Mostrando postagens com marcador ASTARTE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ASTARTE. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.



terça-feira, 18 de julho de 2017

VIRGEM (1)


VIRGEM
As antigas civilizações do oriente, como a védica, e mediterrâneas, como a egípcia e a grega, tinham pleno conhecimento da influência das  chamadas eras cósmicas no desenvolvimento e na evolução dos povos. As eras cósmicas foram estabelecidas em função da passagem do Sol pelas constelações zodiacais, definindo esta passagem, em linhas gerais, segundo cada constelação, por um determinado período, para esta ou aquela civilização, modelos muito semelhantes relacionados com os seus fundamentos religiosos, filosóficos, políticos, sociais e artísticos. Cada período tem a duração de 2.160 anos, correspondente a 30º dos 360º que tem o ciclo completo.  

No chamado zodíaco das constelações esta progressão solar tem a duração de 25.920 anos, o chamado grande ano pitagórico, correspondente a um deslocamento solar de 360°, e de 2.160 anos se considerarmos o trânsito do Sol através de uma única constelação (30°). Este ciclo composto pelas doze constelações, baseado na chamada precessão dos equinócios,  nos permite perceber que há ciclos de tempo muito mais extensos dos que usamos normalmente, de grande importância para o entendimento da evolução da humanidade como um todo.



A era cósmica em que nos encontramos hoje, a de Peixes, começou em 498 dC. e terminará em 2.658 dC. As eras que a antecederam têm as seguintes datas de ínicio: Áries (1.662 aC), Touro (3.822 aC), Gêmeos (5.982 aC), Câncer (8.142 aC), Leão (10.3102 aC.). Estamos hoje na terceira e última fase da era de Peixes, que começou no ano de 1.938. 

As eras cósmicas são a própria memória do mundo. Os ciclos precessionais, que as determinam permitem-nos interpretar a história da humanidade já que marcam elas o aparecimento de raças, nações e religiões. Determinam inclusive o nascimento, a ascensão e a morte de uma raça raiz. O grande ano zodiacal de 25.920 anos se divide em quatro períodos (estações) de 6.480 anos, formados cada um por três eras cósmicas. O predomínio da raça ariana teve início quando o Sol ingressou na constelação de Áries, em 1.662 aC, e se estenderá até 4.818 dC, nele se incluindo as eras de Peixes e de Aquário. No período anterior ao do domínio da raça ariana, tivemos a evolução, a ascensão e a decadência da chamada raça atlante, durante as eras de Câncer, Gêmeos e Touro. 


GRAHAM   HANCOCK
As mais antigas referências que temos sobre Virgem nos apontam para um período muito recuado, a-histórico, anterior ao ano 10.000 aC. Foi por esse tempo, quando o Sol transitou de Virgo para Leão, como está hoje comprovado por pesquisas arqueológicas conduzidas por Graham Hancock e outros, que antigos povos, habitantes da região que mais tarde receberia o nome de Egito, levantaram um monumento para celebrar tal passagem. Refiro-me à esfinge de Gizé, uma estátua de pedra calcária, uma figura mítica, formada pela cabeça de uma mulher e por um corpo de leão com asas de águia. 

ESFINGE   DE   GIZÉ
DEMÉTER
( J.A.WATEAU , 1770 - 1718 ) 
Estudos recentes (séc. XX), contrariando o que a egiptologia tradicional sempre defendeu erroneamente, comprovaram que a parte humana da estátua era a cabeça de uma deusa das colheitas, a deusa Ísis, irmã e esposa de Osíris, associada mais tarde por Heródoto à deusa Deméter, dos gregos, e à deusa Ceres, dos romanos. Ela era representada nesta forma como uma mulher de porte majestoso segurando na mão um maço de ramos de trigo que ela teria lançado nos céus para formar a Via Láctea. Nas histórias que os egípcios nos contam sobre ela, uma variante nos diz que, desgostosa com o comportamento dos humanos, ela  se retirou da terra numa idade que corresponderia à da Idade da Prata da mitologia grega.

Uma das melhores maneiras de se apreender as principais características do signo de Virgem está na analogia, na solidariedade, que há  entre a mulher e a agricultura. Esta solidariedade pode ser descrita, num primeiro momento, através da aproximação da fecundidade da terra,  da  capacidade geradora do elemento feminino, aproximação fundamental para que seja possível a aquisição de uma consciência de que a vida, a morte e o renascimento são interdependentes.


MÃE DOS CEREAIS
No cenário “agrícola” do signo de Virgem as suas características mais marcantes estão certamente no poder da colheita e na destinação do que se colheu. Inúmeros ritos e costumes, ao logo da história do homem, atestam estes poderes. Eles sempre foram vistos como uma força sagrada e representado por figuras míticas. Quaisquer que sejam os modelos, eles giram invariavelmente em torno da figura de uma Grande Mãe, chamada geralmente de Mãe do Milho, Mãe do Trigo, Mãe dos Cereais etc.  

Em muitas tradições, desde tempos pré-históricos, era comum o sacrifício de seres humanos por ocasião das colheitas. Na mitologia grega, por exemplo, as reminiscências deste rito estavam em certas passagens míticas. Uma história grega nos fala de Litierses, um filho bastardo do rei frígio Midas. Ele possuía muitas terras, inteiramente ocupadas pela cultura do trigo. Era conhecido como o ceifeiro maldito. Sempre que, no tempo das colheitas, um estrangeiro passasse pelos seus domínios ele lhe dava hospedagem e o convidava a segar o trigo. Este convite era um desafio, uma competição. Se o estrangeiro ceifasse o trigo mais rapidamente que ele poderia ir embora. Se não, o que sempre acontecia (Litierses era imbatível na ceifa), ele o matava, decapitando-o, e lançava o corpo da vítima despedaçado nos campos. Esta história termina quando Hércules, a serviço da rainha Ônfale, foi incumbido de enfrentá-lo. Nosso herói o venceu e o decapitou.  


OS   CEIFADORES  ( PIETER  BRUGHEL , 1565 )

Evidentemente, o que temos aqui, por trás do mito, é o costume antiquíssimo do sacrifício de uma vítima humana para a regeneração da força manifestada na colheita, um sacrifício no qual se repete o ato que deu vida aos grãos (para que algo nasça é preciso que algo morra). O homem primitivo, compreenda-se, viveu durante milhares e milhares de anos na ansiedade quando das colheitas, pois poderiam esgotar as forças geradores da terra. Além disso, havia o medo de que o Sol não voltasse quando de sua viagem hibernal, que a própria Lua, tão próxima, também resolvesse desaparecer ou que a semente, por uma razão qualquer, não vingasse. Daí, o costume de se oferecerem as primícias (os primeiros frutos) para ser tentada uma reconciliação com todas estas forças que agiam no interior da terra e nos frutos como também para ser obtida a permissão de consumir os produtos obtidos sem risco nenhum. 


HÓRUS  ,  OSÍRIS ,  ÍSIS 

Embora Ísis, devido à sua enorme popularidade entre os egípcios assimile traços de outras deusas gregas (Hera e Afrodite) é com Deméter que ela mais se identifica. A história desta deusa nos foi contada por Plutarco, historiador grego. Revela-nos ele que ela era filha de Geb e de Nut. O primeiro lembra o Kronos grego e a outra, Reia, ambos, titânidas, filhos de Urano e de Geia, que formam as divindades regentes da segunda dinastia da mitologia grega. Ainda muito jovem, Ísis foi escolhida por seu irmão Osíris para ser sua esposa. Dessa união nascerá Hórus, que, com os pais, constituirá a grande tríade religiosa egípcia.   

NA  RODA  DE  FIAR
( CORNELIS KOPPENOL )
Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos (entre os egípcios, diz-se de cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil , que compreendia doze meses de 30 dias cada um; epago, em grego, quer dizer levar, transportar). Subindo ao trono com seu irmão mais velho, ela o ajudou na sua obra civilizadora, ensinando às mulheres a fiar o linho e tecer; ela também ensinou aos homens a arte da cura de doenças e os inspirou a viver em núcleos familiares, instaurado a cerimônia matrimonial (vínculo ritual pelo qual a mulher se torna mãe). 


ÍSIS

Como Osíris viajava muito, ocupado com o seu culto (conquista pacífica do mundo), Ísis se tornou a regente do país, sempre governando sabiamente. Imensa foi a sua dor quando tomou conhecimento do assassinato de Osíris por Seth, o Violento, irmão de ambos. Cortou os seus cabelos, rasgou as suas vestes e partiu à procura no rio Nilo da arca onde, segundo soubera, o corpo despedaçado do marido estava encerrado. Levada pela correnteza do rio até o mar, a arca chegou à costa fenícia. Numa praia, a arca foi ter a um tronco oco de um tamárix, nele se alojando, sem nenhum sinal exterior de sua presença nele.

A esse tempo, o rei de Biblos estava construindo um palácio e muitas árvores eram abatidas. Uma delas foi este tamárix, usado para escorar o teto da edificação. Logo se espalhou a história que desse tronco se desprendia um perfume estranho. Chegando tal história a Ísis, ela logo se dirigiu ao local. Sem revelar quem era,
ASTARTE
conseguiu se fazer receber pela rainha Astarte, que lhe confiou seu filho recém-nascido, tornando-se Ísis assim a ama da criança. Enquanto esperava uma oportunidade para se aproximar melhor do tronco da árvore, Ísis cuidou do jovem príncipe. A criança, todas as noites, era purificada por ela, segundo determinados ritos de calcinação, cujo objetivo era o de torná-la imortal. A rainha, contudo, a surpreendeu numa noite quando da prática de  tal rito. Nesse momento, Ísis revelou quem era e o motivo da sua vinda a Biblos. Obteve logo o tronco da árvore, abriu a arca, vertendo copiosamente suas lágrimas sobre os restos de Osíris, e, levando a arca para o Egito,  escondeu-a numa região pantanosa, para afastar a possibilidade de Seth encontrá-la. Nem todas as partes do corpo de Osíris, entretanto, estavam na arca. Seth, para impedir a reconstituição do corpo do irmão, distribuíra, por vários lugares, em catorze pedaços, o seu restante, pretendendo, com isso, aniquilá-lo para sempre. 

Sem se desesperar, Ísis se pôs a procurá-los, encontrando todos, menos o pênis, que um peixe do rio havia devorado. A deusa começou então cuidadosamente a recompor o corpo; ajudada pela sua irmã Neftis, por seu sobrinho Anúbis, por Toth, o vizir do
EMBALSAMAMENTO
defunto, e por Hórus, seu filho póstumo, que ela havia concebido unindo-se ao cadáver de seu marido, magicamente reanimado por seus encantamentos. Ísis praticou pela primeira vez, os ritos de embalsamamento, que proporcionaram ao deus assassinado uma vida eterna. Depois de tudo isso, a deusa se retirou e para escapar da fúria de Seth refugiou-se nos pântanos, a fim de educar seu filho Hórus, até que atingida por ele a idade adequada para poder vingar o pai. 

Graças à proteção e aos encantamentos da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos. A deusa era detentora de uma magia que astuciosamente obtivera do deus Ra, quando a seu serviço. Tal aconteceu quando Ra, tomando a forma de um velho de membros trêmulos e de boca babosa, vindo a perambular pelo mundo dos mortais. Ísis, usando terra impregnada da baba do deus, fabricou uma serpente venenosa, que, colocada no caminho do velho deus, o mordeu. Incapaz de se curar, Ra teve que recorrer à deusa, que o salvou. Foi nessa ocasião que Ísis, segundo o mito, se apoderou do nome secreto de Ra, conquista que lhe permitiu estender o seu poder por todo o universo, sendo adorada, por isso, em todo o mundo mediterrâneo, como deusa suprema e universal. Mãe da natureza, dos elementos, divindade tutelar dos manes, tornou-se Ísis o centro de vários círculos esotéricos, sendo considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e do renascimento. Passou ela a personificar desde então a anima universal, e, quanto ao mundo masculino, a somatória de todas as tendências femininas do seu psiquismo.  


TEMPLO   DE   PHILAE

Ísis, no mito osiriano, representa a terra fértil do Nilo, fecundada anualmente pelas cheias do rio, isto é, por Osíris, que separa dela Seth, o deserto. Seu culto não cessou de crescer em importância, a ponto de praticamente apagar o de todas as demais deusas. Ultrapassando as fronteiras do Egito, foi o seu culto levado por viajantes e comerciantes para o mundo greco-romano, de onde alcançou as margens do rio Reno, na Germânia. Nas margens do Nilo, ela conservou seus fiéis até o séc-IV dC. Somente no séc. VI, sob o reino de Justiniano, que o templo de Philae, seu principal santuário no extremo sul do país, foi fechado e transformado em igreja católica. 


APULEIO
As festas em honra a Ísis eram celebradas na primavera e no outono, como, aliás, as dos Mistérios de Elêusis, na Grécia. As descrições que Apuleio (escritor latino do séc.II dC) nos deixou sobre as majestosas procissões em sua homenagem podem nos dar, ainda que muito imprecisamente, algumas informações sobre os seus ritos iniciáticos (isíacos). Ísis sempre foi representada como uma mulher majestosa, levando na cabeça uma espécie de coroa estilizada, um ideograma de seu nome. Aparece a deusa às vezes ostentando um disco na cabeça; em outras ocasiões, lembra a deusa Hathor, pelo seu teriomorfismo (cabeça de vaca). Seu emblema era
CRUZ   ANSADA
um nó mágico de nome Tat, chamado nó de Ísis, ou cruz ansada, uma união simbólica do céu e da terra,  e o sistro (trombeta aguda), também símbolo de Hathor.  A escultura e a pintura a representam geralmente ao lado de Osíris, a quem dá assistência e protege, o mesmo fazendo também, de um modo geral, com todos os mortos, com seus braços abertos, como asas. Em algumas representações, aparece chorando ao lado dos sarcófagos ou velando os vasos canopos, onde se guardavam as vísceras dos mortos. Numa outra forma, aparece aleitando Hórus ou o protegendo quando de suas lutas contra Seth.



ÍSIS   ALEITANDO   HÓRUS

Uma grande semelhança pode ser apontada entre Ísis, nas representações em que aparece segurando Hórus, como puer aeternus, nos seus braços, e Perséfone, que, na segunda fase dos Mistérios de Elêusis, a epopteia, carrega num dos braços Brimo, o mesmo puer aeternus, e numa das mãos um feixe de trigo. Ligado a Atenas pela chamada Via Sacra, o santuário de Elêusis estava sob a tutela de Deméter (Grande Mãe) e de Koré, sua filha, divindades do mundo vegetal e de seus ciclos. Elêusis foi sempre um teatro de cerimônias iniciáticas, cujos ensinamentos, de caráter absolutamente esotérico, não podiam ser divulgados sob pena de morte, pena que era também aplicada àqueles que, não iniciados, resolviam ingressar no santuário sagrado. 


ELÊUSIS

Os vestígios desse santuário podem ser hoje visitados no alto de uma acrópole que domina o golfo de Elêusis e a ilha de Salamina. É de se salientar que arqueólogos ingleses e franceses pesquisaram o local no séc. XIX. A partir do fim do período romano da história grega e da imposição do cristianismo como sua religião oficial, as majestosas instalações do santuário entraram em decadência, ficando o lugar cercado por uma topografia confusa, mas envolvendo-o sempre, ainda hoje, um halo de sopro espiritual ao qual se misturam a poluição proveniente de uma estrada cujo trânsito é bastante pesado. À volta das ruínas, algumas flores, lembranças de um tempo em que elas se espalhavam por toda a região, hoje substituídas por “florescentes” usinas.  

Segundo a mitologia, foi em Elêusis que Deméter encontrou a sua filha Koré, que fora raptada pelo deus Hades perto do lago de
GRÃOS  DE  TRIGO
Pergusa, na Sicília. O rei de Elêusis, Keleos, tendo oferecido hospitalidade à deusa, ela, em agradecimento, deu a Triptólemo, filho do soberano, o primeiro grão de trigo  e lhe ensinou a arte de fazê-lo frutificar. Uma estela do séc. V aC, encontrada em Elêusis, hoje no Museu Arqueológico de Atenas, ilustra a doação da deusa ao jovem príncipe. Simultaneamente, Deméter teria comunicado ao grão-sacerdote Eumolpo o ritual do culto da fecundidade.

Deméter, como se disse, era a deusa do trigo, da fecundidade dos campos, e sua filha Koré, tendo assumido a posição de deusa do mundo ctônico devido às “artes” de Hades, como Perséfone, acolhia os mortos quando lá chegavam. Este culto, sem dúvida, tem origem, num primeiro momento, no Egito e, depois, no mundo cretense e egeu, por onde se introduziu na Grécia. O culto que se celebrava no interior do santuário era reservado só aos iniciados, sendo, porém, franqueadas a todos  as festas que se realizavam exteriormente. 

Inicialmente, um culto agrário de fecundação da terra, os Mistérios eleusinos se tornaram, possivelmente sob a influência do orfismo, uma espécie de terapia coletiva, embora alguns o vissem como uma religião de salvação. Os Mistérios, principalmente devido à relevante participação de Dioniso, estavam abertos a todos, sem distinção de classe ou de sexo, mesmo os escravos nele eram admitidos se originários de colônias gregas, tudo muito diferente dos cultos apolíneos, de caráter aristocrático. Os bárbaros, inclusive, poderiam deles participar se se naturalizassem. 

A pessoa que quisesse se iniciar deveria se apresentar a um funcionário sacerdotal através de um ateniense já iniciado. Este funcionário assumiria então a condição de mistagogo (professor) perante o candidato. Aceito, participaria então o candidato dos Pequenos Mistérios, em Agra, que começavam por uma purificação no rio Ilyssos. Ao logo dos seis meses seguintes os candidatos iam
ELEUSINION
se tornando mystai (iniciados). No outono, tinha início a segunda fase, a dos Grandes Mistérios, que começava em meados de setembro, segundo o nosso calendário. No dia determinado, alguns efebos iam a Eleusis buscar os hiera, objetos sagrados (de composição ignorada para nós), que, no dia seguinte, deveriam ser levados em procissão a um templo de Atenas, o Eleusinion, em procissão com muita pompa.  

No dia seguinte, chamado ogyrmos (reunião), todos se reuniam sob um pórtico de Atenas e o arconte-rei, numa oração, conclamava a que se afastassem dali todos aqueles que, por qualquer razão, estavam impuros, manchados por um crime qualquer, ou marcados pela atimia (privação dos direitos de cidadania), Depois, iam todos
ASCLÉPIO
ao mar para outra purificação, sacrificando-se em seguida uma leitoa ainda em fase de aleitamento (khoiros, nome também do órgão genital feminino). Nos dois dias seguintes realizavam-se as festas em honra a Asclépio, dentro do calendário eleusino. No dia 19 de setembro, à noite, tinha lugar a grande procissão noturna que levava os hiera de volta a Elêusis, tudo sob a tutela de Dioniso, o deus das metamorfoses. A saída de Atenas se dava pelo cemitério da cidade, chamado 
Cerâmico (bairro onde viviam e trabalhavam oleiros, ceramistas etc.). 


CERÂMICO

Pela região de Agra, fora dos limites de Atenas, território pequeno, mas muito rico (plantações de trigo e centeio), seguindo a Via Sacra, atingia-se ao cair da noite, depois de muitas paradas, com danças e sacrifícios, o território sagrado eleusino, atravessando-se a ponte do rio Cefiso, que separava o profano do sagrado. Essa travessia era marcada por gritos e expressões chamadas geferismos (gephyra, ponte) que incitavam os mystai a atravessar o rio Cefiso, que, como se disse, separava o mundo profano do mundo sagrado, o do santuário.  

As cerimônias que se realizavam estão constituíam a primeira fase dos Grandes Mistérios, a chamada teleté (tele, em grego, é longe; uma referência aos que tinham feito a viagem). Era o primeiro grau da iniciação. Sob a tutela de Dioniso, esta fase se compunha de uma orgia (cantos, danças e bebida, o kykeon), através da qual se atingia um êxtase (sair de si) e se chegava finalmente ao entusiasmo (deus em nós).

Os depoimentos sobre estas experiências afirmam unanimemente que elas lembravam o caminho titubeante das almas nas trevas, presas de inúmeros terrores. Subitamente, porém, como que atingidas por uma intensa luz as almas se sentiam livres, passando a descortinar paisagens maravilhosas, campos férteis. Essas concepções têm forte conotação órfica ou egípcia, segundo seus costumes funerários, conforme Platão notou. 

PERSÉFONE
A segunda fase dos Grandes Mistérios, realizada no interior do templo (Telesterion), tinha o nome de epopteia (a grande visão). Lá, na obscuridade, representava-se uma pequena encenação teatral, a procura de Koré por Deméter e o retorno da primeira à luz, uma simulação dos desencontros da alma e o seu retorno. Aparecia na encenação, segundo depoimentos, uma enorme figura feminina (Perséfone), com ramos de trigo nas mãos, e carregando num dos braços uma criança, Brimo, o puer aeternus, a vida que sempre renascia, mas sempre de outro modo. Nestes espetáculo os sacerdotes conclamavam os mystai a se abrirem para uma outra forma de vida pois “agora eles haviam visto”, isto é, haviam se tornado epoptes.

domingo, 9 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (1)




Marte  é  um planeta relativamente pequeno em comparação com  o nosso. Seu giro inclinado em torno do Sol é muito semelhante ao da Terra.  Seu  diâmetro  (6720 km)  é  a  metade  do  nosso   diâmetro equatorial e seu dia tem  pouco mais de 24 horas;  possui ele quatro estações,   mais  longas  que   as nossas, pois seu  ano é de 687 dias. Dista do Sol, em média,  mais ou menos,   227  milhões de km. e da Terra  cerca de 56 milhões de km. Sua massa é de 11% da massa da Terra e sua densidade é de cerca de 70%.


Observado desde a antiguidade, sempre foi conhecido como o “planeta vermelho” por causa de sua coloração. Era chamado pelos babilônicos de Nergal, o “astro da morte”, nome do seu deus da guerra. Suas Luas,  Fobos e Deimos, têm seus nomes extraídos da mitologia grega.

Como todos os planetas, Marte é um dos princípios da vida cósmica, representando os conceitos masculinos caracterizados pelo dinamismo instintivo, pela vontade obstinada, pela coragem, pela brutalidade, pela violência, pela luta e pela oposição. Neste sentido, simbolicamente, é a força do ego em ação, revelando o grau da natureza animal que há no homem, podendo indicar, contudo, uma busca de superação dos desejos pessoais em direção a uma orientação mais universal. 


Os egípcios associavam a atividade guerreira ao Sol, como a imagem e as atribuições do deus Montu deixam claro. Por essa razão, os gregos quando chegaram ao Egito, ligaram essa divindade tebana ao seu Apolo. Montu foi particularmente venerado pelos reis da décima primeira dinastia, no começo do Médio Império (2133-1786 aC).

Foi nesse período que faraós poderosos suprimiram os privilégios feudais e deram início a grandes obras de irrigação, vitais para o país, unificado sob o comando do faraó tebano Mentuhotep II, que impôs Tebas como a capital do país. As minas de cobre da península do Sinai começaram então a ser exploradas ativamente e postos avançados foram construídos, atingindo-se a terceira catarata do rio Nilo. 


TEBAS

A política real tinha, externamente, a esse tempo, um caráter expansionista. Nesse período, de grande esplendor cultural, foi produzida uma literatura de nível superior, com destaque, nas artes figurativas, para o retrato. Construiriam-se templos e estátuas em escala colossal, base de uma centralização religiosa na figura do deus Amon.


AMON COM A CABEÇA DE CARNEIRO

Amon, o Escondido, antropomorfizado, era representado ora com a cabeça de um carneiro ora com a de um ganso, sobre a qual havia um disco solar, nele se fixando duas grandes penas. No Médio Império, a personalidade de Amon se enriqueceu,  ao incorporar traços de outras divindades, especialmente os de Ra, deus solar de Heliópolis. Dessa fusão, nasceu Amon-Ra, que recebeu as prerrogativas de Montu e de Konsu, O Navegador, aquele que atravessa o céu na sua barca, uma divindade lunar na sua origem. 

Amon-Ra, como se sabe, foi a grande divindade egípcia que serviu de inspiração para os judeus adotarem o monoteísmo como forma religiosa. A crença em um só deus é fixada pelos judeus na Bíblia e no Talmud. De acordo com a tradição, foi Abraão o primeiro, como fundador do judaísmo, a defender a unicidade de deus.  

Montu é conhecido também por imagens em que a sua cabeça é de falcão ou de touro. Aos poucos, pela relevância política dada a Amon-Ra, o culto de Montu se concentrou na sua imagem guerreira, divindade bélica, que usa a khopesh, espécie de cimitarra em forma de meia-lua, usada para cortar a cabeça dos inimigos do faraó.

Fazendo parte do mundo marcial entre os egípcios encontramos
SEKHMET
também Sekhmet, Sakhmis em grego, deusa da guerra e dos combates, representada comumente como uma leoa ou uma mulher com cabeça de leoa. Seu nome, que significa A Poderosa, é um epíteto dado à deusa Hathor, divindade associada pelos gregos à sua Afrodite, quando a deusa, tomando a forma de uma leoa, se lançou contra os humanos que não aceitavam Amon-Ra como divindade suprema. Sua violência foi tamanha que o próprio deus teve que lhe pedir calma,  que se contivesse um pouco, pois grande parte da humanidade corria o risco de ser exterminada. 


ROMÃ
Para conter A Poderosa, Amon-Ra recorreu a um estratagema: espalhou sobre o lugar da carnificina milhares de cântaros com uma bebida mágica (mistura de cerveja com suco de romã). A deusa, tomando a bebida por sangue humano, se pôs a bebê-la com tamanha avidez que, embriagada, não conseguiu levar adiante a matança. 

Salva assim a humanidade, Amon-Ra instituiu uma festividade para apaziguar Sekhmet. No calendário religioso egípcio, esta festa caía no décimo segundo dia do primeiro mês do inverno, data em que a deusa promovera o grande massacre. 

Na  Mesopotâmia, no mundo assiro-babilônico, é Ishtar quem assume as atribuições de deusa da guerra. Filha de Anu, deus dos espaços celestes, segundo uns ou, segundo outros, de Sin, deus-Lua, que ocupava o primeiro lugar na trindade astral (Shamash, o Sol, e a própria Ishtar eram os outros), Ishtar era uma divindade bastante complexa, sendo considerada tanto como deusa da guerra como do amor. 


ISHTAR

Como guerreira, Ishtar era venerada sobretudo em Hallab, aparecendo neste caso como filha de Sin e irmã de Shamash. Era a “dama das batalhas”, a mais valente entre as deusas. Ela conservou estes atributos quando foi adotada pelos assírios, tornando-se esposa de Ashur, deus nacional do país. Tomava parte em todas as expedições do marido, participando ativamente das batalhas. Era representada sempre de pé, conduzindo um carro puxado por sete leões, levando numa das mãos um arco, sendo particularmente adorada em Nínive e Arbeles, onde tomava às vezes o nome de Anunit, como ocorria em Agadé, capital do país de Akad. 

Como irmã de Ereshkigal, deusa dos infernos, Ishtar contribuiu
ERESHKIGAL
bastante para povoar o reino da irmã. Era conhecida então como a “estrela da lamentação” (planeta Vênus), ao provocar disputas de todo o gênero, brigas entre irmãos, entre pais e filhos,  separação de amigos, de casais, de colegas de trabalho etc. Embora apareça também como deusa do amor, o traço mais forte de sua personalidade é a voluptuosidade, o caráter obsessivo de seus desejos, lembrando muito, astrologicamente, o planeta Marte no signo de Escorpião. Ishtar mostra-se invariavelmente irritável, violenta, incapaz de suportar qualquer negativa aos seus desejos. 


Uma de suas atribuições mais importantes era a de  espalhar, por todo o mundo natural e humano (aqui unilateralmente) o desejo amoroso. A prostituição religiosa, como a hierodulia entre os gregos, fazia parte de seu culto, sendo Erech a sua cidade santa. Como primeira prostituta sagrada, seus amantes eram muitos. Inconstante, ela costumava tratá-los muito mal. Para os próprios deuses, o amor de Ishtar era funesto.





ASTARTE

Contudo, apesar de seu temperamento irritadiço, o coração de Ishtar era capaz de experimentar sentimentos generosos. Um de seus apelidos, quando assumia esse papel, era Benfeitora. Muitos reis deveram a sua ascensão ao trono à sua proteção. Soberana do mundo, foi a deusa mais popular da Assíria e da Babilônia, sendo imenso o seu prestígio. Sob o nome de Astarte, tornou-se uma das grandes divindades da Fenícia, tendo fornecido inclusive muitos de seus traços para a Afrodite grega.

Inicialmente, no mito, Ereshkigal era a divindade absoluta do mundo subterrâneo, infernal. Um dia, porém, o deus Nergal, divindade masculina da guerra (o planeta Marte como regente de Áries na Astrologia babilônica) resolveu atacar o reino dos mortos, assessorado por catorze demônios. Para uns, depôs a rainha e assumiu o poder. Para outros, porém, chegaram ambos a um acordo e o compartilharam. Nergal, além de deus das batalhas, era o Sol do meio-dia que secava a terra, que queimava e destruía, provocando incêndios e devastação. Associava-se assim tanto à luz (Sol do meio-dia) como à escuridão, o mundo subterrâneo. Esta elaboração mitológica dos babilônicos, sob o ângulo astrológico, é perfeita. Fala da exaltação do Sol em Áries e da regência noturna de Marte em Escorpião, apontando também para a grande “acomodação” que Plutão tem em Áries. 


NERGAL

A união entre Ereshkigal e Nergal está assim expressa num tabuinha de argila que desse mundo nos chegou: Tu serás meu esposo, disse-lhe ela, e eu serei tua mulher; farei com que possuas a realeza sobre a vastidão da terra, colocando-te na mão a tabuinha da sabedoria.” Foi assim que Nergal se transformou no baal dos mortos. Ele tinha por símbolo a espada e a cabeça de um leão. Dentre seus assessores, destaca-se Namtaru, seu primeiro ministro e comandante das tropas infernais, deus da peste. 

Diante do que expus acima sobre Ishtar, julgo interessante
IANSÃ
aproximar a grande deusa mesopotâmica de um dos mais conhecidos orixás, Yansã, do Candomblé, religião animista, original dos atuais Nigéria e Benin; trazida para o Brasil por africanos escravizados e aqui estabelecida. Nessa religião, como se sabe, sacerdote e adeptos encenam, em cerimônias públicas e privadas, uma convivência com forças ancestrais da natureza. 

Orixá é designação genérica das divindades cultuadas pelos iorubás do sudeste da Nigéria, do Benin e do Togo que fazem a intermediação entre as referidas forças naturais e sobrenaturais e os seres humanos.

Divindade dos ventos e das tempestades, Yansã tem um temperamento ardente e impetuoso. Foi a primeira mulher de Xangô, grande orixá, viril, violento e atrevido, justiceiro, que castiga os mentirosos, ladrões e malfeitores. Seus atributos são o trovão, o relâmpago e o raio, os mesmos de Zeus, na mitologia grega, que Yansã foi buscá-los no Inferno e os deu a seu “homem”. É por essa razão que acidentes ou mortes provocados pelo raio são sempre considerados no Candomblé como infamantes.  O carneiro, cuja chifrada tem a rapidez do raio, é o animal do seu sacrifício.


DANÇA DE YANSÃ

As danças de Yansã são guerreiras, nelas se evocando sempre, através de movimentos sinuosos e rápidos, as tempestades e os ventos enfurecidos. No Brasil, no catolicismo, Yansã é sincretizada contra o perigo dos raios. Por sua ligação com esse fenômeno atmosférico, passou a ser reverenciada como santa padroeira por mineradores e artilheiros de um modo geral, sendo a torre um de seus emblemas. Na tradição cristã, as torres vieram simbolicamente através de construções militares e feudais, passando elas a representar vigilância e ascensão, lembrando também, no que tange a esta última, escadas. 


YANSÃ   E   SANTA   BÁRBARA

Yansã  tipifica o comportamento de mulheres audaciosas, poderosas e autoritárias. Mulheres que podem se entregar totalmente a um projeto existencial, mas que, se contrariadas, explodem com incontida cólera. De temperamento sensual e voluptuoso, a mulher Yansã, se casada, costuma se entregar livremente a muitas aventuras amorosas extraconjugais, sem reserva nenhuma, conservando-se, porém, contraditoriamente, muito ciumenta de seu marido.

INDRA

Na Índia, muito antes da fixação do Vedismo como religião oficial dos povos indo-arianos que ali se estabeleceram por volta do início do segundo milênio aC, o que tínhamos era uma mitologia típica de uma casta guerreira, de uma aristocracia de conquistadores; Indra, Varuna, Mitra, Nasatyas e outros são os nomes dos deuses desse período.   


KARTIKEYA

Com a fixação da grande trindade hinduísta (Brahma, Vishnu e Shiva), os papéis divinos ganharam uma demarcação mais precisa. Nesse contexto, aparece Kartikeya ou Skanda como deus da guerra. É essa divindade uma criatura de Shiva e irmão do deus-elefante Ganesha. Seu nascimento decorreu de um pedido dos demais deuses, que precisavam de alguém que pudesse dar combate aos demônios, às forças do mal. Dirigindo o fogo do seu terceiro olho para um lago, Shiva fez surgir das águas, ao mesmo tempo, seis crianças, que foram amamentadas pelas esposas dos Rishis (profetas, seres espirituais que receberam a revelação dos Vedas). 


SHIVA

Um dia, porém, a esposa de Shiva, Parvati, tomou as seis crianças nos seus braços e acariciou-as tão fortemente que elas acabaram fundindo-se num só corpo. Como deus da guerra, Skanda é o generalíssimo do exército divino. As histórias sobre o nascimento de Kartikeya nos são narradas em vários textos (Ramayana, Mahabharata e Puranas), nos quais o deus da guerra ora passa por um filho que Shiva teve sem o concurso de deusa alguma; ora é considerado  como seu pai o deus Agni e como sua mãe a deusa do rio Ganges; ora a sua paternidade é atribuída ao deus Rudra.

Kartyikeya é representado normalmente com seis cabeças, doze orelhas e um igual número de olhos, braços e pés, um pescoço e um só ventre. Sua imagem é a de um adolescente (Kumara), sempre vestido de vermelho, carregando arco e flechas, espada, o raio (vajra) e o machado. O seu dardo curto, disparado, jamais deixa de atingir o alvo escolhido, voltando sempre às suas mãos depois de ter morto o oponente, como o martelo de Thor. O deus tem por montaria o pavão (paravani), sendo seu emblema o galo. A bandeirola que usa no seu carro, presente do deus Agni, sempre trepidando ao vento, é vermelha como o fogo da destruição.

KSHATRYA
O culto de Skanda parece muito antigo, centralizado inicialmente no norte da Índia. Grande importância a ele foi dada pela militarizada dinastia dos Gupta, que reinou no país, no séc. IV dC. As mulheres estavam excluídas de seu culto, privilégio da casta guerreira, a dos kshatryas. 


Antigas divindades do sul da Índia, dos povos pré-arianos,
MURAGAN
Muragan, Velan e Sheyan, foram incorporadas a Kartikeya. O primeiro era o deus da guerra dos dravdas. Venerado com flores e danças orgiásticas, atualmente o culto de Skanda se fixa mais no sul da Índia, onde temos explicações sobre seu vários epítetos: Kumara (Adolescente, isto é, energia sempre jovem, a sugerir uma ideia primaveril, lembrando o puer aeternus do mundo greco-romano); Kartikeya, o seu primeiro nome, é conservado como uma homenagem às Plêiades, esposas dos sete Rishis, que o criaram; Rudra Sanu (filho de Rudra, divindade das tempestades); Maha-Sena (Grande Capitão); Sena-Pati (Chefe dos Exércitos); Shakti-Data (o que leva o dardo), Ganga-Putra (Filho do Ganges); Taraka-Jit (Vencedor do Demônio); Shadana (o de seis rostos); Pavaka (Filho do Fogo).



No Yoga, lembre-se, Skanda é nome dado ao poder de abstinência sexual. Nos textos da doutrina, encontramos: A energia da semente viril, preservada pela ascese e pela castidade absoluta, é chamada Skanda (o jato do esperma) ou Kumara (adolescente). Na prática do Yoga, quando um controle absoluto não é conseguido, Kumara não “nasce” e o esforço mental é sempre ameaçado pelas tentações. Para o iogue, isto significa que entre os humanos os deuses são sempre atormentados pelos anti-deuses. Somente quando a semente viril é sublimada e ascende pelo canal central (sushumna) do corpo sutil, que acompanha a coluna vertebral, que o iogue se torna mestre de sua vida instintiva. É nesse momento que Skanda nasce.

As Plêiades, nesse contexto, são divindades associadas ao fogo,

consideradas sob um aspecto benéfico. São elas as amas de Kumara, tendo relação com os seis centros sutis através dos quais Kumara progride. Estes centros sutis, como se sabe, são os chakras (rodas), que fazem parte de um total de sete, que se dispõem no corpo humano da região sacro-coccígeo ao topo da cabeça, na seguinte ordem: muladhara (centro do suporte da raiz, no períneo), svadhisthana (região genital), manipura (na área do estômago), anahata (no centro do peito), vishuddha (na região da garganta), ajña (entre os olhos, no meio da testa) e sahasrara (na coroa da cabeça). Cada um destes centros corresponde a uma função, na ordem acima: coesão, contração, expansão, movimento, espaço, consciência do eu e realidade transcendente. Cada um deles, na mesma ordem, corresponde aos seguintes elementos: terra, água, fogo, ar, éter, até o quinto centro. 


Kumara Skanda cavalga um pavão, ave que é grande inimiga das serpentes, e, como tal, destruidora dos mais sutis instintos que submetem o ser humano. É neste sentido, dizem os hindus, que Kumara muda o veneno em ambrósia. A serpente, por outro lado, como uróboro, representa o ciclo anual. O pavão aparece assim como o destruidor do Tempo. Na cosmologia, Kumara identifica-se à energia solar presente nas mais altas esferas, acima do ar, na região etérica.

CAUDA   PAVONIS
Taos em grego, pavus em latim, o pavão é originário da Índia, sempre considerado como montaria (vahana) divina, inimigo natural das serpentes, como se disse. Às suas penas atribuía-se o poder de transformar os venenos em energia solar. Na Alquimia, sua cauda (cauda pavonis) constitui em muitos textos e imagens o signo da transformação visível de substâncias inferiores em superiores.


Na astrologia védica (Jyotish), Kartikeya é um dos nomes do planeta Marte, também apelidado de Angaraka (brasa) e Kuja (nascido da terra), sempre associado ao guna rajas e à segunda casta (varna), à dos guerreiros.


KUNDALINI

A serpente é um dos mais importantes arquétipos da vida humana. Ela se confunde com a própria energia cósmica, localizada no ser humano no chamado chakra básico (Muladhara), inconsciente, ali aninhada. Tem a ver com a vida instintiva, que precisa ser controlada, disciplinada. Os hindus a chamam de kundalini, força que nos anima e mantém. Seu agente é o planeta Marte, Kumara Skanda, que na Astrologia passa por nefasto, já que é seco, quente, áspero e feroz.