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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

LIBRA (4)

                                        
PSYCHE E O AMOR , 1798
( FRANÇOIS  GÉRARD )
Muitos astrólogos, desde a antiguidade, associam a Libra o mito de Cupido e Psyche, na medida em que o signo procura descrever como um  ego busca o  seu complemento. É só através dessa busca e de seu sucesso, como sabemos, que o tipo astrológico libriano se realiza plenamente. O mito procura traduzir, de certo modo, a busca do Outro, a busca de um complemento, no geral muito mais inventado, idealizado, do que real.  


APULEIO
Antes, contudo, a origem da história. Tudo começou com Lucius Apuleius Theseus (170-125, Madaura, atual Argélia), chamado simplesmente de Apuleio, escritor latino polígrafo de origem africana. Depois de ter estudado eloquência em Cartago, dirigiu-se a Atenas, tornando-se adepto do platonismo. Percorreu em seguida boa parte da Ásia Menor e do Mediterrâneo fazendo-se iniciar em cultos de mistério (Mitra, Elêusis, Ísis, Cabiros, Cibele, Astarte, Sabazios) na esperança, como dizia, de “encontrar o segredo das coisas” e de “se abandonar a todos os demônios da curiosidade até os confins do sacrilégio.” Voltou a Cartago, assumindo a advocacia, tornando-se um retor célebre. Além de alguns pequenos tratados filosóficos e discursos, escreveu Floridus e De Magia ou Apologia, este último composto como
METAMORPHOSIS
peça de sua defesa por ter sido acusado de seduzir uma rica viúva chamada Prudentilla, para lhe tomar a fortuna. Sua obra mais importante intitula-se Metamorphosis, chamada algumas vezes de O Asno de Ouro, onde se encontra o seu famoso conto Cupido e Psyche, que podemos certamente relacionar com a peça de defesa acima mencionada. Apuleio nos deixou como escritor a imagem de uma poderosa sensibilidade sempre às voltas com influências místicas, grande imaginação, alegria, gosto pela paródia e construções rebuscadas, tudo numa linguagem eivada de preciosismos.

O conto de Apuleio nos diz que havia um rei e uma rainha que tinham três filhas belíssimas. Para as duas primeiras os adjetivos superlativos disponíveis na linguagem eram suficientes para celebrá-las. Quanto à caçula, porém, sua beleza era tão extraordinária que não havia palavras para descrevê-la. O único recurso, e mesmo assim insatisfatório, eram as interjeições que procuravam traduzir um grande deslumbramento. Logo a notícia correu o mundo, uma nova Vênus havia nascido. De várias partes do país e do exterior acorreram muitas pessoas na esperança de ver a “nova” deusa, que aceitava as homenagens que lhe eram prestadas. Por causa disso, os lugares sagrados e os santuários de Vênus não mais eram visitados, o culto divino se enfraquecia. Como não poderia deixar de acontecer, a imensa hybris da jovem princesa, chamada Psyche, incomodou a deusa Vênus, que resolveu punir tamanha insolência. Chamou seu filho Cupido, incumbindo-o de puni-la exemplarmente. 


CUPIDO SUPLICA A VÊNUS QUE PERDOE PSYCHE
( 1827, GEORGE  ROUGET )

Vênus é um nome derivado de palavras latinas que significam amor físico, apetite sensual e sexual, vida instintiva. Foi por esse nome que os romanos personificaram a sua deusa do amor, procurando assimilá-la à Afrodite grega. Na origem, entre os antigos povos da Itália pré-romana, a deusa Vênus tinha relação com o mundo agrário, com jardins e pomares, mais exatamente. Aos poucos, porém, por influência do culto grego de Afrodite, que entrara na Itália pela Sicília, Vênus começou a ocupar uma posição de destaque no panteão latino, especialmente pelo fato de, segundo o mito, um descendente seu, Eneias, oriundo de Troia, ter fixado as bases do futuro império romano.

Quanto a Cupido, filho de Vênus e Marte entre os latinos, o nome vem do verbo latino cupere, desejar ardentemente, inflamar-se. No
CUPIDO
ESCULTURA   ROMANA
mito romano, difere um pouco do Eros grego. Embora no mundo romano se apresente sempre muito travesso, irresponsável, inconsequente, na sua iconografia clássica, a imagem de Cupido chega a diferir bastante do seu modelo grego. O Cupido latino, com efeito, parece mais envelhecido que o Eros grego; é uma figura tomada por um certo cansaço, traços que suas esculturas romanas inclusive revelam, características que podemos, quem sabe, atribuir a um certo desgaste do arquétipo.   

Vênus pede a Cupido uma vingança perfeita, observadas as seguintes determinações: a jovem princesa terá que se apaixonar pelo mais horrendo dos homens, perdendo não só toda a sua herança familiar como a sua dignidade, a incolumidade de seu corpo, descendo a níveis tão baixos de existência de modo a que ninguém queira compartilhar de seu sofrimento. Transmitidas tais instruções, Vênus encaminhou-se para o seu elemento, o mar, sendo recebida por um grande séquito, as filhas de Nereu, o formidável Portuno, a saltitante Salácia, Palemon, o condutor dos delfins, inúmeros tritões, todos a reverenciá-la.


DEUSES  DO  MAR  SAÚDAM  VÊNUS ( E. LE SUEUR , 1616 - 1655 ) 

Registre-se além disso que os pais da jovem haviam consultado um oráculo apolíneo, pois, embora ela fosse lindíssima, como mulher alguma poderia ser, não era amada; definhava por isso, muito triste.
REUNIÃO DE CUPIDO E PSYCHE
( J.P. SAINT-OURS - 1752 - 1809 )
Suas duas irmãs, muito menos bonitas, já haviam inclusive se unido a dois belos príncipes. O oráculo sentenciou: Psyche deveria ser levada ao mais alto penhasco do país e ali exposta suntuosamente; um monstro horroroso viria se unir a ela. É nesse momento que Cupido, cumprindo as ordens de sua mãe, vê a jovem princesa no penhasco e se sente por ela “flechado”, instantaneamente apaixonado. Libertou-a e a levou para o seu palácio no vale. A única coisa que lhe pediu, logo na primeira noite, quando a possuiu, foi que permanecesse com os olhos vendados quando ele fosse visitá-la, que jamais tentasse vê-lo. 



PSYCHE   SURPREENDE   CUPIDO   ADORMECIDO
( 1769 ,  LOUIS JEAN FRANÇOIS LAGRENÉE )

As duas irmãs, tendo ouvido histórias sobre Psyche, conseguiram saber onde ela se encontrava. Visitando-a, sugeriram que ela era muito tola, que deveria remover a venda dos seus olhos e conhecer o seu esposo, talvez um monstro, quem sabe. Ainda que muito relutante, mas cheia de curiosidade, a jovem fez o que as irmãs haviam sugerido. Resolveu acender uma lamparina a óleo para vê-lo melhor. Ao se debruçar sobre ele com a lamparina, gotas de óleo cairam e Cupido acordou, logo fugindo, abandonando-a. 

Psyche se desesperou. Foi a Vênus, que não consentiu que ela visse seu filho-amante, a não ser que ela lhe prestasse alguns serviços, na condição de serva. A deusa impõe então à jovem várias tarefas
VÊNUS   E   PSYCHE  
humanamente impossíveis, certa de que ela fracassaria. O mundo natural, entretanto, as plantas e os animais, sentindo muita pena da jovem, a ajudam no cumprimento das referidas tarefas (separar um gigantesco  monte de grãos variados, numa única noite; trazer para Vênus flocos de lã de ouro que cobriam o dorso de carneiros ferozes; trazer para Vênus uma jarra de cristal cheia da água da fonte que alimenta os rios infernais Estige e Cocito). Nesse ínterim, refeito de seu ferimento (queimadura), Cupido foi a Júpiter e lhe pediu que concedesse a imortalidade a Psyche, o que aconteceu, recebendo ela umas gotas de ambrosia, divinizando-se e se imortalizando. 

Esta história suscitou ao longo dos séculos muitas interpretações. Sob o ponto de vista filosófico (Apuleio era um adepto do platonismo), temos aqui a ideia de que a alma é intrinsecamente divina. Esta natureza é perdida quando do processo da encarnação, mas pode ser recuperada. Nesta perspectiva, Psyche representa a natureza espiritual de cada ser humano. No cristianismo, esta história foi usada para simbolizar a busca de Deus pela alma.

PSYCHE  E CUPIDO  ( ANTONIO  CANOVA , 1757 - 1822 )

Numa outra leitura, podemos dizer que tendo pecado pela curiosidade e pela dúvida, a alma perde o seu amante divino e se torna escrava de Vênus, que a submete a duras provas. Recuperada por Cupido, ela se torna, enfim, imortal e passa a viver na eterna felicidade do amor. Tanto um símbolo da alma à procura de seu ideal como da sua purificação (salvação pelo amor) depois de ter decaído. Outros vêem na história uma tendência à idealização de parceiros. Depois de um certo tempo, porém, ousando olhá-los como realmente são, a decepção se instala, ocorrendo tanto uma separação emocional e/ou física. Os testes, as provas e os desafios pelos quais as relações têm que passar estão evidentes no contexto do conto, lembrando-se, neste particular, que, sob o ponto de vista astrológico, Saturno se exalta em Libra. 

Uma outra hipótese, que estudiosos, psicólogos e artistas nunca, a meu ver, levantaram, é que esse conto que passou à história da literatura filosófica, hoje quase que só “trabalhado” por psicólogos, é, no fundo, uma declaração de amor de nosso trêfego Apuleio à rica viúva, uma peça literária pela qual ele procurava se redimia aos seus olhos, deixando claro que o “amor tudo vence.” Segundo consta, a rica Prudentilla o perdoou por ter se apoderado do seu dinheiro, enganando-a, e eles acabaram muito felizes.

ORFEU   E   EURÍDICE
A história de Cupido e de Psyche coloca-nos também diante de uma questão que me parece fundamental na mitologia grega e com larga repercussão na matéria astrológica, mas nunca explorada de modo mais consequente. Refiro-me ao tema da proibição de se olhar na relação amorosa. O mito de Orfeu e de Eurídice não é, assim, o único a colocar a questão da interdição do olhar, do direito de ver, da necessidade que os parceiros amorosos têm de “se dar a ver”, bem como das interdições e castigos que sancionam a transgressão destes interditos.


AMOR  CORTÊS NUM  JARDIM  MEDIEVAL ( RENAUD DE MONTEAUBON )

O tema do olhar me parece profundamente ligado ao signo de Libra e de Touro e às duas Vênus que os regem, a Vênus “exterior” do primeiro e a  Vênus “íntima” do segundo. A Vênus libriana é, numa aproximação literária, a do amor cortês, desmaterializada, na qual as pulsões carnais aparecem invariavelmente sublimadas, transformadas em obras de arte etéreas, depuradas. O amor cortês, como se sabe, impõe distância, mesuras, vive em grande parte da imaginação (lembremos que Vênus se exalta em Peixes). A Vênus taurina é carnal, pede o sentido do tato, associa-se à plenitude lunar. A Vênus libriana pede mais o sentido do olhar que o toque, 


ASTRÔNOMO
Os astrônomos, com as suas lunetas, há muito, perceberam que o planeta Vênus apresenta fases semelhantes às da Lua, conforme a posição por ele ocupada com relação ao Sol. É de Galileu a observação que A mãe dos amores imita as fases de Diana. Notaram também os estudiosos do céu que todos os acidentes da superfície do astro quase nunca eram percebidos pelo olhar, pois um manto de nuvens invariavelmente os escondia. Dessa constatação astronômica passou-se ao símbolo poético. Os poetas, desde sempre, “traduziram” esse fato astronômico, falando-nos da pudicícia e do recato da deusa, que “jamais baixava os seus véus”. Imaginação, mistério, promessas ou tão só as camadas mais ou menos espessas da atmosfera do planeta... Contra a realidade carnal taurina temos as abstrações librianas. Os tipos librianos, recordemos, são sempre muito sensíveis ao olhar do outro, ao julgamento que este olhar faz. Nos tipos librianos há sempre (?) o temor do olhar do outro, o receio de que este olhar os surpreenda inadequadamente “compostos”, “arrumados”. 

Dentre os muitos mitos que fazem parte do universo libriano, um capítulo importante é o das histórias de parceiros amorosos, de casais, cujos nomes não poderão jamais se separar. As suas histórias transcorrem geralmente em regiões fronteiriças às da morte (Escorpião), falando-nos de interdições de se olhar, de jogos de sedução que passam pelo olhar. Os personagens se dão a ver, mas quem vê ou é visto se expõe sempre a matar ou a morrer.

Orfeu, nome que lembra privação em grego, não escapa destas leis. Filho de um rei da Trácia, segundo uns, de Apolo para outros, é sobretudo um dispensador da harmonia. Com o seu canto e a sua música acalma as bestas, faz cantar a natureza, tem poder inclusive
CALÍOPE
sobre o mundo mineral (as próprias pedras o seguem). Orfeu é um sedutor. Hesita entre Apolo e Dioniso, tentando conciliar estes deuses inconciliáveis, o da medida e do espírito celeste o primeiro e o outro o da vida luxuriante e da desmedida. Sua mãe é a musa Calíope (a de bela voz), a inspiradora tanto da poesia épica como da lírica. Cantor e músico incomparável, a constelação da Lira, segundo alguns, o acolheria quando cumprido o seu estranho destino. 

ARGONAUTAS
Depois de longa viagem ao Egito, Orfeu se engajou na expedição dos Argonautas, comandada por Jasão. Sua função, com a sua música e seu canto, era a de marcar a cadência dos remadores, acalmar as tempestades e distrair os marinheiros atingidos por Pothos, causador do dorido sentimento de nostalgia noturna. Ao voltar da expedição à Cólquida, encontrou a dríade Eurídice (a de grande justiça), por quem se perdeu de amores. Logo, porém, a perdeu. Ao fugir de uma investida sexual de Aristeu, deus apicultor, é picada por uma serpente e morre, descendo, por isso, ao Hades. 



A  MORTE  DE  EURÍDICE ( ERASMUS  QUILLINUS , 1607 - 1678 )

Inconsolável, Orfeu para lá se encaminhou, confiante no seu poder de sedução. Perséfone encantou-se com as melodias do filho de Calíope, convencendo Plutão a libertar a jovem dríade. A história é conhecida: uma condição é imposta; Orfeu iria na frente e Eurídice o seguiria, não podendo ele olhá-la em hipótese alguma até que ultrapassada a saída do reino dos mortos. Na versão clássica do mito, Orfeu perdeu Eurídice porque não observou a interdição, olhando-a muito cedo, vitimado por uma crise de impaciência tipicamente ariana. Dentre as explicações para o comportamento de Orfeu, acredito que algumas hipóteses poderiam ser alinhadas: a) ele duvidou da palavra dos senhores da morte; b) teve medo, temendo encontrar uma Eurídice lívida e desencarnada, um eidolon, um fantasma e não um ser de carne e osso; c) arrependeu-se, não sabendo como assumir o “renascimento” da sua amada, já que o Hades e Eurídice ficariam para sempre associados. 



Ao longo dos séculos, a maior parte daqueles que se aproximaram desta história acusaram Orfeu. Para uns (Jacqueline Kelen, L´Éternel Masculin), Orfeu não sabia apreciar o que lhe escapava, que ele não sabia dominar. Falta de humildade, talvez. Não acreditou no milagre, por isso ele não se produziu. Tem Orfeu muita invenção poética mas pouco amor para ressuscitar a jovem. Platão, no Phedro, acusou Orfeu de fraqueza. Uma alma fraca que não teve a coragem de morrer como Alceste. 

Não podemos esquecer que embora Libra seja um signo artístico, de criações sutis, sua natureza permanece contudo sempre cerebral, como um signo de ar que é. A paixão está presente, o sentimento alimenta o pensamento, mas este se impõe àquela. Em outros termos: quanto mais Eurídice é o centro da poesia órfica, fonte de
JEAN  MARAIS
inspiração, menos ele a aceita e vê como carne e sangue. As versões desta história são inúmeras. Virgílio (Geórgicas) nos fala de imprudência. Ovídio (Metamorfoses), de fatalismo. Depois deles, essa história trágica deu origem a uma grande tradição literária musical e artística. Quanto à música, obrigatória as referências a Monteverdi, Gluck, Haydn e Offenbach; na dança, as coreografias de Roger-Ducasse e de Balanchine-Stravinsky. Na pintura, Breughel, o Jovem, Tintoretto, Rubens, Poussin e Delacroix a utilizaram. No cinema, Jean Cocteau (Orphée) e Marcel Camus (Orfeu Negro). 

Ninguém, que eu me lembre, “levantou” o ponto de vista de Eurídice. Será que ela desejaria realmente voltar à vida terrestre, ela que agora conhecia a morte, ela que agora conhecia tudo o que se passavam no reino de Hades. Apesar de todas as suas declarações, Orfeu, o amado dos deuses, é um ser cheio de fraquezas e de sentimentalismo. Uma personalidade muito “feminina”, como é comum entre os poetas. Ele não é um modelo de afirmação, um ser aguerrido. É ambíguo, oscilante. Características todas que, como sabemos, estarão na causa de sua morte. Uns afirmam que ele se “esqueceu” de honrar Dioniso. Uma versão muito aceita registra que Zeus o fulminou porque ele começou a revelar segredos do Hades que não podiam ser revelados. O mito de Orfeu e de Eurídice não foi o único a propor questões como a da proibição de se olhar, a do direito de se ver, a da necessidade de “se dar a ver” e a de todas as interdições que cercam o tema.

Esta mesma questão da proibição de se olhar nós a encontramos, como se disse, na história de Cupido e Psyche. Embora tenha tentado resistir às insinuações das irmãs, a jovem perdeu a confiança no seu misterioso esposo e acabou por transgredir a interdição. Ela o viu tão belo, tão maravilhoso, que, infinitamente perturbada, deixou cair uma gota de óleo fervente sobre o ombro do seu divino parceiro, acordando-o. Rápido, ele se afastou, dizendo-lhe: Infelicidade para ti, que puseste tudo a perder” Esta cena não pode deixar de nos trazer à mente uma questão (libriana) muito importante, quem sabe uma lição a ser dela retirada, a de que o amor, para conservar a sua força e ação, perdurar, deve ser também cego.


Para recuperar o amor de Cupido, Psyche terá que realizar vários trabalhos, como já vimos, recebendo, para tanto, valioso auxílio divino. Impostos por Afrodite, merecem nossa atenção de modo especial aqueles que a levarão ao Hades. A deusa exige que a jovem encha uma jarra com a água do rio Estige (o que provoca horror), um dos rios infernais, inalcançável para qualquer mortal. Providencialmente, uma águia, a quem, um dia, Cupido auxiliara, resolveu o problema, conseguindo o líquido para a jovem. Enraivecida, Afrodite determinou que ela cumprisse então uma tarefa, a mais terrível de todas, que certamente causaria a sua perdição: Psyche deveria ir ao Hades e pedir a Proserpina (Perséfone) um unguento de beleza que só ela possuía. Psyche, que,
PSYCHE E CARONTE
( J.R.SPENCER STANHOPE , 1829 - 1908 )
até então, havia sempre recebido auxílio para cumprir as tarefas que lhe eram determinadas, sentiu-se perdida, pois ninguém, nem mesmo deuses, ousariam descer ao Hades. Pensou em se suicidar. Dirigiu-se para o alto de uma grande torre para esse fim, para de lá se atirar. Estranhamente, porém, a torre se pôs a aconselhá-la: deveria a jovem munir-se de dois óbolos e de dois pedaços de bolo. Os óbolos para  Caronte, o barqueiro infernal, um na ida e outro na volta, e os pedaços de bolo, do mesmo modo, para o cão tricéfalo Cérbero. Quanto a Proserpina, o máximo cuidado, pois ela gostava de estender armadilhas. 

Psyche foi recebida pela Rainha do Hades e convidada a sentar-se e a fazer uma refeição. Devemos lembrar que há uma lei no mundo infernal que diz o seguinte: quem comer no Hades, um grão que seja, estará condenado a ele voltar e quem lá se sentar numa cadeira, a chamada cadeira do esquecimento, não poderá mais dela se levantar e esquecerá o motivo pelo qual para lá se dirigiu. Psyche, lembrando-se dos conselhos da torre, recusou polidamente os convites, expondo os motivos de sua visita. Obtendo o que desejava, a jovem foi autorizada a voltar à terra. Com o frasco do precioso unguento nas mãos, Psyche pensou em usar um pouco dele para se mostrar ainda mais bela se voltasse a encontrar o seu perdido esposo. Nesta passagem, faltaram evidentemente a Psyche, mais uma vez, comedimento e prudência. Ao abrir o frasco, as substâncias se evaporaram, caindo ela num sono profundo, como se estivesse morta. Tudo isto aconteceu no momento em que ela estava praticamente fora dos limites do Hades.  

Nesse ínterim, Cupido, lamentando a perda de sua jovem esposa, intercedia a seu favor diante de Zeus. Aquiescendo Zeus ao pedido,
MERCÚRIO  OFERECE  A PSYCHE
O  CÁLICE  DA  IMORTALIDADE
( 1510 ,  RAFAEL DE  SANZIO ) 
Cupido não só a recuperou como, por iniciativa do próprio Senhor do Olimpo, a jovem se tornou imortal por lhe ter sido permitido o consumo de um pouco de ambrosia. Unindo-se novamente os amantes, gerarão uma filha que recebeu o nome de Volúpia, sempre representada como uma bela mulher, de faces artificialmente muito coloridas, de olhares lânguidos, postura lasciva, uma figura da qual a modéstia está certamente ausente. Aparece sempre semi-deitada numa espécie de divã florido e segura numa das mãos uma alada bola de vidro, uma imagem sempre carregada de sensualidade. Esta filha que Cupido e Psyche tiveram desqualifica em grande parte, senão totalmente, a meu ver, a leitura que a moderna Psicologia jungiana (Erich Naumann) faz desta história, ao “traduzir” Volúpia como Deleite ou Bem-aventurança, de natureza celeste, tentando espiritualizá-la, características inexistentes ou intenções ausentes do texto de Apuleio.

Todas as provas impostas por Vênus têm certamente qualquer coisa a ver com as vicissitudes do jogo amoroso. Psyche aceita o sofrimento, sente-se fanée, pensa no envelhecimento, chega à beira do suicídio. Há muito de Libra, sem dúvida, na história de Psyche, o desejo de agradar, de permanecer sempre jovem, bela, uma “filha de Vênus”, sempre vulnerável ao olhar do outro, aterrorizada pelo pensamento de não mais ser amada. A história nos fala das armadilhas do amor, dos sonhos de beleza perfeita, do amor que “nunca morre”, de tentações, hesitações, balanceamentos, fragilidade, de muitos componentes do mundo libriano, enfim. Fala-nos também a história das dificuldades que existem para se chegar ao amor adulto, consciente, da confrontação dos olhares, das indagações mudas, da maior ou menor sensibilidade dos parceiros amorosos na captação de nuances e matizes no discurso amoroso. Muitos, ao longo dos séculos, condenaram Psyche, esquecendo, porém, as intermináveis horas de espera que ela suportou para rever o marido, o seu tédio palaciano, o seu bovarismo, alimentado, em grande parte pelo marido e pelas irmãs. A pergunta então se impõe: que significa realmente esta interdição de contemplar o deus do amor? Será que o amor e a morte não podem ser olhados? Na história, Cupido tem o direito de ver Psyche, ela, porém, não pode vê-lo. A história lembra muito a de Endímion, sem dúvida. O jovem e lindíssimo pastor, conforme a versão, era visto por Selene ou por Hipnos, mas não via. 

A história de Cupido e de Psyche, iluminada astrologicamente, talvez nos deixe questões que jamais conseguiremos explicar totalmente. Que se passa realmente quando duas pessoas que se amam abrem os olhos simultaneamente, um atingindo a alma do outro, uma entregando-se ao outro? Um instante absoluto, mágico, milagroso, certamente impossível de ser reproduzido conscientemente. Verdade ou mentira dos olhos?


PSYCHE  RECEBIDA   NO   OLIMPO ( RAFAEL DE SANZIO , 1483 - 1520 ) 

Se em Gêmeos o eu está se opondo sempre ao não-eu, em Libra, este modo de ser é ultrapassado para ser procurada uma nova forma de vida, a da complementaridade, a unio, a conjunctio oppositorum. Em Libra, o eu se busca numa relação com o outro. Mas para que isto aconteça é preciso correr riscos, encarar as incertezas, aceitar, quem sabe, as desilusões, é preciso muito esforço, procurar conhecer o outro. Uma leitura que muitos fizeram: Psyche foi aquela que buscou a imagem real do outro, busca que a levou inclusive a usar desastradamente a lamparina de óleo. A pergunta, a meu ver, então se impõe: qual, a rigor, a razão dessa “necessidade de ver realmente o outro”, se os próprios deuses haviam proibido que tudo fosse vivido “às claras”? A história parece deixar claro que a comunhão com o outro não se realiza através do conhecimento racional. Será que foi por piedade que Cupido se dispôs a ajudar Psyche, levando-a para o Olimpo, onde a união de ambos tomou características de uma hierogamia? Ou, simplesmente, reduzindo a história ao essencial, não será ela mais que a revelação da impossibilidade de se encontrar nos relacionamentos humanos o equilíbrio ideal? Ou, astrologicamente, de outro modo, segundo a receita divina: será que não deveríamos preferir para a casa VII, ao invés da razão (a lamparina de Psyche), a escuridão e a imaginação?










terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ÁRIES (2)



AMON-RA
Os egípcios, durante seu período histórico chamado de Novo Império, farão de Amon-Ra seu deus supremo. Este é o período da 18ª dinastia que se caracterizou sobretudo pela organização de um poderoso exército, por inúmeras guerras de conquista e pela extensão das fronteiras egípcias. Foi durante essa dinastia que Amon-Ra (Deus Escondido) assumiu a condição de divindade única, representado por uma figura humana teriomorfa, com cabeça de carneiro, às vezes com disco solar enquadrando-a.
GANSOS EGÍPCIOS
Seu culto se alastrou por todo o Egito, enriquecido por contribuições que vieram do culto de outras divindades. Às vezes Amon-Ra era representado por gansos selvagens. Os romanos, aliás, consagravam o ganso a Marte, a Vênus, a Cupido e ao deus fálico Príapo. A carne de ganso gozava da fama de aumentar o desejo, possuindo virtudes afrodisíacas. 

KNUM
Os egípcios associam também o signo de Áries a um deus poteiro, modelador, Knum, na forma de um carneiro de chifres ondulados, que teria elaborado a criação. Ligado à fecundidade, era representado também por uma figura humana criocéfala e adorado como um carneiro ou bode. Nesta qualidade, ele governava a criação, no ventre de todas as mães, dos nascituros, desde o embrião.

Não podemos esquecer que foi pelo tempo em que  Áries tomou o lugar de primeiro signo zodiacal que Amenóphis IV, sob o nome de Akhnetaon, realizou no Egito uma reforma religiosa tipicamente ariana, instituindo o monoteísmo. Por essa reforma político-religiosa, além do rebaixamento de todo o panteão egípcio e da limitação dos poderes da classe sacerdotal, a única divindade a ser adorada na nova ordem imposta era Aton, simbolizado pelo disco solar. O modelo monoteísta egípcio, bem mais tarde, inspirará  primeiro, o monoteísmo judaico e, depois, as suas dissidências, a cristã e a islâmica. Todas, como se sabe,gregos religiões centradas numa figura divina patriarcal, guerreiras, colonialistas e escravocratas, que ignoram e satanizam o papel da mulher.   

Os hindus, na língua sânscrita, dão o nome de Mesha à constelação de Áries. Aja foi outro nome que lhe deram os antigos védicos, palavra que quer dizer "não nascido". Uma referência ao fato de prevalecer no ariano a vida instintiva. O carneiro, para os hindus, é uma representação cósmica do poder animal e criador do fogo, ao mesmo tempo criador e destruidor, cego e rebelde, caótico e descontrolado, generoso e sublime. Por isso, os hindus chamam o signo de Mesha de Aja, isto é, não nascido. Os tipos arianos, fortemente afetados pela vida instintiva, ausente neles totalmente ou quase a vida racional, são sempre, nesta perspectiva, “um a ser”. 


SURYA
Nos antigos Vedas, o carneiro tem ligação com deus Agni, divindade que, com Surya e Indra (Vayu), forma a trindade de deuses ligados ao fogo. Surya é o Sol, fonte de luz e calor que, na astrologia, toma o nome de Ravi. Indra é o deus do firmamento; suas formas não têm fim; vem num carro dourado puxado por cavalos. Governa a atmosfera, o tempo, manifestando-se através do raio e das chuvas. É uma espécie de operador da energia proporcionada por Surya. 

TANTRISMO
Agni é regente do fogo sacrificial, o elemento ígneo na sua forma mais sagrada. É o fogo terrestre, igual em dignidade aos demais. Está em todas as casas, é protetor dos homens e testemunha das suas ações, sendo invocado em todas as ocasiões. No Yoga tântrico é o manipura chakra (cidade da joia), que corresponde ao elemento fogo, tendo por emblema o carneiro. Foi na forma de um carneiro que o sábio Indra ensinou aos homens a unicidade do Princípio Supremo


KUBERA
O carneiro é também a montaria do deus Kubera, guardião do norte e dos tesouros, uma espécie de Plutão na religião védica. Como tal, é o deus das riquezas subterrâneas, comandando os pequenos seres, os Yakshas e os Guhyakas, demônios que o auxiliam na produção e controle dessas riquezas. Não recebe nenhuma reverência ou adoração.

Entre os gregos, vários mitos convergem para o signo de Áries,   em grego, Kriós (carneiro). Antes, porém, há que se colocar uma questão interessante: em antigos textos, como o poema Sphaira (o mais antigo texto grego que discorre sobre nomes zodiacais), encontramos outra etimologia para Kriós. Esta palavra viria do verbo krino, separar, discriminar, justificado este entendimento pelo fato do signo de Áries marcar com exatidão o limite entre o inverno e a primavera.

Quanto aos mitos gregos, um dos que melhor se relaciona com o signo de Áries, ilustrando-o, é o do velocino de ouro. A história começa com uma catástrofe que se abate sobre a cidade de Orcômeno, na Beócia, na qual está envolvida Ino, a segunda mulher do rei Átamas. Os grãos de trigo, constatou-se, haviam se tornado impróprios para a sementeira. Uma consulta é feita então ao oráculo de Delfos. Os enviados pelo rei, para esse fim, são, na volta, subornados pela rainha; deviam declarar mentirosamente que a catástrofe só seria aliviada com o sacrifício de Frixo (agitação, tremor) e de Hele (nevoeiro matinal), filhos do rei e de sua primeira esposa (Nefele, a nuvem), por ele repudiada.


Zeus, que do alto tudo via, interveio. Enviou um carneiro maravilhoso, voador, de velo de ouro, criado por seu irmão Poseidon, para salvar as crianças.  Quem traz o animal divino até Orcômeno é o deus Hermes, que o orienta no sentido de levar os irmãos à Cólquida (Ásia Menor). No meio da viagem, Hele, tomada por vertigens, cai no mar, morrendo. O local onde caiu Hele, um estreito entre Europa e Ásia, tomou, desde então, o nome de Helesponto (Mar de Hele). 

Chegando à Cólquida, Frixo foi recebido pelo rei Eetes, passando a viver na corte. Eetes era filho do deus Hélio, deus-sol, irmão de Circe e de Pasífae (rainha de Creta), e pai de Medeia, uma família de magos e feiticeiros. O animal divino é sacrificado e o seu velo de ouro, consagrado ao deus Ares, levado para um bosque, é fixado num carvalho. O corpo do animal sacrificado, porém, foi colocado nos céus, entre as constelações , para marcar o início do Zodíaco. 


ARGONAUTAS
(MUSEU THYSSEN-BORNEMISZA
Ligada a esta história de Frixo e de Hele, temos a dos argonautas: 55 heróis gregos que, sob o comando de Jasão, foram à Cólquida se apoderar do velocino de ouro, a pele do maravilhoso animal que fora transformado em constelação. Grandemente auxiliado pela princesa Medeia, que por ele se apaixonou, Jasão, com os seus companheiros, se apoderou do tesouro, matando o dragão que o guardava, trazendo-o para a Grécia.

 Neste mito estão condensadas muitas das principais características do signo de Áries, mais negativa que positivamente. Uma delas é a da “conquista do impossível”, de algo que a razão desaconselha, traço marcadamente ariano. A conquista do velocino de ouro era,
MEDEIA ,  A  FEITICEIRA
PINTURA VITORIANA
com efeito, um empreendimento totalmente desaconselhado pela razão. Pelas dificuldades e obstáculos que cercavam essa conquista, as possibilidades de sucesso eram mínimas. Mesmo assim, com enorme propaganda por todas as cidades gregas, a expedição foi montada. Certamente, se não fosse o auxílio de Medeia, só os elementos psicológicos arianos que desempenhavam um papel tão importante no caráter desses heróis, iniciativa, arrojo, entusiasmo, ardor, impulsividade etc., não bastariam para a garantia da vitória.

O tema se explicita: na expedição comandada por Jasão temos a conquista de um tesouro, guardado por um dragão, ingredientes
JASÃO
típicos do esforço heroico. Mas o que Jasão apenas buscava, como ficou claro quando de seu retorno à Grécia, era apenas uma vitória sob o ponto de vista material que lhe possibilitasse socialmente o acesso a níveis superiores de vida.  A glória que obteve decorreu, é certo, de sua vitória, uma vitória que, afinal, não foi sua, mas de Medeia. Todas as lições que poderia ter aprendido ele não as aproveitou. Com isso, esvaziou de sentido realmente heroico a sua busca.

Jasão acabou por representar um certo tipo de falso idealismo. Ele não entendeu, conforme sua história deixa claro, que não podemos usar quaisquer meios para obter a vitória. Embora a nau Argo pudesse ser vista como um símbolo de aspirações juvenis, de impulsos heroicos, nela, na realidade, no seu sentido mais evidente, não havia nenhuma substância heroica verdadeira, real. No lugar da glória, o que tínhamos era  a vanglória, o convencimento não fundamentado na realidade dos próprios méritos, qualidades ou talentos. No lugar, só bazófia, jactância e vaidade. A nau Argo (branco, cintilante, em grego), símbolo das esperanças dos primeiro
MEDEIA
(A.MUCHA)
anos de vida de jovens guerreiros, torna-se-á ao final um símbolo da ruína da própria vida de Jasão. A história nos fala do entusiasmo da expedição, de uma certa primariedade instintiva, do pioneirismo que Jasão parecia encarnar, da ideia de desbravamento, um projeto rico de promessas. Um elã que, por parte de Jasão, se perverteu. Ele não enfrentou realmente o dragão; foi um filtro mágico  de Medeia que adormeceu o monstro. 

Para o povo grego, a recuperação de tão precioso tesouro, em poder de um povo bárbaro, como foi divulgado pelos governos das cidades envolvidas no projeto, era uma questão de "honra nacional". Nada disto, porém, era  verdadeiro. A motivação para a conquista do velocino de ouro era outra na realidade, ocultava
DELFOS
intenções bem concretas, materiais. Pelo lado de Jasão, se constituía num ato totalmente esvaziado de sentido transcendente. A expedição não passou de uma aventura colonialista. Quem, no mundo grego, orientava e patrocinava politicamente aventuras como esta era o Oráculo de Delfos, o maior centro político-religioso da antiga Grécia, que funcionava também como uma espécie de banco da aristocracia proprietária de terras e rebanhos.      

Do grupo comandado por Jasão faziam parte 55 heróis, todos jovens, a maior parte constituída de renomados e destemidos guerreiros,  destacando-se dentre eles inclusive muitos filhos de deuses como Hércules (acompanhado de seu amante, o belíssimo Hilas) , Castor, Polideuces, Orfeu, Etálides e outros. Não será preciso fazer muito esforço para se notar o quanto a história da conquista do velocino de ouro é semelhante às que as potências ocidentais nos tempos modernos inventaram e continuam a inventar até hoje, quando invadem um país, para ocultar a sua real motivação colonialista e espoliadora. 

Além disso, é preciso salientar que Jasão, a rigor, não pode ser considerado  um verdadeiro herói, pois não enfrentou o dragão para se apoderar do tesouro. Foi só com o imprescindível auxílio de Medeia que ele conseguiu superar vários obstáculos e matar o monstro, apoderando-se do tesouro. Se quisermos interpretar o que aqui se diz, deslocando o foco para a nossa interioridade,   Jasão não enfrentou o “seu” dragão interior, a maior façanha de um verdadeiro herói.

Monstros, nos mitos, simbolicamente, são agentes provocadores do esforço heroico; exigem, quando enfrentados, habilidade, controle do medo, preparação adequada, maestria no domínio da ação. A Psicologia, buscando-os nos mitos, fez dos monstros símbolos da predominância no ser humano das forças instintivas ou irracionais que têm de ser sacrificadas em nome de uma vida superior, racional ou espiritual. Nesse sentido, são os monstros aspectos doentios do psiquismo humano, resistentes, quando não se opondo abertamente, às nossas tentativas de transformação de caráter evolutivo.  Aquele que no mito subjuga estas forças instintivas, irracionais, orientado-as superiormente, é, como se disse, o herói, o fundador, o cavaleiro, o santo, o peregrino, o viajante, o navegante. As forças liberadas por ele poderão assim ser colocadas a serviço de uma elevação, de uma transcendência, ou, na pior das hipóteses, de uma sublimação.


JASÃO  ENVENENA  O  DRAGÃO ( SALVADOR  ROSA ) 

Os monstros, trazendo a questão bem mais para perto de nós, como criaturas produzidas por nossa imaginação, são imortais; morrem e renascem sempre, pois vivem como símbolos e são encontrados em todas as civilizações e culturas. A presença dos monstros na imaginação humana é sempre enigmática, tem um forte caráter  de imprevisibilidade, como a literatura e a arte nos demonstram ao longo dos milênios, em antigos textos, esculturas, tapeçarias, gravuras, na heráldica e, mais modernamente, nas várias expressões da comunicação de massas. Adormecidos ou ignorados às vezes por muito tempo, acomodados na escuridão do nosso psiquismo, podem os monstros nos atacar sem nenhum aviso, causando-nos muito sofrimento, fabricando as nossas doenças, quando não, mais drasticamente, acelerando a nossa passagem para o Outro Lado. 



MORTE   DE   GLAUCE

Depois de algum tempo de vida em comum com Medeia, com ela tendo filhos, Jasão, então famoso e vaidoso, a abandonou para se casar com Creusa ou Glauce, filha do rei. Medeia simulou conformar-se. Entretanto, tomada pelo ódio, agiu, disparando seus malefícios. Enviou como presentes de noivado a Glauce um manto, um diadema e um colar. Ao usá-los, lindíssimos que eram, a princesa virou uma tocha humana. O pai morreu carbonizado ao socorrê-la. O palácio onde viviam a princesa e o pai virou cinzas rapidamente. E como se tudo isto não lhe bastasse, Medeia matou os dois filhos que tivera com Jasão. Por fim, gloriosamente, subiu num veículo alado, presente do deus Hélio, seu grande ancestral, e desapareceu nos ares.


MEDEIA  ( CARLE  VAN  LOO )

Numa das versões do mito, consta que Jasão, depois da morte de Glauce, do seu pai e dos filhos, teria permanecido em Corinto, levando uma vida de vagabundo de praia, desmoralizado, sem nenhuma força e determinação. Acabou morrendo  quando descansava sob os restos da nau Argo que tanta renome e poder lhe trouxera. Uma prancha, desprendendo-se de um mastro da nau, que apodrecia na praia, encalhada na areia, atingiu-o na cabeça, matando-o.

APOLÔNIO  DE  RODES
A história dos argonautas é muito antiga, provavelmente anterior à de Ulisses e à da guerra de Troia e foi preservada devido a Apolônio de Rodes. Historicamente, sua origem se liga certamente às expedições que os gregos aqueus montaram para estabelecer colônias na Ásia Menor, nos territórios da Cólquida. Nesse lugar, foram descobertas, à época, minas de ouro, simbolizadas, aqui na história de Jasão, pelo Velocino de Ouro. A aventura, no seu todo, tem semelhanças com as de Hércules e alguns episódios são comuns à Odisseia (Circe, as Sereias). O drama de Jasão-Medeia lembra um pouco ou muito o de Teseu-Ariadne. O título do poema de Apolônio de Rodes, Argonáuticas, nos remete a uma ideia coletiva e não à vida de um personagem. 

O nome Argo, numa outra etimologia admitida, vem da palavra grega ágil. Barco mais rápido que ele nunca mais poderia ser construído. A deusa Palas Athena teria assumido pessoalmente a orientação da sua construção, chegando até a indicar de onde deveria ser retirada  a madeira para a sua proa, proveniente de um bosque de um santuário de Zeus. Esta madeira era falante e anunciava ao piloto do barco o que estava à frente. Mencione-se também a tripulação do barco. Nunca mais se reuniriam tantos e tão importantes personagens: Argos, Orfeu, os Dióscuros, Peleu, o pai de Aquiles, Meléagro, Laerte, o pai de Ulisses, Hércules, Ergino, filho de Poseidon, Etálides, filho do deus Hermes, Admeto, Acasto, etc. 

O tema dos argonautas se opõe num certo sentido ao da Odisseia. Nesta, temos um herói centralizando tudo, Ulisses. No outro poema, o tema do coletivo acaba se imponto e, mais ainda (para os tipicamente arianos), a ideia de que, apesar de tudo, vale a pena tentar realizar sonhos que a razão muitas vezes julga impossíveis, válidos todos os recursos para tanto, segundo a velha máxima do signo de Áries, a de que todos os meios são bons, desde que eficazes. A história do velocino de ouro caracteriza arquetipicamente a perversão dos impulsos heroicos. Magia e encantamento no lugar de uma vitória real. Os mitos arianos, lembremos, aparecem em várias outras civilizações da era de Áries, entre astecas, gauleses, védicos, romanos etc. Num plano histórico,  fica confirmada por ele a vocação imperialista grega pela expansão da civilização aqueia pelo Mediterrâneo, principalmente pelas suas maiores aventuras guerreiras, a destruição de duas grandes civilizações, a cretense e a troiana.


FULCANELLI
Lembremos que a Alquimia, numa brilhante análise de Fulcanelli (O Mistério das Catedrais), se apoderou simbolicamente deste tema do Velocino de Ouro como uma ilustração do início da Grande Obra, a saída da vida inconsciente, do domínio da vida instintiva (nigredo). para níveis superiores da existência. Algo semelhante à expedição de Jasão, quanto à sua motivação, com características arianas muito parecidas, reaparece, por exemplo, na Idade Média, quando o duque de Borgonha criou uma ordem da cavalaria, a serviço do mercado religioso católico, sob o nome de Velocino de Ouro, com o objetivo de libertar Jerusalém em poder dos infiéis muçulmanos.

Dentre todos os heróis gregos, fortemente impregnados de características arianas, não podemos deixar de lembrar do mais
AQUILES
famoso deles, Aquiles. Sua história é exemplar quando a associamos ao signo de Áries. Alongarmo-nos um pouco mais nela, acredito, será útil para um maior entendimento dos elementos do signo. O nome Aquiles em grego lembra dor, aflição (ákhos). A esse nome também podemos associar o que antigos chamavam de menis, o ódio, a raiva, a ira, principalmente o ódio que acumulado pode tomar uma forma furiosa. Dentre todos os personagens da Mitologia grega o mais famoso dos "enraivecidos" é, sem dúvida, Aquiles, o maior dos guerreiros. Homero, aliás, fala numa certa passagem de A Íliada desse menis, chamando-o de funesto, pois acabará provocando a perdição do famoso herói. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

ARGO NAVIS





ARGO NAVIS é uma constelação que participa do simbolismo da barca e pode ser explicada por este nome, cuja origem está num radical egípcio (barc) que no grego deu baris, idos (embarcação) e passou ao latim vulgar como barica e, depois, ao latim tardio como barca. O nome é genérico e se aplica, em todas as culturas, aos mais variados meios de transporte marítimo ou fluvial. O campo
BARCA   DO   SOL
semântico é vasto. Falamos de barcas que, no lugar de carros, transportam corpos celestes (Barca do Sol) e também de barcas que podem levar as almas para o Outro Lado. Os deuses egípcios tinham barcas para navegar pelo Nilo. Encontramos em muitos túmulos megalíticos, já no período final da nossa pré-história, desenhos de barcas que descreviam a viagem à Ilha dos Bem-aventurados.

LIVRO   DOS   MORTOS
O Livro dos Mortos egípcios, por exemplo, descreve a travessia das regiões do mundo inferior que defuntos deviam fazer para chegar ao Duat (Outro Lado), enfrentando vários perigos, demônios, serpentes etc. Já os hindus adeptos do Yoga comparam o corpo humano a uma embarcação que serve de veículo ao homem para chegar à outra margem do do oceano da existência. É por esta e por outras razões que, em muitas tradições, a barca, simbolicamente, aparece associada à figura materna, representando a segurança na viagem cheia de perigos que é a vida humana.


SANTO   AGOSTINHO  ( SANDRO  BOTTICELLI )

No geral, a barca simboliza não só a viagem que o ser humano faz do nascimento à morte, a travessia da vida, mas a que ele pode fazer depois da morte. A vida neste mundo é como um mar
BARCA   EGÍPCIA
tumultuoso que é preciso atravessar para levar nossa barca a um bom porto. Se conseguirmos resistir às tentações, ela nos conduzirá à vida eterna, diz Santo Agostinho. Para os povos do hemisfério norte, as terras do sul eram misteriosas, cheias de encantamentos, de magia. Para chegar a elas, só com boas embarcações. A geografia mítica, em todas as tradições, está repleta de nomes sugestivos Atlântida (Grécia-Platão), Dilmun (mito de Gilgamés); a Insulae Fortunatae (latinos); a Ilha dos Imortais (China); Aztlan, ilha-montanha primordial dos astecas; Eldorado (América do Sul); Shangrilá (Tibet) etc.

CARONTE  ( G. DORÉ )
O meio privilegiado de transporte de que se valiam às almas para chegar ao Hades, por imposição divina, era a embarcação de Caronte, o famoso barqueiro. De olhar tenebroso, mal humorado, as almas quando entravam  na sua embarcação deviam lhe entregar um óbolo,  pois, se não o fizessem, nunca chegariam ao Outro Lado. Isto significaria para elas, evidentemente, a impossibilidade de reencarnar, desde que, é, claro, o julgamento infernal a que seriam submetidas lhes fosse favorável. 

O sonho coletivo das grandes distâncias, das grandes viagens, dos maravilhosos reinos, ilhas e montanhas, sempre foi, por outro lado, uma constante na história da imaginação do ser humano. A
TRANSPORTE   DE   MÚMIAS
literatura que existe sobre o tema é vastíssima. Os egípcios viram na constelação Argo a barca que os deuses Osíris e Isis usaram depois de um grande dilúvio que cobriu a Terra. Filho de Geb, considerado “o pai dos deuses”, o equivalente egípcio do Cronos grego, e de Nut, a deusa celeste da noite, identificada pelos gregos como uma espécie de Reia, Osíris, quando recebeu o poder do pai, teve que enfrentar com a sua irmã, Ísis, um dilúvio, apesar de ter sido aclamado como “mestre universal.”

Outra versão egípcia, entretanto, nos revela que a constelação representava a barca solar que Osíris usara para descer ao mundo infernal depois que sua irmã e esposa, Ísis, reconstituíra o seu
OSÍRIS , HÓRUS , ÍSIS
corpo, despedaçado por seu irmão Seth. Graças aos seus sortilégios, e ajudada por Thot, por Anúbis e por Hórus, Ísis conseguiu ressuscitar Osíris que, assim, adquiriu a imortalidade eterna. Ao invés de retomar o seu trono, preferiu se retirar da Terra e assumir a condição de deus do mundo subterrâneo, deus dos mortos e da psicostasia (pesagem das almas). Deus solar em sua viagem noturna,   Osíris descia ao mundo subterrâneo por meio da barca do Sol. Os faraós, quando morriam, faziam a mesma viagem que Osíris. Há que se mencionar ainda que no Egito as múmias eram colocadas numa barca funerária puxada por um pequeno carro em direção do túmulo.Aliás, a própria Terra era considerada pelos egípcios como uma barca que navegava nas águas primordiais. Havia duas barcas para Osíris: a do entardecer, crepuscular, para a sua viagem noturna, e a matinal, para a sua ressurreição.


MATSYA
Entre os hindus, esta constelação que chamamos de Argo Navis está relacionada com Matsya, o Peixe, o primeiro avatar do deus Vishnu. O objetivo desta encarnação do deus foi o de salvar Manu, progenitor da raça humana, homem mítico, ameaçado de morte pelo dilúvio. Adquirindo a forma humana, o avatar o salvou, fazendo-o subir numa barca (Argo, a constelação), juntamente com os Rishis (profetas), levando as sementes de todas as coisas que existiam sobre a Terra. 

O dilúvio ocorreu numa das noites de Brahma, durante o período em que ele, como a primeira pessoa da trindade hinduísta, estava
VEDAS
repousando no intervalo de duas criações sucessivas. Tudo submergiu então. Quando as águas baixaram, o Peixe passou instruções aos Rishis para que a verdade dos Vedas (escrituras sagradas) não se perdesse. O avatar ordenou a Manu que descesse da embarcação. Sentindo-se só, diante de tanta desolação, Manu fez sacrifícios aos deuses. Apareceu-lhe então uma mulher, que declarou ser sua filha. Unindo-se a ela, como dizem os textos, celebraram e praticaram árduos ritos religiosos, dando-se início assim ao repovoamento da Terra.  

Astrólogos cristãos, na Idade Média, viram nesta constelação a arca de Noé, embarcação por ele construída por ordem de Deus para salvar do dilúvio a si próprio, sua família e um par de cada espécie
ARCA DE NOÉ NO MONTE ARARAT
 ( SIMON  DE  MYLE )
animal. A arca tinha três andares; o de cima para os humanos, o do meio para os animais e o último para o lixo. Na cobertura da arca havia uma claraboia feita de uma pedra luminosa, já que os céus estavam obscurecidos por pesadas nuvens de chuva. Além da mulher, de seus três filhos e noras, dos animais, a arca conduziu também o gigante Og, rei de Bashan, que se manteve durante todo o dilúvio na parte externa da arca. Após a catástrofe, a arca pousou no monte Ararat. 

A versão sobre a origem desta constelação, incorporada pela
   ARGO
Astrologia, foi a que os gregos nos passaram através de sua Mitologia. A história tem como figuras centrais os argonautas, heroicos parceiros de Jasão que foram à Cólquida (Ásia Menor) em busca do Velocino de Ouro (mito a ser estudado no capítulo das constelações zodiacais – Áries). A nau Argo (branco cintilante, em grego) foi construída por Argos, filho de Frixo, num porto da Tessália, com a orientação de Palas Athena, a guia dos heróis.  


CARVALHO
Uma curiosidade quanto a Argo é que a madeira necessária à sua construção foi tirada de um bosque do monte Pelion, onde vivia o centauro Kiron. A madeira da proa, um carvalho, entretanto, foi trazida por Palas Athena de um bosque  sagrado de Dodona. Essa madeira era falante, tinha o dom da palavra, inclusive o da mântica, o que, com as informações que transmitia, auxiliava o piloto (kubernetes) a manter o curso da nau perfeito e seguro. 

ARGO   NAVIS
Devido ao seu tamanho (nos céus, vai de 10º de Câncer a 20º de Libra – l5º a 65º Sul),  Argo Navis foi dividida em quatro partes, mais asterismos que constelações: Carina, Puppis, Vela e Pyxis, ou seja, respectivamente, A Quilha, A Popa, A Vela e o Mastro, esta última parte também chamada de A Bússola ou O Compasso. Situada inteiramente no sul, a direção das estrelas desta constelação, como um todo, apontava para o hemisfério norte, para uma viagem na direção das terras do desconhecido.

Argo Navis, como símbolo, deve ser associada ao tema das viagens, ao rompimento de limites e à ampliação de horizontes. No fundo, tanto um grande desejo de mudança interior, de experiências novas, como insatisfação interior, recusa do que se é e/ou do lugar em que se está. Esta constelação sempre apareceu, em muitas
SONDA   ESPACIAL
tradições e culturas, associada à história de grandes de viajantes, nas mais variadas épocas, mítica ou historicamente: Hércules, Ulisses, os Vikings, Vasco da Gama, Colombo,  Richard Burton etc. Por causa do seu brilho e da sua posição, a principal estrela de Argo Navis, Canopus, foi utilizada pelas sondas espaciais americanas para fins de navegação. Essas sondas usam câmeras especiais conhecidas pelo nome de Canopus Star Treker. É de se lembrar ainda que Canopus está na bandeira brasileira como símbolo do estado de Goiás.  


PTOLOMEU  ( JOOS  VAN  GENT )
Para Ptolomeu, Argo Navis, através de sua principal estrela, alfa, de 1ª magnitude, Canopus, situada na Quilha,  a 14º 16´ de Câncer, e das demais, bem menos importantes astrologicamente, Miaplacidus, também na proa, Muhnithain, e Al Suhail, ambas na Vela, tinham características de Saturno e de Júpiter, sugerindo viagens longas, prosperidade, conhecimento. Os gregos deram o nome de Canopus à estrela que está na proa de Argo Navis para prestar homenagem ao piloto da nau capitânea da armada grega que, sob o comando de Menelau, partiu para atacar Troia. Canopus morreu quando retornava à Grécia, depois de terminada a guerra. 

RUÍNAS  TEMPLO  DE  CANOPUS
A morte de Canopus ou Canopo se deu quando o barco por ele pilotado fez uma parada na embocadura do rio Nilo, perto de Alexandria. Era ele quem trazia de volta à Grécia os reis de Esparta, Menelau e sua mulher, Helena, que fora raptada por Páris, príncipe troiano. Belíssimo, Canopus foi amado pela filha de Proteu, rei egípcio à época. Não tendo correspondido ao amor da jovem princesa foi amaldiçoado. Certo dia, quando se preparava
ÍNULA
para retomar a viagem de volta, foi picado por uma serpente, morrendo no ato. Menelau mandou levantar um suntuoso túmulo numa ilha da foz do Nilo, que tomou o nome de Canopus. O mito nos conta que Helena chorou tanto a morte do jovem piloto que de suas lágrimas nasceu uma planta até então desconhecida, a que deram o nome de helenion, depois chamada de ínula (inuma helenion), usada tanto na culinária (condimento) e na medicina (tônico aromático).



A estrela Canopus foi registrada por várias tradições. Os egípcios, bem antes dos gregos, já a haviam associado ao piloto do barco que fazia o transporte das almas para o Outro Mundo. A estrela de Canopus entre os egípcios e persas foi chamada por nomes que destacavam o seu brilho, a sua luminosidade, sempre no sentido da sabedoria. Canopus tinha para eles, ao lado de Sothis (Sirius), grande importância, alinhando-se a construção de muitos templos egípcios na sua direção quando do seu nascimento heliacal.  

Muitas culturas viram Canopus como a Estrela Polar do sul, o ponto onde terminava a linha que unia os polos, um ponto que se movia também conforme a precessão dos equinócios. Assim como o polo norte celestial completa um círculo a cada 26.000 anos aproximadamente, o mesmo acontecia com Canopus, no polo sul celestial. Os gregos associavam a estrela Canopus a Cronos, o maior dos titãs, (segunda dinastia), derrotado pelos olímpicos chefiados por Zeus (terceira dinastia). Lançado no espaço, Cronos caiu exatamente onde estava Canopus, decorrendo desse fato a identificação de Cronos como o Senhor do Tempo, o limite da duração, o Cronocrator, aquele que fixa os ritmos do universo. A direção sul, o lado que está à esquerda do Sol, é o caminho por onde vão as almas, conduzidas por Canopus, o piloto. É neste sentido que a estrela Canopus simboliza também os limites das possibilidades humanas, definindo o momento de transição entre a matéria, forma (Cronos-Saturno), e a alma que, como energia, faz o seu caminho de volta ao grande Todo.


SENHOR   DO   TEMPO

ANANKE
Canopus encontra-se atualmente a 14º 16´ de Câncer. Depois de Sirius, é a estrela mais  brilhante do céu. Sua influência, de natureza saturnina e jupiteriana, aponta para  ideias  de forma, limites (Saturno) e de expansão (Júpiter). Nos mapas, Canopus fala de novos caminhos, habilidade para conduzir, atitude cibernética (arte de pilotar, de conduzir bem uma ação), mas pede cuidado e controle para evitar a ação da Ananke. 




Ao lado das quatro grandes estrelas reais, conforme os persas as definiram (Aldebaran, Antares, Fomalhaut e Regulus), Canopus, juntamente com Sirius e Spica, ocupa uma posição muito importante nos céus, na medida em que todas elas apontam, com as devidas reservas, para benefícios e expansão. Canopus se situa no leme de Carina, trazendo augúrios de boa caminhada. O conceito grego que está por trás desta caminhada é o de patos, do verbo patein, andar. Patos é o caminho a ser seguido por cada ser humano, não o mais importante, idealizado, mas o pessoal, acabando por significar o próprio curso da vida de cada um de nós, um caminho que tanto pode ser seguido na terra, nas água ou no ar. Canopus nos leva à figura do que a língua inglesa denomina de pathfinder (path, caminho, mais finder, aquele que encontra; ou seja, aquele que sabe se conduzir, que encontra o seu caminho na selva, na imensidão dos mares, nas longas distâncias, ou através da arte, da ciência, da religião, da filosofia (9ª casa astrológica). 


SANTA   CATARINA
( CARAVAGGIO )
Os astrólogos da Índia identificaram Canopus como Agastya, um de seus Rishis (profetas). Etimologicamente, Agastya quer dizer o removedor de montanhas ou do imutável, representando como figura histórica o poder do ensinamento. Sua atividade era jupiteriana: foi mestre da gramática, da medicina e de outras ciências. 


Já os cristãos, desde os primeiros tempos deram o nome de estrela de Santa Catarina de Alexandria a Canopus. Esta estrela aparecia para os peregrinos gregos e russos que se dirigiam ao Sinai, naqueles antigos tempos, a um convento e a um santuário ortodoxo, erigidos para honrá-la. Catarina foi decapitada, tendo sido seu corpo, segundo a lenda, transportado por anjos até o alto do referido monte. 

Relacionada com sucesso, Canopus pede cuidado com relação a Ananke, conceito grego que significa coação, fatalidade. Na filosofia grega, ananke aponta para uma ação providencial que a própria vida cósmica deflagra (lei de causa e efeito) para 
ERÍNIAS  ( G. DORÉ )
restabelecer limites, o equilíbrio rompido, a desproporção. É um conceito feminino, atuando através dele várias divindades que combatem os excessos, as desmedidas, a hybris, o orgulho, a desmedida, a arrogância, a vaidade, a insolência. A figura maior da Ananke é Nêmesis, filha de Nyx, a deusa da Noite,  e que simboliza a revolta contra qualquer a injustiça cometida. Seus atributos são, por isso, a régua graduada, o esquadro, o compasso, o chicote e a espada. Ela cuida no sentido de fazer com que os que desejam fazer a experiência da felicidade a façam meritoriamente, sem perder o senso da realidade, sem invadir o espaço dos outros, sem prejudicá-los, respeitando limites.
CLAUDE   MONET
Por isso, ela curva os orgulhosos, ela pune todos aqueles que teimam em ultrapassar o seu métron. Quando a justiça deixa de ser equânime, Nêmesis (como as Erínias, por exemplo), em nome da Ananke, intervém porque todo descomedimento põe em perigo a estabilidade do cosmos, a ordem do mundo. Canopus pode ser estudada, por exemplo, dentre outros,  em mapas como os de Mao Tse-Tung e de Claude Monet.