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domingo, 11 de março de 2012

ORFEU OU O FRACASSO DE UM PROFETA


Filho da mais importante das Musas, Calíope (fig.dir.), a de bela voz, e do deus-rio Eagro, Orfeu aparece na mitologia grega ligado ao canto, à música, como a principal figura de uma família mítica de inventores de gêneros musicais e de instrumentistas excepcionais. Pelo lado materno, era neto de Mnemósina (fig.esq.), a deusa da memória, e de Zeus, que com ela teve as nove irmãs, as Musas, nome que significa tanto instruir como fixar. As Musas nasceram para celebrar condignamente a vitória dos olímpicos sobre os titãs. Pelo lado paterno, Orfeu era neto do deus Oceano e de Tétis (fig.dir.), ambos da família dos titãs. O primeiro era o grande rio-serpente que circundava o globo terrestre. A segunda, sua irmã, personificava a fecundidade feminina do mar.

MUSAS

Servidoras dos artistas, participando às vezes do séquito de Apolo, vivendo no monte Helicon, junto da fonte Hipocrene, cujas águas favoreciam a inspiração poética, as Musas eram nove: Calíope presidia a Poesia Épica, Clio a História, Érato a Lírica Coral, Euterpe a Música, Melpômene a Tragédia, Polímnia a Retórica, Talia a Comédia, Terpsícore a Dança e Urânia a Astronomia.

Pela importância que os gregos davam à poesia épica, Calíope era considerada como a mais importante das Musas. Segundo o maior número de versões, Calíope era mãe de Orfeu, de Iálemo, de Himeneu e de Lino, os três últimos nascidos de sua união com Apolo. Algumas variantes a consideram também como a mãe das Sereias, as cruéis cantoras. Da sua biografia consta também que arbitrou, juntamente com Zeus, a disputa que Perséfone e Afrodite travaram pela posse belíssimo Adonis (fig.esq.), deus da vegetação.

Pelo lado paterno, Orfeu era, como está acima, filho de um deus-rio. Os rios, na Grécia antiga e em muitas outras tradições, lembremos, pela sua correnteza são uma imagem do fluir universal e, como tal, da impermanência de todas as coisas, da sua incessante mudança. Num sentido positivo, os rios simbolizam a fertilidade (a irrigação das terras) e a renovação (o fluir das águas). Negativamente, porém, podem representar a morte (inundação, afogamento, absorção).


Os gregos veneravam os rios como filhos do deus Oceano e pais das ninfas potâmidas. Em tempos muitos remotos eram oferecidos a eles sacrifícios de animais (touros e cavalos, sobretudo). Venerados, respeitados e temidos, os rios só podiam ser atravessados por aqueles que previamente se tivessem purificado. Hesíodo dizia que quem atravessasse um rio sem esse cuidado atrairia sobre si a cólera divina. Etimologicamente, o nome Eagro é uma combinação de duas palavras: ovelha (ois) e perseguir (agreuein), ou seja, o que oferece perigo às ovelhas, o que ameaça o rebanho.

Iálemo (fig.dir.), etimologicamente lamento fúnebre, era irmão de Orfeu por parte de mãe apenas, sendo o pai, como se disse, o deus Apolo, na condição de deus da harmonia. O canto fúnebre, chamado threno pelos gregos, entoado sobretudo nas exéquias daqueles que morriam jovens era uma criação de Iálemo. Sua finalidade era a de orientar a alma (psikhe) na sua catábase para o Hades. Era uma melopeia acompanhada das lágrimas dos que o contavam, tendo um tríplice objetivo: consolar os vivos, celebrar as virtudes do morto e garantir que ele seria eternamente lembrado enquanto um parente próximo seu existisse. Iálemo foi o inventor desse gênero poético e a primeira peça que compôs foi dedicada a Lino, seu desditoso irmão.

Lino é nome que lembra etimologicamente canção triste e melancólica, interjeição dolorosa pela morte de alguém. Nos mitos beócios (interior da Grécia, região de camponeses), Lino passa por ter sido o inventor do ritmo e da melodia, além de ter fixado o alfabeto fenício e de ter dado a cada letra o seu nome. No período clássico, foram atribuídos a ele tratados filosóficos, ocultistas e místicos. A versão mais aceita sobre a sua morte é a de que Hércules, num assomo de raiva, quando por ele advertido numa aula de música, o teria assassinado.

HIMENEU

Quanto a Himeneu, seu nome parece provir de uma aglutinação de palavras gregas que significam película, membrana, união, laço e grito. Ou seja, o rompimento de uma membrana no dia do casamento e os gritos para a invocação do deus. Neste sentido é a divindade do cortejo nupcial e, como tal, a personificação da canção entoada nessa cerimônia.

Numa outra versão, a história de Himeneu é fruto de um processo de evemerização (fato histórico que se transforma em mito), como a seguir se conta. De feições muito delicadas, Himeneu às vezes tomado por uma bela jovem, muito feminino, teria sido um pobre adolescente que se apaixonou por uma jovem eupátrida. Não conseguindo torná-la sua esposa, seguia-a para onde quer que ela fosse, como sua sombra. Para ficar perto dela, certa vez, adotou um disfarce feminino, juntando-se a um grupo de nobres donzelas que saíram de Atenas em direção de Eleusis para participar dos Mistérios que lá se realizavam. Atacados por um bando de malfeitores, foram todos raptados, inclusive Himeneu. A finalidade do rapto era a de vender as jovens como escravas. No meio do caminho, porém, numa praia, todos cansados, raptores e raptadas dormiram. Com muita coragem, então, Himeneu disso se aproveitou para matar todos os bandidos. Ao voltar para Atenas com as jovens, conseguiu se unir àquela que amava.

AFRODITE


Por causa deste feito, que exigiu uma longa travessia de barco para o devido retorno a Atenas, Himeneu passou depois a ser conhecido também pelo nome de Thalassios, sendo aos poucos divinizado como o protetor dos direitos do casamento. Nesta condição, foi levado a se tornar companheiro de Eros e de Afrodite, passando a ser honrado especialmente no monte Helikon, onde viviam as Musas, na Beócia. Há uma versão do mito que nos conta que ele perdeu a sua voz e mesmo a sua vida quando participou do casamento de Dioniso com Ariadne.

Orfeu, nome que lembra privação, falta, carência, orfandade, conforme seu mito nos conta, teria nascido na Trácia. Além de poeta, músico e cantor, era considerado como o inventor da cítara e da lira, instrumentos que têm relação com a harmonia cósmica através dos números sete, número da ordem e da organização do espaço, e do número nove, que, no Orfismo, define os aspectos simbólicos do universo, divididos em três tríades: 1) A Noite, o Céu e o Tempo; 2) O Éter, a Luz e os Astros; 3) O Sol, a Lua e a Natureza.

De voz excepcional, Orfeu a todos e a tudo encantava, os humanos, os seres do mundo vegetal e animal, as rochas, inclusive os deuses. As árvores se inclinavam para ouvi-lo, as bestas selvagens se acalmavam, os humanos se enterneciam, os deuses o admiravam, mesmo as rochas eram sensíveis ao seu canto.

CIBELE

Educador dos belicosos trácios, percorreu todo o mundo antigo, iniciando-se nos mistérios das mais antigas tradições, de Ísis (fig.dir.), de Cibele, dos Cabiros, da Samotrácia e de Eleusis. Da sua história, consta que participou da expedição dos argonautas com o objetivo de ajudar os heróis que nela se engajaram, dando-lhes não só o ritmo dos remos como encobrindo com a sua maravilhosa música o canto das suas sedutoras primas (filhas de Melpômene), as Sereias, que levavam quem as ouvisse à perdição.


Ao voltar da expedição dos argonautas, Orfeu divulgou na Grécia a ideia de que os crimes e as faltas que os homens cometessem poderiam ser expiados. Para isso, os humanos deveriam participar dos mistérios por ele criados, sob o nome de Orfismo, sendo prometida inclusive a imortalidade a quem nele se iniciasse. Foi nessa oportunidade que se uniu à dríada Eurídice (a de grande justiça), a quem considerava como a sua alma.

Himeneu foi convocado para abençoar com a sua presença a união de Orfeu com Eurídice. Não levou contudo bons augúrios, pois a tocha que usava para consagrar as uniões que presidia fumegou, fazendo com que todos os presentes à cerimônia lacrimejassem.

EURÍDICE ATACADA POR ARISTEU

Quem nos conta esta história é Virgílio, poeta latino do séc. I aC, em As Geórgicas. Ao tentar escapar da perseguição do deus apicultor Aristeu, que a queria violentar, Eurídice foi picada por uma serpente e morreu. Sua alma desceu então ao Hades, “cobrindo-se de trevas”. Inconformado com a sua perda, Orfeu se dispôs a trazê-la de volta. Conseguindo penetrar no reino infernal através de uma gruta situada ao lado do cabo Tenaro, ele se apresentou a Plutão e a Perséfone, encantando-os com a sua música.


Assim cantou Orfeu, segundo o poeta: “Ó divindades do mundo inferior, para o qual todos nós que vivemos teremos que vir, ouvi minhas palavras, que são verdadeiras. Não venho aqui para espionar os segredos do Tártaro, nem para tentar experimentar a minha força contra Cérbero, o cão tricéfalo que guarda a entrada. Venho à procura de minha esposa, a cuja mocidade o dente de uma venenosa víbora pôs fim prematuro. O Amor (Eros) aqui me trouxe, Eros um deus todo-poderoso entre nós, que mora na Terra e, se as velhas tradições dizem a verdade, também mora aqui. Imploro-vos: uni de novo os fios da vida de Eurídice. Nós todos somos destinados a vós, por essas abóbadas cheias de terror, por estes reinos de silêncio, e, mais cedo ou mais tarde, passaremos ao vosso domínio. Também ela, quando tiver cumprido o termo de sua vida, será devidamente vossa. Até então, porém, deixai-a comigo, eu vos imploro. Se recusardes, não poderei voltar sozinho; triunfareis com a morte de nós dois.”

À medida que o canto de Orfeu fluía, as almas que viviam no reino do Hades, fantasmagóricas e sofridas, soluçavam e choravam. Tântalo, por um momento, abandonou a sua torturante e eterna busca de água e alimento; a roda de Ixion imobilizou-se; as filhas de Danao deixaram de tentar encher com água os tonéis sem fundo; Sísifo sentou-se ao lado de sua enorme pedra, não mais a empurrando montanha acima, como o fazia diariamente; o monstruoso Abutre, filho de Tifon, não foi destruir o fígado de Prometeu nesse dia. Os olhos das Erínias, pela primeira e única vez, em toda a história do Hades, ficaram úmidos. Perséfone não pode resistir e intercedeu junto de seu amado esposo no sentido da libertação do casal, obtendo dele o devido assentimento.

Recebida por Orfeu a permissão para reconduzir Eurídice ao mundo dos vivos, uma condição foi imposta: ele iria à frente e ela atrás, não podendo ele, em hipótese alguma, voltar-se para vê-la. Só poderiam se ver quando tivessem ambos ultrapassado os limites do reino infernal.


Quando já estava muito próximo da superfície da terra, Orfeu, tomado por invencível pothos, provocada por terrível dúvida, voltou-se para ver a sua amada. Rompido o acordo, perdeu-a. Ao longe, uma sombra que lembrava vagamente a sua amada, deslizava na direção do Hades. Tentou alcançá-la, mas foi em vão.


Desesperado, perdida Eurídice para sempre, Orfeu, desde a sua saída do Hades se desinteressou pelas mulheres. Repelia-as, nenhuma lhe interessava, preferindo as companhias masculinas. As donzelas trácias fizeram de tudo para seduzi-lo e ele absolutamente insensível. Entregou-se Orfeu inteiramente aos mistérios que criara, proibindo que dele participassem as mulheres. Fixou-se assim só no polo masculino, elegendo-o como única via para chegar ao mundo espiritual. Ao assim agir, transgredia um dos preceitos fundamentais da existência, o do gênero. Negava assim Orfeu o dualismo, que comanda toda a dialética universal, todo o movimento do devenir.


Tal procedimento, como se sabe, ao negar a alternância, atraiu a ação de Dioniso, a grande divindade que destrói as formas que se coagulam; como força irresistível ele provoca o rompimento de todos os limites que se queiram impor à energia universal.


Orfeu foi atacado pelas sacerdotisas do deus, as mênades, sendo seu corpo despedaçado (sparagmos), lançados os seus pedaços ao rio Hebro.


A história de Orfeu terminaria aqui. Contudo, segundo uma inspiração apolínea, de tendência espiritualizante, aristocrática, obviamente masculina, o crime cometido deveria ser punido. Uma peste assolou o país. Para apaziguar os deuses, conforme sentença oracular (Delfos), era preciso recuperar a cabeça de Orfeu (fig.dir., tela de G.Moreau) para que lhe fossem prestadas as honras fúnebres. Assim foi feito e tudo se resolveu. A cabeça do poeta transformou-se num oráculo, sua lira foi para Lesbos, centro da poesia lírica grega, e depois para os céus, sendo transformada numa constelação. Conduzido à Ilha dos Bem-Aventurados, lá, Orfeu, metido numa túnica imaculadamente branca, solitário e dolente, passa seu tempo tangendo a sua lira, com os olhos postos na eternidade.

A lira de Orfeu foi fabricada pelo deus Hermes com o casco de uma tartaruga e as cordas feitas com as tripas de animais por ele sacrificados. Cedida a Apolo, o instrumento acabou nas mãos de Orfeu. Nada há que se estranhar quanto a isto: como patrono de uma poderosa seita religiosa, não ficaria bem que Orfeu tivesse como pai um simples deus-rio. Uma versão tardia “melhorou” a sua paternidade, assumindo-a o Senhor de Delfos. 




Colocada nos céus como constelação boreal (10º a 29º de Capricórnio), a lira (Lyra) tem como a sua mais brilhante estrela Wega, alfa, de 1ª magnitude, hoje a 14º37´de Capricórnio. Esta estrela, mais ou menos entre 12.000 e 10.000 aC, era a estrela polar da Terra, sendo chamada pelos egípcios de Maat, nome de sua deusa da justiça, que participava da psicostasia.

Entre os árabes, o nome desta estrela era Al Waki, a Cadente; na Idade Média, foi conhecida pelo nome de Vultur Cadens. Ptolomeu atribuía a ela influências semelhantes às de Vênus e Mercúrio. Sempre associada pelos gregos à constelação da Lyra e ao mito de Orfeu, Wega é uma das estrelas mais brilhantes do céu, sempre considerada por todos os povos da antiguidade como a estrela da música.

Orfeu apareceu como um guia e educador da humanidade para a sociedade grega entre os sécs. VI-V aC., uma sociedade que se sentia ameaçada pela crescente influência dos cultos dionisíacos. A teologia órfica opunha-se frontalmente aos cultos de Dioniso.

DIONISO (CARAVAGGIO)

Uma das teses do orfismo era, por exemplo, a de que a prática vegetariana aproximava o homem do divino. O orfismo também se opunha ao coletivismo extasiado ou sensorialmente alterado dos ritos do deus do vinho, enfatizando a ida em direção do divino através de um princípio individual e consciente, sempre inalterado.


Dá-se o nome de Orfismo a uma corrente religiosa que desde o período arcaico da história grega, anterior ao aparecimento de Homero, estava instalada no país. Sabe-se que já no séc.VI aC os cultos órficos estavam espalhados por toda a Hélade, com um grande número de adeptos. O Orfismo compreendia uma cosmogonia e uma teogonia que apresentavam uma certa semelhança com aquilo que Hesíodo fixará.

ESQUARTEJAMENTO DE ZAGREUS

O tema central do Orfismo nos fala do esquartejamento de Zagreus, filho de Zeus e de Perséfone, por parte dos Titãs, que não o aceitavam como divindade tutelar do universo por desígnio do pai. Revoltados, os Titãs atacaram o menino-deus que, para fugir dos seus perseguidores, tomou a forma de um bode (fig.abaixo). Assassinado e devorado pelos Titãs, sobrou apenas do seu corpo o coração, recolhido por Palas Atena.



Zeus usará esse coração para dar nascimento a um novo Zagreus, que tomará o nome de Dioniso, o que nasceu duas vezes. Os Titãs serão fulminados pelo Senhor do Olimpo e de suas cinzas nascerão os humanos, formados por dois elementos, um terrestre (as cinzas titânicas) e o outro divino e eterno (o corpo de Zagreus devorado como bode, que estava no corpo dos Titãs). É desse núcleo que sairá, como se sabe, a tragédia (canto do bode) como gênero teatral: representações que reproduziam a vida, a paixão e a morte do menino-deus, encenadas pelas populações camponesas do interior da Grécia.


Quanto à cosmogonia órfica, fala-se de um ovo cósmico, nascido do Caos. Da divisão desse ovo teriam nascido a Terra e o Céu e mais todos os seres. Quanto à escatologia (tratado das coisas finais) órfica, estabelece-se no Orfismo que o homem tinha uma alma imortal. Esta alma, em virtude de um pecado original, entrava no plano da matéria, decaía. Sucessivas reencarnações e processos de iniciação órfica poderiam purificá-la para que voltasse ao Bem, para junto de Zeus Todo-Poderoso. É neste sentido que o Orfismo se tornou uma religião da salvação, soteriológica, principalmente das elites gregas. Abandonando o cárcere do corpo, a alma voltava à luz, desde que observados todos os ritos que a doutrina órfica estabelecia.


Quando morriam, os adeptos ou iniciados baixavam às sepulturas levando consigo umas pequenas lâminas (lamelas) nas quais se liam pequenas frases rituais, palavras de esperança, declarando-se nelas que aquele corpo que a carregava era de alguém que pertencia à raça dos mortais, sendo sua alma filha do céu estrelado. Na prática, o Orfismo foi pregado por um colégio sacerdotal; exigia-se castidade dos adeptos, jejuns, mortificações, regimes alimentares (proibição de carne animal, abstenção de ovos etc.), práticas ascéticas, vestes brancas, o que muito o aproximava das seitas pitagóricas, ambas, Orfismo e Pitagorsimo, muito influenciadas sem dúvida por doutrinas orientais (Índia). O Cristianismo, por sua vez, como fica fácil constatar, incorporará à sua teologia e à sua prática muitos itens das duas importantes seitas gregas.

O Orfismo se espalhou por todo o mundo grego. Textos órficos, muitos atribuídos a Orfeu, eram na realidade de autoria de Onomácrito, um adivinho da corte de Pisístrato (fig.esq.), de Atenas, a ele se devendo também uma coletânea de sentenças oraculares de Museu, poeta místico, trácio como Orfeu. Museu, amigo inseparável de Orfeu, era, como ele, grande músico, sendo capaz de curar enfermos com a sua arte. A ele de credita a criação do verso hexâmetro datílico e consta ter sido também discípulo de Lino.


Onomácrito (530-480) é uma figura importante do Orfismo. Foi um conhecido cresmólogo, compilador e falsificador de oráculos, que viveu na corte do tirano Pisístrato, em Atenas. Heródoto conta que o tirano requisitou os seus serviços para dar nova forma aos oráculos de Museu, poeta mítico trácio, uma espécie de porta-voz de Orfeu. Pausânias (fig.esq.), grande viajante e geógrafo, observador atento da sociedade do mundo greco-romano, atribui a Onomácrito muitos poemas falsificados sob o nome de Museu.
      
        O Orfismo permeou toda a filosofia, a arte e a literatura gregas. Píndaro, o poeta, acolheu o dogma reencarnacionista da seita. No teatro, os trágicos Ésquilo (fig.esq.) e Sófocles foram muito tocados pelas suas teses. A maior influência, contudo, está em Platão, sendo nele dominante mesmo, como se pode notar em importantes temas do platonismo, o do corpo como prisão da alma (Soma Sema, lema órfico) e o de sua queda e imortalidade.



Se o Orfismo no período clássico da história grega era ainda considerado com alguma seriedade, já no período helenístico a sua doutrina estava desacreditada. Inúmeros charlatães, em nome do Orfismo, percorriam a Grécia vendendo a salvação e lâminas que assegurassem uma boa viagem depois da morte. Diziam eles que, como conhecedores da magia órfica, poderiam limpar todas as impurezas das almas. Platão, aliás, em sua A República, já fustigara os charlatães que em nome do Orfismo vendiam a salvação. As lâminas órficas, lembremos, serviram, mais tarde, como fonte de inspiração para, no cristianismo, se estabelecer o sistema das indulgências.




A história trágica de Orfeu e de Eurídice, depois de Virgílio (As Geórgicas) e de Ovídio (Metamorfoses), deu origem a uma grande tradição literária, artística e musical. Muitos dos escritores e artistas que usaram o tema o deturparam ou o trataram ingenuamente, apesar do sucesso de crítica e de público. Esvaziaram-no sobretudo no que ele tinha de mais importante, o seu caráter político-social, como uma força apolínea de combate ao dionisíaco. Dentre as obras mais conhecidas podemos citar as óperas de Monteverdi, Gluck, Haydn, Offenbach, dramas coreográficos e balés diversos, como o de Angelo Policiano, de Lope de Vega etc. Nas artes plásticas: Bruegel, Tintoreto, Poussin, Delacroix etc. Filmes: de Jean Cocteau e de Marcel Camus.



O que se pode ressaltar de mais evidente na personalidade de Orfeu é que ele é, acima de tudo, um sedutor, um charmeur, como dizem os franceses. Orfeu é aquele que vence as resistências, dissipa-as. Seduzir é convencer com arte e astúcia, sob promessa de vantagens (vida eterna, no caso); exercer influência irresistível, fascinar; desencaminhar, atrair, encantar. Etimologicamente, seducere é chamar à parte, separar, desviar. Orfeu: um sedutor que apenas adormece o mal, mas que não o vence. A palavra seduzir comporta tanto uma ideia de encantamento, êxtase, como de descaminho. O sedutor, nesse sentido, está muito próximo do feiticeiro, do mágico, das Sereias.

ARGONAUTAS

Orfeu, na viagem dos argonautas, com a sua lira e canto, não só dava cadência musical às remadas e impedia que o canto das Sereias seduzisse os comandados de Jasão, como criava um ambiente de simpatia, afastando todas as possibilidades de desentendimento entre os participantes da expedição. Na Cólquida, adormeceu o dragão que guardava o Velocino de Ouro. Na sua descida ao Hades, encantou por completo o mundo subterrâneo. Foi transportado por Caronte, o barqueiro, que nada exigiu dele, quando da travessia dos rios infernais. Adormeceu Cérbero, que guardava os portões do Tártaro, tendo acesso assim ao palácio de Hades e de Perséfone, também seduzidos por sua arte. No pouco tempo que permaneceu no mundo ctônico, acalmou os monstros que lá viviam e aliviou o tormento dos condenados.

Orfeu foi aquele que perdeu Eurídice, a sua alma, a sua metade (o seu lado feminino), como ele mesmo proclamava. Teve a oportunidade de resgatá-la, de integrá-la à sua vida de uma outra maneira, mas falhou porque olhou para trás, transgredindo assim a lei das direções, negando o devenir, não sabendo tornar-se o que não era antes.

A alma, psikhe para os gregos, anima para os latinos, sempre foi considerada como um princípio vital, no qual se reúne o conjunto das atividades imanentes à vida (pensamento, afetividade, sensibilidade etc.) entendidas como manifestações de uma substância autônoma ou parcialmente autônoma em relação à materialidade do corpo. Daí animar, dar vida, imprimir movimento, impulsionar.

A alma é princípio de inspiração moral, como encontramos a palavra nas expressões “ter alma”, “não ter alma”, “criar alma nova”, “sua alma, sua palma”, “vender a alma ao diabo” etc. Princípio de vida, sede de pensamentos e de sentimentos, estes dois conceitos se distinguem desde a antiguidade hebraica (alma orgânica e alma pensante) e romana (animus e anima). A redução do segundo sentido ao primeiro constitui o vitalismo; a redução do primeiro ao segundo, o espiritualismo (Platão, Leibnitz, Hegel).

O problema da união da alma ao corpo foi tratado por Descartes, lembremos. Antes, porém, Platão já o havia abordado de modo excepcional no seu diálogo Phedon. A psykhe, entre os antigos gregos, de um modo geral, estava ligada à ideia de movimento, pois pela sua simples partida o corpo era transformado em algo (soma) sem movimento, um agregado de órgãos e membros inerte, que logo se desfazia.

Quando Orfeu se referiu à perda de sua alma (morte de Eurídice) o que temos é uma alusão clara ao lado feminino da sua personalidade. Tentou resgatá-lo, mas não conseguiu. A esse lado feminino os antigos romanos, como vimos, davam o nome de anima, conceito depois desenvolvido pela psicologia, por Jung principalmente, como índice feminino do inconsciente masculino.



O conceito de anima tem que ser entendido obviamente a partir da complementaridade entre consciente e inconsciente. Nessa perspectiva, resumidamente, e embora na realidade tudo não seja tão simples como aqui se coloca, pode-se dizer que o homem terá uma alma feminina. O que caracteriza a feminilidade da anima é o sentimento, alquimicamente, como se sabe, ligado ao elemento água. Já o animus estará ligado ao pensamento racional, essencialmente masculino, ligado aos elementos ar e fogo. Sentir e pensar, pois. No seu processo de individuação, os homens terão assim que integrar nele a sua anima, as mulheres o seu animus. A compreensão e a integração dessas imagens é bastante complexa e exige um entendimento com o sexo oposto. O cenário em que se dá esse diálogo é a vida de cada um de nós.

Orfeu tentou fazer a reintegração de Eurídice no novo ser em que deveria se tornar, mas não o conseguiu. É de se lembrar aqui, aliás, que os heróis gregos sempre tiveram grande dificuldade de ajustar o masculino e o feminino na sua personalidade. Heróis como Hércules e Aquiles, por exemplo, saturados de energia masculina (o elemento fogo, no caso), conhecidos como grandes guerreiros, foram muito atacados pelo lado feminino de sua personalidade.

Tétis, a mãe de Aquiles (de akhos, dor, aflição), o maior guerreiro da mitologia grega, sabia, por uma profecia, que Tróia só poderia ser vencida se Aquiles participasse da guerra, mas que o fim de Ilion (Troia) coincidiria com a morte de seu filho. Nosso herói aceitou com muita disposição e até entusiasmo, segundo alguns comentaristas, a iniciativa de Tétis de vesti-lo com hábitos femininos (uma espécie de odalisca oriental, mulher do harém de um sultão), levando-o para a corte do rei Licomedes (fig.esq.), na ilha de Ciros, onde passou a viver disfarçado, muito feliz, entre as filhas do soberano, com o nome de Pirra, a Ruiva, por causa de seus cabelos acobreados. Aquiles, nesse esconderijo, levava uma vida dupla, chegando a unir-se com uma princesa da corte, tornando-a mãe de um filho seu, ao qual será dado o nome de Pirro, mais tarde chamado de Neoptólemo.

Aquiles, como se sabe, teve como o maior amor de sua curta vida o herói Pátroclo (fig.dir.), morto pelo troiano Heitor. Tomado por imensa fúria, Aquiles, apesar da sua imensa dor e lágrimas, atacará furiosamente os troianos, decidindo a guerra favoravelmente aos gregos, e trucidará o corpo de Heitor, príncipe troiano, desfigurando o seu cadáver. Depois, então, mandará erguer a pira funerária de Pátroclo, a cuja memória sacrificou onze jovens troianos para a macabra cerimônia. Organizou então jogos fúnebres em honra do amigo e amante, do qual participaram todos os heróis gregos. Ao final, mandou que no local se erigisse um suntuoso túmulo para receber os restos de Pátroclo. Quando Aquiles morreu, as suas cinzas foram juntadas às de Pátroclo. Prossegue o mito nos informando que, restaurados no esplendor de seus corpos físicos, Aquiles, Pátroclo e outros heróis da guerra de Tróia foram transferidos para a Ilha dos Bem-Aventurados e que lá foram viver eternamente, divertindo-se com as suas armas, participando de “agones”, felizes, entre banquetes e festas.

Hércules, como se sabe também, tinha uma paixão enrustida pelo travestismo feminino, sendo muito conhecido um episódio em que nosso herói, exilado na corte de Ônfale (fig.esq.), rainha da Lídia, numa doce escravatura, viveu no ócio, nos banquetes e na luxúria. Apaixonada por ele, mas ao que parece homossexual, a rainha se divertia com a sua famosa túnica feita com a pele do Leão de Nemeia, brincava com as suas armas, especialmente a sua clava, enquanto ele, usando os longos e luxuosos vestidos orientais dela, maquiado, praticando a dança do ventre, passava grande parte de seu tempo fiando linho aos seus pés, soltando o seu lado feminino sem constrangimento algum.






Lembro que o cinema italiano, em 1959, com o brutamontes Steeve Reeves, antigo Mr. Universo, no papel de Hércules, criou um gênero cinematográfico (filme histórico de aventuras) ao qual se deu o nome de Peplum (túnica das mulheres gregas), sobre o episódio que relatamos. Titulo do filme: Ercole e la regina di Lidia.



Voltando ao nosso tema, Orfeu, como se disse, não soube ajustar o lado masculino ao lado feminino de sua personalidade. Perdido o seu lado feminino (Eurídice), fixou-se apenas no masculino, rejeitou companhias femininas, passou a andar vestido com longas túnicas brancas imaculadas, tangendo a sua lira e cantando, sempre acompanhado de rapazes.

A partir do séc. VI aC, como se disse, o orfismo passou a impregnar o pensamento de todas as gerações posteriores, inclusive o cristianismo. Píndaro retomou o tema da reencarnação em sua obra. Os trágicos gregos também foram muito influenciados por ele e as ideias que dominam todo o platonismo têm muito a ver com o orfismo.

Os orpheotelestes, apóstolos que vieram da Trácia para divulgar na Grécia o orfismo como “Boa Nova”, que seduziu muita gente da sociedade grega, já no período helenístico eram vistos como charlatães e mercadores. O próprio Platão, um pouco desiludido talvez, chegou a censurá-los veementemente por causa das promessas que faziam: a completa purificação dos pecados e a garantia de uma vida eterna paradisíaca. Como os metragyrthes (sacerdotes da Grande-Mãe frígia Cibele), eles iam de cidade em cidade mendigando, vendendo as suas purificações e os seus passaportes para a eternidade.

O mito de Orfeu ilustra também, sob um outro ângulo, a situação de alguém que, ao perseguir um ideal, ao adotar uma crença, não se “sacrifica” o bastante, mas que o faz apenas através de belos discursos, de aspectos exteriores. Ou seja, grandes aspirações e nenhum comportamento que as justifique. Orfeu é um personagem que se encaixa perfeitamente nas conclusões que podemos tirar do nono trabalho de Hércules (a morte das aves metálicas do lago Estinfalo) como lição de vida. Este trabalho, como se sabe, tem a ver com o nono signo astrológico de Sagitário, signo dos profetas.

As aves metálicas a que esse trabalho se refere, aves que ele precisava exterminar para que a luz do Sol voltasse a brilhar sobre o lago, representam o palavrório religioso que frequentemente usamos para falar de nossas crenças, da nossa espiritualidade, do nosso desejo de um mundo melhor. O grande problema, porém, é que são as nossas emoções que estão nessas palavras, mas não as nossas a ações. Ficamos muito ocupados com o nosso discurso, com conceitos, ritos, com o visual das cerimônias, usamos roupas vistosas, frequentamos templos, lugares sagrados, igrejas, sinagogas, terreiros, mesquitas, centros esotéricos etc., mas acabamos esquecendo de viver o que falamos. Uma lição do signo de Sagitário aplicável ao tema aqui discutido: devemos deixar de pensar e de falar tanto no “distante”, no “lá”, no “além”, para aprendermos a ser simplesmente no lugar em que nos encontramos, isto é, na terra, no nosso espaço, no nosso momento histórico.

Foi oferecida a Orfeu, quando da sua descida ao Hades, a possibilidade de ser restaurada a sua “unidade”. Por ter “olhado para trás” e não ter entendido que “a mulher é o futuro do homem”, Orfeu abriu mão de sua transcendência terrestre, afinal a única possível ao ser humano. Ou seja, rejeitou o “feminino” em nome do céu, o que aliás todas religiões patriarcais fazem.

O Hades, como sabemos, associa-se à obscuridade, às origens, sendo um símbolo da noite e dos terrores que inspiravam ao homem, desde a pré-história, o frio, a sombra, a solidão. A descida ao inferno da qual nos falam os mitos corresponde, acima, na superfície terrestre, no ciclo das estações, aos primeiros dias de decréscimo da luz, prelúdio do inverno, por oposição à ascensão, entre o primeiro dia da fase crescente seguinte, o equinócio da primavera e o dia 24 de junho.


No nível de vários esoterismos, essa descida representa uma morte alegórica, o abandono pelo iniciado de sua natureza profana nas obscuras câmaras de reflexão, a passagem do negro ao branco dos alquimistas. É o Hades nestes termos o mar noturno do inconsciente ao qual é preciso descer e atravessar, a partir de uma situação de vida consciente, para voltar de novo à luz, chegar a uma outra margem. Em muitas tradições, essa descida, como é aqui o caso, é tida por um processo de individuação que começa por uma descida que alguém faz ao seu mundo interior, uma regressão, uma volta sobre si mesmo, que Orfeu não soube fazer.

Orfeu faz parte da extensa galeria de profetas fundadores de religiões, de instauradores dos vários cultos religiosos que conhecemos. No geral, em todos, a transcendência nunca é terrestre; o que se oferece como salvação é uma vida eterna na bem-aventurança ao lado de um Deus, num paraíso. Os discursos desses profetas, como a história das religiões no-lo prova, são um fracasso quanto ao feminino.

Numa outra leitura, podemos considerar que Eurídice era o duplo de Orfeu, esse duplo que se torna o objetivo da eterna busca do ser humano, pois é ele e só ele que pode garantir a fecundidade do ser. Em todos os mitos, a alma é concebida como um duplo do ser vivo, que pode se separar do seu corpo na ocorrência da morte, pelo sonho ou por alguma operação mágica.


RENÉ MAGRITTE

Platão, em O Banquete, fala do andrógino como o alter ego da personalidade humana, seu complemento indispensável, ao qual todo homem ou toda mulher deverão voltar a se unir para ser recuperada a unidade original perdida. A partir do século XIX, o Romantismo alemão pôs em circulação a ideia do duplo sob uma outra forma, sob a inspiração do triunfo da subjetividade (tendência a encarar e a avaliar as coisas de um ponto de vista meramente pessoal). Os duplos (doppelgänger) que o Romantismo alemão nos revelou, são inquietantes, têm um caráter de fatalidade. Como exemplos desta tendência, podemos citar obras como A Mulher Sem Sombra (Hugo von Hofmannsthal), O Retrato de Dorian Grey (Oscar Wilde), Le Horla (Guy de Maupassant), A Sombra (Hans C.Andersen) etc.

Eurídice, como complemento indispensável, alter ego da personalidade humana, é a reconstituição da unidade original, sempre perdida e sempre reconquistada. Os mecanismos que nos desapossam de nós mesmos, conduzindo-nos a um desdobramento (fenomenologia do duplo, da sombra, da psicologia moderna), encontram, sem dúvida, no mito de Orfeu uma de suas melhores expressões.

Grande parte dos que se fixaram em Orfeu, mitólogos, estudiosos, exegetas, psicólogos, escritores, religiosos etc., optaram por considerá-lo sobretudo pelo seu gênero de vida segundo a seita que se formou a partir de seu mito. Na Grécia, os adeptos do orfismo eram chamados também de renunciantes e tinham como único objetivo a salvação. Exercitavam-se para a santidade, cultivavam técnicas de purificação a fim de se separar dos outros. Os órficos, em nome da humanidade, queriam ser absolvidos do sangue derramado nos altares por aqueles que haviam vivido a religião como sacrifício sangrento. Recusavam por isso o alimento vermelho, as “apetitosas emanações”, em nome da comensalidade vegetariana. Em momento algum de sua história, o orfismo tentou atuar politicamente ou imaginar a polis de outra maneira. O que pretenderam foi reescrever a gênese do mundo (cosmogonia) e a história dos deuses (teogonia).

O orfismo procurou dar uma outra forma à religião olímpica. Vindas de séculos anteriores, as comunidades órficas já tinham a sua existência perfeitamente atestada no séc. VI aC. Através de uma ascese, de mortificações e purificações que os levasse a uma rigorosa catarse, os iniciados defendiam a metempsicose, entrando muitas vezes em choque com a religião oficial da polis.

O ser humano era produto de um dualismo original, o titânico e o divino. A morte não punha fim à vida, pois, segundo a doutrina da transmigração das almas, o elemento divino teria que se reunir novamente com o seu antagônico titânico para recomeçar uma nova vida, sob uma outra forma. Assim, a alma é julgada e, conforme os seus méritos e as suas faltas, depois de uma permanência no além, retorna ao cárcere de um novo corpo humano, podendo inclusive descer ao nível animal e vegetal.

Os sepultamentos, para órficos, eram uma cerimônia simples e alegre, já que “as lágrimas se guardavam para os nascimentos”. Os criminosos e os sacrílegos estavam condenados a passar por penosas metempsicoses. A alma que não havia quitado as suas culpas devia, pois, retornar.

O orfismo procurou modificar arraigados e imemoriais princípios que estavam presentes na religião oficial da polis grega. Esta, como se sabe, falava de seculares maldições familiares segundo as quais cada membro do “genos” era corresponsável e herdeiro das violências (hamartiai) praticadas por qualquer um de seus membros. Para os órficos a culpa era sempre da alçada individual e por ela o criminoso pagaria no além e em outras reencarnações, até a sua catarse final. O orfismo, ao contrário da religião oficial da polis, que propunha o bem viver segundo os modelos apolíneos, era uma doutrina que falava do “bem morrer”. Nestas condições, “sorrisos para os que morrem, lágrimas para os que nascem.”



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

NIX E SEUS FILHOS



NIX (PEDRO AMÉRICO, 1843 - 1905)

Enquanto Urano fecundava Geia, conforme registra Hesíodo na Teogonia, Érebo e Nix, as trevas inferiores e as trevas superiores, respectivamente, as duas últimas entidades a sair do Caos, unidas, geravam Éter e Hêmera . O primeiro, cujo nome lembra queimar, brilhar (aithein), ocupou logo a camada superior do cosmos, região luminosa de energia puríssima, onde viviam os deuses.

Platão, quando no Crátilo fala dos astros e dos elementos, nos revela que o Éter era uma forma mais pura do Ar (Aer). Dizia mais (Fedon) que a natureza da alma dos seres humanos era semelhante ao ar. A tese era a de que o corpo poderia perecer, mas a alma (psyche) voltaria à parte mais pura do Aer, isto é, ao Éter (Aither).

Estas ideias são encontradas também no pitagorismo: como os corpos celestes (ouranioi) “viviam” no Éter, no mundo supralunar, as almas, depois da morte, seriam absorvidas por esses corpos. Era a religião astral dos pitagóricos. O espaço entre a Lua e a Terra passou assim a ser ocupado por daimones e heróis, intermediários entre os humanos e as divindades.



Aristóteles nos afirmou que o Éter era o quinto elemento (quinta essentia), eternamente em movimento circular, como substância dos céus. Esta afirmação, como a platônica, nos aproxima do conceito de akasha, o quinto elemento da cosmologia do Hinduísmo, ao lado do fogo, da terra, do ar e da água. O akasha é, para os darshanas (escolas filosóficas) hinduístas, a existência onipresente, que tudo impregna. Tudo que toma uma forma provém do akasha, através do prana, força também onipresente, que confecciona o universo. No começo da criação só existe o akasha, ao final da criação tudo volta a ele.


Para os gregos, tanto no mito como na filosofia, o Éter ficava acima do Ar (Aer), separando-os a Lua. Esta separação significava que tudo o que entrasse no plano da matéria (abaixo da Lua) ficava submetido à lei do vir-a-ser, à mudança, à morte. Acima, no Éter, região dos deuses, nada mudava. A Lua, por sua vez, ao simbolizar o tempo que passava, medido por ela, era, desde a pré-história do homem, a governante da lei das variações periódicas.

Hêmera (fig.esq.) é o Dia (feminino em grego); com as suas quatro etapas, nascimento, crescimento, plenitude e declínio (seis, doze, dezoito e vinte e quatro horas), ele sempre representou para os gregos os quatro subciclos da Lua (nova, crescente, cheia e minguante) e do Sol (primavera, verão, outono e inverno), todos ligados, por sua vez, às quatro direções do universo: leste, norte, oeste e sul. Foram estas analogias, dentro de um sistema de equivalências estabelecidas a partir do dia, que permitiram aos astrólogos da antiguidade criar as chamadas direções simbólicas (primárias, secundárias e terciárias).

Para algumas cosmogonias, ao aparecimento do mundo visível, surgido da obscuridade primordial, devidamente organizado através de uma longa evolução, dá-se o nome de kosmos, palavra grega que significa ordem, boa ordem. As entidades primordiais, para essas cosmogonias, eram potências de engendramento que geravam por cissiparidade e/ou por copulação.

Nix, a Noite, entre os antigos gregos, sempre teve controle sobre doenças, sofrimentos, pesadelos, angústias, sonhos, infelicidades, disputas, guerras, assassinatos e morte. Tudo o que era inexplicável e temível para o ser humano vinha dela de algum modo. Na Grécia antiga, as confrarias órficas foram na direção contrária deste entendimento, honrando-a de várias maneiras, santificando-a, porque, para elas, Nix trazia a bênção dos deuses. Símbolo de todas as germinações, de todas as gestações, Nix alimentava os luminares do céu e tudo o que a Terra produzia. O seu simbolismo tem correspondências com a obscuridade, com o negro, com a ignorância, com o inconsciente e, por essa razão, com todas as possibilidades da existência.


Na alquimia, Nix se liga à nigredo, ao negro, promessa de renascimento, como no Egito, por exemplo, onde esta cor era a de Osiris (fig.dir.), deus dos mortos, e de Anubis, deus do embalsamamento e condutor das almas. Ao dar origem ao dia (ao consciente), o negro é símbolo de fertilidade, cor da terra úmida e escura e das nuvens prenhas de chuva. Daí, a segunda fase da alquimia, albedo, palavra que lembra branco, como a primeira luminosidade do céu, que antecede a aurora e o aparecimento do Sol.

Nix, para os gregos, morava num grande palácio com seu filho Hêmera, para os lados do poente. Quando o filho chegava, ao entardecer, ela saía num carro enorme, puxado por quatro cavalos negros, na companhia de muitas estrelas, atravessando os céus. Quando seu filho começava a despertar, ela então retornava ao seu palácio. Era Nix representada por uma bela e grave mulher, sempre usando uma longa túnica, um véu salpicado de estrelas cobrindo-lhe a cabeça. Às vezes, ostentava asas, levando nos braços duas crianças, uma branca, personificando Hipnos, o Sono, e outra negra, personificando Thanatos, a Morte.




Nix tem um duplo aspecto. De um lado, trevas, impossibilidade de ver, insônia, desorientação, descaminhos, perdição; de outro, sono reparador, esperança, mãe do bom conselho (quando então era chamada de Euphrone), expectativa de novos caminhos. De um modo geral, porém, associada à Lua, Nix sempre esteve ligada às aparições noturnas, sobrenaturais, a fantasmas, vampiros, espectros, às almas dos mortos e ao Diabo. Em muitas histórias, Nix aparece como divindade tutelar das feiticeiras e das bruxas e responsável pelo crescimento da ervanaria por elas usada nas suas práticas.


Antigas lendas cristãs medievais nos dizem que houve um tempo em que não havia noite. O Diabo, que se sentia muito incomodado por ter que cometer os seus malefícios à luz do dia, queixou-se a Deus. Desejando Deus experimentar os humanos, atendeu-o, criando a noite. Desde então o Diabo se aproveita das trevas para realizar as suas más ações contra a humanidade.

Para Hesíodo, Nix, depois de ter gerado Éter e Hêmera com seu irmão, Érebo, gerou sozinha, sem o concurso de ninguém, uma importante descendência. De início, os gêmeos Thanatos (fig.esq.) e Hipnos. O primeiro tem seu nome ligado a uma idéia de extinção, de dissipação e, quanto ao ser humano, da transformação da sua alma numa sombra. A palavra toma também o sentido de ocultação, de algo que vai se desvanescendo. Este sentido se devia ao fato de que o morto se tornava um “eidolon”, um corpo insubstancial, evanescente, uma sombra (skia). Fig.dir.: A Morte, O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman.
Insensível, dizia-se que Thanatos (Mors para os latinos) possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte que estava sempre presente quando Átropos, uma das Moiras, punha fim à vida de alguém, cortando o fio que o mantinha preso à existência. Thanatos era, neste sentido, o aspecto perecível e destruidor da vida. Era a divindade que introduzia o ser humano em mundos desconhecidos, remetendo sua alma (psyche) ao Hades, lembrando-nos desse modo que a morte não era mais que um rito de passagem. Possuía assim Thanatos também o poder de regenerar. Quando, porém, era decretado o fim daquele que orientou a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror, olhos esbugalhados, sofrimento. Ele podia ser visto também como aquele que libertava dos sofrimentos e das preocupações, não causando sua ação um fim em si, mas uma indicação de que a vida e a morte eram complementares.


Representado por uma coluna ou por um remo partido, por uma urna, por uma vela arriada, por um esqueleto, por uma serpente, por um animal psicopompo, por um cavaleiro, pelo décimo terceiro arcano do Tarot, por uma dança macabra, por uma foice, Thanatos é sempre o fim de alguma coisa, de um ser humano, de um animal, de uma planta, de uma amizade, de um amor, de uma civilização, de uma divindade, de uma época, de um belo dia... É sempre o aspecto destrutivo e perecível de tudo que tomou forma. Os antigos gregos costumavam também representar Thanatos por uma criança negra, com os pés tortos, acariciada por Nix, sua mãe. Representados às vezes juntos, Thanatos e Nix têm como atributos asas e fachos derrubados. Junto deles uma urna e dela uma borboleta alçando vôo, símbolo de esperança de uma outra vida.
A rigor, Thanatos nunca foi um agente causador da morte. Sua presença sugere sempre uma ideia de cessação, de descontinuidade. Os poetas trataram-no melhor, vendo-o como uma espécie de anjo que se aproximava suavemente do moribundo para ajudá-lo, acariciando-o, fechando-lhe os olhos, distendendo os seus membros. É por esta razão que muitos autores viram Thanatos como uma espécie de anjo da morte benevolente, da morte tranquila, enquanto as Keres, suas irmãs, representariam a morte violenta.

Não posso a esta altura deixar de mencionar como este aspecto amoroso de Thanatos foi captado por Robert Altman no seu último filme, A Última Noite. Neste belíssimo filme, Altman dá o nome de Asphodel (nome de uma flor do inferno) ao anjo da morte (Virgínia Madsen no filme). Nos USA e no Brasil a crítica não alcançou Asphodel, vendo-a apenas como uma “mulher má, perigosa”, não lhe dando a mínima importância. Perdeu-se toda a riqueza do personagem, o amoroso tom tanático que ela deu ao filme, um personagem construído magistralmente, frise-se mais uma vez, por Altman conforme inspiração do mito grego.

O aspecto amoroso de Thanatos foi explorado principalmente pela escultura no período clássico da história grega, com base em propostas de algumas correntes filosóficas (estoicismo), salientando-se como atraente a morte que levasse aos Campos Elíseos, departamento do Hades, para onde iam as almas dos justos, ficando lá a aguardar sem sofrimento algum, num lugar paradisíaco, o seu retorno à existência. Esta visão de Thanatos inspiraria mais tarde a arte mortuária romana, que erotizou a sua imagem, transformando-o num belo efebo, numa espécie Eros alado.



Ao que parece, em tempos muitos remotos, as figuras de Hermes, na sua função de psicopompo, e de Thanatos se confundiam. Psicopompo, literalmente o transportador de almas, era o nome que se dava ao deus Hermes como condutor das almas ao Hades, na forma de “eidola”, seu lugar de permanência provisória ou definitiva, conforme os crimes e pecados cometidos. Aos poucos, depois, os papéis se definiram melhor, assumindo cada um dos deuses uma função específica.

Thanatos vivia no Hades, no mundo subterrâneo, um mundo sempre assustador para o homem comum. Seu nome, por isso, como o de todas as entidades infernais, aliás, era raramente pronunciado. Em antigas esculturas, antropomorfizado, era uma figura que denotava sempre insensibilidade, carregando uma foice nas mãos, para lembrar aos humanos que eles eram ceifados indiferentemente, em multidão, como as ervas dos campos.



As relações entre a mitologia e a psicologia moderna são muitas estreitas como se sabe. O mito de Édipo, personagens míticos como Eros e Thanatos, por exemplo, ocupam lugar importante na psicanálise. Não será preciso muito esforço, por outro lado, para se perceber o quanto a chamada psicologia profunda de Jung tem os seus pés fincados no mundo mítico. É a partir destas constatações que quero destacar como a psicanálise freudiana se aproveitou de Eros e de Thanatos, dando a ambos dimensões e alcance muito importantes, principalmente na nossa chamada civilização ocidental (fins do séc. XVIII em diante). 
Foi com base nesta visão que Thanatos passou a representar as forças da destruição, em variadas formas, presentes em toda dialética: amor-ódio, produção-consumo, criação-destruição, anabolismo-catabolismo, tese-antítese, inspiração-expiração. É Thanatos a solutio na máxima alquímica solve et coagula. A morte está sempre na constante luta entre tendências opostas presentes na dinâmica universal. Thanatos vem como doença, catástrofe natural, acidente, peste, epidemia, corrupção política, violência social, tráfico e consumo de drogas, álcool, degradação ambiental, casos em que seus agentes não são só os vírus, as bactérias, os micróbios, os agentes infecciosos de toda espécie, mas, sobretudo, o ser humano, o grande predador.

Uma das formas mais escandalosas e contundentes pela qual Thanatos se manifesta é a autodestruição, a extraordinária propensão que o ser humano tem de se aliar, no mais das vezes inconscientemente, às forças internas (que estão dentro dele) e as externas (do mundo à sua volta) no ataque à sua existência. Esta propensão é um notável fenômeno biológico e psicológico.

De um modo geral, todo ser humano acredita na sua autopreservação, no desejo natural que julga ter de prolongar a sua vida. O Direito, por exemplo, criou juridicamente o chamado estado de necessidade, que exclui a ideia de crime, uma figura para confirmar essa crença. Todavia, não é isto que acontece quando olhada a questão mais de perto. Descobrimos, espantados, estarrecidos, que muitas pessoas vão ao encontro de Thanatos. Gente que se destrói, que faz de sua vida um inferno, que se mata lenta ou rapidamente, pela comida, pelo álcool, pelo consumismo, pela moda, pela religião, pelos remédios, pelo tipo de relações pessoais que estabelece.



Freud chamou esta tendência de instinto da morte. Este instinto, já diziam os gregos, existe em todo ser humano com o nome de instinto de destruição, a ele se opondo o instinto de conservação. Como tendência à destruição, o suicídio é uma de suas formas extremas. Já houve mesmo quem dissesse que o desejo de viver do ser humano só temporária e precariamente triunfa sobre Thanatos.

Eros, como sabemos, é uma força motriz (dynamis) que une tudo e da qual depende a continuidade do universo. É pulsão fundamental da existência. Confunde-se com o primum mobile aristotélico nas primeiras cosmogonias. Freud colocou sob a sua tutela as tendências de conservação, forças que precisam ser ordenadas segundo o instinto, a razão e o espírito, um servindo ao outro. Para representar esta ordenação, os gregos tinham uma figura mítica importante, o centauro Kiron, mestre de heróis: o instinto a serviço do racional e ambos a serviço do espiritual. Se o homem se fixar só na sua vida instintiva e mental, onde vive a maior parte da humanidade, as forças tanáticas acabarão por prevalecer; só teremos disputas, conflitos, guerras, destruição. Se o homem se concentrar mais na vida espiritual, isto é, se trabalhar mais em função do todo do que procurando egoisticamente só o seu proveito, ele equilibrará melhor em si mesmo Eros e Thanatos.

Em qualquer circunstância, o que não se pode esquecer é que o ser humano, como dizem os filósofos da existência, é um “ser-para-a-morte”. A questão toda será, pois, a de controlar, na medida do possível, o aparecimento das forças tanáticas, as forças que operam destrutivamente 
em nós. Uns matam-se mais rapidamente, alguns mantêm o combate, outros, mais raramente, retardam a chegada de Thanatos até muito bem. O certo é que ele sempre estará nos esperando quando nosso hífen (hyphen, em latim, é a pronúncia de duas palavras em um som único; quer dizer juntamente, um advérbio, portanto) terminar, quando a segunda data, que é sempre dele e de Átropos, for acrescentada à do nosso nascimento.

Um dos grandes problemas que a humanidade enfrenta é o do retardamento de Thanatos, o Inevitável, como o chamavam os antigos gregos. Muitas são as atitudes: uns, por exemplo, cortam um membro, retiram um órgão, mutilam-se para se salvar (extirpações, a chamada autodestruição preservadora), outros aceitam a sua responsabilidade pela sua autodestruição, vivendo-a como destino, outros ignoram-na, nada fazem para evitá-la e outros, finalmente, colaboram com ela.

Uma das formas mais alarmantes pela qual Thanatos atua é o consumismo, uma verdadeira praga, flagelo, que a maioria confunde com felicidade (quanto mais 
consumimos, mais somos felizes). Esta praga consumista, nas suas formas mais incentivadas e aceitas socialmente, está nos grandes centros de compra (shoppings), nos esportes, na programação do lazer e das férias, nas viagens, nos feriados e fins de semana, nos vários tipos de balada, noturnas ou não. A distância entre a atitude consumista e a destruição dos recursos naturais, do meio ambiente, da poluição, da degradação da natureza, da invasão dos campos e praias, da violência urbana é mínima.

Há muitas pessoas que não aceitam a sua responsabilidade por se deixarem envolver envolver nestes processos tanáticos. Projetam-na sobre outros, inventam desculpas (afinal, dizem, a gente precisa se divertir!). No caso da autodestruição pessoal, a culpa é sempre de um parceiro, de alguém da família, de um filho, de uma mãe ou um pai, de um chefe ou de “relações que não dão certo porque ninguém me entende!” O que se constata, cada vez mais, é que as formas de autodestruição crescem assustadoramente. “Por que não se suicidam logo?”, pode ser a pergunta. Por outro lado, será possível desviar Thanatos, tornar o encontro com ele mais ameno?
As tendências autodestrutivas escondem-se e se manifestam muitas vezes sutilmente; seu quadro é amplo: podem vir em nome da religião, por práticas ascéticas, por martírios psicóticos, por formas de autopunição agressiva, pelas drogas, pelo álcool, por um comportamento anti-social, por automutilações em nome da moda (piercing), por certos “tratamentos de beleza”, pela mania de cirurgias plásticas, pela simulação de doenças (despertar compaixão), por acidentes propositais, por certos “assuntos de conversa” (falar sobre doenças, tratamentos, terapias e operações realizadas etc.).


Uma das principais formas pelas quais as tendências tanáticas se insinuam atualmente é a depressão, nome que se dá a um estado de desencorajamento, de desinteresse, que decorre de alguma perda, de decepções, de fracassos, apoderando-se daquele que a experimenta sempre uma grande solidão e muito sofrimento. Com ela vem também a prostração física e moral, distúrbio fisiológico e/ou psicológico causado por circunstâncias e acontecimentos que são adversos, a que muitos, sem o saber bem, dão o nome de estresse.

A depressão é hoje um mal universal. No seu centro está a valorização narcísica do homem moderno, instigado a ter, a possuir, a ir, excitado ao máximo pelos meios de comunicação, pela publicidade em todos os níveis. Como não lhe é possível obter em grande parte tudo o que lhe foi imposto como desejo ele se deprime. A excitação e a queda são os dois lados da mesma montanha. Hoje, queremos tudo da vida, não suportamos a dor de não ter, de não possuir, de não ir, de não ser “alguém”, pois só é “alguém” quem consome, quem compra, quem vai ou aparece na TV.


O modelo de consumo, hoje globalizado, juntou a frustração e a depressão. Em hipótese alguma, este sistema que modela os nossos desejos permitirá que sejam fechados os três portões do inferno (o desejo, a ansiedade e a cobiça). Enquanto isso, um número cada vez maior de terapeutas chega anualmente em todo o mundo ao mercado da depressão. A indústria farmacêutica, por outro lado, faz a sua parte, pondo ao nosso alcance as maravilhosas pílulas da felicidade.

Thanatos há muito empresta seu nome à medicina, ao estudo científico chamado Tanatologia, sobre a morte, suas causas e fenômenos a ela relacionados. Com o mesmo nome, a psicanálise procura estudar os mecanismos psicológicos que levam à superação dos efeitos da morte. Tendências suicidas ou ao assassínio recebem por isso o nome de tanatomania.

Hipnos (em grego, dormir, aquietar-se, sossegar), deus do Sono (Somnus para os latinos), vive no Hades. Alado como o irmão, percorre rapidamente os espaços, adormecendo todos aqueles em cujas pálpebras toca com o seu tridente. É pai de Morfeu, o Sonho, que, apesar de poder aparecer sob infinitas formas, costuma se apresentar principalmente sob duas delas, Hypar, o sonho profético, e Oniro, o sonho enganador.

Hipnos era o responsável pelo descanso reparador dos humanos. Era representado muitas vezes por um jovem nu, alado, tocando uma flauta com a qual adormecia os homens. Costumava deixar sempre por onde passava um rastro de névoa. Esta, como se sabe, de cor acinzentada, é um símbolo do incerto, formando uma zona que separa o certo do incerto, o real do irreal. Na mitologia escandinavo-germânica, por exemplo, o nevoeiro pairava sobre as zonas frias e obscuras, na região polar chamada Niflheim. Neste mundo, inacessível aos humanos, reinava a deusa do mundo subterrâneo, Hel. Era para lá que iam as almas dos mortos não eleitos pelas valquírias, para serem os companheiros de Odin na batalha final do Ragnarok.

Como recompensa por serviços prestados (ter adormecido Zeus por duas vezes), segundo algumas versões, da deusa Hera, Senhora do Olimpo, Hipnos recebeu como esposa uma de suas damas de companhia. Para outros, Homero, ela era uma das Cárites, chamada por ele de Pasitea. Com a esposa teve como filhos os “oneiroi”, que ficaram com a missão de distribuir os sonhos. A Ícelo couberam os pesadelos; a Morfeu, os sonhos inespecíficos; Phantaso ficou com a incumbência de criar os objetos inanimados que apareciam nos sonhos; e a Phantasia, a única filha, coube a criação dos monstros, das quimeras e dos devaneios que atuam nos sonhos.


Hipnos prestou também um relevante serviço à Selene: ele prostrou em sono profundo, eterno, na encosta de uma montanha, o belíssimo pastor Endimion, que inspirou à deusa violenta paixão. Tudo para que ela pudesse visitá-lo nas noites de luar. Outra versão nos conta, porém, que quem, se apaixonou por Endimion foi Hipnos, que concedeu ao jovem o dom de dormir de olhos abertos para que ele pudesse ver os olhos do amante.



Hipnos, compadecido de Deméter, socorreu-a num momento de grande dificuldade. Criou para ela uma flor, a papoula, para acalmá-la, fazê-la dormir, quando a deusa, desesperada, percorreu a Terra inteira à procura de sua filha Kore. Desde então, esta pequena flor selvagem, de cor vermelha, passou a ser considerada como o emblema do repouso e do esquecimento, além da consolação, pois o sono é reparador do sofrimento.


Hipnos viveu sempre no seu palácio em paz e tranquilidade, cercado por um silêncio absoluto. Seu enorme leito era cercado por cortinas pretas que impediam a entrada de qualquer som. A região onde se situava o palácio de Hipnos confinava com o rio Lethe, o do esquecimento, que ficava no Hades, o mundo infernal.

Hesíodo, na Teogonia, nos diz que Nix gerou não só Oniro como também a “legião dos sonhos”, isto é, os “oneiroi”, afirmação que conflita com as versões que nos dizem que eles, os “oneiroi”, eram filhos de Hipnos. Desde Homero, a matéria onírica é bastante controversa. Na Odisseia (canto XIX), o poeta considerou os sonhos tanto como realidades objetivas, semelhantes às experiências da vigília, como produtos da vida interior. Para ele, havia sonhos que brotavam de um “portão de marfim”, ilusórios e fantasiosos, e outros que brotavam de um “portão de chifres”, que pressagiavam as coisas futuras se corretamente interpretados.


Já Ambrosius Macrobius Theodosius, gramático latino do séc. V, autor das Saturnalias, consagradas a Virgílio, e de comentários sobre o Somnium Scipionis, de Cícero, dividiu os sonhos proféticos em simbólicos, visionários e oraculares, a eles se acrescentando mais tarde outros, decorrentes de um contacto direto com alguma divindade ou um daimon.

É de se lembrar que os sonhos entraram na filosofia com Heráclito, que os considerava como um aspecto da subjetividade do ser humano. Platão, no Timeu, defende a natureza profética dos sonhos e oferece uma explicação de como eles se manifestam e de sua origem (fígado).

Oniro tinha grande participação nas terapias que se realizavam no santuário do deus-médico Asclépio, em Epidauro. Nas colinas da Argólida, em meio a um bosque de pinheiros e de loureiros, encontramos ainda hoje vestígios desse santuário, onde atuavam sacerdotes-médicos, ao qual acorriam, além de toda a Grécia antiga, muitos visitantes das ilhas do Egeu e da Ásia Menor para buscar a cura de seus males.


No santuário de Asclépio, adotava-se, além de várias práticas terapêuticas, a chamada Oniromancia, a interpretação de sonhos, que os sacerdotes-médicos usavam quando da nooterapia, que tinha a finalidade de curar os transtornos causados por desequilíbrios emocionais, pela mudança de sentimentos (metanoia) Era por este processo terapêutico que o deus Asclépio era chamado de o Deus Toupeira. Este animal, como se sabe, ctônico, tem a capacidade de “ver” no escuro. Assim, como ele pode se movimentar nos labirintos do interior da terra, Asclépio podia se movimentar no interior da mente das pessoas como mestre que as guiava para curá-las de suas paixões. Uma das técnicas, como via privilegiada adotada em Epidauro para investigar a vida subconsciente dos doentes, era exatamente a Oniromancia, a interpretação dos sonhos.

Ao tocar as pálpebras dos seres humanos com o tridente, seu atributo, Hipno os projetava no sono. Invencível dentre os deuses, só encontrava um que lhe fazia frente, Pothos, o deus da Saudade, pois saudosos não conseguimos dormir. Pothos, de potein, desejar algo ausente, provoca lágrimas e soluços, atuando muito na magia, na necromancia (invocação dos mortos) e na poesia lírica. Grande companheiro de Eros, dentre suas grandes vítimas podemos citar Deméter (saudosa de Kore), Aquiles (saudoso de Pátroclo) e Afrodite (saudosa de Adonis).

O tridente é um símbolo da indeterminação, da ausência de limites, e, como tal, aparece na mão de divindades, como Poseidon, que apagam fronteiras, que põem tudo em comum, lembrando a dissolução cósmica. Nas mãos de Hipnos, o tridente embaralha tudo, destrói as aparências, pondo num mesmo nível o passado, o presente e o futuro. Daí o seu nome entre os hindus, trikala, três tempos, usado pelo deus Shiva, a terceira pessoa da trindade hinduísta (aspecto destruidor), antecedido pela segunda (aspecto conservador), Vishnu, e esta pela primeira (aspecto criador), Brahma.

A influência de Hipnos se estendia a imortais e mortais, sendo considerado por estes últimos como um grande benfeitor por lhes dar o merecido descanso e o alívio de suas dores. Hipnos era representado de diversos modos, sendo o mais comum aquele sob a forma de um adolescente que levava nas mãos ou entre os cabelos sementes de papoula. Dentre os deuses era um dos grandes favoritos das Musas pelos sonhos que podia proporcionar.


O fascínio pelos sonhos e a grande necessidade que os homens sempre tiveram de lhes dar um sentido vem de muito longe. Muitos e muitos séculos antes do doutor Freud ter escrito a sua A Interpretação dos Sonhos, os sacerdotes-médicos de Epidauro já trabalhavam com eles. Artemidoro de Dalis, no séc. II dC, fez uma compilação chamada Oneirocritica, reunindo material onírico de vários povos de toda a bacia do Mediterrâneo. Por esse trabalho ficamos sabendo que a interpretação dos sonhos já era uma arte plenamente desenvolvida à época, fazendo parte tanto da adivinhação como da medicina. Aliás, o próprio Freud anotou este fato no seu livro acima mencionado.



Hipnos é responsável por um estado de passividade, chamado hipnose, durante o qual uma pessoa fica entregue ao fascício de alguém ou de alguma coisa. É do deus também, sob o nome de hipnose, o conjunto de técnicas que permite provocar, através de mecanismos de sugestão, o sono artificial ou o estado especial de rigidez muscular.


Geras (A Velhice) é uma filha de Nix que se integrou perfeita
mente ao Hades, passando a viver naquela sua zona preambular a que se deu o nome de Bosque de Perséfone. Representada sob a figura de uma mulher muito velha, coberta com uma única negra, apoiada num bastão, carregando na mão direita a taça do olvido. Ao seu lado, quase esgotada, uma clepsidra.

Geras vive no Bosque de Perséfone em companhia de outras divindades, formas espectrais como Algos (Dor), Phtonos (Inveja), Nosos (Doença), Lyssa (fig.esq.) (Loucura), Ponos (Fadiga), Penia (Carência), Ápate (Fraude), sua irmã, e muitas outras. Esses espectros que lá vivem atacam constantemente o que chamamos de ego, núcleo em torno do qual se agregam todas as experiências vividas pela mente humana, registradas no inconsciente ou mantidas no campo iluminado da consciência.

Todas as divindades que vivem abaixo da superfície da Terra ligam-se obviamente ao não-ser, sendo como tal monstruosas. Na escuridão da imensa região subterrânea da Terra encontra-se o reino de Hades, do qual faz parte o Bosque de Perséfone. Hades, etimologicamente o Invisível, simboliza o nosso inconsciente, lugar de sofrimentos atrozes, mas também de tesouros, de possibilidades de renascimento, de novas propostas de vida que podem ser trazidas à luz (consciente).


PHTONOS

As Hespérides (hespera, tarde) são também, conforme Hesíodo, filhas de Nix, as chamadas ninfas do poente: Egle (Brilhante), Eritia (Vermelha) e Hesperaretusa (Vespertina). Vivem no extremo ocidente, num jardim maravilhoso, onde guardam, com um dragão, Ladon, os pomos de ouro oferecidos por Geia como presente de casamento a Zeus e Hera.

HESPÉRIDES


As Hespérides aparecem no terceiro trabalho de Hércules (a conquista dos referidos pomos), relacionado astrologicamente com o signo de Gêmeos. Ao lado do jardim, o gigante Atlas, titã, filho de Jápeto, sustenta em seus ombros, para todo o sempre, como punição imposta por Zeus, a abóbada celeste.

Como manifestações da Grande-Mãe, arquétipo eterno do psiquismo humano, as Hespérides aparecem sob o signo da triplicidade (multiplicidade), lembrando nascimento, vida e morte, o tempo circular, diferente do tempo masculino, linear, ascensional. Unindo complementos e antagonismos, as deusas tríplices, como se pode perceber, opõem-se ao pensamento patriarcal, abstrato, unidimensional e rígido.

As Hespérides refletem o lado sombrio de Nix, representando elementos do inconsciente humano. Ao nos apontar para o caminho do Sol, nascente, meio-dia e poente, elas nos falam que por trás da mudança e da multiplicidade se esconde a unidade. Ou seja, temos que procurar integrar, que buscar um centro, apesar de perdê-lo constantemente, vivendo mergulhados nos aspectos fenomênicos e periféricos da existência, dos quais não podemos fugir. É por essa razão que a Grande-Mãe e suas expressões sempre foram consideradas como anárquicas, caóticas e perturbadoras pela ordem patriarcal.

Símbolo dos desejos terrestres, o pomo (a maçã) aparece na mitologia grega associado a Afrodite (a Vênus de Milo é representada com uma maçã nas mãos), a deusa que integra, que lembra harmonia nas trocas, falando de afinidades, de estados emocionais que levam à conquista de uma forma. Os deuses masculinos, de inspiração solar, não integram o feminino. Não é por outra razão aliás que o regente “oculto” do signo de Gêmeos é o planeta Vênus.

Segundo o mito, as Hespérides possuíam o dom de controlar a ferocidade dos animais selvagens, sendo consideradas também como as guardiãs naturais das fronteiras do dia e da noite e dos limites entre os três mundos, o céu, a terra e os infernos. Seu jardim era considerado como o mais belo da mitologia, pois nele estavam depositados os pomos de ouro, símbolos da juventude eterna.

No século XVI, o tema do Jardim das Hespérides foi usado literariamente por escritores portugueses. João de Barros e Duarte Pacheco Pereira o situaram entre a península itálica e a ibérica. Já Camões o situou no arquipélago de Cabo Verde.

Como filhas de Nix, as Keres (em grego, devastação, destruição, ruína; em latim, caries, podridão, caruncho) são monstruosos gênios alados, sempre de preto, com unhas em forma de garras, encarregadas de dar fim aos soldados moribundos e aos cadáveres ao final das batalhas, sendo, como tal, agentes do Hades. Estão sempre presentes nos episódios de grande violência, sendo companheiras inseparáveis de Ares, deus da guerra, de cujo séquito fazem parte. Representam o tipo de morte do guerreiro, conforme a vida que tiver levado, isto é, conforme as suas escolhas. Famosa é a passagem do mito em que as Keres perguntaram a Aquiles o tipo de morte que desejaria: uma morte tranquila, anônima, na velhice, ao fim de uma longa vida, ou uma morte heroica, jovem, rápida, que lhe daria um renome imperecível. Literariamente, as Keres foram confundidas com as Moiras, as Erínias e as Harpias.

Divindades das trevas, as Keres aparecem no final das batalhas, acompanhadas sempre de hienas e de aves de rapina. São conhecidas como bebedoras de sangue e devoradoras dos olhos de suas vítimas (Uma obra-prima do cinema japonês, Onibaba, de Kaneto Shindo, oferece uma boa aproximação ao tema das Keres). São muito temidas porque desfiguram os guerreiros, principalmente os que procuram o caminho heróico. Apossar-se do corpo de um inimigo, principalmente se for um guerreiro de renome, é um dos grandes objetivos nas batalhas. A finalidade é não só deixá-lo insepulto como desfigurá-lo, fato que poderá causar muitos males ao seu eidolon, quando chegar ao Hades, por não terem sido cumpridos os ritos adequados (morte ritual), lá correndo ele o risco de não ser recebido.


   AQUILES E PÁTROCLO

O resgate do corpo de Pátroclo pelos gregos, morto por Heitor, herói troiano, é, na Ilíada, um dos exemplos do que aqui se expõe. Ainda como extensão do mesmo exemplo, lembre-se de como Aquiles liquidou Heitor. Agonizante, este suplicou ao grego que não entregasse seu corpo aos cães e às aves de rapina, mas à solicitude dos seus para que tivesse a devida morte ritual. Aquiles, perfurando a garganta de Heitor, disse-lhe que lamentava não ter a ira e a coragem necessárias para picar-lhe as carnes e devorá-las cruas.

Particularmente associadas às hienas, as Keres, como elas, são impuras. As hienas, desde a antiguidade, são consideradas animais bastardos, metade cão, metade lobo. Dotadas de fauces poderosas e de fortes mandíbulas, equipadas com dentes pesados e duríssimos, podem triturar os ossos de qualquer carcaça humana.

Devoradoras de carnes em decomposição, as hienas tinham a fama, entre egípcios e gregos, de saber imitar a voz humana para atrair suas vítimas. O nome do animal, em grego hyaina, vem de hys, porco. É por isso considerado impuro. O cristianismo usou-a para representar uma das cabeças do monstro, a da avareza, que aparece no Apocalipse de SãoJoão como símbolo dos sete pecados capitais.

Eris

Eris (em grego, provocar, disputar, querelar) era a Discórdia, filha de Nix que vivia no Olimpo, mas de lá foi expulsa porque não cessava de criar problemas e inimizades entre os olímpicos. Foi ela quem lançou, no salão onde se realizavam as núpcias de Peleu e de Tétis (pais de Aquiles), o famoso pomo da discórdia, uma belíssima maçã de ouro, com um bilhete onde se lia: “À mais bela”.


Disputado por três deusas, Hera, Palas Athena e Afrodite, sendo vencedora esta última, o pomo foi uma das causas da guerra de Troia. Os poetas descrevem Eris como uma mulher lívida, seca, com uma cabeleira de serpentes eriçada, olhos ferozes, boca espumante, a língua destilando um infecto veneno. Fitas ensanguentadas pendem do seu corpo. Às vezes suas vestes estavam em farrapos; ora empunhava uma tocha, ora um punhal. Muitas vezes, vinha com rolos de papel nas mãos nos quais se lia a sua divisa: Confusão, Disputa, Guerra. Com esse visual é chamada de Chicana (Strophé ou Sophisma), sendo seus templos os Palácios da Justiça do mundo, nos quais, como seus fiéis súditos, pontificam ministros, desembargadores, juízes, procuradores, advogados e tabeliães.

Eris, na Teogonia, é mãe de Ponos (Fadiga), Lethe (Esquecimento), Limos (Fome), Algos (Dor) e Horkos (Juramento), todos “vivendo” no Bosque de Perséfone. Os filhos de Eris eram conhecidos pelo nome de kokaidaimones, como maus espíritos que infernizam a humanidade.

SOFISTAS

Há muito, Eris emprestou seu nome à Filosofia, que a partir dela criou a Erística, arte da disputa argumentativa no debate filosófico, desenvolvida sobretudo pelos sofistas, com base na habilidade verbal e na acuidade do raciocínio. Platão lhe dá o sentido de busca da vitória na argumentação, abandonada qualquer preocupação com a verdade. Ésquilo (Sete Contra Tebas) considera Eris como a divindade mais distante da argumentação. Na vida quotidiana dos gregos, Eris era conhecida como a divindade que causava os conflitos domésticos. Toda vez que os mortais pretendiam orgulhosamente, nas suas relações conjugais, superar a harmonia das uniões divinas (hierogamia), Eris intervinha para criar confusões e gerar conflitos.

Deu-se o nome de megáricos a um grupo de filósofos que se concentrou na cidade de Megara, na Grécia antiga, numa escola fundada entre os sécs. V e IV aC por Euclides, chamado “O Socrático”. Os representantes desta escola, principalmente Diodoro Cronos e Philon, eram muito conhecidos pelo nome de erísticos ou “controversistas”. Eris, Discórdia para os latinos, era às vezes confundida com Ênio, deusa da guerra, das carnificinas mais exatamente, que faz parte do séquito de Ares. Em Roma, Ênio toma o nome de Belona.


PELEU E TÉTIS

O problema que Eris causou quando do casamento de Peleu e Tétis, repetiu-se recentemente (2003), quando da descoberta de um astro (planetoide), a que provisoriamente deram o nome da filha de Nix. Logo, uma grande confusão se estabeleceu entre os astrônomos. Uns querendo que o astro descoberto ganhasse o status de planeta e que, por causa disso, Plutão, aparentemente menor, fosse “rebaixado”, passando a ser classificado como “planeta anão”. Outros sugeriram que fosse dado ao astro o nome de Xena, fruto de uma espúria relação entre astronomia, mitologia e mass communication (nome de uma série de TV). Outra sugestão: dar-lhe o nome de Perséfone, esposa de Plutão, rainha do Hades.

Porque tinha o seu diâmetro aparentemente maior que o de Plutão, o novo astro foi informalmente chamado de “décimo planeta”. Hoje, com cálculos mais precisos, tal afirmação caiu por terra. Situado nos confins do sistema solar, Eris aprontou uma confusão tamanha só comparável ao ridículo dos astrônomos...

Entre os gregos, a personificação do engano, do erro e da fraude era atribuída a uma filha de Nix chamada Ápate, que faz ponto no Jardim de Perséfone. Na Terra, gostava de frequentar a ilha de Creta e, bem mais, as costas fenícias, cujos habitantes, famosos comerciantes e navegadores, muito se valiam dos seus serviços.

PANDORA

Consta que os deuses enviaram na jarra ou caixa de Pandora, para que se unisse a Ápate, o que de fato aconteceu, uma entidade chamada Dolos, que personifica o comportamento ardiloso, dono das manobras ou artifícios que, inspirados na má-fé, levam alguém a praticar um ato que lhe seja nocivo.

Para se opor a Ápate, os gregos criaram na filosofia uma ficção chamada Aletheia (literalmente o que não pode ser esquecido, ou seja, a verdade). Aletheia aparece na filosofia grega para se unir a conceitos como os de aisthesis (sensação), doxa (opinião, juízo), episteme (conhecimento verdadeiro ou científico) ou noesis (pensamento, raciocínio). Mais perto de nós, o filósofo alemão Martin Heidegger, em seu livro Ser e Tempo (1930), recorreu a eles para considerar Aletheia como desvelamento.


A TERNURA

Fílotes é uma filha de Nix que personifica a Ternura. Sempre junto da mãe, no seu aspecto de geradora do dia de onde sairá a luz da vida, Fílotes acolhe todos aqueles que se sentem perdidos quando, terminado o dia, não conseguem manter mais as suas fantasias sob controle. Fílotes aparece assim quando o mundo exterior se esconde, quando o bom senso não tem mais as suas certezas ou não sabe onde se apegar. É nesse momento, entre o pôr-do-Sol e o canto do galo (as chamadas horas abertas), quando “o que vem com a noite”, liberado pelo inconsciente, traz idéias negras, pesadelos, monstros e maus espíritos, momento em que as forças ocultas entram em atividade, que Fílotes ajuda os homens a vencer os seus terrores.

Como aconteceu com Eris, Fílotes, desde cedo foi parar na Filosofia. Quem recorreu à filha de Nix foi um filósofo pré-socrático, Empédocles (482-424 aC), notável e singular figura, também poeta. Com uma coroa de flores na cabeça e com uma túnica resplandecente, passeava majestosamente entre a multidão que o procurava ansiosa para ouvir de seus lábios as palavras da salvação.

Para Empédocles, as origens de todas as coisas estavam nos quatro elementos (fogo, terra, ar e água).



À mistura desses elementos ele dava o nome de nascimento, à sua separação, morte. Duas atividades, Fílotes e Neikos, causavam respectivamente este nascimento e esta morte. À primeira, Empédocles dava o nome de Amor e à segunda de Ódio. A primeira atividade unia os elementos a segunda os separava.

A multiplicidade da vida cósmica, para o filósofo-poeta, se compunha na Esfera Divina, na qual os elementos estavam ligados por Fílotes, enquanto Neikos permanecia fora dela, circundando-a. Se Neikos conseguisse predominar, rompia-se a unidade e os elementos se separavam. Fílotes, por seu lado, tendia sempre a conciliar novamente os elementos, formando-se assim os seres e coisas, nos quais se encontravam interpenetradas as duas grandes forças cósmicas. Fílotes era também chamado de Amor, como o princípio de toda a união e de toda a síntese enquanto Neikos era o Ódio, princípio de toda divisão e separação. Muitos consideram Empédocles um distante precursor das teorias evolucionista e mutacionista, esta última caracterizada por mutações abruptas nas especiações. A teoria dos quatro elementos proposta por Empédocles foi adotada até o aparecimento da moderna Química.

Excêntrico e orgulhoso, a tradição narra que Empédocles suicidou-se apoteoticamente, acompanhado de grande multidão, atirando-se nas lavas incandescentes do Etna, para, segundo suas palavras, melhor conhecer os segredos dos quatro elementos.

Um dos menos conhecidos filhos de Nix é, sem dúvida, Momo (o Sarcasmo). Sua crônica não é muito volumosa, mas ele está muito presente na arte e no cotidiano dos mortais. Momo, em grego, tem relação com o verbo mokasthai, zombar, escarnecer, ridicularizar. A raiz que está por traz desse verbo é mou, que exprime uma ideia de desdém, de menoscabo, um trejeito feito com os lábios que lembra deboche, pouco caso; o objetivo é o de desqualificar o que é apresentado ou dito. Lato sensu, Momo acabou por personificar o sarcasmo.

Lembre-se que os gregos têm a palavra sarkasmós, riso amargo, do verbo sarkádzo, que tem o sentido de abrir a boca para mostrar os dentes. O verbo também significa mostrar os dentes como um cão. Depois, mostrar os dentes com um riso amargo e crispado. Já Sarkidzo é arrancar a carne, a pele. Daí, sarcófago (sarkophagos), devorador da carne. Muito extenso, como se pode ver, o universo semântico da palavra grega sarx, sarkos, carne, de onde tudo sai...

A participação mais destacada de Momo no mito se dá quando Zeus faz eclodir a guerra de Troia como um meio para diminuir o número de habitantes da Terra. Conta o mito que Geia, a Mãe-Terra, não suportava mais o excessivo peso da população, que se multiplicava rapidamente. Zeus, como sabemos, sempre demonstrara grande antipatia pelos mortais, seres oriundos da segunda dinastia, a de seu pai Cronos. Para Zeus, os mortais eram seres pouco confiáveis, rastejantes, que se alimentavam de coisas putrescíveis e que viviam sob o império de Eros; presos ao cuidado e à preocupação, sua vida cotidiana era (é) tensão perpétua. Zeus esperava uma oportunidade para destruí-los pelo dilúvio.

O pedido de Geia era um ótimo pretexto para eliminá-los, deixada de lado, pelo menos momentaneamente, a ideia do dilúvio. Como atender Geia? É nesse momento que Momo se apresenta ao Senhor do Olimpo e lhe propõe um plano infalível, mais prático, mais perfeito, logo aceito. Dar a nereida Tétis em casamento ao mortal Peleu para que dessa união nascesse Aquiles, o mais patético dos heróis gregos, que se tornaria uma verdadeira máquina de matar. Ao mesmo tempo, o próprio Zeus engendraria uma filha, Helena, em torno da qual se armaria uma discórdia entre a Ásia (Troia) e a Europa (Grécia). Esta discórdia geraria uma guerra, a de Troia, na qual morreriam tantos mortais quantos fossem necessários para se restabelecer o equilíbrio demográfico. Este recurso, lembre-se, passou a ser muito usado, desde então, com a mesma finalidade, variando apenas o “motivo”, conforme as circunstâncias.

Afora esta participação de Momo, há indícios (Luciano de Samosata) de que Momo teria verberado Hefesto por ter fabricado para os humanos uma mulher (Pandora) sem nela ter aberto um orifício para que se pudesse ler os seus pensamentos. Há também registros (Filóstrato, o “Abatido pelo Amor”, fig.esq.) de que Momo se indispôs com Afrodite, repreendendo-a por sua maneira rebolada de andar e por sua tagarelice. Tal comportamento, segundo consta, teria causado a sua expulsão do Olimpo, apesar dos bons serviços prestados a Zeus.

Momo passou desde então a significar também açoite, ironia cáustica, ato de abrir a boca para dilacerar, espancamento, maledicência e crítica injusta, estas duas últimas, dentre as suas formas, como as mais suaves. Na Terra, foi Momo imediatamente acolhido por escritores e poetas. De modo especial, a elite intelectual da antiguidade lhe abriu, com muita deferência, amplo espaço para lhe dar lugar, como tropo de pensamento, na Retórica, sob o nome de Ironia, figura por meio da qual se diz o contrário do que se quer dar a entender.

Como alguns de seu irmãos, Momo também foi parar na Filosofia. O seu mais dileto cultor foi, sem dúvida, Sócrates, com a sua famosa “ironia socrática”, disposição fingida de aprender com outrem, a quem se interroga habilmente, fazendo-o entrar em contradição e evidenciando o caráter errôneo de suas concepções.

Expulso do Olimpo, porque irreverente e profanador, Momo integrou-se logo ao séquito de Dioniso, o mais anti-olímpico dos deuses gregos. O deus do teatro “entrega” a Momo a tutela do chamado drama satírico. Este gênero teatral, como se sabe, fazia parte das chamadas Dionísias Urbanas, onde eram apresentadas pequenas peças teatrais de humor ferino, fortemente localizado, expondo governantes, instituições, grupos ou indivíduos com base em suas imperfeições, apontando-se nelas situações públicas embaraçosas, expondo-se escândalos.

O termo satírico, nesse gênero teatral, faz referência à figura dos sátiros, companheiros de Dioniso, seres entre o humano e o animal (bode), primitivamente um semideus rústico, dotado de grandes e pontiagudas orelhas, nariz achatado, chifres pequenos na testa, com rabo e muitos pelos pelo corpo. Sempre ruidosos, escandalosos, eram sexualmente insaciáveis. Aos poucos, a palavra sátiro passou a designar homem devasso, luxurioso.

O drama satírico, passou da Grécia para Roma, onde adquiriu um sentido bem definido como meditação poética jocosa e indignada sobre os abusos da sociedade. Na Grécia, a maior figura do gênero foi Aristófanes, talvez a maior vocação teatral de todos os tempos, ao lado, é claro, de Molière. As peças de Aristófanes costumam ser classificadas também como comédias. Qualquer que seja a classificação, porém, o que importa é que ele é o mestre da polêmica violenta e da desmoralização pelo riso. Horácio e Juvenal foram os representantes do gênero em Roma, de onde passou à Idade Média e desta para os tempos modernos.


A partir do séc. XVI, a palavra momo começou a ser usada para designar a farsa satírica, cheia de sarcasmo, no teatro espanhol. Encenação com máscaras e um escasso texto. Vêm daí nomes como momice, bufoneria (italiano) e outros. É desse contexto que sai a figura do rei Momo, rei da folia carnavalesca, onde campeiam (campeavam, melhor dizendo) a sátira e o sarcasmo. Aos poucos, momo tomou o sentido de zombaria, mofa, ridículo.

O deus Momo sobrevive hoje numa das mais deprimentes manifestações populares, que muitos consideram como brincadeira, divertimento, até mesmo uma forma de convivência mas que, no fundo, tipifica um agressivo modelo de (des)socialização. A expressão “tirar o sarro” descreve essa prática, institucionalizada, através da qual ridicularizam-se principalmente pessoas. A pretexto de se explorar, até com uma certa inteligência, um aspecto negativo da personalidade de alguém, um defeito físico, a sua origem, uma deficiência qualquer, humilha-se essa pessoa, tornando-a objeto do riso e da chacota dos outros.

No início do século XXI, as brincadeiras estúpidas de Momo, revestidas de muita violência, ganharam destaque nos meios de comunicação, com a designação de Bullying, palavra que vem de bully, valentão, em inglês. Essa palavra passou a ser usada usada para descrever atos de violência física ou psicológica cometidos, de modo insolente, com a finalidade de causar sofrimento a alguém com o objetivo de colocá-lo numa situação de inferioridade da qual não deverá sair. Modelo comportamental exportado pela mídia norte-americana, o bullying, como se sabe, pode ser constatado em escolas, em relações de trabalho, em política internacional etc.

Nêmesis (em grego, nemein, delimitar, distribuir, fixar limites; fig. esq.) é a filha de Nix que constrange e pune todos aqueles que teimam em sair dos seus limites, do seu metron. Sua principal função é a de restabelecer o equilíbrio, quando a justiça deixa de ser praticada. Sua ação pode demorar, mas é sempre providencial, pois todo descomedimento põe em risco a ordem cósmica e social.

Nêmesis curva os orgulhosos, como Narciso, por exemplo; pune os presunçosos, os arrogantes, todos aqueles, enfim, que de modo insolente se entregam à sua hybris. Sua ação também tem a ver com reversões da fortuna, atuando no sentido contrário de Tyke, a deusa do acaso. Os gregos, aliás, usavam a expressão “encontrar a sua nêmesis” para se referir a alguém que perdia, às vezes com degradação pública, bens e poder conquistados imerecidamente.

Nêmesis representa, sobretudo, conceitos de retidão e de justiça. Era de Nêmesis a dikaiosyne, a virtude de distribuir o que é devido a cada um. Na esfera da ação de Nêmesis, o homem pode incorrer na punição divina de dois modos: por um lado, agindo contra a lei moral e, por outro, pelo excesso de felicidade ou de riqueza, casos em que sempre provocava o ciúme divino. Em todas as situações, sempre imprudente, o homem chamava automaticamente a ação de Nêmesis, o que lembra muito o conceito de karma dos hindus.

Nêmesis era chamada também de Adrasteia (a de que não se pode fugir, a inevitável) ou de Rhamnusia, de Rhamnus, cidade da Ática, onde a deusa pontificava. Em todos os tribunais, por trás dos juízes, devidamente entronizada, havia uma imagem de Nêmesis, sempre representada de uma forma majestosa, sóbria, alada, com um diadema ou uma coroa na cabeça.

Nêmesis se fazia acompanhar sempre de Aidós, o Pudor. Era esta última deusa que, atuando antes de Nêmesis, impedia a ofensa, inibia, a partir do interior do ser humano, a prática de determinados atos, posturas, maneiras de se apresentar, a hybris, enfim, em nome da decência e da modéstia. Nêmesis assinalava a infalível consequência da ofensa. Foi Aidós, por exemplo, quem sugeriu às deusas do Olimpo que, por recato, não deveriam se abalar, como os deuses estavam fazendo, para ir ao local onde Afrodite e Ares, em pleno conluio amoroso, estavam ridiculamente aprisionados pela indestrutível rede lançada por Hefesto.
Conta o mito que a belíssima Nêmesis foi notada por Zeus, que passou a persegui-la de várias maneiras. Desesperada, numa última tentativa de escapar, a deusa se transformou numa fêmea de ganso. Para se unir a ela, o Senhor do Olimpo, como costumava fazer, adotou uma forma animal, a de um maravilhoso cisne, no caso, forma através da qual conseguiu finalmente seu intento, dando vazão assim ao seu inesgotável furor erótico. As uniões de Zeus, como sabemos, têm uma finalidade: é delas que vão nascendo os luminosos fragmentos da verdade, da qual a humanidade tanto necessita.

Segundo Eratóstenes, o encontro de Zeus com Nêmesis se deu na cidade de Rahmnus. Foi ali que a deusa deu substância a um conceito filosófico-religioso até então não muito bem definido na espiritualidade grega, o de Anankê, a Necessidade, para assumir a função de a maior inimiga da hybris, do excesso, da desmedida. Consta que o modelo de Nêmesis viera da Ásia Menor, onde era reverenciada com o nome de Adrasteia, em Smirna, principalmente. Na Grécia, Nêmesis assumiu o papel de guardiã da ordem cósmica e da ordem social, tornando-as indissociáveis.

Anankê é nome que lembra coação, violência e ao mesmo tempo relação de parentesco, isto é, de causa e efeito. Em torno desse conceito reúnem-se várias divindades femininas que, de modo providencial, têm por finalidade a reposição de limites por parte daquele que se excede. Nêmesis, as Moiras, as Erínias, Dike, as Keres, Ate, são divindades desse mundo. Há sempre algo de mecânico na ação dessas deusas, de inexorável. É o próprio agir do ser humano que determina qual delas virá para constrangê-lo, para obrigá-lo a voltar de onde não deveria ter saído, com sofrimento, maior ou menor, de algum modo.


São chamadas também tais deusas de agentes da Necessidade, entendida esta palavra como um constrangimento exercido sobre os desejos e as ações do homem pelo encadeamento inevitável dos princípios e das consequências, dos efeitos e das causas. A Necessidade é muita vezes confundida com a Fatalidade.

Dentre os vários atributos de Nêmesis encontramos o círculo (para indicar a velocidade das suas punições), o freio, o leme, o chicote, o cabresto, a espada, a balança, o esquadro, o fio de prumo e o compasso. Como se vê, tudo o que serve para limitar, orientar, dar o rumo certo, conter e punir é de Nêmesis. Lembre-se que o esquadro, por sua relação com o quadrado, tem relação com a Terra enquanto o compasso, que serve para traçar círculos, se liga ao Céu. Ambos formam uma conjunção de opostos que representava para o grego antigo uma hierogamia dos princípios masculino e feminino, ou seja, do Sol e da Lua.

Como aconteceu com outros filhos de Nix, o conceito de Anankê passou a ser usado na filosofia, desde os pré-socráticos. Anankê era o necessário, aquilo que governa tudo de modo providencial, aquilo que não poderia deixar de existir. Neste sentido, ela se opõe não só ao problemático como ao que existe pura e simplesmente. Uma lei necessária não afirma o que é, mas o que deve ser. Na vida social, Anankê é uma necessidade moral, um dever, que se propõe a nossa liberdade, embora não a constrangendo ou a ela se impondo de modo absoluto. Empedócles usou o conceito certamente. O mesmo fizeram os atomistas, considerando-o sob um ponto de vista puramente mecânico. Platão, ao que parece, usou também o conceito ao expor o seu Mito de Er (República).



Dentre os mais temíveis filhos de Nix alinham-se as Moiras (em grego, lote, pedaço, quinhão, parte), chamadas também de Aisas, Parcas entre os latinos, e popularmente de Fiandeiras. Personificam o destino individual de cada ser humano. O que decidem, nem os deuses podem contrariar. Por isso, quando da vitória de Zeus e da consequente imposição da ordem olímpica em todo o universo buscou-se um acordo: o que Zeus queria, as Moiras queriam. Muito prestigiadas, têm lugar de honra nas reuniões olímpicas.

São três: Cloto (fiar), presente no momento da concepção, a que segura o fuso e puxa o fio da vida; Láquesis (sortear), a que indica quando o fio da vida deve parar de ser esticado, decretando a morte; e Átropos (inflexível), a que corta o fio da vida, momento em que Thanatos está sempre presente.

As Moiras vivem no Hades. No seu palácio, os destinos humanos estão gravados em ferro e bronze, de modo que nada possa apagá-los. Imutáveis nos seus desígnios, são donas do misterioso fio da vida e possuem o dom da profecia. O fuso, pequeno instrumento de madeira, arredondado, grosso no centro e pontiagudo nas extremidades, usado para fiar, torcer e enrolar o fio de trabalhos feito na roca, é delas.

Entre os latinos, as Parcas (do verbo parere, dar à luz, parir; fig.dir.) assumiram aos poucos os atributos das Moiras gregas. Eram três: Nona, Décima e Morta. As duas primeiras tinham a ver com o nascimento. Normalmente, a criança em Roma, por causa do calendário adotado, o lunar, vinha normalmente à luz no décimo mês. Para o caso de nascimentos prematuros, havia a Nona. Aos poucos, porém, essa ideia, por inspiração grega, foi abandonada. Nona passou a cuidar exclusivamente dos nascimentos; Décima (Decuma) ficou com a tutela dos casamentos e Morta continuou a se responsabilizar pelos assuntos ligados à morte. Comumente, eram representadas por três imagens (estátuas), num só bloco, sendo chamadas então de Tria Fata (Três Destinos).

Raramente mencionado nos mitos, Moro, como filho de Nix, é a personificação do Destino. É um poder que define a sucessão dos fatos, fixando-a de antemão. Aconteça o que acontecer, os seres humanos, dotados de inteligência e de vontade, por mais que o façam, são impotentes para evitá-la. Moro, como a grande divindade do Destino, representa o conjunto da vida de um ser, na medida em que os acontecimentos que o compõem, contingentes ou não, são considerados como resultantes de forças exteriores e distintas de sua vontade. É o que não pode deixar de acontecer, apesar de todo desejo e esforço contrários.

Moro é uma entidade cega, inexorável, que passa por filho de Nix, mas que alguns julgam uma emanação do Caos. Insondável o mistério de sua origem. O que se sabe de certo é que Moro atua diretamente através de suas irmãs, as Moiras. Como tal, confunde-se com o Fatum dos latinos, nome que quer dizer “palavra dita”. Fatum é o que acontece em virtude de uma necessidade cega, pela qual os acontecimentos (todos ou alguns?) estariam fixados independentemente das causas que os produzem.

Todas as demais divindades estão submetidas ao seu poder. Os céus, a terra, o mar e os infernos submetiam-se ao seu império. O que Moro resolve é irrevogável. Mesmo Zeus não pode aplacá-lo, nem a favor dos deuses nem a favor dos humanos. As leis de Moro estão escritas desde o princípio da criação em um lugar onde os deuses podem consultá-las, mas não alterá-las ou revogá-las.

Moro é representado tendo sob seus pés o globo terrestre, levando numa das mãos uma urna onde está encerrada a sorte dos mortais (chamam-no de a Sorte, por isso). A urna de Moro representa a unidade da diversidade através do fluir perpétuo e sucessivo da vida e da morte. Às vezes, ele vem com uma coroa recamada de estrelas e um cetro, símbolo do seu poder universal. Para demonstrar a sua inflexibilidade, os antigos o representavam por uma grande roda presa a correntes. No alto da roda, uma grande pedra; em baixo, duas cornucópias com pontas aceradas como flechas.

São as leis do Moro que tornam culpados tantos mortais, apesar do desejo que demonstram de permanecer virtuosos. Como exemplos, colhidos em Ésquilo, podemos citar Agamemnon, Clitemnestra, Jocasta, Édipo (fig.esq), Etéocles, Polinice e outros. Só os oráculos podem entrever e revelar o que está escrito no livro de Moro.


                                                 HÉCATE E OIZUS (W. BLAKE)


Finalmente, temos Oizus, Miséria, em grego, filho de Nix que aparece como um daimon andrógino para personificar a tristeza, o desalento, a desventura, causador daquele estado de ignorância, iniquidade e abjeção em que a maior parte da humanidade vive mergulhada, a inspirar compaixão e piedade. A jarra na qual Pandora trouxe os males que passaram a infelicitar a humanidade, como punição pelo crime cometido por Prometeu, costuma aparecer, em algumas tradições, associada a Oizus. Nas palavras de Zeus (Ilíada), ninguém mais miserável do que o ser humano, dentre todos os seres que respiram e andam sobre a Terra, todos sujeitos à idade, às dores e à morte.

Oizus também pode ser aproximado de Penia, a personificação da pobreza, da carência, como Platão a apresentou no Banquete, quando nos falou, através do diálogo Diotima - Sócrates, da gênese de Eros. Carente, sempre desejoso, vivendo na falta, pelo lado materno, Eros herdou, entretanto do pai, Poros, o Artifício ou o Expediente, coragem, ímpeto, audácia e astúcia para sair da dolorosa situação de penúria em que constantemente se encontra. Na imagem à direita, Penia, Poros e Eros.