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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A QUESTÃO HOMÉRICA E A ILÍADA (2)

                       
HOMERO (P.L.LAURENT, 1746-1816)
É também pelos textos coletados sobre Homero (Vitae Homeri), espalhados em algumas bibliotecas, que ficamos conhecendo uma versão bastante sugestiva, dentre as muitas que ao longo dos séculos procuraram construir uma biografia do poeta. Esses textos estão guardados no Escorial (Vita Scorialensis) e na Biblioteca Nacional de Roma (Vita Romana). Eles atribuem ao poeta uma natureza semi-divina ou divina, ora filho da musa Calíope, ora filho de um (deus) rio, o Meles, e da ninfa Criteida, da Ásia Menor. Unindo-se ao rio Meles, que passa por Esmirna, tornou-se Criteida mãe do poeta Homero. 


APELES, 1334-1336 (NINO PISANO)
Numa outra versão, ela, Criteida, era filha de Apeles, que vivia na cidade de Cime. Sentindo a morte próxima, Apeles a entregou ao irmão, Meon, para que ele cuidasse dela. Todavia, escapando da guarda do tutor, ela se uniu a Fêmio, habitante da cidade. Certo dia, grávida, quando lavava roupa às margens do rio Meles, deu à luz um menino, que se tornaria mais tarde o poeta Homero. Essa versão, como se percebe, explica um dos apelidos de Homero, Melesígenes, o que nasceu junto do rio Meles. Uma variante desta versão nos revela que Criteida era uma jovem que nascera em Ios e mantivera relações com um gênio que fazia parte do cortejo das Musas. Raptada por poetas, a moça, grávida, foi conduzida a Esmirna, onde Meon, rei da Lídia, a acolheu.  Ao dar à luz a uma criança (o futuro Homero) junto do rio Meles, morreu sem conhecer o filho. 


ICAPOLO  E  AS  NOVE  MUSAS  NO  MONTE  HELON
( HENDRIK  VAN  BALEN , 1575 - 1632 )
Ainda dentro da versão acima, outra variante nos informa que Melesígenes ou Melesíanax, como também o chamavam, perdeu a visão, ganhando o nome de Homero por essa razão. Explica-se a mudança do nome porque os eólios davam o nome de homeros a uma pessoa cega.  Já poeta, a partir de então, cego, pôs-se ele a andar por várias cidades cantando os seus poemas. A tradição nos informa que morreu na ilha de Ios e ali foi sepultado.

MELPÔMENE
Grande parte dos que estudam Homero aceitam que seu primeiro nome tenha sido Melesígenes. Esse rio, o Meles, como se disse, corre perto da cidade de Esmirna, na Ásia Menor. Em muitos textos, o rio é considerado pai de poetas e cantores, o que mitologicamente é bem possível. Rio e poesia, como se sabe, sempre estiveram miticamente ligados. Os gregos antigos encontravam uma relação analógica entre palavra cantada e o fluir
EUTERPE
dos rios. Assim é que temos a versão de que a musa Melpômene gerou as Sereias depois de se ter se unido ao rio Acheloo. Uma outra musa, Euterpe, ou Clio, segundo uma versão, se uniu ao rio Strymon, na Trácia, para gerar o belo Rhesos, guerreiro luminoso, dono de famosos cavalos, massacrado por Ulisses e Diomedes. O nome desse herói deriva do verbo rheein, correr, fluir escorrer.  

Os problemas de visão de Homero são registrados de modo unânime por todos os que se aproximaram dele desde a antiguidade. O mesmo acontece com o problema das cores, que o poeta apresenta. Isto porque mesmo ao leitor mais superficial dos textos homéricos sempre causou uma certa estranheza o modo pelo qual ele se referia às cores. Ao descrever, por exemplo, o mar, ele usou o adjetivo oinokros (cor de vinho), oinora ponton (oceano cor de vinho), o mel era verde e assim por diante. Cegueira cromática?

Quem levantou o problema nos tempos modernos foi um leitor de Homero, o político britânico William Ewart Gladstone, em 1.858, que se incomodou bastante, ao ler o poeta, com as suas descrições, quando nelas entravam as cores. Outros estudiosos, principalmente o filósofo e linguista alemão Lazarus Geiger, constataram que entre sessenta adjetivos qualificativos usados para descrever os elementos e as paisagens, na Ilíada e na Odisseia, três deles somente se referiam a cores. Kyaneos, por exemplo, designava uma cor escura, o azul escuro, mas podia o adjetivo ser empregado também para designar o violeta, o preto e o marrom. 
   
Michel Pastoureau sugeriu em seu precioso livro sobre a cor azul, com muita propriedade, que a finalidade desse kyaneos não era propriamente a de descrever uma cor, mas a de lhe dar um certo “sentimento”. Glaukos, por exemplo, muito usado por Homero, tanto foi usado para descrever o verde, o cinza e o azul como, algumas vezes, o amarelo e o marrom. Glaukos, constatou-se, traduzia mais uma ideia de palidez, de um certo esmaecimento, do que a definição de uma cor. As controvérsias entre os helenistas de todos matizes sobre estes problemas das cores em Homero vêm se estendo até hoje. As explicações são muitas. Uma delas: Homero enxergava mal as cores, confundindo-as. Outras: licença poética, surrealismo avant la lettre ou uso de drogas quando o poeta participava de certos embalos com garotos. 

 Além disso, outras dúvidas vieram se juntar àquelas legadas pela antiguidade, jogando mais lenha na fogueira das paixões que o tema homérico continua despertando. Em 1.897, num ensaio (The Authoress of the Odyssey), Samuel Butler (1.835-1.902) segundo estudos que fizera, afirmou que Homero era uma siciliana, que se retratara em Nausicaa,

personagem do poema. Robert Graves (1.895-1.955), por sua vez, pegou a deixa, trabalhou o tema, e escreveu um romance (
Homer’s Daughter) sobre essa personagem, que outra não seria senão a jovem filha do rei Alcinoos, que acolheu Ulisses quando ele deu com os costados em Esqueria, a ilha dos feácios.  É de se lembrar que, além de ter invadido a literatura, Nausica marca hoje a sua presença na Psicologia, ao dar nome a um complexo, o Complexo de Nausica, para ilustrar o comportamento dos apaixonados silenciosos, que não conseguem declarar a sua paixão.

As versões acima alinham-se certamente com variantes que ligam a origem de Homero à Odisseia. Duas hipótese: numa delas,  seriam pais do poeta  Telêmaco e Policasta, jovem filha de Nestor. Noutra, o poeta teria sido gerado por Ulisses e Penélope. Ambas explicariam, justificando-o, o tratamento que o poeta teria dado a tais personagens nos seus poemas.  Segundo esta linha odisseiana, seria explicado também o tratamento que o poeta dera a outros personagens que viviam no palácio de Ítaca. 

Embora os argumentos dos “separatistas” pudessem apresentar alguma pertinência, eles, por si só, não bastariam para justificar a tese de que os poemas tivessem sido  escritos por poetas diferentes. Dentre esses argumentos eram destacados os seguintes: os poemas consideravam e se referiam às divindades de modo diferente; as questões morais também apresentavam situações muito diversas. Ademais, nada tão opostos como Aquiles e Ulisses, "heróis" de ambos os poemas. 

Já se disse que Homero está presente em todos os textos nos quais se fazem referências às suas obras. Ele é reinventado a cada vez que alguém escreve sobre ele ou sobre os seus poemas, quando espetáculos teatrais ou filmes são montados ou produzidos, com base em suas biografias ou em suas obras, quando recitais poéticos celebram no mundo a “matéria homérica”. Todos, de uma forma ou de outra, recuperam os seus temas. 


DANTE  GUIADO  POR  VIRGÍLIO
( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

Respigando aqui e ali, no séc. II de nossa era, Luciano, na sua História Verídica, nos relata um encontro com o eidolon de Homero na Ilha dos Bem-Aventurados, que ficava além do extenso rio Oceano que envolvia a Terra. Nesse encontro ele apresenta a Homero várias questões eruditas sobre a Ilíada e a Odisseia, discutidas no seu tempo. Já no séc.XIII, nos primeiros círculos do Inferno cristão, Dante (canto IV de A Divina Comédia), guiado por Virgílio, encontra-se com Homero, que está na companhia de Horácio, de Ovídio e de Lucano. No séc. XVIII, Giambattista Vico, François d’Aubignac e Friedrich August Wolf afirmaram que Homero era um personagem fictício, um nome por trás do qual se escondia uma corporação de rapsodos e de aedos.



Giambattista Vico (1.668-1.744), italiano, de Nápoles, foi filósofo, político e retórico. François d’Aubignac (1604-1676), nasceu em Paris, seguindo a carreira eclesiástica. Seu nome era François Hedelin. A ele acrescentou Aubignac quando se tornou superior da abadia de mesmo nome. Atuou na literatura, foi teórico do teatro, dramaturgo e filólogo. Friedrich August Wolf (1.759-1.824), nasceu na Alemanha e é considerado o pai da moderna filologia. Deixou, dentre outros, um livro importante para se entender a obra  de Homero (Prolegomena to Homero, versão inglesa), publicado em 1.795. 

Dentre todos os estudiosos da obra de Homero, avulta, mais perto de nós, sem dúvida, a figura de Victor Bérard (1.864-1.931), helenista, historiador, navegador, crítico literário, diplomata e engajado politicamente no campo dos dreyfusards. Grande tradutor francês da Odisseia, foi conhecido por unir um grande rigor histórico e linguístico a uma inspiração artística na produção dos seus textos. Deixou centenas de artigos e cerca de dez livros sobre a “matéria grega”, mais especificamente sobre a questão homérica. Além disso, tornou-se muito conhecido em toda a Europa por suas expedições pelo mar Mediterrâneo, ao tentar reconstituir as viagens de Ulisses. Bérard sempre acreditou que Homero teria se inspirado sobretudo  em cartas de navegação fenícias para descrever  as viagens de nosso herói. 

Os estudos sobre Homero, conhecidos até Bérard, sempre consideraram que os deslocamentos de Ulisses haviam se dado pelo mar Mediterrâneo, entre o mar Negro e Gibraltar, afirmando-se que ele nunca havia ultrapassado as colunas de Hércules. Por isso, segundo esse ponto de vista, era A Odisseia um poema mediterrâneo. Com seus estudos sobre o poema, esmiuçando o texto homérico como talvez ainda ninguém o fizera, com suas viagens, com o seu grande

conhecimento sobre navegação, regime de marés e ventos, inclusive sobre a construção dos barcos antigos usados na navegação mediterrânea e atlântica, Bérard nos provou que A Odisseia era também um poema atlântico. Ou seja, Bérard procurou demonstrar que os caminhos percorridos por Ulisses alcançaram as ilhas do mar do Norte, chegando o herói grego até a Islândia, provavelmente. Merece referência especial um álbum, Dans Le Sillage d’Ulysse, publicado postumamente (1935), no qual estão reunidas fotografias tiradas pelo fotógrafo Fred Boissonas, companheiro de viagem de Bérard. 



 FRED  BOISSONAS , 1900

Foi, sem dúvida, através de Homero que pudemos perceber o quanto as primeiras tribos indo-europeias que se instalaram no futuro território grego, se sentiram incomodadas pela desenvoltura com que as civilizações troiana e cretense dominavam, como talassocracias, o comércio marítimo do Mediterrâneo oriental. 


Quando chegaram à Grécia por volta de 2.000 aC, essas tribos, os futuros aqueus, ignoravam praticamente tudo relativo ao mar. O território que ocuparam era montanhoso, limitando bastante o acesso interno. Tiveram que se voltar para o mar, sendo forçados a criar uma vocação marítima. Foi isto que os levou relativamente em pouco tempo à conquista de territórios, de colônias, como as da Ásia Menor, do sul da Itália e da costa africana, além, é claro, das inúmeras ilhas do Egeu e de Creta. 

A história da Grécia tem como ponto de partida o mundo cretense. Por volta de 1.800 aC, Cnossos e Faístos, em Creta, despontavam como centros altamente desenvolvidos. Cerca de dois séculos depois o palácio de Cnossos (o Labirinto) foi destruído. Invasões micênicas e terremotos puseram fim à civilização creto-minoana por volta de 1.400 aC. No ano 1.000 aC, invasões dóricas, jônicas e eólicas subjugaram os aqueus, que lá haviam chegado pelo início do segundo milênio. Fundaram eles centros que viriam a se transformar nas grandes cidades gregas: Atenas, Tebas, Esparta e outras.

A fundação de cidades no exterior (colônias) se devia sobretudo à ação da iniciativa particular, o que lhes dava uma certa independência com relação aos centros de poder continentais, mantendo-se a ligação apenas sob o aspecto religioso. Essa modalidade de colônia é chamada de apoikia. Posteriormente, foi criado um novo tipo de colônia, de iniciativa do poder da polis, mantendo os emigrantes os seus direitos de cidadania. 

Depois de 1.400 aC, o comércio micênico tomou o lugar do comércio minoico, mantendo os micênicos intenso comércio com Troia (exportação de louças), com a costa da Ásia Menor, Síria, Egito, Palestina e Itália. Pesquisas arqueológicas vêm nos informando que no sul da Inglaterra foram encontrados vestígios de louça e de utensílios (punhais) importados da Grécia, possivelmente levados pelos micênicos, que traziam de lá, da Cornualha, estanho, muito necessário para a fabricação do bronze, vital para eles.




quarta-feira, 18 de outubro de 2017

LIBRA (4)

                                        
PSYCHE E O AMOR , 1798
( FRANÇOIS  GÉRARD )
Muitos astrólogos, desde a antiguidade, associam a Libra o mito de Cupido e Psyche, na medida em que o signo procura descrever como um  ego busca o  seu complemento. É só através dessa busca e de seu sucesso, como sabemos, que o tipo astrológico libriano se realiza plenamente. O mito procura traduzir, de certo modo, a busca do Outro, a busca de um complemento, no geral muito mais inventado, idealizado, do que real.  


APULEIO
Antes, contudo, a origem da história. Tudo começou com Lucius Apuleius Theseus (170-125, Madaura, atual Argélia), chamado simplesmente de Apuleio, escritor latino polígrafo de origem africana. Depois de ter estudado eloquência em Cartago, dirigiu-se a Atenas, tornando-se adepto do platonismo. Percorreu em seguida boa parte da Ásia Menor e do Mediterrâneo fazendo-se iniciar em cultos de mistério (Mitra, Elêusis, Ísis, Cabiros, Cibele, Astarte, Sabazios) na esperança, como dizia, de “encontrar o segredo das coisas” e de “se abandonar a todos os demônios da curiosidade até os confins do sacrilégio.” Voltou a Cartago, assumindo a advocacia, tornando-se um retor célebre. Além de alguns pequenos tratados filosóficos e discursos, escreveu Floridus e De Magia ou Apologia, este último composto como
METAMORPHOSIS
peça de sua defesa por ter sido acusado de seduzir uma rica viúva chamada Prudentilla, para lhe tomar a fortuna. Sua obra mais importante intitula-se Metamorphosis, chamada algumas vezes de O Asno de Ouro, onde se encontra o seu famoso conto Cupido e Psyche, que podemos certamente relacionar com a peça de defesa acima mencionada. Apuleio nos deixou como escritor a imagem de uma poderosa sensibilidade sempre às voltas com influências místicas, grande imaginação, alegria, gosto pela paródia e construções rebuscadas, tudo numa linguagem eivada de preciosismos.

O conto de Apuleio nos diz que havia um rei e uma rainha que tinham três filhas belíssimas. Para as duas primeiras os adjetivos superlativos disponíveis na linguagem eram suficientes para celebrá-las. Quanto à caçula, porém, sua beleza era tão extraordinária que não havia palavras para descrevê-la. O único recurso, e mesmo assim insatisfatório, eram as interjeições que procuravam traduzir um grande deslumbramento. Logo a notícia correu o mundo, uma nova Vênus havia nascido. De várias partes do país e do exterior acorreram muitas pessoas na esperança de ver a “nova” deusa, que aceitava as homenagens que lhe eram prestadas. Por causa disso, os lugares sagrados e os santuários de Vênus não mais eram visitados, o culto divino se enfraquecia. Como não poderia deixar de acontecer, a imensa hybris da jovem princesa, chamada Psyche, incomodou a deusa Vênus, que resolveu punir tamanha insolência. Chamou seu filho Cupido, incumbindo-o de puni-la exemplarmente. 


CUPIDO SUPLICA A VÊNUS QUE PERDOE PSYCHE
( 1827, GEORGE  ROUGET )

Vênus é um nome derivado de palavras latinas que significam amor físico, apetite sensual e sexual, vida instintiva. Foi por esse nome que os romanos personificaram a sua deusa do amor, procurando assimilá-la à Afrodite grega. Na origem, entre os antigos povos da Itália pré-romana, a deusa Vênus tinha relação com o mundo agrário, com jardins e pomares, mais exatamente. Aos poucos, porém, por influência do culto grego de Afrodite, que entrara na Itália pela Sicília, Vênus começou a ocupar uma posição de destaque no panteão latino, especialmente pelo fato de, segundo o mito, um descendente seu, Eneias, oriundo de Troia, ter fixado as bases do futuro império romano.

Quanto a Cupido, filho de Vênus e Marte entre os latinos, o nome vem do verbo latino cupere, desejar ardentemente, inflamar-se. No
CUPIDO
ESCULTURA   ROMANA
mito romano, difere um pouco do Eros grego. Embora no mundo romano se apresente sempre muito travesso, irresponsável, inconsequente, na sua iconografia clássica, a imagem de Cupido chega a diferir bastante do seu modelo grego. O Cupido latino, com efeito, parece mais envelhecido que o Eros grego; é uma figura tomada por um certo cansaço, traços que suas esculturas romanas inclusive revelam, características que podemos, quem sabe, atribuir a um certo desgaste do arquétipo.   

Vênus pede a Cupido uma vingança perfeita, observadas as seguintes determinações: a jovem princesa terá que se apaixonar pelo mais horrendo dos homens, perdendo não só toda a sua herança familiar como a sua dignidade, a incolumidade de seu corpo, descendo a níveis tão baixos de existência de modo a que ninguém queira compartilhar de seu sofrimento. Transmitidas tais instruções, Vênus encaminhou-se para o seu elemento, o mar, sendo recebida por um grande séquito, as filhas de Nereu, o formidável Portuno, a saltitante Salácia, Palemon, o condutor dos delfins, inúmeros tritões, todos a reverenciá-la.


DEUSES  DO  MAR  SAÚDAM  VÊNUS ( E. LE SUEUR , 1616 - 1655 ) 

Registre-se além disso que os pais da jovem haviam consultado um oráculo apolíneo, pois, embora ela fosse lindíssima, como mulher alguma poderia ser, não era amada; definhava por isso, muito triste.
REUNIÃO DE CUPIDO E PSYCHE
( J.P. SAINT-OURS - 1752 - 1809 )
Suas duas irmãs, muito menos bonitas, já haviam inclusive se unido a dois belos príncipes. O oráculo sentenciou: Psyche deveria ser levada ao mais alto penhasco do país e ali exposta suntuosamente; um monstro horroroso viria se unir a ela. É nesse momento que Cupido, cumprindo as ordens de sua mãe, vê a jovem princesa no penhasco e se sente por ela “flechado”, instantaneamente apaixonado. Libertou-a e a levou para o seu palácio no vale. A única coisa que lhe pediu, logo na primeira noite, quando a possuiu, foi que permanecesse com os olhos vendados quando ele fosse visitá-la, que jamais tentasse vê-lo. 



PSYCHE   SURPREENDE   CUPIDO   ADORMECIDO
( 1769 ,  LOUIS JEAN FRANÇOIS LAGRENÉE )

As duas irmãs, tendo ouvido histórias sobre Psyche, conseguiram saber onde ela se encontrava. Visitando-a, sugeriram que ela era muito tola, que deveria remover a venda dos seus olhos e conhecer o seu esposo, talvez um monstro, quem sabe. Ainda que muito relutante, mas cheia de curiosidade, a jovem fez o que as irmãs haviam sugerido. Resolveu acender uma lamparina a óleo para vê-lo melhor. Ao se debruçar sobre ele com a lamparina, gotas de óleo cairam e Cupido acordou, logo fugindo, abandonando-a. 

Psyche se desesperou. Foi a Vênus, que não consentiu que ela visse seu filho-amante, a não ser que ela lhe prestasse alguns serviços, na condição de serva. A deusa impõe então à jovem várias tarefas
VÊNUS   E   PSYCHE  
humanamente impossíveis, certa de que ela fracassaria. O mundo natural, entretanto, as plantas e os animais, sentindo muita pena da jovem, a ajudam no cumprimento das referidas tarefas (separar um gigantesco  monte de grãos variados, numa única noite; trazer para Vênus flocos de lã de ouro que cobriam o dorso de carneiros ferozes; trazer para Vênus uma jarra de cristal cheia da água da fonte que alimenta os rios infernais Estige e Cocito). Nesse ínterim, refeito de seu ferimento (queimadura), Cupido foi a Júpiter e lhe pediu que concedesse a imortalidade a Psyche, o que aconteceu, recebendo ela umas gotas de ambrosia, divinizando-se e se imortalizando. 

Esta história suscitou ao longo dos séculos muitas interpretações. Sob o ponto de vista filosófico (Apuleio era um adepto do platonismo), temos aqui a ideia de que a alma é intrinsecamente divina. Esta natureza é perdida quando do processo da encarnação, mas pode ser recuperada. Nesta perspectiva, Psyche representa a natureza espiritual de cada ser humano. No cristianismo, esta história foi usada para simbolizar a busca de Deus pela alma.

PSYCHE  E CUPIDO  ( ANTONIO  CANOVA , 1757 - 1822 )

Numa outra leitura, podemos dizer que tendo pecado pela curiosidade e pela dúvida, a alma perde o seu amante divino e se torna escrava de Vênus, que a submete a duras provas. Recuperada por Cupido, ela se torna, enfim, imortal e passa a viver na eterna felicidade do amor. Tanto um símbolo da alma à procura de seu ideal como da sua purificação (salvação pelo amor) depois de ter decaído. Outros vêem na história uma tendência à idealização de parceiros. Depois de um certo tempo, porém, ousando olhá-los como realmente são, a decepção se instala, ocorrendo tanto uma separação emocional e/ou física. Os testes, as provas e os desafios pelos quais as relações têm que passar estão evidentes no contexto do conto, lembrando-se, neste particular, que, sob o ponto de vista astrológico, Saturno se exalta em Libra. 

Uma outra hipótese, que estudiosos, psicólogos e artistas nunca, a meu ver, levantaram, é que esse conto que passou à história da literatura filosófica, hoje quase que só “trabalhado” por psicólogos, é, no fundo, uma declaração de amor de nosso trêfego Apuleio à rica viúva, uma peça literária pela qual ele procurava se redimia aos seus olhos, deixando claro que o “amor tudo vence.” Segundo consta, a rica Prudentilla o perdoou por ter se apoderado do seu dinheiro, enganando-a, e eles acabaram muito felizes.

ORFEU   E   EURÍDICE
A história de Cupido e de Psyche coloca-nos também diante de uma questão que me parece fundamental na mitologia grega e com larga repercussão na matéria astrológica, mas nunca explorada de modo mais consequente. Refiro-me ao tema da proibição de se olhar na relação amorosa. O mito de Orfeu e de Eurídice não é, assim, o único a colocar a questão da interdição do olhar, do direito de ver, da necessidade que os parceiros amorosos têm de “se dar a ver”, bem como das interdições e castigos que sancionam a transgressão destes interditos.


AMOR  CORTÊS NUM  JARDIM  MEDIEVAL ( RENAUD DE MONTEAUBON )

O tema do olhar me parece profundamente ligado ao signo de Libra e de Touro e às duas Vênus que os regem, a Vênus “exterior” do primeiro e a  Vênus “íntima” do segundo. A Vênus libriana é, numa aproximação literária, a do amor cortês, desmaterializada, na qual as pulsões carnais aparecem invariavelmente sublimadas, transformadas em obras de arte etéreas, depuradas. O amor cortês, como se sabe, impõe distância, mesuras, vive em grande parte da imaginação (lembremos que Vênus se exalta em Peixes). A Vênus taurina é carnal, pede o sentido do tato, associa-se à plenitude lunar. A Vênus libriana pede mais o sentido do olhar que o toque, 


ASTRÔNOMO
Os astrônomos, com as suas lunetas, há muito, perceberam que o planeta Vênus apresenta fases semelhantes às da Lua, conforme a posição por ele ocupada com relação ao Sol. É de Galileu a observação que A mãe dos amores imita as fases de Diana. Notaram também os estudiosos do céu que todos os acidentes da superfície do astro quase nunca eram percebidos pelo olhar, pois um manto de nuvens invariavelmente os escondia. Dessa constatação astronômica passou-se ao símbolo poético. Os poetas, desde sempre, “traduziram” esse fato astronômico, falando-nos da pudicícia e do recato da deusa, que “jamais baixava os seus véus”. Imaginação, mistério, promessas ou tão só as camadas mais ou menos espessas da atmosfera do planeta... Contra a realidade carnal taurina temos as abstrações librianas. Os tipos librianos, recordemos, são sempre muito sensíveis ao olhar do outro, ao julgamento que este olhar faz. Nos tipos librianos há sempre (?) o temor do olhar do outro, o receio de que este olhar os surpreenda inadequadamente “compostos”, “arrumados”. 

Dentre os muitos mitos que fazem parte do universo libriano, um capítulo importante é o das histórias de parceiros amorosos, de casais, cujos nomes não poderão jamais se separar. As suas histórias transcorrem geralmente em regiões fronteiriças às da morte (Escorpião), falando-nos de interdições de se olhar, de jogos de sedução que passam pelo olhar. Os personagens se dão a ver, mas quem vê ou é visto se expõe sempre a matar ou a morrer.

Orfeu, nome que lembra privação em grego, não escapa destas leis. Filho de um rei da Trácia, segundo uns, de Apolo para outros, é sobretudo um dispensador da harmonia. Com o seu canto e a sua música acalma as bestas, faz cantar a natureza, tem poder inclusive
CALÍOPE
sobre o mundo mineral (as próprias pedras o seguem). Orfeu é um sedutor. Hesita entre Apolo e Dioniso, tentando conciliar estes deuses inconciliáveis, o da medida e do espírito celeste o primeiro e o outro o da vida luxuriante e da desmedida. Sua mãe é a musa Calíope (a de bela voz), a inspiradora tanto da poesia épica como da lírica. Cantor e músico incomparável, a constelação da Lira, segundo alguns, o acolheria quando cumprido o seu estranho destino. 

ARGONAUTAS
Depois de longa viagem ao Egito, Orfeu se engajou na expedição dos Argonautas, comandada por Jasão. Sua função, com a sua música e seu canto, era a de marcar a cadência dos remadores, acalmar as tempestades e distrair os marinheiros atingidos por Pothos, causador do dorido sentimento de nostalgia noturna. Ao voltar da expedição à Cólquida, encontrou a dríade Eurídice (a de grande justiça), por quem se perdeu de amores. Logo, porém, a perdeu. Ao fugir de uma investida sexual de Aristeu, deus apicultor, é picada por uma serpente e morre, descendo, por isso, ao Hades. 



A  MORTE  DE  EURÍDICE ( ERASMUS  QUILLINUS , 1607 - 1678 )

Inconsolável, Orfeu para lá se encaminhou, confiante no seu poder de sedução. Perséfone encantou-se com as melodias do filho de Calíope, convencendo Plutão a libertar a jovem dríade. A história é conhecida: uma condição é imposta; Orfeu iria na frente e Eurídice o seguiria, não podendo ele olhá-la em hipótese alguma até que ultrapassada a saída do reino dos mortos. Na versão clássica do mito, Orfeu perdeu Eurídice porque não observou a interdição, olhando-a muito cedo, vitimado por uma crise de impaciência tipicamente ariana. Dentre as explicações para o comportamento de Orfeu, acredito que algumas hipóteses poderiam ser alinhadas: a) ele duvidou da palavra dos senhores da morte; b) teve medo, temendo encontrar uma Eurídice lívida e desencarnada, um eidolon, um fantasma e não um ser de carne e osso; c) arrependeu-se, não sabendo como assumir o “renascimento” da sua amada, já que o Hades e Eurídice ficariam para sempre associados. 



Ao longo dos séculos, a maior parte daqueles que se aproximaram desta história acusaram Orfeu. Para uns (Jacqueline Kelen, L´Éternel Masculin), Orfeu não sabia apreciar o que lhe escapava, que ele não sabia dominar. Falta de humildade, talvez. Não acreditou no milagre, por isso ele não se produziu. Tem Orfeu muita invenção poética mas pouco amor para ressuscitar a jovem. Platão, no Phedro, acusou Orfeu de fraqueza. Uma alma fraca que não teve a coragem de morrer como Alceste. 

Não podemos esquecer que embora Libra seja um signo artístico, de criações sutis, sua natureza permanece contudo sempre cerebral, como um signo de ar que é. A paixão está presente, o sentimento alimenta o pensamento, mas este se impõe àquela. Em outros termos: quanto mais Eurídice é o centro da poesia órfica, fonte de
JEAN  MARAIS
inspiração, menos ele a aceita e vê como carne e sangue. As versões desta história são inúmeras. Virgílio (Geórgicas) nos fala de imprudência. Ovídio (Metamorfoses), de fatalismo. Depois deles, essa história trágica deu origem a uma grande tradição literária musical e artística. Quanto à música, obrigatória as referências a Monteverdi, Gluck, Haydn e Offenbach; na dança, as coreografias de Roger-Ducasse e de Balanchine-Stravinsky. Na pintura, Breughel, o Jovem, Tintoretto, Rubens, Poussin e Delacroix a utilizaram. No cinema, Jean Cocteau (Orphée) e Marcel Camus (Orfeu Negro). 

Ninguém, que eu me lembre, “levantou” o ponto de vista de Eurídice. Será que ela desejaria realmente voltar à vida terrestre, ela que agora conhecia a morte, ela que agora conhecia tudo o que se passavam no reino de Hades. Apesar de todas as suas declarações, Orfeu, o amado dos deuses, é um ser cheio de fraquezas e de sentimentalismo. Uma personalidade muito “feminina”, como é comum entre os poetas. Ele não é um modelo de afirmação, um ser aguerrido. É ambíguo, oscilante. Características todas que, como sabemos, estarão na causa de sua morte. Uns afirmam que ele se “esqueceu” de honrar Dioniso. Uma versão muito aceita registra que Zeus o fulminou porque ele começou a revelar segredos do Hades que não podiam ser revelados. O mito de Orfeu e de Eurídice não foi o único a propor questões como a da proibição de se olhar, a do direito de se ver, a da necessidade de “se dar a ver” e a de todas as interdições que cercam o tema.

Esta mesma questão da proibição de se olhar nós a encontramos, como se disse, na história de Cupido e Psyche. Embora tenha tentado resistir às insinuações das irmãs, a jovem perdeu a confiança no seu misterioso esposo e acabou por transgredir a interdição. Ela o viu tão belo, tão maravilhoso, que, infinitamente perturbada, deixou cair uma gota de óleo fervente sobre o ombro do seu divino parceiro, acordando-o. Rápido, ele se afastou, dizendo-lhe: Infelicidade para ti, que puseste tudo a perder” Esta cena não pode deixar de nos trazer à mente uma questão (libriana) muito importante, quem sabe uma lição a ser dela retirada, a de que o amor, para conservar a sua força e ação, perdurar, deve ser também cego.


Para recuperar o amor de Cupido, Psyche terá que realizar vários trabalhos, como já vimos, recebendo, para tanto, valioso auxílio divino. Impostos por Afrodite, merecem nossa atenção de modo especial aqueles que a levarão ao Hades. A deusa exige que a jovem encha uma jarra com a água do rio Estige (o que provoca horror), um dos rios infernais, inalcançável para qualquer mortal. Providencialmente, uma águia, a quem, um dia, Cupido auxiliara, resolveu o problema, conseguindo o líquido para a jovem. Enraivecida, Afrodite determinou que ela cumprisse então uma tarefa, a mais terrível de todas, que certamente causaria a sua perdição: Psyche deveria ir ao Hades e pedir a Proserpina (Perséfone) um unguento de beleza que só ela possuía. Psyche, que,
PSYCHE E CARONTE
( J.R.SPENCER STANHOPE , 1829 - 1908 )
até então, havia sempre recebido auxílio para cumprir as tarefas que lhe eram determinadas, sentiu-se perdida, pois ninguém, nem mesmo deuses, ousariam descer ao Hades. Pensou em se suicidar. Dirigiu-se para o alto de uma grande torre para esse fim, para de lá se atirar. Estranhamente, porém, a torre se pôs a aconselhá-la: deveria a jovem munir-se de dois óbolos e de dois pedaços de bolo. Os óbolos para  Caronte, o barqueiro infernal, um na ida e outro na volta, e os pedaços de bolo, do mesmo modo, para o cão tricéfalo Cérbero. Quanto a Proserpina, o máximo cuidado, pois ela gostava de estender armadilhas. 

Psyche foi recebida pela Rainha do Hades e convidada a sentar-se e a fazer uma refeição. Devemos lembrar que há uma lei no mundo infernal que diz o seguinte: quem comer no Hades, um grão que seja, estará condenado a ele voltar e quem lá se sentar numa cadeira, a chamada cadeira do esquecimento, não poderá mais dela se levantar e esquecerá o motivo pelo qual para lá se dirigiu. Psyche, lembrando-se dos conselhos da torre, recusou polidamente os convites, expondo os motivos de sua visita. Obtendo o que desejava, a jovem foi autorizada a voltar à terra. Com o frasco do precioso unguento nas mãos, Psyche pensou em usar um pouco dele para se mostrar ainda mais bela se voltasse a encontrar o seu perdido esposo. Nesta passagem, faltaram evidentemente a Psyche, mais uma vez, comedimento e prudência. Ao abrir o frasco, as substâncias se evaporaram, caindo ela num sono profundo, como se estivesse morta. Tudo isto aconteceu no momento em que ela estava praticamente fora dos limites do Hades.  

Nesse ínterim, Cupido, lamentando a perda de sua jovem esposa, intercedia a seu favor diante de Zeus. Aquiescendo Zeus ao pedido,
MERCÚRIO  OFERECE  A PSYCHE
O  CÁLICE  DA  IMORTALIDADE
( 1510 ,  RAFAEL DE  SANZIO ) 
Cupido não só a recuperou como, por iniciativa do próprio Senhor do Olimpo, a jovem se tornou imortal por lhe ter sido permitido o consumo de um pouco de ambrosia. Unindo-se novamente os amantes, gerarão uma filha que recebeu o nome de Volúpia, sempre representada como uma bela mulher, de faces artificialmente muito coloridas, de olhares lânguidos, postura lasciva, uma figura da qual a modéstia está certamente ausente. Aparece sempre semi-deitada numa espécie de divã florido e segura numa das mãos uma alada bola de vidro, uma imagem sempre carregada de sensualidade. Esta filha que Cupido e Psyche tiveram desqualifica em grande parte, senão totalmente, a meu ver, a leitura que a moderna Psicologia jungiana (Erich Naumann) faz desta história, ao “traduzir” Volúpia como Deleite ou Bem-aventurança, de natureza celeste, tentando espiritualizá-la, características inexistentes ou intenções ausentes do texto de Apuleio.

Todas as provas impostas por Vênus têm certamente qualquer coisa a ver com as vicissitudes do jogo amoroso. Psyche aceita o sofrimento, sente-se fanée, pensa no envelhecimento, chega à beira do suicídio. Há muito de Libra, sem dúvida, na história de Psyche, o desejo de agradar, de permanecer sempre jovem, bela, uma “filha de Vênus”, sempre vulnerável ao olhar do outro, aterrorizada pelo pensamento de não mais ser amada. A história nos fala das armadilhas do amor, dos sonhos de beleza perfeita, do amor que “nunca morre”, de tentações, hesitações, balanceamentos, fragilidade, de muitos componentes do mundo libriano, enfim. Fala-nos também a história das dificuldades que existem para se chegar ao amor adulto, consciente, da confrontação dos olhares, das indagações mudas, da maior ou menor sensibilidade dos parceiros amorosos na captação de nuances e matizes no discurso amoroso. Muitos, ao longo dos séculos, condenaram Psyche, esquecendo, porém, as intermináveis horas de espera que ela suportou para rever o marido, o seu tédio palaciano, o seu bovarismo, alimentado, em grande parte pelo marido e pelas irmãs. A pergunta então se impõe: que significa realmente esta interdição de contemplar o deus do amor? Será que o amor e a morte não podem ser olhados? Na história, Cupido tem o direito de ver Psyche, ela, porém, não pode vê-lo. A história lembra muito a de Endímion, sem dúvida. O jovem e lindíssimo pastor, conforme a versão, era visto por Selene ou por Hipnos, mas não via. 

A história de Cupido e de Psyche, iluminada astrologicamente, talvez nos deixe questões que jamais conseguiremos explicar totalmente. Que se passa realmente quando duas pessoas que se amam abrem os olhos simultaneamente, um atingindo a alma do outro, uma entregando-se ao outro? Um instante absoluto, mágico, milagroso, certamente impossível de ser reproduzido conscientemente. Verdade ou mentira dos olhos?


PSYCHE  RECEBIDA   NO   OLIMPO ( RAFAEL DE SANZIO , 1483 - 1520 ) 

Se em Gêmeos o eu está se opondo sempre ao não-eu, em Libra, este modo de ser é ultrapassado para ser procurada uma nova forma de vida, a da complementaridade, a unio, a conjunctio oppositorum. Em Libra, o eu se busca numa relação com o outro. Mas para que isto aconteça é preciso correr riscos, encarar as incertezas, aceitar, quem sabe, as desilusões, é preciso muito esforço, procurar conhecer o outro. Uma leitura que muitos fizeram: Psyche foi aquela que buscou a imagem real do outro, busca que a levou inclusive a usar desastradamente a lamparina de óleo. A pergunta, a meu ver, então se impõe: qual, a rigor, a razão dessa “necessidade de ver realmente o outro”, se os próprios deuses haviam proibido que tudo fosse vivido “às claras”? A história parece deixar claro que a comunhão com o outro não se realiza através do conhecimento racional. Será que foi por piedade que Cupido se dispôs a ajudar Psyche, levando-a para o Olimpo, onde a união de ambos tomou características de uma hierogamia? Ou, simplesmente, reduzindo a história ao essencial, não será ela mais que a revelação da impossibilidade de se encontrar nos relacionamentos humanos o equilíbrio ideal? Ou, astrologicamente, de outro modo, segundo a receita divina: será que não deveríamos preferir para a casa VII, ao invés da razão (a lamparina de Psyche), a escuridão e a imaginação?










domingo, 11 de março de 2012

ORFEU OU O FRACASSO DE UM PROFETA


Filho da mais importante das Musas, Calíope (fig.dir.), a de bela voz, e do deus-rio Eagro, Orfeu aparece na mitologia grega ligado ao canto, à música, como a principal figura de uma família mítica de inventores de gêneros musicais e de instrumentistas excepcionais. Pelo lado materno, era neto de Mnemósina (fig.esq.), a deusa da memória, e de Zeus, que com ela teve as nove irmãs, as Musas, nome que significa tanto instruir como fixar. As Musas nasceram para celebrar condignamente a vitória dos olímpicos sobre os titãs. Pelo lado paterno, Orfeu era neto do deus Oceano e de Tétis (fig.dir.), ambos da família dos titãs. O primeiro era o grande rio-serpente que circundava o globo terrestre. A segunda, sua irmã, personificava a fecundidade feminina do mar.

MUSAS

Servidoras dos artistas, participando às vezes do séquito de Apolo, vivendo no monte Helicon, junto da fonte Hipocrene, cujas águas favoreciam a inspiração poética, as Musas eram nove: Calíope presidia a Poesia Épica, Clio a História, Érato a Lírica Coral, Euterpe a Música, Melpômene a Tragédia, Polímnia a Retórica, Talia a Comédia, Terpsícore a Dança e Urânia a Astronomia.

Pela importância que os gregos davam à poesia épica, Calíope era considerada como a mais importante das Musas. Segundo o maior número de versões, Calíope era mãe de Orfeu, de Iálemo, de Himeneu e de Lino, os três últimos nascidos de sua união com Apolo. Algumas variantes a consideram também como a mãe das Sereias, as cruéis cantoras. Da sua biografia consta também que arbitrou, juntamente com Zeus, a disputa que Perséfone e Afrodite travaram pela posse belíssimo Adonis (fig.esq.), deus da vegetação.

Pelo lado paterno, Orfeu era, como está acima, filho de um deus-rio. Os rios, na Grécia antiga e em muitas outras tradições, lembremos, pela sua correnteza são uma imagem do fluir universal e, como tal, da impermanência de todas as coisas, da sua incessante mudança. Num sentido positivo, os rios simbolizam a fertilidade (a irrigação das terras) e a renovação (o fluir das águas). Negativamente, porém, podem representar a morte (inundação, afogamento, absorção).


Os gregos veneravam os rios como filhos do deus Oceano e pais das ninfas potâmidas. Em tempos muitos remotos eram oferecidos a eles sacrifícios de animais (touros e cavalos, sobretudo). Venerados, respeitados e temidos, os rios só podiam ser atravessados por aqueles que previamente se tivessem purificado. Hesíodo dizia que quem atravessasse um rio sem esse cuidado atrairia sobre si a cólera divina. Etimologicamente, o nome Eagro é uma combinação de duas palavras: ovelha (ois) e perseguir (agreuein), ou seja, o que oferece perigo às ovelhas, o que ameaça o rebanho.

Iálemo (fig.dir.), etimologicamente lamento fúnebre, era irmão de Orfeu por parte de mãe apenas, sendo o pai, como se disse, o deus Apolo, na condição de deus da harmonia. O canto fúnebre, chamado threno pelos gregos, entoado sobretudo nas exéquias daqueles que morriam jovens era uma criação de Iálemo. Sua finalidade era a de orientar a alma (psikhe) na sua catábase para o Hades. Era uma melopeia acompanhada das lágrimas dos que o contavam, tendo um tríplice objetivo: consolar os vivos, celebrar as virtudes do morto e garantir que ele seria eternamente lembrado enquanto um parente próximo seu existisse. Iálemo foi o inventor desse gênero poético e a primeira peça que compôs foi dedicada a Lino, seu desditoso irmão.

Lino é nome que lembra etimologicamente canção triste e melancólica, interjeição dolorosa pela morte de alguém. Nos mitos beócios (interior da Grécia, região de camponeses), Lino passa por ter sido o inventor do ritmo e da melodia, além de ter fixado o alfabeto fenício e de ter dado a cada letra o seu nome. No período clássico, foram atribuídos a ele tratados filosóficos, ocultistas e místicos. A versão mais aceita sobre a sua morte é a de que Hércules, num assomo de raiva, quando por ele advertido numa aula de música, o teria assassinado.

HIMENEU

Quanto a Himeneu, seu nome parece provir de uma aglutinação de palavras gregas que significam película, membrana, união, laço e grito. Ou seja, o rompimento de uma membrana no dia do casamento e os gritos para a invocação do deus. Neste sentido é a divindade do cortejo nupcial e, como tal, a personificação da canção entoada nessa cerimônia.

Numa outra versão, a história de Himeneu é fruto de um processo de evemerização (fato histórico que se transforma em mito), como a seguir se conta. De feições muito delicadas, Himeneu às vezes tomado por uma bela jovem, muito feminino, teria sido um pobre adolescente que se apaixonou por uma jovem eupátrida. Não conseguindo torná-la sua esposa, seguia-a para onde quer que ela fosse, como sua sombra. Para ficar perto dela, certa vez, adotou um disfarce feminino, juntando-se a um grupo de nobres donzelas que saíram de Atenas em direção de Eleusis para participar dos Mistérios que lá se realizavam. Atacados por um bando de malfeitores, foram todos raptados, inclusive Himeneu. A finalidade do rapto era a de vender as jovens como escravas. No meio do caminho, porém, numa praia, todos cansados, raptores e raptadas dormiram. Com muita coragem, então, Himeneu disso se aproveitou para matar todos os bandidos. Ao voltar para Atenas com as jovens, conseguiu se unir àquela que amava.

AFRODITE


Por causa deste feito, que exigiu uma longa travessia de barco para o devido retorno a Atenas, Himeneu passou depois a ser conhecido também pelo nome de Thalassios, sendo aos poucos divinizado como o protetor dos direitos do casamento. Nesta condição, foi levado a se tornar companheiro de Eros e de Afrodite, passando a ser honrado especialmente no monte Helikon, onde viviam as Musas, na Beócia. Há uma versão do mito que nos conta que ele perdeu a sua voz e mesmo a sua vida quando participou do casamento de Dioniso com Ariadne.

Orfeu, nome que lembra privação, falta, carência, orfandade, conforme seu mito nos conta, teria nascido na Trácia. Além de poeta, músico e cantor, era considerado como o inventor da cítara e da lira, instrumentos que têm relação com a harmonia cósmica através dos números sete, número da ordem e da organização do espaço, e do número nove, que, no Orfismo, define os aspectos simbólicos do universo, divididos em três tríades: 1) A Noite, o Céu e o Tempo; 2) O Éter, a Luz e os Astros; 3) O Sol, a Lua e a Natureza.

De voz excepcional, Orfeu a todos e a tudo encantava, os humanos, os seres do mundo vegetal e animal, as rochas, inclusive os deuses. As árvores se inclinavam para ouvi-lo, as bestas selvagens se acalmavam, os humanos se enterneciam, os deuses o admiravam, mesmo as rochas eram sensíveis ao seu canto.

CIBELE

Educador dos belicosos trácios, percorreu todo o mundo antigo, iniciando-se nos mistérios das mais antigas tradições, de Ísis (fig.dir.), de Cibele, dos Cabiros, da Samotrácia e de Eleusis. Da sua história, consta que participou da expedição dos argonautas com o objetivo de ajudar os heróis que nela se engajaram, dando-lhes não só o ritmo dos remos como encobrindo com a sua maravilhosa música o canto das suas sedutoras primas (filhas de Melpômene), as Sereias, que levavam quem as ouvisse à perdição.


Ao voltar da expedição dos argonautas, Orfeu divulgou na Grécia a ideia de que os crimes e as faltas que os homens cometessem poderiam ser expiados. Para isso, os humanos deveriam participar dos mistérios por ele criados, sob o nome de Orfismo, sendo prometida inclusive a imortalidade a quem nele se iniciasse. Foi nessa oportunidade que se uniu à dríada Eurídice (a de grande justiça), a quem considerava como a sua alma.

Himeneu foi convocado para abençoar com a sua presença a união de Orfeu com Eurídice. Não levou contudo bons augúrios, pois a tocha que usava para consagrar as uniões que presidia fumegou, fazendo com que todos os presentes à cerimônia lacrimejassem.

EURÍDICE ATACADA POR ARISTEU

Quem nos conta esta história é Virgílio, poeta latino do séc. I aC, em As Geórgicas. Ao tentar escapar da perseguição do deus apicultor Aristeu, que a queria violentar, Eurídice foi picada por uma serpente e morreu. Sua alma desceu então ao Hades, “cobrindo-se de trevas”. Inconformado com a sua perda, Orfeu se dispôs a trazê-la de volta. Conseguindo penetrar no reino infernal através de uma gruta situada ao lado do cabo Tenaro, ele se apresentou a Plutão e a Perséfone, encantando-os com a sua música.


Assim cantou Orfeu, segundo o poeta: “Ó divindades do mundo inferior, para o qual todos nós que vivemos teremos que vir, ouvi minhas palavras, que são verdadeiras. Não venho aqui para espionar os segredos do Tártaro, nem para tentar experimentar a minha força contra Cérbero, o cão tricéfalo que guarda a entrada. Venho à procura de minha esposa, a cuja mocidade o dente de uma venenosa víbora pôs fim prematuro. O Amor (Eros) aqui me trouxe, Eros um deus todo-poderoso entre nós, que mora na Terra e, se as velhas tradições dizem a verdade, também mora aqui. Imploro-vos: uni de novo os fios da vida de Eurídice. Nós todos somos destinados a vós, por essas abóbadas cheias de terror, por estes reinos de silêncio, e, mais cedo ou mais tarde, passaremos ao vosso domínio. Também ela, quando tiver cumprido o termo de sua vida, será devidamente vossa. Até então, porém, deixai-a comigo, eu vos imploro. Se recusardes, não poderei voltar sozinho; triunfareis com a morte de nós dois.”

À medida que o canto de Orfeu fluía, as almas que viviam no reino do Hades, fantasmagóricas e sofridas, soluçavam e choravam. Tântalo, por um momento, abandonou a sua torturante e eterna busca de água e alimento; a roda de Ixion imobilizou-se; as filhas de Danao deixaram de tentar encher com água os tonéis sem fundo; Sísifo sentou-se ao lado de sua enorme pedra, não mais a empurrando montanha acima, como o fazia diariamente; o monstruoso Abutre, filho de Tifon, não foi destruir o fígado de Prometeu nesse dia. Os olhos das Erínias, pela primeira e única vez, em toda a história do Hades, ficaram úmidos. Perséfone não pode resistir e intercedeu junto de seu amado esposo no sentido da libertação do casal, obtendo dele o devido assentimento.

Recebida por Orfeu a permissão para reconduzir Eurídice ao mundo dos vivos, uma condição foi imposta: ele iria à frente e ela atrás, não podendo ele, em hipótese alguma, voltar-se para vê-la. Só poderiam se ver quando tivessem ambos ultrapassado os limites do reino infernal.


Quando já estava muito próximo da superfície da terra, Orfeu, tomado por invencível pothos, provocada por terrível dúvida, voltou-se para ver a sua amada. Rompido o acordo, perdeu-a. Ao longe, uma sombra que lembrava vagamente a sua amada, deslizava na direção do Hades. Tentou alcançá-la, mas foi em vão.


Desesperado, perdida Eurídice para sempre, Orfeu, desde a sua saída do Hades se desinteressou pelas mulheres. Repelia-as, nenhuma lhe interessava, preferindo as companhias masculinas. As donzelas trácias fizeram de tudo para seduzi-lo e ele absolutamente insensível. Entregou-se Orfeu inteiramente aos mistérios que criara, proibindo que dele participassem as mulheres. Fixou-se assim só no polo masculino, elegendo-o como única via para chegar ao mundo espiritual. Ao assim agir, transgredia um dos preceitos fundamentais da existência, o do gênero. Negava assim Orfeu o dualismo, que comanda toda a dialética universal, todo o movimento do devenir.


Tal procedimento, como se sabe, ao negar a alternância, atraiu a ação de Dioniso, a grande divindade que destrói as formas que se coagulam; como força irresistível ele provoca o rompimento de todos os limites que se queiram impor à energia universal.


Orfeu foi atacado pelas sacerdotisas do deus, as mênades, sendo seu corpo despedaçado (sparagmos), lançados os seus pedaços ao rio Hebro.


A história de Orfeu terminaria aqui. Contudo, segundo uma inspiração apolínea, de tendência espiritualizante, aristocrática, obviamente masculina, o crime cometido deveria ser punido. Uma peste assolou o país. Para apaziguar os deuses, conforme sentença oracular (Delfos), era preciso recuperar a cabeça de Orfeu (fig.dir., tela de G.Moreau) para que lhe fossem prestadas as honras fúnebres. Assim foi feito e tudo se resolveu. A cabeça do poeta transformou-se num oráculo, sua lira foi para Lesbos, centro da poesia lírica grega, e depois para os céus, sendo transformada numa constelação. Conduzido à Ilha dos Bem-Aventurados, lá, Orfeu, metido numa túnica imaculadamente branca, solitário e dolente, passa seu tempo tangendo a sua lira, com os olhos postos na eternidade.

A lira de Orfeu foi fabricada pelo deus Hermes com o casco de uma tartaruga e as cordas feitas com as tripas de animais por ele sacrificados. Cedida a Apolo, o instrumento acabou nas mãos de Orfeu. Nada há que se estranhar quanto a isto: como patrono de uma poderosa seita religiosa, não ficaria bem que Orfeu tivesse como pai um simples deus-rio. Uma versão tardia “melhorou” a sua paternidade, assumindo-a o Senhor de Delfos. 




Colocada nos céus como constelação boreal (10º a 29º de Capricórnio), a lira (Lyra) tem como a sua mais brilhante estrela Wega, alfa, de 1ª magnitude, hoje a 14º37´de Capricórnio. Esta estrela, mais ou menos entre 12.000 e 10.000 aC, era a estrela polar da Terra, sendo chamada pelos egípcios de Maat, nome de sua deusa da justiça, que participava da psicostasia.

Entre os árabes, o nome desta estrela era Al Waki, a Cadente; na Idade Média, foi conhecida pelo nome de Vultur Cadens. Ptolomeu atribuía a ela influências semelhantes às de Vênus e Mercúrio. Sempre associada pelos gregos à constelação da Lyra e ao mito de Orfeu, Wega é uma das estrelas mais brilhantes do céu, sempre considerada por todos os povos da antiguidade como a estrela da música.

Orfeu apareceu como um guia e educador da humanidade para a sociedade grega entre os sécs. VI-V aC., uma sociedade que se sentia ameaçada pela crescente influência dos cultos dionisíacos. A teologia órfica opunha-se frontalmente aos cultos de Dioniso.

DIONISO (CARAVAGGIO)

Uma das teses do orfismo era, por exemplo, a de que a prática vegetariana aproximava o homem do divino. O orfismo também se opunha ao coletivismo extasiado ou sensorialmente alterado dos ritos do deus do vinho, enfatizando a ida em direção do divino através de um princípio individual e consciente, sempre inalterado.


Dá-se o nome de Orfismo a uma corrente religiosa que desde o período arcaico da história grega, anterior ao aparecimento de Homero, estava instalada no país. Sabe-se que já no séc.VI aC os cultos órficos estavam espalhados por toda a Hélade, com um grande número de adeptos. O Orfismo compreendia uma cosmogonia e uma teogonia que apresentavam uma certa semelhança com aquilo que Hesíodo fixará.

ESQUARTEJAMENTO DE ZAGREUS

O tema central do Orfismo nos fala do esquartejamento de Zagreus, filho de Zeus e de Perséfone, por parte dos Titãs, que não o aceitavam como divindade tutelar do universo por desígnio do pai. Revoltados, os Titãs atacaram o menino-deus que, para fugir dos seus perseguidores, tomou a forma de um bode (fig.abaixo). Assassinado e devorado pelos Titãs, sobrou apenas do seu corpo o coração, recolhido por Palas Atena.



Zeus usará esse coração para dar nascimento a um novo Zagreus, que tomará o nome de Dioniso, o que nasceu duas vezes. Os Titãs serão fulminados pelo Senhor do Olimpo e de suas cinzas nascerão os humanos, formados por dois elementos, um terrestre (as cinzas titânicas) e o outro divino e eterno (o corpo de Zagreus devorado como bode, que estava no corpo dos Titãs). É desse núcleo que sairá, como se sabe, a tragédia (canto do bode) como gênero teatral: representações que reproduziam a vida, a paixão e a morte do menino-deus, encenadas pelas populações camponesas do interior da Grécia.


Quanto à cosmogonia órfica, fala-se de um ovo cósmico, nascido do Caos. Da divisão desse ovo teriam nascido a Terra e o Céu e mais todos os seres. Quanto à escatologia (tratado das coisas finais) órfica, estabelece-se no Orfismo que o homem tinha uma alma imortal. Esta alma, em virtude de um pecado original, entrava no plano da matéria, decaía. Sucessivas reencarnações e processos de iniciação órfica poderiam purificá-la para que voltasse ao Bem, para junto de Zeus Todo-Poderoso. É neste sentido que o Orfismo se tornou uma religião da salvação, soteriológica, principalmente das elites gregas. Abandonando o cárcere do corpo, a alma voltava à luz, desde que observados todos os ritos que a doutrina órfica estabelecia.


Quando morriam, os adeptos ou iniciados baixavam às sepulturas levando consigo umas pequenas lâminas (lamelas) nas quais se liam pequenas frases rituais, palavras de esperança, declarando-se nelas que aquele corpo que a carregava era de alguém que pertencia à raça dos mortais, sendo sua alma filha do céu estrelado. Na prática, o Orfismo foi pregado por um colégio sacerdotal; exigia-se castidade dos adeptos, jejuns, mortificações, regimes alimentares (proibição de carne animal, abstenção de ovos etc.), práticas ascéticas, vestes brancas, o que muito o aproximava das seitas pitagóricas, ambas, Orfismo e Pitagorsimo, muito influenciadas sem dúvida por doutrinas orientais (Índia). O Cristianismo, por sua vez, como fica fácil constatar, incorporará à sua teologia e à sua prática muitos itens das duas importantes seitas gregas.

O Orfismo se espalhou por todo o mundo grego. Textos órficos, muitos atribuídos a Orfeu, eram na realidade de autoria de Onomácrito, um adivinho da corte de Pisístrato (fig.esq.), de Atenas, a ele se devendo também uma coletânea de sentenças oraculares de Museu, poeta místico, trácio como Orfeu. Museu, amigo inseparável de Orfeu, era, como ele, grande músico, sendo capaz de curar enfermos com a sua arte. A ele de credita a criação do verso hexâmetro datílico e consta ter sido também discípulo de Lino.


Onomácrito (530-480) é uma figura importante do Orfismo. Foi um conhecido cresmólogo, compilador e falsificador de oráculos, que viveu na corte do tirano Pisístrato, em Atenas. Heródoto conta que o tirano requisitou os seus serviços para dar nova forma aos oráculos de Museu, poeta mítico trácio, uma espécie de porta-voz de Orfeu. Pausânias (fig.esq.), grande viajante e geógrafo, observador atento da sociedade do mundo greco-romano, atribui a Onomácrito muitos poemas falsificados sob o nome de Museu.
      
        O Orfismo permeou toda a filosofia, a arte e a literatura gregas. Píndaro, o poeta, acolheu o dogma reencarnacionista da seita. No teatro, os trágicos Ésquilo (fig.esq.) e Sófocles foram muito tocados pelas suas teses. A maior influência, contudo, está em Platão, sendo nele dominante mesmo, como se pode notar em importantes temas do platonismo, o do corpo como prisão da alma (Soma Sema, lema órfico) e o de sua queda e imortalidade.



Se o Orfismo no período clássico da história grega era ainda considerado com alguma seriedade, já no período helenístico a sua doutrina estava desacreditada. Inúmeros charlatães, em nome do Orfismo, percorriam a Grécia vendendo a salvação e lâminas que assegurassem uma boa viagem depois da morte. Diziam eles que, como conhecedores da magia órfica, poderiam limpar todas as impurezas das almas. Platão, aliás, em sua A República, já fustigara os charlatães que em nome do Orfismo vendiam a salvação. As lâminas órficas, lembremos, serviram, mais tarde, como fonte de inspiração para, no cristianismo, se estabelecer o sistema das indulgências.




A história trágica de Orfeu e de Eurídice, depois de Virgílio (As Geórgicas) e de Ovídio (Metamorfoses), deu origem a uma grande tradição literária, artística e musical. Muitos dos escritores e artistas que usaram o tema o deturparam ou o trataram ingenuamente, apesar do sucesso de crítica e de público. Esvaziaram-no sobretudo no que ele tinha de mais importante, o seu caráter político-social, como uma força apolínea de combate ao dionisíaco. Dentre as obras mais conhecidas podemos citar as óperas de Monteverdi, Gluck, Haydn, Offenbach, dramas coreográficos e balés diversos, como o de Angelo Policiano, de Lope de Vega etc. Nas artes plásticas: Bruegel, Tintoreto, Poussin, Delacroix etc. Filmes: de Jean Cocteau e de Marcel Camus.



O que se pode ressaltar de mais evidente na personalidade de Orfeu é que ele é, acima de tudo, um sedutor, um charmeur, como dizem os franceses. Orfeu é aquele que vence as resistências, dissipa-as. Seduzir é convencer com arte e astúcia, sob promessa de vantagens (vida eterna, no caso); exercer influência irresistível, fascinar; desencaminhar, atrair, encantar. Etimologicamente, seducere é chamar à parte, separar, desviar. Orfeu: um sedutor que apenas adormece o mal, mas que não o vence. A palavra seduzir comporta tanto uma ideia de encantamento, êxtase, como de descaminho. O sedutor, nesse sentido, está muito próximo do feiticeiro, do mágico, das Sereias.

ARGONAUTAS

Orfeu, na viagem dos argonautas, com a sua lira e canto, não só dava cadência musical às remadas e impedia que o canto das Sereias seduzisse os comandados de Jasão, como criava um ambiente de simpatia, afastando todas as possibilidades de desentendimento entre os participantes da expedição. Na Cólquida, adormeceu o dragão que guardava o Velocino de Ouro. Na sua descida ao Hades, encantou por completo o mundo subterrâneo. Foi transportado por Caronte, o barqueiro, que nada exigiu dele, quando da travessia dos rios infernais. Adormeceu Cérbero, que guardava os portões do Tártaro, tendo acesso assim ao palácio de Hades e de Perséfone, também seduzidos por sua arte. No pouco tempo que permaneceu no mundo ctônico, acalmou os monstros que lá viviam e aliviou o tormento dos condenados.

Orfeu foi aquele que perdeu Eurídice, a sua alma, a sua metade (o seu lado feminino), como ele mesmo proclamava. Teve a oportunidade de resgatá-la, de integrá-la à sua vida de uma outra maneira, mas falhou porque olhou para trás, transgredindo assim a lei das direções, negando o devenir, não sabendo tornar-se o que não era antes.

A alma, psikhe para os gregos, anima para os latinos, sempre foi considerada como um princípio vital, no qual se reúne o conjunto das atividades imanentes à vida (pensamento, afetividade, sensibilidade etc.) entendidas como manifestações de uma substância autônoma ou parcialmente autônoma em relação à materialidade do corpo. Daí animar, dar vida, imprimir movimento, impulsionar.

A alma é princípio de inspiração moral, como encontramos a palavra nas expressões “ter alma”, “não ter alma”, “criar alma nova”, “sua alma, sua palma”, “vender a alma ao diabo” etc. Princípio de vida, sede de pensamentos e de sentimentos, estes dois conceitos se distinguem desde a antiguidade hebraica (alma orgânica e alma pensante) e romana (animus e anima). A redução do segundo sentido ao primeiro constitui o vitalismo; a redução do primeiro ao segundo, o espiritualismo (Platão, Leibnitz, Hegel).

O problema da união da alma ao corpo foi tratado por Descartes, lembremos. Antes, porém, Platão já o havia abordado de modo excepcional no seu diálogo Phedon. A psykhe, entre os antigos gregos, de um modo geral, estava ligada à ideia de movimento, pois pela sua simples partida o corpo era transformado em algo (soma) sem movimento, um agregado de órgãos e membros inerte, que logo se desfazia.

Quando Orfeu se referiu à perda de sua alma (morte de Eurídice) o que temos é uma alusão clara ao lado feminino da sua personalidade. Tentou resgatá-lo, mas não conseguiu. A esse lado feminino os antigos romanos, como vimos, davam o nome de anima, conceito depois desenvolvido pela psicologia, por Jung principalmente, como índice feminino do inconsciente masculino.



O conceito de anima tem que ser entendido obviamente a partir da complementaridade entre consciente e inconsciente. Nessa perspectiva, resumidamente, e embora na realidade tudo não seja tão simples como aqui se coloca, pode-se dizer que o homem terá uma alma feminina. O que caracteriza a feminilidade da anima é o sentimento, alquimicamente, como se sabe, ligado ao elemento água. Já o animus estará ligado ao pensamento racional, essencialmente masculino, ligado aos elementos ar e fogo. Sentir e pensar, pois. No seu processo de individuação, os homens terão assim que integrar nele a sua anima, as mulheres o seu animus. A compreensão e a integração dessas imagens é bastante complexa e exige um entendimento com o sexo oposto. O cenário em que se dá esse diálogo é a vida de cada um de nós.

Orfeu tentou fazer a reintegração de Eurídice no novo ser em que deveria se tornar, mas não o conseguiu. É de se lembrar aqui, aliás, que os heróis gregos sempre tiveram grande dificuldade de ajustar o masculino e o feminino na sua personalidade. Heróis como Hércules e Aquiles, por exemplo, saturados de energia masculina (o elemento fogo, no caso), conhecidos como grandes guerreiros, foram muito atacados pelo lado feminino de sua personalidade.

Tétis, a mãe de Aquiles (de akhos, dor, aflição), o maior guerreiro da mitologia grega, sabia, por uma profecia, que Tróia só poderia ser vencida se Aquiles participasse da guerra, mas que o fim de Ilion (Troia) coincidiria com a morte de seu filho. Nosso herói aceitou com muita disposição e até entusiasmo, segundo alguns comentaristas, a iniciativa de Tétis de vesti-lo com hábitos femininos (uma espécie de odalisca oriental, mulher do harém de um sultão), levando-o para a corte do rei Licomedes (fig.esq.), na ilha de Ciros, onde passou a viver disfarçado, muito feliz, entre as filhas do soberano, com o nome de Pirra, a Ruiva, por causa de seus cabelos acobreados. Aquiles, nesse esconderijo, levava uma vida dupla, chegando a unir-se com uma princesa da corte, tornando-a mãe de um filho seu, ao qual será dado o nome de Pirro, mais tarde chamado de Neoptólemo.

Aquiles, como se sabe, teve como o maior amor de sua curta vida o herói Pátroclo (fig.dir.), morto pelo troiano Heitor. Tomado por imensa fúria, Aquiles, apesar da sua imensa dor e lágrimas, atacará furiosamente os troianos, decidindo a guerra favoravelmente aos gregos, e trucidará o corpo de Heitor, príncipe troiano, desfigurando o seu cadáver. Depois, então, mandará erguer a pira funerária de Pátroclo, a cuja memória sacrificou onze jovens troianos para a macabra cerimônia. Organizou então jogos fúnebres em honra do amigo e amante, do qual participaram todos os heróis gregos. Ao final, mandou que no local se erigisse um suntuoso túmulo para receber os restos de Pátroclo. Quando Aquiles morreu, as suas cinzas foram juntadas às de Pátroclo. Prossegue o mito nos informando que, restaurados no esplendor de seus corpos físicos, Aquiles, Pátroclo e outros heróis da guerra de Tróia foram transferidos para a Ilha dos Bem-Aventurados e que lá foram viver eternamente, divertindo-se com as suas armas, participando de “agones”, felizes, entre banquetes e festas.

Hércules, como se sabe também, tinha uma paixão enrustida pelo travestismo feminino, sendo muito conhecido um episódio em que nosso herói, exilado na corte de Ônfale (fig.esq.), rainha da Lídia, numa doce escravatura, viveu no ócio, nos banquetes e na luxúria. Apaixonada por ele, mas ao que parece homossexual, a rainha se divertia com a sua famosa túnica feita com a pele do Leão de Nemeia, brincava com as suas armas, especialmente a sua clava, enquanto ele, usando os longos e luxuosos vestidos orientais dela, maquiado, praticando a dança do ventre, passava grande parte de seu tempo fiando linho aos seus pés, soltando o seu lado feminino sem constrangimento algum.






Lembro que o cinema italiano, em 1959, com o brutamontes Steeve Reeves, antigo Mr. Universo, no papel de Hércules, criou um gênero cinematográfico (filme histórico de aventuras) ao qual se deu o nome de Peplum (túnica das mulheres gregas), sobre o episódio que relatamos. Titulo do filme: Ercole e la regina di Lidia.



Voltando ao nosso tema, Orfeu, como se disse, não soube ajustar o lado masculino ao lado feminino de sua personalidade. Perdido o seu lado feminino (Eurídice), fixou-se apenas no masculino, rejeitou companhias femininas, passou a andar vestido com longas túnicas brancas imaculadas, tangendo a sua lira e cantando, sempre acompanhado de rapazes.

A partir do séc. VI aC, como se disse, o orfismo passou a impregnar o pensamento de todas as gerações posteriores, inclusive o cristianismo. Píndaro retomou o tema da reencarnação em sua obra. Os trágicos gregos também foram muito influenciados por ele e as ideias que dominam todo o platonismo têm muito a ver com o orfismo.

Os orpheotelestes, apóstolos que vieram da Trácia para divulgar na Grécia o orfismo como “Boa Nova”, que seduziu muita gente da sociedade grega, já no período helenístico eram vistos como charlatães e mercadores. O próprio Platão, um pouco desiludido talvez, chegou a censurá-los veementemente por causa das promessas que faziam: a completa purificação dos pecados e a garantia de uma vida eterna paradisíaca. Como os metragyrthes (sacerdotes da Grande-Mãe frígia Cibele), eles iam de cidade em cidade mendigando, vendendo as suas purificações e os seus passaportes para a eternidade.

O mito de Orfeu ilustra também, sob um outro ângulo, a situação de alguém que, ao perseguir um ideal, ao adotar uma crença, não se “sacrifica” o bastante, mas que o faz apenas através de belos discursos, de aspectos exteriores. Ou seja, grandes aspirações e nenhum comportamento que as justifique. Orfeu é um personagem que se encaixa perfeitamente nas conclusões que podemos tirar do nono trabalho de Hércules (a morte das aves metálicas do lago Estinfalo) como lição de vida. Este trabalho, como se sabe, tem a ver com o nono signo astrológico de Sagitário, signo dos profetas.

As aves metálicas a que esse trabalho se refere, aves que ele precisava exterminar para que a luz do Sol voltasse a brilhar sobre o lago, representam o palavrório religioso que frequentemente usamos para falar de nossas crenças, da nossa espiritualidade, do nosso desejo de um mundo melhor. O grande problema, porém, é que são as nossas emoções que estão nessas palavras, mas não as nossas a ações. Ficamos muito ocupados com o nosso discurso, com conceitos, ritos, com o visual das cerimônias, usamos roupas vistosas, frequentamos templos, lugares sagrados, igrejas, sinagogas, terreiros, mesquitas, centros esotéricos etc., mas acabamos esquecendo de viver o que falamos. Uma lição do signo de Sagitário aplicável ao tema aqui discutido: devemos deixar de pensar e de falar tanto no “distante”, no “lá”, no “além”, para aprendermos a ser simplesmente no lugar em que nos encontramos, isto é, na terra, no nosso espaço, no nosso momento histórico.

Foi oferecida a Orfeu, quando da sua descida ao Hades, a possibilidade de ser restaurada a sua “unidade”. Por ter “olhado para trás” e não ter entendido que “a mulher é o futuro do homem”, Orfeu abriu mão de sua transcendência terrestre, afinal a única possível ao ser humano. Ou seja, rejeitou o “feminino” em nome do céu, o que aliás todas religiões patriarcais fazem.

O Hades, como sabemos, associa-se à obscuridade, às origens, sendo um símbolo da noite e dos terrores que inspiravam ao homem, desde a pré-história, o frio, a sombra, a solidão. A descida ao inferno da qual nos falam os mitos corresponde, acima, na superfície terrestre, no ciclo das estações, aos primeiros dias de decréscimo da luz, prelúdio do inverno, por oposição à ascensão, entre o primeiro dia da fase crescente seguinte, o equinócio da primavera e o dia 24 de junho.


No nível de vários esoterismos, essa descida representa uma morte alegórica, o abandono pelo iniciado de sua natureza profana nas obscuras câmaras de reflexão, a passagem do negro ao branco dos alquimistas. É o Hades nestes termos o mar noturno do inconsciente ao qual é preciso descer e atravessar, a partir de uma situação de vida consciente, para voltar de novo à luz, chegar a uma outra margem. Em muitas tradições, essa descida, como é aqui o caso, é tida por um processo de individuação que começa por uma descida que alguém faz ao seu mundo interior, uma regressão, uma volta sobre si mesmo, que Orfeu não soube fazer.

Orfeu faz parte da extensa galeria de profetas fundadores de religiões, de instauradores dos vários cultos religiosos que conhecemos. No geral, em todos, a transcendência nunca é terrestre; o que se oferece como salvação é uma vida eterna na bem-aventurança ao lado de um Deus, num paraíso. Os discursos desses profetas, como a história das religiões no-lo prova, são um fracasso quanto ao feminino.

Numa outra leitura, podemos considerar que Eurídice era o duplo de Orfeu, esse duplo que se torna o objetivo da eterna busca do ser humano, pois é ele e só ele que pode garantir a fecundidade do ser. Em todos os mitos, a alma é concebida como um duplo do ser vivo, que pode se separar do seu corpo na ocorrência da morte, pelo sonho ou por alguma operação mágica.


RENÉ MAGRITTE

Platão, em O Banquete, fala do andrógino como o alter ego da personalidade humana, seu complemento indispensável, ao qual todo homem ou toda mulher deverão voltar a se unir para ser recuperada a unidade original perdida. A partir do século XIX, o Romantismo alemão pôs em circulação a ideia do duplo sob uma outra forma, sob a inspiração do triunfo da subjetividade (tendência a encarar e a avaliar as coisas de um ponto de vista meramente pessoal). Os duplos (doppelgänger) que o Romantismo alemão nos revelou, são inquietantes, têm um caráter de fatalidade. Como exemplos desta tendência, podemos citar obras como A Mulher Sem Sombra (Hugo von Hofmannsthal), O Retrato de Dorian Grey (Oscar Wilde), Le Horla (Guy de Maupassant), A Sombra (Hans C.Andersen) etc.

Eurídice, como complemento indispensável, alter ego da personalidade humana, é a reconstituição da unidade original, sempre perdida e sempre reconquistada. Os mecanismos que nos desapossam de nós mesmos, conduzindo-nos a um desdobramento (fenomenologia do duplo, da sombra, da psicologia moderna), encontram, sem dúvida, no mito de Orfeu uma de suas melhores expressões.

Grande parte dos que se fixaram em Orfeu, mitólogos, estudiosos, exegetas, psicólogos, escritores, religiosos etc., optaram por considerá-lo sobretudo pelo seu gênero de vida segundo a seita que se formou a partir de seu mito. Na Grécia, os adeptos do orfismo eram chamados também de renunciantes e tinham como único objetivo a salvação. Exercitavam-se para a santidade, cultivavam técnicas de purificação a fim de se separar dos outros. Os órficos, em nome da humanidade, queriam ser absolvidos do sangue derramado nos altares por aqueles que haviam vivido a religião como sacrifício sangrento. Recusavam por isso o alimento vermelho, as “apetitosas emanações”, em nome da comensalidade vegetariana. Em momento algum de sua história, o orfismo tentou atuar politicamente ou imaginar a polis de outra maneira. O que pretenderam foi reescrever a gênese do mundo (cosmogonia) e a história dos deuses (teogonia).

O orfismo procurou dar uma outra forma à religião olímpica. Vindas de séculos anteriores, as comunidades órficas já tinham a sua existência perfeitamente atestada no séc. VI aC. Através de uma ascese, de mortificações e purificações que os levasse a uma rigorosa catarse, os iniciados defendiam a metempsicose, entrando muitas vezes em choque com a religião oficial da polis.

O ser humano era produto de um dualismo original, o titânico e o divino. A morte não punha fim à vida, pois, segundo a doutrina da transmigração das almas, o elemento divino teria que se reunir novamente com o seu antagônico titânico para recomeçar uma nova vida, sob uma outra forma. Assim, a alma é julgada e, conforme os seus méritos e as suas faltas, depois de uma permanência no além, retorna ao cárcere de um novo corpo humano, podendo inclusive descer ao nível animal e vegetal.

Os sepultamentos, para órficos, eram uma cerimônia simples e alegre, já que “as lágrimas se guardavam para os nascimentos”. Os criminosos e os sacrílegos estavam condenados a passar por penosas metempsicoses. A alma que não havia quitado as suas culpas devia, pois, retornar.

O orfismo procurou modificar arraigados e imemoriais princípios que estavam presentes na religião oficial da polis grega. Esta, como se sabe, falava de seculares maldições familiares segundo as quais cada membro do “genos” era corresponsável e herdeiro das violências (hamartiai) praticadas por qualquer um de seus membros. Para os órficos a culpa era sempre da alçada individual e por ela o criminoso pagaria no além e em outras reencarnações, até a sua catarse final. O orfismo, ao contrário da religião oficial da polis, que propunha o bem viver segundo os modelos apolíneos, era uma doutrina que falava do “bem morrer”. Nestas condições, “sorrisos para os que morrem, lágrimas para os que nascem.”