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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

TOURO (2)

           
ZEUS  E  IO
( F. MASON , 1875-1965 )
Os gregos têm uma outra história ligada à segunda constelação do Zodíaco. Ela nos fala de Io, um dos amores de Zeus, uma belíssima princesa argiva. Valendo-se dos préstimos de Oniro, deus do sonho enganador, um dos filhos de Hypnos, deus do sono, Zeus conseguiu fazer com que ela fosse transportada para Lerna, onde conseguiu manter relações carnais com a jovem. Io contara inclusive ao pai o episódio do “rapto” de Oniro e o seu “transporte” para Lerna, onde fora possuída pelo Senhor do Olimpo. Nesse meio tempo, Hera, desconfiada de mais essa aventura do marido, preparou-se para destruir a jovem princesa. Zeus agiu rapidamente, transformando a jovem numa novilha, mantendo-a por perto. Hera, vendo o belíssimo animal, exigiu de Zeus que ele lhe fosse entregue, o que aconteceu. Hera colocou-o sob a vigilância do dragão Argos, o de Cem-Olhos. Zeus, porém, insaciável, tomando a forma de um touro, visitava-a regularmente. 


HERA ,  IO  , ZEUS


Um dia, Zeus resolveu libertar Io-novilha do dragão, pedindo a Hermes que tomasse as devidas providências para tanto. Hermes convocou Hypnos, o deus do sono, que, adormecendo o monstro, lhe deu possibilidades de matá-lo, decepando-lhe a cabeça, sem problemas. Tomando conhecimento da morte do vigilante dragão, Hera, no sentido de homenageá-lo, lançou os seus cem olhos na cauda de uma ave até então sem nome. Desde então essa ave, denominada pavão, passou a ser um dos símbolos da Senhora do Olimpo. 


IO ,  ARGOS ,  HERMES ( G.A. RUSCONI , 1553 )

Desde que se tornou atributo de Hera, o pavão, ao dormir, só fechava cinquenta dos olhos de sua cauda. Tornou-se, na antiguidade mediterrânea, a ave-símbolo do esplendor celeste e da
PAVÃO
glória divina, evocando a multiplicidade da criação. Sempre relacionado com as serpentes, o pavão, segundo a tradição grega, não só absorve o veneno delas como as destrói. Sempre em função da sua cauda e de sua magnífica plumagem, o pavão, restrito como símbolo ao plano humano, passou a representar o narcisismo,  o amor pela própria imagem, o orgulho, a vaidade, um sentimento de beleza que costuma levar ao isolamento. 






Continuando a dar vazão aos seus ciúmes, Hera enviou então um gigantesco moscardo para enlouquecer Io-novilha com as suas dolorosas e ininterruptas ferroadas. Desesperada, ela fugiu, atravessando a nado um estreito que separa a Europa da Ásia. Por essa razão, tal acidente geográfico passou a ser chamado, desde então, de estreito de Bósforo, literalmente, do grego, a passagem da
ISIS
vaca). Depois de vagar por toda a Ásia, Io-novilha chegou finalmente ao Egito, onde, depois de tanto sofrimento, retomou a sua belíssima forma humana, que permaneceu intacta. Lá, deu à luz um filho, de nome Épafo, que se unirá, mais tarde, a Mênfis, filha do deus-rio Nilo. Dessa união nascerão Líbia, Lisianassa e Tebe. Io será adorada no Egito como a deusa Ísis, tendo por emblema a Lua crescente.

A história que está acima, ao atribuir a ísis, Grande-Mãe egípcia, uma origem grega explica-se obviamente pelas tendências imperialistas que os gregos sempre demonstraram com relação à sua civilização, tanto sob o ponto de vista econômico como religioso. Fatores como a pobreza do solo, dificuldades na obtenção de alimentos e domínio total das terras pelos aristocratas, fez com que os gregos, desde períodos muitos remotos, se aventurassem num grande movimento migratório, patrocinado por uma política imperialista,  na direção  do mar Negro e do Mediterrâneo. Ao buscar terras cultiváveis, fundaram cidades, colônias, sendo um item importante dessa política o religioso. Em muitos casos, a colônia grega (apoikia), lembres-se, era um estabelecimento autônomo somente unido à metrópole laços religiosos. Embora o Egito só tivesse se tornado de fato uma colônia grega com a sua anexação (e de outros países como a Pérsia e parte da Índia) ao império greco-macedônico no século IV aC,  as civilizações grega e

egípcia, esta muito mais antiga que a outra, sempre haviam mantido contactos. O texto homérico, A Odisseia (sécs. IX-VIII aC), é um exemplo do que aqui se expõe. Esta "interferência" grega na mitologia de outros países, neste caso do mito de Io-novilha, se completa com a transformação de seu filho Épafo, pelo seu casamento com Mênfis, como está acima, num ancestral do povo líbio, país vizinho do Egito.    


Segundo algumas versões gregas, Zeus colocará nos céus, como a constelação de Touro, a forma taurina que tomou quando de sua ligação com Io. Ísis, como sabemos, será adorada como deusa suprema e universal, mãe da natureza e de todos os elementos, espalhando-se o seu culto, a partir do Egito, por todo o mundo do Mediterrâneo e da Ásia Menor.

Os gregos associavam também o signo de Touro ao deus Dioniso, na medida em que este animal (o bode também) representava as forças incontidas da fecundidade. Por isso, ambos os animais eram as vítimas propiciatórias que apareciam no seu culto. Deus da vegetação, da vinha, da exuberância da vida animal, Dioniso era, por excelência, o renovador da vida, o deus das metamorfoses. 

Por ter retirado sua mãe do Hades, Dioniso era considerado uma divindade libertadora do mundo infernal, um deus ctônico, portanto, que simbolizava a alternância da vida e da morte (ressurreição). O culto de Dioniso,  significa, no fundo, uma das mais profundas e significativas tentativas do homem grego e exemplarmente para a humanidade em geral, no sentido de destruir as prisões materiais e psicológicas nas quais ele (ela) mesmo se encerra. Neste
MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
sentido é que o culto de Dioniso (Mistérios de Elêusis) significa, para homem, um esforço de espiritualização pela liberação das energias que deverão se alinhar com seu eu superior e não mais se colocarem a serviço  exclusivo de sua vida material. Por isso, em seu culto, um dos animais do sacrifício era o touro, como símbolo da vida material. 

Lembremos que o signo de Touro tem relação com tudo o que é massa, peso, espessura, estabilidade, força, resistência, calma,
DIONISO
reações fortes, tempestades instintivas. “Sacrificar o touro” significa buscar uma vida mais espiritual no sentido de ser obtido o triunfo sobre as paixões materiais, sobre a sensualidade incontida. O culto de Dioniso propõe, assim, um empenho no sentido de uma conquista da besta interior (vida instintiva) que há em todo ser humano. Astrologicamente, por isso, o signo está ligado à plenitude da sensorialidade terrestre alimentada por uma grande capacidade de trabalho, por um espírito prático e realista e por uma vontade de possuir e de acumular que costuma ser superlativa. 

Dioniso se afirma como um deus infernal ao prometer o renascimento. As suas festas, como as de Osíris no Egito e as de Shiva na Índia, são muito semelhantes. O mito de Orfeu nos fala
DIONISO
desta semelhança ao se referir à viagem que ele teria feito à terra das pirâmides para de lá trazer ritos que falam da dissolução da personalidade, da sua regressão a formas caóticas e primordiais. A liberação dionisíaca pode ser evolutiva ou involutiva, espiritualizante ou materializante. Outra não é a ideia que nos traz a bebida “inventada” pelo deus, o vinho, a bebida da imortalidade, que pode levar ao inferno também.



PERSÉFONE   E   ZAGREU

A melhor compreensão da multifacetada personalidade de Dioniso e consequentemente do signo de Touro só ficará mais completa se atentarmos para o que o mito nos revela sobre o seu nascimento. Dioniso nasceu como Zagreu (o Grande Caçador, etimologicamente), filho de Zeus e de Perséfone, nome pelo qual era muito reverenciado em Creta, muito difundido o seu culto. A intenção de Zeus era a de preparar este filho para sucedê-lo como divindade universal. As Moiras, porém, ao que parece pela primeira e única vez, contrariaram os desígnios do Senhor do Universo, apesar das providências que ele tomou para protegê-lo da sanha persecutória da sua imperial esposa, a deusa Hera. Embora protegido por Apolo e pelos Curetes, o menino-deus foi localizado pelos Titãs nas florestas do Parnaso, raptado e despedaçado. Antes que se consumasse o diasparagmos pelos Titãs, Zagreu, para tentar escapar dos seus algozes, tomou várias formas. A última foi a de touro, uma das formas que desde então o representará. 


INFÂNCIA   DE   DIONISO

O mito prossegue: os pedaços de Zagreu foram cozinhados num enorme caldeirão e depois devorados pelos Titãs. Zeus fulminará os assassinos de seu filho, transformando-os em pó. Desta poeira, ou melhor, destas cinzas misturadas à terra, nascerão os humanos (os nascidos do húmus). É por esta razão que os seres humanos terão uma parte humana, a maior, o seu lado material, o do Mal, e uma pequena parcela divina, o seu lado do Bem (os restos de Zagreu). Diz o mito que antes de todos os pedaços de Zagreu-Touro terem ido para o caldeirão a deusa Palas Atena conseguiu recuperar o seu coração, levando-o para Zeus. É desse coração que nascerá o segundo Zagreu, com o nome de Dioniso, aquele “que nasceu duas vezes”, também chamado de Ditirambo, “o que passou duas vezes pela porta.”

Esta forma taurina de Dioniso faz parte, desde então, de manifestações que encontramos em mitos, religiões e no folclore, em várias tradições. No Brasil, por exemplo, do sul ao norte, as histórias sobre o boi, principalmente no norte e no nordeste,
BUMBA - MEU - BOI

estão inseridas no seu contexto cultural como tema fundamental de folguedos, canções, literatura de cordel e tantas outras celebrações com diferentes nomes: Boi-Bumbá, Bumba-meu-Boi, Boi-de-Reis, Reisado, Boi-de-Mamão, Boi-Calemba, Surubim e muitas outras. Vários ritos, festas e cerimônias de caráter popular que encontramos ainda hoje em muitas culturas, lembremos, não são mais que reminiscências do touro como animal totêmico e de suas relações com os cultos dionisíacos. Cito, por exemplo, a Farra do Boi que veio do mundo mediterrâneo para o Brasil através dos imigrantes ibéricos, “diversão” ou “comemoração”, que repete o assassinato de Zagreu. 

TOURADA
Dentre todas reminiscências a que nos referimos avulta sobre todas a da tourada, o El Toreo dos espanhóis. Em nome de uma verborragia “heroico-estética” e do culto da virilidade, temos, na realidade, com as touradas, em que pese o seu “charme”, nada mais que carnificina, crueldade e hipocrisia. O toureiro, transformado em herói, figura na qual o público se projeta, mata a besta exterior para que sua besta interior (as paixões escravizadoras de cada um) permaneça intacta. O mal é então levado pelo touro sacrificado; seu sangue é interpretado como uma purificação. Esta tradição, a da vítima sacrificial, nós a encontramos em todas as tradições (no Levítico, por exemplo). Ela tipifica uma tendência universal, inerente à condição humana, a do homem projetar a sua própria culpa sobre outrem a fim de apaziguar a sua consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de uma punição, de uma vítima.  

No simbolismo chinês, o signo de Touro tem relação com o hexagrama Kuen, o receptivo, terra sobre terra, composto por seis traços descontínuos, femininos (os traços masculinos são contínuos). A imagem deste hexagrama lembra a terra voltada para o céu, a mãe e o pai em relação, o tempo se abrindo para o espaço. O simbolismo aqui envolvido sugere também que a força (masculino) deve reconhecer a superioridade da nutrição (feminino), pois ela, a força, sem a nutrição não é nada. Assim, ambos se encontram indissoluvelmente ligados. Depreende-se desta ligação a importância que tem a nutrição (Touro) para que a força seja conquistada e mantida. Este entendimento está expresso, por exemplo, nos Vedas (livros sagrados dos hindus), em hinos, neles se falando que o Touro deve enlaçar o Fogo (Áries, Mesha) para que seja possível a construção humana, que deverá manter uma analogia perfeita com a construção divina do Cosmos. 

Entre os judeus, Touro é Iyar, formado pela letra Vav. O órgão humano que no simbolismo cósmico corresponde a este signo é o rim direito, que, segundo o Talmud, é a fonte de bons pensamentos.
TORÁ
A tribo com ele relacionada é a de Issakar, a que se dedica ao estudo da Torá. Issakar, no Gênesis, é chamado de “asno forte, bom para o trabalho penoso.” Noutra passagem (Reis, cap. I), o mês do signo é chamado de Ziv, brilhante, devido ao aumento do poder solar, que nele se torna mais intenso, ou seja, no mês de maio, o auge da primavera. A mesma ideia de luz, de brilho, é encontrada na designação Ohr, usada pelos babilônicos.   

A tribo de Issakar, que trabalhava arduamente com a Torá, era a detentora do conhecimento que conciliava os calendários solar e lunar e que estabelecia o início de cada mês lunar. Lembremos que o calendário judaico é lunar e o ano, por isso, pode conter doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Segundo a tradição judaica, quando da criação do mundo, os luminares eram iguais em luz, mas como não poderia haver essa igualdade, a luz da Lua foi diminuída. A Lua simboliza o povo de Israel, cuja sorte oscila como ela. A luz da Lua voltará a se igualar à do Sol no final dos tempos, quando da vinda do Messias. Por isso, eclipses lunares são aziagos para os judeus, pois quando a Lua míngua as forças do mal crescem. Dormir à lua da Lua é sempre perigoso por causa da ação de forças demoníacas femininas, diz a tradição judaica.



JUDEUS  APANHAM  MANÁ  NO  DESERTO  ( ÉVORA )

O signo de Iyar está relacionado, num primeiro momento, com o temor. A palavra temor em hebraico tem as mesmas letras do signo. O temor de Deus deve nascer logo neste signo porque ele é um pré-requisito para o recebimento da Torá, como nela se estabelece: O temor dos céus é o começo da sabedoria. Astrólogos judeus dizem também que o mês do signo é auspicioso para curas já que a
MOISÉS ( P. CHAMPAIGNE )
primeira causa das doenças está no consumo de alimentos impróprios e depois numa digestão e assimilação deficientes. Foi durante este mês, no seu décimo quinto dia, numa Lua cheia, que os judeus, vagando pelo deserto com Moisés, começaram a comer o maná, o “pão dos céus”, chamado de o “alimento dos anjos”. O maná é uma espécie de orvalho que alimentou os judeus durante o êxodo. O maná foi produzido ao crepúsculo do sexto dia da Criação e é o alimento dos justos e dos anjos do céu. Era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando resíduos que tivessem que passar pelo sistema digestivo, tendo o sabor que as pessoas quisessem. 

A astrologia judaica nos diz que o elemento de Iyar é a terra, significando isto que o elemento do signo anterior, fogo, entendido espiritualmente, deve no signo que lhe segue procurar um foco, uma objetivação, algo tangível. Negativamente, as energias de Iyar se manifestam na esfera do desejo, quando os judeus, no deserto, reclamaram a Moisés a falta de carne para comer. Foi durante este mês que os judeus, no deserto (Sinai), manifestaram também fortes desejos de conforto e relaxamento. Lembram os judeus que o elemento terra é, energeticamente, o de menor vibração. Este comportamento, manifestado no Sinai, dizem os astrólogos, tem relação direta com a natureza teimosa e rebelde do touro. 

Em oposição aos signos de Nissan e de Iyar estão os de Tishrei (Libra) e Heshvan (Escorpião), que caracterizam as tribos de outros dois irmãos, Manassé e Efraim. A tribo de Heshvan tem relação com o olfato, entendido, simbolicamente, como discernimento intuitivo. O episódio que deu origem à interpretação do olfato desta maneira está no episódio bíblico que tem como personagens José, o pai dos dois mencionados irmãos, e da mulher de Putifar. 



JOSÉ  E  A  MULHER  DE  PUTIFAR ( J.B. NATTIER )

José é filho do patriarca Jacó e de sua esposa preferida, Raquel. É o modelo do homem justo e probo (tsadik), que é protegido do mal por Deus e cujos descendentes não são afetados pelo mau-olhado. Dez de seus irmãos tramaram matá-lo, jogando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Conseguiu escapar e acabou sendo vendido como escravo a Putifar, oficial egípcio. Lá, conseguiu resistir bravamente ao assédio da mulher de Putifar, Zuleika, porque o pai lhe apareceu em sonhos e salvou-o da tentação. Desde então, todos os membros da tribo de Hashvan adquiriram esse discernimento que pode ser usado não só em questões de sexo mas em todas as outras da vida material. Esse discernimento se traduz pela pureza das intenções, de pensamentos e sobretudo pelo temor divino. Na Bíblia, em muitas passagens, o sentido do olfato aparece sempre associado à santidade, à pureza e ao discernimento. O nariz, como o olho, é um símbolo de clarividência e da perspicácia, mais intuitivamente que racionalmente. 

Entre os judeus, José é o sexto dos seus sete pastores (Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Aaron, José e David). Estes sete pastores correspondem aos sete atributos: graça, poder, beleza, vitória, glória, fundação e realeza. O nome de José está ligado entre os judeus a ideias de fecundidade e beleza. Etimologicamente, José (Joseph), significa juntar (yasoph) e reunir e apagar (asoph). Raquel, a mãe de José, diz Deus apagou a minha vergonha, ao dar à luz, depois de estéril por muito tempo. O “ph”, ao final de José, indica um vivo movimento de libertação (oph quer dizer voar) e soph traduz uma ideia de limite, de fim de uma realização. 



JOSÉ  INTERPRETA  SONHO  DE  FARAÓ ( A. VAN  BLOCKLANDT ) 

José, por seus méritos de oniromante, demonstrados na prisão, foi chamado à presença do faraó. Interpretou para ele um sonho que ele tivera e que ninguém explicava: ele sonhara com sete vacas gordas, com sete vacas magras, com sete espigas de trigo cheias e com sete espigas de trigo secas, queimadas pelo vento. José explicou ao faraó as suas visões: sete anos de grande abundância viriam para o Egito; a eles seguir-se-iam sete anos de fome. José propôs ao faraó a administração do problema do seguinte modo: conservar os níveis dos silos reais de modo que quando chegasse o tempo das “vacas magras” ou das “espigas secas”, eles estivessem cheios para que o povo não passasse fome. 

Satisfeito com a resposta, o faraó nomeou José como vizir, dando-lhe o nome de Safenath-Peneah (Deus disse:ele viverá). Aos 30 anos, recebeu como esposa Asenath, que lhe deu dois filhos, Menassé (Aquele que esquece) e Efraim (O fecundo). Durante os sete anos de abundância ele poupou o trigo de tal modo (sem que o povo passasse fome) que, no período das “vacas magras” o Egito era o único país do mundo de então a não ter problemas com a escassez de alimentos. Muita gente, por isso, se dirigiu ao Egito em busca do trigo. José então abriu entrepostos para a venda do trigo excedente, ganhando o país muito dinheiro. Iniciadas as vendas, dentre os primeiros a buscar o alimento, estavam os seus irmãos (que o haviam aprisionado no poço e depois vendido como escravo), vindos do país de Canaã. José não revelou quem era e os irmãos pagaram com muito sacrifício pelo alimento. Retornando, os irmãos encontraram o dinheiro que haviam gasto, devolvido secretamente por José. 

Numa segunda visita ao Egito, os irmãos de José foram denunciados por um roubo que não haviam cometido. José mandou chamá-los e revelando-se lhes pediu que fossem buscar Jacó, o pai
JACÓ  LUTA  COM  ANJO
( REMBRANDT )
de todos, e com ele viessem a se instalar no Egito, em Goshen, a leste do vale do Nilo (Gênese, 45, 1). Jacó, ao receber a notícia, gritou: Meu filho José ainda vive; quero partir e vê-lo antes de morrer. Antes de morrer, Jacó perfilhou seus netos, os filhos de José (Menassé e Efraim), e os abençoou. José morreu com 110 anos, depois de ter obtido dos irmãos, ao morrer, a promessa de que seus ossos seriam levados com eles para onde fossem. Tal aconteceu efetivamente, encarregando-se Moisés de fazê-lo. A conclusão da história de José, segundo a Bíblia é a de que Deus, algumas vezes, transforma as piores ações em boas ações (Gênese, 45. 5-8).


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

TOURO (1)

                             
                      


A primeira divindade que os egípcios associaram a uma constelação nos céus foi Osíris, ligando-o à constelação heliacal de Orion. Quando Orion deixou de  desempenhar esta função, tivemos, no mito, a "morte" de Osíris,  que, descendo ao Outro
ESTRELAS  DE  TOURO
Lado, foi governar o mundo dos mortos. O equinócio da primavera foi deslocado então para as estrelas de Touro, por volta de 4.500 aC, assumindo Horus, filho de Osíris, a “titularidade” da nova constelação heliacal, Touro. Chegava-se à era cósmica de Touro, razão pela qual, durante esse período, muitas divindades tomarão a forma taurina em várias civilizações.



APIS
Considerado na Pérsia como um dos primeiros seres criados, associado na antiguidade persa ao deus Mitra e ao deus Apis no Egito, o touro foi sempre um animal usado para representar a fecundidade de forma anárquica, tempestuosa por vezes. Objeto de culto na Índia, era designado o animal pelos termos sânscritos vrisha ou vrishabha, nome pelo qual a Astrologia hindu (Jyotish) designava o signo de Touro.

No primeiro livro dos Vedas, o Rig Veda, Rudra, o Terrível, que muge como um touro bravio, seu símbolo, é a divindade cujo sêmen fertiliza a terra. Violento, ele a fecunda através de
RIG VEDA
tempestades, liberando os seus violentos filhos, os Maruts ou Rudras, que trazem raios e relâmpagos, quando dos aguaceiros que inundam tudo, na primavera. Além de Rudra, o touro é também símbolo de Indra, este considerado como força que traz o calor (é um deus ligado ao quente, como qualidade primitiva, mais solar, portanto), que proporciona o aquecimento ideal do elemento líquido para a necessária manifestação da vida. 

SHIVA   E   NANDI
O touro aparece na Índia ainda associado ao deus Shiva, a terceira pessoa da trimurti védica, sendo Brahma e Vishnu as duas outras pessoas. Shiva representa o aspecto destruidor, transformador, do mundo material. Quando ele vem nessa forma, aparece sempre montado num touro branco chamado Nandi e traz na mão um tridente (trishula), símbolo da dissolução cósmica. Lembremos que o tridente, nessa função de representar a solutio  universal, é, na mitologia grega, do deus Poseidon, deus do elemento líquido, também muitas vezes representado por um touro. 

Possui Shiva inúmeros poderes e sua autoridade está fixada na grande quantidade de epítetos que tem. É representado comumente por uma figura humana, escura, azulada, mergulhada em grande concentração; possui um terceiro olho no meio da testa, um pouco
LINGAM   E   YONE
acima das sobrancelhas, através do qual emite relâmpagos e raios, que tanto lembram onisciência como castigo e punição. Outros símbolos seus são o lingam, uma coluna de pedra, imagem do fogo divino como órgão fálico, colocada dentro de um círculo, também de pedra,
SHIVA  NATARAJA
chamado yone, símbolo do órgão sexual feminino. Por essa razão, Shiva é representado comumente sob a forma andrógina. Com o nome de Shiva Nataraja é o deus da dança, do movimento cósmico, dos átomos. Vem dentro de um círculo de fogo, de onde exerce o seu poder de destruidor dos mundos e de sua renovação.


Vrishabha é o nome do signo de Touro na Astrologia hindu, onde representa o suporte do mundo manifesto. Os touros, tanto na índia como em outras culturas, são cosmóforos, animais que, como a tartaruga, por exemplo, são usados para simbolizar a criação
VRISHABHA
material, o seu sustentáculo. Neste sentido o touro é visto como um centro imóvel que põe em movimento a roda cósmica. No templo de Salomão, entre os judeus, por exemplo, temos os touros com esta mesma função. Doze ao todo, distribuídos em quatro trindades nas quatro faces do edifício, cada uma delas olhando para um ponto cardeal. Nesse entendimento, o templo deve ser um reflexo do mundo divino na terra, uma réplica terrestre dos arquétipos celestes. O touro se solidariza, nessas representações, assim tanto teológica como cosmologicamente. 






Entre os assírios e babilônicos, o touro era representado sob uma forma selênica e solar ao mesmo tempo, uma união da terra e do
TOURO   ALADO
céu. Eram os famosos touros alados, gênios que viviam imediatamente abaixo dos deuses, que desempenhavam uma função protetora dos humanos, defendendo-os contra as potências maléficas. Eram os portadores dos sacrifícios e oferendas aos deuses e deles traziam as dádivas e os dons divinos. Guardavam os templos, representados como touros alados com a cabeça humana. Além desta função, eles também se misturavam com os humanos, participando de seu cotidiano, seguindo-os pelas ruas, acompanhando-os em suas viagens ou quando iam para a guerra, sempre invisíveis, mas presentes.  

Os touros, desde o período neolítico, ou mesmo antes, sempre foram utilizados também para representar as manifestações tempestuosas do céu e, como tal,  emblematizavam as divindades atmosféricas. Considerado sempre um animal lunar, mas às vezes solar, o touro já na antiga Babilônia e no Egito assumia essa ligação. Sin, deus lunar da Mesopotâmia, tinha a forma taurina numa de suas representações. O deus Mitra, divindade iraniana, é idealizado como um jovem herói que corta o pescoço de um touro, cujo sangue dará origem ao mundo vegetal e animal. 


TAUROBOLIUM
Um culto da Ásia Menor, introduzido em Roma no séc. II dC, enriqueceu outro culto anterior, também oriental, já fixado no Lácio, de um rito até então desconhecido, o taurobolium. Era uma iniciação pelo batismo do sangue do animal. Aquele que se submetia a tal iniciação se transformava num renatus in aeternum, ou seja, nascido para uma nova vida para toda a eternidade. O sangue do touro que escorria sobre o iniciado não só lhe transmitia um poder biológico como lhe dava acesso a uma vida espiritual e imortal. 

Entre os fenícios, a base da sua mitologia está centrada no culto dos elementos e dos fenômenos naturais. Todos os seres divinos são antropomorfizados e colocados numa hierarquia rigorosa. El, o grande deus solar, honrado por todos os semitas ocidentais, está no topo do panteão, Ele governa o país de Canaã. É dele que vem a fertilidade da terra. Honrado sob diversas formas, é chamado de O Touro-El.

VACA   SAGRADA
Já a vaca, em virtude do leite e de seus derivados, a manteiga, os cremes e os queijos, é símbolo da abundância e da fecundidade. Daí o caráter sagrado, feminino, que adquire. Particularmente honrada na Índia, a vaca é uma representação celeste viva. Toda mulher, na índia, das camadas mais baixas da população às mais elevadas, que quer se tornar mãe, deve se sentar sobre a pele do animal. Os hindus como os persas utilizavam a urina de vaca em cerimônias de purificação e seus excrementos tinham várias aplicações, como, por exemplo, servir, depois de secos, misturados ao capim, como carvão ou placas para a construção de paredes ou, ainda, ao natural, como proteção contra maus espíritos. 

O touro não é apenas um símbolo animal dominante, mas possui também um significado mais profundo enquanto animal do
ZARATUSTRA
sacrifício. No ritual e na iconografia tem representado ora o Sol, ora Lua, a terra ou o céu, a chuva ou o calor, a fecundidade feminina ou o ardor masculino, a matriarca e o patriarca. Como símbolo da morte, era uma figura central no mitraísmo, um culto persa anterior a Zaratustra, assumido e difundido por todo o império romano, como um rival do cristianismo.  

TIRTHANKARA
Na arte rupestre primitiva, o touro era secundado pelo cavalo como a imagem mais frequentemente pintada da energia vital. Aparece o touro em todos os continentes como símbolo do poder divino. Na Índia, o primeiro dos tirthankaras, Mahavira, da seita jainista, era representado por um touro dourado. Tirthankara, como sabemos, em sânscrito, quer dizer aquele que fez a travessia (do rio), aquele que, no Hinduísmo, se desligou, atingiu moksha, um liberto em vida.

Desde a pré-história, os atributos físicos do touro estão subjacentes ao seu simbolismo. Os seus chifres estão ligados à Lua crescente, a sua corpulência absoluta sugere um suporte para o mundo material, tanto na tradição védica como islâmica. O seu sêmen prolífico, nessa tradição, é armazenado pela Lua e sua energia mugidora característica e o balanço dos seus chifres está muito ligado a trovões e terremotos, sobretudo em Creta. 


PRINCESA   EUROPA  ( REMBRANDT )

Os gregos se apossaram simbolicamente do animal para explicar o nascimento da civilização cretense.  A história começa quando Zeus, sob a forma de um maravilhoso  touro branco raptou a princesa Europa, levando-a, pelo mar, da Fenícia para ilha que futuramente tomaria o nome de Creta. Lá, perto de Gortina, numa praia cheia de plátanos, adquirindo uma forma humana, fez da lindíssima princesa a sua mulher. Dessa relação nasceram três filhos, Minos, Radamanto e Sárpedon. Mais tarde, Zeus fez com que Europa desposasse Asterion, rei da ilha, que adotou os filhos de Europa. Para que o acontecimento fosse lembrado para sempre Zeus colocou a sua forma taurina nos céus, logo depois da constelação do carneiro. 





A civilização que se desenvolveu na ilha é tipicamente um produto da era de Touro. Creta, sempre, desde as suas origens, foi uma ginecocracia, um poder feminino, apesar de governada por reis. No mito, este rei era Minos, nome que, segundo parece, é mais um título dinástico, como césar, czar, do que um nome próprio. A posição da ilha, equidistante de três continentes, favoreceu o nascimento de uma civilização poderosa e original, que floresceu na era de Touro, mais ou menos entre 4.000 a 2.000 aC, governada por uma talassocracia. Deu-se o nome de minoana a essa civilização, que não possuía templos, mas cujas cerimônias religiosas eram celebradas ao ar livre, nas florestas e nas montanhas, por sacerdotisas.


CNOSSOS
A história da brilhante civilização minoana tem por centro, além de outras edificações, o palácio real, chamado de O Labirinto. No ano de 1.100 aC, Creta foi integrada definitivamente à Grécia continental, depois das invasões aqueias e dóricas, perdendo a sua condição de nação independente. Muito contribuiu também para a decadência cretense alguns abalos sísmicos que se verificaram ao longo do período, dois deles devastadores, um em 1.700 e outro em 1.500 aC. 

A Creta minoana tinha como capital Cnossos e era famosa pela sua cerâmica, pelos seus olivais, pelos seus campos de cereais e vinhedos. Mantinha Creta contactos comerciais com todo o Mediterrâneo oriental, Egito e Oriente-Médio. A arquitetura das suas principais cidades, Cnossos, Phaestos, Mália e Zakros era
LABRYS
excepcional, com serviços públicos eficientes e obras de arte de refinado gosto. Esculturas e pinturas murais distribuíam-se ao longo das vias públicas. As pinturas, de linhas puras, evocavam um culto enigmático marcado pelas figuras de um duplo machado cruzado (labrys) e de chifres de touro, além de muitas cenas de tauromaquia ritual e de acrobacias praticadas em corridas de touro. As sacerdotisas figuram também nessa decoração, muito maquiadas, de peito nu, algumas, e elegantemente vestidas.

Miticamente, após a morte de Asterion, que se casara com Europa, reinou na ilha Minos, o primogênito de Europa e de Zeus. Os outros dois irmãos, contudo, resolveram disputar o trono. Minos
MINOTAURO
pediu um sinal aos deuses no sentido de que eles o confirmassem como único soberano da ilha. Poseidon  enviou, pelo mar um sinal divino, na forma de um maravilhoso touro, com a condição de que o animal deveria em seguida ser sacrificado. Minos, já consagrado como indiscutível soberano, desejou todavia conservar o extraordinário animal para utilizá-lo como reprodutor, de modo a aumentar ainda mais o seu já imenso rebanho. 

Poseidon, irritadíssimo, fez com que Pasífae, mulher de Minos, a rainha de Creta, viesse a sentir pelo animal uma incestuosa paixão. Enlouquecida por um furor erótico incontrolável, ela pediu a Dédalo, o famoso inventor grego, então exilado na ilha, que resolvesse o seu problema. Dédalo criou um simulacro perfeito de novilha, no qual a rainha entrou, consumando assim o seu tresloucado intento sexual. Dessa união, nasceu um monstro, o Minotauro. Envergonhados, os soberanos decidiram esconder o monstro.  Para esse fim, chamaram novamente Dédalo, que construiu um imenso palácio em Cnossos, capital da ilha. Deram a esse palácio o nome de Labirinto; com um enorme emaranhado de quartos, salas subterrâneas, corredores, ninguém, a não ser o seu construtor, poderia dele sair se nele entrasse,  Minos mandou então que o monstro, que se alimentava de carne humana, nele fosse encerrado, nos seus subterrâneos mais profundos. 

PASÍFAE  E  MINOTAURO
A ira divina, porém, não ficou restrita a esse triste episódio. Depois de ter mantido relações com Pasífae, o touro divino foi enlouquecido por Poseidon; livrando-se do cercado em que o haviam colocado, pôs-se o animal a destruir todas as plantações da ilha, enchendo de terror os seus habitantes. O segundo trabalho de Hércules (veja-o neste blog) será exatamente o de dominar o enlouquecido animal e levá-lo para Euristeu, rei de Micenas, que, conforme sentença oracular, determinava os trabalhos que o herói deveria realizar para se purificar. 


PINTURA  EM  CNOSSOS
Os gregos atenienses, à época destes acontecimentos, haviam sido submetidos pelos cretenses, a eles ficando obrigados a pagar um pesado tributo por meio do qual o alimento do Minotauro era obtido: deviam enviar anualmente à ilha jovens atenienses para saciar a fome do monstro. Assumindo o trono de Atenas, Teseu, filho de Egeu, resolveu dar um basta a tão horrível submissão. Dirigiu-se a Creta e declarou que estava disposto a enfrentar o monstro, uma prova a que Minos submetia todos os que pretendessem  libertar Atenas do jugo cretense. 


Auxiliado pela princesa Ariadne, que por ele se apaixonou à primeira vista, Teseu dela recebeu, sem que ninguém soubesse, o famoso fio com o qual poderia sair do Labirinto se conseguisse matar o Monstro. O auxílio de Ariadne estava porém condicionado: Teseu deveria, se vencedor, levá-la consigo e com ela se casar em Atenas. De início, as coisas correram de acordo com o combinado. Morto o monstro, Teseu e Ariadne embarcam juntos com destino ao Pireu, porto de Atenas. No meio do caminho fizeram uma parada na ilha de Naxos, onde passaram a noite. Pela manhã, Ariadne procurou Teseu. Ao longe, bem distante da praia, o barco do herói 
ARIADNE   E   DIONISO  ( TINTORETTO )
ateniense era quase um ponto invisível no horizonte. Abandonada e triste, a princesa foi encontrada na ilha pelo deus Dioniso, que voltava de seu périplo à Ásia aonde fora propagar o seu culto. Uniram-se e dessa união nasceram quatro filhos. Como presente de núpcias, o deus lhe deu um diadema, depois transformado em constelação (vide, neste blog, no item constelações boreais, Corona Borealis). 

Quanto aos reis de Creta, a sua história, devidamente interpretada, é uma grande ilustração do que podemos considerar como a vida de alguém pode ser tomada pela cegueira da paixão incontida, de ambos, no caso. De um lado, o desejo do lucro por parte de Minos, que, ao invés de cumprir o que Poseidon determinara, sacrificou no lugar do divino touro um animal  de terceira categoria. Ou seja, o desejo do lucro acima do dever religioso. Com relação a Pasífae, temos o pecado da sensualidade extrema. O fruto dessas paixões é o Minotauro, que precisa ser escondido nos subterrâneos do Labirinto.


ARIADNE   E   TESEU  ( NICOLO  BAMBINI )

O tema do Minotauro é nitidamente taurino sob o ponto de vista astrológico enquanto nele temos ilustrações negativas: uma alegoria do desejo injusto, a submissão à pressão dos sentidos, as concessões mentirosas, os subterfúgios para a obtenção de posses materiais. Psicanaliticamente, o Minotauro é a expressão do recalque, do que não pode ser exibido à luz do dia (admitido pela consciência) e que, por isso, deve ser escondido na escuridão do Labirinto (subconsciente). O recalque, lembremos, é um mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que as exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ele ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. 

Dessa história sai também a palavra labirinto (de labrys, o duplo machado, um dos símbolos de Creta, ao lado dos chifres do touro), que pode tomar vários sentidos. A palavra, numa leitura religiosa, serviria para alegorizar o mundo como um labirinto e a queda, a perdição do espírito no plano da matéria, a sua dispersão e sua perplexidade na vida fenomênica. A redenção só seria possível se encontrado um meio de sair dele, o fio de Ariadne. Ariadne e Teseu são também, numa outra leitura, figuras arquetípicas do matriarcado e do patriarcado, respectivamente, que poderiam ser conciliadas, mas que, fixadas nas suas prerrogativas, não sabem ou não querem fazê-lo.

O labirinto pode ser considerado ainda como uma ilustração do mundo do erro, de uma vida vegetativa. Quando nascemos, entramos nele, na escuridão, ficando presos à tirania dos sentidos. Voltar à luz é muito difícil. Em muitas tradições, a
LABIRINTO   DE   CHARTRES
entrada no labirinto lembra também a viagem noturna do Sol. Representa, como tal, o processo mental do homem desprovido de uma dimensão espiritual em sua vida. Na Catedral de Chartres e em muitas outras encontramos labirintos esculpidos para simbolizar a vida como peregrinação e as suas dificuldades. Os labirintos eram chamados, nas catedrais, de “caminho de Jerusalém”, considerados como substitutos da verdadeira peregrinação. A arte barroca e rococó, em muitos parques de castelos, públicos ou privados, principalmente na França, usaram a imagem do labirinto para construir, com vegetação alta e espessa, aquilo a que chamaram de dédalos, com o objetivo de divertir os seus visitantes. 

domingo, 3 de janeiro de 2016

ASTROLOGIA E SAÚDE - III

             

                   

Planetas e doenças: quando pensamos em doenças que podem nos vitimar, três planetas devem ser considerados antes dos demais: Marte, Saturno e Netuno. O primeiro tem relação com a inflamação, a infecção, o ferimento, o acidente, a agressão, a utilização da nossa energia, as dores em geral e os problemas do nosso sistema muscular. O segundo tem a ver com tudo o que é hipo (o contrário de Júpiter), limitante, subdesenvolvido (hipertrofia), obstrutor. O terceiro diz respeito a todas as ilusões que nos vitimam física ou psiquicamente. Em aspecto com qualquer planeta, aspecto dissonante sobretudo, de modo especial com os pessoais, Netuno sempre falseia a realidade, induzindo-nos a erros, dificultando sobremaneira os diagnósticos.

Planetas como significadores:

Sol – governa o coração, a coluna vertebral e os olhos. Tem a ver com as artérias, as espáduas, o baço, a distribuição do calor. É quente e seco, com predomínio do primeiro.  A sua importância, sobretudo num tema masculino, deve ser sempre observada de modo especial. Todo ataque ao Sol (aspectos dissonantes) pode significar hiperatividade, complexo de Zeus (Sol-Júpiter); rupturas bruscas, espasmos, arritmias (Sol-Urano); hipotonia, estenose mitral,
PROSPER  MÉNIÈRE
depressão, obstrução, complexo de Isaac ou de Cronos (Sol-Saturno); necrose (Sol-Plutão), inflamação (Sol-Marte); Sol com Vênus e Netuno, excessos alimentares, vertigens, síndrome de Ménière; falta de oxigenação do miocárdio (Mercúrio); hábitos alimentares afetando o funcionamento do coração, síndrome do pânico (Sol-Lua). O Sol aflito em Áries, por exemplo, inclina à violência, à prepotência, às febres, às crises hipertensivas e às hemorragias. Embora a vitalidade esteja favorecida, pode tornar a pessoa impulsiva, dificultando bastante as suas relações sociais (cabeça quente). 



SACRIFÍCIO   DE   ISAAC   ( CARAVAGGIO )

Já os aspectos harmônicos do Sol podem proporcionar um bom potencial de vitalidade (Júpiter), boa resistência orgânica (Saturno), boa capacidade de recuperação, bons efeitos, por exemplo, de um tratamento por laser (Plutão).

O Sol representa a força vital, a disposição para a vida. Sua energia obviamente fluirá melhor nos signos de fogo e de ar (nestes, um pouco menos). Em signos de terra, ligados à materialidade, ficam favorecidas mais a constância e a tenacidade que a vitalidade. É nos signos de água que o Sol encontra a maior dificuldade para brilhar e se afirmar. Por isso, exemplificando, banhos quentes muito frequentes são desaconselhados aos de signos de água, de modo especial cancerianos e piscianos de ascendente.

O Sol, em qualquer mapa, sempre fala de nossas motivações e propósitos principais. É ele quem deve nos orientar (a partir da casa em que se encontre) no sentido de objetivarmos conscientemente a nossa caminhada existencial. Os planetas que formam aspectos com ele mostram como isto se realizará, se tornará difícil ou impossível. É claro que isto só será válido para as pessoas que conseguirem se abrir para questionamentos com relação à sua vida interior. Quanto maior esta percepção, mais facilitada a caminhada. Um Sol, devidamente “trabalhado” desta maneira, nos permitirá projetar nossas energias mais adequadamente, de modo especial fazendo-nos lidar melhor com o nosso cotidiano, que é sempre, afinal, a área de maior importância de nossa vida e dos controles que sobre ela poderemos exercer (casa 6). O Sol é vitalizante, hiperêmico; quanto menos afetado, melhor; maior a vitalidade e a capacidade de recuperação. 


MARLON   BRANDO
Como exemplo de estudo, tome-se o tema astral de Marlon Brando, que sempre usou os valores do fogo para se projetar. Ele tinha o ascendente em Sagitário e o Sol, a Lua e Mercúrio em Áries. Sua aparência, quando surgiu no cinema, era a de um hipermacho e assim se manteve por um certo tempo. As quadraturas Sol-Marte Sol-Plutão, este na casa 8, ambos regentes da casa 12, o transformaram no agente de sua própria destruição.

Mercúrio – é frio e seco, com predominância do primeiro sobre o segundo. É considerado também como um planeta bissexuado, neutro, conversível, nervoso e estéril. É o significador geral do movimento físico e mental, sendo responsável pelo papel que podemos desempenhar como emissores e receptores de mensagens (trocas com o meio ambiente); é o mais instável dos planetas. Por isso, sua relação com a Lua é notável, como o perceberam claramente os antigos egípcios e hindus. Os latinos chamavam o metal mercúrio de hydrargyrus (prata líquida). Governa Mercúrio as funções de movimento, a respiração e a circulação, sendo responsável pela ligação das várias partes do corpo humano. Tudo que é duplo no nosso corpo tem a ver com ele.

Mercúrio rege os pulmões, os dedos, as mãos, os braços, as espáduas (Gêmeos); em Virgo, rege a purificação mental (função crítica, separadora), os intestinos (função separadora), órgão duplo atuando como o encarregado da purificação em qualquer nível. Os movimentos da massa intestinal são dele (intestino delgado). Mercúrio governa também a atividade nervosa, o tato e os órgãos da fala e da audição. Com Urano, tem muito a ver com a eletricidade cerebral. Suas funções fazem dele, enfim, um grande coordenador orgânico. Um Mercúrio muito lesado, por exemplo, pode provocar infantilismo e danos ao sistema nervoso central. 

São de Mercúrio ainda a glândula tireoide (a paratireoide é de Saturno), o cérebro (principalmente o lado direito), o segmento motriz da coluna, as cordas vocais, os órgãos da palavra, a língua, as mãos como instrumentos da inteligência e as vias respiratórias em geral. 

Suas enfermidades são as desordens nervosas ou problemas de saúde por excitação, tensão ou excesso de trabalho; resfriados, bronquites, afecções pulmonares, enxaqueca, perda da memória, excessos salivares, respiração deficiente, eliminação débil, diarreias, neurastenia, inquietação, insônia, distúrbios mentais, sinusite, bócio, palpitações. 


OGMIOS  ,  O MERCÚRIO DOS CELTAS

Mercúrio é a nossa constituição mental básica, definindo a habilidade natural para o estabelecimento de contactos com o mundo. O nosso grau de adaptabilidade e de agilidade metal é mostrado por ele. Como regente de Virgo, aparece associado aos nossos poderes de observação, à nossa instrução (a crítica e a retenção com relação ao que o Mercúrio geminiano obtém é dele), com o pensamento empírico.

Um Mercúrio atacado por aspectos dissonantes sempre afetará em maior ou menor grau as áreas, órgãos ou funções por ele regidas. Um Mercúrio atacado por Saturno pode ocasionar artrose (mãos) ou compressão do nervo (cordão cilíndrico esbranquiçado, formado por fibras motoras e sensitivas, que conduz impulsos de uma parte a outra do corpo) mediano (movimento dos dedos). 

Um Mercúrio débil sugere mente medíocre, que não sabe discriminar; pode revelar, neste caso, indecisão, impulsividade, gerando conflitos que tendem a afetar a saúde (sistema nervoso). Dificuldades na comunicação, problemas de atenção, raciocínio difícil, falta de concentração e dispersão têm sempre a ver com um Mercúrio malogrado. Um Mercúrio mal aspectado por Plutão pode, por exemplo, nos fazer pensar em paranoia, ameaças, em sequestros, raptos etc. Já um Mercúrio muito aflito em Peixes aponta para moléstias nervosas e mesmo para alienação mental. Um Mercúrio muito afetado por Urano, por exemplo, além de outros problemas, pode causar tremores nas mãos, gagueira, dificuldade de concentração. 

No ser humano, a inteligência, que Mercúrio representa, é o conjunto de todas as funções que têm por objetivo o conhecimento no seu sentido mais amplo e a troca de informações com o ambiente; compõe-se esse conjunto de sensação, associação, memória, imaginação, entendimento, razão e consciência. Opõe-se normalmente ao instinto e à intuição.

Já bons aspectos de Mercúrio poderão sugerir adolescência esportiva (Marte), destreza manual (Urano), sucesso com talassoterapia (Netuno), memória conservada na velhice, erudição, oxigenação garantida nas montanhas (Saturno), facilidade para línguas (Júpiter) etc.

Como regente de Virgo e dono da casa 6, a casa onde encontramos informações sobre as nossas atitudes com relação a cuidados corporais; Mercúrio tem muito a ver com a escolha de tratamentos e de profissionais que cuidarão da nossa saúde, sempre se tendo em vista a inspiração superior que devemos receber da casa 9 (Júpiter-Kiron). 

Quando debilitado e em maus aspectos com Urano, Netuno ou a Lua, Mercúrio pode indicar perturbações mentais, males nervosos. Se estiver num signo mudo e sofrer ataque de Saturno, podemos ter o caso de inibições comunicacionais, mutismo etc. Ataques de Júpiter, quando Mercúrio é regente do ascendente, costumam sugerir problemas pulmonares, pleurisias. Se Saturno estiver envolvido, tuberculose, enfisema etc.

FRANZ   KAFKA
Como exemplo, podemos tomar o mapa astral de Franz Kafka, grande escritor tcheco, de expressão alemã, autor de romances e novelas que marcaram a literatura do século XX. Vitimado pela tuberculose, faleceu em 1924.

Lua – Excessivamente úmida e muito fria, a Lua é magnética e fecunda. Rege o estômago, o tórax, a assimilação, a nutrição, órgãos reprodutores femininos, o sistema límbico (conjunto de estruturas cerebrais situadas na região mediana e profunda do cérebro, que desempenha várias funções, especialmente com relação à memória e às emoções, além de influenciar o comportamento humano), o sistema linfático, o hipotálamo (parte do encéfalo situada na base do cérebro, onde se concentram numerosos centros do sistema nervoso simpático e parassimpático, reguladores do sono, do apetite, da temperatura corporal etc.), os fluidos corporais, as superfícies mucosas e aquosas, o ciclo menstrual, seios e vasos lactíferos, a fertilidade, os tratos alimentar e estomacal (quimo), o útero durante a gravidez, o olho direito na mulher e o esquerdo no homem. São dela o esôfago, o duodeno, o fluxo das secreções, o útero, os ovários, várias membranas, tecido celular, a capa dos nervos, testículos, óleos, soros sanguíneos, processos glandulares, vasos linfáticos, mucosas, o sistema ganglionar e a saliva com a sua química.

Suas principais enfermidades: desequilíbrio endócrino, inflamação de gânglios, alergias, desordens femininas do sistema reprodutor, hidropisia e excesso de líquido nos tecidos, infecções catarrais, vista esquerda, linfatismo, epilepsia, instabilidade mental, depressão emocional, histeria, hipocondria, apatia, psicoses, lunatismo, obesidade e dispepsia.


KAOS  -  MAL DI  LUNA  -  IRMÃOS  TAVIANI

A Lua é sempre fecundante, nutritiva, receptiva, anemiante, depressora, apática. Onde estiver (signo), mostra o que precisamos atender para que nos sintamos bem. Em Libra, precisamos de paz; em Touro, de segurança; em Áries, de ação; em Capricórnio, de envolvimento com coisas sérias e significativas; em Peixes, tornarmo-nos cada vez mais compassivos. Os padrões das reações lunares são mais notáveis na infância, período em que ela afeta mais a nossa saúde, a menos que seja o astro Hyleg ou significadora particular de doenças. 

São bastante conhecidas as influências da Lua sobre a vida e a saúde. É por isso que na astrologia dos hindus a Lua é sempre considerada como um segundo ascendente. Há, como sabemos, estatísticas que comprovam haver um pico com relação a nascimentos quando da Lua cheia e um decréscimo quando da Lua nova. Há também registros de casos de hemorragias pós-operatórias, com um significativo aumento delas nos períodos de Lua cheia. Ponderáveis razões recomendam que sejam evitadas intervenções cirúrgicas na fase da Lua cheia e no período em que a Lua se encontrar “fora de curso”, de modo especial se no mapa natal tivermos a conjunção Lua-Netuno em signos de água. Também não é recomendada a intervenção quando a Lua estiver presente no signo que tem relação com a parte do corpo ou órgão a ser operado. 

A Lua afeta (maus aspectos) bastante o pensamento racional (mentalidade); como “mãe das inferências” (conclusões baseadas em fatos não totalmente comprovados, generalizações infundadas, paranoia etc.), podendo nos tornar muito imaginativos e suspicazes. As tendências hipocondríacas, especialmente se estiver mal relacionada com Netuno, Mercúrio e Saturno, são comuns. Incluo neste quadro o caso de uma Lua fortemente atacada por um planeta significador de doenças (regente da casa 12).

Relações dissonantes entre Lua e Mercúrio, Lua e Urano e Lua e Netuno podem sinalizar a possibilidade de distúrbios mentais. Relações desarmônicas entre Lua e Vênus indicam, às vezes, doenças da bexiga. Lua em signo estéril, atacada por Saturno, esterilidade. Como luminares, o Sol e a Lua mal aspectados, podem indicar problemas de visão; se nebulosas estiverem envolvidas na relação, maior perigo. Lua e Júpiter em aspecto dissonante com ataque violento de Plutão assinala a possibilidade de proliferação de células (câncer, metásteses).

A Lua pode, em certo sentido, ser considerada como o “ponto fraco” de nossa personalidade, pois, ao atuar no limiar da vida subconsciente, ela nos torna muito vulneráveis a caprichos (etimologicamente, esta palavra tem relação com a cabra, animal lunar) emocionais e a pressões da memória. Há sempre uma estreita relação entre uma Lua débil e desequilíbrios emocionais. Na medida em que o Sol nos fala de algo adiante, a ser construído no tempo, a conquista de uma individualidade, a Lua é regressiva, nos leva para o passado, para a vida subconsciente.

 BOLSA  DE  NOVA   YORK
Um dos melhores exemplos do que estamos aqui a mencionar é o mapa de Marcel Proust, nascido em Paris, a 10 de julho de 1871, às 23:30 hs. Tinha o Sol e Mercúrio no signo de Câncer, dominados a partir de Touro (casa 2) pela Lua, em conjunção com Plutão. Sofreu a vida inteira de asma, doença respiratória crônica, caracterizada pela inflamação dos brônquios. Há um estreitamento das vias aéreas que torna difícil a passagem do ar pelos pulmões. Daí, os sintomas: falta de ar, chiado, aperto no peito e tosse. Alérgenos (ácaros, mofo, pelo de animais, fumaça de cigarro, frio, poluição), tudo afetava o asmático Proust, um lunar hipersensível física e psiquicamente.


MARCEL   PROUST

Vênus – Como regente de Touro, Vênus se relaciona com recursos, valores, lucros, talentos de natureza prática, construção, riqueza, quantificação. Como regente de Libra, Vênus significa vida afetiva, relacionamentos em geral, receptividade, contratos. É um planeta feminino bastante úmido e moderadamente quente. É um astro fecundo, tem relação com a paz e a harmonia, exalta a sensibilidade e refina as sensações nos bons aspectos e indica promiscuidade nos maus. Suas vibrações podem ir do amor-sexo mais grosseiro (excessos eróticos) a elevadas formas de amabilidade. É conhecido como Fortuna Menor, ligando-se concretamente a todas as expressões artísticas e à estética corporal e ambiental.

No corpo humano, domina ou tem influência sobre os rins, o tato, as virilhas, os órgãos genitais femininos (ovários), a próstata, o pescoço, a nuca, os ouvidos, os hormônios sexuais femininos, a garganta, os órgãos da fala, os seios, a barriga, o monte de Vênus (proeminência criada por uma camada de gordura acima da sínfise pubiana da mulher), a pele, cuja regência divide com Saturno. Para a astrologia, a pele, sob o ponto de vista físico, é de Saturno enquanto, sob o ponto de vista estético, é de Vênus.

São também de Vênus a glândula timo, o sentido do tato, o sistema genital feminino, o brilho dos cabelos e da cútis, a harmonia das formas femininas, o ventre, as nádegas, o púbis, os seios, o colo,  as células reprodutoras femininas, o conduto dos ouvidos, a circulação venosa. Mais: impurezas do sangue de natureza intoxicante que causam amigdalites, faringites, laringites, enfermidades pustulosas, sarampo, varíola, varizes, abcessos, furúnculos, tumores, flebite, celulite, náuseas, moléstias do aparelho geniturinário, desarranjos menstruais, excesso de secreções, sensibilidade das mucosas nasais, adenoides. 

A beleza da pele, mais exatamente da película que a recobre, a epiderme, também chamada de cútis (do grego, skytos, encoberto, escondido, recoberto) é de Vênus. As injúrias que nela aparecem têm, em muitos casos, muito mais a ver com complicações afetivas, com os chamados males do amor, do que com agressões externas. Quando Vênus está mal colocado num tema, por signo e casa, recebendo inclusive aspectos dissonantes, ele oferecerá, no geral, muitos problemas com relação à sociabilidade  e, em particular, com relação à vida afetiva e sexual. 

Comuns os casos, conforme a astrologia comprova, de casais que nada mais tendo em comum continuam a viver juntos, por razões várias, questões financeiras, patrimoniais, familiares, filhos, às vezes motivos religiosos, comodismo etc. Para acomodar situações como esta é que inconscientemente (?) um dos parceiros, ou, mais raramente, ambos, um certo dia aparece(m) com problemas cutâneos, dermatopatias. Civilizadamente, está criada uma justificativa bastante aceitável para a rejeição: um não mais tocará o corpo do outro, justificativa sobretudo conveniente para ambos e para se dar satisfações à curiosidade externa sobre a “distância” que há entre eles. 

Nestes casos, é geralmente na “parte mais fraca” da parceria que se desenvolve a dermatopatia. O que temos aqui em ação é uma das leis fundamentais da vida universal, a da polaridade. No jogo amoroso, esta lei se traduz pelo conflito que nele sempre está presente, embora raramente conscientizado pelas partes envolvidas. Por isso, ao lado de tantas demonstrações de afetividade, mesmo de paixão, há tanta mentira, traição, inveja e destruição no jogo amoroso. O fato é que em toda relação afetiva, em qualquer vinculação sentimental, é preciso reconhecer, vive sempre ocultamente o elemento destrutivo. O aparecimento desse elemento
EROS
pode se verificar de muitas maneiras. Ora ele irrompe violentamente como agressão, ora, como no exemplo aqui apresentado, como doença, sempre uma forma disfarçada de agressão. Como o seu “eros” (libido para os especialistas) não consegue chegar ao “outro lado”, ao parceiro, a aqui denominada “parte mais fraca” o volta contra si mesma, agredindo-se. Não podendo atacar o parceiro, a “parte mais fraca” faz o seu “eros”, aqui transformado em ódio muitas vezes, ferver na sua pele. 


Isto fica claro quando examinamos os nomes que os antigos gregos deram a muitas doenças que “enfeiam” a pele: eczema, erisipela, psoríase, leucodermia (vitiligo) e outras. Ao processo inflamatório (vermelhidão, exsudação, coceira) que nela se manifesta, de modo agudo ou crônico, os gregos deram, por exemplo, o nome de eczema (eczein, em grego, quer dizer ferver, entrar em ebulição). Erisipela, etimologicamente, pele vermelha, e assim por diante. 

A astrologia nos deixa claro que todas as dermatopatias, de um modo geral, são reveladas por dissonâncias relacionadas com Vênus. Uma das mais agressivas, por exemplo, é o herpes-zóster. O nome vem do grego, herpein, arrastar-se, movimentar-se como uma serpente, um réptil. Aliás, a raiz indoeuropeia da palavra é serp, que deu a palavra grega herpaton, réptil. O herpes, registrado e estudado na antiguidade grega, se caracteriza por lesões cutâneas vesiculares, que causam dores e febres. Quando a doença faz um caminho circular ao nome se acrescenta zóster, do grego, com o significado de cinturão, de algo circular, mal popularmente chamado de cobreiro.  Aparecendo geralmente em áreas do corpo dominadas astrologicamente por Vênus (Touro e Libra) e por Plutão (Escorpião), o herpes costuma se manifestar, segundo a Medicina, em “períodos de baixa resistência”. É nestes períodos, como sabemos, que o corpo fica mais desprotegido pela queda de imunidade. Nosso sistema de proteção, como se disse, depende muito de Vênus Tais períodos, como a astrologia nos mostra, têm muito a ver com problemas de segurança material e afetiva, que são
BENZEDEIRA  DE COBREIRO
da alçada de Vênus no mapa natal. As áreas corporais mais afetadas nestes períodos são exatamente as relacionadas com Vênus. Os sinais aparecem: estresse, infecções de pele, abcessos e doenças causados por fungos, vírus ou bactérias, falta de apetite etc. Comuns os casos de herpes na boca (região taurina), casos recorrentes de amigdalites (região taurina), estomatites (problemas de alimentação, de Vênus, portanto) etc.


O lúpus eritematoso cutâneo ou o sistêmico, por exemplo, é outra doença inflamatória, de origem autoimune, encontrada em muitas pessoas em cujos mapas astrológicos se nota a polaridade Vênus-Marte severamente afetada. O cenário astrológico é bem conhecido: Vênus entra, no caso, com as dificuldades afetivas, com o sistema imunológico deficiente, com a cútis e Marte colabora negativamente com o ódio consciente ou não entre os parceiros (ou alguém que desempenhe este papel na relação), com a agressão, com a inflamação, com o eritema, que vem do grego com o significado de vermelhidão.

Há muito que se discute a origem do nome desta doença, já, ao que parece, descrita por Hipócrates. O nome lupus (lobo, em latim), vem de longe, e já era registrado para a doença na alta Idade Média, sugerindo vida instintiva, voracidade, que o lobo simboliza. A pessoa que é atacada pelo lúpus eritematoso cutâneo vê-se dominada simbolicamente pelo lobo, pela sua vida instintiva. Não é por acaso que em muitas gravuras medievais e posteriores que a Alquimia nos deixou encontramos imagens de um lobo (vida instintiva) devorando as entranhas de um rei (vida racional). Não podendo descarregar a sua violência no “outro”, um dos parceiros se agride, faz inconscientemente com que sua violência se volte contra si mesmo. 

É interessante notar que o lúpus eritematoso cutâneo se caracteriza pelo aparecimento, na pele, na região do rosto, principalmente de pequenas manchas vermelhas em forma de asas  de  mariposa, símbolo de Sagitário, regido por Júpiter, signo de fogo, relacionado com vida superior, vida espiritual, enquanto o signo de Áries, regido por Marte, tem relação com vida instintiva e que o signo de Leão, também signo de fogo, regido pelo Sol, tem relação com a vida racional.


Quem sofre do lúpus eritematoso fica prisioneiro do “seu” lobo. O mesmo raciocínio astrológico poderia ser estendido ao lúpus eritematoso sistêmico, quando ataca os rins, dominados astrologicamente pelo planeta Vênus, regente do signo de Libra, que se polariza com Marte, regente de Áries. 

O nosso sistema imunológico, como se sabe, é formado por um conjunto de estruturas e processos que protege o nosso organismo contra os ataques das doenças. Desarranjado, esse conjunto não consegue dar as respostas imunológicas adequadas, podendo atacar órgãos saudáveis do corpo. Quando isso acontece, temos as chamadas doenças autoimunes, que são muitas. A Medicina não sabe até hoje como isso acontece, ou seja, não sabe explicar essa autoagressão. Ao nos revelar que o nosso sistema imunológico, como se disse, tem muito a ver com o planeta Vênus, a astrologia poderá nos ajudar a detectar a possibilidade da manifestação de tais doenças autoimunes em pessoas que apresentem severas aflições deste planeta em seus mapas astrais. 

Detive-me um pouco mais sobre sobre este tema, o das chamadas doenças autoimunes, sempre uma autoagressão, para destacar o quanto elas estão relacionadas com a vida psíquica. A psicanálise e/ou a psicologia profunda, com relação a pessoas adultas que as desenvolvam, têm muito a falar sobre elas, sem dúvida. Não conseguirão dizer nada, porém, quando tais doenças aparecem em crianças, lúpus, herpes etc. Invocar a hereditariedade (sempre cômoda, quando diagnósticos nada explicam) não basta, pois muita coisa ficará de fora. É na astrologia da Índia (Jyotish) que encontramos as melhores explicações sobre as causas das doenças autoimunes e de muitas outras, principalmente em crianças. 
(Para os que se dispuserem a ir um pouco mais fundo nesta questão, vejam neste blog a matéria Astrologia, Karma e Reencarnação).   
  
Como regente dos princípios da harmonia e do equilíbrio, Vênus adquire particular importância quando pensamos no estressante mundo moderno e no processo de regulação pelo qual um organismo mantém constante o seu equilíbrio. Este processo tem o nome de homeostase (etimologicamente, permanecer o mesmo): é o estado de equilíbrio do corpo e das suas diversas funções e composições químicas (temperatura, pulso, pressão arterial, taxa de açúcar no sangue etc.). Isto é, fazer o corpo funcionar adequadamente, equilibrado, quaisquer que sejam as circunstâncias externas. Um dos grandes recursos, por exemplo, para nos ajudar a recuperar, se perdida, a eficiência (equilíbrio) do nosso organismo, tanto no plano físico como psicológico, poderia vir de noções cibernéticas como a da retroalimentação (feed back), um processo pelo qual podemos corrigir as nossas ações se soubermos utilizar corretamente as mensagens de retorno do meio em que atuamos.  
  
Sabemos que os rins filtram todo o material solúvel indesejável do sangue e mantêm o equilíbrio correto entre a acidez e a alcalinidade. Os rins elaboram a urina a partir da filtração do sangue, regulando a pressão arterial e transformando a vitamina D (essencial para a deposição de cálcio nos ossos e dentes) na sua forma ativa. Exemplo: Vênus aflito em Áries pode trazer riscos hipertensivos por causa de moléstia renal. 

Ataques a Vênus, Marte, Saturno e Netuno, com a participação lunar (trânsitos), podem, por exemplo, causar estados vertiginosos, perda de equilíbrio, inclusive com náusea e vômito, mal que designamos geralmente (embora muitas vezes não o seja) pelo nome de labirintite. Labirinto é o nome de uma porção óssea do ouvido interno onde há um líquido (endolinfa) que, quando nos movimentamos, garante o nosso equilíbrio.

O planeta Vênus tem a ver com tudo o que chamamos de venoso no nosso organismo. Venoso é o que diz respeito às veias. O chamado sangue venoso, que tem pouco oxigênio, volta para o coração pelas veias para ir novamente aos pulmões receber oxigênio e ser novamente bombeado pelo coração para as artérias. Vênus, aflita em Aquário ou mal aspectada por Saturno, é geralmente sinal de males venosos (problemas na circulação de retorno), isquemias (literalmente, falta de circulação). As isquemias podem ocorrer em qualquer parte do corpo, no pé, no intestino, no cérebro etc. Quando um tecido “morre” por falta de irrigação sanguínea, podemos ter a chamada gangrena (etimologicamente, corrupção); se Plutão estiver envolvido, podemos ter necroses. Um quadro perigoso, pois, uma Vênus débil, atacada simultaneamente por Saturno e por Plutão. 

São também de Vênus os males que antes se designavam pelo nome de venéreos, hoje englobados pela sigla DST (doenças sexualmente transmissíveis), causados por vírus, bactérias ou micróbios. Lembro que quando Urano, em 1968, ingressou em
SWING
Libra, signo regido por Vênus, e lá permaneceu até 1974, a promiscuidade sexual entrou em moda. Ideias de casamento “aberto”, troca de casais (swing), relações sexuais breves e superficiais, troca de parceiros, ausência de regras, inversões etc. Foi nesse período que a Aids se instalou, anunciada “oficialmente” pela entrada de Plutão em Escorpião no início dos anos 80. Plutão, curiosamente, em grego, tem também o nome de Aides, cuja transliteração nos deu em português Hades.     

Relações desarmônicas agudas entre Vênus-Marte, por exemplo, podem ocasionar problemas de coagulação, além de dores de garganta, amigdalites, faringites etc. Um mau aspecto Vênus-Júpiter é comumente indício de problemas alimentares (Vênus tem relação com a boca, os doces, o açúcar). É evidente que estas afirmações devem ser localizadas no mapa, lembrando-se que a casa 2 nos dá informações com relação ao que nos agarramos real ou simbolicamente, inclusive sobre alimentos que mais costumamos levar à boca (alimentos têm relação com signos); a casa 5 nos fala da preparação de alimentos e a 6 de nossos hábitos alimentares (a nossa mesa), influenciando em grande parte o cenário de nossas refeições.  

Gota (problema na eliminação do ácido úrico; causa dolorosas inflamações nas pequenas e grandes articulações, levando à imobilidade), obesidade e diabetes, males dos excessos da boca, são comuns neste quadro, no qual o planeta Vênus costuma ocupar posição importante.  Se a Lua estiver envolvida, teremos o famoso tripé da diabetes, da melitúria (diabetes melitus): distúrbio do metabolismo que se traduz geralmente pela elevação de glicose no
MASTROIANNI
sangue. Nessa moléstia, grande é o papel do pâncreas, o produtor de insulina no nosso corpo. Problemas no pâncreas têm geralmente relação com exageros na ingestão de álcool e comida. Muito comuns esses problemas em librianos que vivem evitando conflitos, adaptando-se demais, e que compensam essa “rendição” com comida, doces, bebidas etc. Um caso exemplar é o do libriano Marcelo Mastroianni, que morreu vitimado por um câncer no pâncreas.