Mostrando postagens com marcador APULEIO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador APULEIO. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

LIBRA (4)

                                        
PSYCHE E O AMOR , 1798
( FRANÇOIS  GÉRARD )
Muitos astrólogos, desde a antiguidade, associam a Libra o mito de Cupido e Psyche, na medida em que o signo procura descrever como um  ego busca o  seu complemento. É só através dessa busca e de seu sucesso, como sabemos, que o tipo astrológico libriano se realiza plenamente. O mito procura traduzir, de certo modo, a busca do Outro, a busca de um complemento, no geral muito mais inventado, idealizado, do que real.  


APULEIO
Antes, contudo, a origem da história. Tudo começou com Lucius Apuleius Theseus (170-125, Madaura, atual Argélia), chamado simplesmente de Apuleio, escritor latino polígrafo de origem africana. Depois de ter estudado eloquência em Cartago, dirigiu-se a Atenas, tornando-se adepto do platonismo. Percorreu em seguida boa parte da Ásia Menor e do Mediterrâneo fazendo-se iniciar em cultos de mistério (Mitra, Elêusis, Ísis, Cabiros, Cibele, Astarte, Sabazios) na esperança, como dizia, de “encontrar o segredo das coisas” e de “se abandonar a todos os demônios da curiosidade até os confins do sacrilégio.” Voltou a Cartago, assumindo a advocacia, tornando-se um retor célebre. Além de alguns pequenos tratados filosóficos e discursos, escreveu Floridus e De Magia ou Apologia, este último composto como
METAMORPHOSIS
peça de sua defesa por ter sido acusado de seduzir uma rica viúva chamada Prudentilla, para lhe tomar a fortuna. Sua obra mais importante intitula-se Metamorphosis, chamada algumas vezes de O Asno de Ouro, onde se encontra o seu famoso conto Cupido e Psyche, que podemos certamente relacionar com a peça de defesa acima mencionada. Apuleio nos deixou como escritor a imagem de uma poderosa sensibilidade sempre às voltas com influências místicas, grande imaginação, alegria, gosto pela paródia e construções rebuscadas, tudo numa linguagem eivada de preciosismos.

O conto de Apuleio nos diz que havia um rei e uma rainha que tinham três filhas belíssimas. Para as duas primeiras os adjetivos superlativos disponíveis na linguagem eram suficientes para celebrá-las. Quanto à caçula, porém, sua beleza era tão extraordinária que não havia palavras para descrevê-la. O único recurso, e mesmo assim insatisfatório, eram as interjeições que procuravam traduzir um grande deslumbramento. Logo a notícia correu o mundo, uma nova Vênus havia nascido. De várias partes do país e do exterior acorreram muitas pessoas na esperança de ver a “nova” deusa, que aceitava as homenagens que lhe eram prestadas. Por causa disso, os lugares sagrados e os santuários de Vênus não mais eram visitados, o culto divino se enfraquecia. Como não poderia deixar de acontecer, a imensa hybris da jovem princesa, chamada Psyche, incomodou a deusa Vênus, que resolveu punir tamanha insolência. Chamou seu filho Cupido, incumbindo-o de puni-la exemplarmente. 


CUPIDO SUPLICA A VÊNUS QUE PERDOE PSYCHE
( 1827, GEORGE  ROUGET )

Vênus é um nome derivado de palavras latinas que significam amor físico, apetite sensual e sexual, vida instintiva. Foi por esse nome que os romanos personificaram a sua deusa do amor, procurando assimilá-la à Afrodite grega. Na origem, entre os antigos povos da Itália pré-romana, a deusa Vênus tinha relação com o mundo agrário, com jardins e pomares, mais exatamente. Aos poucos, porém, por influência do culto grego de Afrodite, que entrara na Itália pela Sicília, Vênus começou a ocupar uma posição de destaque no panteão latino, especialmente pelo fato de, segundo o mito, um descendente seu, Eneias, oriundo de Troia, ter fixado as bases do futuro império romano.

Quanto a Cupido, filho de Vênus e Marte entre os latinos, o nome vem do verbo latino cupere, desejar ardentemente, inflamar-se. No
CUPIDO
ESCULTURA   ROMANA
mito romano, difere um pouco do Eros grego. Embora no mundo romano se apresente sempre muito travesso, irresponsável, inconsequente, na sua iconografia clássica, a imagem de Cupido chega a diferir bastante do seu modelo grego. O Cupido latino, com efeito, parece mais envelhecido que o Eros grego; é uma figura tomada por um certo cansaço, traços que suas esculturas romanas inclusive revelam, características que podemos, quem sabe, atribuir a um certo desgaste do arquétipo.   

Vênus pede a Cupido uma vingança perfeita, observadas as seguintes determinações: a jovem princesa terá que se apaixonar pelo mais horrendo dos homens, perdendo não só toda a sua herança familiar como a sua dignidade, a incolumidade de seu corpo, descendo a níveis tão baixos de existência de modo a que ninguém queira compartilhar de seu sofrimento. Transmitidas tais instruções, Vênus encaminhou-se para o seu elemento, o mar, sendo recebida por um grande séquito, as filhas de Nereu, o formidável Portuno, a saltitante Salácia, Palemon, o condutor dos delfins, inúmeros tritões, todos a reverenciá-la.


DEUSES  DO  MAR  SAÚDAM  VÊNUS ( E. LE SUEUR , 1616 - 1655 ) 

Registre-se além disso que os pais da jovem haviam consultado um oráculo apolíneo, pois, embora ela fosse lindíssima, como mulher alguma poderia ser, não era amada; definhava por isso, muito triste.
REUNIÃO DE CUPIDO E PSYCHE
( J.P. SAINT-OURS - 1752 - 1809 )
Suas duas irmãs, muito menos bonitas, já haviam inclusive se unido a dois belos príncipes. O oráculo sentenciou: Psyche deveria ser levada ao mais alto penhasco do país e ali exposta suntuosamente; um monstro horroroso viria se unir a ela. É nesse momento que Cupido, cumprindo as ordens de sua mãe, vê a jovem princesa no penhasco e se sente por ela “flechado”, instantaneamente apaixonado. Libertou-a e a levou para o seu palácio no vale. A única coisa que lhe pediu, logo na primeira noite, quando a possuiu, foi que permanecesse com os olhos vendados quando ele fosse visitá-la, que jamais tentasse vê-lo. 



PSYCHE   SURPREENDE   CUPIDO   ADORMECIDO
( 1769 ,  LOUIS JEAN FRANÇOIS LAGRENÉE )

As duas irmãs, tendo ouvido histórias sobre Psyche, conseguiram saber onde ela se encontrava. Visitando-a, sugeriram que ela era muito tola, que deveria remover a venda dos seus olhos e conhecer o seu esposo, talvez um monstro, quem sabe. Ainda que muito relutante, mas cheia de curiosidade, a jovem fez o que as irmãs haviam sugerido. Resolveu acender uma lamparina a óleo para vê-lo melhor. Ao se debruçar sobre ele com a lamparina, gotas de óleo cairam e Cupido acordou, logo fugindo, abandonando-a. 

Psyche se desesperou. Foi a Vênus, que não consentiu que ela visse seu filho-amante, a não ser que ela lhe prestasse alguns serviços, na condição de serva. A deusa impõe então à jovem várias tarefas
VÊNUS   E   PSYCHE  
humanamente impossíveis, certa de que ela fracassaria. O mundo natural, entretanto, as plantas e os animais, sentindo muita pena da jovem, a ajudam no cumprimento das referidas tarefas (separar um gigantesco  monte de grãos variados, numa única noite; trazer para Vênus flocos de lã de ouro que cobriam o dorso de carneiros ferozes; trazer para Vênus uma jarra de cristal cheia da água da fonte que alimenta os rios infernais Estige e Cocito). Nesse ínterim, refeito de seu ferimento (queimadura), Cupido foi a Júpiter e lhe pediu que concedesse a imortalidade a Psyche, o que aconteceu, recebendo ela umas gotas de ambrosia, divinizando-se e se imortalizando. 

Esta história suscitou ao longo dos séculos muitas interpretações. Sob o ponto de vista filosófico (Apuleio era um adepto do platonismo), temos aqui a ideia de que a alma é intrinsecamente divina. Esta natureza é perdida quando do processo da encarnação, mas pode ser recuperada. Nesta perspectiva, Psyche representa a natureza espiritual de cada ser humano. No cristianismo, esta história foi usada para simbolizar a busca de Deus pela alma.

PSYCHE  E CUPIDO  ( ANTONIO  CANOVA , 1757 - 1822 )

Numa outra leitura, podemos dizer que tendo pecado pela curiosidade e pela dúvida, a alma perde o seu amante divino e se torna escrava de Vênus, que a submete a duras provas. Recuperada por Cupido, ela se torna, enfim, imortal e passa a viver na eterna felicidade do amor. Tanto um símbolo da alma à procura de seu ideal como da sua purificação (salvação pelo amor) depois de ter decaído. Outros vêem na história uma tendência à idealização de parceiros. Depois de um certo tempo, porém, ousando olhá-los como realmente são, a decepção se instala, ocorrendo tanto uma separação emocional e/ou física. Os testes, as provas e os desafios pelos quais as relações têm que passar estão evidentes no contexto do conto, lembrando-se, neste particular, que, sob o ponto de vista astrológico, Saturno se exalta em Libra. 

Uma outra hipótese, que estudiosos, psicólogos e artistas nunca, a meu ver, levantaram, é que esse conto que passou à história da literatura filosófica, hoje quase que só “trabalhado” por psicólogos, é, no fundo, uma declaração de amor de nosso trêfego Apuleio à rica viúva, uma peça literária pela qual ele procurava se redimia aos seus olhos, deixando claro que o “amor tudo vence.” Segundo consta, a rica Prudentilla o perdoou por ter se apoderado do seu dinheiro, enganando-a, e eles acabaram muito felizes.

ORFEU   E   EURÍDICE
A história de Cupido e de Psyche coloca-nos também diante de uma questão que me parece fundamental na mitologia grega e com larga repercussão na matéria astrológica, mas nunca explorada de modo mais consequente. Refiro-me ao tema da proibição de se olhar na relação amorosa. O mito de Orfeu e de Eurídice não é, assim, o único a colocar a questão da interdição do olhar, do direito de ver, da necessidade que os parceiros amorosos têm de “se dar a ver”, bem como das interdições e castigos que sancionam a transgressão destes interditos.


AMOR  CORTÊS NUM  JARDIM  MEDIEVAL ( RENAUD DE MONTEAUBON )

O tema do olhar me parece profundamente ligado ao signo de Libra e de Touro e às duas Vênus que os regem, a Vênus “exterior” do primeiro e a  Vênus “íntima” do segundo. A Vênus libriana é, numa aproximação literária, a do amor cortês, desmaterializada, na qual as pulsões carnais aparecem invariavelmente sublimadas, transformadas em obras de arte etéreas, depuradas. O amor cortês, como se sabe, impõe distância, mesuras, vive em grande parte da imaginação (lembremos que Vênus se exalta em Peixes). A Vênus taurina é carnal, pede o sentido do tato, associa-se à plenitude lunar. A Vênus libriana pede mais o sentido do olhar que o toque, 


ASTRÔNOMO
Os astrônomos, com as suas lunetas, há muito, perceberam que o planeta Vênus apresenta fases semelhantes às da Lua, conforme a posição por ele ocupada com relação ao Sol. É de Galileu a observação que A mãe dos amores imita as fases de Diana. Notaram também os estudiosos do céu que todos os acidentes da superfície do astro quase nunca eram percebidos pelo olhar, pois um manto de nuvens invariavelmente os escondia. Dessa constatação astronômica passou-se ao símbolo poético. Os poetas, desde sempre, “traduziram” esse fato astronômico, falando-nos da pudicícia e do recato da deusa, que “jamais baixava os seus véus”. Imaginação, mistério, promessas ou tão só as camadas mais ou menos espessas da atmosfera do planeta... Contra a realidade carnal taurina temos as abstrações librianas. Os tipos librianos, recordemos, são sempre muito sensíveis ao olhar do outro, ao julgamento que este olhar faz. Nos tipos librianos há sempre (?) o temor do olhar do outro, o receio de que este olhar os surpreenda inadequadamente “compostos”, “arrumados”. 

Dentre os muitos mitos que fazem parte do universo libriano, um capítulo importante é o das histórias de parceiros amorosos, de casais, cujos nomes não poderão jamais se separar. As suas histórias transcorrem geralmente em regiões fronteiriças às da morte (Escorpião), falando-nos de interdições de se olhar, de jogos de sedução que passam pelo olhar. Os personagens se dão a ver, mas quem vê ou é visto se expõe sempre a matar ou a morrer.

Orfeu, nome que lembra privação em grego, não escapa destas leis. Filho de um rei da Trácia, segundo uns, de Apolo para outros, é sobretudo um dispensador da harmonia. Com o seu canto e a sua música acalma as bestas, faz cantar a natureza, tem poder inclusive
CALÍOPE
sobre o mundo mineral (as próprias pedras o seguem). Orfeu é um sedutor. Hesita entre Apolo e Dioniso, tentando conciliar estes deuses inconciliáveis, o da medida e do espírito celeste o primeiro e o outro o da vida luxuriante e da desmedida. Sua mãe é a musa Calíope (a de bela voz), a inspiradora tanto da poesia épica como da lírica. Cantor e músico incomparável, a constelação da Lira, segundo alguns, o acolheria quando cumprido o seu estranho destino. 

ARGONAUTAS
Depois de longa viagem ao Egito, Orfeu se engajou na expedição dos Argonautas, comandada por Jasão. Sua função, com a sua música e seu canto, era a de marcar a cadência dos remadores, acalmar as tempestades e distrair os marinheiros atingidos por Pothos, causador do dorido sentimento de nostalgia noturna. Ao voltar da expedição à Cólquida, encontrou a dríade Eurídice (a de grande justiça), por quem se perdeu de amores. Logo, porém, a perdeu. Ao fugir de uma investida sexual de Aristeu, deus apicultor, é picada por uma serpente e morre, descendo, por isso, ao Hades. 



A  MORTE  DE  EURÍDICE ( ERASMUS  QUILLINUS , 1607 - 1678 )

Inconsolável, Orfeu para lá se encaminhou, confiante no seu poder de sedução. Perséfone encantou-se com as melodias do filho de Calíope, convencendo Plutão a libertar a jovem dríade. A história é conhecida: uma condição é imposta; Orfeu iria na frente e Eurídice o seguiria, não podendo ele olhá-la em hipótese alguma até que ultrapassada a saída do reino dos mortos. Na versão clássica do mito, Orfeu perdeu Eurídice porque não observou a interdição, olhando-a muito cedo, vitimado por uma crise de impaciência tipicamente ariana. Dentre as explicações para o comportamento de Orfeu, acredito que algumas hipóteses poderiam ser alinhadas: a) ele duvidou da palavra dos senhores da morte; b) teve medo, temendo encontrar uma Eurídice lívida e desencarnada, um eidolon, um fantasma e não um ser de carne e osso; c) arrependeu-se, não sabendo como assumir o “renascimento” da sua amada, já que o Hades e Eurídice ficariam para sempre associados. 



Ao longo dos séculos, a maior parte daqueles que se aproximaram desta história acusaram Orfeu. Para uns (Jacqueline Kelen, L´Éternel Masculin), Orfeu não sabia apreciar o que lhe escapava, que ele não sabia dominar. Falta de humildade, talvez. Não acreditou no milagre, por isso ele não se produziu. Tem Orfeu muita invenção poética mas pouco amor para ressuscitar a jovem. Platão, no Phedro, acusou Orfeu de fraqueza. Uma alma fraca que não teve a coragem de morrer como Alceste. 

Não podemos esquecer que embora Libra seja um signo artístico, de criações sutis, sua natureza permanece contudo sempre cerebral, como um signo de ar que é. A paixão está presente, o sentimento alimenta o pensamento, mas este se impõe àquela. Em outros termos: quanto mais Eurídice é o centro da poesia órfica, fonte de
JEAN  MARAIS
inspiração, menos ele a aceita e vê como carne e sangue. As versões desta história são inúmeras. Virgílio (Geórgicas) nos fala de imprudência. Ovídio (Metamorfoses), de fatalismo. Depois deles, essa história trágica deu origem a uma grande tradição literária musical e artística. Quanto à música, obrigatória as referências a Monteverdi, Gluck, Haydn e Offenbach; na dança, as coreografias de Roger-Ducasse e de Balanchine-Stravinsky. Na pintura, Breughel, o Jovem, Tintoretto, Rubens, Poussin e Delacroix a utilizaram. No cinema, Jean Cocteau (Orphée) e Marcel Camus (Orfeu Negro). 

Ninguém, que eu me lembre, “levantou” o ponto de vista de Eurídice. Será que ela desejaria realmente voltar à vida terrestre, ela que agora conhecia a morte, ela que agora conhecia tudo o que se passavam no reino de Hades. Apesar de todas as suas declarações, Orfeu, o amado dos deuses, é um ser cheio de fraquezas e de sentimentalismo. Uma personalidade muito “feminina”, como é comum entre os poetas. Ele não é um modelo de afirmação, um ser aguerrido. É ambíguo, oscilante. Características todas que, como sabemos, estarão na causa de sua morte. Uns afirmam que ele se “esqueceu” de honrar Dioniso. Uma versão muito aceita registra que Zeus o fulminou porque ele começou a revelar segredos do Hades que não podiam ser revelados. O mito de Orfeu e de Eurídice não foi o único a propor questões como a da proibição de se olhar, a do direito de se ver, a da necessidade de “se dar a ver” e a de todas as interdições que cercam o tema.

Esta mesma questão da proibição de se olhar nós a encontramos, como se disse, na história de Cupido e Psyche. Embora tenha tentado resistir às insinuações das irmãs, a jovem perdeu a confiança no seu misterioso esposo e acabou por transgredir a interdição. Ela o viu tão belo, tão maravilhoso, que, infinitamente perturbada, deixou cair uma gota de óleo fervente sobre o ombro do seu divino parceiro, acordando-o. Rápido, ele se afastou, dizendo-lhe: Infelicidade para ti, que puseste tudo a perder” Esta cena não pode deixar de nos trazer à mente uma questão (libriana) muito importante, quem sabe uma lição a ser dela retirada, a de que o amor, para conservar a sua força e ação, perdurar, deve ser também cego.


Para recuperar o amor de Cupido, Psyche terá que realizar vários trabalhos, como já vimos, recebendo, para tanto, valioso auxílio divino. Impostos por Afrodite, merecem nossa atenção de modo especial aqueles que a levarão ao Hades. A deusa exige que a jovem encha uma jarra com a água do rio Estige (o que provoca horror), um dos rios infernais, inalcançável para qualquer mortal. Providencialmente, uma águia, a quem, um dia, Cupido auxiliara, resolveu o problema, conseguindo o líquido para a jovem. Enraivecida, Afrodite determinou que ela cumprisse então uma tarefa, a mais terrível de todas, que certamente causaria a sua perdição: Psyche deveria ir ao Hades e pedir a Proserpina (Perséfone) um unguento de beleza que só ela possuía. Psyche, que,
PSYCHE E CARONTE
( J.R.SPENCER STANHOPE , 1829 - 1908 )
até então, havia sempre recebido auxílio para cumprir as tarefas que lhe eram determinadas, sentiu-se perdida, pois ninguém, nem mesmo deuses, ousariam descer ao Hades. Pensou em se suicidar. Dirigiu-se para o alto de uma grande torre para esse fim, para de lá se atirar. Estranhamente, porém, a torre se pôs a aconselhá-la: deveria a jovem munir-se de dois óbolos e de dois pedaços de bolo. Os óbolos para  Caronte, o barqueiro infernal, um na ida e outro na volta, e os pedaços de bolo, do mesmo modo, para o cão tricéfalo Cérbero. Quanto a Proserpina, o máximo cuidado, pois ela gostava de estender armadilhas. 

Psyche foi recebida pela Rainha do Hades e convidada a sentar-se e a fazer uma refeição. Devemos lembrar que há uma lei no mundo infernal que diz o seguinte: quem comer no Hades, um grão que seja, estará condenado a ele voltar e quem lá se sentar numa cadeira, a chamada cadeira do esquecimento, não poderá mais dela se levantar e esquecerá o motivo pelo qual para lá se dirigiu. Psyche, lembrando-se dos conselhos da torre, recusou polidamente os convites, expondo os motivos de sua visita. Obtendo o que desejava, a jovem foi autorizada a voltar à terra. Com o frasco do precioso unguento nas mãos, Psyche pensou em usar um pouco dele para se mostrar ainda mais bela se voltasse a encontrar o seu perdido esposo. Nesta passagem, faltaram evidentemente a Psyche, mais uma vez, comedimento e prudência. Ao abrir o frasco, as substâncias se evaporaram, caindo ela num sono profundo, como se estivesse morta. Tudo isto aconteceu no momento em que ela estava praticamente fora dos limites do Hades.  

Nesse ínterim, Cupido, lamentando a perda de sua jovem esposa, intercedia a seu favor diante de Zeus. Aquiescendo Zeus ao pedido,
MERCÚRIO  OFERECE  A PSYCHE
O  CÁLICE  DA  IMORTALIDADE
( 1510 ,  RAFAEL DE  SANZIO ) 
Cupido não só a recuperou como, por iniciativa do próprio Senhor do Olimpo, a jovem se tornou imortal por lhe ter sido permitido o consumo de um pouco de ambrosia. Unindo-se novamente os amantes, gerarão uma filha que recebeu o nome de Volúpia, sempre representada como uma bela mulher, de faces artificialmente muito coloridas, de olhares lânguidos, postura lasciva, uma figura da qual a modéstia está certamente ausente. Aparece sempre semi-deitada numa espécie de divã florido e segura numa das mãos uma alada bola de vidro, uma imagem sempre carregada de sensualidade. Esta filha que Cupido e Psyche tiveram desqualifica em grande parte, senão totalmente, a meu ver, a leitura que a moderna Psicologia jungiana (Erich Naumann) faz desta história, ao “traduzir” Volúpia como Deleite ou Bem-aventurança, de natureza celeste, tentando espiritualizá-la, características inexistentes ou intenções ausentes do texto de Apuleio.

Todas as provas impostas por Vênus têm certamente qualquer coisa a ver com as vicissitudes do jogo amoroso. Psyche aceita o sofrimento, sente-se fanée, pensa no envelhecimento, chega à beira do suicídio. Há muito de Libra, sem dúvida, na história de Psyche, o desejo de agradar, de permanecer sempre jovem, bela, uma “filha de Vênus”, sempre vulnerável ao olhar do outro, aterrorizada pelo pensamento de não mais ser amada. A história nos fala das armadilhas do amor, dos sonhos de beleza perfeita, do amor que “nunca morre”, de tentações, hesitações, balanceamentos, fragilidade, de muitos componentes do mundo libriano, enfim. Fala-nos também a história das dificuldades que existem para se chegar ao amor adulto, consciente, da confrontação dos olhares, das indagações mudas, da maior ou menor sensibilidade dos parceiros amorosos na captação de nuances e matizes no discurso amoroso. Muitos, ao longo dos séculos, condenaram Psyche, esquecendo, porém, as intermináveis horas de espera que ela suportou para rever o marido, o seu tédio palaciano, o seu bovarismo, alimentado, em grande parte pelo marido e pelas irmãs. A pergunta então se impõe: que significa realmente esta interdição de contemplar o deus do amor? Será que o amor e a morte não podem ser olhados? Na história, Cupido tem o direito de ver Psyche, ela, porém, não pode vê-lo. A história lembra muito a de Endímion, sem dúvida. O jovem e lindíssimo pastor, conforme a versão, era visto por Selene ou por Hipnos, mas não via. 

A história de Cupido e de Psyche, iluminada astrologicamente, talvez nos deixe questões que jamais conseguiremos explicar totalmente. Que se passa realmente quando duas pessoas que se amam abrem os olhos simultaneamente, um atingindo a alma do outro, uma entregando-se ao outro? Um instante absoluto, mágico, milagroso, certamente impossível de ser reproduzido conscientemente. Verdade ou mentira dos olhos?


PSYCHE  RECEBIDA   NO   OLIMPO ( RAFAEL DE SANZIO , 1483 - 1520 ) 

Se em Gêmeos o eu está se opondo sempre ao não-eu, em Libra, este modo de ser é ultrapassado para ser procurada uma nova forma de vida, a da complementaridade, a unio, a conjunctio oppositorum. Em Libra, o eu se busca numa relação com o outro. Mas para que isto aconteça é preciso correr riscos, encarar as incertezas, aceitar, quem sabe, as desilusões, é preciso muito esforço, procurar conhecer o outro. Uma leitura que muitos fizeram: Psyche foi aquela que buscou a imagem real do outro, busca que a levou inclusive a usar desastradamente a lamparina de óleo. A pergunta, a meu ver, então se impõe: qual, a rigor, a razão dessa “necessidade de ver realmente o outro”, se os próprios deuses haviam proibido que tudo fosse vivido “às claras”? A história parece deixar claro que a comunhão com o outro não se realiza através do conhecimento racional. Será que foi por piedade que Cupido se dispôs a ajudar Psyche, levando-a para o Olimpo, onde a união de ambos tomou características de uma hierogamia? Ou, simplesmente, reduzindo a história ao essencial, não será ela mais que a revelação da impossibilidade de se encontrar nos relacionamentos humanos o equilíbrio ideal? Ou, astrologicamente, de outro modo, segundo a receita divina: será que não deveríamos preferir para a casa VII, ao invés da razão (a lamparina de Psyche), a escuridão e a imaginação?










terça-feira, 18 de julho de 2017

VIRGEM (1)


VIRGEM
As antigas civilizações do oriente, como a védica, e mediterrâneas, como a egípcia e a grega, tinham pleno conhecimento da influência das  chamadas eras cósmicas no desenvolvimento e na evolução dos povos. As eras cósmicas foram estabelecidas em função da passagem do Sol pelas constelações zodiacais, definindo esta passagem, em linhas gerais, segundo cada constelação, por um determinado período, para esta ou aquela civilização, modelos muito semelhantes relacionados com os seus fundamentos religiosos, filosóficos, políticos, sociais e artísticos. Cada período tem a duração de 2.160 anos, correspondente a 30º dos 360º que tem o ciclo completo.  

No chamado zodíaco das constelações esta progressão solar tem a duração de 25.920 anos, o chamado grande ano pitagórico, correspondente a um deslocamento solar de 360°, e de 2.160 anos se considerarmos o trânsito do Sol através de uma única constelação (30°). Este ciclo composto pelas doze constelações, baseado na chamada precessão dos equinócios,  nos permite perceber que há ciclos de tempo muito mais extensos dos que usamos normalmente, de grande importância para o entendimento da evolução da humanidade como um todo.



A era cósmica em que nos encontramos hoje, a de Peixes, começou em 498 dC. e terminará em 2.658 dC. As eras que a antecederam têm as seguintes datas de ínicio: Áries (1.662 aC), Touro (3.822 aC), Gêmeos (5.982 aC), Câncer (8.142 aC), Leão (10.3102 aC.). Estamos hoje na terceira e última fase da era de Peixes, que começou no ano de 1.938. 

As eras cósmicas são a própria memória do mundo. Os ciclos precessionais, que as determinam permitem-nos interpretar a história da humanidade já que marcam elas o aparecimento de raças, nações e religiões. Determinam inclusive o nascimento, a ascensão e a morte de uma raça raiz. O grande ano zodiacal de 25.920 anos se divide em quatro períodos (estações) de 6.480 anos, formados cada um por três eras cósmicas. O predomínio da raça ariana teve início quando o Sol ingressou na constelação de Áries, em 1.662 aC, e se estenderá até 4.818 dC, nele se incluindo as eras de Peixes e de Aquário. No período anterior ao do domínio da raça ariana, tivemos a evolução, a ascensão e a decadência da chamada raça atlante, durante as eras de Câncer, Gêmeos e Touro. 


GRAHAM   HANCOCK
As mais antigas referências que temos sobre Virgem nos apontam para um período muito recuado, a-histórico, anterior ao ano 10.000 aC. Foi por esse tempo, quando o Sol transitou de Virgo para Leão, como está hoje comprovado por pesquisas arqueológicas conduzidas por Graham Hancock e outros, que antigos povos, habitantes da região que mais tarde receberia o nome de Egito, levantaram um monumento para celebrar tal passagem. Refiro-me à esfinge de Gizé, uma estátua de pedra calcária, uma figura mítica, formada pela cabeça de uma mulher e por um corpo de leão com asas de águia. 

ESFINGE   DE   GIZÉ
DEMÉTER
( J.A.WATEAU , 1770 - 1718 ) 
Estudos recentes (séc. XX), contrariando o que a egiptologia tradicional sempre defendeu erroneamente, comprovaram que a parte humana da estátua era a cabeça de uma deusa das colheitas, a deusa Ísis, irmã e esposa de Osíris, associada mais tarde por Heródoto à deusa Deméter, dos gregos, e à deusa Ceres, dos romanos. Ela era representada nesta forma como uma mulher de porte majestoso segurando na mão um maço de ramos de trigo que ela teria lançado nos céus para formar a Via Láctea. Nas histórias que os egípcios nos contam sobre ela, uma variante nos diz que, desgostosa com o comportamento dos humanos, ela  se retirou da terra numa idade que corresponderia à da Idade da Prata da mitologia grega.

Uma das melhores maneiras de se apreender as principais características do signo de Virgem está na analogia, na solidariedade, que há  entre a mulher e a agricultura. Esta solidariedade pode ser descrita, num primeiro momento, através da aproximação da fecundidade da terra,  da  capacidade geradora do elemento feminino, aproximação fundamental para que seja possível a aquisição de uma consciência de que a vida, a morte e o renascimento são interdependentes.


MÃE DOS CEREAIS
No cenário “agrícola” do signo de Virgem as suas características mais marcantes estão certamente no poder da colheita e na destinação do que se colheu. Inúmeros ritos e costumes, ao logo da história do homem, atestam estes poderes. Eles sempre foram vistos como uma força sagrada e representado por figuras míticas. Quaisquer que sejam os modelos, eles giram invariavelmente em torno da figura de uma Grande Mãe, chamada geralmente de Mãe do Milho, Mãe do Trigo, Mãe dos Cereais etc.  

Em muitas tradições, desde tempos pré-históricos, era comum o sacrifício de seres humanos por ocasião das colheitas. Na mitologia grega, por exemplo, as reminiscências deste rito estavam em certas passagens míticas. Uma história grega nos fala de Litierses, um filho bastardo do rei frígio Midas. Ele possuía muitas terras, inteiramente ocupadas pela cultura do trigo. Era conhecido como o ceifeiro maldito. Sempre que, no tempo das colheitas, um estrangeiro passasse pelos seus domínios ele lhe dava hospedagem e o convidava a segar o trigo. Este convite era um desafio, uma competição. Se o estrangeiro ceifasse o trigo mais rapidamente que ele poderia ir embora. Se não, o que sempre acontecia (Litierses era imbatível na ceifa), ele o matava, decapitando-o, e lançava o corpo da vítima despedaçado nos campos. Esta história termina quando Hércules, a serviço da rainha Ônfale, foi incumbido de enfrentá-lo. Nosso herói o venceu e o decapitou.  


OS   CEIFADORES  ( PIETER  BRUGHEL , 1565 )

Evidentemente, o que temos aqui, por trás do mito, é o costume antiquíssimo do sacrifício de uma vítima humana para a regeneração da força manifestada na colheita, um sacrifício no qual se repete o ato que deu vida aos grãos (para que algo nasça é preciso que algo morra). O homem primitivo, compreenda-se, viveu durante milhares e milhares de anos na ansiedade quando das colheitas, pois poderiam esgotar as forças geradores da terra. Além disso, havia o medo de que o Sol não voltasse quando de sua viagem hibernal, que a própria Lua, tão próxima, também resolvesse desaparecer ou que a semente, por uma razão qualquer, não vingasse. Daí, o costume de se oferecerem as primícias (os primeiros frutos) para ser tentada uma reconciliação com todas estas forças que agiam no interior da terra e nos frutos como também para ser obtida a permissão de consumir os produtos obtidos sem risco nenhum. 


HÓRUS  ,  OSÍRIS ,  ÍSIS 

Embora Ísis, devido à sua enorme popularidade entre os egípcios assimile traços de outras deusas gregas (Hera e Afrodite) é com Deméter que ela mais se identifica. A história desta deusa nos foi contada por Plutarco, historiador grego. Revela-nos ele que ela era filha de Geb e de Nut. O primeiro lembra o Kronos grego e a outra, Reia, ambos, titânidas, filhos de Urano e de Geia, que formam as divindades regentes da segunda dinastia da mitologia grega. Ainda muito jovem, Ísis foi escolhida por seu irmão Osíris para ser sua esposa. Dessa união nascerá Hórus, que, com os pais, constituirá a grande tríade religiosa egípcia.   

NA  RODA  DE  FIAR
( CORNELIS KOPPENOL )
Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos (entre os egípcios, diz-se de cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil , que compreendia doze meses de 30 dias cada um; epago, em grego, quer dizer levar, transportar). Subindo ao trono com seu irmão mais velho, ela o ajudou na sua obra civilizadora, ensinando às mulheres a fiar o linho e tecer; ela também ensinou aos homens a arte da cura de doenças e os inspirou a viver em núcleos familiares, instaurado a cerimônia matrimonial (vínculo ritual pelo qual a mulher se torna mãe). 


ÍSIS

Como Osíris viajava muito, ocupado com o seu culto (conquista pacífica do mundo), Ísis se tornou a regente do país, sempre governando sabiamente. Imensa foi a sua dor quando tomou conhecimento do assassinato de Osíris por Seth, o Violento, irmão de ambos. Cortou os seus cabelos, rasgou as suas vestes e partiu à procura no rio Nilo da arca onde, segundo soubera, o corpo despedaçado do marido estava encerrado. Levada pela correnteza do rio até o mar, a arca chegou à costa fenícia. Numa praia, a arca foi ter a um tronco oco de um tamárix, nele se alojando, sem nenhum sinal exterior de sua presença nele.

A esse tempo, o rei de Biblos estava construindo um palácio e muitas árvores eram abatidas. Uma delas foi este tamárix, usado para escorar o teto da edificação. Logo se espalhou a história que desse tronco se desprendia um perfume estranho. Chegando tal história a Ísis, ela logo se dirigiu ao local. Sem revelar quem era,
ASTARTE
conseguiu se fazer receber pela rainha Astarte, que lhe confiou seu filho recém-nascido, tornando-se Ísis assim a ama da criança. Enquanto esperava uma oportunidade para se aproximar melhor do tronco da árvore, Ísis cuidou do jovem príncipe. A criança, todas as noites, era purificada por ela, segundo determinados ritos de calcinação, cujo objetivo era o de torná-la imortal. A rainha, contudo, a surpreendeu numa noite quando da prática de  tal rito. Nesse momento, Ísis revelou quem era e o motivo da sua vinda a Biblos. Obteve logo o tronco da árvore, abriu a arca, vertendo copiosamente suas lágrimas sobre os restos de Osíris, e, levando a arca para o Egito,  escondeu-a numa região pantanosa, para afastar a possibilidade de Seth encontrá-la. Nem todas as partes do corpo de Osíris, entretanto, estavam na arca. Seth, para impedir a reconstituição do corpo do irmão, distribuíra, por vários lugares, em catorze pedaços, o seu restante, pretendendo, com isso, aniquilá-lo para sempre. 

Sem se desesperar, Ísis se pôs a procurá-los, encontrando todos, menos o pênis, que um peixe do rio havia devorado. A deusa começou então cuidadosamente a recompor o corpo; ajudada pela sua irmã Neftis, por seu sobrinho Anúbis, por Toth, o vizir do
EMBALSAMAMENTO
defunto, e por Hórus, seu filho póstumo, que ela havia concebido unindo-se ao cadáver de seu marido, magicamente reanimado por seus encantamentos. Ísis praticou pela primeira vez, os ritos de embalsamamento, que proporcionaram ao deus assassinado uma vida eterna. Depois de tudo isso, a deusa se retirou e para escapar da fúria de Seth refugiou-se nos pântanos, a fim de educar seu filho Hórus, até que atingida por ele a idade adequada para poder vingar o pai. 

Graças à proteção e aos encantamentos da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos. A deusa era detentora de uma magia que astuciosamente obtivera do deus Ra, quando a seu serviço. Tal aconteceu quando Ra, tomando a forma de um velho de membros trêmulos e de boca babosa, vindo a perambular pelo mundo dos mortais. Ísis, usando terra impregnada da baba do deus, fabricou uma serpente venenosa, que, colocada no caminho do velho deus, o mordeu. Incapaz de se curar, Ra teve que recorrer à deusa, que o salvou. Foi nessa ocasião que Ísis, segundo o mito, se apoderou do nome secreto de Ra, conquista que lhe permitiu estender o seu poder por todo o universo, sendo adorada, por isso, em todo o mundo mediterrâneo, como deusa suprema e universal. Mãe da natureza, dos elementos, divindade tutelar dos manes, tornou-se Ísis o centro de vários círculos esotéricos, sendo considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e do renascimento. Passou ela a personificar desde então a anima universal, e, quanto ao mundo masculino, a somatória de todas as tendências femininas do seu psiquismo.  


TEMPLO   DE   PHILAE

Ísis, no mito osiriano, representa a terra fértil do Nilo, fecundada anualmente pelas cheias do rio, isto é, por Osíris, que separa dela Seth, o deserto. Seu culto não cessou de crescer em importância, a ponto de praticamente apagar o de todas as demais deusas. Ultrapassando as fronteiras do Egito, foi o seu culto levado por viajantes e comerciantes para o mundo greco-romano, de onde alcançou as margens do rio Reno, na Germânia. Nas margens do Nilo, ela conservou seus fiéis até o séc-IV dC. Somente no séc. VI, sob o reino de Justiniano, que o templo de Philae, seu principal santuário no extremo sul do país, foi fechado e transformado em igreja católica. 


APULEIO
As festas em honra a Ísis eram celebradas na primavera e no outono, como, aliás, as dos Mistérios de Elêusis, na Grécia. As descrições que Apuleio (escritor latino do séc.II dC) nos deixou sobre as majestosas procissões em sua homenagem podem nos dar, ainda que muito imprecisamente, algumas informações sobre os seus ritos iniciáticos (isíacos). Ísis sempre foi representada como uma mulher majestosa, levando na cabeça uma espécie de coroa estilizada, um ideograma de seu nome. Aparece a deusa às vezes ostentando um disco na cabeça; em outras ocasiões, lembra a deusa Hathor, pelo seu teriomorfismo (cabeça de vaca). Seu emblema era
CRUZ   ANSADA
um nó mágico de nome Tat, chamado nó de Ísis, ou cruz ansada, uma união simbólica do céu e da terra,  e o sistro (trombeta aguda), também símbolo de Hathor.  A escultura e a pintura a representam geralmente ao lado de Osíris, a quem dá assistência e protege, o mesmo fazendo também, de um modo geral, com todos os mortos, com seus braços abertos, como asas. Em algumas representações, aparece chorando ao lado dos sarcófagos ou velando os vasos canopos, onde se guardavam as vísceras dos mortos. Numa outra forma, aparece aleitando Hórus ou o protegendo quando de suas lutas contra Seth.



ÍSIS   ALEITANDO   HÓRUS

Uma grande semelhança pode ser apontada entre Ísis, nas representações em que aparece segurando Hórus, como puer aeternus, nos seus braços, e Perséfone, que, na segunda fase dos Mistérios de Elêusis, a epopteia, carrega num dos braços Brimo, o mesmo puer aeternus, e numa das mãos um feixe de trigo. Ligado a Atenas pela chamada Via Sacra, o santuário de Elêusis estava sob a tutela de Deméter (Grande Mãe) e de Koré, sua filha, divindades do mundo vegetal e de seus ciclos. Elêusis foi sempre um teatro de cerimônias iniciáticas, cujos ensinamentos, de caráter absolutamente esotérico, não podiam ser divulgados sob pena de morte, pena que era também aplicada àqueles que, não iniciados, resolviam ingressar no santuário sagrado. 


ELÊUSIS

Os vestígios desse santuário podem ser hoje visitados no alto de uma acrópole que domina o golfo de Elêusis e a ilha de Salamina. É de se salientar que arqueólogos ingleses e franceses pesquisaram o local no séc. XIX. A partir do fim do período romano da história grega e da imposição do cristianismo como sua religião oficial, as majestosas instalações do santuário entraram em decadência, ficando o lugar cercado por uma topografia confusa, mas envolvendo-o sempre, ainda hoje, um halo de sopro espiritual ao qual se misturam a poluição proveniente de uma estrada cujo trânsito é bastante pesado. À volta das ruínas, algumas flores, lembranças de um tempo em que elas se espalhavam por toda a região, hoje substituídas por “florescentes” usinas.  

Segundo a mitologia, foi em Elêusis que Deméter encontrou a sua filha Koré, que fora raptada pelo deus Hades perto do lago de
GRÃOS  DE  TRIGO
Pergusa, na Sicília. O rei de Elêusis, Keleos, tendo oferecido hospitalidade à deusa, ela, em agradecimento, deu a Triptólemo, filho do soberano, o primeiro grão de trigo  e lhe ensinou a arte de fazê-lo frutificar. Uma estela do séc. V aC, encontrada em Elêusis, hoje no Museu Arqueológico de Atenas, ilustra a doação da deusa ao jovem príncipe. Simultaneamente, Deméter teria comunicado ao grão-sacerdote Eumolpo o ritual do culto da fecundidade.

Deméter, como se disse, era a deusa do trigo, da fecundidade dos campos, e sua filha Koré, tendo assumido a posição de deusa do mundo ctônico devido às “artes” de Hades, como Perséfone, acolhia os mortos quando lá chegavam. Este culto, sem dúvida, tem origem, num primeiro momento, no Egito e, depois, no mundo cretense e egeu, por onde se introduziu na Grécia. O culto que se celebrava no interior do santuário era reservado só aos iniciados, sendo, porém, franqueadas a todos  as festas que se realizavam exteriormente. 

Inicialmente, um culto agrário de fecundação da terra, os Mistérios eleusinos se tornaram, possivelmente sob a influência do orfismo, uma espécie de terapia coletiva, embora alguns o vissem como uma religião de salvação. Os Mistérios, principalmente devido à relevante participação de Dioniso, estavam abertos a todos, sem distinção de classe ou de sexo, mesmo os escravos nele eram admitidos se originários de colônias gregas, tudo muito diferente dos cultos apolíneos, de caráter aristocrático. Os bárbaros, inclusive, poderiam deles participar se se naturalizassem. 

A pessoa que quisesse se iniciar deveria se apresentar a um funcionário sacerdotal através de um ateniense já iniciado. Este funcionário assumiria então a condição de mistagogo (professor) perante o candidato. Aceito, participaria então o candidato dos Pequenos Mistérios, em Agra, que começavam por uma purificação no rio Ilyssos. Ao logo dos seis meses seguintes os candidatos iam
ELEUSINION
se tornando mystai (iniciados). No outono, tinha início a segunda fase, a dos Grandes Mistérios, que começava em meados de setembro, segundo o nosso calendário. No dia determinado, alguns efebos iam a Eleusis buscar os hiera, objetos sagrados (de composição ignorada para nós), que, no dia seguinte, deveriam ser levados em procissão a um templo de Atenas, o Eleusinion, em procissão com muita pompa.  

No dia seguinte, chamado ogyrmos (reunião), todos se reuniam sob um pórtico de Atenas e o arconte-rei, numa oração, conclamava a que se afastassem dali todos aqueles que, por qualquer razão, estavam impuros, manchados por um crime qualquer, ou marcados pela atimia (privação dos direitos de cidadania), Depois, iam todos
ASCLÉPIO
ao mar para outra purificação, sacrificando-se em seguida uma leitoa ainda em fase de aleitamento (khoiros, nome também do órgão genital feminino). Nos dois dias seguintes realizavam-se as festas em honra a Asclépio, dentro do calendário eleusino. No dia 19 de setembro, à noite, tinha lugar a grande procissão noturna que levava os hiera de volta a Elêusis, tudo sob a tutela de Dioniso, o deus das metamorfoses. A saída de Atenas se dava pelo cemitério da cidade, chamado 
Cerâmico (bairro onde viviam e trabalhavam oleiros, ceramistas etc.). 


CERÂMICO

Pela região de Agra, fora dos limites de Atenas, território pequeno, mas muito rico (plantações de trigo e centeio), seguindo a Via Sacra, atingia-se ao cair da noite, depois de muitas paradas, com danças e sacrifícios, o território sagrado eleusino, atravessando-se a ponte do rio Cefiso, que separava o profano do sagrado. Essa travessia era marcada por gritos e expressões chamadas geferismos (gephyra, ponte) que incitavam os mystai a atravessar o rio Cefiso, que, como se disse, separava o mundo profano do mundo sagrado, o do santuário.  

As cerimônias que se realizavam estão constituíam a primeira fase dos Grandes Mistérios, a chamada teleté (tele, em grego, é longe; uma referência aos que tinham feito a viagem). Era o primeiro grau da iniciação. Sob a tutela de Dioniso, esta fase se compunha de uma orgia (cantos, danças e bebida, o kykeon), através da qual se atingia um êxtase (sair de si) e se chegava finalmente ao entusiasmo (deus em nós).

Os depoimentos sobre estas experiências afirmam unanimemente que elas lembravam o caminho titubeante das almas nas trevas, presas de inúmeros terrores. Subitamente, porém, como que atingidas por uma intensa luz as almas se sentiam livres, passando a descortinar paisagens maravilhosas, campos férteis. Essas concepções têm forte conotação órfica ou egípcia, segundo seus costumes funerários, conforme Platão notou. 

PERSÉFONE
A segunda fase dos Grandes Mistérios, realizada no interior do templo (Telesterion), tinha o nome de epopteia (a grande visão). Lá, na obscuridade, representava-se uma pequena encenação teatral, a procura de Koré por Deméter e o retorno da primeira à luz, uma simulação dos desencontros da alma e o seu retorno. Aparecia na encenação, segundo depoimentos, uma enorme figura feminina (Perséfone), com ramos de trigo nas mãos, e carregando num dos braços uma criança, Brimo, o puer aeternus, a vida que sempre renascia, mas sempre de outro modo. Nestes espetáculo os sacerdotes conclamavam os mystai a se abrirem para uma outra forma de vida pois “agora eles haviam visto”, isto é, haviam se tornado epoptes.

sábado, 24 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (2)


Há mais de 5000 anos, o culto às Grandes Mães, ligados à vida vegetal e à agricultura, se estabeleceu praticamente em todas as tradições religiosas, no mundo todo. Como divindades,
GRANDE MÃE
simbolizavam tanto a vida como a morte. Nascer era sair da matriz, morrer era retornar a ela, à terra-mãe. O arquétipo maternal foi sendo construído, dele fazendo parte ideias de origem, natureza, criação passiva, corpo físico com os seus os aspectos instintivos, impulsivos e fisiológicos. Esse modelo maternal tinha (tem)  a ver também com o inconsciente, com a obscuridade noturna e angustiante, ao mesmo tempo protetora e nutricional, lembrando saciedade, segurança, carinho, amor, calor, compreensão. Sendo proteção e refúgio, a mãe foi elevada à condição de primeiro objeto de amor da criança e também o seu primeiro ideal,  fundamento inconsciente de todas as imagens de felicidade, verdade, beleza, perfeição, como as Virgens com o Menino (Madonas), em momentos históricos como o Renascimento, passaram a simbolizar.



MADONA  (GEROLAMO D. POMPEO)

Ao se desligar do ambiente familiar, no qual  a experiência materna normalmente é preponderante, ou mesmo antes desse desligamento, o ser humano tinha, porém, que enfrentar certos problemas, englobados sob o nome de processo de socialização, aprender a se relacionar com outras pessoas, constituir com elas uniões mais ou menos formais, nas quais o diálogo entre o racional, o afetivo e o emocional era sempre difícil. Um diálogo muitas vezes dificultado porque, embora destacado da influência materna fisicamente, o ser humano continuou dela dependente psicologicamente, a se alimentar dela, de valores herdados de seu mundo familiar. 

No panteão de todas as tradições mitológicas há uma divindade feminina que tutela esse processo. É conhecida como deusa do amor, da vida afetiva, da sedução, personificação do princípio passivo da geração, que age sob diversas formas. A água é a sua essência. Neste sentido, ela será a dispensadora da voluptuosidade que atrai pela perspectiva de uma existência langorosa, sensual, terna, prazerosa, que rejeita o bruto, o rude, o violento. De um modo geral, a Grande-Mãe, agindo através desses princípios, é proposta de união, feminilidade, doçura, harmonia, sentido interno de equilíbrio, que se manifesta como encanto e viva intimidade.  


ISHTAR

Uma das mais antigas representações desse modelo é a deusa Ishtar, da mitologia assiro-babilônica, filha de Sin, segundo uns, ou de Anu, segundo outros. Sin era o deus da Lua, ocupando o primeiro lugar na trindade astral, dela fazendo parte os seus filhos Shamash, o Sol, e Ishtar, o planeta Vênus. Os assiro-babilônicos, muito logicamente, faziam a luz provir da noite, daí a razão da proeminência de Sin. Sua esposa era Ningal, a Grande Dama, a Lua fisicamente considerada.


ANU

Anu, nome que significa céu, reinava sobre os espaços celestes, nele residindo, nas regiões mais elevadas. Era, por excelência, a divindade suprema. Todas as demais o honravam como pai, e era junto dele que todas vinham se refugiar quando algum perigo as ameaçava, como no caso do dilúvio. Vivia em companhia da deusa Antu.

Ishtar, nos textos poéticos, era de deusa das manhãs e do entardecer e personificava, como tal, o planeta Vênus. Era um modelo muito complexo, que chegava a reunir, como acontecia em Suse, por exemplo, uma dupla natureza, feminina e masculina. No geral, porém, Isthar representa a polaridade feminina. Os povos árabes farão dela, todavia, uma divindade masculina, o deus Atthar. 

A mesma complexidade está presente nos atributos da deusa, segundo a consideremos filha de Sin ou de Anu, podendo ser tanto deusa do amor como da guerra. A Ishtar guerreira, venerada sobretudo em Hallab, é filha de Sin e irmã de Shamash. Será neste caso a dama das batalhas, a mais intrépida entre os deuses. Ela conservou estas características quando foi adotada pelos assírios. Tendo se tornado esposa de Ashur, ela o seguia nas expedições, tomava destacadamente parte nas batalhas. Era representada sempre de pé, ereta, conduzindo um carro puxado por sete leões e tendo um arco preso ao corpo.  Sob este aspecto guerreiro recebia também o nome de Anunit em Agadé, capital da Acádia. Irmã de Ereshkigal, a soberana dos infernos, ela contribuiu bastante para povoar o mundo de sua irmã, conhecida como o “astro das lamentações”.




Em outras regiões (Erech), ela era conhecida como a deusa do amor e da volúpia, dos prazeres sensuais. Nesta condição, contudo, podia se mostrar muito irritada, violenta mesmo, incapaz de aceitar qualquer recusa à sua vontade. Chegava  a ameaçar os outros deuses, inclusive seu pai, Anu, de mandar todos para o inferno se suas vontades não fossem satisfeitas. Afirmava, inclusive, que, se as portas do inferno não se abrissem prontamente quando resolvesse visitá-lo, as destruiria, libertando os mortos, que assim poderiam atacar os vivos. É esta deusa, entretanto, que espalha por todo o mundo humano e animal o desejo amoroso, provocando as uniões. 


PROSTITUIÇÃO SAGRADA

A prostituição sagrada fazia parte de seu culto; ao visitar a terra, vinha sempre acompanha de um ruidoso séquito de cortesãs, de prostitutas e de “mulheres alegres”. Ishtar, nesta condição, ostentava o título de cortesã dos deuses, sempre ávida de explorar a  sua sensualidade e sexualidade ao máximo. Seus amantes são incontáveis e ela os escolhe ao seu bel prazer, em todos os níveis, divinos e humanos. Infelizes, porém, aqueles que ela distinguia com a sua escolha. Inconstante, Ishtar tratava seus amantes cruelmente, amando-os sofregamente num dia para, no dia seguinte, abandoná-los sem nenhum explicação. E ai daqueles que ousassem pedir alguma explicação. Maltratava-os, torturava-os, chegando mesmo a matar alguns. Afirmava a deusa que os humanos que se submetiam ao amor perdiam o seu vigor natural, pois neste caso o seu desejo se esvaziava de todo elã. Assemelhavam-se assim os humanos a animais que se deixavam domesticar. Se sob a influência funesta da paixão e do ciúme, não passavam, por outro lado, de bestas selvagens. 

Mesmo para os deuses, os favores amorosos de Ishtar eram perigosos. Em sua juventude a deusa havia amado Tamuz, o deus da vegetação e das colheitas, um amor que causara a perdição da jovem divindade. Tamuz, também chamado de Dumuzid, era filho
NIN GISHZIDA
de Nin Gishzida, divindade subterrânea, patrono da medicina e ligado à fertilidade. Nin Gishzida etimologicamente significa “o da boa árvore”, isto é, “aquele que favorece o crescimento correto das árvores”. É conhecido também como o senhor do Mercúrio, representado muitas vezes como uma serpente com dois chifres na cabeça. O grande símbolo de Nin Gishzida era, contudo, uma espécie de bastão no qual, copulando, se enrolavam duas serpentes. Este símbolo é, sem dúvida, o modelo do qual saíram o caduceu de Hermes e os bastões maravilhosos de Asclépio, de Moisés e de seu irmão Aaron.


TAMUZ-DUMAZID
Tamuz, na Suméria, tinha o nome de Dumazid, sendo Ishtar chamada de Inana (na Suméria, Astarte). As cerimônias fúnebres em homenagem a Tamuz-Dumazid alcançaram todo o Oriente Próximo, chegando mesmo a Israel, celebradas inclusive em Jerusalém, para desgosto do profeta Ezequiel, conforme mencionado na Bíblia hebraica. Pesquisas arqueológicas confirmaram que a Igreja da Natividade, em Belém, foi construída pelos cristãos num local (caverna) em que anteriormente se celebravam cultos a Tamuz.



IGREJA DA NATIVIDADE

Amado por Ishtar, Tamuz, por uma razão misteriosa e involuntária, teve que morrer. Tal como a espiga, que a foice do camponês ceifa em seu maduro e dourado esplendor, Tamuz foi constrangido a descer às profundezas infernais. Desolada pela morte de seu amante, Ishtar cantou a sua dor em dolorosas lamentações, entoada em meio a coros rituais de mulheres que choravam e se martirizavam. Esta tradição se perpetuou por todo o mundo semítico da Ásia Menor e, a cada ano, quando das colheitas, nos ardores do verão, a terra perdia o revestimento de suas plantações, deplorava-se a morte de Tamuz. 

Estas festas fúnebres foram levadas para o mundo mediterrâneo e dali para a Grécia por viajantes, peregrinos, comerciantes e marinheiros, onde, com algumas adaptações, passaram a ser celebradas através de Afrodite (Ishtar), Adônis (Tamuz) e Ereshkigal (Perséfone). Adônis, lembre-se, é nome que vem de um título semita, “Adon” (Senhor).


ERESHKIGAL

Descendo ao mundo infernal, o “lugar de onde ninguém volta”, para retirar de lá o seu grande amor, Ishtar, depois de ter forçado com sucesso os portões da mansão dos mortos, percorreu os sete níveis que a separavam da terra. Em cada uma destas etapas, foi largando uma peça de sua roupa e adereços: primeiro a grande coroa que ostentava, depois, sucessivamente, os seus maravilhosos brincos, seus colares, o boustier que lhe cobria os seios perfeitos, seus braceletes, pulseiras, o cinturão onde cintilavam pedras preciosas, até que, finalmente, já na presença de Ereshkigal, retirou última peça, a “veste do pudor”, ficando completamente nua.

A soberana do mundo infernal ordenou que seus auxiliares a prendessem numa dependência do palácio, soltando, para atacá-la os sessenta gênios das doenças. Ausente Ishtar, a superfície da Terra se cobria de tristeza e de desolação. Os deuses começaram a se movimentar para libertá-la. Ea (etimologicamente Casa da Água, uma espécie de Poseidon), divindade das águas (o chamado reino de Apsu) que envolviam e davam suporte à Terra, criou o efeminado Asushunamir e o enviou ao inferno, fornecendo-lhe palavras mágicas para vencer Ereshkigal. 

Ishtar pode assim fazer o seu caminho de volta, recuperando toda a sua roupa e as suas jóias. Acompanhava-a Tamuz, que, vestido cerimonialmente, tocava a sua maravilhosa flauta de lápis lazúli com braçadeiras de azeviche, proporcionando momentaneamente alguma alegria às almas sofredoras que viviam no reino infernal.


SARGÃO 

Apesar de seu temperamento agressivo, o coração de Ishtar podia ser generoso. Quando agia com bondade, fazendo jus ao significado
ASTARTE
de outro nome seu, a “Benevolente”, inúmeros mortais foram por ela favorecidos. Muitos reis, por exemplo, deviam-lhe a conquista do trono, sendo um dos mais significativos exemplos nesse sentido o do rei Sargão, de Agadé. Aqueles a quem a deusa amava recebiam dela também um carinhoso tratamento filial. Soberana do mundo pela via amorosa, Ishtar foi a deusa mais popular da Assíria e da Babilônia. Seu prestígio era imenso. Sob o nome de Astarte, reinou na Fenícia e muitos dos traços de sua personalidade podem ser encontrados na Ísis egípcia e na Afrodite grega.





Ísis (transcrição grega de Iset), deusa egípcia, foi associada pelos gregos a Selene, Deméter, Hera e Afrodite, conforme o ângulo que de sua personalidade tenha sido salientado. O que se sabe é que essa deusa, que aos poucos absorveu todas as características das
ÍSIS
mencionadas deusas, era, na sua origem,  uma divindade modesta do delta do Nilo, sendo seu culto celebrado num lugar chamado Per Hebet (literalmente, lugar do festival da deusa). O templo de Ísis neste lugar passou a ser conhecido, no tempo dos romanos, pelo nome de Isísdis Oppidum. No norte, Ísis possuía um templo famoso em Busíris, centro de um fervoroso culto prestado a Osíris, seu irmão e esposo. Desde cedo, Ísis aparece ligada a Osíris, com o qual ela formará uma tríade, dela fazendo parte Hórus, filho de ambos. Esta tríade logo se tornou extremamente popular, conforme nos conta Plutarco, o grande historiador grego.     


Primeira filha de Geb e de Nut, aquele identificado por Plutarco como Cronos e a esta como Reia (o segundo casal da Enéada
OSIRIS E ISIS
egípcia), Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos nos pântanos do delta do Nilo (dia epagômeno era cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil que compreendia 12 meses de trinta dias cada um). Escolhida como esposa por seu irmão mais velho Osíris, prestou-lhe grande auxílio na obra civilizadora do país, ensinando às mulheres a moer os grãos, a arte da tecelagem, transmitindo inclusive aos homens as artes da cura, e dando a ambos, homens e mulheres, a base da convivência social através da vida em família, sendo a responsável pela instituição do matrimônio.


SETH
Regente do Egito durante a ausência de seu marido que partira para a conquista pacífica do mundo, governou sabiamente o país, aguardando o seu retorno. Imensa, porém, foi a sua dor quando recebeu a notícia da morte de Osíris, assassinado pelo seu irmão Seth, o violento. Cortou então os seus divinos cabelos, rasgou as suas vestes e partiu em busca do seu amado esposo, cujo corpo havia sido encerrado numa arca lançada às águas do Nilo. Levada para o grande oceano, foi a arca, empurrada pelas ondas até as costas da Fenícia, encalhando num grande arbusto (tamarisco), que cresceu rapidamente. Com tempo, a arca acabou sendo absorvida pelo tronco da árvore e por suas raízes, fundindo-se com o lenho do grande vegetal.

Abatido por ordem de Malcandre, rei de Biblos, o tronco do tamarisco foi transformado em coluna, usada na reparação dos telhados do palácio real. Aos poucos, começou a se espalhar a notícia de que um penetrante perfume exalava do tronco. Ísis tomou conhecimento da história, e, compreendendo o seu significado, sem perda de tempo, dirigiu-se ao palácio do rei de Biblos. Sem revelar sua condição, foi recebida pela rainha Astarte, que acaba de dar à luz uma bela criança. Ísis logo se afeiçoou ao pequeno príncipe, cuidando dele como aia, com o assentimento e reconhecimento da mãe. Certo dia, atraída pelo choro da criança, Astarte entrou no quarto do menino e surpreendeu Ísis a banhar seu filho nas chamas purificadoras de uma lareira. Para tranquilizá-la, declarou que pretendia imortalizá-lo, revelando seu nome e o motivo de sua presença em Biblos. Reverenciada então, Ísis recebeu a coluna de tamarisco, dela se retirando a arca onde o corpo de Osíris se encontrava. Levando a arca para o Egito, Ísis a escondeu nos pântanos de Buto, para evitar que o monstruoso Seth a encontrasse. Este, contudo, não se sabe como, conseguiu se apoderar da arca e, para aniquilar completamente o que restava de Osíris, resolveu despedaçar seu corpo em catorze pedaços, que foram dispersados por várias partes do país.


TAMARISCO

Sem desanimar, Ísis pôs-se então a procurar os pedaços do corpo de Osíris. Encontrou-os todos, com exceção de seu membro fálico, que um peixe do Nilo, o oxirrinco, maldito para sempre por este crime, havia devorado. Ísis, então, reconstituiu o corpo de seu marido, juntando os pedaços cuidadosamente. Ajudada por sua irmã Nephthys, por seu sobrinho Anúbis, divindade que atuava na psicostasia, por Toth, o vizir do defunto, por Hórus, seu filho póstumo, ela praticou pela primeira vez os ritos de embalsamamento, pelos quais Osíris ganhou a vida eterna. A seguir, Ísis se retirou, escondendo-se na região pantanosa de Buto, para escapar da fúria de Seth e para cuidar da educação de seu filho, preparando-o para vingar a morte do pai. Graças às artes mágicas da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos até se tornar adulto.


ÍSIS E HÓRUS

Efetivamente, Isis era perita nas artes mágicas e os próprios deuses poderiam ser por ela atingidos. Durante o tempo em que esteve a serviço de Ra, grande divindade solar, ela conseguiu obter dele subrepticiamente seu nome secreto, que ninguém conhecia. Aproveitando-se da decrepitude do velho deus, ela criou, com uma mistura de terra e de saliva divina, uma serpente venenosa que poderia matar tudo o que existisse com a sua picada, inclusive os deuses. Colocando-a no caminho do trôpego Ra, a serpente o atacou-o mortalmente. Foi nesse momento que Ísis, segundo o mito, obteve dele o seu nome mágico, resignado-se então o deus solar, curado por ela, a abdicar em nome da tríade osiriana.


CHEIA DO NILO

Ísis, nos cultos osirianos, representa as cheias do rio Nilo e, como tal, é identificada com as terras férteis do Egito. Uma mistura de terra e água, portanto, elementos passivos. Osíris intervém como a fecundação solar, separando-se assim Ísis de Seth, símbolo do deserto árido. O culto de Ísis se espalhou rapidamente por todo o Egito, suplantando todos os das demais deusas. Alcançou inclusive as terras estrangeiras, levado por mercadores e viajantes do mundo greco-romano, chegando às margens do rio Reno, na Europa germânica, como estrela do mar e guia dos viajantes.

No vale do Nilo, seus cultos se estenderam até os primeiros séculos
APULEIO
da era cristã. Somente no séc. VI, sob o reinado do imperador Justiniano, é que seu santuário de Philae, no extremo sul do país foi fechado, transformando-se o templo em igreja. As festas em homenagem a Ísis eram celebradas sobretudo na primavera e no outono. Quem nos deixou registros sobre elas, as esplêndidas procissões que então se realizavam, foi Apuleio, um iniciado nos Mistérios Isíacos, falando-nos ele inclusive das cerimônias secretas de iniciação. 


As representações mais comuns de Ísis no-la mostram como uma mulher que ostenta na sua cabeça, uma espécie de coifa na forma de um sólio, um ideograma de seu nome. Noutras vezes, ostenta na sua cabeça um disco cercado por duas plumas, entre aspas taurinas.
HATOR
A terceira forma a apresenta como uma mulher com uma cabeça de vaca. É por este componente animal de sua imagem que Ísis é associada à deusa Hathor, deusa do amor e da alegria, na qual os gregos viam a sua Afrodite. Outras versões do mito nos dizem que a cabeça de vaca que Ísis ostenta se deve a uma disputa que teve com seu filho, Hórus. Ísis teria intercedido a favor de Seth, também seu irmão, quando de seu julgamento pelo assassinato de Osíris. Hórus, num acesso de raiva, teria decepado a cabeça de sua mãe. O deus Toth, com as suas artes médicas, teria lhe dado por isso uma cabeça de vaca.


Qualquer que seja a versão, o certo é que a vaca sempre foi o animal sagrado de Ísis, o que astrologicamente a ligava ao signo de Touro. Como fetiches, fazem parte do mundo de Ísis o nó mágico chamado “Tat” (bem-estar, vida) e o sistro, emblema de Hathor. Aos nós, como se sabe, desde a mais recuada antiguidade, sempre foi atribuído um poder mágico, uma grande força, que permitia fixar o imaterial e de ligar não só o corpo, mas a alma, sendo esta ação benéfica ou maléfica segundo a sua ligação, ou seja, benéfica se a ligação se fizesse com algo bom e maléfica com algo mau. Na medida, porém, em que  significa uma coagulação, o nó é um
NÓ DE ISIS
obstáculo, um constrangimento. Não ter nós significa liberdade, nenhum entrave. Entre os egípcios, o nó aparecia sempre associado à vida: nos hieróglifos, uma corda com um nó designava o nome de um homem ou a existência distinta do indivíduo. O nó de Ísis era muitas feito com o cordão de sapatos, mas podia ser feito com tiras de tecidos, simbolizando sempre a imortalidade. Para impedir que a vida escapasse do corpo, os egípcios levavam, como talismãs, no pescoço, nos pulsos ou nos tornozelos, braceletes, colares, cordões com laços. A estes cordões, em sua maioria, eram dados sete nós para que neles ficassem presos para sempre os sete maus gênios da semana. O sentido maior do nó de Ísis era o da ligação com a eternidade. Já o sistro era uma trombeta aguda usada nos sacrifícios à deusa.  


 Invariavelmente, Ísis era representada ao lado de Osíris, a quem sempre dava assistência. Com seus braços, como asas, protegia também as almas dos mortos ou era vista em imagens chorando ao lado de sarcófagos ou de vasos canopos. Como já se disse, seu culto ultrapassou as fronteiras do Egito. No mundo greco-romano, muitos se converteram à sua fé e mesmo durante os primeiros séculos do cristianismo muitos a ela aderiram. Na Grécia, a essa altura dependente do império romano, na própria Itália, em vários países europeus (Gália, Germânia, península ibérica, ilhas britânicas) Ísis era uma força poderosa.   


CONSTELAÇÃO DA VIRGEM

A estrela Spica (alpha Virginis, 23º 09´ de Libra, hoje) e a constelação que por volta de 4000 aC tinha para os egípcios, mais ou menos, os limites atuais da constelação de Virgo, associavam-se a Ísis, enquanto tal astro se fazia notar nos céus no período da colheita dos grãos. Ísis também aparecia ligada à estrela Sirius (Sothis para os gregos, é a estrela alpha Canis Major, a 13º24´ de Câncer, hoje), enquanto este astro ascendendo no horizonte anunciava as cheias do Nilo e o advento do novo ano. Sothis, entre os egípcios tinha o nome de Sepedet, palavra que lembra algo acerado, em ponta, tomando também o sentido de acuidade, de vivacidade de espírito.   

A flor de Ísis era a rosa, muito usada nos seus Mistérios como símbolo do silêncio exigido pela iniciação e imagem da morte carnal. Noutras vezes, Ísis aparecia com o lótus (nynphaea
A ROSA (MATISSE)
caerulea) e com o sicomoro (fycus sicomorus). Como protetora dos mortos, a deusa era considerada como divindade do renascimento. Além de tudo isto, lembre-se que a magia sempre se constituiu num elemento central nos seus cultos, arte na qual ela superava todas as demais divindades egípcias. Ao final do período histórico do país, Ísis assumia, de modo especial, como a sua maior divindade, quatro funções, curadora, protetora dos vasos canopos e do casamento e senhora da magia. 


A difusão do culto de Ísis ganhou grande impulso quando o país foi conquistado pelos macedônicos (Alexandre Magno), tornando-se ela, no período helenístico, a grande divindade do mundo mediterrâneo. A deusa era a grande protetora dos Ptolomeus que
CALÍGULA
governaram o Egito desde Alexandre. Cleópatra, a última dessa família, considerava-se uma reencarnação da deusa. No mundo romano, a presença de Ísis sempre foi marcante. Com exceção do imperador Augusto, que preferiu os cultos de divindades voltados para o Estado, os demais sempre tiveram grande predileção, como se dizia” pelo “orientalismo” da deusa.  Calígula, por exemplo, assumiu vestes femininas para se iniciar nos seus Mistérios. Vespasiano, Tito e Trajano foram imperadores que promoveram os seus cultos por todo o império, mandando inclusive levantar templos em sua homenagem. A Ísis do período romano tinha títulos como “Rainha do Céu” e “Stella Maris”, dos quais os cristãos se apossaram para dá-lo à Virgem Maria. A imagem de Maria com Jesus criança nos seus braços é uma cópia da de Ísis com Horus na mesma condição   

Os hinos cantados ou recitados nos cultos de Ísis sempre proclamaram o seu poder universal, fazendo dela uma soberana dos três mundos, uma espécie de poder que se irradia por todo o cosmos, alcançando inclusive os elementos e os astros. É por essa razão que alguns estudiosos chegaram a considerar que os cultos de Ísis seriam uma espécie de monoteísmo mitigado, apesar de vários sinais de panteísmo nele encontrados.

Um dos grande divulgadores do culto de Ísis foi, como se disse, Lucius Apuleius Theseus, escritor latino (125-170) que, além de vários tratados filosóficos, fragmentos de discursos e outros textos, nos deixou um romance, As Metamorfoses, chamado às vezes de O Asno de Ouro, no qual nos dá uma imagem muito interessante de
ASNO DE APULEIO
seu misticismo, de sua imaginação, de sua sensibilidade e de gosto pela paródia. Resumidamente, a história nos diz que o herói (Lucius) por ter pretendido obter de uma feiticeira os seus segredos foi transformado num asno. Ele então invocou Ísis como a Lua, sempre ligada à feitiçaria, que lhe prometeu devolver a forma humana se ele comesse umas rosas que alguém estivesse levando para uma festa em sua homenagem. Lucius, para retribuir, deveria se consagrar inteiramente ao seu culto, obtendo inclusive, com isso, até à velhice, uma vida isenta de problemas e depois, na ocorrência, uma feliz estada nos Campos Elíseos. Recuperando a forma humana, Lucius, isto é, Apuleio, nos revela que “o ato de iniciação nos mistérios de Ísis pode ser visto tanto como uma morte voluntariamente assumida como garantia de salvação obtida pela graça.”


Em toda a Idade Média, Ísis aparece em muitos romances que têm por tema a iniciação. Em dois, especialmente, podemos perceber a presença da deusa, no da busca do Graal, mais veladamente, e no Roman de la Rose, mais explicitamente. Em ambos, temos a busca do feminino, que a deusa representa. O Graal, como se sabe, é um
SANTO GRAAL
vaso sagrado que, depois de ter servido a Jesus Cristo na Última Ceia, teria na crucificação recolhido o sangue que jorrava de seus ferimentos. A lenda do Graal, que se integra no imaginário arturiano e o tema dos cavaleiros da Távola Redonda, conhece o seu apogeu com as figuras de Parsifal (Perceval) e Galahad, este último o cavaleiro santo e perfeito. A lenda do Graal é, sem dúvida, uma das grandes ilustrações da busca do feminino, símbolo daquele que recebe uma espécie de mãe espiritual (Ísis) para todos aqueles que se interessam pelos mistérios. É por essa razão que o signo astrológico de Virgem tem estreitas relações com a lenda do Graal. O ego que nasceu no signo anterior, Leão, é recebido em Virgo e preparado para um caminho evolutivo que se abre a partir do signo de Libra. Esta idéias ficam mais claras se lembrarmos que tanto Deméter como Ísis exerceram funções típicas do signo de Virgo (sexta casa), como amas de pequenos príncipes, quando andavam, a primeira, à procura de Kore e, a segunda, à procura do corpo de Osíris.  



PÁGINA DO ROMAN DE LA ROSE

O Roman de la Rose é um romance alegórico francês do séc. XIII, composto de duas partes. A primeira é inspirada em Ovídio e apresenta uma “arte do amor” cortês. Nela, a rosa é o grande elemento da conquista amorosa, pois é dela o “doce falar”. Na segunda, o tom é antifeminista e nele se privilegiam a “razão” e a “natureza”, saberes científicos que ajudem a viver racionalmente, opostos ao amor, que é irracional. A obra teve grande sucesso da Idade Média ao pôr em conflito duas correntes de pensamento, um cortês e refinado e, outro, racionalista e satírico. O Roman de la Rose é, acima de tudo, uma obra didática (seu objetivo é ensinar). A primeira parte é de Guillaume de Lorris e a segunda de Jean de Meung. Este último retoma o poema que o primeiro havia deixado (código do amor cortês) e a ele acrescenta ideias morais, sociais e filosóficas. 

A rosa, como atributo de Ísis, fez do Egito o maior produtor e exportador dessa flor na antiguidade, enquanto símbolo do amor que vence a morte e símbolo religioso enquanto lembrava o renascimento na forma proposta pelos mistérios da deusa, uma espécie de movimento religioso que exigia iniciação (mystes, em grego, de onde vem mistério, é o nome do iniciado). A rosa sempre
esteve, por isso, no Egito, de onde passou às outras tradições, ligada a ritos funerários. Lembre-se que os romanos, como herança egípcia e grega, celebravam as famosas festas, as Rosálias, em muitos lugares da Itália, entre 11 e 15 de maio. No mundo cristão, o domingo de Páscoa era chamado por essa razão de domenica rosata. O uso da rosa nos ritos iniciáticos e funerários deu origem à expressão latina sub rosa, muito empregada em diversos meios esotéricos, podendo ser traduzida como “sob o signo do silêncio”, condição exigida para a transmissão de conhecimentos. Foi por razão semelhante também (a rosa como símbolo da discreção) que os gregos, nos cultos dionisíacos, iam coroados com rosas, já que elas tinham, segundo afirmavam os sacerdotes, o poder de diminuir a excitação provocada pelo vinho. As rosas acalmavam os participantes, tornando-os menos falastrões, mais calmos.  

No início do Renascimento, Ísis será vista como divindade fértil, deusa da vegetação, sendo representada por uma majestosa mulher enxertando um galho novo numa árvore morta, uma metáfora para

sugerir o nascimento de um filho, o que poderá ser visto como um anúncio dos novos ideais humanistas que viriam. Registre-se que no final do séc. XVIII (1791), Mozart apresentava A Flauta Mágica, ópera em dois atos, de inspiração maçônica, em que narra a iniciação de Tamino e de Pamina no culto de Ísis. Ameaçados pelas potências das trevas, eles enfrentarão diversas provas, vencidas pelo herói com o auxílio da sua flauta. Terminada a iniciação, os sacerdotes cantarão: “Glória aos iniciados! Penetrastes nos mistérios sombrios da Noite. Ísis e Osíris aceitai o tributo de nosso reconhecimento. A virtude triunfou. O vício foi vencido.”


No Romantismo, Ísis será vista como a própria natureza, mãe universal, mas que precisa ser desvelada. Esse desvelamento nos fala das chamadas interpretações “noturnas” do mito de Ísis, para que todos os mistérios sejam revelados, isto é, revelar o  que a natureza oculta por trás da sua multiplicidade fenomênica. O herói
romântico, o poeta, ousará, procurará “ver” a verdade, correndo o risco de ser punido, de morrer inclusive. Não é por acaso que Gérard de Nerval (1808-1855) fará do mito de Ísis um dos tema centrais de sua obra. Durante toda a sua vida, Nerval perseguiu a ideia do feminino. Procurou nas mulheres de sua vida a “encarnação” da Santa, da Fada, o eterno feminino que para ele nada mais era do que a alma da própria natureza, chame-se ela Ísis, Cibele, Virgem Maria, Octavie, Aurélia ou  a sua própria mãe. Este sincretismo religioso na obra de Nerval tem a ver com as suas pesquisas sobre a mitologia e cultos antigos. Com base nesses estudos, publicou Voyage en Orient e Les Iluminés. 

Nerval suicidou-se (enforcamento). Em sua obra faz referência às buscas de Apuleio, Dante e Swedenborg (outros que como ele procuraram o “eterno feminino”), convencido que estava de que o sonho ajudava a atravessar as portas que separavam o homem do mundo invisível. Sua experiência literária, em prosa ou poesia, é uma das mais fantásticas aventuras de alguém que procurou encontrar as misteriosas correspondências entre o sonho e a vida. No fundo, um grande desejo de transcendência através do amor pelo “eterno feminino”, que a Grande Mãe personifica, um mergulho em correntes vitais mais vastas que levassem a um enriquecimento cada vez mais amplo. Esse feminino está personificado em várias tradições religiosas como sonho de amor, de felicidade, de generosidade, um absoluto tão poderoso que incita muitas vezes o homem a voltar as costas à realidade.

          Ao final, quanto ao mito de Ísis, não podemos deixar de fazer
referência às ideias de Helena Petrovna Blavatski, uma das fundadoras da Sociedade Teosófica, como expostas em seu livro Ísis sem Véu, publicado em 1877. Nele se descreve a história e desenvolvimento das ciências ocultas, a natureza e a origem da magia. Desvelando Ísis, HB expõe nas mais de mil páginas do livro as suas principais ideias sobre o tema, desenvolvidas mais tarde em A Doutrina Secreta. 

Em todas as tradições esotéricas, a deusa é considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e da ressurreição. Os seus Mistérios, no Egito, serviram de modelo para os de Elêusis, na Grécia, tutelados pelos deuses Deméter e Dioniso. Quaisquer que sejam, porém, as interpretações, religiosas, filosóficas ou literárias, não podemos esquecer que, em última instância, o mito de Ísis e de todos os demais que nele se inspiram, direta ou indiretamente, são também representações do arquétipo da busca que nos falam sempre da destruição de uma forma (o desmembramento de Osíris) e a reunião dos seus pedaços numa forma diferente e superior com relação à antiga. Esta leitura, a meu ver, está perfeitamente justificada se lembrarmos que, astrologicamente, o planeta Vênus opera no sentido contrário da dispersão como princípio passivo da geração que é, atuando alquimicamente como agente da coagulatio, criação de formas (uniões, sociedades, casamentos, obras de arte etc.).


NASCIMENTO DE VÊNUS   (BOTTICELLI)