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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

TOURO (1)

                             
                      


A primeira divindade que os egípcios associaram a uma constelação nos céus foi Osíris, ligando-o à constelação heliacal de Orion. Quando Orion deixou de  desempenhar esta função, tivemos, no mito, a "morte" de Osíris,  que, descendo ao Outro
ESTRELAS  DE  TOURO
Lado, foi governar o mundo dos mortos. O equinócio da primavera foi deslocado então para as estrelas de Touro, por volta de 4.500 aC, assumindo Horus, filho de Osíris, a “titularidade” da nova constelação heliacal, Touro. Chegava-se à era cósmica de Touro, razão pela qual, durante esse período, muitas divindades tomarão a forma taurina em várias civilizações.



APIS
Considerado na Pérsia como um dos primeiros seres criados, associado na antiguidade persa ao deus Mitra e ao deus Apis no Egito, o touro foi sempre um animal usado para representar a fecundidade de forma anárquica, tempestuosa por vezes. Objeto de culto na Índia, era designado o animal pelos termos sânscritos vrisha ou vrishabha, nome pelo qual a Astrologia hindu (Jyotish) designava o signo de Touro.

No primeiro livro dos Vedas, o Rig Veda, Rudra, o Terrível, que muge como um touro bravio, seu símbolo, é a divindade cujo sêmen fertiliza a terra. Violento, ele a fecunda através de
RIG VEDA
tempestades, liberando os seus violentos filhos, os Maruts ou Rudras, que trazem raios e relâmpagos, quando dos aguaceiros que inundam tudo, na primavera. Além de Rudra, o touro é também símbolo de Indra, este considerado como força que traz o calor (é um deus ligado ao quente, como qualidade primitiva, mais solar, portanto), que proporciona o aquecimento ideal do elemento líquido para a necessária manifestação da vida. 

SHIVA   E   NANDI
O touro aparece na Índia ainda associado ao deus Shiva, a terceira pessoa da trimurti védica, sendo Brahma e Vishnu as duas outras pessoas. Shiva representa o aspecto destruidor, transformador, do mundo material. Quando ele vem nessa forma, aparece sempre montado num touro branco chamado Nandi e traz na mão um tridente (trishula), símbolo da dissolução cósmica. Lembremos que o tridente, nessa função de representar a solutio  universal, é, na mitologia grega, do deus Poseidon, deus do elemento líquido, também muitas vezes representado por um touro. 

Possui Shiva inúmeros poderes e sua autoridade está fixada na grande quantidade de epítetos que tem. É representado comumente por uma figura humana, escura, azulada, mergulhada em grande concentração; possui um terceiro olho no meio da testa, um pouco
LINGAM   E   YONE
acima das sobrancelhas, através do qual emite relâmpagos e raios, que tanto lembram onisciência como castigo e punição. Outros símbolos seus são o lingam, uma coluna de pedra, imagem do fogo divino como órgão fálico, colocada dentro de um círculo, também de pedra,
SHIVA  NATARAJA
chamado yone, símbolo do órgão sexual feminino. Por essa razão, Shiva é representado comumente sob a forma andrógina. Com o nome de Shiva Nataraja é o deus da dança, do movimento cósmico, dos átomos. Vem dentro de um círculo de fogo, de onde exerce o seu poder de destruidor dos mundos e de sua renovação.


Vrishabha é o nome do signo de Touro na Astrologia hindu, onde representa o suporte do mundo manifesto. Os touros, tanto na índia como em outras culturas, são cosmóforos, animais que, como a tartaruga, por exemplo, são usados para simbolizar a criação
VRISHABHA
material, o seu sustentáculo. Neste sentido o touro é visto como um centro imóvel que põe em movimento a roda cósmica. No templo de Salomão, entre os judeus, por exemplo, temos os touros com esta mesma função. Doze ao todo, distribuídos em quatro trindades nas quatro faces do edifício, cada uma delas olhando para um ponto cardeal. Nesse entendimento, o templo deve ser um reflexo do mundo divino na terra, uma réplica terrestre dos arquétipos celestes. O touro se solidariza, nessas representações, assim tanto teológica como cosmologicamente. 






Entre os assírios e babilônicos, o touro era representado sob uma forma selênica e solar ao mesmo tempo, uma união da terra e do
TOURO   ALADO
céu. Eram os famosos touros alados, gênios que viviam imediatamente abaixo dos deuses, que desempenhavam uma função protetora dos humanos, defendendo-os contra as potências maléficas. Eram os portadores dos sacrifícios e oferendas aos deuses e deles traziam as dádivas e os dons divinos. Guardavam os templos, representados como touros alados com a cabeça humana. Além desta função, eles também se misturavam com os humanos, participando de seu cotidiano, seguindo-os pelas ruas, acompanhando-os em suas viagens ou quando iam para a guerra, sempre invisíveis, mas presentes.  

Os touros, desde o período neolítico, ou mesmo antes, sempre foram utilizados também para representar as manifestações tempestuosas do céu e, como tal,  emblematizavam as divindades atmosféricas. Considerado sempre um animal lunar, mas às vezes solar, o touro já na antiga Babilônia e no Egito assumia essa ligação. Sin, deus lunar da Mesopotâmia, tinha a forma taurina numa de suas representações. O deus Mitra, divindade iraniana, é idealizado como um jovem herói que corta o pescoço de um touro, cujo sangue dará origem ao mundo vegetal e animal. 


TAUROBOLIUM
Um culto da Ásia Menor, introduzido em Roma no séc. II dC, enriqueceu outro culto anterior, também oriental, já fixado no Lácio, de um rito até então desconhecido, o taurobolium. Era uma iniciação pelo batismo do sangue do animal. Aquele que se submetia a tal iniciação se transformava num renatus in aeternum, ou seja, nascido para uma nova vida para toda a eternidade. O sangue do touro que escorria sobre o iniciado não só lhe transmitia um poder biológico como lhe dava acesso a uma vida espiritual e imortal. 

Entre os fenícios, a base da sua mitologia está centrada no culto dos elementos e dos fenômenos naturais. Todos os seres divinos são antropomorfizados e colocados numa hierarquia rigorosa. El, o grande deus solar, honrado por todos os semitas ocidentais, está no topo do panteão, Ele governa o país de Canaã. É dele que vem a fertilidade da terra. Honrado sob diversas formas, é chamado de O Touro-El.

VACA   SAGRADA
Já a vaca, em virtude do leite e de seus derivados, a manteiga, os cremes e os queijos, é símbolo da abundância e da fecundidade. Daí o caráter sagrado, feminino, que adquire. Particularmente honrada na Índia, a vaca é uma representação celeste viva. Toda mulher, na índia, das camadas mais baixas da população às mais elevadas, que quer se tornar mãe, deve se sentar sobre a pele do animal. Os hindus como os persas utilizavam a urina de vaca em cerimônias de purificação e seus excrementos tinham várias aplicações, como, por exemplo, servir, depois de secos, misturados ao capim, como carvão ou placas para a construção de paredes ou, ainda, ao natural, como proteção contra maus espíritos. 

O touro não é apenas um símbolo animal dominante, mas possui também um significado mais profundo enquanto animal do
ZARATUSTRA
sacrifício. No ritual e na iconografia tem representado ora o Sol, ora Lua, a terra ou o céu, a chuva ou o calor, a fecundidade feminina ou o ardor masculino, a matriarca e o patriarca. Como símbolo da morte, era uma figura central no mitraísmo, um culto persa anterior a Zaratustra, assumido e difundido por todo o império romano, como um rival do cristianismo.  

TIRTHANKARA
Na arte rupestre primitiva, o touro era secundado pelo cavalo como a imagem mais frequentemente pintada da energia vital. Aparece o touro em todos os continentes como símbolo do poder divino. Na Índia, o primeiro dos tirthankaras, Mahavira, da seita jainista, era representado por um touro dourado. Tirthankara, como sabemos, em sânscrito, quer dizer aquele que fez a travessia (do rio), aquele que, no Hinduísmo, se desligou, atingiu moksha, um liberto em vida.

Desde a pré-história, os atributos físicos do touro estão subjacentes ao seu simbolismo. Os seus chifres estão ligados à Lua crescente, a sua corpulência absoluta sugere um suporte para o mundo material, tanto na tradição védica como islâmica. O seu sêmen prolífico, nessa tradição, é armazenado pela Lua e sua energia mugidora característica e o balanço dos seus chifres está muito ligado a trovões e terremotos, sobretudo em Creta. 


PRINCESA   EUROPA  ( REMBRANDT )

Os gregos se apossaram simbolicamente do animal para explicar o nascimento da civilização cretense.  A história começa quando Zeus, sob a forma de um maravilhoso  touro branco raptou a princesa Europa, levando-a, pelo mar, da Fenícia para ilha que futuramente tomaria o nome de Creta. Lá, perto de Gortina, numa praia cheia de plátanos, adquirindo uma forma humana, fez da lindíssima princesa a sua mulher. Dessa relação nasceram três filhos, Minos, Radamanto e Sárpedon. Mais tarde, Zeus fez com que Europa desposasse Asterion, rei da ilha, que adotou os filhos de Europa. Para que o acontecimento fosse lembrado para sempre Zeus colocou a sua forma taurina nos céus, logo depois da constelação do carneiro. 





A civilização que se desenvolveu na ilha é tipicamente um produto da era de Touro. Creta, sempre, desde as suas origens, foi uma ginecocracia, um poder feminino, apesar de governada por reis. No mito, este rei era Minos, nome que, segundo parece, é mais um título dinástico, como césar, czar, do que um nome próprio. A posição da ilha, equidistante de três continentes, favoreceu o nascimento de uma civilização poderosa e original, que floresceu na era de Touro, mais ou menos entre 4.000 a 2.000 aC, governada por uma talassocracia. Deu-se o nome de minoana a essa civilização, que não possuía templos, mas cujas cerimônias religiosas eram celebradas ao ar livre, nas florestas e nas montanhas, por sacerdotisas.


CNOSSOS
A história da brilhante civilização minoana tem por centro, além de outras edificações, o palácio real, chamado de O Labirinto. No ano de 1.100 aC, Creta foi integrada definitivamente à Grécia continental, depois das invasões aqueias e dóricas, perdendo a sua condição de nação independente. Muito contribuiu também para a decadência cretense alguns abalos sísmicos que se verificaram ao longo do período, dois deles devastadores, um em 1.700 e outro em 1.500 aC. 

A Creta minoana tinha como capital Cnossos e era famosa pela sua cerâmica, pelos seus olivais, pelos seus campos de cereais e vinhedos. Mantinha Creta contactos comerciais com todo o Mediterrâneo oriental, Egito e Oriente-Médio. A arquitetura das suas principais cidades, Cnossos, Phaestos, Mália e Zakros era
LABRYS
excepcional, com serviços públicos eficientes e obras de arte de refinado gosto. Esculturas e pinturas murais distribuíam-se ao longo das vias públicas. As pinturas, de linhas puras, evocavam um culto enigmático marcado pelas figuras de um duplo machado cruzado (labrys) e de chifres de touro, além de muitas cenas de tauromaquia ritual e de acrobacias praticadas em corridas de touro. As sacerdotisas figuram também nessa decoração, muito maquiadas, de peito nu, algumas, e elegantemente vestidas.

Miticamente, após a morte de Asterion, que se casara com Europa, reinou na ilha Minos, o primogênito de Europa e de Zeus. Os outros dois irmãos, contudo, resolveram disputar o trono. Minos
MINOTAURO
pediu um sinal aos deuses no sentido de que eles o confirmassem como único soberano da ilha. Poseidon  enviou, pelo mar um sinal divino, na forma de um maravilhoso touro, com a condição de que o animal deveria em seguida ser sacrificado. Minos, já consagrado como indiscutível soberano, desejou todavia conservar o extraordinário animal para utilizá-lo como reprodutor, de modo a aumentar ainda mais o seu já imenso rebanho. 

Poseidon, irritadíssimo, fez com que Pasífae, mulher de Minos, a rainha de Creta, viesse a sentir pelo animal uma incestuosa paixão. Enlouquecida por um furor erótico incontrolável, ela pediu a Dédalo, o famoso inventor grego, então exilado na ilha, que resolvesse o seu problema. Dédalo criou um simulacro perfeito de novilha, no qual a rainha entrou, consumando assim o seu tresloucado intento sexual. Dessa união, nasceu um monstro, o Minotauro. Envergonhados, os soberanos decidiram esconder o monstro.  Para esse fim, chamaram novamente Dédalo, que construiu um imenso palácio em Cnossos, capital da ilha. Deram a esse palácio o nome de Labirinto; com um enorme emaranhado de quartos, salas subterrâneas, corredores, ninguém, a não ser o seu construtor, poderia dele sair se nele entrasse,  Minos mandou então que o monstro, que se alimentava de carne humana, nele fosse encerrado, nos seus subterrâneos mais profundos. 

PASÍFAE  E  MINOTAURO
A ira divina, porém, não ficou restrita a esse triste episódio. Depois de ter mantido relações com Pasífae, o touro divino foi enlouquecido por Poseidon; livrando-se do cercado em que o haviam colocado, pôs-se o animal a destruir todas as plantações da ilha, enchendo de terror os seus habitantes. O segundo trabalho de Hércules (veja-o neste blog) será exatamente o de dominar o enlouquecido animal e levá-lo para Euristeu, rei de Micenas, que, conforme sentença oracular, determinava os trabalhos que o herói deveria realizar para se purificar. 


PINTURA  EM  CNOSSOS
Os gregos atenienses, à época destes acontecimentos, haviam sido submetidos pelos cretenses, a eles ficando obrigados a pagar um pesado tributo por meio do qual o alimento do Minotauro era obtido: deviam enviar anualmente à ilha jovens atenienses para saciar a fome do monstro. Assumindo o trono de Atenas, Teseu, filho de Egeu, resolveu dar um basta a tão horrível submissão. Dirigiu-se a Creta e declarou que estava disposto a enfrentar o monstro, uma prova a que Minos submetia todos os que pretendessem  libertar Atenas do jugo cretense. 


Auxiliado pela princesa Ariadne, que por ele se apaixonou à primeira vista, Teseu dela recebeu, sem que ninguém soubesse, o famoso fio com o qual poderia sair do Labirinto se conseguisse matar o Monstro. O auxílio de Ariadne estava porém condicionado: Teseu deveria, se vencedor, levá-la consigo e com ela se casar em Atenas. De início, as coisas correram de acordo com o combinado. Morto o monstro, Teseu e Ariadne embarcam juntos com destino ao Pireu, porto de Atenas. No meio do caminho fizeram uma parada na ilha de Naxos, onde passaram a noite. Pela manhã, Ariadne procurou Teseu. Ao longe, bem distante da praia, o barco do herói 
ARIADNE   E   DIONISO  ( TINTORETTO )
ateniense era quase um ponto invisível no horizonte. Abandonada e triste, a princesa foi encontrada na ilha pelo deus Dioniso, que voltava de seu périplo à Ásia aonde fora propagar o seu culto. Uniram-se e dessa união nasceram quatro filhos. Como presente de núpcias, o deus lhe deu um diadema, depois transformado em constelação (vide, neste blog, no item constelações boreais, Corona Borealis). 

Quanto aos reis de Creta, a sua história, devidamente interpretada, é uma grande ilustração do que podemos considerar como a vida de alguém pode ser tomada pela cegueira da paixão incontida, de ambos, no caso. De um lado, o desejo do lucro por parte de Minos, que, ao invés de cumprir o que Poseidon determinara, sacrificou no lugar do divino touro um animal  de terceira categoria. Ou seja, o desejo do lucro acima do dever religioso. Com relação a Pasífae, temos o pecado da sensualidade extrema. O fruto dessas paixões é o Minotauro, que precisa ser escondido nos subterrâneos do Labirinto.


ARIADNE   E   TESEU  ( NICOLO  BAMBINI )

O tema do Minotauro é nitidamente taurino sob o ponto de vista astrológico enquanto nele temos ilustrações negativas: uma alegoria do desejo injusto, a submissão à pressão dos sentidos, as concessões mentirosas, os subterfúgios para a obtenção de posses materiais. Psicanaliticamente, o Minotauro é a expressão do recalque, do que não pode ser exibido à luz do dia (admitido pela consciência) e que, por isso, deve ser escondido na escuridão do Labirinto (subconsciente). O recalque, lembremos, é um mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ele ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. 

Dessa história sai também a palavra labirinto (de labrys, o duplo machado, um dos símbolos de Creta, ao lado dos chifres do touro), que pode tomar vários sentidos. A palavra, numa leitura religiosa, serviria para alegorizar o mundo como um labirinto e a queda, a perdição do espírito no plano da matéria, a sua dispersão e sua perplexidade na vida fenomênica. A redenção só seria possível se encontrado um meio de sair dele, o fio de Ariadne. Ariadne e Teseu são também, numa outra leitura, figuras arquetípicas do matriarcado e do patriarcado, respectivamente, que poderiam ser conciliadas, mas que, fixadas nas suas prerrogativas, não sabem ou não querem fazê-lo.

O labirinto pode ser considerado ainda como uma ilustração do mundo do erro, de uma vida vegetativa. Quando nascemos, entramos nele, na escuridão, ficando presos à tirania dos sentidos. Voltar à luz é muito difícil. Em muitas tradições, a
LABIRINTO   DE   CHARTRES
entrada no labirinto lembra também a viagem noturna do Sol. Representa, como tal, o processo mental do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Na Catedral de Chartres e em muitas outras encontramos labirintos esculpidos para simbolizar a vida como peregrinação e as suas dificuldades. Os labirintos eram chamados, nas catedrais, de “caminho de Jerusalém”, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. A arte barroca e rococó, em muitos parques de castelos, públicos ou privados, principalmente na França, usaram a imagem do labirinto para construir, com vegetação alta e espessa, aquilo a que chamaram de dédalos, com o objetivo de divertir os seus visitantes. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO TRABALHO



 
EURISTEU,  CÉRBERO  E  HÉRCULES  
                    
Capturar o cão infernal Cérbero - Filho dos monstruosos Tifon e de Équidna, Cérbero, o cão tricéfalo, cauda de dragão, cheio de serpentes pelo corpo, guardava as portas de entrada do Tártaro, no Hades, onde Plutão e Perséfone viviam no seu palácio.  Cérbero jamais permitia a saída dos que para o Tártaro fossem enviados. A tarefa de Hércules era muito difícil, já que só as almas podiam descer ao reino infernal. Nosso herói, para o cumprimento dessa missão, recebeu, por ordem de Zeus, o auxílio de Hermes, o deus psicopompo. Hermes era a divindade encarregada de transportar as almas para o Hades, reino subterrâneo, para onde elas iam obrigatoriamente, quando do desaparecimento do corpo físico.


O   HADES  

Antes, por sugestão da deusa Palas Athena, Hércules procurou informações sobre o que seria uma catábase infernal, visitando, para tanto, o Santuário de Eleusis. Lá tomou conhecimento de que o Hades era um lugar onde as almas eram julgadas conforme o que tivessem feito os seus donos na sua vida terrena. Um julgamento desfavorável poderia significar a danação eterna para os grandes criminosos e pecadores, como Sísifo e Tântalo, que foram enviados para o Tártaro, o “inferno dos maus”, a região mais profunda do mundo infernal. Ou então poderia significar, se os crimes cometidos não tivessem sido tão graves assim, uma permanência demorada, sofrida, mas provisória, num lugar chamado Érebo. Um julgamento favorável significaria a permanência provisória, isenta de qualquer sofrimento, nos Campos Elíseos, outra região infernal. Nos casos de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elíseos, as almas, depois de beber das águas do rio Lethe, o rio do esquecimento, poderiam reencarnar.

Sabe-se por Eurípedes e por Isócrates que a iniciação de Hércules
ARISTÓFANES
nos Mistérios de Eleusis era necessária para que ele pudesse cumprir a tarefa que lhe fora determinada, pois os que deles participavam aprendiam a lidar com a morte, aceitando-a como algo natural e não aterrorizante. É de se lembrar que Aristófanes, o comediógrafo, com sua peça As Rãs, usou este episódio da descida de Hércules ao Hades para nos dar um grande trabalho crítico sobre o teatro grego, a tragédia, em especial.

Como Hércules era um estrangeiro (era natural do Peloponeso) e Eleusis ficava perto de Atenas, na Ática, nosso herói teve que ser adotado antes por um ateniense (estrangeiros não podiam participar dos Mistérios), o que de fato ocorreu, e passar por uma purificação por causa da morte dos centauros (sétimo trabalho). Depois dessas providências, sabe-se que a proibição acabou sendo revogada, transformando-se Eleusis num santuário pan-helênico, o que possibilitou que qualquer grego ou mesmo estrangeiros dele pudessem participar. 




Depois dessa iniciação, Hércules em companhia de Hermes, dirigiu-se ao cabo Tênero, na Lacônia, uma das mais conhecidas entradas do Hades na Grécia. Começaram a descer, indo em direção do rio Estige, um dos cinco rios infernais. Estige, etimologicamente o que causa horror, é um rio infernal de águas geladas, sendo enviados para as suas margens as almas dos que haviam cometido principalmente crimes de perjúrio. É de se lembrar que quando da vitória dos deuses olímpicos contra os Gigantes, Zeus, devido à grande colaboração que recebeu de Estige, então a mais velha das oceânidas, lhe concedeu, quando transformada em rio infernal, o privilégio do horkos, ou seja, era em seu nome que os deuses faziam os seus mais solenes juramentos; se os desrespeitassem seriam expulsos do Olímpo, com a ameaça de exílio ou mesmo de uma permanência no Hades. 

HERMES  PSICOPOMPO
As almas que se encontravam às margens do Estige fugiram assustadas, diante da insólita presença de nosso herói. Dali, Hermes conduziu Hércules até o rio Aqueronte, o principal rio infernal, aquele que verdadeiramente dava acesso ao Outro Lado. Tão espantado ficou o barqueiro Caronte que se esqueceu até de pedir o óbolo de praxe, que as almas deviam lhe entregar para poder ter acesso ao palácio dos reis do Inferno. Por causa dessa falta profissional, sabe-se que Caronte passou um ano encarcerado, preso a ferros.

Na ocorrência da morte, a alma (psykhe), desprendendo-se do corpo  físico   (soma),   tomava   a   forma   de   um   eidolon,   uma
NEKYIA
representação que lembrava vagamente o corpo físico. Chamada também de opsis (aparência) ou de skia (sombra), a alma como eidolon conservava de modo latente uma espécie de inteligência que podia ser ativada se os  familiares e amigos do morto procurassem manter a lembrança dele através de determinada cerimônia, regularmente realizada, chamada nekyia, da qual faziam parte sacrifícios e invocações para que fosse possível mantido o devido contacto. Energizadas pelos sacrifícios e invocações, as almas poderiam então falar, geralmente para se queixar e invariavelmente manifestando muito rancor com relação ao mundo dos vivos. 


MAPA   DO   HADES

O rio Aqueronte (etimologicamente, tanto pantanoso, lamacento, como o das dores) era o mais importante do Hades. A ele se juntavam os rios Piriflegetonte (o de chamas sulfurosas) e o Cocito (o dos gritos, uivos). A travessia do Aqueronte era feita por um barco conduzido Caronte, o barqueiro infernal, um dos agentes do Hades, que ia no leme; os remadores eram as próprias almas. Feio, magérrimo, de barba hirsuta, sempre com as vestes sujas, manchadas pelo limo esverdeado das águas do rio, Caronte era uma figura sinistra, muito temida e odiada. 


CARONTE
  
Hércules, ao sair da barca, percebeu duas figuras próximas, a Medusa e Meléagro. Ao tentar golpear a primeira com a sua espada, Hermes o dissuadiu, aquela figura era apenas uma sombra (skia), uma sombra, porém, muito importante pois ela era dona de uma ilha, a chamada Ilha dos Mortos, que ficava no meio do Aqueronte. Nessa ilha ficavam as almas daqueles que não haviam tido sua morte ritualizada, exigência indispensável para que pudessem realmente ingressar no mundo infernal.


ILHA   DOS   MORTOS   ( BÖCKLIN )

MELÉAGRO
Quanto ao outro, disposto também a atacá-lo, Hércules ouviu-o por um momento. Meléagro começou então a contar a sua história ao nosso herói, narrando-lhe os últimos momentos em que passara na terra. Hércules se comoveu tanto que lhe prometeu, quando de seu retorno, desposar Dejanira, sua irmã.  O que mais tocou Hércules foi Meléagro ter-lhe dito que sua irmã, a de nuca delicada, ficara só em casa e que era ignorante das coisas do amor, nada sabia das artes da Afrodite dourada, como enfatizou. 

Prosseguindo na sua caminhada pelo Hades, Hércules encontrou Teseu e Piritoo, o Lápita, aprisionados por Plutão nas famosas "cadeiras do esquecimento", de onde nunca mais deveriam se libertar, pois haviam tentado raptar Perséfone. Hércules, contudo, grande amigo do famoso herói ateniense, o libertou, arrancando-o tão violentamente da cadeira-prisão que pedaços das nádegas de Teseu nela ficam presos. Piritoo, filho de Ixion, o pai dos centauros, foi esquecido e lá permanecerá certamente até o final dos tempos.

O que se conhece desta passagem, como está em Racine, que quem
PERSÉFONE   E   ASCÁLAFO
alimentava esperanças de fazer sexo com Perséfone, a rainha do Hades, era Piritoo e não Teseu.  Mais à frente, Hércules encontrou Ascálafo, filho de uma ninfa do rio Estige e do deus-rio Aqueronte, e também resolveu libertá-lo. Este personagem presenciara o momento em que Plutão-Hades pusera nas mãos de Kore as famosas sementes vermelhas de uma romã, tornando-a fértil. Indiscreto, Ascálafo divulgara o acontecimento, narrando-o de um modo tão debochado que denegrira a pureza da jovem. Deméter o puniu, colocando-o sob um imenso rochedo. Libertado por Hércules, Ascálafo não conseguiu contudo viver sob a sua antiga forma. Deméter imediatamente o transformou numa coruja, substituindo um castigo por outro.

Em seguida, muito sensibilizado pelas multidões de almas que encontrou vagando às margens dos rios infernais, Hércules tentou fazer alguns sacrifícios sangrentos com animais do grande rebanho do deus dos infernos com o objetivo de energizá-las um pouco, dando-lhes alguma vida. Menetes, funcionário do Hades, que cuidava dos animais, ao tentar impedir a ação do nosso herói, foi ameaçado de morte por ele. Foi nesse momento que Perséfone, aparecendo e reconhecendo Hércules como seu irmão (eram ambos filhos de Zeus), o informou que seu marido estava pronto para recebê-lo.

HÉRCULES   E   CÉRBERO
Exposta a razão do trabalho, Plutão consentiu que Hércules levasse Cérbero à presença de Euristeu, desde que conseguisse vencê-lo numa luta em que não usasse armas metálicas, inclusive escudos de qualquer natureza. Para se proteger, Hércules pôs sobre os seus ombros e cabeça a pele do leão que costumava usar e muniu-se de algumas pedras pontudas. Atracando-se com o monstro, depois de terrível luta, conseguiu subjugá-lo, amarrando-o com grossas cordas que levara consigo. Afastando-se rapidamente do mundo infernal com a sua presa às costas, Hércules, com enorme esforço, guiado por Hermes, conseguiu chegar finalmente a Micenas. Vendo o monstruoso animal, Euristeu se assustou tanto que imediatamente ordenou ao nosso herói que o levasse até uma das muitas entradas do Hades e que o libertasse para que o monstro pudesse voltar a seu amo.

Os gregos sempre consideraram o acônito, planta venenosa, como infernal, nascida da baba de Cérbero, segundo uma versão. A deusa triforme Hécate, como contado por vários mitógrafos, possuía em seu jardim, no Hades, uma grande plantação desse vegetal, usado na feitiçaria e na magia negra. Muito tóxico, o acônito, extraído da planta, era chamado entre os romanos de “Carro de Vênus” ou de
ACÔNITO
“Capacete de Júpiter” porque, suas flores, invertidas, no primeiro caso, pareciam com um carro puxado por duas pombas ou, no segundo caso, como uma espécie de protetor da cabeça. Era muito usado, desde a mais remota antiguidade, para afastar vampiros e lobisomens, sendo, segundo a tradição, remédio infalível para curar a licantropia. Desde esses antigos tempos, o acônito sempre foi usado para combater a ansiedade, o cansaço, a fadiga, quando apresentam aspectos depressivos.



CAPRICÓRNIO

O décimo trabalho de Hércules tem a ver com Capricórnio, o décimo signo na ordem zodiacal. Este signo, como se sabe, é cardinal e do elemento terra. Astrologicamente, Capricórnio lembra ascensão, conquistas materiais, elevação. Ideias que representam a possibilidade máxima das conquistas materiais. Como tal, é um signo ligado ao zênite mundano. Os capricornianos positivos estão bem qualificados para assumir responsabilidades em empreendimentos de natureza prática, tanto os relacionados com a vida privada ou com a vida pública. Conceitos de ambição, de aspiração, de realização são comuns nos do signo, aliando-se a eles grande persistência, obstinação. Os capricornianos não são imediatistas e, de um modo geral, preferem trabalhar com metas de médio para longo prazo e procuram dar consistência e solidez ao que produzem.




As três cabeças de Cérbero simbolizam astrologicamente o triângulo formado pelos três signos zodiacais do elemento terra, Touro, Virgem e Capricórnio. O elemento terra representa o concreto, o sólido, o tangível e, por extensão, a vida material. Ou seja: ocupado com as pressões do ter, do possuir (Touro) e de, através das conquistas materiais, chegar ao topo da montanha (Capricórnio), muitos homens organizam as suas vidas nesse  sentido, montando uma agenda voltada exclusivamente para esse fim (Virgem).

Este foco na ascensão material costuma eliminar tudo o mais, família, filhos, divertimentos, amigos. Se aberto um espaço para eles, serão para a “conquista da montanha”. Uma festa familiar, por exemplo, será organizada com essa finalidade: convidar pessoas que poderão ser úteis, abrir algumas portas, favorecer de algum modo tal objetivo. A vida social, clubes, academias de ginástica etc.,tudo caminhará também nessa direção: frequentá-los para estabelecer relações “certas”, que possam facilitar a "subida da montanha".  

Esta terceira cabeça, relacionada com o signo de Virgem, costuma representar também tudo aquilo que deveria ter sido feito e que não foi para que a vida fosse orientada numa outra direção: nela estão as mudanças que não aconteceram, os hábitos que se instalaram tiranicamente, as purificações e depurações que não foram feitas, o cuidado corporal protelado, os espaços que não foram abertos no dia-a-dia para divertimentos saudáveis, para uma melhor convivência familiar etc. No lugar, como atitude dominante, sempre uma absurda ênfase em justificativas que falam de “dever cumprido”, o apego às tarefas difíceis, trabalhosas, ingratas ou penosas, a pretensão de satisfazê-las, a prioridade absoluta para tudo que signifique segurança material e, com ela, o reconhecimento social pelos resultados obtidos, a conquista do topo da montanha.

Uma das grandes debilidades de Capricórnio está, com frequência, numa natureza exageradamente séria e taciturna. Tal atitude
SATURNO
costuma gerar muita desconfiança, o que leva muitos que têm que conviver com capricornianos a achá-los, ainda que não o sejam, controladores, manipuladores, frios, calculistas. O planeta de Capricórnio é Saturno, que governa o princípio da cristalização. Este planeta tanto pode fazer dos capricornianos seres disciplinados, obstinados, metódicos e persistentes, como pode lhes proporcionar uma natureza excessivamente contida, tradicionalista, apegada aos valores do passado.

Vários temas se destacam neste trabalho. O tema da descida, da catábase, é o da morte simbólica, já prefigurada na passagem dos Mistérios de Eleusis. Ir ao Hades, lugar onde só entramos sem o corpo físico. Ou seja, aprender a nos livrarmos da forma, das prisões materiais, representadas pelas três cabeças do monstro. Não mais colocar a nossa consciência no material, nos desejos, no corpo físico. Usá-lo, mas a ele não nos prendermos. O centro (a cabeça central, Capricórnio) tem que estar mais acima, num plano que esteja acima da forma. Descer ao Hades é, pois, o início da subida da montanha.  

É neste sentido que Capricórnio deve representar um tipo de
SIGNO   DE   CAPRICÓRNIO
iniciação superior através da qual começamos o ciclo das realizações impessoais (Hércules se sensibilizando com os seres abúlicos que encontrou, com as almas penadas que perambulavam perdidas pelo Hades, muitas "vivendo" na ilha dos Mortos. A ideia de serviço, de consciência grupal "nasce" aqui, se se considerar que o signo de Capricórnio abre o último quadrante  zodiacal, que corresponde ao coletivo, à humanidade como um todo, com relação aos anteriores: o primeiro representa o individual, o segundo o familiar e o terceiro o social, um nos preparando para aceder ao outro. A partir de Capricórnio temos simbolicamente que aprender a nos “desmaterializar”. É por esta razão, por exemplos, que os hindus dão o nome de moksha a esta última etapa, palavra que tem o sentido de desatar nós, romper ligações.  

Três virtudes são requeridas quando pensamos em Capricórnio, conscientemente: silêncio, solidão e trabalho. Neste sentido, Capricórnio   é   um   signo   triste,   de  desapego,  de vida superior,
impessoal. Por isso, desapego de tudo o que é pessoal, pela expansão do pessoal (minha casa, minha família, meus bens, minha posição mundana etc) em direção de outros níveis, que podemos chamar de espirituais. Ao contrário, usar tudo isto, todos os valores materiais como um meio de saída, tornar-se mais leve, de modo a entender que o centro está mais acima. É neste sentido que em todas as tradições as montanhas são sacralizadas, o alto das montanhas, as acrópoles, como símbolos de saída para níveis de vida superior. Em Capricórnio termina o social e começa o coletivo, surge a noção de humanidade

Basicamente,  três  são  os  tipos  capricornianos:  o  defensivo,  o
aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo Crocodilo, pela Cabra e pelo Licorne. Animal de enorme bocarra, o crocodilo é usado para representar o período do ano em que o Sol é engolido pelas trevas, o inverno. Jamais ousando, prisioneiro do poder dos mais velhos, o capricorniano deste primeiro nível vive neste cenário: obediente, precavido em demasia, exageradamente metódico, tradicionalista, respeitador, não consegue empreender nada. É, como tal, um servidor, tornando-se geralmente vítima dos complexos de Cronos ou de Isaac. Pode ser representado também pelo chumbo, o ponto mais baixo a que se pode descer simbolicamente no processo de materialização. O chumbo, como sabemos, inibe qualquer tipo de mudança. Os hindus, com razão, dão o nome de Makara ao signo de Capricórnio, o primeiro mês do inverno, quando a luz solar é “engolida” pelas trevas hibernais, simbolizadas pela imensa bocarra desse animal.


O tipo aspirativo é representado pela cabra montanhesa, animal que procura  viver  nas  alturas.   Sem  os  exageros  do  primeiro tipo, disciplinado, perfeitamente centrado na caminhada aspirativa, muitos capricornianos do tipo “cabra montanhesa” podem se tornar grandes realizadores, até grandes construtores de impérios materiais. Stalin, Adenauer, Mao-Tse-Tung, Amador Aguiar
RICHARD   NIXON
(fundador de um império bancário no Brasil) são bons exemplos. Um exemplo bastante malogrado deste segundo tipo é o presidente Richard Nixon. Foi para o topo da montanha, mas, por não calcular bem os seus “pulos”, levou um tombo mortal.

O capricorniano de terceiro nível, representado pelo Licorne (o Leão de Chifre) é aquele que entende que em Capricórnio o poder de se criar materialmente termina. Como tal, para este tipo, Capricórnio será um signo de saída para o coletivo, para o transpessoal (Aquário). É aqui que ocorre a chamada transfiguração (transformação, metamorfose, mudança na maneira de pensar, de sentir, de proceder, do material para o espiritual). Se não ocorrer essa transfiguração, teremos a crucificação, a prisão na materialidade, o eu (Sol) inteiramente engolido pela vida material, pelas as três cabeças de Cérbero. Lembremos que na Alquimia a crucificação (crucifixio) e a mortificação (mortificatio) são praticamente equivalentes. 

Em todos estes exemplos, a montanha, uma das grandes imagens do signo, sempre apareceu simbolicamente como proposta de elevação, participando de ideais de transcendência enquanto lugar de teofanias, de hierofanias. É o lugar onde a terra e o céu se aproximam mais, lugar onde o divino é reverenciado e, ao mesmo, nele temos o fim das possibilidades aspirativas do ser humano.

A origem deste animal mítico, o Licorne, tem relação com a penetração da matéria pelo divino, que o chifre representa. É o tema do leão (lyon) de chifre (cornu),  sendo o chifre entendido como abundância espiritual e não material, ou seja, a espiritualização da matéria.  Não esquecer que o número de Leão é cinco e o de Capricórnio é dez, um duplo leão, portanto. O eu racional (Leão) se transforma em eu espiritual (Licorne) a partir de Capricórnio.


Uma explicação sobre o licorne: no século XII, ocorreu no ocidente uma transformação dos cavaleiros europeus, de guerreiros andantes em aristocratas rurais. O leão, que sempre aparecera simbolicamente associado ao poder, desde a antiguidade, sendo usado para representar deuses, reis, heróis e chefes militares, sofreu uma espécie de capitis diminutio. Sua imagem foi suavizada, espiritualizada. Surge o licorne, palavra que se decompõe em lyon e cornu, o leão de chifre. O simbolismo do chifre, ao mesmo tempo que encerra um sentido de poder, traz consigo ideias  de elevação, de eminência, de espiritualização (veja neste blog, no e-book, Exercícios de Leitura, a matéria “Os Chifres”, pag. 92, para melhores explicações).  

Historicamente, como sabemos, foi na virada do séc. XII para o séc. XIII, período em que alguns situam o primeiro Renascimento, que o amor se torna cortês e que a coleção de contos tendo como personagens o rei Artur e os Cavaleiros da Távora Redonda representou a expressão maior da cavalaria romântica e espiritualizada (busca do Santo Graal). Foi por essa época também que o românico deu lugar ao gótico e que os cultos marianos passaram a receber grande impulso, redefinindo-se os papéis da mulher na sociedade medieval.

NOTRE  DAME  DE  PARIS
A catedral de Notre Dame, em Paris, é um exemplo do que está acima: ela era não só uma invocação à Virgem, mas uma exaltação que se lhe fazia com a sua ornamentação. Maria foi retratada não só como Mãe de Deus, mas como Rainha do Céu e Advogada dos pecadores, tornando-se o próprio símbolo da Igreja. Um dos mais belos monumentos artísticos à glorificação do feminino é, nesse sentido, a catedral de Chartres, na qual a importância de Maria equivale à de Jesus.



NOTRE   DAME  -  CHARTRES

Foi em algum ponto na virada dos mencionados séculos que, por influência da Igreja Católica, certamente, a palavra  licorne começou a ser usada (indevidamente) para designar um símbolo do poder feminino que vinha de longe, encontrado em várias tradições, um pequeno cavalo unicornudo, que uma virgem acariciava, como imagem da pureza e da sublimação da vida carnal. Uma das mais conhecidas alegorias medievais do que estas figuras representam, com várias possibilidades interpretativas, é o conjunto de seis tapeçarias, do séc. XVI, La Dame à la Licorne (em português, A Dama e o Unicórnio), exposto no Museu de Cluny, em Paris. Numa das peças, vemos o leão (sem chifre) e o unicórnio, como imagem da união do princípio masculino (o leão, o noivo) e o princípio feminino (o unicórnio, a noiva) sob a tutela da Santa Madre Igreja (a Virgem).     


LA   DAME   À   LA   LICORNE  -  TAPEÇARIA

Em Capricórnio temos a desmaterialização daquilo que começou
VESTIMENTA   SUFI
em Câncer. Libertação da matéria, o poder da Lua, mãe das formas, termina. Daí as grandes virtude do signo, frugalidade, ascetismo, concentração. O emblema desta destas virtudes na vida ascética é o cilício, tecido feito com lã de cabra que os Sufis usam. Na Homeopatia, é a Calcárea carbônica, remédio das crianças "velhas", que se dá para o raquitismo, para os que têm falta de confiança, para os que custam a andar, para os debilitados, deprimidos.

Lutar, pois, contra a matéria que nos "prende", desmaterializarmo-
MORTIFICÁCIO : CINTO   DE  CILÍCIO
nos como disse. Penitência, mortificações, se necessário, para libertar a alma. A cabra, como símbolo aspirativo, pode chegar às alturas. Mas as alturas da cabra, como exemplificado,, são sempre perigosas, a rondá-las sempre uma ideia de imprevisibilidade, de capricho (palavra que vem de capris, cabra), tanto em razão de um salto mal calculado (o tombo é quase sempre mortal) como devido à própria imprevisibilidade do clima nas alturas. 

Capricórnio é assim um signo de conclusão. Não podemos ir além dele, impossível o progresso sob o ponto de vista formal. Temos que escolher os nossos meios de elevação. Primeiro, evitar distrações, trabalhar com seriedade, lucidez, inteligência, realismo, sem pieguices. Depois, concentração no mais significativo, sacrifício do supérfluo, silêncio. A misantropia e a misoginia  são perigos  do signo.  Lugares solitários, retiros e vida austera são muitas vezes procurados. No mais, ideias de firmar bases sólidas, de pedras assentadas, não afetadas pelo tempo. 

Dominadas as cabeças de Cérbero, surgirão outros valores, o altruísmo no signo seguinte (Aquário) e a doação desinteressada no último deles (Peixes). Desprendimento e desapego. Nada de futilidades, de leviandade, de irresponsabilidade. Linha dura, autocensura, humildade, "ajoelhar-se" para subir a montanha. Nada de descontroles emocionais, de caprichos, de den guices (Lua exilada), nada de descomedimentos, nem se acomodar à tentação de herdar posições por “razões de sangue” (Júpiter em queda). Observar Vênus, invariavelmente mal em Capricórnio: cuidado para não unir amor e alpinismo social ou ter medo de amar para não dividir; conflitos entre ambição, poder, cálculo e vida afetiva. Cuidados com a diminuição dos interesses afetivos, com a distância da vida instintiva (Marte), já que há a propensão de amortecimento de impulsos vitais importantes em nome de um sistema de segurança que procura organizar e consolidar posições. Fleugma, indiferença e insensibilidade podem aparecer. O que se perde em calor, elã vital, pode ser compensado (?) pela calma, pelo autodomínio, pela constância. Nem sempre contudo será possível manter o mundo à distância. 

De outro ângulo, podemos vislumbrar dois tipos básicos em Capricórnio, o material e o imaterial. O primeiro lembra muitas dificuldades afetivas. Não podendo amar o mundo, procura dominá-lo, colocando-o a seu serviço. Busca de elevação, posições eminentes; cálculo, frieza, caráter determinado, senso político, visão de futuro, calculista. Regras, regulamentos, controle, obediência, proeminência. Nos inferiores, cinismo, insensibilidade, manipulação, desconfiança, aspereza, castração. Bom administrador, assume tudo, inclusive a vida dos outros. São os solitários nas alturas montanhosas.. O segundo tipo é despojado, procura a renuncia ao material, nada de realizações mundanas (Saint Simon); serenidade, frugalidade (Proudhon, opção pela pobreza), desprezo pela ambição temporal, a vida como protesto contra os bens do mundo. Alguns costumam separar-se, isolando-se, buscando "picos" mais altos. Nos inferiores, desprezo, isolamento, melancolia, anulação da vida instintiva, pele e osso, predomínio total das virtudes frias.

Fisicamente, em Capricórnio, temos o corpo resistente, rugas precoces (Saturno é pele e osso), problemas cutâneos, cabelos precocemente embranquecidos, reumatismos, problemas nas articulações, joelhos, artrite, osteoporose, males do frio, lesões ósseas, deformações, luxações, anciloses, paralisias, problemas com o regime do cálcio, ossos em geral, dentes, unhas (paratireoide), dermatoses etc.

Fazem parte da galeria capricorniana, pelo Sol ou pelo Ascendente,dentre outros: Cézanne, Rodin, Adenauer, Bach, Tolstoi, Gavino Leda (veja o filme Pai, Patrão),  Savanarola,  Simone Weil, André Malraux, Montesquieu,  Pablo Casals, Johann Keppler,  Simone de Beauvoir,  Richard Nixon, Schopenhauer, Molière, Anton Tchekov, Edgar Allan Poe...

Quanto à origem da constelação de Capricórnio, temos que  ir ao mito do deus Pan. Ele era filho do deus Hermes e da mortal Dríope. Rejeitado pela mãe por causa de seu aspecto monstruoso, teriomorfo, foi envolvido pelo pai numa pele de cabra e levado para o Olimpo. Os deuses se encantaram com a criança, de modo especial o deus Dioniso, de cujo cortejo ele viria mais tarde a fazer parte. Recebeu dos Imortais, pela alegria que lhes causou, o nome de Pan, pois nele viram que um filho de Hermes, deus que unia o céu, a terra e o inferno e que, no plano terrestre, dominava as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), só poderia encarnar a totalidade universal criada. 

Seu corpo era peludo, possuindo ele no lugar de pés cascos e chifres como os de bode e orelhas pontiagudas.  Prodigiosamente ágil, perambulava pelos bosques e vales tocando a sirinx, sempre à procura de ninfas para atacá-las e com elas copular. Quando não as encontrava, masturbava-se furiosamente. Primitivamente, foi reverenciado como deus dos rebanhos e dos pastores, passando a encarnar depois o princípio da ordem universal, invocado inclusive nas litanias órficas como um princípio amoroso, criador, incorporado à matéria e formador do mundo. Neste sentido, era fonte e origem de todas as coisas, representando a matéria animada pelo espírito divino (princípio da imanência), a natureza como um todo, nele se concentrando os quatro elementos constitutivos do universo. Era dele que provinham as criaturas mistas, sátiros, silenos, egipãs, faunos etc. 

 A aparição de Pan provocava o pânico, um  terror  inexplicável,
PAN
paralisante, que se apossava das pessoas que o viam. Gostava Pan de repousar nos períodos de calor intenso, ninguém ousando perturbá-lo, ficando tudo silencioso e calmo na natureza. Aqueles que o perturbassem incorriam na sua ira; eram por ele atacados, inspirando-lhe o deus o pânico. Consta que na batalha de Maratona, atacou os persas, o que praticamente determinou a vitória dos gregos sobre os seus figadais inimigos. Em agradecimento ao deus, os gregos erigiram um templo em sua homenagem na Acrópole.

Na história de Pan, há registros que nos falam de seu amor por Selene, a Lua, e pela ninfa Eco, às quais teria oferecido, como presente, rebanhos de bois brancos. Um dos acontecimento mais importantes na crônica desse deus tem relação com Tifon, o maior dos monstros descritos pela mitologia grega. Filho de Geia e do Tártaro, era Tifon um agente do caos, uma perigosa ameaça para a ordem cósmica. Podia andar pelos mares mais profundos sem que sua cabeça fosse coberta pela água; sua estatura ultrapassava em muito os picos das maiores montanhas, indo além das nuvens mais altas; ao abrir os braços, suas mãos alcançavam com facilidade o oriente e o ocidente. Seu corpo era coberto por víboras, possuía asas e seus olhos lançam dardos de fogo.

Para escapar do ataque de Tifon ao Olimpo, os deuses gregos fugiram espavoridos, inclusive Pan, que se lançou num rio com a intenção de se transformar em peixe. Tudo aconteceu tão rapidamente que Pan ganhou apenas uma cauda pisciforme. Quando retornou de seu mergulho, soube que Zeus havia sido mutilado pelo monstro, que lhe cortara os tendões dos braços e das pernas. Em companhia do pai (Hermes), Pan conseguiu, contudo, afastar Tifon com o seu famoso grito que causava terror e fuga. Dirigindo-se depois a uma gruta, onde o Senhor do Olimpo jazia inerte, ambos, pai e filho, conseguiram reconstituí-lo, ligando os seus tendões, dando-lhe assim uma nova forma, equivalente a um segundo nascimento, que o projetou num nível superior de existência divina. Assim recomposto, Zeus, como sabemos, voltou a
MONTE   ETNA
se defrontar com Tifon, que se refugiou na ilha da Sicília. Zeus o perseguiu, a batalha foi terrível. Ao final, Zeus conseguiu vencê-lo, lançando sobre ele o monte Etna. Aprisionado, mas não morto, Tifon, até hoje, através de labaredas e gases, continua a dar sinais de sua presença, lembrando-nos que as forças do caos, ainda que dominadas momentaneamente, se constituem numa ameaça permanente. Segundo os gregos, para recompensar Pan dos inestimáveis serviços que lhe prestou, Zeus o colocou nos céus como a constelação de Capricórnio.

Pelos seus múltiplos aspectos, é de Pã, no mundo grego, que parte a ideia que vai invadir a filosofia, ideia que acabou por constituir a doutrina que tomou o nome de panteísmo. Esta doutrina, como sabemos, na filosofia grega, é de inspiração da corrente estoica, para a qual a força vital imanente ao mundo se confunde com a própria divindade. Spinoza a retomará, sintetizando-a na frase Deus sive Natura, o mesmo fazendo Hegel, que descreve a realização divina não só através da história humana como através do que
NOVALIS
chama de “dialética da natureza.” Lembremos que todo o romantismo filosófico do final do séc. XVIII e início do XIX na Alemanha (Novalis, Schlegel, Jacobi, Scheling) foi profundamente afetado por estas ideias. A teologia cristã moderna (veja inclusive a condenação de Spinoza pela sinagoga) identificou o panteísmo como um ateísmo por que ele recusava a ideia de um Deus pessoal. O panteísmo evoca a ideia de uma força impessoal presente em todo o universo e no homem, ideia que encontra a sua melhor formulação no Brahman dos hindus.


Esta identificação de Pan com o Todo, como a antiguidade no-la legou, encontra a meu ver a sua melhor explicação se considerarmos que  Capricórnio é o signo que abre o quarto quadrante  zodiacal, quadrante que nos coloca na décima casa, o
QUADRANTES   ASTROLÓGICOS
meio-do-céu, o setor astrológico que marca a possibilidade da mais elevada realização individual, o mais elevado grau de influência que podemos ter sobre o mundo material. Esta influência, para a maioria, só tomará o caminho da vida material (cabra montanhesa), para outros, uma significativa minoria, ela unirá o material e o espiritual (licorne). Para chegar a esse ponto da montanha, temos que ter vivido conscientemente os quadrantes anteriores, desde o primeiro e o segundo, onde temos os nossos talentos individuais e a contribuição familiar, passando pelo terceiro, no qual encontramos aqueles com quem nos associamos e deles recebemos ou não colaboração e recursos. A partir de Capricórnio é que o Todo, isto é, Pan, poderá se abrir para nós. No quarto quadrante, que termina pelo signo da sabedoria, Peixes, é que, conforme o aprendizado do terceiro, sobretudo, conquistaremos efetivamente a nossa liberdade, cuja característica mais marcante nesta última etapa está na liberdade de assumir deveres e responsabilidades que independem de retribuição ou reconhecimento. È no último quadrante zodiacal que podemos trabalhar com conceitos de altruísmo, fraternidade, humanitarismo.

A antiguidade grega atribuía a Pan dons proféticos, os mesmos que encontramos em outros seres telúricos, mais instintivos, que, ao invés da razão, preferem ouvir aquele “saber” espontâneo que “sabe” mais que o racional, aquele saber que percebe as verdades essenciais, as que têm importância realmente quando pensamos em vida digna. A parte “úmida” de Capricórnio (a cauda pisciforme de Pan) tem, astrologicamente, muito a ver com o lado inconsciente do signo, lado que, ao invés de causar problemas maiores, contribui positivamente, principalmente quando pensamos nos tipos superiores do signo que se transformam em servidores da humanidade. É este lado úmido que faz com que, embora possa se encontrar numa posição de poder ou de influência, o capricorniano de terceiro tipo (licorne) sabe que além dos poderes superiores, representado pelo pico das montanhas, há uma autoridade mais alta,  uma autoridade real ou simbólica diante da qual terá que se curvar, o poder das origens (Câncer), que nunca poderá ser esquecido.

O lado úmido de Capricórnio (Pan), segundo o mito, teria vindo do delfim, o peixe sempre associado a Apolo e ao oráculo de Delfos. Uma versão mitológica nos informa que os delfins são antigos piratas que, depois de terem atacado Dioniso, caíram na água e se arrependeram. Tornando-se símbolos da regeneração, estes peixes, ainda segundo o mito, ajudam os náufragos, muitos deles inclusive, para salvá-los, empurrando-os até as praias. Plutarco, o escritor e moralista, sacerdote de Apolo em Delfos, conta que o poeta e músico Arion (séc. VII aC) foi salvo dessa maneira. Os delfins eram muitos conhecidos pela sua sabedoria e prudência (virtudes capricornianas), sendo considerados, pela sua maneira de se deslocar, como mestres navegadores.