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domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.



sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (5)

      
Por sua grande afinidade com o interior da Terra, com o mundo ctônico, a serpente, como aparece nos mitos, não pode ser separada simbolicamente do signo de Escorpião. Lembremos que Ísis, a deusa dos encantamentos que traziam os mortos de volta à vida e mestra no uso dos venenos, era representada muitas vezes na forma ofídica ou escorpiônica. Perséfone, Prosérpina para os romanos, era chamada de aquela que avança serpenteando.


ARTES   DA   CURA  -  ÍSIS ( STELA METTERNICH )

Em grande parte das antigas civilizações, a serpente sempre foi considerada simbolicamente segundo uma dualidade que tanto a via como princípio e como fim da vida. Destrutiva, traiçoeira, perigosa, venenosa, e ao mesmo tempo criadora, benfeitora e regeneradora
URÓBORO
como a grande mestra das artes terapêuticas, a serpente deu inclusive, desde a mais remota antiguidade, forma ao símbolo maior da astrologia, o do uróboro (etimologicamente, em grego, cauda e engolir), o símbolo da serpente que engole a própria cauda. Um círculo que simboliza ao mesmo tempo a autofecundação e a vida que se renova perpetuamente. Já se disse que o zodíaco, além de ser um símbolo em si mesmo, era um símbolo carregado de outros e por isso mesmo talvez o mais complexo já elaborado pelo homem. Com seu ciclo e seus subciclos marcados pelos eixos equinociais e solsticiais o zodíaco integrou para sempre a serpente à vida, à morte e ao renascimento.

URÓBORO  -   EGITO
No antigo Egito, as serpentes e os escorpiões sempre foram consideradas ao lado do crocodilo e do hipopótamo como seres ambivalentes, tanto maléficos como, ao mesmo tempo, benéficos, uma encarnação de potências que  se matavam podiam também criar, fertilizar e regenerar. A importante presença desses animais no mundo religioso egípcio, usados inclusive sob formas híbridas para representar muitos deuses, espantou os gregos quando de seus primeiros contactos com a terra dos faraós. Logo entenderam, porém, os visitantes, como Plutarco, que aquelas representações constituíam a principal característica do pensamento religioso egípcio: nenhum ser vivente era totalmente bom ou totalmente mau. Os mais sethianos animais egípcios, sempre temidos, encarnavam também forças favoráveis e benfeitoras.


OSÍRIS    E   ÍSIS

Perceberam os gregos, que, opondo-se a Osíris, o Ser Bom, seu irmão Seth representava o mal. O primeiro simbolizava com Ísis, sua esposa, a fertilidade, as cheias do Nilo, a fartura, o renascimento. O outro confundia-se com a falta, com a carência, tendo por símbolos o deserto, o seco e a esterilidade. Osíris e Ísis
NILO
tinham poder sobre as extensas margens inundáveis do Nilo, nas quais a riqueza do país se renovava anualmente através da agricultura. Seth, por seu lado, sempre dominou os lugares desérticos, sendo representado por animais que neles viviam, animais que se opunham à vida do Nilo e à fertilidade dos campos, como os hipopótamos e os crocodilos, os primeiros destruindo as plantações e os outros atacando os camponeses e as populações ribeirinhas. 

ANÚBIS


Esta associação de Osíris e de Ísis com o Bem não impediu que de seus cultos participassem animais marcados por forte ambivalência, como o chacal e a serpente. O chacal, como sabemos, emprestou o seu corpo a Anúbis, uma das divindades mais antigas do Egito. Os epítetos deste deus sempre evocaram a vida do deserto, seu mundo natural. Com o apelido de Upuaut (aquele que abre os caminhos) é Anúbis o encarregado de conduzir o morto ao Outro Lado. É o chacal um animal noturno, necrófago,  psicopompo, devido à sua vivacidade e à sua esplêndida visão noturna.

Era também nas fronteiras do deserto com o mundo civilizado que viviam animais fabulosos, seres estranhos  conhecidos pelos nomes de afrit ou djin, muito reais para a imaginação popular. Estes animais perturbavam bastante a ordem estabelecida, de modo
SETH   ATACANDO   APOPHIS  
especial a caminhada do morto para o Duat, o Outro Lado. Eram muito temidos, sendo por isso necessário conhecê-los bem, todos manifestações de Seth. É no período histórico do Egito que encontramos imagens desses animais, principalmente no revestimento de túmulos e em ilustrações de textos funerários. Demônios entre o homem e o animal, animais fantásticos, seres híbridos, como o sha (cão com longas patas e cauda em leque), o saga (animal com cabeça de ave de rapina, mamas, patas de leão e de cavalo), o safer (besta com asas, cabeça de ave de rapina e cauda de leão) e o sedja (besta com cauda de leão e cabeça de serpente).  

É pelas razões acima expostas que podemos compreender também, segundo Plutarco nos informa, como a áspide, serpente que no antigo Egito era comparada a um astro celeste em virtude da extrema facilidade com que se deslocava e porque tinha a fama de não envelhecer, foi parar na religião. Tendo o corpo formado por sucessivas mudanças (mudas), tecnicamente ecdises, foi essa serpente no Egito, ao que parece, usada para dar forma a antigas concepções urobóricas do zodíaco. Perigosa, sethiana, potência maléfica, a áspide tinha um veneno mortal. Era, assim, invencível, razão pela qual não só foi colocada  emblematicamente na fronte de Ísis como também na coroa dos faraós. 


HÓRUS   E   O   ESCORPIÃO
O que se diz da serpente, poderá se afirmar também com relação ao escorpião, animal sethiano. Muito presente na religião egípcia, é conhecida a história de Hórus que, ainda uma criança, nos pântanos do delta do Nilo, foi atacado por um escorpião. Quem o salvou foi sua mãe Ísis, juntamente com Thot. Além de Ísis, o escorpião aparecia associado ao culto da deusa Serqet em cujos templos os seus sacerdotes exerciam um importante papel médico, como especialistas na arte da cura com relação aos ataques de animais em geral e de venenosos em particular. 


SERQET
A alternância entre o bem e o mal (enchentes e vazantes do rio Nilo), mais do que em qualquer outra antiga civilização, sempre esteve presente na vida dos egípcios, alternância que eles, desde que as primeiras tribos se instalaram no país, viveram anualmente, projetando-a inclusive no seu quotidiano. O rio Nilo ensinou aos egípcios que no universo tudo é duplo, que tudo funciona através de polaridades. Toda a religião do antigo Egito, através das histórias dos seus deuses, não foi elaborada senão para expressar esta e outras leis universais.


APOPHIS

O maior monstro da mitologia egípcia, Apophis, segundo vários textos cosmogônicos, nasceu de uma cusparada de Nut, grande deusa celeste, mãe dos deuses e dos astros. Nascido sob a forma
RA
ofídica, Apophis, diariamente, tenta interromper a caminhada da barca do deus solar Ra, engolindo uma grande quantidade de água para fazê-la encalhar no seu caminho eclíptico. Com esta ação, encetada a cada aurora e a cada crepúsculo, o monstro procura deter o Sol, impedindo assim a marcha do tempo, sempre um combate entre as forças das trevas e das forças da luz, diuturnamente renovado. Ra sempre vence Apophis, auxiliado inclusive por Seth, que, com a sua espada, ataca o monstro, que reaparece a cada manhã. O que nos fica deste importante episódio, como aliás os antigos  egípcios o consideravam, é que no universo a presença e a ação de Apophis são indispensáveis, pois a luz  só tem sentido quando pensamos na sua negação (as trevas). Esta passagem da mitologia dos egípcios é mais uma clara ilustração de que no universo, como nos esclarece o hermetismo greco-egípcio, os opostos são simplesmente os dois extremos de uma mesma coisa.         

Se estendermos o nosso olhar à antiga Grécia,  não é de se estranhar  também que os antigos gregos, num lugar sagrado como o da  Acrópole, onde pontificava Palas Athena, deusa que tem como um de seus principais atributos a inteligência refletida, introduziram, para defender a cidade, a imagem protetora de uma serpente.  Como se apurou, simbolizava tal serpente a alma de Erictônio, primeiro rei mítico da cidade, metade serpente da cintura para baixo, metade ser humano da cintura para cima, criatura monstruosa gerada pela própria deusa.

São inúmeras, entre os antigos gregos, as histórias em que as serpentes aparecem positivamente.  Uma delas, por exemplo, nos revela que  ao sugar as orelhas de certas crianças no berço,
  ARTE    DA    LÍNGUA    DOS    PÁSSAROS

sinalizadas pelos deuses, a serpente lhes concedia o dom da adivinhação ou o poder de entender a língua dos pássaros, além de lhes fazer participar simultaneamente do masculino e do feminino. Profetas e médicos célebres, como Melampo, por exemplo, receberam desse modo seus dons oraculares. Melampo é um personagem da mitologia grega que, associado à serpente, “vive” em companhia de muitos outros no signo de Escorpião, que têm a capacidade de penetrar no oculto. Melampo, o de pés negros, etimologicamente, um dia, encontrou uma serpente fêmea morta e ritualmente a cremou. Os filhotes, agradecidos, diz o mito, purificaram-lhe a língua e os ouvidos, lambendo-os. Tornou-se então um extraordinário mantis, capaz de traduzir os sons emitidos por todos os animais, inclusive o das aves, além de ter adquirido o conhecimento total sobre as ervas mágicas e medicinais. 

TIRÉSIAS

Casos semelhantes são os de Tirésias, o maior mantis (adivinho) da antiga Grécia, e de Cassandra, a princesa troiana, que obtiveram os seus dons através de contactos que haviam mantido com serpentes.
PITONISA   EM   TRANSE
O mesmo se diga com relação às sacerdotisas que, em transe, recebiam as mensagens de Apolo nas grutas do oráculo de Delfos, eram conhecidas pelo nome de pitonisas. Sentavam-se em pequenos bancos forrados com a pele da serpente-dragão Python que Apolo matara ao tomar posse do santuário, antes tutelado por Geia, a Grande Mãe, e por Têmis. 

Uma tradição caldaica, por exemplo, retomada com sucesso, segundo consta de registros gregos, tinha o nome ofiomancia, que consistia na formulação de presságios em função dos movimentos do réptil. A fé que os antigos gregos depositavam nesses presságios para o conhecimento do futuro era tamanha que quando uma serpente invadia uma casa um altar doméstico era levantado em sua honra. 

GENIUS   LOCI
Na antiga Roma, temos a mesma reverência à serpente, que em inúmeras regiões, representava o genius loci. Entre os romanos, os genii locorum tinham o status de divindades. Eram entidades imanentes tanto com relação ao ser humano como com relação a cada coletividade, cidade ou local. Imanente, como se sabe, é aquilo que está na interioridade de um ser, que nasce com ele, que lhe é inerente, que faz parte de sua natureza.

Esses gênios ou espíritos, em muitas regiões da península itálica eram venerados sob a forma de répteis ctônicos, de serpentes, o mais comum. Eles funcionavam de modo semelhante ao das ninfas gregas, como entidades protetoras, espíritos da natureza, que garantiam a vitalidade do lugar.  Se o lugar se degradasse, desapareciam. Ruínas, lugares abandonados, deteriorados pela ação dos homens sinalizavam que o gênio do lugar não fora reverenciado adequadamente. Quanto ao ser humano, o gênio era uma divindade tutelar que o acompanhava do nascimento à morte, como seu duplo, seu daimon, seu anjo custódio, seu conselheiro, atuando como uma espécie de super-ego. 

A serpente é um ser antiquíssimo, mantendo-se no aspecto como  a conhecemos há pelo menos cerca de 380 milhões de anos. Como o escorpião, do ponto de vista da sua funcionalidade, da sua eficiência, da forma que tem para agir no mundo, é a serpente um sucesso da natureza. Enquanto o homem é considerado pelas religiões e pela ciência como o ponto final de um longo, sofrido e discutível processo evolutivo, fracassado quem sabe, a serpente e o escorpião, há milhões e milhões de anos, permaneceram sempre os mesmos, continuando a nos surpreender ainda hoje com  o seu desempenho no mundo.    

É a serpente, como nosso ancestral mítico, mestre da fecundidade, e das mulheres, a incontestável dona de todos os valores noturnos. Como arquétipo fundamental, está ligada à vida inconsciente do ser
 KRISHNA    E   ANANTA
humano. Animal de sangue frio, desprovido de pelos, de penas e de patas, deslocando-se sobre o solo ou na água, podendo descer ao interior da terra, representa, com relação ao homem, o vitorioso início de um esforço evolutivo, sendo, com relação ao homem, seu complemento e oposição ao mesmo tempo. Não foi por acaso que os hindus a honraram como Ananta o símbolo do infinito e o sustentáculo da criação cósmica. Como tal, a serpente, juntamente com os peixes, os javalis, os crocodilos, as tartarugas e os elefantes, animais sem idade, na tradição hinduísta, são considerados como cosmóforos e imago mundi. 


PERSÉFONE
A serpente, furtiva e invisível, vivendo nas camadas profundas da terra, às quais pode descer por orifícios que só ela conhece, como se fossem as entradas para o Bosque de Perséfone, foi colocada simbolicamente pelo homem como um ser do mundo que está abaixo da sua superfície  consciente. Ela é secreta, enigmática, associada sempre à vida obscura. Compreender qualquer coisa ligada à serpente é compreender qualquer coisa ligada à morte, ao invisível, à adivinhação e ao renascimento. 

Uma das figuras míticas mais interessantes que podemos incorporar ao mundo escorpiano é Asclépio, deus médico de Epidauro, filho
RUÍNAS   DE   EPIDAURO
de Apolo. O nome Asclépio vem de uma palavra grega que significa toupeira. Esse animal, embora não o seja, é considerado cego porque gosta de viver em lugares escuros, em buracos no interior da terra, uma imagem da vida subconsciente. Toda a medicina de Asclépio fala de transformações através de processos como a enkoimesis (deitar e dormir), a oniromancia (interpretação dos sonhos), a metanoia (mudança de sentimentos) e da nooterapia (transmutação mental), processos que propunham uma reforma psíquica através do controle de sentimentos e emoções incubados. A questão da medicina psicossomática já estava perfeitamente definida em Epidauro, no centro médico tutelado por este deus. Componente importante do cenário onde este deus atuava, no chamado Labirinto, era a Grande Serpente, ser ctônico, símbolo da vida que renova constantemente. Não será difícil perceber por isso, acredito, para o leitor mais atento e informado, o quanto Asclépio está por trás da doutrina psicanalítica.

Quando o cristianismo primeiro e depois o islamismo, dissidências do judaísmo, se impuseram como religiões vitoriosas, o mundo masculino marcou a sua posição definitiva de poder em extensas áreas da Europa, da Ásia e da África mediterrânea, subjugando totalmente o princípio feminino. Essa vitória, como sabemos, ocasionou, em grande parte, dentre outras coisas, a destruição ou a satanização de todo o universo simbólico relacionado com uma ordem anterior, que política, religiosa e socialmente valorizava o mundo feminino e os seus símbolos.


SAMAEL
Os judeus, por exemplo, para proclamar e consolidar a vitória do princípio masculino sobre o feminino, sempre afirmaram que Caim era filho de Eva e da Serpente (nachash, em hebraico), a forma ofídica que Samael, o príncipe das trevas, líder dos anjos expulsos do céu, tomara não só para tentá-la como para com ela se relacionar sexualmente. E isto além de defender aberrações como a de que o princípio feminino (Eva) foi gerador pelo princípio masculino (Adão). É por esta e por outras razões que as religiões patriarcais precisaram e precisam,  para se afirmar e manterem-se no poder ou evitar desvios, de guerras, de aventuras colonialistas e, sobretudo, no plano mental, recorrer ao dogma e à fé, isto é, recorrer a um “conhecimento sem saber” que vive de uma hipotética e inatingível esperança no progresso da civilização, na elevação do nível de vida da humanidade, na vocação pacífica dos homens,  

Se formos ao mundo islâmico, temos as mesmas ideias com relação à mulher e aos seus símbolos. A imagem mais conhecida que o Corão nos dá da mulher é elaborada através de uma metáfora: a mulher é como que um campo que o homem deve fecundar. No mais, as recomendações de praxe encontradas na ortodoxia religiosa das religiões patriarcais: ela deve ser virtuosa, boa esposa, submissa com relação a seu marido e aos costumes estabelecidos, não cometer pecados, observar as recomendações de pudor e a quarentena, se menstruada, esta sempre considerada como um mal (adha), uma sujeira, e que ninguém se aproxime dela até que purificada. Não devemos nos espantar, entretanto, quanto a este último item, a menstruação. É só lembrar que em inglês, língua que nos é mais próxima e familiar, um sinônimo de menstruação nos meios religiosos é curse, palavra que quer dizer maldição, imprecação, execração. Como verbo, curse é atormentar com calamidades, infelicitar.

SERPENTE   DE   BRONZE
No geral, como em outras tradições, a visão que a ortodoxia religiosa do mundo muçulmano tem dos ofídios e da serpente, em particular, é negativa. Temida, evitada, seu simbolismo fica restrito não só aos males que ela causa como por fazer ela parte de um mundo de entidades maléficas agrupadas sob o nome de Íblis, muitas delas sobreviventes de um período histórico pré-islâmico. Íblis, etimologicamente, quer dizer Satan, o lapidado, a figura principal da demonologia islâmica. Por ter cometido o pecado do orgulho, não se prostrando diante de Adão, foi expulso do paraíso. 

É evidente que nos meios cultos islâmicos, como acontece em outras tradições, a serpente é simbolicamente ambivalente. Temida por um lado, satânica, ardilosamente tentadora, é, por outro, através dela que se pode entrar em contacto com o oculto, com a estrutura invisível do cosmos. Seu nome, nesse sentido, é hayya, nome que a liga à criação do mundo, assumindo ao mesmo tempo funções divinas, maternais, curativas e alquímicas. É neste sentido também que em antigos cultos agrários semitas ela aparece como dona dos presságios e dos poderes noturnos, nos quais o deus lunar tomava parte sob forma ofídica.






sexta-feira, 18 de março de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - SATURNO (1)

                                   


SISTEMA   SOLAR

Último planeta visível a olho nu do sistema solar, apesar de duas vezes mais distante da Terra que Júpiter, Saturno dista do Sol, em média, cerca de 1.425 milhões de km. do Sol. Leva cerca de 29 anos para percorrer a sua órbita, tendo o seu dia a duração de 10 horas, 39 minutos e 24 segundos. Por causa de sua rápida rotação, Saturno tem um notável achatamentos nos seus polos. Seu diâmetro equatorial é de 120.000 km. Sua massa é 95 vezes maior que a da Terra, seu volume 800 vezes maior e sua densidade 13% da do nosso planeta. Quanto à gravidade, 1,17 vezes a da Terra. Sua temperatura média é de -134º C. 



Saturno é um planeta gasoso, quase que totalmente composto de hidrogênio, com quantidades mínimas de hélio (4%) e de outros elementos. Até agora se descobriram 61 satélites seus, também chamados de luas. Dentre os seus maiores satélites conhecidos destacamos Mimas, Encélado, Tétis, Dione, Reia, Titã, Hiperion, Jápeto e Febe. O maior deles é Titã, com cerca de 5.280 km. de diâmetro (maior que Mercúrio). Os anéis de Saturno são constituídos por uma mistura de gelo, poeira cósmica e material rochoso, entendendo-se por cerca de 280 mil km., com 1,5 km. de espessura máxima. 


SATURNO
Segundo a teoria dos elementos, Saturno pertence ao elemento terra, tendo como princípios primitivos o frio (3,5) e o seco (3,0). Seu brilho é opaco, lívido, plúmbeo, tendo como características principais o coesivo, o estéril, o restritivo, o limitante, o obstrutivo, o impedimento, a renúncia. É por essa razão, desde a antiguidade, conhecido como Infortúnio Major ou Grande Maléfico. No mito grego, com o nome de Cronos, é considerado com toda razão como o Senhor da Terra e do Tempo ao regular o desgaste vital, a longevidade e ao exercer a sua força através da repressão, da disciplina, da coação e da interiorização.

A Saturno, astrologicamente, se atribuem os valores racionais na organização do ego, a erudição, a ambição lenta, a introversão, o
CRONOS
isolamento. Como planeta, dignificado, aponta para a perseverança, a autossuficiência e a autoridade consciente que o tempo proporciona. É, neste sentido, o planeta das archai. Suas virtudes vêm sendo sistematicamente desprezadas no mundo de hoje: responsabilidade, economia, resistência, paciência e reflexão estão hoje totalmente em baixa. Saturno reina sobre o chumbo, metal que se opõe à radioatividade. No plano fisiológico tem a ver com o cálcio, sobretudo com o seu metabolismo; são dele, no corpo humano os ossos (os joelhos especialmente), a paratireoide,  a pele, os dentes, as unhas e os cabelos.  

Saturno nos ensina que, num certo sentido, a autoridade não se transmite ou delega. É única, pois únicas são as suas virtudes, sempre associadas à solidão, à concentração, à meditação e ao poder da vontade. Negativamente, Saturno é avareza, egoísmo, intransigência, melancolia, esquizofrenia, inércia, insensibilidade e pessimismo.

As mais antigas ligações do Cronos grego e do Saturno dos romanos podem ser encontradas talvez na intuição primordial que o homem pré-histórico teve da terra como forma religiosa, como um

receptáculo de forças sagradas difusas. Neste sentido é que a terra (Geia) sempre foi considerada como fundamento de todas as manifestações, como Hesíodo nos mostra em sua Teogonia. Assim, tudo o que estivesse nela ou sobre ela, desde a castração de Urano por Cronos, passou a ser visto como um conjunto uniforme, com suas partes interdependentes, constituindo uma grande unidade, sustentáculo de tudo.

Inicialmente desordenadas, estas forças primitivas, difusas, representadas pela mistura dos quatro elementos (fogo, terra, ar e água), foram aos poucos se acomodando, cada uma delas encontrando os seus limites, um ajuste nem sempre fácil, porém. É de se lembrar que mesmo nas sociedades mais primitivas estas concepções podem ser encontradas. De um lado, pois, os chamados deuses uranianos, de ação celeste fecundante, de características masculinas, origem das forças que atuam na terra,  e, de outro, a terra, geradora, de natureza feminina.

NUN
As primeiras ideias que os egípcios formularam para representar tudo isto em termos religiosos nos falam de que no início havia um oceano primordial, informe, de nome Nun, onde, antes da criação, estavam encerrados os germes de todos os seres e de todas as coisas. Sem templos e adoradores, Nun era mais uma criação intelectual, representada muitas vezes por um ser antropomorfizado, com o corpo mergulhado até a cintura no elemento líquido, as mãos elevadas ao ar, de onde saíram as forças que viriam a atuar no espaço criado de modo radiante (fogo), coesivo (terra), expansivo (ar) e fluente (água).


ATUM
No início, pois, só um imenso oceano envolvido por trevas absolutas, que não podem ser confundidas com a noite porque o dia não existia. Nenhum movimento, nenhum ruído. No interior de Nun, imenso espaço líquido, sombrio, espesso, de contorno indiferenciado, iria se manifestar um demiurgo, de nome Atum, designado por expressões como O que é completo e O que é e não é ao mesmo tempo. 



Aos poucos, manifestando-se, impondo-se às trevas, Atum trouxe à existência um ponto luminoso, um lugar sagrado que os gregos designarão pelo nome de Heliópolis, a cidade do Sol. Isto aconteceu antes do aparecimento de outros lugares, igualmente sagrados, como Hermópolis, a cidade dos oito divindades (Ogdoade), dos  pais e das mães que estarão na origem de todas as coisas. Este lugar será ocupado depois como residência do deus Toth. 


Os egípcios identificaram, assim, o princípio maior das forças criadoras celestes sob o nome de Atum, representando-o por
MNEVIS
Mnevis, um touro divino, adorado na cidade sagrada de Heliópolis. Mais tarde, se fez de Atum uma personificação do Sol poente e do Sol antes do seu nascer. É considerado como o grande ancestral do gênero humano, usando na cabeça a dupla coroa dos faraós (pschent). Masturbando-se, juntando sua saliva e pronunciando certas palavras, Atum gerou o primeiro casal, Tefnet e seu irmão gêmeo Shu, criados sem o concurso de nenhuma entidade feminina. Assim, o
Um se tornou Três.  

Esse primeiro casal teve dois filhos, Geb, deus da terra, e Nut, deusa do céu. Sobre Geb disse Shu que seu nome seria Vida e sua filha deveria ser chamada de Maat, Harmonia. Viveram unidos até
PLUTARCO
que Shu, o pai, os separou. Plutarco, o historiador grego, identificava Geb ao Cronos grego. Como deus da terra, a base do universo, afastado da irmã, Geb vivia desolado, eternamente queixoso. Ele aparece, em muitas representações, deitado aos pés de Nut, o corpo coberto de vegetação, apoiado num cotovelo e com um dos joelhos elevado, dobrado, simbolizando assim as montanhas e as ondulações da crosta terrestre. Sobre a sua cabeça, Geb tem um ganso, que constitui o ideograma de seu nome. Geb e Nut geraram os chamados deuses osirianos, recebendo por isso Geb o título de pai dos deuses.   


NUT    E    DEUSES   
  
O ganso selvagem era como o pato e o cisne, na religião do antigo
GEB
Egito (na Índia e na China também), uma ave sagrada, de características solares, uma antítese das trevas, servindo de mensageira entre o céu e a terra. A alma de um faraó era comumente representada por um ganso. Já quando da elevação de um faraó ao trono soltavam-se quatro gansos dos quatro pontos do horizonte, acompanhada a liberação das aves por determinadas fórmulas mágicas. 

Atum, o Sol que envelhecia, foi substituído por Ra, o Sol nascente, que só poderia se mostrar quando surgisse na aurora como Khepri, sob a
KHEPRI
forma de um escaravelho alado. Com isto, instituía-se a tripla natureza do Sol,  Khepri (nascente), Ra (meio-dia) e Atum (poente), cada um deles diferente e o mesmo. O escaravelho é um símbolo cíclico do Sol, lembrando ao mesmo tempo morte e ressurreição. É a imagem do Sol que renasce por si mesmo, ao encerrar os seus ovos numa pequena bolota de terra que ele mesmo fazia e empurrava. 

Nut, que os gregos associavam a Reia, ao contrário de Geb, sempre recebeu um culto formal. Sua união com o irmão nunca foi aceita totalmente por Ra. Por isso, Ra os separou brutalmente, não permitindo que ela parisse os seus filhos em qualquer um dos 360 dias que tinha o ano.  

Felizmente, nos diz Plutarco, Thot, o escriba dos deuses, teve pena dela e, ao jogar damas com a Lua, vencendo-a, depois de muitas rodadas, obteve luz suficiente para confeccionar cinco dias. Como estes dias não apareciam na duração do ano oficial,  Nut teve condições de dar nascimento aos seus cinco filhos: Osiris (Dioniso e/ou Hades para os gregos), Haroeris (O Primeiro Horus), Seth (Tifon para os gregos), Isis (Hera, Deméter, Afrodite e Selene para os gregos)  e Nephtys (Afrodite e/ou Nike, para os gregos).

THOT
Os cinco dias fabricados por Thot têm o nome de epagômenos (literalmente, os que estão sendo acrescentados), cinco dias que escaparam ao olhar de Ra. Osíris, que se tornaria o herdeiro de Geb, foi o primeiro a nascer, de tez escura, amorenado. O dia do nascimento de Osíris é chamado de o dia do touro nos campos. O segundo a nascer foi Haroeris, Hórus, o Antigo (Primeiro); o terceiro a nascer foi Seth, que para sair mais rapidamente rasgou o ventre materno lateralmente. Sua cor lembrava os dias vermelhos, empoeirados, do deserto no período das secas. Seu nascimento foi marcado por muitas perturbações cósmicas e no país. A quarta a nascer, em Denderah, foi Ísis. Ela apareceu sob a forma de uma mulher negra , ao mesmo tempo como a noite e rosada como a aurora, cheia de doçura e amor. Diz-se que Nut, quando a filha estava nascendo, lhe disse: Por tua mãe, sê ligeira! (is, no antigo egípcio). A irmã fiel de Ísis, Nephtys foi a última a nascer.

Nut é representada normalmente por uma mulher que tem o seu corpo arqueado sobre a Terra, com seu ventre estrelado, mantida suspensa no ar por Shu, formando uma abóbada. Às vezes, ela
RA
aparece na forma de uma vaca, a forma que tomou quando, sob as ordens de Nun, colocou sobre o seu ventre seu pai Ra, as estrelas e as constelações, decidido a deixar a Terra, depois da revolta dos humanos. Nut é conhecida também como mãe de Ra, que, a cada manhã, renasce em seu ventre. Sob a  forma humana, Nut leva sobre a cabeça um vaso arredondado, que é o ideograma de seu nome. É a protetora dos mortos, que muitas vezes abraça; na cobertura dos sarcófagos, seu corpo estrelado fica acima da múmia, velando maternalmente por ela.

Shu havia, por sucessão, substituído Ra. Enquanto isso, Seth, sob o nome de Apophis, gerava um grande número de descendentes, seres dracônticos, que ameaçavam o reino de Shu, estabelecido no delta do Nilo. Os descendentes de Seth avançavam destruindo o país. Shu compreendeu tardiamente que para lutar contra as trevas a força e a inteligência humanas eram insuficientes. Os deuses se encontravam enfraquecidos, pois os humanos haviam deixado de realizar sacrifícios.


APOPHIS   E   ATUM

Era preciso, urgentemente, revigorar a fé dos humanos. Shu deu ordens nesse sentido. Uma grande resistência religiosa foi montada no país, impedindo-se, com grandes esforços e sacrifícios, que o mal triunfasse. Os descendentes de Apophis não conseguiram passar. Os problemas de Shu, entretanto, não haviam cessado. Suas indecisões, o fracasso das primeiras medidas que ordenara, estavam vivas na mente de todos. Havia muito descontentamento; Shu entendeu então que deveria renunciar. Como seu filho Geb não estava ainda preparado, decidiu que sua mulher, Tefnet, ocuparia o trono provisoriamente. 

Geb não gostou da decisão do pai. Não via com bons olhos a ocupação do trono real pela mãe. Uma noite, invadiu o palácio real e tentou violentá-la sexualmente. Ela escapou, fugiu, anunciando em seguida que renunciaria a favor do filho. Atacado pelas forças de Apophis, Geb foi ferido. Ra, que das alturas tudo via, resolveu ajudá-lo. Enviou-lhe através de um mensageiro a sua “peruca” (aura solar, luminosidade irradiante), jamais usada por alguém. Os ferimentos de Geb, milagrosamente, desapareceram.

Colocado sob a guarda de sacerdotes, o precioso talismã divino foi um dia levado para um lago sagrado para ser lavado. Ao esfregá-lo, viram, com grande espanto, que o maravilhoso talismã tomava a forma de um crocodilo. Ciente do ocorrido, Geb foi ao lago. Destemido, entrou nas águas. Um estranho ser lhe apareceu, tendo a cabeça de um falcão, com dois chifres taurinos, e o corpo de um crocodilo. Entendeu logo que Ra estava ao seu lado. Reconfortado pelo sinal divino, voltou e resolveu atacar os inimigos, vencendo-os inapelavelmente.


ÍSIS,   OSÍRIS,   ATUM   E   HÓRUS

O renome de Geb estendeu-se por todo o reino e por muitos países distantes. Adquiriu o poder de se metamorfosear, principalmente em crocodilo, forma aliás já usada por deuses que o haviam antecedido, Ra e Shu. Essa forma, um dia, seria também tomada por seu filho Osíris, que nasceria de sua união com Nut, deusa celeste. A partir de então, Geb foi reconhecido como o rei dos deuses, dos animais e dos seres humanos, de toda a criação, enfim. Ele sempre prestou muita atenção com relação ao comportamento das serpentes, seres dracônticos, muito inclinadas à revolta, conforme aliás Ra lhe recomendara. 

A serpente no Egito, no seu papel de protetora, é a encarnação da
BUTO
deusa Buto, do Baixo-Egito, que cospe fogo para proteger os que a usam como emblema. Ela figura em companhia do abutre, símbolo do Alto-Egito, na coroa dos faraós. Entre os dois símbolos, coloca-se um disco solar, que representa o poder criador. O interior da terra, lembre-se, para os egípcios (na Alquimia também) era um lugar ofídico por excelência pois era nele que ocorriam as transformações, as regenerações. No Livro dos Mortos, por exemplo, esta ideia aparece com a divisão da noite em doze horas, doze câmaras, nas quais vivem serpentes, que a barca solar tem que atravessar. 

A deusa Buto, protetora do Baixo-Egito, dava também seu nome a uma cidade do delta do Nilo. A deusa-serpente protegeu o infante Horus, filho de Ísis, recolhendo-o na ilha flutuante de Khemnis. Este acontecimento se assemelha ao do nascimento, na mitologia grega, dos luminares (Ártemis e Apolo), na ilha de Ortígia  (Delos depois). Buto é representada normalmente como uma serpente, alada ou não, e muitas vezes coroada. Às vezes, aparece como uma mulher que usa na cabeça a imagem de um abutre, a coroa vermelha do norte. Já o crocodilo aparece sempre associado a Seth como símbolo das trevas e da morte. Eterno inimigo de Osíris, o Sol fecundante, que com Ísis (a cheia do Nilo) representa a fertilidade, sendo Seth a desertificação. 

O que ficou para nós do Cronos egípcio é que ele é uma divindade da segunda dinastia, como o grego, pai dos “osirianos”, deus da substância universal, por ele coagulada e ordenada, da qual um dia saíram os humanos. Quanto ao crocodilo, animal mítico ligado às origens da terra, que apresenta quase que as mesmas características do dragão, ele foi adorado e amaldiçoado no Egito. Na cidade Schedit (Krokodilopolis para os gregos), o crocodilo era reverenciado como uma espécie de demiurgo que no dia da criação havia saído das águas primordiais para ordenar o mundo material. Noutras regiões, por causa dessa sua ligação às origens da criação, ele passou a representar as mais negativas energias do interior do homem, surgidas das profundezas de seu inconsciente. Acrescente-se ainda a este aspecto negativo o fato mítico de ter Seth, o assassino de Osíris, ter se refugiado, em sua fuga, no corpo de um desses animais.

OSÍRIS
Osíris, inicialmente reverenciado como deus da vegetação, nasceu no Alto-Egito, em Tebas. Quando de seu nascimento, uma voz misteriosa proclamou que ele seria o Mestre Universal; foi saudado com gritos de alegria e, ao mesmo tempo, com choro e lamentações, diante do destino que o aguardava. Ra se alegrou, apesar das dificuldades que havia criado quando de seu nascimento. Quando Geb se retirou para o céu, ele o sucedeu como deus do Egito, ligando-se a sua irmã, Ísis, elevada a condição de rainha.

Como rei, Osíris proibiu as práticas antropofágicas e ensinou aos humanos, ainda em estado selvagem, a arte de fabricar instrumentos, de cultivar a terra, de produzir alimentos como o pão e bebidas como o vinho e a cerveja. O culto aos deuses ainda não existia. Osíris orientou a construção dos primeiros templos e das primeiras estátuas, regulou a ordem das cerimônias e inventou instrumentos musicais. Depois disso, ele construiu cidades, deu aos humanos leis justas, recebendo, por isso, o título de Unophris (Onofre), o Ser Bom.   

Não satisfeito com o que realizou no Egito (Cronos e Saturno farão o mesmo, respectivamente, na Grécia e em Roma), Osíris decidiu levar a sua proposta civilizadora pelo mundo afora. Deixando Ísis como regente, partiu acompanhado pelo seu grão-vizir, Thot, e por seus oficiais, Anúbis e Ophois. Voltando, encontrou o Egito sabiamente administrado por sua mulher. Entretanto, pouco depois, foi vitimado por um complô armado por seu irmão Seth, invejoso de seu poder. No vigésimo oitavo ano de seu reino (número saturnino) foi assassinado e seu corpo decomposto. 

Ísis, auxiliada por Toth, Anúbis e Hórus, conseguiu, através das práticas mágicas que conhecia, trazê-lo de volta à vida. Todos
SETH
compareceram a um tribunal divino, presidido por Geb, diante do qual Osíris desmascarou Seth e refutou as acusações que este lhe fazia (usurpação do trono). Ao abrigo da morte, Osíris entregou o trono a seu filho Hórus e desceu ao mundo dos mortos, onde pontifica desde então, assumindo o controle da psicostasia. Osíris simboliza o drama da existência humana destinada à morte, mas sobre ela triunfante periodicamente.

Seth, que aparece sobretudo na forma do monstruoso Apophis (semelhante ao Typhon dos gregos), é o eterno adversário de Osiris, personificação do deserto, árido e seco, símbolo das trevas em oposição à terra fértil, à água fecundante, à luz. Tudo o que vem de bom e profícuo é de Osíris, tudo o que é perversidade e destruição vem de Seth. Seth foi expulso do panteão egípcio, tornando-se um inimigo de todos os deuses. Os asnos, os antílopes e outros animais do deserto eram de Seth, assim como o hipopótamos, o crocodilo, o escorpião e o porco, nos quais Seth se refugiou para escapar dos golpes de Horus.