamento; para pensar melhor, há o divórcio.

Embora jamais tenha qualquer outra divindade contestado o seu universal poder ou a humanidade tenha deixado de venerá-lo, Anu, com tempo, acabou suplantado por outras divindades, que foram assumindo muitas de suas atribuições. O prestígio dessa grande divindade criadora só desapareceu quando as divindades usurpadoras, para se estabelecer solidamente no poder, incorporaram ao seu nome o de Anu.




ZIGURATE   TEMPLO   DA   LUA  ( UR )

A perda do prestígio das divindades celestes, criadoras, ou de qualquer divindade, é motivada normalmente por fenômenos celestes e/ou por revoluções e reviravoltas políticas (a elite que sustentava a divindade é substituída por outra). Essas mudanças ocasionam uma maior ou menor pobreza cultual que tem como característica principal a progressiva diminuição e desaparecimento do número de dias santificados desta ou daquela divindade nos calendários sagrados. Aos poucos, essas divindades vão se tornando cada vez mais inacessíveis, mais distantes, sendo incapazes de atender os inúmeros problemas do cotidiano do homem comum. Ninguém mais recorre a elas, nenhum sacrifício... 

sábado, 24 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (2)


Há mais de 5000 anos, o culto às Grandes Mães, ligados à vida vegetal e à agricultura, se estabeleceu praticamente em todas as tradições religiosas, no mundo todo. Como divindades,
GRANDE MÃE
simbolizavam tanto a vida como a morte. Nascer era sair da matriz, morrer era retornar a ela, à terra-mãe. O arquétipo maternal foi sendo construído, dele fazendo parte ideias de origem, natureza, criação passiva, corpo físico com os seus os aspectos instintivos, impulsivos e fisiológicos. Esse modelo maternal tinha (tem)  a ver também com o inconsciente, com a obscuridade noturna e angustiante, ao mesmo tempo protetora e nutricional, lembrando saciedade, segurança, carinho, amor, calor, compreensão. Sendo proteção e refúgio, a mãe foi elevada à condição de primeiro objeto de amor da criança e também o seu primeiro ideal,  fundamento inconsciente de todas as imagens de felicidade, verdade, beleza, perfeição, como as Virgens com o Menino (Madonas), em momentos históricos como o Renascimento, passaram a simbolizar.



MADONA  (GEROLAMO D. POMPEO)

Ao se desligar do ambiente familiar, no qual  a experiência materna normalmente é preponderante, ou mesmo antes desse desligamento, o ser humano tinha, porém, que enfrentar certos problemas, englobados sob o nome de processo de socialização, aprender a se relacionar com outras pessoas, constituir com elas uniões mais ou menos formais, nas quais o diálogo entre o racional, o afetivo e o emocional era sempre difícil. Um diálogo muitas vezes dificultado porque, embora destacado da influência materna fisicamente, o ser humano continuou dela dependente psicologicamente, a se alimentar dela, de valores herdados de seu mundo familiar. 

No panteão de todas as tradições mitológicas há uma divindade feminina que tutela esse processo. É conhecida como deusa do amor, da vida afetiva, da sedução, personificação do princípio passivo da geração, que age sob diversas formas. A água é a sua essência. Neste sentido, ela será a dispensadora da voluptuosidade que atrai pela perspectiva de uma existência langorosa, sensual, terna, prazerosa, que rejeita o bruto, o rude, o violento. De um modo geral, a Grande-Mãe, agindo através desses princípios, é proposta de união, feminilidade, doçura, harmonia, sentido interno de equilíbrio, que se manifesta como encanto e viva intimidade.  


ISHTAR

Uma das mais antigas representações desse modelo é a deusa Ishtar, da mitologia assiro-babilônica, filha de Sin, segundo uns, ou de Anu, segundo outros. Sin era o deus da Lua, ocupando o primeiro lugar na trindade astral, dela fazendo parte os seus filhos Shamash, o Sol, e Ishtar, o planeta Vênus. Os assiro-babilônicos, muito logicamente, faziam a luz provir da noite, daí a razão da proeminência de Sin. Sua esposa era Ningal, a Grande Dama, a Lua fisicamente considerada.


ANU

Anu, nome que significa céu, reinava sobre os espaços celestes, nele residindo, nas regiões mais elevadas. Era, por excelência, a divindade suprema. Todas as demais o honravam como pai, e era junto dele que todas vinham se refugiar quando algum perigo as ameaçava, como no caso do dilúvio. Vivia em companhia da deusa Antu.

Ishtar, nos textos poéticos, era de deusa das manhãs e do entardecer e personificava, como tal, o planeta Vênus. Era um modelo muito complexo, que chegava a reunir, como acontecia em Suse, por exemplo, uma dupla natureza, feminina e masculina. No geral, porém, Isthar representa a polaridade feminina. Os povos árabes farão dela, todavia, uma divindade masculina, o deus Atthar. 

A mesma complexidade está presente nos atributos da deusa, segundo a consideremos filha de Sin ou de Anu, podendo ser tanto deusa do amor como da guerra. A Ishtar guerreira, venerada sobretudo em Hallab, é filha de Sin e irmã de Shamash. Será neste caso a dama das batalhas, a mais intrépida entre os deuses. Ela conservou estas características quando foi adotada pelos assírios. Tendo se tornado esposa de Ashur, ela o seguia nas expedições, tomava destacadamente parte nas batalhas. Era representada sempre de pé, ereta, conduzindo um carro puxado por sete leões e tendo um arco preso ao corpo.  Sob este aspecto guerreiro recebia também o nome de Anunit em Agadé, capital da Acádia. Irmã de Ereshkigal, a soberana dos infernos, ela contribuiu bastante para povoar o mundo de sua irmã, conhecida como o “astro das lamentações”.




Em outras regiões (Erech), ela era conhecida como a deusa do amor e da volúpia, dos prazeres sensuais. Nesta condição, contudo, podia se mostrar muito irritada, violenta mesmo, incapaz de aceitar qualquer recusa à sua vontade. Chegava  a ameaçar os outros deuses, inclusive seu pai, Anu, de mandar todos para o inferno se suas vontades não fossem satisfeitas. Afirmava, inclusive, que, se as portas do inferno não se abrissem prontamente quando resolvesse visitá-lo, as destruiria, libertando os mortos, que assim poderiam atacar os vivos. É esta deusa, entretanto, que espalha por todo o mundo humano e animal o desejo amoroso, provocando as uniões. 


PROSTITUIÇÃO SAGRADA

A prostituição sagrada fazia parte de seu culto; ao visitar a terra, vinha sempre acompanha de um ruidoso séquito de cortesãs, de prostitutas e de “mulheres alegres”. Ishtar, nesta condição, ostentava o título de cortesã dos deuses, sempre ávida de explorar a  sua sensualidade e sexualidade ao máximo. Seus amantes são incontáveis e ela os escolhe ao seu bel prazer, em todos os níveis, divinos e humanos. Infelizes, porém, aqueles que ela distinguia com a sua escolha. Inconstante, Ishtar tratava seus amantes cruelmente, amando-os sofregamente num dia para, no dia seguinte, abandoná-los sem nenhum explicação. E ai daqueles que ousassem pedir alguma explicação. Maltratava-os, torturava-os, chegando mesmo a matar alguns. Afirmava a deusa que os humanos que se submetiam ao amor perdiam o seu vigor natural, pois neste caso o seu desejo se esvaziava de todo elã. Assemelhavam-se assim os humanos a animais que se deixavam domesticar. Se sob a influência funesta da paixão e do ciúme, não passavam, por outro lado, de bestas selvagens. 

Mesmo para os deuses, os favores amorosos de Ishtar eram perigosos. Em sua juventude a deusa havia amado Tamuz, o deus da vegetação e das colheitas, um amor que causara a perdição da jovem divindade. Tamuz, também chamado de Dumuzid, era filho
NIN GISHZIDA
de Nin Gishzida, divindade subterrânea, patrono da medicina e ligado à fertilidade. Nin Gishzida etimologicamente significa “o da boa árvore”, isto é, “aquele que favorece o crescimento correto das árvores”. É conhecido também como o senhor do Mercúrio, representado muitas vezes como uma serpente com dois chifres na cabeça. O grande símbolo de Nin Gishzida era, contudo, uma espécie de bastão no qual, copulando, se enrolavam duas serpentes. Este símbolo é, sem dúvida, o modelo do qual saíram o caduceu de Hermes e os bastões maravilhosos de Asclépio, de Moisés e de seu irmão Aaron.


TAMUZ-DUMAZID
Tamuz, na Suméria, tinha o nome de Dumazid, sendo Ishtar chamada de Inana (na Suméria, Astarte). As cerimônias fúnebres em homenagem a Tamuz-Dumazid alcançaram todo o Oriente Próximo, chegando mesmo a Israel, celebradas inclusive em Jerusalém, para desgosto do profeta Ezequiel, conforme mencionado na Bíblia hebraica. Pesquisas arqueológicas confirmaram que a Igreja da Natividade, em Belém, foi construída pelos cristãos num local (caverna) em que anteriormente se celebravam cultos a Tamuz.



IGREJA DA NATIVIDADE

Amado por Ishtar, Tamuz, por uma razão misteriosa e involuntária, teve que morrer. Tal como a espiga, que a foice do camponês ceifa em seu maduro e dourado esplendor, Tamuz foi constrangido a descer às profundezas infernais. Desolada pela morte de seu amante, Ishtar cantou a sua dor em dolorosas lamentações, entoada em meio a coros rituais de mulheres que choravam e se martirizavam. Esta tradição se perpetuou por todo o mundo semítico da Ásia Menor e, a cada ano, quando das colheitas, nos ardores do verão, a terra perdia o revestimento de suas plantações, deplorava-se a morte de Tamuz. 

Estas festas fúnebres foram levadas para o mundo mediterrâneo e dali para a Grécia por viajantes, peregrinos, comerciantes e marinheiros, onde, com algumas adaptações, passaram a ser celebradas através de Afrodite (Ishtar), Adônis (Tamuz) e Ereshkigal (Perséfone). Adônis, lembre-se, é nome que vem de um título semita, “Adon” (Senhor).


ERESHKIGAL

Descendo ao mundo infernal, o “lugar de onde ninguém volta”, para retirar de lá o seu grande amor, Ishtar, depois de ter forçado com sucesso os portões da mansão dos mortos, percorreu os sete níveis que a separavam da terra. Em cada uma destas etapas, foi largando uma peça de sua roupa e adereços: primeiro a grande coroa que ostentava, depois, sucessivamente, os seus maravilhosos brincos, seus colares, o boustier que lhe cobria os seios perfeitos, seus braceletes, pulseiras, o cinturão onde cintilavam pedras preciosas, até que, finalmente, já na presença de Ereshkigal, retirou última peça, a “veste do pudor”, ficando completamente nua.

A soberana do mundo infernal ordenou que seus auxiliares a prendessem numa dependência do palácio, soltando, para atacá-la os sessenta gênios das doenças. Ausente Ishtar, a superfície da Terra se cobria de tristeza e de desolação. Os deuses começaram a se movimentar para libertá-la. Ea (etimologicamente Casa da Água, uma espécie de Poseidon), divindade das águas (o chamado reino de Apsu) que envolviam e davam suporte à Terra, criou o efeminado Asushunamir e o enviou ao inferno, fornecendo-lhe palavras mágicas para vencer Ereshkigal. 

Ishtar pode assim fazer o seu caminho de volta, recuperando toda a sua roupa e as suas jóias. Acompanhava-a Tamuz, que, vestido cerimonialmente, tocava a sua maravilhosa flauta de lápis lazúli com braçadeiras de azeviche, proporcionando momentaneamente alguma alegria às almas sofredoras que viviam no reino infernal.


SARGÃO 

Apesar de seu temperamento agressivo, o coração de Ishtar podia ser generoso. Quando agia com bondade, fazendo jus ao significado
ASTARTE
de outro nome seu, a “Benevolente”, inúmeros mortais foram por ela favorecidos. Muitos reis, por exemplo, deviam-lhe a conquista do trono, sendo um dos mais significativos exemplos nesse sentido o do rei Sargão, de Agadé. Aqueles a quem a deusa amava recebiam dela também um carinhoso tratamento filial. Soberana do mundo pela via amorosa, Ishtar foi a deusa mais popular da Assíria e da Babilônia. Seu prestígio era imenso. Sob o nome de Astarte, reinou na Fenícia e muitos dos traços de sua personalidade podem ser encontrados na Ísis egípcia e na Afrodite grega.





Ísis (transcrição grega de Iset), deusa egípcia, foi associada pelos gregos a Selene, Deméter, Hera e Afrodite, conforme o ângulo que de sua personalidade tenha sido salientado. O que se sabe é que essa deusa, que aos poucos absorveu todas as características das
ÍSIS
mencionadas deusas, era, na sua origem,  uma divindade modesta do delta do Nilo, sendo seu culto celebrado num lugar chamado Per Hebet (literalmente, lugar do festival da deusa). O templo de Ísis neste lugar passou a ser conhecido, no tempo dos romanos, pelo nome de Isísdis Oppidum. No norte, Ísis possuía um templo famoso em Busíris, centro de um fervoroso culto prestado a Osíris, seu irmão e esposo. Desde cedo, Ísis aparece ligada a Osíris, com o qual ela formará uma tríade, dela fazendo parte Hórus, filho de ambos. Esta tríade logo se tornou extremamente popular, conforme nos conta Plutarco, o grande historiador grego.     


Primeira filha de Geb e de Nut, aquele identificado por Plutarco como Cronos e a esta como Reia (o segundo casal da Enéada
OSIRIS E ISIS
egípcia), Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos nos pântanos do delta do Nilo (dia epagômeno era cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil que compreendia 12 meses de trinta dias cada um). Escolhida como esposa por seu irmão mais velho Osíris, prestou-lhe grande auxílio na obra civilizadora do país, ensinando às mulheres a moer os grãos, a arte da tecelagem, transmitindo inclusive aos homens as artes da cura, e dando a ambos, homens e mulheres, a base da convivência social através da vida em família, sendo a responsável pela instituição do matrimônio.


SETH
Regente do Egito durante a ausência de seu marido que partira para a conquista pacífica do mundo, governou sabiamente o país, aguardando o seu retorno. Imensa, porém, foi a sua dor quando recebeu a notícia da morte de Osíris, assassinado pelo seu irmão Seth, o violento. Cortou então os seus divinos cabelos, rasgou as suas vestes e partiu em busca do seu amado esposo, cujo corpo havia sido encerrado numa arca lançada às águas do Nilo. Levada para o grande oceano, foi a arca, empurrada pelas ondas até as costas da Fenícia, encalhando num grande arbusto (tamarisco), que cresceu rapidamente. Com tempo, a arca acabou sendo absorvida pelo tronco da árvore e por suas raízes, fundindo-se com o lenho do grande vegetal.

Abatido por ordem de Malcandre, rei de Biblos, o tronco do tamarisco foi transformado em coluna, usada na reparação dos telhados do palácio real. Aos poucos, começou a se espalhar a notícia de que um penetrante perfume exalava do tronco. Ísis tomou conhecimento da história, e, compreendendo o seu significado, sem perda de tempo, dirigiu-se ao palácio do rei de Biblos. Sem revelar sua condição, foi recebida pela rainha Astarte, que acaba de dar à luz uma bela criança. Ísis logo se afeiçoou ao pequeno príncipe, cuidando dele como aia, com o assentimento e reconhecimento da mãe. Certo dia, atraída pelo choro da criança, Astarte entrou no quarto do menino e surpreendeu Ísis a banhar seu filho nas chamas purificadoras de uma lareira. Para tranquilizá-la, declarou que pretendia imortalizá-lo, revelando seu nome e o motivo de sua presença em Biblos. Reverenciada então, Ísis recebeu a coluna de tamarisco, dela se retirando a arca onde o corpo de Osíris se encontrava. Levando a arca para o Egito, Ísis a escondeu nos pântanos de Buto, para evitar que o monstruoso Seth a encontrasse. Este, contudo, não se sabe como, conseguiu se apoderar da arca e, para aniquilar completamente o que restava de Osíris, resolveu despedaçar seu corpo em catorze pedaços, que foram dispersados por várias partes do país.


TAMARISCO

Sem desanimar, Ísis pôs-se então a procurar os pedaços do corpo de Osíris. Encontrou-os todos, com exceção de seu membro fálico, que um peixe do Nilo, o oxirrinco, maldito para sempre por este crime, havia devorado. Ísis, então, reconstituiu o corpo de seu marido, juntando os pedaços cuidadosamente. Ajudada por sua irmã Nephthys, por seu sobrinho Anúbis, divindade que atuava na psicostasia, por Toth, o vizir do defunto, por Hórus, seu filho póstumo, ela praticou pela primeira vez os ritos de embalsamamento, pelos quais Osíris ganhou a vida eterna. A seguir, Ísis se retirou, escondendo-se na região pantanosa de Buto, para escapar da fúria de Seth e para cuidar da educação de seu filho, preparando-o para vingar a morte do pai. Graças às artes mágicas da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos até se tornar adulto.


ÍSIS E HÓRUS

Efetivamente, Isis era perita nas artes mágicas e os próprios deuses poderiam ser por ela atingidos. Durante o tempo em que esteve a serviço de Ra, grande divindade solar, ela conseguiu obter dele subrepticiamente seu nome secreto, que ninguém conhecia. Aproveitando-se da decrepitude do velho deus, ela criou, com uma mistura de terra e de saliva divina, uma serpente venenosa que poderia matar tudo o que existisse com a sua picada, inclusive os deuses. Colocando-a no caminho do trôpego Ra, a serpente o atacou-o mortalmente. Foi nesse momento que Ísis, segundo o mito, obteve dele o seu nome mágico, resignado-se então o deus solar, curado por ela, a abdicar em nome da tríade osiriana.


CHEIA DO NILO

Ísis, nos cultos osirianos, representa as cheias do rio Nilo e, como tal, é identificada com as terras férteis do Egito. Uma mistura de terra e água, portanto, elementos passivos. Osíris intervém como a fecundação solar, separando-se assim Ísis de Seth, símbolo do deserto árido. O culto de Ísis se espalhou rapidamente por todo o Egito, suplantando todos os das demais deusas. Alcançou inclusive as terras estrangeiras, levado por mercadores e viajantes do mundo greco-romano, chegando às margens do rio Reno, na Europa germânica, como estrela do mar e guia dos viajantes.

No vale do Nilo, seus cultos se estenderam até os primeiros séculos
APULEIO
da era cristã. Somente no séc. VI, sob o reinado do imperador Justiniano, é que seu santuário de Philae, no extremo sul do país foi fechado, transformando-se o templo em igreja. As festas em homenagem a Ísis eram celebradas sobretudo na primavera e no outono. Quem nos deixou registros sobre elas, as esplêndidas procissões que então se realizavam, foi Apuleio, um iniciado nos Mistérios Isíacos, falando-nos ele inclusive das cerimônias secretas de iniciação. 


As representações mais comuns de Ísis no-la mostram como uma mulher que ostenta na sua cabeça, uma espécie de coifa na forma de um sólio, um ideograma de seu nome. Noutras vezes, ostenta na sua cabeça um disco cercado por duas plumas, entre aspas taurinas.
HATOR
A terceira forma a apresenta como uma mulher com uma cabeça de vaca. É por este componente animal de sua imagem que Ísis é associada à deusa Hathor, deusa do amor e da alegria, na qual os gregos viam a sua Afrodite. Outras versões do mito nos dizem que a cabeça de vaca que Ísis ostenta se deve a uma disputa que teve com seu filho, Hórus. Ísis teria intercedido a favor de Seth, também seu irmão, quando de seu julgamento pelo assassinato de Osíris. Hórus, num acesso de raiva, teria decepado a cabeça de sua mãe. O deus Toth, com as suas artes médicas, teria lhe dado por isso uma cabeça de vaca.


Qualquer que seja a versão, o certo é que a vaca sempre foi o animal sagrado de Ísis, o que astrologicamente a ligava ao signo de Touro. Como fetiches, fazem parte do mundo de Ísis o nó mágico chamado “Tat” (bem-estar, vida) e o sistro, emblema de Hathor. Aos nós, como se sabe, desde a mais recuada antiguidade, sempre foi atribuído um poder mágico, uma grande força, que permitia fixar o imaterial e de ligar não só o corpo, mas a alma, sendo esta ação benéfica ou maléfica segundo a sua ligação, ou seja, benéfica se a ligação se fizesse com algo bom e maléfica com algo mau. Na medida, porém, em que  significa uma coagulação, o nó é um
NÓ DE ISIS
obstáculo, um constrangimento. Não ter nós significa liberdade, nenhum entrave. Entre os egípcios, o nó aparecia sempre associado à vida: nos hieróglifos, uma corda com um nó designava o nome de um homem ou a existência distinta do indivíduo. O nó de Ísis era muitas feito com o cordão de sapatos, mas podia ser feito com tiras de tecidos, simbolizando sempre a imortalidade. Para impedir que a vida escapasse do corpo, os egípcios levavam, como talismãs, no pescoço, nos pulsos ou nos tornozelos, braceletes, colares, cordões com laços. A estes cordões, em sua maioria, eram dados sete nós para que neles ficassem presos para sempre os sete maus gênios da semana. O sentido maior do nó de Ísis era o da ligação com a eternidade. Já o sistro era uma trombeta aguda usada nos sacrifícios à deusa.  


 Invariavelmente, Ísis era representada ao lado de Osíris, a quem sempre dava assistência. Com seus braços, como asas, protegia também as almas dos mortos ou era vista em imagens chorando ao lado de sarcófagos ou de vasos canopos. Como já se disse, seu culto ultrapassou as fronteiras do Egito. No mundo greco-romano, muitos se converteram à sua fé e mesmo durante os primeiros séculos do cristianismo muitos a ela aderiram. Na Grécia, a essa altura dependente do império romano, na própria Itália, em vários países europeus (Gália, Germânia, península ibérica, ilhas britânicas) Ísis era uma força poderosa.   


CONSTELAÇÃO DA VIRGEM

A estrela Spica (alpha Virginis, 23º 09´ de Libra, hoje) e a constelação que por volta de 4000 aC tinha para os egípcios, mais ou menos, os limites atuais da constelação de Virgo, associavam-se a Ísis, enquanto tal astro se fazia notar nos céus no período da colheita dos grãos. Ísis também aparecia ligada à estrela Sirius (Sothis para os gregos, é a estrela alpha Canis Major, a 13º24´ de Câncer, hoje), enquanto este astro ascendendo no horizonte anunciava as cheias do Nilo e o advento do novo ano. Sothis, entre os egípcios tinha o nome de Sepedet, palavra que lembra algo acerado, em ponta, tomando também o sentido de acuidade, de vivacidade de espírito.   

A flor de Ísis era a rosa, muito usada nos seus Mistérios como símbolo do silêncio exigido pela iniciação e imagem da morte carnal. Noutras vezes, Ísis aparecia com o lótus (nynphaea
A ROSA (MATISSE)
caerulea) e com o sicomoro (fycus sicomorus). Como protetora dos mortos, a deusa era considerada como divindade do renascimento. Além de tudo isto, lembre-se que a magia sempre se constituiu num elemento central nos seus cultos, arte na qual ela superava todas as demais divindades egípcias. Ao final do período histórico do país, Ísis assumia, de modo especial, como a sua maior divindade, quatro funções, curadora, protetora dos vasos canopos e do casamento e senhora da magia. 


A difusão do culto de Ísis ganhou grande impulso quando o país foi conquistado pelos macedônicos (Alexandre Magno), tornando-se ela, no período helenístico, a grande divindade do mundo mediterrâneo. A deusa era a grande protetora dos Ptolomeus que
CALÍGULA
governaram o Egito desde Alexandre. Cleópatra, a última dessa família, considerava-se uma reencarnação da deusa. No mundo romano, a presença de Ísis sempre foi marcante. Com exceção do imperador Augusto, que preferiu os cultos de divindades voltados para o Estado, os demais sempre tiveram grande predileção, como se dizia” pelo “orientalismo” da deusa.  Calígula, por exemplo, assumiu vestes femininas para se iniciar nos seus Mistérios. Vespasiano, Tito e Trajano foram imperadores que promoveram os seus cultos por todo o império, mandando inclusive levantar templos em sua homenagem. A Ísis do período romano tinha títulos como “Rainha do Céu” e “Stella Maris”, dos quais os cristãos se apossaram para dá-lo à Virgem Maria. A imagem de Maria com Jesus criança nos seus braços é uma cópia da de Ísis com Horus na mesma condição   

Os hinos cantados ou recitados nos cultos de Ísis sempre proclamaram o seu poder universal, fazendo dela uma soberana dos três mundos, uma espécie de poder que se irradia por todo o cosmos, alcançando inclusive os elementos e os astros. É por essa razão que alguns estudiosos chegaram a considerar que os cultos de Ísis seriam uma espécie de monoteísmo mitigado, apesar de vários sinais de panteísmo nele encontrados.

Um dos grande divulgadores do culto de Ísis foi, como se disse, Lucius Apuleius Theseus, escritor latino (125-170) que, além de vários tratados filosóficos, fragmentos de discursos e outros textos, nos deixou um romance, As Metamorfoses, chamado às vezes de O Asno de Ouro, no qual nos dá uma imagem muito interessante de
ASNO DE APULEIO
seu misticismo, de sua imaginação, de sua sensibilidade e de gosto pela paródia. Resumidamente, a história nos diz que o herói (Lucius) por ter pretendido obter de uma feiticeira os seus segredos foi transformado num asno. Ele então invocou Ísis como a Lua, sempre ligada à feitiçaria, que lhe prometeu devolver a forma humana se ele comesse umas rosas que alguém estivesse levando para uma festa em sua homenagem. Lucius, para retribuir, deveria se consagrar inteiramente ao seu culto, obtendo inclusive, com isso, até à velhice, uma vida isenta de problemas e depois, na ocorrência, uma feliz estada nos Campos Elíseos. Recuperando a forma humana, Lucius, isto é, Apuleio, nos revela que “o ato de iniciação nos mistérios de Ísis pode ser visto tanto como uma morte voluntariamente assumida como garantia de salvação obtida pela graça.”


Em toda a Idade Média, Ísis aparece em muitos romances que têm por tema a iniciação. Em dois, especialmente, podemos perceber a presença da deusa, no da busca do Graal, mais veladamente, e no Roman de la Rose, mais explicitamente. Em ambos, temos a busca do feminino, que a deusa representa. O Graal, como se sabe, é um
SANTO GRAAL
vaso sagrado que, depois de ter servido a Jesus Cristo na Última Ceia, teria na crucificação recolhido o sangue que jorrava de seus ferimentos. A lenda do Graal, que se integra no imaginário arturiano e o tema dos cavaleiros da Távola Redonda, conhece o seu apogeu com as figuras de Parsifal (Perceval) e Galahad, este último o cavaleiro santo e perfeito. A lenda do Graal é, sem dúvida, uma das grandes ilustrações da busca do feminino, símbolo daquele que recebe uma espécie de mãe espiritual (Ísis) para todos aqueles que se interessam pelos mistérios. É por essa razão que o signo astrológico de Virgem tem estreitas relações com a lenda do Graal. O ego que nasceu no signo anterior, Leão, é recebido em Virgo e preparado para um caminho evolutivo que se abre a partir do signo de Libra. Esta idéias ficam mais claras se lembrarmos que tanto Deméter como Ísis exerceram funções típicas do signo de Virgo (sexta casa), como amas de pequenos príncipes, quando andavam, a primeira, à procura de Kore e, a segunda, à procura do corpo de Osíris.  



PÁGINA DO ROMAN DE LA ROSE

O Roman de la Rose é um romance alegórico francês do séc. XIII, composto de duas partes. A primeira é inspirada em Ovídio e apresenta uma “arte do amor” cortês. Nela, a rosa é o grande elemento da conquista amorosa, pois é dela o “doce falar”. Na segunda, o tom é antifeminista e nele se privilegiam a “razão” e a “natureza”, saberes científicos que ajudem a viver racionalmente, opostos ao amor, que é irracional. A obra teve grande sucesso da Idade Média ao pôr em conflito duas correntes de pensamento, um cortês e refinado e, outro, racionalista e satírico. O Roman de la Rose é, acima de tudo, uma obra didática (seu objetivo é ensinar). A primeira parte é de Guillaume de Lorris e a segunda de Jean de Meung. Este último retoma o poema que o primeiro havia deixado (código do amor cortês) e a ele acrescenta ideias morais, sociais e filosóficas. 

A rosa, como atributo de Ísis, fez do Egito o maior produtor e exportador dessa flor na antiguidade, enquanto símbolo do amor que vence a morte e símbolo religioso enquanto lembrava o renascimento na forma proposta pelos mistérios da deusa, uma espécie de movimento religioso que exigia iniciação (mystes, em grego, de onde vem mistério, é o nome do iniciado). A rosa sempre
esteve, por isso, no Egito, de onde passou às outras tradições, ligada a ritos funerários. Lembre-se que os romanos, como herança egípcia e grega, celebravam as famosas festas, as Rosálias, em muitos lugares da Itália, entre 11 e 15 de maio. No mundo cristão, o domingo de Páscoa era chamado por essa razão de domenica rosata. O uso da rosa nos ritos iniciáticos e funerários deu origem à expressão latina sub rosa, muito empregada em diversos meios esotéricos, podendo ser traduzida como “sob o signo do silêncio”, condição exigida para a transmissão de conhecimentos. Foi por razão semelhante também (a rosa como símbolo da discreção) que os gregos, nos cultos dionisíacos, iam coroados com rosas, já que elas tinham, segundo afirmavam os sacerdotes, o poder de diminuir a excitação provocada pelo vinho. As rosas acalmavam os participantes, tornando-os menos falastrões, mais calmos.  

No início do Renascimento, Ísis será vista como divindade fértil, deusa da vegetação, sendo representada por uma majestosa mulher enxertando um galho novo numa árvore morta, uma metáfora para

sugerir o nascimento de um filho, o que poderá ser visto como um anúncio dos novos ideais humanistas que viriam. Registre-se que no final do séc. XVIII (1791), Mozart apresentava A Flauta Mágica, ópera em dois atos, de inspiração maçônica, em que narra a iniciação de Tamino e de Pamina no culto de Ísis. Ameaçados pelas potências das trevas, eles enfrentarão diversas provas, vencidas pelo herói com o auxílio da sua flauta. Terminada a iniciação, os sacerdotes cantarão: “Glória aos iniciados! Penetrastes nos mistérios sombrios da Noite. Ísis e Osíris aceitai o tributo de nosso reconhecimento. A virtude triunfou. O vício foi vencido.”


No Romantismo, Ísis será vista como a própria natureza, mãe universal, mas que precisa ser desvelada. Esse desvelamento nos fala das chamadas interpretações “noturnas” do mito de Ísis, para que todos os mistérios sejam revelados, isto é, revelar o  que a natureza oculta por trás da sua multiplicidade fenomênica. O herói
romântico, o poeta, ousará, procurará “ver” a verdade, correndo o risco de ser punido, de morrer inclusive. Não é por acaso que Gérard de Nerval (1808-1855) fará do mito de Ísis um dos tema centrais de sua obra. Durante toda a sua vida, Nerval perseguiu a ideia do feminino. Procurou nas mulheres de sua vida a “encarnação” da Santa, da Fada, o eterno feminino que para ele nada mais era do que a alma da própria natureza, chame-se ela Ísis, Cibele, Virgem Maria, Octavie, Aurélia ou  a sua própria mãe. Este sincretismo religioso na obra de Nerval tem a ver com as suas pesquisas sobre a mitologia e cultos antigos. Com base nesses estudos, publicou Voyage en Orient e Les Iluminés. 

Nerval suicidou-se (enforcamento). Em sua obra faz referência às buscas de Apuleio, Dante e Swedenborg (outros que como ele procuraram o “eterno feminino”), convencido que estava de que o sonho ajudava a atravessar as portas que separavam o homem do mundo invisível. Sua experiência literária, em prosa ou poesia, é uma das mais fantásticas aventuras de alguém que procurou encontrar as misteriosas correspondências entre o sonho e a vida. No fundo, um grande desejo de transcendência através do amor pelo “eterno feminino”, que a Grande Mãe personifica, um mergulho em correntes vitais mais vastas que levassem a um enriquecimento cada vez mais amplo. Esse feminino está personificado em várias tradições religiosas como sonho de amor, de felicidade, de generosidade, um absoluto tão poderoso que incita muitas vezes o homem a voltar as costas à realidade.

          Ao final, quanto ao mito de Ísis, não podemos deixar de fazer
referência às ideias de Helena Petrovna Blavatski, uma das fundadoras da Sociedade Teosófica, como expostas em seu livro Ísis sem Véu, publicado em 1877. Nele se descreve a história e desenvolvimento das ciências ocultas, a natureza e a origem da magia. Desvelando Ísis, HB expõe nas mais de mil páginas do livro as suas principais ideias sobre o tema, desenvolvidas mais tarde em A Doutrina Secreta. 

Em todas as tradições esotéricas, a deusa é considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e da ressurreição. Os seus Mistérios, no Egito, serviram de modelo para os de Elêusis, na Grécia, tutelados pelos deuses Deméter e Dioniso. Quaisquer que sejam, porém, as interpretações, religiosas, filosóficas ou literárias, não podemos esquecer que, em última instância, o mito de Ísis e de todos os demais que nele se inspiram, direta ou indiretamente, são também representações do arquétipo da busca que nos falam sempre da destruição de uma forma (o desmembramento de Osíris) e a reunião dos seus pedaços numa forma diferente e superior com relação à antiga. Esta leitura, a meu ver, está perfeitamente justificada se lembrarmos que, astrologicamente, o planeta Vênus opera no sentido contrário da dispersão como princípio passivo da geração que é, atuando alquimicamente como agente da coagulatio, criação de formas (uniões, sociedades, casamentos, obras de arte etc.).


NASCIMENTO DE VÊNUS   (BOTTICELLI)