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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

DOS PECADOS - A INVEJA

   
A INVEJA
(H. BOSCH, C.1450-1516)
Comumente, a inveja é um sentimento de desgosto provocado pela felicidade ou pela prosperidade alheia. No plano da via afetiva, confunde-se com o ciúme, estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de quem se pretende amor ou fidelidade exclusivos. A inveja e/ou o ciúme são fenômenos passivos, paixões, portanto, que têm como principal característica a paralisação da ação normal da razão. As paixões, como sabemos, quando se instalam, impedem que comandemos a nossa conduta, que determinemos a nossa vontade. 

Os gregos tinham três palavras para falar da inveja, phtonos, dzelos e baskhainia. Baskhanos era o que olhava com maus olhos, era o curioso, o invejoso, o denegridor, o caluniador. Phthoneros era o ciumento, o invejoso. A palavra ciúme veio para nós do grego, dzelos, passando pelo latim, zelumen, zelumis com o sentido de intensa paixão amorosa. Os franceses têm jalousie, sentimento vivo, intenso, sombrio, palavra que veio também pela mesma via acima apontada, dando na língua provençal gilos. Os espanhóis dirão celos, os italianos gelosia e os ingleses jealousy. O ciúme tem a ver com o receio, o pavor, o temor de perda, a desconfiança, a tortura, o masoquismo.


A  INVEJA ( EDWARD  MUNCH, 1863- 1944)

Dos tormentos da alma, o ciúme e a inveja talvez sejam os mais avassaladores. E isto porque eles não existem sem o querer, sem o gostar, sem o amar. Talvez ainda porque eles apareçam sempre associados a outras emoções destrutivas como a dúvida, a angústia, a desconfiança, a mágoa, a solidão, o desamparo, o medo, a rejeição, a paranoia, a necessidade de afirmação pessoal, a autodefesa, o amor próprio etc. Haverá alguém imune à inveja e ao ciúme?

LUPICINIO  RODRIGUES
Inah foi a primeira namorada, a primeira noiva e a primeira desilusão de Lupicínio Rodrigues. Foi também a primeira e única mulata de sua vida. Depois, só teria problemas com louras, como ele mesmo declarou. Com Inah, o romance começou em Santa Maria, lá no Rio Grande do Sul, de onde ele era. Ambos muito jovens, a relação durou seis anos. Terminou porque Lupicínio não se decidia quanto ao casamento. Algum tempo depois de ter tudo findado, Inah se casou com outro. Quando Lupe, como era chamado, a viu de braço com o marido, sentiu um choque tremendo, um misto de ciúme, amizade, despeito e horror, como disse. Adquiriu, como a chamava, uma "dor de cotovelo federal”, daquelas que duram a vida inteira, diferente da dor “estadual” e da dor “municipal”, que também duram, mas passam. O resultado dessa dor de cotovelo “federal” foi Nervos de Aço, samba gravado por Francisco Alves, o primeiro grande sucesso de Lupicínio Rodrigues. 

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? 
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor, 
Nos braços de outro qualquer.
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
E por ele quase morrer?
E depois encontrá-lo em um braço
E nem um pedaço do meu pode ser
Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, amizade, despeito ou horror
Eu só sei que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte e de dor.”

O ciúme e a inveja, nos dicionários, passam por sinônimos. Inveja vem do verbo latino invidere, olhar de modo malévolo, mau olhado, o famoso malòcchio dos italianos. No caso da inveja, o olho se transforma num emissor da energia que está nos sentimentos ruins que experimentamos porque o outro possui alguma coisa que desejamos ou passamos a desejar quando o/a vemos com ela/ele. Este mau olhado recebeu dos italianos o nome de gettatura, do verbo gettare, arremessar, lançar longe. Uma energia destrutiva que se lança contra alguém.

Já os gregos antigos chamavam a inveja “ruim” de phtonos, sentimento em que se misturam à mágoa e à dor uma sensação muito desagradável produzida pela felicidade merecida ou não de alguém da qual não participamos. Phtonos era alegorizada sob a forma de um demônio, um espírito maléfico, que vivia em companhia de muitos outros, no Inferno grego, o  Hades, no Bosque de Perséfone, seu território vestibular. Alguns mitógrafos consideravam Phtonos como filha de Afrodite e de Dioniso.
Dzelos era o nome que os gregos davam a um ciúme ou a uma inveja especial. Quando este sentimento se instalava chamavam-no de dzelotymia. Nesta palavra, juntam-se os termos tymia e zelos, o primeiro tendo relação com afetividade, emoção (a glândula timo é representada em muitas tradições como a sede da vida afetiva; corresponde, no Yoga, ao chakra anahata, também chamado erroneamente de chakra cardíaco). Dzelos era, pois, para os gregos, uma espécie de ciúme positivo, uma inveja saudável, ao levar aquele que a experimentava a tentar se igualar a alguém ou a superá-lo, uma forma de emulação. Uma competição sadia sem sentimentos baixos, sem falsidade. Seria uma forma de cuidado diligente, vigilante, precavido, cauteloso aplicado a um desempenho emulador. 
De dzelos saiu negativamente a palavra zelote. Demonizado, Phtonos se apossa daqueles que fingem ter zelo, que simulam falso comportamento zeloso. A palavra adquiriu também o significado de fanático. O ciúme negativo, a inveja, o mau olhado e todos os demais sentimentos ruins passaram a ser designados pela palavra phtonos. Semelhante é este demônio àquele que entre os romanos representava a Invidia, um espectro feminino com serpentes na cabeça, olhos vesgos, magérrima, com um réptil roendo-lhe o coração. 

SANTO TOMÁS DE AQUINO
Santo Tomás de Aquino diz que é próprio do amor o querer bem ao outro, ao amigo, à mulher amada, ao homem amado, pois, nessa dimensão amorosa, o outro é como se fosse o nosso próprio eu. Os que se entristecem com a felicidade do outro vão de encontro à caridade, pois é através dela que amamos o próximo. A caridade, na doutrina católica, é uma virtude teologal que conduz ao amor a Deus e ao nosso semelhante. Num sentido amplo, ela se constitui de atos pelos quais o próximo é beneficiado, especialmente os pobres e desprotegidos.

Tomás aponta, como “filhas” da inveja, a murmuração, a detração, o ódio,a exultação pela adversidade e a aflição pela prosperidade. Um dos grandes objetivos da inveja é o de impedir a satisfação e o prazer alheios. A inveja usa para isto o que comumente chamamos de “falar mal de alguém”, disfarçada ou abertamente. No primeiro caso temos o que os latinos designavam por sussurratio, que podemos traduzir como fofoca. No segundo caso, temos a detração.

FOFOCA
Fofoca é palavra de origem africana, tendo sido criada a partir de um verbo que tem o sentido de remexer, revolver, esgaravatar. A palavra tomou o sentido de dito maldoso, de divulgação de detalhes da vida de uma pessoa que ela gostaria que não fossem revelados. Detração é difamação, expressão maledicente com o intuito de agredir, de fazer mal.

TOLSTOI
É na literatura, evidentemente, que encontramos os melhores exemplos do ciúme. Na literatura, o tema é tratado de modo admirável por Tolstoi, em A Sonata de Kreutzer (1891). A mulher de Pozdnychev o engana com um violinista e ele a mata. Esta história de adultério permitiu a Tolstoi expor as suas ideias sobre o quão nefasto pode ser amor físico nas circunstâncias por ele apontadas. Shakespeare também tratou do tema em Otelo, o Mouro de Veneza. Ele estrangula Desdêmona, sua esposa, convencido pelo pérfido e traiçoeiro Yago de que ela o enganava.    

Corneile (séc. XVII), dramaturgo francês, dizia: O ciúme, que parece ter por objeto apenas a pessoa que amamos, prova na verdade que amamos só a nós mesmos. De Oscar Wilde (séc. XIX): As não bonitas são sempre ciumentas de seus maridos; as bonitas nunca! Não têm tempo. Estão sempre ocupadas com o ciúme em relação aos maridos de outras mulheres. E Proust arremata: Para aquela (mulher) que é objeto de ciúme, ele passa a ser considerado como desconfiança injuriosa e, por isso, é uma autorização para enganar o ciumento.
Qualquer que seja o ângulo pelo qual o examinemos, o ciúme é sempre um sentimento intenso, hostil, sombrio, que se pode experimentar também quando se vê alguém se aproveitar de algo que não possuimos ou que desejaríamos possuir com exclusividade. Ou, ainda, inquietação que nos toma quando temos de abrir mão de algo que muito prezamos ou estimamos em proveito de outra pessoa. 

BALZAC
Balzac, seguindo os gregos, dizia que o ciúme e a inveja se transformavam em emulação nas pessoas superiores; nos inferiores, se transformavam em ódio. O campo emocional do ciúme é vastíssimo, tem muitas nuances, formas expressivas. Freud, a partir da inveja e do ciúme, criou a expressão inveja do pênis para designar um elemento constitutivo, segundo ele, da sexualidade feminina, que pode se apresentar de diversas formas, indo do desejo frequentemente inconsciente dela própria possuir um pênis para dele gozar à vontade no coito. Lembremo-nos de Mafalda (personagem do grande Quino) ao ver um menino fazendo xixi: Maman, mira maman, que cosita más práctica, comprame una?

Psicólogos, espíritas, médicos, umbandistas, terapeutas, operários, empregados de escritório, fanáticos por novelas de TV, religiosos, conselheiros espirituais, exorcistas, políticos, bispos, pais-de-santo, poetas, músicos, psicopatas, donas de casa, cartomantes, membros de torcidas organizadas, protestantes, professores catedráticos, praticantes de Yoga, evangélicos, cardeais, gente que tem conta no exterior em paraísos fiscais, todos e muitos mais têm sempre o que dizer sobre o ciúme, cada um a seu modo, sem dúvida.

Uma das visões mais lúcidas do tema está na que Astrologia conscientemente praticada oferece. É no eixo Touro-Escorpião, signos fixos, sempre mais sujeitos às paixões, que temos os melhores exemplos do que aqui se trata. É óbvio que o ciúme, tanto num como noutro caso, se manifesta sobretudo, mais agudamente, nos tipos malogrados de ambos os signos. O que aqui observamos quanto aos dois mencionados signos não exclui, contudo, a possibilidade de encontrarmos manifestações de ciúme em outros signos. Quem poderá se declarar imune a esse tipo de paixão? 


Em Machado de Assis, sempre sutil e refinado, encontramos observações como esta (Relíquias da Casa Velha): Havia nela tanta modéstia e recato que o ciúme dele podia dormir com as portas abertas. Se quisermos mais do nosso Machado temos que ir a uma de suas obras máximas, Dom Casmurro, onde ele analisa de modo magistral o ciúme de Bentinho por Capitu, deixando-nos dúvidas que discutimos até hoje. 
No caso de Touro, do elemento terra, o ciúme se liga invariavelmente a um desejo de posse material de um ser, de um objeto amado, ou da fruição ou gozo de alguma sensação prazerosa. Não satisfeitos, tais desejos, pela falta, pela carência, gerarão sempre algum tipo de sofrimento. Por outro lado, satisfeito ou obtido o objeto do desejo, sobre o qual repousa em grande parte a segurança física e psíquica do tipo aqui descrito, o ciúme, latente sempre, acabará se mostrando. 

Já quanto ao escorpiano (elemento água), a segurança está ligada ao emocional. Costumam os escorpianos viver a sua afetividade de modo total, absoluto, na base do tudo ou nada. Muitos escorpianos, quando amam, desejam do outro o corpo, a alma e o resto... Em ambos os casos, o ciúme, com facilidade chega à obsessão, à ideia fixa, podendo o sentimento tomar um caminho destrutivo (se não possuo, ninguém possuirá), patológico. É evidente que quanto maior o número de astros nos signos apontados, principalmente os chamados planetas pessoais, além do ascendente, maior a ênfase passional. Não é por acaso que encontramos nesse eixo as figuras mais emblemáticas da paixão e, consequentemente, do ciúme e da inveja, seja pela sua vida pessoal, por sua atividade profissional ou pela obra que deixaram. Como exemplos, basta citar: Stendhal, Eurípedes, Dostoievski, Lupicínio Rodrigues, Balzac, Goethe, Jean-Paul Sartre, Carlos Drummond de Andrade, Luis Inácio Lula da Silva, Richard Wagner, Picasso, Racine, Restif de la Bretonne, Albert Camus, Henri Georges Clouzot, André Malraux, Freud, Hitler, Kant, Marx etc.

ROLAND  BARTHES
Roland Barthes, semiólogo francês, em Fragmentos de um discurso amoroso, disse, tentando colocar o ciumento contra a parede: Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum. 

A Bíblia é um dos maiores repositórios de exemplos das paixões humanas: o ciúme de Caim; o de Sara, que induziu Abraão a expulsar Agar e seu filho Ismael; as relações entre Esaú e Jacó; a traição de Judas (ciúme de Pedro); a venda de José, como escravo, aos egípcios; o ciúme de Lia diante da beleza de Raquel; o ciúme de Satã por Deus ter criado Adão e muito mais.

APELES
O ciúme e a inveja costumam andar juntos com o ódio, já diziam os gregos. E completam: acompanha-os, de longe, o Arrependimento, sob a figura de uma mulher de luto, com as roupas esfarrapadas, os olhos lavados de lágrimas, em desespero, a procurar com os olhos a Verdade. Uma das melhores ilustrações deste entendimento dos gregos nos foi deixada pelo pintor Apeles (séc. IV aC), amigo e retratista de Alexandre Magno.

MEDEIA  E  FILHOS
(NINO  PISANO, 1334-1336)
No mundo grego, quem melhor falou sobre o sentimento humano foi Eurípedes, conhecido pelo apelido de pintor das paixões, nas suas tragédias, com os seus personagens femininos, dentre os quais, mais que todos, se destaca Medeia. Transtornada pela traição de Jasão, ela se vinga, causando a morte do rei Creonte, de sua filha Creusa e de seus próprios filhos: nada morderá mais rijo o coração de meu marido, é a fala de Medeia.
Não é de estranhar, por exemplo, que no nosso Brasil colonial algumas enciumadas sinhás (tratamento que as escravas davam às patroas) mandassem quebrar os dentes das “negrinhas roliças” ou, então, que mandassem cortar seus seios para servi-los, assados e
temperados, aos maridos, nos jantares. Uma dessas piedosas senhoras, irritada com os elogios que seu marido fizera aos olhos de uma “mulatinha” os serviu em calda, como sobremesa. Por aí, vemos que Peter Greenway não exagerou quando mostrou em seu filme, O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, o marido servindo à esposa o amante morto, temperado e enfeitado numa cerimônia cheia de requinte.

O cinema, aliás, é pródigo em filmes sobre o ciúme. Um deles, por exemplo, é Carmem, baseado no romance de Prosper de Merimée e na ópera de Ceorges Bizet. Grandes nomes do cinema se voltaram para essa fascinante personagem, Chaplin (1916), Lubitsch (1918), Otto Preminger (1954), Peter Brook (1983), Carlos Saura (1984), Godard (1983) e Rossi (1984). Destaque ainda para outros filmes, alguns igualmente importantes: A Caixa de Pandora (Pabst), A Teia de Chocolate (Chabrol), Amar Foi Minha Ruína (Stahl), Atração Fatal (Adrien Lyne), Infielmente Tua (Zieff) etc.

A poesia luso-brasileira guarda preciosidades sobre o tema. 
CASTRO   ALVES

De Castro Alves:

Nas ruínas desta alma a raiva geme.
E cresce o cardo – a morte
Ciúme! Dor! Sarcasmo! Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria.

Um dos maiores textos sobre o ciúme é, sem dúvida, o pequeno poema Cidra, Ciúme, de Soror Maria do Céu (1658-1753), esquecida autora do Barroco português, também atingida pela insidiosa paixão: 

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente, 
Dá-lhe um centro de amor o apelido,
Que o ciúme é amor mas mal sofrido,
Troquem, pois, os amantes, e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.

Até em obras aparentemente tão inocentes como na história da Branca de Neve podemos encontrar o veneno do ciúme infiltrado: A madrasta: Dize a pura verdade, dize, espelho meu, há no mundo mulher mais bela que eu? O espelho: Aqui neste quarto sois vós, com certeza, mas Branca de Neve possui mais beleza.

Nada, porém, entre nós, melhor do que o encontrado em doutos tratados que sobre o tema se produzem, como o samba brasileiro para nos falar sobre o ciúme. O patrono dessa produção é, par droît de conquête, o eterno Lupicínio Rodrigues, imbatível no gênero.  É nesse espaço da cultura popular que encontramos obras em que se fixaram expressões como “dor de cotovelo” e “dor de corno”, e conceitos como o de “cornitude” (gênero lítero-musical), todos a discorrer sobre os males das paixões. 
É de Caetano Veloso um dos clássicos no gênero, “Dor de Cotovelo”. Seus primeiros versos nos dizem:
CAETANO  VELOSO

O ciúme dói nos cotovelos
Na raiz dos cabelos
Gela a sola dos pés
Faz os músculos ficarem moles
E o estômago vão
E sem fome
Dói da flor da pele ao pó do osso
Rói do cóccix até o pescoço.

Do grande mestre Lupicínio Rodrigues, Vingança, que bem poderia passar por uma homenagem a Medeia, a fada-madrinha de todos os que matam ou matarão por paixão: 

“Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram chorando, bebendo,
Na mesa de um bar
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar
Ai, mas eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que tive mesmo que fazer esforço
Pra ninguém notar

Mas enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar.

Diante do que expus até agora, nestes momentos finais, para que se complete melhor a visão do tema, obrigatória uma incursão, ainda que breve, à Psicologia e à Psicanálise. Na história do freudismo, os estudos sobre a inveja apareceram totalmente associados à sexualidade feminina. Freud, como se sabe, defendeu a tese de um monismo sexual e de uma essência masculina com relação à libido humana.  Nessa perspectiva de uma libido única, Freud defendia a ideia que, num estágio infantil, as meninas desconheciam a existência da vagina e faziam o clitóris desempenhar o papel de um homólogo do pênis. Daí a sensação que apresentam, segundo ele, de terem nascido providas de um órgão castrado. A sexualidade da menina se organizaria então em torno de um falicismo, isto é, do desejo inconsciente de ser um menino, do desejo que toda mulher tem de ter um pênis.

Mais: segundo algumas doutrinas psicanalíticas, todas as meninas desenvolvem com relação à mãe uma identificação tão completa (inveja) que desejam inconscientemente tomar o seu lugar, eliminá-la, para possuir o pai. A esta atitude emocional, deu-se o nome de complexo de Electra, para Freud o complexo de Édipo às avessas. 


JUNG

Jung, como se sabe, optou pela primeira designação, complexo de Electra. Electra, no mito grego, era filha de Agamemnon, rei de Micenas. Ela instigou seu irmão, Orestes, a vingar a morte do pai, assassinado por sua mulher, Clitemnestra e seu amante. Clitemnestra era mãe de ambos, dela e de Orestes.

MELANIE  KLEIN
Na década de 1920, Melanie Klein, famosa psicanalista inglesa, estudiosa do psiquismo infantil, deslocou o tema da inveja do contexto da sexualidade feminina, ampliando-o. Para ela, o conceito de inveja designaria um sentimento primário e inconsciente de avidez em relação a um objeto que se quer destruir ou danificar. A inveja apareceria então desde o nascimento, sendo inicialmente dirigida contra o seio materno. Na posição esquizo-paranoide ou depressiva, a inveja ataca o objeto “bom” para dele fazer um objeto “mau”, gerando assim um estado de confusão psicótica. 

O IMPÉRIO DOS SENTIDOS
Para uma melhor ilustração do que aqui se coloca com relação às teorias psicanalíticas, inclusive as defendidas por Jacques-Marie Lacan, recomendo para os mais interessados os filmes japoneses O Império dos Sentidos e O Império da Paixão, de Nagisa Oshima.




domingo, 20 de março de 2016

ASTROLOGIA E SAÚDE - X

                                
Leão – De um modo geral, os leoninos comem mais para impressionar do que realmente para se alimentar; gostam de pontificar à mesa e curtir cenários pomposos, restaurantes caros etc. Grande preferência por proteínas animais. Se vão à cozinha, os leoninos costumam se sair bem, embora não seja ela o seu palco natural. De paladar exigente, gostam de vinhos caros, inclusive para molhos e temperos. Narcisistas e triunfantes, os leoninos existem para aparecer, para despertar a admiração, para receber elogios, inclusive quando se alimentam. Sua grande predileção por

grandes refeições, festas, cerimônias, banquetes, restaurantes da moda é fonte de muitos de seus problemas de saúde. As bebidas são mais apreciadas pelo seu alto custo do que pelo seu valor intrínseco. Um Romanée-Conti (grand cru) ainda é uma grande pedida para qualquer leonino com muito dinheiro e mais sofisticado, que queira brilhar!

Quanto ao mais, a expressão benefício-custo decididamente não faz parte da vida da maior parte dos leoninos. Em termos de alimentos e bebidas tudo tem que ser de primeira qualidade, refinado, importado, de preferência. Pratos e frutas exóticas, peixes e

SOMMELIER 
crustáceos especiais devem fazer parte da mesa do leonino endinheirado, além naturalmente das sobremesas complicadas. No mais, o cenário das refeições será sempre importante, selecionadíssimo, o serviço de mesa impecável. Muito generoso nas gorjetas, o leonino gosta de ser sempre tratado como VIP pelos maîtres, sommeliers, garçons e porteiros de hotéis e restaurantes.

Os leoninos se adaptam com facilidade à vida social, sabendo fazer amigos e conservá-los, gostando de demonstrar, quando podem, a sua afeição com presentes caros. Se não podem, costumam prometer. Uma coisa é certa: podemos afirmar que se um leonino oferece um jantar em sua casa a comida será de boa para excelente. Idem quanto ao vinho, sempre correto para cada prato e à temperatura ideal. O leonino de classe não bebe cerveja, coisa de proletários.

Muitos leoninos pensam que a sua saúde é indestrutível, o que os leva a cometer muitos abusos, especialmente aqueles que já atingiram o “seu” lugar na sociedade, invariavelmente os mais exagerados. Especial atenção deve ser dada ao consumo de gorduras, especialmente às frituras, sempre um grande perigo, muito mais para os do signo. Por isso, será desejável também o controle das gorduras e das féculas, para que seja evitada uma certa tendência à obesidade (ascendente leonino). Recomenda-se ao leonino que esteja a caminho da meia-idade que verifique regularmente a sua pressão arterial e faça hemogramas, especialmente para controle do colesterol, dos triglicérides etc.  

Fraquezas: moléstias do coração, síncopes, rupturas de aneurismas, angina de peito, males nas costas, visão frágil, hipersimpaticotonia. Lembre-se que os leoninos, de um modo geral, têm uma repulsa natural pela palavra doença. Se doentes, porém, gostam de visitar grandes especialistas, que devem considerar o seu problema de saúde sempre como um caso especial. A doença de um leonino nunca é um caso banal, tendo ele predileção por terapias seletivas, recorrendo muitas vezes a especialistas no exterior, se tiver dinheiro, é claro. 

Recomenda-se ao leonino a prática de uma atividade física regular, caminhadas mais puxadas, um esporte, que o ajude a manter a forma. Como os tipos dos outros signos de fogo, o leonino (principalmente o de ascendente) costuma possuir uma constituição forte que não pode prescindir, entretanto, de uma atividade física intensa e regular.
A tipologia leonina, de um modo geral, pode se situar desde aquela que se manifesta apaixonadamente, alimentada por uma abundância vital, expansiva, doadora, generosa, até aquela que, de outro lado, se impõe tirânica e orgulhosamente, que espera dos outros, no mínimo, vassalagem e aplauso. Exibicionismo e máscara social fazem parte da persona deste tipo. A astrologia tradicional, há muito, com base no mito, nos fala de um leonino hercúleo, horizontalizado, forte, impositivo, voltado sobretudo para as conquistas materiais, façanhas econômicas, de natureza marcial-uraniana (o segundo tipo acima). De outro lado, a astrologia nos descreve o chamado leonino apolíneo, verticalizado, que procura viver o signo a partir do controle da vida instintiva pela sua racionalidade, colocando esta a serviço de propostas espiritualizadas. Este é o leonino jupiterizado, que pode, se uma contribuição saturnina ajudar, sem deixar de buscar uma vida opulenta e gloriosa, construir e comandar empreendimentos de grande envergadura, inclusive sob o ponto de vista artístico, na vida privada ou pública. 

Virgem – No geral, o tipo Virgo é exigente quanto à comida, gostando de examinar e verificar tudo o que põe no seu prato; muitos chegam ao exagero (será que é? pergunte a ele) de limpar os

talheres e os copos disfarçadamente; uma refeição, para muitos, é quase um ato farmacêutico; frugalidade, comedimento, asseio. Problemas gastrointestinais podem interferir na alimentação. Os sucos naturais (cenoura, beterraba, couve), muito apreciados pelos do signo, devem ser ingeridos antes das refeições, evitando-se também as bebidas gasosas, mesmo as chamadas dietéticas. Um Virgo consciente jamais ingerirá as “bebidas de caixinha”, que, para espanto seu, são servidas na maioria dos hospitais para os pacientes internados.

Fraquezas: males da assimilação, dos intestinos (cólicas, disenterias, constipações etc.). A ansiedade, típica do signo, deve ser combatida já que está na origem de muitos distúrbios neurovegetativos que interferem negativamente na alimentação. Evitar, é claro, o exagero dos inventários, a minuciosa contagem das calorias, a compra de revistas médicas, os cursos sobre as dietas da moda, os alimentos miraculosos que uma população de longevos usa no extremo-oriente ou nas alturas do Andes. Do mesmo modo, evitar, quando diante de um terapeuta, o sistemático e chato questionamento sobre a escolha dos remédios, as perguntas sobre os detalhes de sua composição. Participar das consultas médicas com moderação.

De um modo geral, os virginianos podem se tornar, sem se converterem em nutricionistas, aplicados alunos no conhecimento da arte dietética. Com relação aos demais signos, os virginianos contam geralmente com uma virtude na matéria alimentar: as suas escolhas são invariavelmente racionais e eles costumam se orientar por elas; mesmo entre os do signo não totalmente logrados, não
PABLO   PICASSO,  1903
costumam fazer parte de sua gastronomia os descontroles alimentares, o fumo e o abuso de bebidas alcoólicas. O ponto fraco dos virginianos nesta área está exatamente no seu excessivo racionalismo; nenhuma concessão aos prazeres gustativos e aos apelos sensuais, que, bem administrados, nunca serão prejudiciais. Os exageros da cozinha e da mesa de Virgo (quinta e sexta casas) estão muitas vezes na sua falta de charme, isto é, na ausência de temperos, de cores e de estética na disposição dos alimentos, sempre muito úteis para ativar as papilas gustativas (células receptoras do paladar) e atrair o olhar (formas e cores). Virgo, de um modo geral, nada tem a ver com a expressão “comer com os olhos”.

Sabe-se que o ponto mais sensível do organismo do nativo de Virgo é, em primeiro lugar, o sistema nervoso (Mercúrio). São os “nervos” que dão origem a muitos sintomas de difícil diagnóstico. A tradição, com base na Psicologia, está certa quando afirma que muitos problemas do trato intestinal que aparecem em Virgo, de modo especial a prisão de ventre, têm relação com a parcimônia, a austeridade e a escassez, características que fazem parte do seu reservado temperamento.

Os psicanalistas designam o conjunto dos traços acima apontados pelo nome de “complexo anal”. Esse complexo aparece já nos primeiros anos de vida de muitas crianças virginianas e tem relação com a evacuação das fezes. A tônica afetiva delas (ainda como infantes) se concentra no funcionamento da região retal e se caracteriza pela importância dada à retenção ou à expulsão da matéria fecal.

No tipo virginiano, sob a pressão interna de ideias de asseio, limpeza e pureza, prevalece a tendência retentiva. A isso se soma o fato de Virgo ser o tipo que mais prontamente responde à disciplina dos pais e educadores. Para ser “amado”, considerado como uma “boa criança”, o virginiano, na infância, adquire um “caráter anal controlado” que vai influenciar bastante o comportamento do adulto. Daí, as constipações intestinais que caminham juntas com o espírito minucioso, puritano do virginiano, com a sua mania pela limpeza, pela desinfecção, o seu gosto pelas classificações, pela ordem. 
O que está acima se direciona obviamente para os tipos virginianos malogrados, cujo caráter se manifesta através de várias atitudes: retenção e armazenamento de informações (os celeiros são de Virgo), conservadorismo (guardar o que deve ser jogado fora), espírito protelatório, escrupulosidade, meticulosidade, laboriosidade etc. Para estes tipos, qualquer sujeira ou mancha é sempre um “pecado repugnante”, uma profanação. 
LEON   TOLSTOI
É por essa razão, decididamente, que as “delícias da vida” não fazem parte do universo virginiano. É através da dúvida, do ceticismo, do questionamento constante, que o Virgo se esforça para ver claro e compreender. Aliás, foi um virginiano (Tolstoi) que nos deixou esta frase: Viver é trabalhar, penar, ter paciência e se mostrar misericordioso.  

Libra – O gosto, o cenário e os componentes são conhecidos em Libra: açúcar, doces, acréscimos açucarados, carboidratos. Públicos ou privados, nos lugares a frequentar, a elegância acima de tudo,

toalhas, talheres, flores, velas, mesa bem cuidada. Ou seja, comer é sempre para Libra um ato social; nada de pressa, sofreguidão e comilanças desenfreadas. Mais: refeições solitárias fazem mal, devem ser sempre evitadas. O cenário tem que ser propício à conversa amena, da qual façam parte, sempre, o espírito conciliador, a delicadeza, a busca da harmonia, as boas maneiras, as referências abonadoras aos ausentes, mesmo que hipocritamente.


O perigo para a saúde pode estar na alimentação e bebidas servidas nas reuniões sociais (canapés, salgadinhos, petits-fours, aperitivos, coquetéis, vinhos licorosos, mistura de bebidas de sabores
PETITS-FOURS
discordantes etc.), muito frequentadas por librianos. Há predileção pelos salões de chá, pela pâtisserie, pelos achocolatados. No mais, quanto às refeições mais importantes, há evidentemente preferência pelas carnes brancas, peixes finos (linguado, Saint Peter, truta), com acompanhamento de molhos suaves e pães. Não a côdea, sempre o miolo, muito mais delicado. Lembro que na língua francesa, miolo é mie, palavra saída do universo libriano, ao significar tanto miolo de pão como amiga, amante, amada, m´amie.  

Fraquezas: problemas renais, bexiga, órgãos genitais internos, nefrites, cólicas, uremias, tendências edematosas, afecções ovarianas, diabetes, lumbago, enxaquecas. Um dos pecados librianos é o seu precário equilíbrio nervoso: uma pequena contrariedade basta muitas vezes para desviá-los da firmeza com que haviam aderido a um tratamento. Muitas dificuldades pancreáticas (glândula situada na região posterior do estômago, que segrega o suco pancreático, além da insulina e hormônios) e renais começam por essa atitude.


MARCELLO   MASTROIANNI
Lembremos que o pâncreas atua na decomposição dos alimentos. A insulina por ele segregada tem importante papel no metabolismo dos carboidratos no sangue. Tabagismo e dietas com altos níveis de gordura aumentam o risco da incidência de câncer nessa glândula, além de outros fatores negativos relacionados com Vênus. Lembro-me aqui do libriano Marcello Mastroianni, que foi levado por um câncer no pâncreas. 

Como o equilíbrio sempre desejado (principalmente nas mulheres, tanto para a manutenção de uma silhueta agradável como para almejada “paz de espírito”) é dificilmente obtido e mantido, os aborrecimentos (considerados sempre trágicos, insuportáveis) serão mascarados ou diluídos. Daí, as trocas de confidências com amigas sensíveis (conversas de “alminhas”), infindáveis telefonemas, queixumes, as conversas com cabeleireiros, massagistas, personnels, além de um certo bovarismo muito presente;
a necessidade de afagos,  a flânerie pelos shoppings, os passeios, olhar as vitrines, um cinema para se distrair (filmes com gente bonita e finais felizes, de preferência) ociosidade, uma tarde no clube etc., tudo acompanhado de muitas concessões venusianas (doces, chocolates, bombons, sorvetes etc.), pois, afinal, comuns nos discursos librianos expressões como: precisamos de um pouco de alegria na vida, para compensar tantos aborrecimentos. Com as devidas adaptações, estas características apontadas farão parte do universo da mulher libriana que trabalha. Estamos nos referindo mais aqui, é claro, à libriana malograda.

O libriano masculino típico costuma optar pelo diletantismo (nada de “pegar” na vida com muita firmeza), gosta de discorrer sobre os prazeres mundanos.  De um modo geral, os librianos mais bem logrados, são muito ajudados com relação à sua saúde por um natural fairplay que lhes é peculiar: a aceitação serena e elegante das situações difíceis ou adversas, procurando sempre jogar limpo na vida. Nos tipos superiores do signo, outra grande virtude: o chamado savoir-faire, habilidade para obter êxito graças a um comportamento maleável e inteligente. Obter o que pretende com arte e diplomacia, enfim. Talvez a suprema glória de um libriano deste nível esteja nas vitórias que obtém sem ter que lutar. 

O libriano, homem ou mulher, de um modo geral, não gosta de tarefas que sujem as mãos. Para obter uma aparência agradável, para estar na moda, os librianos de ambos os sexos (muito mais as mulheres, é óbvio) se submetem às vezes a certas torturas (roupas, calçados, penteados, maquiagem, massagens, cirurgias plásticas etc.) que podem lhes causar sérios danos à saúde. Muito comuns, entre as librianas, as cirurgias causadoras do dismorfismo.

De acordo com a astrologia tradicional, o grau de vitalidade dos librianos é moderado. Felizmente, é raro que se esforcem excessivamente, não havendo assim perigo de esgotarem as suas forças (exílio de Marte). Grande parte dos seus problemas decorre de uma notória sensação de insegurança, geradora de inúmeros pequenos incômodos que os aborrecem até bastante. A imagem que me ocorre para explicar isto é a de que o ideal do libriano se fixa na busca de um equilíbrio perfeito na relação dele com o mundo, o que, evidentemente, é impossível. Uma indisposição mínima, sem maior importância, é capaz de desequilibrar profundamente esse tipo de que falamos.


LOMBALGIA
Um ponto muito sensível no corpo do libriano é a região lombar, sendo muito comuns as suas queixas com relação a esta área. Aliás, como se sabe, as lombalgias são a segunda causa mais frequente de idas aos médicos (antes delas, em primeiro lugar, os problemas respiratórios). Boa parte das lombalgias em homens e mulheres é provocada por doenças de órgãos internos, problemas prostáticos, uterinos, ovarianos,  renais etc.
Quantos aos problemas dermatológicos, é bom lembrar, além do que já se disse, que grande parte deles tem origem em distúrbios de natureza afetiva ou material (insegurança material, problemas eróticos e venusianos). Não podemos esquecer também, principalmente quanto às mulheres, que o uso (abuso) de artigos cosméticos pode lhes causar muitos problemas. Cosméticos e “tratamentos de beleza” só deverão ser usados e aplicados com muita cautela e segurança.  

Escorpião – Cautela é a advertência inicial, levando-se em conta, quanto a problemas que possam decorrer da alimentação inadequada, que a ação peristáltica do escorpiano médio (ascendente e casa seis) é lenta; daí, o risco de retenções e fermentações indesejadas. O peristaltismo é, como sabemos, o conjunto de contrações musculares dos órgãos ocos que tem a finalidade de provocar o avanço do seu conteúdo. Evitar, por isso, alimentos que se deteriorem facilmente (crustáceos e moluscos, carnes mal preparadas etc.), que geram com facilidade compostos tóxicos; não recomendados, assim, os frutos do mar, condimentos e temperos fortes. O gosto por refeições em lugares reservados, meia-luz etc., pode fazer o escorpiano entrar em verdadeiras “frias”, ingerindo alimentos duvidosos. Lembrar que Escorpião na quinta casa, na preparação, carrega muito nos temperos. Comida muito temperada, em restaurantes, pode significar, muitas vezes,
BÉCASSE   FAISANDÉE  -  MONET
alimentos estragados. Um toque escorpiano na cozinha francesa é o preparo de alimentos, carnes de caças especialmente, através do faisandé (faisan, faisão): processo pelo qual se deixa a carne “passar” de seu ponto de maturação até o início de sua decomposição. Carnes assim preparadas eram destaque nas requintadas refeições oferecidas em Giverny por Claude Monet (Sol em Scorpio, Lua em Câncer), nos seus tempos de glória.    

Quanto às bebidas, os escorpianos costumam preferir as que tenham “caráter”, isto é,  fortes, concentradas, que deixem a sua marca depois de ingeridas. Com relação aos alimentos, há preferências, como se disse, por carnes vermelhas (caça). Lembremos, nesse sentido, que o escorpião é um animal caçador. Daí, as carnes de javali, paca, jacaré, coelho, alguns galináceos etc. fazerem parte da dieta de muitos escorpianos. Há também, muitas vezes, preferência por cozinhas exóticas (antilhana, norte-africana, indiana, extremo-oriente, peruana, mexicana etc.) onde entrem os molhos de vinho ou apimentados fortes e alimentos impregnados de álcool, defumados, carnes marinadas, a chamada cozinha fusión. É preciso vigiar sempre os estimulantes (álcool, café, fumo, chás, licores). Como se sabe, Escorpião é o signo astrológico que mais alimenta atitudes autodestrutivas. Para compensar (sublimar) estas tendências, muitos se atiram com paixão a alguma atividade profissional, esportiva, ideológica, religiosa. Tudo isto, como fica fácil constatar astrologicamente, pode desembocar na alimentação. O excesso, como um ideal de absoluto para o bem e para o mal, é um conceito que costuma fazer parte da vida dos escorpianos, o que costuma, às vezes, transformá-los em suicidas crônicos, embora alguns possam renascer das cinzas como a fênix.  

Fraquezas: problemas fisiológicos nos sistemas genital e urinário, sensibilidade nos órgãos sexuais, afecções dos rins, bexiga, ureteres, ovários, próstata, hemorroidas, complicações no intestino grosso, além, é claro, dos problemas psicológicos comuns nos do signo, depressões nervosas, angústias, ideias fixas, obsessões etc. Um dos problemas do escorpiano é que ele muitas vezes ignora a fraqueza, o cansaço, a depressão e passa a conviver
JEAN   RACINE
indefinidamente, muito atormentado, com os seus “demônios”, noturnos ou não. A produção artística de alto nível de muitos escorpianos costuma receber muita inspiração de sua demonologia interna. Não será difícil apontar artistas que exemplifiquem esse aspecto: Picasso, Racine, Stendhal, Dostoievski... Este último (Sol em Scorpio, casa doze), num de seus livros, nos deixou uma frase como esta: O maior amor é aquele que mais faz sofrer. "Só um escorpiano poderia escrevê-la".

Devido à sua enorme capacidade de resistir, de conviver com a angústia, um estado psíquico que lhe é muito familiar, o escorpiano mostra às vezes até muita indiferença diante dos primeiros sintomas das doenças que o acometem. Esta atitude, como é fácil concluir, pode lhe custar muito caro. Instalada a doença, terá que se haver com tratamentos e períodos de repouso às vezes muito prolongados.

Quando falamos do signo de Escorpião, das suas ideias fixas e paixões, não podemos esquecer de Jean Racine (quatro planetas no signo). Não é por acaso que ele é um dos maiores “tratadistas” das paixões humanas. São dele as peças teatrais que melhor nos descrevem os tipos entregues ao império da paixão, num estilo insuperável. Tão perfeitamente delineados, esses tipos nos permitiram estudar os melhores exemplos da paixão, toda a sua patologia, vivida só como alguns escorpianos especialíssimos
sabem fazer. Os “heróis” de Racine sabem que as suas paixões serão a causa da sua destruição, mas, orgulhosamente, a elas permanecem aferrados, ostentando-as diante do mundo num espetáculo ao mesmo tempo agônico e extático, em que eles são ao mesmo tempo vítimas e carrascos. Para quem quiser mais, aqui vão citadas algumas obras do grande mestre francês do séc. XVII: Andromaque, Bérénice, Phèdre, Iphigénie...   

Além dos problemas nos órgãos do baixo ventre (intestino grosso, reto, ânus e genitália), os escorpianos, segundo a tradição astrológica, parecem ser as maiores vítimas de moléstias infecciosas. Causas? Encontradas provavelmente nos seus descuidos com relação à saúde, nos altos níveis de esgotamento físico-mental a que se deixam levar e nas imprudências de ordem sexual (sexo errado) em que muitos costumam incorrer.  

Doente, o escorpiano médio não é um tipo fácil. Via de regra, prefere tratamentos radicais que deem resultados imediatos. Para muitos, o melhor médico é aquele que o liberta mais rapidamente das suas dores. Com essa mentalidade, costuma ingerir doses de remédios maiores que as prescritas ou estimulantes e tranquilizantes para poder aguentar as tensões da sua vida diária quando enfermo.  

Um problema que encontramos em muitos escorpianos e, por ação reflexa, em taurinos, quando chegam à chamada meia-idade é o sentimentos de pânico que se apossa deles diante da ideia de que o “futuro chegou”, de que “não há mais tempo” (Urano, o espaço, se exalta no signo), de que a morte está próxima.  A entrada na velhice lhes traz um sentimento de que já não terão mais outras oportunidades de viver e de que não conseguirão realizar e/ou gozar tudo o que a vida parecia lhes ter prometido tão intensamente. Entenda-se: os escorpianos não gostam de fazer as coisas pela metade e detestam tudo o que seja pouco claro ou que não possam compreender. Colocados diante dessa última etapa da vida, que lhes acena com o mistério da morte, aturdem-se, descontrolam-se. São estes, os aturdidos, desesperados, que provavelmente terão a maior dificuldade para enfrentar Thanatos. Como talvez nunca tenham sabido compreender que a vida é feita de mortes, morrerão prisioneiros de ressentimentos, raiva, mágoas, ódio, inveja, vitimados por um impossível desejo de permanência.

Já se disse que muitos escorpianos sofrem de uma doença
EDGAR   ALLAN   POE
incurável, angustiante, cuja causa está no seu desejo de querer ser sempre mais do que podem ser, não lhes importando seu bem-estar, como Edgar Allan Poe. Isto muitas vezes se expressa através da dialética  da destruição-construção, que gera os tipos mais “encantadores” do signo, o ambivalente, que vive através dessas duas naturezas opostas, o crítico e o criativo, o idealista e o perverso.

Se a dominante é ígnea, essa ambivalência se expressa através de um complexo anal (lembre-se, o intestino grosso é de Escorpião) ativo, revoltado contra qualquer tipo de coação, que concentra na liberação instintiva toda a sua força. Esse é o escorpiano que pode ir em direção da desordem, do sadismo, da paixão total, da obstinação, da dureza no trato social e da criação revolucionária.

Prevalecendo uma dominante terra, saturnina, por exemplo, ninguém tão recalcado como esse escorpiano. Ele elege como suas “armas” (uma grande semelhança com Virgo) as suas regras, as suas manias, o seu grande poder crítico, a sua imensa capacidade trabalho, centrada na ideia de ir sempre “até o fim”, muitas vezes impiedosamente, deixando os outros no meio da caminhada.      



domingo, 12 de janeiro de 2014

FRANZ KAFKA


                     

À primeira vista, a obra de Franz Kafka poderia ser entendida pelas palavras que Joseph K, o personagem de O Processo, diz antes de morrer: "como um cão". Detido, acusado e finalmente julgado, sem saber por que, Joseph K é conduzido por dois senhores, bem vestidos e educados, a um bairro afastado da cidade e lá é executado: espadas no coração e a vergonha que vai sobreviver mesmo a essa morte de cão.


Descoberta a obra de Kafka, falou-se logo numa imagem da condição humana. O Processo seria a prova de que a vida era um cárcere sinistro; se uma porta houvesse, abrir-se-ia ela sem dúvida para uma sala onde, num cenário de Grand-Guignol, uma guilhotina  estaria  à  nossa  espera. 
Da mesma forma,  os outros livros, O Castelo, A Metamorfose, A Muralha da China, América etc., seriam  a  pintura  da angústia, da solidão e do absurdo.

Para aqueles que assim entendiam, ninguém, até então, escrevera como Kafka, com tanta clareza e lucidez sobre a escuridão, uma pena científica, burocrata de gênio, que fazia o inventário do horror. Pesadelos, parábolas gigantescas.






Nascido em Praga, em 1883, de família israelita, advogado de uma companhia de seguros, vida obscura, morreu em 1924, vítima de uma laringite tuberculosa, num sanatório perto de Viena. Hesitante, jamais se casou. Uma educação errada e um pai tirânico que destruía todas as tentativas de independência lançaram contra ele
uma espécie de décret d'expulsion (alguns, erroneamente, aliás, numa interpretação psicanalítica, verão apenas em Kafka um caso clínico, patológico, exemplo indiscutível de um complexo de Édipo, e indícios de homossexualismo). O meio hostil procurou caracterizar a sua singularidade como uma espécie de loucura, obstáculo à vida, que engendra frieza, mesquinharia, cálculo, avareza e todos os vícios do burocrata, dos quais ele amargamente se acusa no Diário.


KIERKEGAARD
Decorre desse fato a grande admiração de Kafka pelos escritores que, como Flaubert e Kierkegaard, foram capazes de viver e levar a sua singularidade às últimas consequências. Kafka, no Diário (anotação de 27-8-1916), se acusa por não poder, como eles, escolher o seu próprio caminho, por não atravessar a fronteira que separa a solidão de uma vida normal entre os homens. O julgamento de Kafka sobre si mesmo é de uma severidade impressionante não se explicando senão pelas consequências que trazem as obrigações imediatas: superar a revolta do homem particular, encontrar o caminho que conduz a uma comunidade viva, enraizada num solo, numa tradição, numa história.


KAFKA EM PRAGA


Todavia, para que considerações como essas pudessem ser feitas, muitos mal-entendidos e equívocos tiveram de ser desfeitos. O mundo contra o qual Kafka se batia parecia abstrato. Na verdade, era o mundo de Praga, pequeno canto da Europa, chamado, então, de Boêmia. Praga aparece algumas vezes na obra de Kafka, com as
suas ruas, as suas praças, as suas velhas pontes, uma atmosfera medieval que se ajusta perfeitamente ao ambiente de O Processo ou de O Castelo. Mas, quebrada a camada superficial, além do quadro familiar, percebemos outra coisa, uma espécie de fatalidade, punho descomunal pronto para golpear.

Esta fatalidade pode ser explicada não só pela condição judia de Kafka,  num  país  onde  o  antissemitismo  era  tradicional,  como
também pela situação histórica, social e étnica de Praga. Ainda mais: outros fatores intervinham para determinar a situação toda especial de Kafka; para os checos, judeu pela raça e alemão pela língua; filho de um comerciante cujos empregados, em sua maioria, eram checos; embora alemão pela língua, desligado completamente dos alemães da Boêmia, que, a seus olhos, não eram mais do que insignificante caricatura dos do oeste; separado de todos tanto pelos preconceitos raciais, como pelos muros invisíveis do ghetto, onde a burguesia judia de Praga voluntariamente se encerrou.

Para os amadores do desespero e para os fetichistas do absurdo, a obra de Kafka indicava, pois, que um fatum cego determinava a irrealização da humanidade sem categoria, indistinta, entregue apenas à reflexão sobre a sua impotência, à percepção da intransponíve1 armadilha. Era o domínio da marginalidade e da angústia do homem expulso das situações normais e cotidianas, submetido, sem culpa, a um misterioso "processo" e à procura de um inatingível "castelo".

Pouco a pouco, porém, foi-se fazendo a luz. Quando as obras de Kafka começaram a circular mais livremente, vencido o período nazista, deixando assim a vida subterrânea, os pontos obscuros, 

as passagens mais difíceis, a ambiguidade, as nebulosas, foram
desfazendo-se.

O Diário, Os Aforismos, Carta ao Pai e Cartas a Milena, principalmente, possibilitaram o estabelecimento de uma verdade "mínima": a relação profunda que havia entre a desesperada busca de verdade dos heróis kafkanianos e o mundo onde viveu o autor. Percebeu-se que esse novo profeta era antes de tudo um justo, um homem de boa vontade, que andava à caça da verdade e do absoluto no labirinto das suas grandes entidades. E foi na vida que Kafka encontrou sua implacável lógica: o pensamento transformando-se num movimento reflexivo da própria existência, participando da irrefutabilidade do que é.
    
O herói de Kafka é o homem que acredita na liberdade, mas que dela não pode ter uma concepção precisa porque vive num mundo de escravidão. Para esse homem não há graça ou salvação; ele não as procura; quer antes os seus direitos, um lugar entre os homens. No universo sem luz, Kafka vai introduzir essa questão de uma forma singular. Se O Processo propunha um problema, Castelo já tenta uma solução. Os livros se completam como observa Camus: "O primeiro descreve, segundo um método quase científico, sem concluir. O segundo, numa certa medida, explica. O Processo diagnostica. O Castelo imagina um tratamento". Este último é, na obra kafkiana, um non p1us u1tra da existência. K, de quem nada se sabe, é nomeado agrimensor do Castelo; chegando à cidade, vem a saber que é impossível qualquer comunicação com o tal Castelo. E através de centenas de páginas K procurará encontrar o seu caminho, valendo-se de todos os meios; jamais desistirá e, com uma fé desconcertante, sempre quererá ocupar a função para a qual fora nomeado. Mas cada tentativa é um fracasso e um recomeço. Quando K telefona ao Castelo, não se estabelece um diálogo, chegam-lhe apenas sons confusos, vozes que ele não entende bem, risos vagos, apelos longínquos. Obstinação, fé, ilusão?


  
Grande parte da crítica literária, como se sabe, sempre procurou nos passar de Kafka uma imagem de vítima impotente diante do autoritarismo e da arbitrariedade. A esta altura, depois do tanto que já se falou e publicou sobre ele, já deu para perceber que a genial prosa kafkiana não é a de uma vítima; muito mais que um impressionante exercício formal, ela nos revelou que a sua literatura é, acima de tudo, um instrumento de conhecimento do seu próprio eu e do mundo em que viveu. 


Durante toda a sua vida Kafka sempre se esforçou para conhecer, segundo a sua peculiaridade familiar, social e racial, as diversas formas de dominação a que naquele início do séc. XX, na Europa central, o indivíduo estava submetido, de modo especial um judeu como ele. Tanto em seu Diário como na sua correspondência, são muitas as cenas por ele descritas que nos falam de humilhação e opressão, inclusive as presenciadas em sua casa e em sua atividade profissional.

Numa passagem da Carta ao Pai, Kafka nos diz que, diante
insensibilidade e mesmo da brutalidade do pai para com os seus empregados, ele tinha tomado o “partido do pessoal”. Kafka, a partir de sua situação pessoal e familiar, ao tomar o “partido do pessoal” se solidarizou com todos os rejeitados socialmente, os tchecos que viviam sob a dominação alemã; os judeus do leste desprezados pelos judeus ocidentais; os judeus que falavam a língua ídiche, considerada uma língua pobre, não civilizada, pelos judeus germanizados.

                                                                                                Alimentado certamente por leituras de obras do anarquista e comunista Kropotkine e do socialista Alexandre Herzen, esta solidariedade ele a estendeu também, como advogado de uma companhia de seguros, a todos os modestos trabalhadores e
MAX BROD
empregados que, quando acidentados, explorados, abandonados e rejeitados, procuravam em vão reivindicar os seus direitos. Ele dizia a seu amigo Max Brod e a alguns próximos não entender como essa gente era tão dócil e humilde ao pleitear os seus direitos, “ao invés de tomar a casa (a companhia) de assalto e tudo destruir.”     

Qual o caminho a seguir? Uma pilgrimage do tipo da de Bunyan? Ao contrário, a qualidade mais opressiva das obras de Kafka é justamente a estabilidade inabalável da sua situação central. Não há, pois, pilgrimage a ser vista em O Castelo, nem ali o progresso se resume numa "questão de tempo". A não ser que consideremos como progresso o que Kafka descreveu na sua fábula do rato: “Aliás, disse o rato, o mundo torna-se cada dia menor. No princípio, era tão grande que eu tinha medo, eu corria, corria e ficava feliz quando, por fim, via paredes distantes à direita e à esquerda; mas essas compridas paredes diminuíram tanto que eu já estou no último quarto e lá no canto está a armadilha em que devo cair" O gato disse então: "Você deve apenas mudar de direção", e a seguir comeu-o.

Uma passagem de O Castelo é bem esclarecedora: "Eu fico melancólica, diz Olga, quando, pela manhã, Barnabé me diz que vai ao Castelo: esse trajeto provavelmente inútil, esse dia provavelmente perdido, essa esperança provavelmente vã". Sobre esse "provavelmente" é que vai se assentar toda a obra kafkiana. um "provável" que se traduz por um "vale a pena". Não é um grito desesperado que nenhum recurso deixa ao homem. O Castelo não é um símbolo de paraíso, visão divina; para K, é algo a ser conquistado. Que a obra de Kafka esteja voltada para o absurdo pouco importa, eis que o absurdo é, ao final, um grito de esperança. E é aqui que o pensamento de Kafka une-se ao de Kierkegaard e, por extensão, ao de todos os filósofos da existência, os que, sem dúvida, melhor o entenderam.


Fica com Kafka a grande lição, lição que no fundo corresponde à
TOLSTOI
de Tolstoi, amor, esforço e paciência. Vialatte, o tradutor de Kafka, quem talvez tenha melhor escrito sobre ele, diz: "seu mal-estar é o mal-estar humano. Outros o exprimiram, depois falaram de outra coisa. Ele jamais se deixou “distrair" desta contemplação lancinante. Ele formou a sua obsessão e a ideia fixa da sua arte. Com uma veemência de visionário ele se ocupou apenas das nossas mais antigas e das nossas mais novas nostalgias. Dir-se-ia que Pascal antecipou-se a Kafka quando descreveu a horrível condição do homem condenado a permanecer só no seu quarto, a contemplar essa condição. Kafka nada mais fez do que filmar as imagens que desfilam sobre as paredes das nossas celas solitárias...


Olhemos mais detidamente a sua fotografia, pois nela encontraremos, atrás de uma expressão de
"doçura aterrorizada", a imagem de um "homem em estado de guerra": a fronte baixa, os lábios cerrados. É um senhor que passou a sua vida numa autovivissecção por vocação particular, pelo amor da verdade, com uma crueldade humilde e infatigável. É o herói e a vítima, é a cobaia que viu a faca, é o sacrificante de olhar implacável. Os braços rubros, no meio de seus instrumentos chamuscados, ele redige um Relatório para uma Academia".