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domingo, 18 de julho de 2021

ISAAC & KRONOS - COMPLEXOS PATERNOS

             

Na base das ordens religiosa, social e política ocidentais, atreladas de um modo geral ao chamado mundo masculino, a figura paterna sempre representou tradicionalmente a autoridade suprema nas três. Pai dos Deuses, Pai de Família e Pai da Pátria são expressões comumente encontradas em muitos textos que discutem tais ordens. Se vamos a outros ramos do conhecimento humano, os que tratam do nosso psiquismo, como a Psicanálise, por exemplo, a figura paterna aparece não só como instância ordenadora do nosso eu superior como aquela que tanto interdita o acesso do homem (filho) à figura materna como lhe inflige simbolicamente vários tipos de castração.

É por todas estas razões que a figura paterna, detentora do poder gerador ativamente considerado, assume vários papéis, os de dominação, de posse, de criador de valores etc. Deus, pai, patrão, mestre, tirano, professor, regente, são os papéis normalmente a ela atribuídos, concebidos, de um modo geral, como desestimuladores ou inibidores de quaisquer esforços de libertação por parte dos que a ela estão submetidos em vários níveis. A figura paterna, com relação aos filhos, é de se lembrar ainda, subsiste, em muitas tradições ocidentais ou não, como um ideal de transcendência que deve ser aceito pelos que dela dependem a título de uma relação inspirada, muitas vezes religiosamente, pelo chamado amor filial.

Para ilustrar este tema utilizei-me da história de Kafka, trazendo para nossa consideração as relações que ele manteve com o Pai, Hermann Kafka, comerciante estabelecido em Praga com negócio de armarinho. Em 1919, Franz Kafka, então com 36 anos, anunciou ao pai que ficara noivo de Julie Wohryzek. A frieza paterna foi o que obteve como resposta. Decepção, mágoa, ódio, talvez, fracasso, sentimentos confusos se misturaram, conforme um documento que escreveu sobre esse acontecimento. Esse documento faz parte hoje da literatura mundial. Seu título: Carta ao Pai. Nele, Kafka, chama o pai ora de regente, tirano, rei, Deus, papéis aos quais acima nos referimos.  Dentre outras expressões, para se referir ao pai, usa uma que ficou muito citada: Tu eras para mim a medida de todas as coisas...

A METAMORFOSE
Em texto anteriormente aqui exposto, Kafka e a Barata, me referi aos complexos que, para mim, estão ligados às relações de Franz com o pai, os de Isaac, de Kronos e de Édipo. Procurarei me ater resumidamente aos dois primeiros, menos conhecidos, deixando o último, para considerações posteriores, por suas ligações com a mitologia grega (Sófocles), nem sempre exploradas adequadamente pelos que do tema edipiano se valeram e, sobretudo, pela importância que Freud lhe deu em sua obra.

Geralmente, dá-se o nome de complexo a um lugar de condensação na nossa interioridade onde represamos sentimentos e representações parcial ou totalmente inconscientes, com enorme carga afetiva. São núcleos, agregados, ajuntamentos de conteúdos psíquicos que não chegando ao nosso consciente navegam de modo autônomo na nossa interioridade. Muitos desses núcleos não têm a devida consistência para se fazerem sentidos. Podem, contudo, ganhar corpo, formando uma espécie de segundo eu, causando divisões quanto à personalidade que o carrega. Um outro eu que pode tomar diversas formas. Adquirem eles, nesse caso, vida própria, tornando-se bastante ativos, impondo-se muitas vezes ao que denominamos vontade, podendo mesmo, em muitos casos, destruir a noção de identidade.

ASCLÉPIO
Os gregos antigos, através dos seus mitos, já haviam notado a importância desse fenômeno. Perto de Atenas, no santuário médico de Epidauro, do deus Asclépio, o deus-toupeira, os sacerdotes que lá viviam, dentre outros procedimentos terapêuticos que adotavam para dissolver ou descarregar a energia assim represada no psiquismo dos pacientes que os procuravam, praticavam a chamada nooterapia, com o auxílio da oniromancia (interpretação dos sonhos), dentre outras técnicas. Estas terapias tinham não só a finalidade de curar as mentes doentes como de reformar o homem por inteiro, psíquica e fisicamente, através de várias atividades e controles (canto, dança, teatro, esportes, cuidados alimentares etc.). O objetivo último era o de provocar nos que lá se internavam a metanoia, a transformação da mente para que os sentimentos represados fossem eliminados. Estes sentimentos, como agentes mórbidos, eram não só os causadores de muitas doenças do corpo físico como de muitos distúrbios na vida psíquica. Cura? Só com a destruição ou transformação dos sentimentos.

A partir de fins do século XIX, com a intensa retomada no ocidente das terapias do psiquismo, afastados, ainda que com muita dificuldade, os preconceitos religiosos e os da ciência oficial, aos complexos foram sendo atribuídos nomes de vários personagens do mito, da religião e da literatura. Através desses nomes definiram-se comportamentos, padrões de conduta, formando-se uma espécie de demonologia, que, em grande parte, passou dos confessionários religiosos para os consultórios médicos. Os exemplares desse universo estão nos mitos de diversas culturas. Muitos os chamam de arquétipos, modelos de comportamento, há muito forjados, que se impunham. Arche, em grego, é palavra que lembra superioridade, comando, anterioridade, antiguidade, poder, precedência; typos é marca impressa num corpo, em alguma coisa. Arquétipo, numa tradução livre, é o poder do antigo, do que foi forjado há muito tempo e que se impõe.

Os exemplares desse universo estão nos mitos, nas lendas, na literatura, nos contos, em histórias muito antigas, fazendo parte de tradições às vezes esquecidas ou perdidas, encontrados em todas as culturas. Sua origem é muito discutível. Partiram de um tronco único? Ou cada sociedade os fabricou? O que parece mais aceitável é que esses padrões de comportamento aparecem como símbolos a partir de um modelo original. Conforme o contexto social em que aparecem, são atualizados simbolicamente em cada momento histórico, como se disse, pela arte, pela literatura, pelo teatro e hoje pelo cinema, pelo teatro, pela chamada comunicação de massas.

O revestimento básico desses padrões de comportamento, na cultura ocidental, é dado, na sua maior parte, pela mitologia grega, não se excluindo deste predomínio, porém, o fato de outras culturas terem colaborado bastante para dar vida a outros modelos. Os complexos constituem um entrave na vida de qualquer pessoa, criando sempre muitos obstáculos para o pleno desenvolvimento de sua personalidade. Sociedades muito rígidas, de características acentuadamente puritanas, por exemplo, favorecem o aparecimento e a fixação desses complexos. 

Dentre alguns complexos vindos desse mundo, um dos mais significativos é o de Isaac, que aqui abordamos. O nome do filho de Abraão e de Sara, Isaac, deriva do verbo rir. Os pais o tiveram já velhos, daí o riso, as gargalhadas, quando anunciado o seu futuro nascimento. Deus testou a fidelidade de Abraão (10 testes). Um dos testes foi o de que ele deveria oferecer o filho tão aguardado ao sacrifício.

Segundo a tradição bíblica, Abraão era um respeitado patriarca e grande astrólogo em sua terra (Ur, Mesopotâmia). Quando tinha 75 anos foi visitado por Deus. Recebeu ordens para abandonar sua casa e seus pais e partir em direção de uma terra que Deus lhe mostraria.  Seguindo em direção de Canaã, com sua esposa Sara, seu sobrinho Lot e companheiros convertidos à sua fé monoteísta, Deus lhe prometeu, dentre outras coisas, uma descendência numerosa, tão numerosa quanto as estrelas do céu, como está no texto bíblico. 

Quando Abraão chegou aos 99 anos, Deus lhe apareceu novamente para ratificar com ele e seu povo sua aliança e ordenou que ele se circuncidasse, um símbolo da referida aliança, prática a ser mantida por todos os seus descendentes. Como a tradição revela, foi a partir desse acontecimento que Abraão se tornou perfeito, que o nome de sua mulher, também muito idosa, foi mudado de Sarai (minha princesa) para Sarah (princesa de todas as nações), e que se anunciou para breve o nascimento do filho tão desejado. Assim aconteceu, nascendo Isaac.

SACRIFÍCIO DE ISAAC
(REMBRANDT,1606-1669)
Homem cheio de devoção e benevolência, Abraão foi submetido então por Deus a vários testes para que, através deles, desse demonstração de sua fé. O seu último e mais difícil desafio, como a Torá revela, era o do sacrifício de Isaac. Conhecemos os detalhes da viagem do pai e do filho, então com 25 anos, para o local do sacrifício, o monte Moriá. No último momento, porém, quando Abraão estendeu a mão para cortar a garganta de seu amado e dócil filho, surgiu o arcanjo Gabriel que salvou Isaac. Akedá é como os judeus chamam este teste de obediência, também designado por alguns pelo nome de teste da amarração. 

No lugar de Isaac foi colocado um carneiro, animal sacrificial por excelência, que, como se sabe, representa o princípio solar viril, luminoso, ligando-se o seu simbolismo ao ciclo das estações. Na tradição judaica, cristã e muçulmana o animal torna-se a vítima sacrificial do período do Pessach, da Páscoa e do Ramadã, inclusive entre os povos védicos. Adotado especialmente pelos cristãos, o animal representa o Messias, o Verbo divino. Sempre ligado a ritos de fertilidade, ele aparece associado à chamada festa equinocial da primavera, enquanto a festa do bode tem relação com a das colheitas. 


Lembremos que bem antes de Abraão, o primeiro patriarca judeu, o carneiro já aparecia como um símbolo astrológico-religioso. O shofar, pequena trompa feita com chifres desse animal, passou a ser empregado em rituais religiosos e usado em sinagogas ao fim do Yom Kipur. No cristianismo, o Pessach tomou o nome de Páscoa. Outra versão, porém, narra que foi Abraão quem colocou, como um sacrifício alternativo, no lugar de Isaac um carneiro, animal que aparecia como suporte simbólico de numerosos ritos que falavam da continuidade da vida. O que se sabe quanto a Isaac, é que após a traumática experiência da akedá, ele se retirou da vida mundana, mas ficou com sérios problemas nos olhos por ter olhado o céu enquanto estava amarrado no altar do sacrifício e visto Deus. Além disso, seus olhos foram também afetados pelas lágrimas de chorosos anjos, apiedados de sua sorte.

Sob o ponto de vista astrológico, não há como se negar que a história de Isaac esta repleta de símbolos arianos. Áries é o signo do Carneiro, marcado pela entrada do Sol, a cada ano (hemisfério norte), a 21 de março, nessa constelação (equinócio da primavera). Áries é o signo que marca o despertar da natureza, a passagem do frio ao calor, da escuridão à luz. Lembremos que o carneiro entre os muçulmanos está na relação dos dez animais admitidos por Maomé no paraíso. A divindade védica Kubera, guardiã dos tesouros e das riquezas da Terra, aparece cavalgando um carneiro divino, sua montaria (vahana).  

Isaac foi o primeiro judeu a ser circuncidado no tempo certo (oito dias depois do nascimento). Para desfazer boatos sobre seu nascimento, Isaac foi criado de modo a que se parecesse o máximo possível com seu pai. Por exigência de Sara, Ismael (Deus escuta, em hebraico) e a mãe, a escrava Agar, foram expulsos por Abraão, tornando-se nômades do deserto. Apareceu-lhes então um anjo que os conduziu a um poço onde o Senhor anunciou a Agar que de seu filho nasceria uma grande nação. Seus descendentes seriam chamados de filhos do vento. Nômades e livres, eles tomaram o nome de beduínos (de badw, deserto) por se considerarem os únicos descendentes diretos de Ismael. Isaac se casou com Rebeca e se tornou pai dos gêmeos Esaú e Jacó. 

CHOURAQUI
Diante do exposto e das preciosas informações que retiramos da "Insólita Bíblia" (tradução francesa e comentários de André Chouraqui, 1917-2007), o tema do complexo ilustrado por esta história pode ser explicitado: Isaac é o arquétipo dos filhos aos quais os pais transferem os seus problemas para que estes os assumam ou paguem por eles; é o filho que passivamente se coloca à mercê do pai, que procura lhe impor uma profissão ou fazê-lo seu herdeiro profissional; é o caso do descendente que deve assumir deveres ou responsabilidades paternas sem se revoltar. O patriarca hebreu Abraão é, nesta perspectiva, um ser cruel, orgulhoso, dominador, um ser da separação que rejeita o amor à posteridade, apesar de tudo o que os textos da ortodoxia judaica defendem contrariamente. Na Idade Média, Isaac tornou-se o símbolo do martírio judaico. A morte de crianças judias pelos pais por causa da perseguição cristã ou pelo batismo forçado foi inspirada pela akedá de Isaac, acompanhada sempre da esperança da ressurreição. 

HEGEL, 1770-1831
Ao longo da tradição cultural da humanidade, a história de Abraão e de Isaac foi interpretada e usada de diversos modos. Hegel, por exemplo, antes de Freud, viu no Deus dos judeus a imagem da crueldade, sendo Abraão um ser da separação; seu desprezo pela humanidade leva-o a rejeitar um dos sentimentos mais profundos do ser humano, o amor à posteridade. De um modo geral, inclusive na visão de escritores modernos que se valeram do tema, como Kierkgaard, Marcel Proust, Alfred Döblin e Thomas Mann, Isaac é o exemplo da vítima consentida, escravo do Pai, ser do silêncio e da solidão, sendo Abraão um patriarca egoísta e orgulhoso.

MOZART, 1756-1791
O complexo de Isaac apresenta variadas nuances. Podemos, por exemplo, encontrá-lo no mundo da realeza, nos casos de Luís XV e Luís XVI. No mundo empresarial, temos muitos casos de filhos que nos dão lamentáveis e patéticos exemplos. Entre os profissionais liberais de sucesso são notáveis os casos do complexo de Isaac, isto é, de filhos que, sem a mínima condição profissional, herdam empresas, escritórios e clínicas famosos. Um exemplo histórico de como não funcionou o complexo foi o de Mozart, ainda que Leopoldo, seu pai, tentasse impô-lo ao jovem Wolfgang. O pai pretendeu fazer com que ele, desde a infância, “entrasse” no complexo. Só que Mozart era imensamente maior do que o papel que o pai queria lhe impor. Além de inúmeros exemplos colhidos no mundo real, a literatura poderá ser também uma boa fonte para os estudos de casos deste complexo, como encontramos em Eça de Queiroz, Balzac, Turgueniev etc. 

Quanto aos gregos, como dissemos, deixaram-nos eles um dos melhores exemplos de um complexo semelhante ao de Isaac (mas muito diferente em vários aspectos) centrado na figura paterna, arquetípico para a cultura ocidental. Os antigos poetas gregos especialmente Hesíodo, sempre consideraram a Idade do Ouro da mitologia grega, que coincidiu com a do reinado de Kronos, como um período muito favorável aos humanos. Na realidade, porém, o que temos, nesta Idade, é uma sociedade estruturada com base na figura paterna, na sua necessidade de concentração de poder, na sua rigidez e na eliminação de qualquer forma de sucessão. É por esta razão que, segundo o mito, Kronos exigia que Reia, sua esposa, lhe entregasse, assim que nascidos, os filhos para devorá-los. Este modelo grego aproxima-se muito do que Franz e seu pai Hermann viveram. Kafka, entretanto, a seu modo, a duríssimas penas, conseguiu (?) superar o massacre a que o Pai o submeteu. Outro caso  exemplar, que ilustra à perfeição este complexo, é o do italiano Gavino Leda, cuja história foi levada exemplarmente para o cinema (Padre Padrone, obra-prima) pelos irmãos Taviani.

SATURNO (GOYA, 1746-1828
Ao complexo de Kronos damos também o nome de complexo do sucessor ou do herdeiro. Nos tipos mais significativos dos que neste complexo melhor se enquadram temos os casos daqueles que jamais se sentem à vontade na relação pai-filho, sempre vivendo na defensiva com relação ao pai, no seu temor, na sua dúvida, num eterno autoquestionamento, modos de ser que costumam, considerados mais de perto, tipificar muitas fases de estados depressivos ou bipolares. É por tudo isso e muito mais que Saturno (Kronos na mitologia) é conhecido também como o planeta da melancolia, estado mórbido, depressivo, caracterizado por um esgotamento físico e moral que pode levar a um progressivo apagamento do eu, acorrentados que ficam os filhos a um destino que sempre significa aniquilação, frustração e autocrítica negativa. Foi Goya quem talvez tenha melhor ”ilustrado” este complexo com a sua fantástica obra Saturno devorando um de seus filhos, encontrada na Quinta Del Sordo, hoje no Museu do Prado.


S

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A SEDUÇÃO - I


A   TENTAÇÃO   (TETO  CAPELA  SISTINA)
                                                                                       
Seduzir vem da raiz duc, conduzir, desviar, levar a algum lugar, afetar, movimentar. Educar, assim, será conduzir corretamente. Na Itália fascista, Mussolini, com base nesse sentido, assumiu o apelido de Duce, o condutor, o guia do povo italiano. A sedução pressupõe uma capitulação, uma subjugação, uma interferência na vontade do seduzido. A palavra toma também o sentido de solapar as bases de alguma coisa, uma implosão. Daí o sentido que sedução toma moralmente, de fazer cair em falta, de fazer errar, corromper. Nesta perspectiva, há algo de demoníaco na sedução. Seduzidos, nós nos desequilibramos, perdemos o rumo. As armas da sedução: a mentira, a falsidade, a ilusão, o engodo. Toda sedução começa por uma tentação, que é um impulso para a prática de alguma coisa censurável ou não recomendável. Tentação é comichão, instigação, prurido, forniquices ou fornicoques, como dizem os portugueses,  e, finalmente, sedução. 


DOLOS

Para os antigos gregos, Apate era a personificação da sedução, do engano, da malícia, do erro. Seu irmão chamava-se Dolos, que tipificava o procedimento fraudulento. Hoje, no mundo moderno, Dolos atua principalmente no Direito Civil, onde aparece como responsável por manobras e artifícios que se inspiram na má-fé para induzir alguém a praticar atos lesivos ou prejudiciais contra si mesmo. Ele atua também no Direito Penal como a deliberada demonstração de alguém de violar a lei, por ação ou omissão, com pleno conhecimento da criminalidade do que está fazendo.


PANDORA   E   EPIMETEU

Apate e Dolos foram enviados pelos deuses aos humanos como punição por Prometeu lhes ter entregue uma parcela do fogo celeste. Quem os trouxe, com outros males, foi Pandora, a Mulher, (etimologicamente, presente de todos), encerrados numa caixa, da qual escaparam, quando ela e Epimeteu a destamparam. Apate e Dolos são filhos de Nix e do Érebo, as Trevas Superiores e as Trevas Inferiores, respectivamente. Fora da esfera jurídica, onde têm presença marcante, Apate e Dolos integraram-se também, perfeitamente, ao cotidiano dos humanos.

Apate morava nas colinas de Arniso e tinha especial predileção
AFRODITE
pelos cretenses e fenícios, famosos comerciantes e navegadores do Egeu, que a ela recorriam bastante nos seus negócios. Apate, Fraus, entre os romanos, tinha horror de Aletheia (etimologicamente, não-esquecimento), a Verdade, que, entre os citados romanos, tomou o nome de Veritas, filha do deus Saturno. Apate gostava de andar na companhia de Peitho, a Persuasão, que fazia parte do séquito de Afrodite. Peitho era filha de Até, o Engano da Razão, mais conhecida pelo nome de Erro. Nas esferas intelectuais, Peitho, entretanto, costumava apresentar um lado mais positivo, ao se aproximar de Tikhe, o Acaso, e de Eunomia, a Boa Ordem.  

Sedução é palavra que lembra muito encanto, magia, feitiço, força irresistível que submete. Que poder é esse que se impõe a nós, que muitas vezes nos arrasta para onde não queremos ir? A sedução é tanto um padecer, um suportar, como um fazer. Quando algo nos seduz, colocamo-nos na situação de vítimas. Normalmente, a sedução nos impõe um estado de carência, de sofrimento. Seduzidos, precisamos conquistar, obter aquilo que nos seduziu. Ficamos sempre presos a uma situação mais ou menos dolorosa. Tornamo-nos vítimas (vítima vem de victus, condição do animal levado para o sacrifício). Padecemos, sofremos, se não encontramos um meio de sair do sofrimento.  

Quando nos fixamos um pouco mais sobre o tema, constatamos, em muitos casos (para não dizer na maioria deles, talvez) que todo sedutor é, no fundo, um seduzido. Ou, de outra maneira: nem todo seduzido é um sedutor, pelo menos conscientemente. Na chamada sedução ativa, quando assumimos o papel do sedutor, é preciso colocar antes a pergunta: o que nos moveu em direção da “vítima”? Tomemos o caso de D. Juan, Don Giovanni, na ópera de Mozart. Criado por Tirso de Molina (1583-1648), D. Juan Tenório é, na literatura ocidental, o patrono dos sedutores-seduzidos, como está no El Burlador de Sevilla. 


FILME   DE   JOSEPH    LOSEY

Quando D.Juan se põe em ação para trabalhar (a sedução é um ofício para ele), ele está sempre respondendo a uma sedução experimentada antes. No caso de D. Juan, o que o seduz é o odor de saias (odor di femina), como ele apregoa; basta este odor para lhe causar uma pressão ansiosa, dolorosa, inquietante. Instala-se nele, premente, o desejo, uma falta que precisa ser satisfeita. A sedução do sedutor é um poder que faz acontecer, que faz surgir algo, que pode mover, que pode mudar as coisas.  Seduzido, D. Giovanni vai agir.

Por outro lado, sofrida, a sedução é um padecer, um suportar, vivido passivamente. O seduzido fica na dependência do outro. Sua determinação vem daquele que o seduziu. É o caso, por exemplo, da relação entre o professor Immanuel Rath (Emil Jennings) e Lola (Marlene Dietrich), no filme O Anjo Azul, um clássico no gênero, dirigido pelo grande Joseph Sternberg, com base numa história de Heinrich Mann. Vitimado, o digno professor ficou inteiramente à mercê de Lola.

Muitas vezes, este padecer tanto dá prazer como repugna, tanto dá medo, como é desejado. Numa situação dessas, lutamos contra essa força ou criamos condições, colaboramos, para que o sedutor se aposse de nós? Tornamo-nos alvo, objeto, troféu? Contribuímos para isso? Somos vítimas inocentes? Ou, no fundo, desejamos inconscientemente a sedução?

Tomemos, por exemplo, o caso de Herculano, da peça Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues. Ele é um pio cristão, casto, como toda a sua família. Herculano é viúvo, misógino, vive com tias velhas e com um filho que cultua a memória da mãe edipicamente. Lá para as tantas, é empurrado pelo maquiavelismo
TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA
do irmão nos braços da prostituta Geni. Esse encontro com Geni transforma totalmente a vida de Herculano: a falecida, a santa mulher vira um bucho, uma chata. De súbito, Herculano cai de cabeça na devassidão. Torna-se um crápula. O filho, que era um carola militante, acaba na prisão, onde é violentado sexualmente por um bandido boliviano de quem se tornará amante. Geni, a sedução, sensual, voluptuosa, bonita, é o tormento de Herculano, um querer não querer, um tormento do qual ele não sabe como fugir ou não quer. Ela, por sua vez, como Fedra, ama o filho de Herculano.

Foi Platão, no seu diálogo O Simpósio (O Banquete), quem nos deu uma ideia

dessa dialética, ao nos fixar, pelas palavras de Sócrates, a origem do deus Eros, o amor, o desejo, Cupido para os romanos. Etimologicamente, Eros vem de palavras que lembram abrasar, queimar, arder. Platão diz que Eros é filho de Penia (pobreza, carência, falta) e de Poros (artifício, expediente). É uma carência que procura através de um expediente atingir sua plenitude, a sua satisfação. Os poetas consideram muitas vezes o amor como um pedinte, que vive na pobreza, que mendiga, que dorme na soleira das portas, e que, não correspondido, faz definhar e pode também causar a morte. Sua satisfação dependerá de nossa habilidade (Poros) para de chegar ao ser ou ao objeto amado.



EROS

As flechas de Eros são o símbolo dessa invasão. Eros é cego, atira suas flechas a esmo, mas seu poder é absoluto. Às vezes vem como guerreiro, usa capacete, é agressivo, montado em carneiros, leões, centauros, símbolos do fogo. Noutras vezes, vem com uma coroa de rosas, cantando, tocando lira. É o Eros cantor, músico, que produz encantamento, sortilégio, algo mágico (thelksis). Nesta figuração de cantor e músico, torna-se Eros o modelo do caçador clássico, invencível; suas flechas têm um veneno contra o qual não há antídoto; é um deus temido por deuses e mortais. As rosas vermelhas, coloridas pelo sangue de Adônis, são símbolos do amor, neste caso. Já a lira aparece como símbolo da harmonia cósmica. Fazer vibrar a lira é fazer vibrar o mundo. Muitas vezes, Eros vem com perfumes que ativam os sentidos, que provocam o aparecimento de imagens, criando climas e atmosferas. Esse é o Eros sedutor, que não se importa com aqueles a quem seduz. Esse tipo de sedução é vivido muitas vezes como rapto, violência, estupro. Nossos corpos, nosso pensamento, nossa vontade, tudo é arrastado por essa força que nos faz viver no sofrimento e no prazer que traz esse sofrimento. Todos os nossos pontos de referência são destruídos quando esse amor-paixão nos toma porque percebemos que a nossa vida está nas mãos de outra pessoa. Abandonamo-nos a ela e a tememos ao mesmo tempo. A outra pessoa passa a ser tudo para nós, céu e inferno. Tanto o é que nos perguntamos como podemos viver sem ela. É aqui que o Amor e a Morte se igualam.

Há casos especiais em que o amor-paixão se torna recíproco. A sedução é mútua. Nesse caso, temos a faísca do divino nos dois parceiros. A vida se ilumina, envolvida por uma fulguração que antecipa, de certo modo, a fusão com o grande Todo. Perdem-se os parceiros um no outro. Esse tipo de amor traz uma carga tamanha de subversão para os padrões da normalidade do mundo que, no geral, ele termina em tragédia, muitas vezes em morte. Talvez só a experiência mística dele se aproxime. Aliás, já se disse que toda paixão é, no fundo, um desejo de autoaniquilação. A literatura, as canções, sobretudo as canções, trazem-nos exemplos desse tipo de amor. Vida e morte.   

Esta união das duas imagens que se excluem: amor e morte, silêncio e eloquência, amargor e doçura, deu na literatura belos versos, principalmente na lírica da Idade Média e dos séculos XVI e XVII. Essa união de opostos tem na Retórica o nome de oxímoro. Na poesia moderna, Baudelaire e Fernando Pessoa, por exemplo, sempre demonstraram muito interesse por essa figura de Retórica. Mas quem melhor a utilizou foi Camões, imbatível até hoje, como sempre perfeito, quando pensamos num exemplo:

Amor é fogo que arde sem se ver;           


É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder…

Boa parte da literatura mística do oriente e do ocidente se inscreve nessa tendência de ligar o amor ao sofrimento, como ferida e mesmo como autoaniquilação.

San Juan de la Cruz (séc. XVI), em Lâmpadas de Fogo: 

Oh! Suave Cautério!                       
SAN JUAN DE LA CRUZ
Oh! Regalada chaga!
Oh! Branda mão!
Oh! Toque delicado!
Que a vida eterna sabe,
E paga toda a dívida!
Matando, a morte em vida me hás trocado.


Frei Patrício Scaldini, carmelita descalço, que se dedicou à divulgação da obra de San Juan de la Cruz, nos fala assim da sedução mística na introdução de seu livro sobre o chamado “Poeta de Deus”: A experiência mística é beber o Amado, tornar-se o Amado. No mundo de hoje não há espaço para uma contemplação intimista, para uma espiritualidade fechada, escondida sob uma redoma de vidro e incapaz de gerar pessoas prontas para lançar-se na gloriosa empresa de conquistar e dar a vida.

É de Mirabai, nascida na Índia, em 1498, de família Rajput, perto de Ajmer, educada pelo avô, no palácio de Merta (cidade-fortaleza), outro refinado exemplo dessa figura de Retórica que acolhemos aqui com muito prazer. Cultuando Krishna, avatar de Vishnu, sonhava casar-se com o deus, sua grande devoção. Casou-se em 1516 com um nobre. Não teve filhos, sempre se colocando como virgem nos seus poemas. Morreu em 1546. Seus últimos anos de vida foram passados em meio a perseguições políticas. Cheia de dúvidas, desligou-se dos seus valores de casta, retirou-se, procurando uma vida ascética. Alguns aproximam Mirabai de Mestre Eckart (dominicano e teólogo alemão, séculos XIII e XIV, 1260-1327). 

Uma canção de Mirabai:

Oh, meu companheiro,
Estranho é o comportamento dos meus olhos,
Tua doce figura introduziu-se em minha mente
E nela faz caminho para meu coração
Há quanto tempo estava em minha casa, contemplando a estrada?
Minha vida depende de Shyan, o Bem-amado.
Ele é a erva que me permite viver.
Mira tornou-se propriedade pessoal de Giridhara: 
Dizem que ela enlouqueceu.

Talvez a melhor maneira de entendermos o mecanismo da sedução esteja na Alquimia, mais exatamente na Solutio (dissolução), operação alquímica ligada à água. Este elemento, sob o ponto de vista das qualidades primitivas, se compõe pela união do frio e do úmido, o primeiro favorecendo a penetração, a receptividade, e a outro a interiorização. Sedução e solutio estão sempre ligadas à água, à umidade, pois é essa qualidade que favorece a invasão, a penetração e a dissolução das formas. Não foi por acaso que Afrodite, a deusa do amor, nasceu na água. 

No jogo da sedução, se aquele que seduz é maior, mais poderoso, que o seduzido, ele sempre acabará se impondo a este, afetando-o mais, dominando-o. Comuns estes casos nas conversões religiosas, filosóficas e políticas, principalmente. Este tipo de sedução leva o seduzido a se dissolver num grupo, numa seita. Há muitas vezes até perda do nome, afastamento do meio familiar, rompimento com relação a todas as ligações anteriores, amigos, grupos de referência etc. Não é por acaso que na Psicanálise banhos, chuvas, orvalho, imersões, inundações, dilúvio, quedas d’água são símbolos de dissolução quando aparecem em sonhos, podendo anunciar que estamos prontos para mudanças e transformações. Nessa perspectiva é que a vida humana, com seus desejos, seus sentimentos e emoções, é figurada por um rio que atravessa a terra e se lança no mar, representando este a imensidão misteriosa em direção da qual ela se encaminha e da qual ela saiu. Banhos, em sonhos, indicam, por isso, uma necessidade de regeneração, de esquecimento do passado, de deixarmos para trás alguma coisa em nossa vida. Inundações, por outro lado, poderão representar a perigosa invasão de incontroláveis e catastróficos sentimentos. É pelas mesmas razões expostas que as águas submarinas têm relação com a vida subconsciente e que águas geladas (geleiras e glaciares) simbolizam em alto grau a estagnação psíquica nas suas conhecidas expressões de ideias fixas, manias, obsessões e compulsões.

BAUDELAIRE

Há um poema de Baudelaire, Hino à Beleza, em que se descreve essa situação. O poeta é seduzido pela Beleza: 

Vens do céu profundo ou sois do abismo        
Oh, beleza. Teu olhar, infernal e divino,
Verte confusamente o bem e o crime
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs em teu olhar o poente e a aurora
Espalhas perfumes como uma noite tempestuosa
Teus beijos são filtro e tua boca uma ânfora
que tornam o herói covarde e a criança corajosa.

Que venhas do céu ou do inferno, pouco importa,
oh, Beleza! Monstro enorme, assustador, ingênuo
se teus olhos, teu sorriso, teu pé me abrem a porta
de um infinito que amo e jamais conheci!

De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou sereia,
que importa se tornas – fada de olhos aveludados,
ritmo, perfume, clarão, ó minha única Rainha!
se tornas o universo menos horrível e os instantes menos pesados?

Toda a sedução é uma espécie de capitulação. Um menosprezo de nossa autoridade, de nossos direitos, um deboche, muitas vezes, um achincalhe à nossa personalidade. Uma rendição e uma redução ao mesmo tempo. Perdemos, com a invasão sedutora, a nossa liberdade, as nossas prerrogativas, os nossos direitos. Ficamos à mercê de algo mais forte, impotentes, diante desse algo que se impõe, que pode nos horrorizar, mas que, no fundo, desejamos. Um querer não querendo. Sucumbimos, morremos, felizes.

Nos Cancioneiros portugueses do pré-renascimento, séculos XIII a XV, encontramos esse tema explorado. Dois exemplos: o primeiro de João Roiz de Castelo Branco e o segundo de Luís Silveira:

CANTIGA SUA PARTINDO-SE
                                                                        
Senhora, partem tão tristes                 
meus olhos por vós, meu bem,  
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,                             
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida;

Partem tão tristes, os tristes,
tão fora de esperar bem
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

                 
CANTIGA

Senhora, pois, que folgais
Com meu mal, não me mateis;
Porque quanto mais alongais minha vida, tanto mais
Vossa vontade fareis.

E olhai, se me acabais,
Que nunca me mais tereis,
Inda que me desejeis,
Para m´outra vez matardes.
Mas já sei o que cuidais,
e de mim o conheceis:
Confiais que, se de morto mandais que torne, 
que m´achareis.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO PRIMEIRO TRABALHO



A LIMPEZA DOS ESTÁBULOS DE AUGIAS - Augias, rei da Élida, no Peloponeso, era filho do deus Hélio, o Sol, e participara da expedição dos argonautas. Herdara um imenso rebanho do pai, milhares e milhares de bovinos, que viviam em enormes estábulos. Tais estábulos não eram limpos desde que Augias recebera a herança, cerca de trinta anos atrás. A incumbência de Hércules era justamente a de limpá-los, conforme determinação de Euristeu. O lugar era famoso por ser pestilento,  malcheiroso e insalubre ao extremo. Como nenhuma vegetação crescia à sua volta, a alimentação dos animais tinha que vir de longe. Tomando conhecimento da chegada de Hércules, Augias o chamou à sua presença. Nosso herói lhe revelou o objetivo de sua visita. Augias não acreditou que ele pudesse remover aquelas montanhas de estrume e de sujeira num único dia, conforme exigência de Euristeu. 

Augias  e  Hércules  entraram  num  acordo,   depois  de  debater   a
ANIMAIS DE AUGIAS
questão. Hércules não só se comprometeu a fazer o serviço da maneira exigida, como também a espalhar todo o esterco pelas terras vizinhas de modo a prepará-las para novas semeaduras a fim de que outros, futuramente, auferissem benefícios, já que os terrenos se tornariam muito férteis. Como pagamento por esse serviço extra, Hércules pediu um "por fora", a décima parte de todo o rebanho. Na expectativa de grandes lucros, Augias concordou. Este episódio se tornou muito comentado porque foi introduzida pelo mito, arquetipicamente, a instituição da propina, a gratificação extra por serviço normal prestado a alguém, misturando-se doravante, por isso, ideais e dinheiro. Para testemunhar o acordo que fez com Augias, Hércules chamou o jovem príncipe Fileu. É de se lembrar que o pagamento de propinas era muito comum no mundo greco-romano. A etimologia de propina indica que a palavra vem do substantivo taverna, lugar onde se servem bebidas alcoólicas. Assim a propina era uma importância extra que se dava a alguém por um certo serviço para que bebesse (é o que os franceses chamam até hoje de pourboire). Com o tempo, a propina transformou-se numa quantia oferecida ou dada a alguém para levá-lo a praticar atos ilícitos, suborno.


LIMPEZA DOS ESTÁBULOS
A segurança com que Hércules assumiu a realização do trabalho e, além disso, propôs algo que ia além do que lhe fora determinado, devia-se ao fato de ter o nosso herói  percebido que nas vizinhanças dos estábulos havia dois rios de natureza torrencial que poderiam ser usados, embora separados por uma montanha (Erimanto). Um dos rios chamava-se Alfeu e o outro Pneu. Pondo-
HÉRCULES   DESVIANDO   OS   RIOS
se em ação, ao raiar do dia acertado, Hércules abriu fendas nos muros que cercavam os estábulos e, com inaudita sofreguidão, escavou furiosamente novos leitos para os rios, desviando-os dos seus cursos, de modo a fazer com que as águas, atingissem os estábulos, limpando-os. Lá pelo meio da tarde do mesmo dia, a segunda parte da tarefa começou a ser executada. As montanhas de estrume foram espalhadas devidamente, tudo feito com espantoso vigor. Quando, no dia seguinte, o Sol raiou, tudo estava terminado.





Augias, contudo, negou-se a cumprir o acordo. Hércules abandonou a Élida, muito contrariado, prometendo um acerto de contas futuramente. Tempos depois, com efeito, reuniu nosso herói um exército de voluntários e marchou em direção do reino de Augias. Duas investidas foram feitas. Na segunda, Hércules derrotou e matou Augias, entregando o poder a Fileu, que inclusive
PÍNDARO
testemunhara contra o pai quando discutida a questão nos meios judiciais competentes. Foi após essa campanha vitoriosa contra a Élida que Hércules instituiu os Jogos Olímpicos, conforme narra o poeta Píndaro. Estes Jogos (jogo é agon, luta, no plural, jogos, agones, adquirindo depois a palavra o sentido de reunião, assembleia) são, como Hércules os instituiu, modalidades de culto do impulso heroico (veja neste blog matéria sobre Hércules e os Jogos Olímpicos).

Alfeu (branco) e Pneu (sopro) eram rios do Peloponeso. Desde o
DAFNE  E  APOLO
tempo em que Hércules andou por lá, executou a limpeza dos estábulos e preparou a terra, a região banhada pelos rios se transformou numa área produtora de cereais e de vinho. Pneu é famoso por suas margens sombrias e frescas, onde havia muitos loureiros. Nos tempos míticos, era o rio procurado por deuses, ninfas e sátiros. Foi aí que Dafne se transformou num loureiro, consagrado ao deus Apolo, como símbolo de seu amor frustrado pela ninfa. Desde então a região vem sendo muito visitada por artistas, especialmente poetas, que gostam de pôr em versos a história da desditosa jovem.


Com o décimo primeiro trabalho, chegamos à constelação zodiacal de Aquário, cujo símbolo lembra os dois rios acima descritos. O signo é muitas vezes representado por um velho sábio que leva nas
mãos uma ou duas ânforas que, inclinada(s), vertem um fluxo líquido. A peculiaridade deste fluxo é que ele é aéreo, etéreo, de caráter expansivo. Imagens como estas trazem ideias de ondas. Aquário é um signo de ar, fixo, com grandes ressonâncias aquáticas, um oceano aéreo onde nos banhamos. O ar como substância nutritiva destinada mais à alma que ao corpo. Em Gêmeos, temos a comunicação mental; em Libra, temos o diálogo, a percepção do outro; em Aquário, temos as afinidades por ideais.

O “líquido” que hoje circula nos meios aquarianos nada tem a ver com aquele a que o mito se refere. O “verdadeiro” líquido aquariano significava então aproximação, contacto, união, presença, que não anulava as individualidades, mas que levava a uma participação comunitária. A energia aquariana, no seu mais alto grau de eficiência, circula hoje, como sabemos, na Internet, uma rede mundial de computadores interconectados (WWW-World Web Wilde), que parece unir os que a usam, todos “linkados”, mas que, no fundo, os separa cada vez mais (outra contradição aquariana), vivendo todos numa “realidade” fragmentada de informações, sem nenhuma possibilidade de controle do todo.  

 
ANJO  ( GUSTAVE  DORÉ )


Saturno, lembremos, apesar de Urano ter assumido a posição de primeiro regente do signo, continua "mandando" nele, ao nos lembrar que a elevação aquariana passa antes pela libertação da vida instintiva e pela "desmaterialização". Do contrário, não há a transcendência uraniana, simbolizada pelo Anjo, outra imagem do signo, não teremos as suas qualidades, a expansão, a leveza, a volatilidade, o seu caráter angelical, mozartiano, que traduzimos concretamente como altruísmo, devotamento social, trabalho desinteressado, o melhor lado de Aquário. Nem haverá, se nos voltarmos para o lado técnico do signo, a sempre perigosa e genial atitude prometeica, traduzida por propostas de vanguarda, emancipação, inovação, de paixão indiscriminada pelo novo. 


CONSTELAÇÃO   DE   LEÃO

Desde Leão, como se pode notar, observa-se uma proposta evolutiva de conscientização, ainda que não muito claramente entendida pelo nosso herói.  Em Aquário, signo oposto ao de Leão, a proposta é a de que o rei (o ego) deve servir, tornando-se um prestador de serviços. Hércules começa aqui a compreender melhor, ainda que de modo muito nebuloso, aquilo que havia apenas mal vislumbrado no trabalho anterior (a ação impessoal); ao ver as almas sofredoras no Hades, sentiu pena delas. Agora, a percepção dos outros tomava um sentido mais abrangente; nosso herói começava a entender que o centro da sua personalidade não deveria se fixar no ego, mas na alma, na faísca da energia universal que está contida não só em todos os seres humanos como em tudo o que toma forma no universo. 


CONSTELAÇÃO   DE   AQUÁRIO

Entendida a "desmaterialização" em Capricórnio, havia que se buscar agora uma percepção mais clara do impulso anímico através do qual se torna possível entrar em contacto com planos maiores, transcendentes ao pessoal, até a dissolução no grande Todo, segundo as leis do eterno retorno. Antes, porém, necessário o aprendizado do que seja o serviço desinteressado, do que seja a convivência com o grupo e do que seja o sacrifício do eu pessoal pelo eu grupal. Em Aquário não podemos mais estar fixados no ego (Leão) nem na matéria.  A luz leonina conquistada deve ser canalizada para o Todo, isto é, para a humanidade, para os outros, não mais vistos agora como parceiros ou sócios (Libra), mas como irmãos. Ideais de fraternidade, de igualdade, de camaradagem, de comunidade são de Aquário.


PREPARANDO  O  TERRENO  PARA  O  FUTURO

Hércules, do alto da montanha, desceu agora neste trabalho à sujeira, ao deletério, a aspectos muito impuros da materialidade, uma lição de humildade a ser aprendida, uma clara indicação de que ideias de orgulho, de vitória, de conquistas materiais, representadas pelos picos das montanhas devem dar lugar a outras, de interesse coletivo, humanitário. O vencedor de Cérbero, grande monstro infernal, envolvia-se agora com a sujeira e a imundície. A lição tinha dois aspectos:  trabalhar não só no interesse próprio, mas trabalhar também em função dos outros, das gerações futuras, pessoas que nunca seriam encontradas, “preparar a terra para elas”. Deixar-lhes um mundo melhor. 

A grande alegoria da sujeira dos estábulos não exige grande esforço interpretativo: limpá-los é jogar fora toda a porcaria material e mental que acumulamos, por anos e anos, e que nos impede de ver o outro como nosso irmão, de que nos aproximemos dele amistosamente e não o considerando como um inimigo em potencial. Todos os ingredientes deste décimo primeiro trabalho são do signo de Aquário, inclusive o percentual que nosso herói pede. Seu idealismo, preparar o terreno para as gerações futuras é, sem dúvida, muito sublime, digamos. Mas, como seu lado “animal”, humano, vá lá, era muito poderoso, nenhum mal, no seu entender, em pedir os dez por cento para Augias. Quanto a este particular, lembre-se que na chamada astrologia mundial Aquário é o signo da política, tendo a ver com o poder legislativo (congressos, assembleias, câmaras e seus personagens.


A   LIBERDADE   GUIANDO   O   POVO,  1830   ( DELACROIX ) 

Trabalhar em grupo e para grupos é muito difícil. Falamos em ideais comuns, criamos formas associativas, levantamos a bandeira do altruísmo, da ação desinteressada, do devotamento social e o que vemos? A rondar sempre as fraternidades e as comunidades o ciúme, o orgulho, a vaidade, o desejo de brilhar, a ostentação, o exibicionismo, o apego ao poder, ou seja, o "velho" ego leonino, que julgávamos dominado, vivo e muito vivo, ganancioso, voraz como sempre.  Difícil esquecer o eu em benefício dos outros. De repente, lutas por posições, carreirismo, a vontade do poder escondida no discurso "democrático".

Em Aquário, ultrapassamos a materialidade para ter que colaborar com a "limpeza" do mundo. Muralhas rompidas, não mais
CORAÇÃO  -  CIRCULAÇÃO
centralizar a vida no sucesso material, com a ajuda da espantosa tecnologia aquariana, mas, sim, centralizá-la no espiritual, no Todo. Ao invés de matéria e mente, vida e amor.  Viver o desapego, perdermo-nos em algo fora de nós, para que o individual se torne universal. É em Aquário que o homem separado se torna humanidade, sem perder a sua identidade. Não será mais, então, o ser autocentrado e isolado na busca desesperada por posições mundanas. Em Leão temos o tempo e os esforços a serviço do próprio ser e dos interesses pessoais. Em Aquário, temos a descentralização, a distribuição da energia pelo todo. É a dialética coração-circulação da qual nos falam as características do signo sob o ponto de vista físico, biológico.

Por anos e anos acumulamos muito "esterco" dentro de nós e levantamos barreiras protetoras à nossa volta, construindo uma personalidade totalmente inautêntica para receber a consideração dos outros. Uma máscara que nos justifique.  Em Aquário, temos que deixar de nos considerar exclusivos, pois, do contrário, não
haverá vida digna, a vida em comum. A proposta é a do rompimento das fronteiras, das barreiras. Uma internacionalização diferente da que temos hoje, de caráter consumista, fascista. Nada de patriotadas cegas, alimentadas pelo dinheiro e pela religião, sempre fontes de ódio. Ao contrário, cooperação, compreensão, inteligência, universalismo (ver, a propósito do que aqui se expõe, o filme A Grande Ilusão, de Jean Renoir).  


Tudo o que libera o homem, elevando-o do solo ou levando-o a
ÍCARO
percorrer  horizontalmente toda a superfície terrestre, rompendo fronteiras e limites,  se liga de algum modo a Aquário. Nestes casos, porém, há sempre o perigo do aquariano inflar demasiadamente o seu ego (leonino), sonhando alto demais, ou de não dominar adequadamente os meios técnicos que emprega para a sua ascensão (complexo de Ícaro). São estas configurações que costumam dar origem a duas grandes distorções em tipos do signo, gerando o aprendiz de feiticeiro e o delirante

O primeiro, como se sabe, costuma precipitar tragédias, como no
caso da criação do Golem, pela busca de metas “impossíveis” ou pela inabilidade ou desconhecimento quanto ao uso das técnicas disponíveis tendo em vista o fim colimado. Já o segundo tipifica o aquariano que sofre do chamado delírio sistematizado, sistema logicamente organizado de ideias delirantes, que se instala sem sinal claro de demência, no qual grande número de funções perceptivas e cognitivas pode permanecer intacto, mas ativado em níveis que parecem querer (ou querem mesmo?) ultrapassar os limites do humano. Por isso, Aquário é o signo das utopias. 

As manifestações deste segundo tipo podem ser detectadas em várias expressões aquarianas, mais ou menos logradas, expressões
que elegem símbolos de caráter ascensional, a águia, por exemplo. A união da águia com a proposta visionária aquariana, com o objetivo de antecipar de algum modo o futuro, traço aquariano notável, nós a encontramos na atividade dos áugures do mundo greco-latino que traduziam o voo e o canto da águia em profecias. O delírio poético que tem no chamado condoreirismo (uma distorção do Romantismo, movimento artístico tipicamente aquariano) uma de suas mais pomposas e banais elaborações é também um bom exemplo. 

Como traço de personalidade, o delírio aquariano tem um dos seus exemplos mais interessantes na tendência que muitos do signo apresentam no sentido de compensar a sua “fraqueza” solar (o Sol se exila em Aquário), uma fraqueza que os faz sentirem-se inferiorizados por alguma razão (sentimentos sempre geradores de
medo e ressentimentos reprimidos), por uma supercompensação, na linguagem psicanalítica. É isto que leva muitos aquarianos enquadrados neste exemplo para o outro polo. Vão de um disfarçado complexo de inferioridade (o de não serem “bons” em alguma coisa, uma limitação física, um problema de relacionamento, um mental não à altura de suas pretensões) para um complexo de superioridade. Procuram ser os melhores em alguma atividade (baterem recordes, se tornarem “únicos”, paradigmas, excêntricos etc.), superarem alguma marca, limite, no fundo sempre uma defesa contra o complexo oposto. É isto que aproxima tão perigosamente o sábio solitário (aquariano superior) do louco, igualmente solitário, perdido nos seus delírios paranoicos. 

Aquário é signo humano, de ideais e de simpatias, de interação. Transcender Leão (culminação do ego), supressão de privilégios, mostrar competência e não títulos e insígnias, esquecer o ego. Se pensamos numa tendência, Aquário é independência por ideais corporativos; em funções, Aquário é pesquisa, inovação, técnica, reforma, ensino, experimentalismo; em objetivos, Aquário é sociedade, grupos, comunidades, política; em deveres, Aquário é ajuda, colaboração, orientação, aperfeiçoamento. No fundo, o tipo superior aquariano é sempre um inquieto pelo ser e não pelo ter. Como tal, é um cidadão do mundo para quem a hereditariedade e os privilégios de sangue (Lua e Júpiter, Câncer), os apegos materiais e emocionais (Vênus e Lua, Touro) e as fixações ciumentas e possessivas (Plutão e Marte, Escorpião) devem contar muito pouco. No mais, um ideal de servir lúcido, livremente assumido, sem a ideia de martírio (Peixes).

Em Capricórnio chegamos ao topo da montanha. Saturno, o planeta de Capricórnio, é o tempo. O planeta de Aquário é Urano, o espaço. Depois de haver dominado a si mesmo, longe de se salvar só, ou de encerrar-se na ideia de eternidade ou de paraíso, Aquário volta-se para o todo, para a humanidade, por mais inferior que seja a criatura.  Estes estados superiores de Aquário são simbolizados pelo anjo, seres espirituais, dotados de corpo etéreo, mensageiro, guardião, condutor, protetor (ver os filmes de Win Wenders).


O   CINEMA   DE   WIN   WENDERS

Mitologicamente, a constelação de Aquário é Ganimedes, o amado de Zeus, dos deuses, escanção divino, que nos céus tem ao lado a constelação da Águia (Zeus). Scandere, de onde sai escanção, é elevar, subir; escançar é partilhar, participação que faz subir. Ou seja, graça superior que permite a elevação que leva à participação de um conhecimento superior. Esta participação era feita em
reuniões comunitárias de amigos que compartilhavam os mesmos ideais e segredos através do vinho (exaltação de Urano em Escorpião). O Banquete, do aquariano Soren Kierkgaard (In Vino Veritas), traduz esta ideia. O grande lema aquariano é Ad augusta per angusta" (a resultados sublimes por caminhos estreitos). No Tarô, Aquário é a lâmina XIV, a Temperança, dissolução das formas, rompimento do que nos prende. Nela, o personagem andrógino alado derrama o fluido de um cântaro a outro. Ideia de equilíbrio dinâmico. 

Inúmeros perigos se apresentam a Aquário. O tema do desligamento da terra, o rompimento da gravidade (Urano é o primeiro planeta transaturnino) pode ser vivido como mania de verticalidade (torres,
arranha-céus, foguetes, satélites, voos espaciais, esportes radicais nas alturas). O melhor de Urano (o planeta do despertar) aparece quando há algo espiritual. O pior é o lado técnico, hoje nas mãos dos economistas de todos os matizes. Utopias políticas substituídas por utopias materiais. Muitos aquarianos tentaram construir paraísos na terra. No fundo, devido à grande ênfase no material (terra), tais paraísos acabaram se corrompendo, transformando-se em verdadeiros infernos. A história está repleta de exemplos.


ROCK

 A saída pela ciência e pela técnica passou a ser a outra grande tentação do aquariano malogrado. Daí, os ambientes eletrizantes (Urano governa a eletricidade), os grandes abusos do sistema nervoso, nada de freios, excitação diante da possibilidade de ocupar todo o espaço e consequentemente a falta de tempo constante, crônica. Com a predominância desse enfoque tecnicista, chegamos logo aos fenômenos de massa, ao turismo corrompido em escapismo e evasão, à promiscuidade, à vulgaridade, ao coast  to coast, à planetarização fascista criada pelos meios de comunicação, aos "bandejões" de cinco a nenhuma estrela, aos espetáculos que institucionalizam a baixaria, à excentricidade, à lei do frenesi, à troca da individualidade pelo individualismo agressivo e boçal, cujo melhor exemplo está nas nossas TVs, à rebeldia sem causa, aos contrastes fabricados pelo consumismo, às ambições prometeicas idiotas (mania de recordes), à desordem, ao desrespeito, à anarquia.

Enquanto Leão é coração, Aquário é circulação. No corpo físico, problemas, pois, de insuficiência circulatória (Sol em exílio), sobrecarga de resíduos, oxigenação insuficiente, hiperacidez. Escleroses, flebites, varizes, úlceras, parestesias; enfermidades bruscas e violentas, oscilações. Movimentos físicos involuntários, desde fibrilações e câimbras a disritmias e epilepsias; espasmos, tremores (grande parte da coreografia do rock moderno se inscreve aqui). Os transtornos circulatórios e cardiovasculares, menos frequentes antes nas mulheres, hoje vão se tornando muito comuns, na medida em que a vida feminina se aproxima da masculina. Como causas, preocupações financeiras, fumo, álcool, drogas, anticoncepcionais, sexualidade sem amor. Ateromasias (athera, papa, massa, e oma, tumor), depósito lipídico no interior das paredes das artérias, diminuindo o diâmetro do vaso; ulcerando-se, a placa favorece a formação de coágulos. Artéria coronária (Sol-Urano), artéria cerebral (Marte-Urano), artérias das pernas (Urano-
Júpiter), artéria abdominal (Urano-Lua). Problemas nas pernas do joelho para baixo, até os tornozelos, estes muito vulneráveis. Lembrar que Áries e Aquário são os signos mais propensos a acidentes. Problemas na coluna por Leão (ação reflexa). A hipófise ou a pituitária é do signo; é a glândula mestra que controla todas as mensagens hormonais do corpo. A glândula pituitária equivale ao cérebro entre as glândulas, governando simbolicamente o nosso ajuste ou não a planos superiores de existência. 

Urano é o astro responsável pelo sistema cibernético do corpo, dividindo-o com Mercúrio. A radicalização no sentir, a grande agitação (fixar-se num querer e mudar, incompreensivelmente), a falta de realismo são inimigos no signo. Aceitação difícil de tratamentos, constantes mudanças de terapias, sedução pelas inovações e modismos terapêuticos até que o tédio baixe ou uma novidade apareça. Difícil a observância de rotinas. Aquário governa a neuromentalidade (as neuroses, as ansiedades paroxísticas ou depressivas, a psicose maníaco-depressiva são de Urano e de Saturno, basicamente) devendo o sistema nervoso, como um todo, merecer grande atenção.


MOZART

A galeria dos aquarianos pelo Sol ou pelo Ascendente: Robespierre, Karl Marx, Virginia Woolf, James Dean, Mozart, James Joyce, a Beat Generation como um todo, George Gordon Byron, Stendhal, Bela Bartok, Tom Jobim, Manet, H.G.Wells, J.J.Rousseau, Rossini, Simone Weil, W.B. Yeats, Schubert, C.G.Jung, André Maurois, Federico Fellini, Roosevelt, Thomas Edison, Beaumarchais, Lewis Carroll, Auguste Comte, Montesquieu, Mendelssonn, Charles Lindberg, Almeida Garrett, Chopin, Darwin, Voltaire, Bertold Brecht, Lincoln, Júlio Verne, Copérnico...