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terça-feira, 21 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (1)



              

Desde tempos muito recuados (5.000 aC) que o signo de Escorpião era conhecido por mesopotâmicos, persas, judeus, turcos, maias e muitos outros povos. Na Mesopotâmia, o signo tem a ver com
TIAMAT   E   MARDUK
Marduk, divindade que, à medida que a cidade da Babilônia se firmava como o maior centro do poder no território compreendido entre os rios Tigre e Eufrates, sobrepujou todos os demais deuses. Esta posição se deve sobretudo à sua vitória sobre Tiamat, o oceano primordial, símbolo das trevas e do caos. Depois dessa vitória, os deuses lhe atribuíram cinquenta títulos em sinal de reconhecimento e lhe conferiram o privilégio de fixar os destinos humanos. Desta maneira, Marduk reuniu em si mesmo a plenitude do divino e do humano. Na terra, era não só aquele que fazia crescer os cereais, mas o mundo vegetal como um todo, estendida sua ação inclusive a toda a vida animal.





Marduk se transformou aos poucos na grande divindade organizadora da vida universal. Era representado geralmente como um deus armado, abatendo um dragão, na sua forma mais elevada,
ESAGIL  ( RECONSTITUIÇÃO )
entronizada no grande templo babilônico de Esagil. Desta cidade, a imagem do deus ia para o interior do país, para uma região chamada Akitu, onde ficava vários dias. Lá se realizavam cerimônias, preces, cantos, rituais mágicos, purificações e sacrifícios. O próprio rei ia a Akitu para lhe prestar homenagens, quando, então, a imagem do deus, por uma longa via sagrada, era conduzida para as margens do rio Eufrates, onde havia um grande templo. Marduk, sob o nome de Bel-Marduk, lá permanecia por uns dias, voltando depois a Esagil. Estas cerimônias, no seu todo, duravam vários meses e constituíam uma espécie de religião de mistério, que figuravam a morte do deus, o seu renascimento e, enfim, a sua união com a deusa, Ishtar. 


TEXTO   DAS   PIRÂMIDES 

A história de Marduk, como se pode ver, guarda estreitas relações com outras, de natureza escorpiana, em que divindades infernais
TEXTO   DOS   SARCÓFAGOS
aparecem relacionadas com os temas da morte e do renascimento. Uma das mais famosas nos vem do Egito, a do deus Osíris. É sobretudo a Plutarco, historiador grego dos sécs. I-II dC, que devemos a história mais completa sobre a vida de Osíris, de sua união com Ísis e da luta que travou contra seu irmão Seth. Textos egípcios (Textos das Pirâmides e Textos dos Sarcófagos) completam as informações de Plutarco.

HINO   A   OSÍRIS
Um dos mais belos textos sobre o deus, o Grande Hino a Osíris, está numa estela exposta hoje no museu do Louvre. Nela se registra, de modo bastante poético e imaginoso, a procura do corpo do deus por Ísis e por Néftis, as lamentações amorosas da primeira e a sua fecundação pelo deus. 

Osíris, “o que tem muitos olhos”, foi associado pelos gregos a duas de suas principais divindades, Dioniso e Hades. Primitivamente, era um deus da natureza em que se encarnava no espírito da vegetação que morria com a colheita e que renascia com a germinação dos grãos. Nesse sentido, foi adorado em todo o Egito como deus dos mortos, condição que o levou ao primeiro lugar no panteão egípcio. 

Muito parecida com a história de Osíris como espírito da vegetação
SAFO  ABRAÇANDO  SUA  LIRA
( J. E. DELAUNAY , 1828 - 1891 
que morre e renasce é a de Tammuz, divindade babilônica, favorito da deusa Ishtar-Astarte. Devidamente adaptada, esta história aparece no mundo semítico, tomando Tammuz o nome de Adônis (adon, mestre, senhor), de onde passa para o mundo grego, para fazer parte de mitologemas relacionados com a Afrodite grega, helenizando-se, assim, as tradições míticas orientais. Lembre-se que todas estas histórias já eram conhecidas no mundo grego desde os sécs. VIII e VII AC., por poetas como Hesíodo e Safo.



O nascimento de Osíris foi muito “problemático”. A começar pela “gravidez” de sua mãe, Nut (o equivalente da Reia grega), que se relacionara secretamente com o deus Geb (o equivalente de Cronos entre os gregos). Ra, o Sol, divindade que tudo via e sabia, muito irritado, colérico, procurou interferir de modo a tornar a gravidez impossível. Muito angustiada, Nut procurou um lugar em que pudesse parir fora do alcance dos olhos de Ra. Não encontrou um lugar em que pudesse se refugiar. A vigilância de Ra era tão implacável que durante a sua viagem noturna pelas trevas encarregava o deus Lua de não perder Nut de vista. 


NUT

As coisas estavam nesse pé quando o deus Toth resolveu prestar auxílio a Nut. Este deus, o das palavras medidas, segundo a história nos conta, nutria grande admiração por Nut ou uma grande paixão, conforme outras versões. Toth convidou o deus Lua para um jogo de dados. A partida foi longa e disputada, mas Toth acabou vencendo. Pediu, pela vitória, que o deus Lua lhe fornecesse a 72ª parte do período de sua luminosidade. Com isso, pode então Toth criar e acrescentar cinco dias suplementares ao período anual, chamados estes dias de epagômenos. Lembremos que epagômeno (epagô, em grego, é trazer, introduzir, acrescentar por indução) é o dia que se acrescenta a um calendário.  Entre os egípcios, era cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil, que compreendia doze meses de trinta dias. 


ESCADA  DE  JACÓ (W. BLAKE , 1757 - 1827)
Lembremos que 72 é um número caro a todas as tradições antigas ao indicar ascensão e valorização. Platão nos fala que é o número das “bodas herméticas”, da união do céu com a terra, correspondente a oito gestações completas. Os assírios, os caldeus e os judeus contam em seus calendários mágicos 72 anjos tutelares e  que esse é o número de semidecanatos em um ano. 72 é também o número de degraus da escada de Jacó, que liga o céu e a terra. Plutarco fez alusão a cinco dias que o deus Hermes intercalou em um ano de 360 dias, tirando diariamente 1/72 de cada dia. É de se mencionar também que o aspecto astrológico de 72º tem o nome de quintil, aspecto de natureza “oculta”, devido ao seu grande potencial criativo, numa perspectiva muito individual.



Filho mais velho de Geb e de Nut, irmãos, deuses da segunda dinastia, portanto, como se disse, nasceu Osíris em Tebas, no Alto-Egito, sendo o primeiro dos cinco filhos do casal divino. Nos demais dias epagômenos nasceram, pela ordem, Haroeris, Seth, Ísis e Néftis. Os textos hieroglíficos encontrados pelos arqueólogos contêm inúmeras alusões aos fatos da vida terrestre de Osíris, por eles se sabendo que Ra acabou por aceitar o nascimento de seu neto, reconhecendo-o como herdeiro de seu trono. 

Quando Geb se retirou para os céus, Osíris o sucedeu na qualidade de rei do Egito e se uniu a sua irmã, Ísis. O primeiro ato de Osíris como governante máximo foi o de abolir a prática da antropofagia
FLAUTA  EGÍPCIA
entre os humanos; depois, na sua função civilizadora, ensinou aos seus súditos os processos de fabricação de instrumentos agrícolas e os instruiu na arte do plantio de cereais e da videira, até então desconhecidos, o que lhes permitiu fabricar o pão e bebidas como o vinho e a cerveja, ambas bebidas da imortalidade. Osíris instituiu os cultos divinos, inexistentes; fez construir os primeiros templos, inventou instrumentos como a flauta e ensinou a arte musical para servir de sustentação aos cantos nas festas. 


OSÍRIS
Depois de civilizar o Egito, Osíris, com o mesmo intuito, dirigiu-se à Ásia, deixando Ísis na regência do trono. Acompanharam-no Toth, seu vizir, e seu grande oficial, Anúbis, “o que abre caminhos.” Inimigo de toda violência, foi pacificamente que ele levou a civilização a todos os recantos da terra. Retornando ao seu país, Osíris foi atacado numa emboscada e morto por seu irmão Seth, que armara um complô para destruí-lo. Este acontecimento se verificou no vigésimo oitavo ano do reinado de Osíris, que teve seu corpo despedaçado pelo irmão e espalhado por vários lugares do país. 

Graças, contudo, a seus poderes mágicos, Ísis, ajudada por Toth, Anúbis e Hórus, este filho póstumo dela e de Osíris, conseguiu fazer com que seu marido voltasse à vida. Ressuscitado e ao abrigo
FERTILIDADE   TRAZIDA    PELO    NILO

 da morte, Osíris preferiu deixar a terra e descer ao mundo subterrâneo para reinar sobre os mortos. O que a história desse deus nos revela, assim, na sua dimensão cósmica, é que ele se identificou simbolicamente com o espírito da vegetação que morre e renasce incessantemente, representado, nesse sentido, pelo trigo, pela vinha, pelas árvores e pelas plantas em geral. Ele é também o rio Nilo que, a cada ano, míngua no período da seca e que recupera a sua força, quando das enchentes, vencendo assim o deserto. Ele é, numa palavra, tudo o que a cada crepúsculo se apaga, como o Sol, para renascer a cada manhã, trazendo a luz de volta. A luta entre ele e seu irmão Seth (representado pelo dragão Apophis, equivalente do Tifon grego) nada mais é que uma imagem dessa alternância, a luta entre o deserto e a fertilidade das terras inundadas pelas águas do rio, o choque entre os ventos quentes e a umidade de que a vegetação precisa, a batalha entre a obscuridade e a luz. 



É, contudo, como divindade do “Outro Lado” (Duat) que os cultos de Osíris atingiram a sua máxima expressão e popularidade, pois ele dava aos seus fiéis a esperança de uma vida eternamente feliz no além, num mundo governado por um rei justo e bom. Adorado em todo Egito, em companhia de Ísis e de Hórus, Osíris forma com eles a chamada trindade osiriana (imagem à direita), honrada em todo o país. 

Embora as fontes faraônicas já apresentassem, desde o período do Antigo Império, os principais elementos do mito, a história de Osíris só ganhou grande divulgação com os gregos, espalhando-se por todo o Mediterrâneo. Foi a partir de então que Osíris passou a ser conhecido como um símbolo da potência imperecível do mundo natural, da vegetação em especial, e do chamado Sol Negro, o Sol em sua viagem noturna. É neste sentido que Osíris é cultuado como a grande divindade da morte e do renascimento, tendo também a ver seu mito, numa leitura psicanalítica, com as fases da individuação psíquica do ser humano.

Inegavelmente, o que melhor ilumina o mito osiriano é a leitura astrológica na medida em que o signo de Escorpião simboliza o fim da vegetação, a queda e a decomposição dos galhos e folhas, e, num sentido lato, evidencia a destruição das formas e dos valores objetivos do ser humano. Alquimicamente, quando o Sol transita pelo signo de Escorpião nos céus, passamos a trabalhar, no mundo natural, com ideias de desagregação, de fermentação e de putrefação, operações sem as quais não podemos pensar em renascimento.    

Na mitologia mesopotâmica, sob o reino de Apsu, o grande abismo cheio de água que cerca a terra, está o mundo infernal, região para a qual se dirigiam os que morriam, um “lugar sem retorno”. Para chegar a ele era preciso atravessar um rio e depois ingressar num palácio de sete portas, abandonando-se em cada uma delas uma peça da roupa que o morto (alma) vestia. A audaciosa Ishtar, um dia, atreveu-se a visitá-lo e quase dele não conseguiu sair se não fossem os seus poderes mágicos e, sobretudo, a intervenção de Ea, uma espécie de Poseidon, grande divindade do Apsu. Às vezes, os deuses permitiam que os encerrados no inferno voltassem por uns momentos à superfície luminosa da terra, como foi o caso de Enkidu, companheiro de Gilgamés, autorizado inclusive a revelar ao amigo o que se passava nas trevas infernais. 

EDIMMU

As almas dos mortos que lá viviam eram chamadas de edimmu, aladas como os pássaros; alimentavam-se, com raras exceções, de poeira e de lama. Além dessas almas, encontravam-se também no inferno os deuses vencidos, cúmplices de Tiamat, derrotados por Marduk, quando da grande batalha vencida por este último, o que ensejou a cosmização do universo criado. 

No épico babilônico sobre a criação, aparecem duas entidades com destaque. Uma delas é Apsu, também chamado Abzu ou Engur, nele residindo seu filho, o sábio deus Enki (Ea) e sua esposa Dulgalnuna, subordinando-se a eles várias criaturas marinhas. Enquanto Apsu personificava as águas subterrâneas, as águas salgadas eram de Tiamat. Formavam, Apsu e Tiamat, um par macho-fêmea. Geraram eles uma linhagem divina, da qual faziam parte, além de Enki, outras divindades que acabaram por criar muitos problemas a Apsu. Muito descontente, Apsu resolveu
BABILÔNIA  -  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO
exterminá-los, apesar dos protestos de Tiamat. Revoltada, incontida e aparentemente ilimitada no seu eterno vai-e-vem, Tiamat lembrava a indeterminação, o caos primordial, informal e tenebroso. Constituía-se, como tal, num perigo permanente para os deuses que, na nova ordem, representavam o mundo masculino. Aliada do mundo feminino, Tiamat precisava ser vencida e, de fato, o foi por Marduk, a divindade tutelar da Babilônia, que se tornou a primeira cidade do país, capital do império.     


ERESHKIGAL
Nesse cenário, sobre o mundo infernal reinava sozinha a deusa Ereshkigal. Um dia, porém, o deus Nergal, com catorze demônios, invadiu esse reino; a paz foi negociada então, unindo-se Ereshkigal ao deus invasor como esposa. Até então deus da guerra e da destruição, tornou-se Nergal baal (deus) dos mortos. Ele usava como símbolo uma espada e, às vezes, um elmo feito com uma cabeça de leão. O visual de Nergal era muito semelhante ao de Ares e de Marte, deuses da guerra, respectivamente, entre gregos e romanos, sendo também evidente, por outro lado, as suas implicações astrológicas com o planeta de mesmo nome (regente de Escorpião). Seu primeiro ministro e comandante das tropas infernais era Namtaru, o deus da peste. 

NERGAL
Ereshkigal e Nergal eram auxiliados também por sete annunaki, que agiam como juízes, sendo o tribunal presidido pelo deus Sol-Utu. Além deles, havia uma força policial, os galla, para cuidar da segurança do reino. No mais, esse submundo era concebido de modo semelhante ao céu, ambos organizados em função de modelos terrestres. Mesmo na morte havia uma rigorosa ordem de preferência, sob o ponto de vista social. As almas dos reis e dos altos funcionários ocupavam sempre os melhores lugares. A alma de qualquer defunto ilustre tinha, ao chegar, de oferecer sacrifícios aos seus nobres predecessores. A conduta nesse submundo obedecia a certas regras, impostas por Gilgamés, o grande herói, que se tornou um deus depois de sua morte. 

Se as sentenças fossem favoráveis, as almas podiam esperar uma existência razoavelmente satisfatória. Não obstante essa promessa de esperança, os mesopotâmicos sempre acreditaram que a vida no reino infernal seria sempre um pálido reflexo da que havia conhecido na Terra. Tinham eles bem poucos motivos para esperar uma vida venturosa no inferno, mesmo tendo sido impecáveis na sua conduta em vida. 

A história do amor entre Ereshkigal e Nergal é narrada num texto que tem o nome dos dois personagens. É por esse texto e outros que tomamos conhecimento de mais alguns atributos de Nergal como a de que era a divindade responsável por declarações de guerras, pela devastação de florestas pelo fogo, por epidemias de febres e por pragas de toda espécie. Fazia parte do seu séquito, dentre outras divindades menores, mas igualmente violentas, a deusa Erra, que dizimava pelas doenças populações inteiras.  


DIONISO
Se nos voltarmos para a Grécia, não há como não deixar de aproximar o que dissemos acima de Osíris da história de Dioniso e evidentemente do signo de Escorpião. Desde a sua origem, Dioniso, o deus de Nysa, como sabemos, sempre teve uma forte relação com a vida animal e vegetal, honrado, por isso, ao ar livre, no alto das montanhas. Sua relação com o vinho, bebida enteógena, liberadora, também se fixou logo, juntamente com espetáculos dramatúrgicos, que estão na origem de seus cultos. 

Aos poucos, foi incorporando o deus outros traços para se constituir numa divindade ligada à renovação cíclica da natureza e às metamorfoses do mundo animal e humano. Como deus civilizador, aparece Dioniso ligado aos prazeres, à exuberância, aos desregramentos, ao rompimento de limites. Psicologicamente, ele tem a ver com tudo aquilo que, no ser humano, dissolve a cristalização de formas, de complexos e de comportamentos automatizados, podendo causar, através dessa ação, regressões a perigosos e temidos estados caóticos, pré-egoicos. Neste sentido, ele atua sempre no sentido de eliminar repressões, constrangimentos e limites, quando as necessárias transformações ou atualizações dos seres e dos organismos sociais não acontecem, trazendo a loucura, a destruição e mesmo a morte.


CULTO   DE   DIONISO

Os cultos de Dioniso sempre oscilaram entre o espiritual e o físico, mostrando-se no geral muito “selvagens” e turbulentos (como os de certas correntes shivaístas na Índia), o que incomodava sobremodo a polis grega, que, por isso, procurou “civilizar”, ou melhor, urbanizar o deus de qualquer maneira. Assim, suas festas foram aos poucos sendo incorporadas ao calendário oficial de Atenas; os dramas dionisíacos, espontâneos e naturais, foram dando lugar a manifestações teatrais com regras bem definidas (tragédia e comédia), patrocinando o poder público competições que no gênero marcaram profundamente a vida grega.

Para se entender o que estamos a expor é preciso lembrar que a religião oficial da polis grega (Atenas) era aristocrática. Os deuses olímpicos atuavam para reprimir a hybris dos que tentassem ir além do seu métron. A meta da religião olímpica era a obtenção do conhecimento contemplativo (gnosis), a purificação da vontade para que o divino fosse recebido (khatarsis) e obtida a consequente libertação do ser para uma vida de imortalidade (athanasia). As principais divindades do mundo olímpico, inspirador da ordem aristocrática, eram Zeus, Apolo e Palas Athena.

Do outro lado, opostas, tínhamos as correntes religiosas dionisíacas, voltadas para os mitos naturalistas, para os cultos agrários, do tempo cíclico, divindades da vegetação e da vida animal, que morriam e ressuscitavam. Dioniso era a principal delas. Ele era o deus da libertação, da orgia, do êxtase e do entusiasmo, que tinha na videira o seu maior símbolo. Seu culto logo se tornou popular, sendo considerado como o deus dos deserdados, dos que não tinham vez na polis aristocrática, as mulheres, os metecos (estrangeiros), as crianças e os escravos. Ele fazia parte de um grupo de divindades que lembrava a morte, a catábase, a viagem infernal, e o renascimento. 


ORFISMO
O sucesso do orfismo na polis grega, como seita religiosa, se deve provavelmente a este problema, o dos desregramentos dos cultos dionisíacos, sempre temíveis, sobretudo sob o ponto de vista político. Não é de espantar que o cristianismo, nos seus primórdios tenha chegado a ver Orfeu como uma prefiguração de Cristo. Orfeu é um personagem mítico, sedutor, que aparece no mundo grego como uma tentativa de se neutralizar os “perigosos” cultos dionisíacos, sempre uma ameaça para a polis aristocrática, apolínea. 


ORFEU
Recapitulando rapidamente o leit motiv da história de Orfeu, grande poeta e cantor, lembremos que devido à morte de sua amada, Eurídice, ele obteve permissão para retirá-la do inferno sob a condição de não procurar revê-la até que tivessem ambos saído do mundo infernal, ele caminhando na frente, ela atrás. Mas no momento em que está para atingir o mundo dos vivos, Orfeu se volta para vê-la, perdendo-a, por isso, definitivamente. Desesperado, tentou ainda recuperá-la, mas em vão, Eurídice retornara ao Hades. Cheio de dor, Orfeu desde então desdenhou todas as mulheres. Por essa razão, foi destroçado pelas mênades, as sacerdotisas de Dioniso.


ORFEU   E   EURÍDICE  ( G. F. WATTS , 1870 )

Segundo a doutrina órfica, a alma imortal habita um corpo mortal; depois da morte, ela passa uns tempos no inferno para se purificar, reencarnando depois num outro corpo humano ou mesmo no de um animal, enriquecendo-se de experiências nestas transformações sucessivas, semelhantes ao samsara dos hindus. Só os iniciados conheciam as fórmulas mágicas que permitiam a metempsicose e a salvação definitiva da alma. O orfismo comportava muitos dogmas, princípios filosóficos, regras de alimentação, controle da sexualidade etc. Praticavam os órficos a abstinência da carne e vestiam-se de branco, símbolo da pureza. 

O orfismo e o cristianismo trouxeram ao mundo grego e helenístico a promessa de uma vida futura. Ambos, Orfeu e Cristo, aparecem assim como mediadores da divindade para multidões sofredoras da agonizante cultura greco-romana, falando-lhes de uma vida eterna. Cristo é, porém, um produto típico de uma religião patriarcal, cujos profetas representam seu Deus como um ser absoluto. A orientação do cristianismo quanto ao espaço e ao tempo é também muito diferente daquela que o orfismo propunha. Este nos fala de uma religião que propõe uma alternância cíclica entre o mundo inferior e o superior que lembra a alternância do mundo vegetal; o outro, o cristianismo, é celestial, escatológico e finalista (para informações mais detalhadas sobre o Orfismo, leia neste blog o artigo Orfeu ou O Fracasso de um Poeta). 




domingo, 4 de janeiro de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (1)



SISTEMA    SOLAR


Júpiter  é o maior planeta do sistema solar. Sua distância da Terra varia entre mais ou menos 600 milhões de km e cerca de 970 milhões de km. Apesar dessa grande distância, pode ser visto sem o auxílio de instrumentos óticos. Seu diâmetro é de aproximadamente 142 mil km (o do Sol é de 1.390.000 km e o da Terra cerca de 12.200 km).

Apesar de gigantesco, a densidade de Júpiter  é de apenas 24% da densidade da Terra, por ser constituído em grande parte de material gasoso. O ano de Júpiter equivale a doze anos nossos, ou seja, ele leva doze anos para fazer uma revolução em torno do Sol. Seu dia, porém, é o mais curto do que o de qualquer planeta, menos de doze horas terrestres. Imenso, gira em torno de seu eixo com uma velocidade de 47.100 km por hora.  

Júpiter dá início à série dos grandes planetas pesados, constituída por ele, Saturno, Urano e Netuno, todos se distinguindo por seu volume, por sua massa e por sua densidade. É o mais volumoso dos planetas do  sistema solar; de Mercúrio a Plutão todos caberiam dentro dele e ainda sobraria algum espaço. É o primeiro dos chamados planetas pesados, isto é, de marcha lenta se o compararmos com os mais rápidos, Mercúrio, Vênus e Marte. Do ponto de vista astrológico, estes três últimos, mais os luminares, são astros que dizem respeito à vida pessoal do ser humano enquanto Júpiter e Saturno relacionam-se com a sua vida social e os transaturninos (Urano, Netuno e Plutão), também chamados transpessoais, invisíveis a olho nu, têm a ver com fatores psíquicos, com a vida inconsciente.

Júpiter ocupa um lugar central com relação aos planetas que orbitam em torno do Sol. Antes dele, temos Mercúrio, Vênus (chamados planetas interiores), mais Terra e Marte; depois de Júpiter, o mesmo número de corpos celestes, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. É devido a esta posição central que Júpiter representa o princípio do equilíbrio, da autoridade, da ordem, da estabilidade e do progresso. É pela mesma razão que Júpiter representa os preliminares da iniciação e que, na antiguidade, imperava sobre sobre as leis, a medicina e a religião, que se nutriam da Tradição.


CONSTELAÇÃO    DE    SAGITÁRIO

Simbolicamente, Júpiter sempre significou legalidade social, abundância, riqueza, otimismo, expansão, confiança. Como planeta regente das constelações de Sagitário e de Peixes, tem, respectivamente, ligação com ideias de justiça e de compaixão ativa. No organismo humano, se mostra através da circulação (a química do sangue, especialmente), os quadris, o coxo-femural e o fígado.  


CONSTELAÇÃO    DE    PEIXES

No mundo mesopotâmico, quem reinava absoluto sobre todos os planetas  era o deus  Marduk, cuja descrição pode ser encontrada na
quinta tablita da Epopeia de Gilgamés: Ele construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


MESOPOTÂMIA     -     BABILÔNIA

APSU
Quando a Babilônia se tornou a cidade principal da Mesopotâmia, submetendo todas as demais, Marduk, de uma divindade local, menor, foi levado à condição de divindade superior. Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa Casa da Água, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza.


MARDUK

Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da Terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


TIAMAT

Da união dos dois princípios, nasceram os grandes deuses: Anu, Bel e Ea, além de outras divindades menores. Instigadas por Tiamat, algumas divindades começaram a perturbar a vida cósmica, especialmente a Terra. Anshar convocou então Marduk, seu filho querido, e o exortou a combater Tiamat. Marduk aceitou, mas exigiu, numa assembleia divina, que lhe fosse dada a autoridade suprema, absoluta. 

Anu, o poderoso, reinava nos espaços celestes e jamais os abandonava. Quando saía de sua imobilidade majestosa, dava apenas um passeio por uma parte do céu, que lhe era exclusiva. Apesar de sua supremacia, não se misturava com as coisas terrestres. Não se envolvia na luta contra Tiamat, deixando nas mãos de Marduk a solução do problema. Vivia majestosamente em companhia da deusa Antu, interessando-se só pelas questões universais.

Bel era diferente, envolvia-se muito com as questões terrestres. Quando a Babilônia se impôs às demais cidades do país, Bel assumiu as atribuições do deus Enlil, então senhor da atmosfera, divindade das tempestades, cuja principal arma era o amaru, o dilúvio. Tornou-se Bel o grande dispensador dos bens e dos males. Podia tudo, destruir os homens ou salvá-los, inclusive intervir na terra para libertá-la dos monstros que a atacavam. 

POSEIDON
Ea é nome que significa casa da água, sendo possível associá-lo ao Poseidon dos gregos. Seu domínio era o Apsu, e sua forma a de uma espécie de serpente líquida que envolvia a terra, no que lembrava o deus grego Oceano. As fontes e os rios eram dele. Governava os oráculos. Envolvia-se nos trabalhos humanos, sendo o patrono dos carpinteiros, dos construtores que trabalhavam pedras e dos metalúrgicos.

Marduk era o filho mais velho de Ea, saído diretamente do Apsu, personificando na origem a ação fecundante das águas, fazendo crescer as plantações, tendo o caráter de uma divindade agrária. Seu emblema era a enxada. Tornando-se a Babilônia, sua cidade de eleição, o centro da vida política da Mesopotâmia, assumiu o lugar mais elevado no panteão do país. 

A plenitude divina era dele e nela se incluíam, além de suas atribuições originais, mais as seguintes características e  funções: 1) a luz do pai que o engendrou; 2) a renovação da ordem divina; 3) o poder dos encantamentos, sendo-lhe possível trazer os mortos à vida; 4) o conhecimento do coração dos deuses; 5) a guarda da Justiça e do Direito; 6) a criação de todas coisas; 7) o poder sobre todos os reis; 8) a ascendência sobre todos os deuses.

Assim, Marduk absorveu todas as atribuições dos demais deuses, fixando-os nos seus domínios, reorganizou o universo e estabeleceu o curso dos astros. Além disso, criou o ser humano a partir do seu sangue, tornando-se o dono das artes da cura, uma espécie de grande-xamã, e patrono de todos os encantamentos mágicos. 


SHAMASH
As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukkus, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor e da guerra) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukkus chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga e enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz.


ISHTAR


SARPANIT
Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit.  



MARDUK    E    TIAMAT


NERGAL

Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, Fortuna Maior

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

AMON - RÁ
Para os egípcios, Júpiter era Amon-Rá, grande divindade, conhecida como o rei dos deuses, muito semelhante ao Zeus grego. Praticamente desconhecido no período do antigo império, antes de 2000 aC, Amon assume uma proeminente posição a partir dos primeiros séculos do médio império. Seu nome provém de uma raiz que significa o escondido. Sua promoção ocorre dentro do sistema cosmogônico de Hermópolis, que tinha em Toth a sua principal divindade. 

AMON
Amon tornou-se aos poucos a divindade suprema do país, já unificado, sendo Tebas a cidade de onde se irradiava todo o seu culto. Aparecia comumente antropomorfizado, com uma cabeça de bronze, coberta com uma espécie de gorro alto em forma de torre, no qual se fixavam duas penas, a simbolizar a união do alto Egito com o baixo Egito. Majestoso no seu trono ou em pé, carregava nas mãos quase sempre um chicote. Muito comum também era a sua representação  com uma cabeça de carneiro, viva encarnação do deus, à qual se juntava simbolicamente um  ganso, seu animal sagrado. 




GANSOS  -  PINTURA   TUMULAR  EGÍPCIA
Quanto ao ganso, registre-se que ele, ao lado do pato e do cisne, faz parte, em antigas tradições mitológicas, de um grupo de aves aquáticas inimigas das trevas. No antigo Egito, a alma do faraó defunto era representada por uma gansa enquanto a designação do novo era anunciada por quatro dessas aves, soltas, lançadas na direção dos quatro cantos do horizonte.   


AMON   ITIFÁLICO

A associação do carneiro a Amon revelava que era dele a força genésica que punha em movimento os ciclos vitais como também o comando de todos os exércitos e das operações militares. Força produtora e geradora, Amon, numa forma itifálica e vegetal, era considerado como o marido de sua mãe (natureza) e, como tal, aquele que mantinha a vida no seu processo criativo. 

A partir do médio império, entre 2133 aC e 1786 aC, Amon tornou-se o grande protetor de todos os faraós do período, durante o qual a centralização do poder político coincidiu com a instauração do monoteísmo religioso, modelo que serviria mais tarde de inspiração para o monoteísmo judaico. 

Tornando-se a grande divindade nacional, Amon começou a ser chamado de Amon-Rá. A classe sacerdotal, como sempre afinada com o poder político do país, manobrou sutilmente para que Amon absorvesse as atribuições de uma antiga divindade solar, Rá, que tinha o título de criador, mestre do céu, cujo santuário ficava na cidade que os gregos chamaram de Heliópolis. Assim, foi sob o nome de Amon-Rá que a nova divindade, nas imagens das tumbas reais, apossou-se da barca do Sol e passou a iluminar o mundo inferior durante as doze horas da noite. 


AMENOPHIS III
Glorioso e onipotente durante alguns séculos, Amon-Rá começou a perder prestígio lá pelo fim do reinado de Amenophis III, ao final do séc. XV aC, quando uma nova divindade começou a se impor, Aton (o disco solar que dá origem ao dia), filho de Amon-Rá e da rainha-mãe, mulher de Thutemosis IV. Quem deu grande impulso ao novo culto foi Amenophis III (etimologicamente, Amon está satisfeito), que adotou um novo nome, Akhenaton (a glória de Aton). 

O reinado do deus Aton durou pouco, entretanto, restaurando-se o poder de Amon pelos faraós da décima nona dinastia. Incorporado
ATON
definitivamente o nome de Rá ao seu, Amon teve o seu prestígio ainda mais aumentado. Durante o império de Ramsés III, um inventário dos bens do deus nos informa que ele possuía, dentre outros itens de riqueza, mais de oitenta mil escravos e mais de quatrocentas mil cabeças de gado. Os sacerdotes de Amon eram escolhidos entre os mais poderosos senhores do país, que logo estabeleceram um sistema hereditário com relação ao poder religioso e à administração dos bens do deus. Com isso, se formou uma espécie de estado teocrático, exercendo o deus o seu poder por oráculos e por uma extensa rede burocrática de caráter administrativo-religioso que tinha como figura principal o faraó. O poder do renovado Amon se estendeu às tribos do deserto, os beduínos, criando-se inclusive muitos centros religiosos para o atendimento do grande número de peregrinos que continuamente afluíam ao país para reverenciar o deus. 


No médio império, toda a vida do país estava impregnada fortemente de religião. Não havia uma separação entre a esfera do religioso e do político, do Estado. Deificado o governante, os assuntos civis e religiosos se processavam em conjunto. Nesse mundo, porém, era possível distinguir algumas subdivisões do poder, uma administração civil, centralizada na figura de um vizir, uma administração dos templos, nas mãos dos sumos sacerdotes, e um exército profissional, que se tornou progressivamente forte em períodos em que o Egito expandiu o seu império, como aconteceu no médio império.

A proeminência de Amon coincidiu com a supressão dos privilégios feudais, com a realização de grandes obras de irrigação, com a ativa exploração das minas de cobre do Sinai e a construção de postos avançados no sul, até a terceira catarata do Nilo. Culturalmente, o chamado período Amon foi de esplendor, dando-se muita ênfase à arte do retrato, à literatura clássica e à construção de templos e de esculturas em escala colossal.

Não podemos esquecer, quando tentamos buscar no Egito as relações entre a religião (mitologia) e a astrologia, que o calendário egípcio foi estabelecido por e para agricultores. Fato importantíssimo nesse cenário era o da inundação do rio Nilo, que se estendia por cerca de um terço do ano. As outras duas partes, sensivelmente iguais, eram a germinação dos vegetais (cereais) e a sua colheita. Tínhamos assim no Egito três estações de quatro meses cada, muito bem demarcadas, de 120 dias cada uma. Akhit era o nome do período da cheia do Nilo; perit, o da germinação dos vegetais; e chemu, a colheita. Muito antes do início da quarta dinastia, o ano egípcio já contava com 365 dias. 


CANIS   MAJOR

Como o início da cheia do Nilo não tinha uma data fixada para começar, foi procurado um ponto de observação o mais estável possível. Esse ponto de observação foi o aparecimento da estrela Sírius (Sothis em grego e Sepedet, em egípcio), que passou a marcar o início do ano. Sírius, como se sabe, é a estrela alfa da constelação do Canis Major, atualmente a 13º24´ de Câncer. Lembro que Ptolomeu afirmava que as influências dessa estrela se assemelhavam às de Júpiter, com um leve toque marciano. Sírius é a estrela mais brilhante do céu depois do Sol; era chamada pelo egípcios de a que seca e queima, a brilhante ou a estrela do Nilo. O Nilo e a sua cheia sempre foram associados a Osíris e Ísis em sua eterna luta contra a desertificação, representada por Seth ou Apófis.


ÍSIS   E   OSÍRIS

Os egípcios sempre observaram os céus com muito interesse. Já distinguiam perfeitamente as estrelas que faziam parte das constelações circumpolares, chamando-as de indestrutíveis porque sempre visíveis. Davam o nome de infatigáveis aos planetas e às estrelas que nem sempre eram permanentemente visíveis. Escolheram 36 estrelas que passaram a presidir as 36 partes do ciclo anual celeste, de dez graus cada uma. No Médio Império foram estabelecidos quadros divididos em 36 colunas verticais e 12 registros horizontais, sendo-lhes possível trabalhar assim com os decanatos.


ASCLÉPIO
A tradição fala de Imhotep, um arquiteto, vizir do faraó Djoser, grande sacerdote de Heliópolis, construtor em Saqqara da primeira pirâmide em degraus, como o pai do calendário egípcio, por ele fixado em 2780 aC. Médico e sábio também, depois de sua morte Imhotep passou a ser venerado como um filho do deus Ptah. Os gregos o associaram à imagem de Asclépio, filho de Apolo, deus médico de Epidauro. 

Parêntese: o cinema americano, num filme, classificado como de terror, intitulado A Múmia, realizado em 1932, dirigido por Karl Freund, com Boris Karloff no papel título, trouxe de volta para nós  a história de Imhotep, cuja múmia, no filme, volta acidentalmente à vida depois de 3.700 anos. O sacerdote-arquiteto fora embalsamado vivo por haver tentado reviver a mulher que amava, após ela ter sido sacrificada. No século XX, o cinema promoveu o encontro deles.

Foi certamente com base no calendário de Imhotep que se procedeu, para fins astrológicos, à fusão da nova divindade do Médio Império, o todo-poderoso Amon, simbolizado nos céus pelo planeta Júpiter, com Rá, antiga divindade, cujo símbolo era o Sol. Na cidade de Denderah, no alto-Egito, perto de Luksor, às margens do Nilo, hoje um sítio arqueológico, descobriu-se há muito uma das mais antigas representações do zodíaco, pintada no teto do templo de Hathor  


HATHOR
Hathor era uma grande divindade celeste, representada por uma vaca, seu animal sagrado, sendo considerada como filha de Ra. A deusa gostava de tomar a forma de um sistro, instrumento de percussão, usado para afastar os maus espíritos. A forma desse instrumento musical foi usada pelos arquitetos para a construção do templo da deusa em Denderah. Protetora das mulheres, deusa do amor, da alegria de viver, soberana da dança, quando os gregos chegaram ao Egito associaram a deusa à sua Afrodite. 

Através do seu animal sagrado, ela saciava a fome da humanidade. Era Hathor conhecida também como a Senhora do Sicomoro; esta árvore, sagrada, muito encontrada nas zonas que faziam a transição dos terrenos férteis para os desérticos, servia de proteção para as almas dos mortos que, tomando a forma de pássaros, vinham se acomodar nos seus galhos. A sombra de sua copa e o macio de sua ramagem eram garantia de acolhimento seguro no Outro Lado. Hathor pontificava no santuário de Denderah em companhia de seu marido, o grande Hórus, que aqui lhe dava precedência; junto deles estava sempre, a agitar o sistro, o filho de ambos, Ehi, na forma de uma criança.  


SANTUÁRIO   DE   DENDERAH

Produzido pela divisão dos céus em doze partes de 30º cada uma, e cada uma delas entregue a uma divindade, o zodíaco de Denderah tem seu ponto de partida no signo de Rá, ou melhor, de Amon-Rá, que se estende de 16 de julho a 15 de agosto no nosso calendário, sendo seu regente o Sol (jupiterizado). Características mais ou menos semelhantes às do signo de Leão do nosso zodíaco, com algumas contribuições arianas e jupiterianas. Presentes sempre ideias de determinação, criatividade, habilidade para a superação de dificuldades, renascimento, combatividade, além de atitudes impositivas e dificuldades para lidar com rejeições.

A deusa que governa o segundo signo, correspondente ao de Virgem (16/8 a 15/9), é Neith, divindade que os gregos associavam
NEITH
a Palas Athena. Neith era protetora da cidade de Sais, no delta do Nilo, com o seu emblema de duas flechas cruzadas sobre a pele de um animal, sendo por isso considerada uma divindade ligada à caça. A arte de tecer bem como as atividades domésticas estavam sob a sua tutela. Era também divindade protetora dos mortos que chegavam ao Outro Mundo, recebendo-os com pão e água. Neith pontificava num famoso templo em Sais (capital do Egito sob o reinado de Psamético I, fundador da XXVI dinastia, em meados do séc. VII aC) junto do qual havia uma escola de medicina, Casa da Vida, que recebia alunos de várias partes do mundo antigo. 



MAAT

A deusa que governava o signo que corresponde ao de Libra (16/9 a 15/10) no nosso zodíaco era Maat, deusa da justiça e da verdade. Seu símbolo eram as penas do avestruz (absolutamente iguais), emblema da equidade. Era filha querida e confidente de Rá, mulher de Thot. Fazia parte do cortejo de Osíris e atuava na psicostasia, juntamente com Osíris, Thot, Anúbis, Amamet, o monstro devorador, e os quarenta e dois juízes. Tolerância, convivência harmoniosa e aconselhamento fazem parte da vida dos nascidos sob a proteção de Maat. Sempre presentes, porém,  riscos de indecisão e de insegurança. 


OSÍRIS
Osiris governava o signo que corresponde ao de Escorpião (16/10 a 15/11) no nosso zodíaco. Foi em vida o primeiro faraó do Egito. Ao levar a sua proposta político-religiosa para o mundo, tendo deixado o poder interinamente nas mãos de sua mulher, Ísis, foi assassinado por seu irmão, o monstruoso Seth. Despedaçado, seu corpo foi depois recomposto pelas artes de sua mulher e do deus Toth. Deixando então o mundo dos vivos, Osíris desceu aos Infernos para se tornar o deus da ressurreição dos mortos, no que lembra muito os deuses Shiva e Dioniso. Os do signo são de temperamento forte, extremistas muitas vezes, principalmente quando contrariados. Sensualidade e persistência são comuns, juntamente com atitudes destrutivas.   
   
Hathor dominava o signo (16/11 a 15/12) que corresponde no nosso zodíaco a Sagitário. Além do que já se disse sobre a deusa, acrescente-se que ela, na astrologia, atuava nos domínios da arte, do conhecimento superior e das viagens. As pessoas protegidas por ela são exuberantes, mas podem se perder devido a exageros e à sua excessiva boa-fé e otimismo. 

ANUBIS
Anúbis, o guardião dos mortos, dominava o signo correspondente a Capricórnio no nosso zodíaco, entre 16/12 a 15/1. Os gregos o identificavam como Hermes psicopompo. Era representado sob a forma de um chacal negro; sua cidade era chamada pelos gregos de Cynopolis. Tinha a ver com os embalsamamentos e com as preces funerárias. Sua atividade dependia muito da balança da verdade. Pessoas tocadas pelo deus são perseverantes, buscam a realização sob o ponto de vista material, no geral, porém, demorada. Gostam muitas vezes de assumir o papel de juízes, tornando-se muitas vezes implacáveis neste papel.


BASTET
A deusa-gata Bastet dominava o signo correspondente a Aquário no nosso zodíaco, entre 16/1 a 15/2. Personificava o calor fecundante do Sol, era considerada como esposa e irmã de Rá. Suas festas envolviam multidões, sempre com muita música e dança, nelas se consumindo muito vinho. Era protetora natural das grandes causas. As pessoas tocadas por ela costumam apresentar um comportamento às vezes inexplicável, como o do felino símbolo do signo.

O signo que corresponde ao de Peixes no nosso zodíaco é dominado pela deusa Taueret (16/2 a 15/3), deusa da fertilidade,
TAUERET
também chamada de Thueris, A Grande, muito popular, relacionada com a maternidade e o aleitamento. Era representada por uma mulher-hipopótamo, com seios pendentes, ereta, apoiada sobre as patas traseiras, e tendo diante dela o hieróglifo da proteção. Adorada especialmente em Tebas, pelas classes média e baixa da sociedade, que costumavam dar seu nome às crianças do sexo feminino e ornar as suas casas com imagens da deusa. Além de muito protetora, compassiva, generosa; algumas pessoas tocadas por ela podiam apresentar dons mediúnicos. Às vezes, Thueris, a par de suas tendências protetoras, mostrava-se, quando não honrada devidamente, muito irritada, até vingativa, afetando desta maneira aqueles atingidos por seus raios.



SEKHMET
Sekhmet era a deusa da guerra. Seu céu correspondia ao do signo de Áries (16/3 a 15/4) no nosso zodíaco. Representada normalmente por uma leoa ou por uma mulher com a cabeça do animal. Seu nome significa A Poderosa. Lançou-se furiosamente contra todos aqueles que se opuseram a Rá, a ponto deste, temendo um extermínio catastrófico, ter que intervir, pedindo-lhe mais calma. Para contê-la, por sugestão do próprio Rá, os humanos instituíram uma festa, sendo a ela oferecidos milhares de tonéis de cerveja, à qual se adicionava suco de romã para torná-la avermelhada, lembrando o sangue, sorvida a bebida com muita avidez pela deusa. A seu culto se ligavam os especialistas em todos os tipos de fraturas.As pessoas tocadas pela deusa são naturalmente enérgicas, autoritárias e intolerantes.

PTAH
Cabia a Ptah o céu de Touro no nosso zodíaco (16/4 a 15/5). Protetor dos artesãos e dos artistas, os gregos o identificaram como o seu Hefesto. Inventor das artes, metalúrgico, grande construtor, Ptah era honrado num dos mais antigos templos egípcios, em Mênfis. Algumas vezes era representado por um anão de pernas tortas, como agente transformador dos recursos naturais. Perseverante, paciente, Ptah protegia os que buscavam segurança e conforto sob o ponto de vista material. 


TOTH
Toth era o dono do signo que correspondia ao de Gêmeos no nosso zodíaco (16/5 a 15/6). Escriba divino, deus da inteligência, como o Hermes grego, era conhecido como deus Djeuthi (Djeuth era o nome do baixo-Egito), divindade lunar, inventor dos hieróglifos. Sua cidade era Hermópolis Parva, depois transferida para o alto-Egito com o nome de Hermópolis Magna. Era comumente representado por um ibis ou às vezes na forma de um macaco. Patrono da história, anunciava o nome dos futuros faraós. Protegia os que viviam da atividade mental e aqueles que se valiam das mãos para a execução de trabalhos. 

ÍSIS

A mais importante das divindades egípcias, Isis, era dona do espaço celeste que correspondia ao nosso signo de Câncer. Identificada pelos gregos ora como Hera, como Deméter, como Selene e até como Afrodite. Seu culto e sua religião de mistério (morte e renascimento) não cessou de se desenvolver ao longo da história do Egito. Grande mãe, maga, protetora, sua adoração estendeu-se até os primeiros séculos do cristianismo. Os tocados por ela são tranquilos, gostam do conforto familiar, possuindo naturalmente o instinto maternal.