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sábado, 4 de janeiro de 2020

DOS PECADOS - A PREGUIÇA



A  PREGUIÇA ( HIERONYMUS BOSCH , 1450 - 1516 )

Os dicionários definem a preguiça como aversão ao trabalho, ócio, vadiagem. Os profissionais da saúde muitas vezes a consideram como um estado de prostração e moleza de causa orgânica ou psíquica, uma doença. A Igreja católica a incluiu entre os sete pecados capitais. No geral, é vista  como desleixo, falta de empenho, morosidade, lentidão. 

Se olhamos a preguiça usando a primeira lei da Física formulada por Isaac Newton podemos lançar outras luzes sobre ela, não a considerando tão negativa quanto parece. A citada lei nos diz que mesmo a natureza pode ser preguiçosa e que, por isso, talvez, a possamos considerar de modo mais benévolo, não como um defeito ou um pecado do ser humano.  Eis a lei: todo corpo persiste em estado de repouso ou de movimento retilíneo e uniforme, a menos que seja compelido a modificar esse estado pela ação de forças impressas sobre ele.

A lei a que nos referimos é conhecida também como lei da inércia, entendida esta como a tendência que os corpos apresentam de permanecer em equilíbrio ou em movimento retilíneo como descrito. Dá-se o nome de massa à medida quantitativa da inércia de um determinado corpo. Quanto maior a massa de um corpo, maior a sua inércia. O seja, massa é a oposição que um corpo oferece à mudança do seu estado.  
ISAAC   NEWTON
As leis de Newton foram publicadas por ele, na Inglaterra, em 1687, na sua obra intitulada Princípios matemáticos da filosofia natural, na qual ele lançou os fundamentos da dinâmica, explicando-se a partir dela, por exemplo, o surgimento das marés e as órbitas planetárias. 
                                             
O ser humano, para se manter vivo precisa sair da inércia, agir e obter coisas do mundo à sua volta, alimentos, proteção contra as intempéries, ter algum poder sobre o mundo vegetal e animal, evitar ataques de animais predadores, que, no seu caso, são, em grau superlativo,  outros seres humanos. Toda esta atividade o ser humano traduz psicologicamente pelo que chamamos de desejo, termo empregado na filosofia, na psicanálise e na psicologia para designar, ao mesmo tempo, a sua propensão, o seu anseio, a sua necessidade, a sua cobiça ou o seu apetite. Isto é, qualquer forma de movimento em direção a um objeto cuja atração física, material, sexual ou espiritual seja sentida por ele.       
                                                                                 
Como dá para perceber pelo que está acima, o desejo se distingue da necessidade, esta uma simples incitação fisiológica, a fome por exemplo. O desejo tem relação com algo específico: desejo beber vinho, comprar isto ou aquilo. O desejo supõe sempre uma certa insatisfação, dando à vida afetiva a sua tonalidade; desperta sentimentos e paixões, estando, por isso, na base de toda a atividade humana. Mais ainda: os desejos que o homem pode experimentar são praticamente infinitos em número, decorrendo desse fato que se procurar satisfazê-los indiscriminadamente acabará perdendo a sua liberdade, ficará doente, deprimido, angustiado. O desejo ao qual o homem sabe aplicar noções precisas de cálculo e de reflexão se torna ato de vontade. Não é a pulsão do desejo, mas o ato da vontade que é verdadeiramente a expressão da personalidade humana.                              
A ciência vem tentando provar que a preguiça, quanto aos seres humanos, pode ser transmitida, por gerações. Quanto aos ratos, as eternas cobaias, isso parece já estar comprovado. Para esse fim foram selecionados ratos que se movimentavam muito e outros bem menos, dando-se a ambos os grupos condições de que gerassem filhos. Foram detectados nestes últimos, e não nos filhos dos outros, 36 genes que interferiam diretamente na sua movimentação, tornando-os bem menos ativos.

AI , QUE  PREGUIÇA !
De um modo geral, para a ciência a imobilidade (preguiça) é uma tendência natural do ser humano e serve para ajudá-lo a preservar a sua energia. É por isso, afirmam muitos estudiosos, que quando ele se dispõe a fazer qualquer coisa, a entrar em ação, ele procura sempre a forma mais fácil de fazê-lo, a maneira de dispender o mínimo possível de sua energia. Por outro lado, muitos animais “sabem” que a preguiça faz bem. “Sabem” que ela serve para descontrair os músculos, pois eles tendem a ficar tensos, mesmo quando dormem. 

AÇÚCAR
Quando despertamos e nos espreguiçamos estamos nos preparando para entrar em ação, para entrar em movimento. É óbvio que o excesso de preguiça, de imobilidade, de sedentarismo, faz mal, os músculos de nosso corpo se encolhem, se atrofiam, como quando ficamos muito tempo numa posição, vendo TV ou sentados diante de um computador. Um fator já comprovado, que aumenta a tendência do ser humano ao imobilismo, ao sedentarismo, é o alimentar. O açúcar e os alimentos com alto teor de gorduras são particularmente nefastos nesse caso. 

Estudos científicos recentes vêm tentando provar que o uso prolongado da maconha pode tornar os seus usuários mais lentos, mais preguiçosos, menos espertos, menos ágeis, física e mentalmente. Isto se deve, ao que parece, diminuir a maconha  a produção de um neurotransmissor, a dopamina, que tem importante papel na motivação e no comportamento orientado para a busca de recompensas. A maconha, nesse sentido, atua na direção contrária das anfetaminas, drogas estimulantes da atividade do sistema nervoso central, que, além de inibir o apetite, aceleram a atividade cerebral, mantendo as pessoas acesas, ligadas, elétricas. As anfetaminas, como se sabe, liberam muita dopamina, estando comprovada a sua relação com quadros psicóticos. As anfetaminas são chamadas pelos caminhoneiros brasileiros pelo nome de rebite, muito usado para mantê-los acordados durante muitas horas, longas jornadas, às vezes um ou mais dias. 

ILUMINURA   MEDIEVAL
Os antigos gregos, como já vimos, davam o nome de daemones a certos espíritos ou divindades que atuavam no mundo natural para prejudicar ou ajudar os humanos A felicidade de um homem estava associada à influência de um eudaemon, um demônio bom, favorável. No caso de que tratamos, a preguiça, temos, ao contrário, os chamados kakodaemones (kako é mau, ruim). Normalmente, a preguiça era representada por tipos como Eucolia (personificação do ócio), Aergia (personificação da negligência), entidades que gostavam de andar na companhia de Penia (personificação da carência), de Lype (personificação da tristeza) ou da Hesichia (personificação da quietude), que vivia no palácio de Hipnos, o deus do sono. 


HYPNOS  E  TANATOS ( J.W. WATERHOUSE , 1849 - 1917 )

SÃO  JERÔNIMO
( F.ZURBARAN, 1598-1664
A palavra preguiça veio para nós através do latim, pigritia, com o sentido de indolência, omissão, descuido, desmazelo. São Jerônimo, que fez a primeira tradução da Bíblia para o latim, a chamada Vulgata, traduziu atsel, do hebraico para o latim, por preguiça, pigredo, atribuindo-lhe também o sentido de lentidão. A tradução de atsel para o grego deu deilia, fraqueza, pusilanimidade, medo. Uma variante dessa palavra grega é okneros, com o sentido de uma pessoa assustada, tímida.

ACÍDIA
Em latim, preguiça era também chamada de acidia, nome preferido pela Igreja católica para caracterizar, quando se pensava na vida religiosa, um estado de cansaço, de desânimo, de indolência, de falta de empenho, de desleixo, de  desatenção. Por volta do séc. IV dC, os anacoretas do deserto conheceram uma forma desse cansaço de viver de modo muito peculiar, dando-se-lhe o nome de acídia ou acedia, caracterizada por um enfraquecimento da vontade, uma espécie de abulia espiritual quanto ao exercício das virtudes, especialmente no que respeita ao culto e à comunicação com Deus. A palavra é grega (akedia), significando ao mesmo tempo negligência, indiferença, mágoa, prostração, desgosto, apatia do coração e da alma. A literatura dos padres do deserto (ver a literatura de Evágrio, o Pôntico, Egito, séc. IV dC) nos dá testemunhos deste estado: O anacoreta se sente tão esgotado como se tivesse percorrido um longo trajeto no deserto ou se submetido a um jejum de muitos dias.


EVÁGRIO , O  PÔNTICO  ( ILUMINURA  MEDIEVAL )

O a da palavra acídia é privativo, negativo, denotando falta de elã, de interesse, de motivação. A palavra tem relação com o verbo latino cedo, cessi, cessum, cedere, avançar, prosseguir, persistir. A acídia é descrita pelos monges do deserto como um estado no qual o que se faz se revela subitamente como destituído de interesse, sem razão, sem objetivo. A acídia aponta para a inutilidade, a falta de sentido no que se está a fazer. Os anacoretas, como sabemos, viviam como trogloditas, em pequenas celas, em cavernas, na penumbra, nos desertos do Egito, durante anos e anos até a morte. 
ANACORETA
(T. AXENTOWICZ, 1859-1938)
Como anacoretas, deviam manter permanentemente a sua atenção concentrada no que faziam, a leitura, as orações, a busca de água e de alimentos, sempre o mínimo, o estritamente necessário para a sobrevivência. Qualquer descuido com relação a esta concentração significaria uma porta aberta para o demônio. A doutrina dos padres do deserto recomendava que jamais fosse dada alguma oportunidade a que pensamentos ou atos viessem a trazer algum desvio das posturas recomendadas.

HANNIA, DIABO JAPONÊS
A ociosidade era um dos grandes perigos, uma das vias preferidas do demônio para atacar. A ociosidade era provocada geralmente por um questionamento interior sobre a validade ou a utilidade do que se fazia. Como preguiça mental, era uma arma de Satã. Aberta a guarda, o monge podia sair do estado de entusiasmo (Deus em nós) em que se encontrava e se tornar uma presa do vazio. Abria-se uma espécie de fenda, uma ruptura, na tensão que o anacoreta alimentava como meio de se relacionar com Deus. Isto era a acídia. Uma ruptura que podia levar o monge a fugir, a abandonar tudo. Afinal, Alexandria, a cidade mais bela do mundo, cheia de prazeres, estava apenas a um dia de marcha da sua caverna. A acídia era a mais ameaçadora das tentações, maior que as mulheres e que a comida, tentações sempre mais fáceis de combater.

O ócio sempre foi considerado por muitas tradições religiosas como a oficina do Diabo, por desligar a pessoa das suas obrigações. Ócio é tempo livre, folga, repouso, visto negativamente pelas religiões. Desse mesmo entendimento sempre participaram, por exemplo, os primeiros industriais dos tempos modernos. Na era industrial, o ócio era muito mal visto porque permitia que os empregados, nos seus períodos de folga, se pusessem a discutir sobre as suas condições de trabalho, o valor dos seus salários, o que podia levá-los, como realmente aconteceu, a fundar sindicatos, unions, a fazer reivindicações “absurdas”, como a diminuição da sua jornada de trabalho para doze horas por dia ou limitar o trabalho infantil a dez horas diárias, com uma folga por mês. 


UM  DOMINGO  DE  VERÃO  NA  GRANDE  JATTE
( GEORGES  SEURAT , 1859 - 1891 )

No ocidente, no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, todos os industriais europeus e norte-americanos sempre procuraram manter os seus empregados trabalhando ou ocupados, nos poucos momentos de folga. Os fins de semana sempre foram considerados como perigosos, daí resultando o grande estímulo desses patrões para que seus operários cumprissem não só as suas obrigações religiosas como frequentassem outras atividades, de mesmo caráter.

JOÃO  DAMASCENO
Alguns doutrinadores da Igreja católica dão o nome de tristeza à acídia, como o fizeram João Damasceno e o papa Gregório. Santo Tomás diz que a acídia é tédio ou tristeza em relação aos bens interiores e aos bens do espírito. Para ele, são filhas da acídia o desespero, a pusilanimidade, o torpor, o rancor, a malícia e a divagação da mente. O desespero é um estado de profundo desânimo de alguém que se sente incapaz de qualquer ação. Etimologicamente, desespero é o afastamento de qualquer esperança. Mais simplesmente é a sensação de frustração ou de desânimo que nos toma quando ao tentar fazer alguma coisa não o conseguimos seja pela dificuldade de sua execução ou pela exigência de perfeccionismo implícita. Pusilanimidade é fraqueza de ânimo, falta de energia, de firmeza, de decisão. Aparece associada à covardia, ao medo.  Torpor é sentimento de mal-estar caracterizado pela diminuição da sensibilidade e do movimento, entorpecimento, insensibilidade. O rancor é sentimento de profunda aversão provocado por experiência vivida; confunde-se com o ressentimento, mágoa que se guarda de uma ofensa ou de um mal sofrido. A malícia é inclinação para fazer o mal, habilidade para enganar, interpretação maldosa. Mente divagante é a mente sem rumo, dispersa, incapaz, numa discussão, de se fixar no mais importante; é a mente do nefelibata, que foge da realidade, que vive nas nuvens. 

ORDEM  DOS  CARTUXOS
A acídia, ao longo dos séculos, foi descrita por vários escritores católicos e eruditos que se aproximaram do tema. No séc. XII, o superior da Ordem dos Cartuxos, Guigues II, assim escreveu sobre a acídia: quando estás sozinho em tua cela, és muitas vezes tomado por uma espécie de inércia, de frouxidão espiritual, de fastio do coração, e então sentes em ti um desgosto pesado; suportas a carga de ti mesmo; aquelas graças interiores das quais gozavas prazeirosamente deixam de ter para ti qualquer suavidade; a doçura que ontem experimentavas e que anteontem sentias em ti, se transformou numa grande amargura.

A acídia, hoje, no mundo moderno, globalizado, se revela sobretudo como desdém, palavra montada a partir do verbo dignar mais o prefixo des, que, dentre outros significados, indica separação, afastamento, isto é, afastamento do que é digno, do que tem valor e que, como tal, deve ser considerado. Os antigos davam ao verbo considerar o significado de olhar o céu, observar os astros, com respeito religioso porque no movimento deles havia uma ordem, uma regularidade ajustada ao todo, um comportamento perfeito, de grande, de distante dignidade e beleza e que, por isso, deveria ser reproduzido na Terra.

ACÍDIA
A acídia seria, então, nesse sentido, a incapacidade de atribuir valores transcendentes que devem estar na base de nossa conduta. Sendo incapazes de estabelecer esses valores, não vemos diferenças. Não vendo diferenças, tudo se equivale. Subjetivamente, valor é o caráter que uma coisa tem, seja um objeto, uma ação, na medida em que este objeto ou esta ação podem ser mais ou menos estimados ou desejados por alguém, por um grupo de pessoas, tendo em vista um determinado fim, mais elevado, que melhore a vida da sociedade como um todo.

Valor também seria o caráter de alguma coisa, seu sinal distintivo, caráter que consiste em merecer este algo maior ou menor estima. As coisas diferem não apenas em quantidade mas, sobretudo, em qualidade. Num mundo digitalizado como o nosso, hoje, não trabalhamos mais com qualidades, mas com valores exclusivamente binários. Não conseguimos ver mais as diferenças, que estão na base dos valores, nem vemos analogias, isto é, como no universo tudo se corresponde, nem percebemos relações, matizes, nuances entre as coisas e seres do mundo.  Não temos mais metáforas. Assim agindo, transformamos tudo em clichês, estereótipos que se sucedem, consumidos, usados e descartados continuamente. Começamos a fazer isto com objetos, utensílios, roupas e já há muito que o fazemos com pessoas.

A acídia se aproxima bastante da indiferença, estado mental que não indica nem prazer nem dor, nem uma mistura de ambos. Aproxima-se também bastante da insensibilidade, da apatia, estados nos quais a vontade não consegue se exercer, pois não há discernimento. As diferenças, em consequência, não se estabelecem. A indiferença leva à indeterminação, como o desdém. Se não temos valores, se não atinamos com o que deve ser preservado ou o que deve vir antes, o que deve ser preterido, afastado, ou ficar para depois, instalam-se a acídia, o desdém e, consequentemente, a desordem. A vida se transforma numa coisa ilógica, fragmentada, cínica; somos tomados por estados de alma não suscetíveis de qualquer comoção ou interesse. Qualquer coisa serve, não distinguimos diferenças. É o tanto faz. Tudo se torna contingente, fortuito, aleatório. Nossa capacidade crítica fica embotada. Não somos capazes de fazer exames dos fatos, dos acontecimentos, a fim de chegarmos a julgamentos que nos levem a valores, a estabelecer graus do que é desejável ou não tendo em vista um fim determinado. Uma consequência de tudo isso é a perda de um ideal de transcendência e a consequente desmoralização de conceitos como verdade, beleza, moral, honestidade, utilidade etc. Assim desvalorizada a nossa vida pessoal, a nossa vida social também se degrada, se corrompe e, com ela, o conjunto das instituições que devem controlar e administrar a nação, a isto que chamamos Estado.

VÔMITO  ( MEDIEVAL )
Os antigos gregos davam o nome de Koros ao estado acima descrito, personificando-o. Koros traduz uma ideia de saciedade, uma espécie de fartão, ideia aliás muito adequada aos tempos em que vivemos hoje. Seria como o regurgitamento de comidas e bebidas, um estado próximo do transbordamento por excesso, repleção. Satisfação, enfaramento. Assim, o ser humano vive num estado gaseificado com relação às opiniões que deve emitir sobre o mundo, nenhuma solidez, tudo se tornando flutuante, nada de firmeza, nenhuma sustentação, nenhum critério para estabelecê-las. Aceitam-se quaisquer coisas, engole-se tudo, aceita-se tudo e imediatamente se passa adiante, sem discriminação alguma. 

A técnica, nas suas expressões mais avançadas hoje, vem trazendo concretamente uma grande liberação de tempo, acenando com inúmeras possibilidades de lazer, de felicidade. Um hedonismo ainda não estudado totalmente, cujos principais modelos são exportados pelos detentores das mais modernas tecnologias de produção, penetra toda a sociedade humana, alcançando países de tradições e estruturas muito diversas. A busca da felicidade e do prazer iniciada no século XX pelas multidões, num nível de massa, é um dos maiores acontecimentos modernos da história da humanidade. 


LOS  BORRACHOS ( D. VELÁZQUEZ, 1599-1660)
Uma verdadeira e alucinada corrida se estabelece então, todos querendo aproveitar, gozar. Os meios, acreditamos, já existem, estão aí, só que essa felicidade não chega, corrompendo-se via de regra em escapismo e evasão através da droga, do álcool e, sobretudo, do consumismo. O ser humano do final do século XX e do início deste não vem conseguindo transformar seu tempo livre em lazer autêntico. O cidadão médio, o common man das nossas sociedades modernas, ainda que assistido por um arsenal tecnológico imenso, no seu trabalho e fora dele, atropelado pela ação anárquica dos meios de comunicação, jornais, TV, rádio, que o disputam como uma presa, que não param de lhe trazer novidades e ofertas, não vê como transformar seu tempo livre em lazer e muito menos como uma ideia de transcendência. Um ideal que o tornaria melhor porque o meio em que vive se tornaria melhor com a sua ação.

Como regra geral, e consideradas as exceções de sempre, o homem moderno, o common man, sofre de uma preguiça mental exasperante. A conclusão é a de que vimos tendendo promover a nossa aceitação social à custa de uma personalidade projetada, pois achamos que é mais fácil parecer do que ser. Montamos, assim, uma personalidade para ser consumida pelo meio em que vivemos, na família, no trabalho, no clube, na igreja, no bairro, no prédio em que residimos etc. A personalidade projetada deixa então de corresponder à personalidade real. E esta, se é que chegamos a ter consciência dela, também sabemos, com o tempo se esvai, se evapora, diante de tantos papéis que temos de representar. Mesmo que a muitos de nós seja possível passar uma imagem que esteja muito além ou acima daquilo que somos, a médio ou longo prazo, não poderemos escapar dos nossos atos. A pergunta, então, se coloca: qual a medida da nossa autenticidade? Por quanto tempo será possível suportar essa troca de papéis?

Uma das respostas a esta questão, a que mais se constata, é que grande parte das pessoas que buscam numa carreira o sucesso profissional acaba por fazê-lo através de uma personalidade artificial. Ora, a projeção de nossa personalidade não se faz apenas pelo que falamos ou escrevemos mas pela projeção total dela, e acima de tudo pelos nossos atos. Este conflito entre o que somos e parecemos pede muito de nós, sem dúvida...

Se tudo isso que estamos colocando fica muito mais fácil de perceber com relação às pessoas que buscam sucesso no mundo material, o mesmo acontece também com relação àqueles que procuram a realização pelo caminho intelectual ou espiritualista. Quantos, nestas áreas, não estão muito mais fixados nas suas palavras e escritos que nos seus próprios atos? Uma das mais trágicas consequências que tivemos nestas áreas foi aquilo que podemos chamar de perda da ideia de transcendência da qual vimos falando, a perda da ideia de que poderíamos ir além da situação em que nos encontrávamos intelectualmente ou espiritualmente. A maioria, anestesiada como sempre, vê e quer o futuro apenas como o presente, só que com muito mais tecnologia, isto é, cheio de maravilhosos efeitos especiais, como no cinema. Ao lado de tudo isso, vai se instalando também não só uma sensação de derrota, mas de desânimo e de dissimulação intelectual e espiritual, a velha acídia latina, que nos leva a fingir que todo esse retrocesso pode ser uma caminhada para o futuro.  




domingo, 21 de julho de 2019

OS FILHOS DE HYPNOS



HIPÓCRATES
A virtude profética dos sonhos é atestada desde a mais remota antiguidade. Os antigos gregos davam o nome de oniromancia à arte da interpretação dos sonhos. Hipócrates, o pai da Medicina, e Galeno, famosos médicos da antiguidade, levavam os sonhos em consideração quando prescreviam remédios aos doentes. 

HYPNOS
Oniro era filho de Hipnos, o deus do sono. Ele personificava o sonho enganador, o sonho que precisava ser interpretado por peritos, pessoas muito bem treinadas na arte dos símbolos. Seu irmão chamava-se Hypar, o sonho profético. Hypnos, o deus do sono, usava um tridente com o qual tocava as pálpebras dos humanos e os fazia dormir. Era nesse momento, caminho aberto, que seus filhos apareciam.

LINGAM
Espécie de forcado com três pontas ou dentes, o tridente é antigo símbolo encontrado na Índia pré-védica com o nome de Trishula (três pontas) ou Trikala (três tempos). Era um emblema shivaísta na forma de um lingam (órgão fálico) entre duas serpentes eretas. O primeiro, símbolo do poder gerador, princípio ativo, e as serpentes lembrando o desenvolvimento e a reabsorção cíclicas, guardiãs do nadir, região oposta ao zênite.

No mundo grego, o tridente aparece na mão de divindades que se ligam sobretudo a conceitos de destruição, de dissolução, de eliminação de fronteiras, trazendo uma ideia de caos, de algo anterior ao cosmos, informe, não ordenado, uma proto-matéria. No fundo, uma proposta de indiferenciação de onde pode partir uma nova forma. 

NETUNO  E  SEU  TRIDENTE

SOLUTIO
Poseidon, Netuno para os latinos, usa o tridente como um dos seus grandes símbolos. Irmão de Zeus e de Hades-Plutão, domina o elemento líquido como deus dos oceanos, mares, rios, lagos, águas subterrâneas, fontes. O tridente nas mãos de Poseidon é semelhante ao raio de Zeus, com o qual ele agita ou acalma as águas, tendo o poder ativo de destruir tudo o que estiver preso a uma forma, coagulado. É com esta característica que na Alquimia representa a solutio por excelência. 


MORFEU, 1690 (RENÉ-ANTOINE  HOUASSE)

Na mitologia grega, uma outra divindade também aparece associada ao tridente, o deus Hipnos, filho de Nix, a grande deusa da Noite. Em várias representações da arte, a encontramos  dirigindo-se ao seu palácio nos confins do poente, levando nos braços Hipnos. Este deus toca com o tridente as pálpebras dos humanos, fazendo-os dormir. A partir daí tudo pode acontecer, pois ele pode liberar a passagem para seu filho Morfeu, deus dos sonhos, “o de mil formas”, que virá como Oniro, o sono enganador, ou como Hypar, o sono profético, premonitório. Com eles, o tempo e o espaço serão abolidos, criar-se-ão visões nunca “vistas”. 

NIX  ( HENRI - FANTIN  LATOUR , 1836 - 1904 )

SATÃ ( DORÉ, 1832-1883 )
Este poder que o tridente tem de criar mundos fantásticos, realidades “irreais”, fantasias, fez certamente com que o Cristianismo o colocasse nas mãos de Satã para representar o perigo das três principais pulsões que nos afligem, sexo, comida e possessão material e da nossa derrota diante do seu poder de sedução. Encantados, fascinados pelas imagens que ele nos oferece, mordemos a isca e, em conseqüência, nos ferramos, literalmente. Sedução e castigo estão, pois, presentes no tridente como o Cristianismo o usa. 

SIGNO  DE  PEIXES
Na Astrologia, o tridente encontra talvez a sua melhor explicação. Sabemos que é usado para representar o planeta Netuno, astro regente do signo de Peixes. Último signo zodiacal, Peixes antecede o equinócio de primavera. Representa o psiquismo inconsciente (pessoal e coletivo), pelo qual podemos ter experiências sublimes ou infernais. Ligado ao elemento água, o signo aponta para uma tipologia marcada por uma natureza inconsistente, muito receptiva e impressionável. Indica também para o indistinto, para o confuso, para a ausência de limites, para o apagamento de todas as particularidades. Dissolução, integração num todo maior, fusão, plasticidade, anulação da coesão, permeabilidade, abandono...

Netuno, mestre do signo, cujo símbolo é o tridente, produz estados de recepção passiva nas suas mais variadas formas, podendo levar à inspiração, à intuição, à mediunidade, à empatia, à comunhão, à utopia, à loucura, ao descontrole, lembrando moléstias mentais, depressões, manias, anarquismo, caos. Como arquétipo, Netuno é a expressão da dissolução, a abolição do tempo (trikala) e a destruição dos limites e das fronteiras do espaço. Nos tipos superiores, é o êxtase, o samadhi, a vidência, a criatividade artística, a santidade, a anulação do eu em benefício do todo...
O mais famoso dos filhos de Hypnos é Oniro, particularmente importante nas terapias adotadas por um centro médico sediado na cidade de Epidauro, na antiga Grécia. Esse centro médico estava colocado sob a tutela do deus Asclépio (Esculápio para os romanos, mais tarde) e seu corpo clínico era constituído por sacerdotes-médicos, muitos deles especialistas em oniromancia.

TEATRO  DE  EPIDAURO

Epidauro, como centro de tratamento e cura, durou vários séculos, quase um milênio, do séc. VI aC ao séc. V dC. A ele acorriam doentes de várias regiões do mundo antigo, dos países banhados pelo mar Mediterrâneo, ou seja, da Europa, do norte da África e da Ásia Menor. Epidauro possuía grandes instalações, sendo, além de clínica médica, um centro cultural e de lazer. Lá havia um Odeon, teatro para a audição de peças musicais, de poesias declamadas por poetas de renome e para cursos de dança. Possuía também um centro médico, um Ginásio, para práticas esportivas, com piscinas, um Teatro, uma Biblioteca, com um grande número de volumes, um  Templo e um Museu ao ar livre com numerosas esculturas. No mais, em áreas muito ajardinadas, com pequenos bosques, com fontes e tanques para a vegetação aquática, ficavam os que lá se internavam em alojamentos (apartamentos), frequentando os refeitórios, o espaço dos consultórios, os prédios da administração.

ASCLÉPIO
Asclépio, deus-médico, era filho do deus Apolo, a principal divindade médica da antiga Grécia. Asclépio era conhecido como o Deus Toupeira, apelido que era uma alusão a este animal que tem a capacidade de ver no escuro. O deus “entrava” na escuridão do psiquismo dos doentes para curá-los.

A proposta do centro médico de Epidauro era a de que só haveria cura se todo o corpo do doente fosse curado. Para que isto acontecesse era preciso antes de tudo curar a mente. Só haveria cura se ocorresse a metanoia, ou seja, a transformação dos sentimentos, fonte de todo o mal. Os sacerdotes-médicos de Epidauro achavam que as doenças eram provocadas pelo que eles chamavam de hamartiai isto é, pelos erros, pelas faltas, por comportamentos desequilibrados, gerados por uma espécie de fixação mental (culpas, ódios, raivas, ressentimentos, mágoas, obsessões, apegos idiotas a hábitos errados, atavismos poderosos, erros de educação), que se transformavam no agente mórbido. Instalados estes sentimentos negativos, havia assim uma certa incubação que detonava, cedo ou tarde, as doenças. Os sacerdotes-médicos de Epidauro defendiam a tese de que nós não “pegamos” doenças, nós é que as causamos.

As causas das doenças para eles eram principalmente mentais, produto muitas vezes de representações errôneas que as pessoas faziam dos acontecimentos e do mundo. Tudo isto acontecia geralmente sem que o doente percebesse. Por isso, os sacerdotes davam grande importância ao que chamavam de nooterapia, um tratamento que purificava e regenerava psíquica e fisicamente o ser humano por inteiro. Estas técnicas eram, no fundo, um tratamento da alma humana, que devia estar sintonizada com os ritmos universais. Quando isto acontecesse, o físico e a mente se tornariam necessariamente equilibrados.  

ONIRO

Grande importância nessa abordagem total do ser humano era dada à interpretação dos sonhos, a oniromancia. Os pacientes internados eram induzidos ao sono pela chamada enkoimesis (deitar e dormir), sendo-lhes oferecidas certas infusões que facilitavam a visita do deus Hipnos e de seus filhos, Oniro e Hypar. Pela manhã, os sacerdotes conversavam com os pacientes sobre os seus sonhos. Já sabiam esses sacerdotes que os sonhos eram uma via privilegiada para que se pudesse “entrar” no psiquismo dos doentes e fazê-los ver o mundo de um modo diferente.
                                                   
O que acontecia em Epidauro era uma verdadeira convergência de várias técnicas, de práticas culturais e físicas, de alto valor terapêutico, que aceleravam os processos de cura. Nesses processos, como dissemos, os sonhos eram muito importantes. 
A oniromancia era praticada em todo o mundo antigo, notadamente

no Egito, na Mesopotâmia e em outras tradições. O primeiro tratado escrito sobre os sonhos data do segundo século da era cristã. Quem o escreveu foi Artemidoro de Éfeso. Seu título: Onirocriticon ou O Tratado dos Sonhos. Diz-se que este tratado era do conhecimento de Freud e que ele o inspirou bastante (há uma carta do próprio Freud sobre essa questão).

Hypnos (em latim Somnus) deu origem ao conceito de hipnose. Hypnos é a personificação do sono. Ele é filho de Nyx, a Noite, grande divindade das trevas superiores, e tem como irmão gêmeo Thanatos, o deus da morte. Por essa razão falamos da morte como sono eterno e fechamos os olhos das pessoas que morrem para que possam dormir.
THANATOS COM  ASAS
Hypnos era considerado como uma divindade jovial, suave, mas em certas ocasiões podia se tornar perigoso e fazer com que alguém caísse nos braços de seu irmão Thanatos. Hipnos tem um aspecto relaxante, mas é temido, pois pode paralisar alguém, imobilizá-lo, quando isto não poderia acontecer (o vigia e o piloto que dormem, por exemplo). A diferença entre Hypnos e Thanatos é realmente mínima. Os deuses, em geral, não gostam de Hypnos, pois seu poder é imenso, sendo ele, num certo sentido, o senhor de todos os deuses. Mesmo que não queiramos, ele acaba fechando os nossos olhos

POTOS
Uma vez instalado o sono sobre as nossas pálpebras, tudo pode acontecer, a noção de tempo desaparece (o tridente é um símbolo da anulação dos três tempos, presente, passado e futuro), temos visões, viajamos sem sair do lugar, visitamos lugares onde nunca estivemos, antecipamos um futuro que nunca será o nosso, somos amigos de pessoas que nunca conhecemos. A rigor, apenas uma divindade consegue deter Hypnos. Esta divindade chama-se Pothos, o deus da saudade, pois saudosos não dormimos.
EPIDAURO , ODEON
Os gregos antigos sabiam que os sonhos levam ao autoconhecimento. A psicologia moderna, ao que parece, procurou aprender com os sacerdotes-médicos de Epidauro que os sonhos preenchem uma função tanto compensadora quanto complementar do nosso consciente, pois eles transmitem os elementos que faltam a este último para que uma situação seja compreendida. Os sonhos têm a função de restabelecer o equilíbrio psíquico chamando a nossa atenção para os exageros ou as omissões que cometemos. É neste sentido que os sonhos revelam o estado psíquico de alguém. É por essa razão que todos os elementos de um sonho, por mais absurdos e estapafúrdios que sejam, se referem exclusivamente ao sonhador e representam aspectos de sua personalidade.

Em que pesem as diferenças entre as várias escolas psicológicas do ocidente, atualmente, elas parecem todas concordar num ponto, que os sonhos, em geral, não nos remetem somente a uma história individual, mas nos dão pistas e chaves para a compreensão de culturas diferentes da nossa, permitindo-nos interpretar e conhecer muitas de suas características.

A psicologia moderna do sonho se ocupa principalmente com o aparecimento e a duração dos sonhos na chamada fase REM do sono (Rapid Eyes Mouvements) ou fases que comportam movimentos rápidos dos olhos sob as pálpebras cerradas e de seu efeito benéfico sobre as tensões acumuladas de quem dorme. Acredita-se, hoje, por recentes pesquisas na área da neurofisiologia do sono que, além dos seus aspectos propriamente psíquicos, o sonho desempenha um importante papel regulador e reprogramador biológico do cérebro.

Para muitos estudiosos, que repetem os sacerdotes-médicos de Epidauro muitas vezes sem o saber, os sonhos, com as suas imagens, têm relação com os conflitos interiores do sonhador, nascidos do seu desejo de se afirmar e de adquirir poder. Além dessa ideia, não há como negar que os sonhos nos remetem ao chamado inconsciente coletivo, também conhecido pelos gregos, fonte de estruturas inatas e a priori da imaginação do ser humano.

Talvez tenham sido os hindus aqueles, dentre os povos da antiguidade, que nos tenham deixado uma das mais interessantes visões da vida onírica. Reconheciam eles, resumidamente aqui, quatro estados da alma ou quatro estados de consciência: o estado de vigília; o estado onírico,  o estado instável  no qual a alma pode explorar domínios inacessíveis à consciência quando no estado de vigília; o estado de sono profundo, sem sonho; e o estado de mergulho no absoluto, no Brahman, quando o ser com este se identifica, estado que exclui a velhice, a morte e a dor. 


BRAHMAN

Talvez no mesmo nível dos hindus, possamos colocar os antigos egípcios pela curiosa interpretação que nos deixaram sobre os sonhos. Para eles, uma noite de sono era um tempo morto quanto à criação, um retorno ao caos primordial que permitia ao ser humano entrar em contacto com todos os seres e lhe proporcionar visões de um mundo ainda não criado, uma espécie de premonição, de algo do futuro que estivesse por vir. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

TOURO (2)

           
ZEUS  E  IO
( F. MASON , 1875-1965 )
Os gregos têm uma outra história ligada à segunda constelação do Zodíaco. Ela nos fala de Io, um dos amores de Zeus, uma belíssima princesa argiva. Valendo-se dos préstimos de Oniro, deus do sonho enganador, um dos filhos de Hypnos, deus do sono, Zeus conseguiu fazer com que ela fosse transportada para Lerna, onde conseguiu manter relações carnais com a jovem. Io contara inclusive ao pai o episódio do “rapto” de Oniro e o seu “transporte” para Lerna, onde fora possuída pelo Senhor do Olimpo. Nesse meio tempo, Hera, desconfiada de mais essa aventura do marido, preparou-se para destruir a jovem princesa. Zeus agiu rapidamente, transformando a jovem numa novilha, mantendo-a por perto. Hera, vendo o belíssimo animal, exigiu de Zeus que ele lhe fosse entregue, o que aconteceu. Hera colocou-o sob a vigilância do dragão Argos, o de Cem-Olhos. Zeus, porém, insaciável, tomando a forma de um touro, visitava-a regularmente. 


HERA ,  IO  , ZEUS


Um dia, Zeus resolveu libertar Io-novilha do dragão, pedindo a Hermes que tomasse as devidas providências para tanto. Hermes convocou Hypnos, o deus do sono, que, adormecendo o monstro, lhe deu possibilidades de matá-lo, decepando-lhe a cabeça, sem problemas. Tomando conhecimento da morte do vigilante dragão, Hera, no sentido de homenageá-lo, lançou os seus cem olhos na cauda de uma ave até então sem nome. Desde então essa ave, denominada pavão, passou a ser um dos símbolos da Senhora do Olimpo. 


IO ,  ARGOS ,  HERMES ( G.A. RUSCONI , 1553 )

Desde que se tornou atributo de Hera, o pavão, ao dormir, só fechava cinquenta dos olhos de sua cauda. Tornou-se, na antiguidade mediterrânea, a ave-símbolo do esplendor celeste e da
PAVÃO
glória divina, evocando a multiplicidade da criação. Sempre relacionado com as serpentes, o pavão, segundo a tradição grega, não só absorve o veneno delas como as destrói. Sempre em função da sua cauda e de sua magnífica plumagem, o pavão, restrito como símbolo ao plano humano, passou a representar o narcisismo,  o amor pela própria imagem, o orgulho, a vaidade, um sentimento de beleza que costuma levar ao isolamento. 






Continuando a dar vazão aos seus ciúmes, Hera enviou então um gigantesco moscardo para enlouquecer Io-novilha com as suas dolorosas e ininterruptas ferroadas. Desesperada, ela fugiu, atravessando a nado um estreito que separa a Europa da Ásia. Por essa razão, tal acidente geográfico passou a ser chamado, desde então, de estreito de Bósforo, literalmente, do grego, a passagem da
ISIS
vaca). Depois de vagar por toda a Ásia, Io-novilha chegou finalmente ao Egito, onde, depois de tanto sofrimento, retomou a sua belíssima forma humana, que permaneceu intacta. Lá, deu à luz um filho, de nome Épafo, que se unirá, mais tarde, a Mênfis, filha do deus-rio Nilo. Dessa união nascerão Líbia, Lisianassa e Tebe. Io será adorada no Egito como a deusa Ísis, tendo por emblema a Lua crescente.

A história que está acima, ao atribuir a ísis, Grande-Mãe egípcia, uma origem grega explica-se obviamente pelas tendências imperialistas que os gregos sempre demonstraram com relação à sua civilização, tanto sob o ponto de vista econômico como religioso. Fatores como a pobreza do solo, dificuldades na obtenção de alimentos e domínio total das terras pelos aristocratas, fez com que os gregos, desde períodos muitos remotos, se aventurassem num grande movimento migratório, patrocinado por uma política imperialista,  na direção  do mar Negro e do Mediterrâneo. Ao buscar terras cultiváveis, fundaram cidades, colônias, sendo um item importante dessa política o religioso. Em muitos casos, a colônia grega (apoikia), lembres-se, era um estabelecimento autônomo somente unido à metrópole laços religiosos. Embora o Egito só tivesse se tornado de fato uma colônia grega com a sua anexação (e de outros países como a Pérsia e parte da Índia) ao império greco-macedônico no século IV aC,  as civilizações grega e

egípcia, esta muito mais antiga que a outra, sempre haviam mantido contactos. O texto homérico, A Odisseia (sécs. IX-VIII aC), é um exemplo do que aqui se expõe. Esta "interferência" grega na mitologia de outros países, neste caso do mito de Io-novilha, se completa com a transformação de seu filho Épafo, pelo seu casamento com Mênfis, como está acima, num ancestral do povo líbio, país vizinho do Egito.    


Segundo algumas versões gregas, Zeus colocará nos céus, como a constelação de Touro, a forma taurina que tomou quando de sua ligação com Io. Ísis, como sabemos, será adorada como deusa suprema e universal, mãe da natureza e de todos os elementos, espalhando-se o seu culto, a partir do Egito, por todo o mundo do Mediterrâneo e da Ásia Menor.

Os gregos associavam também o signo de Touro ao deus Dioniso, na medida em que este animal (o bode também) representava as forças incontidas da fecundidade. Por isso, ambos os animais eram as vítimas propiciatórias que apareciam no seu culto. Deus da vegetação, da vinha, da exuberância da vida animal, Dioniso era, por excelência, o renovador da vida, o deus das metamorfoses. 

Por ter retirado sua mãe do Hades, Dioniso era considerado uma divindade libertadora do mundo infernal, um deus ctônico, portanto, que simbolizava a alternância da vida e da morte (ressurreição). O culto de Dioniso,  significa, no fundo, uma das mais profundas e significativas tentativas do homem grego e exemplarmente para a humanidade em geral, no sentido de destruir as prisões materiais e psicológicas nas quais ele (ela) mesmo se encerra. Neste
MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
sentido é que o culto de Dioniso (Mistérios de Elêusis) significa, para homem, um esforço de espiritualização pela liberação das energias que deverão se alinhar com seu eu superior e não mais se colocarem a serviço  exclusivo de sua vida material. Por isso, em seu culto, um dos animais do sacrifício era o touro, como símbolo da vida material. 

Lembremos que o signo de Touro tem relação com tudo o que é massa, peso, espessura, estabilidade, força, resistência, calma,
DIONISO
reações fortes, tempestades instintivas. “Sacrificar o touro” significa buscar uma vida mais espiritual no sentido de ser obtido o triunfo sobre as paixões materiais, sobre a sensualidade incontida. O culto de Dioniso propõe, assim, um empenho no sentido de uma conquista da besta interior (vida instintiva) que há em todo ser humano. Astrologicamente, por isso, o signo está ligado à plenitude da sensorialidade terrestre alimentada por uma grande capacidade de trabalho, por um espírito prático e realista e por uma vontade de possuir e de acumular que costuma ser superlativa. 

Dioniso se afirma como um deus infernal ao prometer o renascimento. As suas festas, como as de Osíris no Egito e as de Shiva na Índia, são muito semelhantes. O mito de Orfeu nos fala
DIONISO
desta semelhança ao se referir à viagem que ele teria feito à terra das pirâmides para de lá trazer ritos que falam da dissolução da personalidade, da sua regressão a formas caóticas e primordiais. A liberação dionisíaca pode ser evolutiva ou involutiva, espiritualizante ou materializante. Outra não é a ideia que nos traz a bebida “inventada” pelo deus, o vinho, a bebida da imortalidade, que pode levar ao inferno também.



PERSÉFONE   E   ZAGREU

A melhor compreensão da multifacetada personalidade de Dioniso e consequentemente do signo de Touro só ficará mais completa se atentarmos para o que o mito nos revela sobre o seu nascimento. Dioniso nasceu como Zagreu (o Grande Caçador, etimologicamente), filho de Zeus e de Perséfone, nome pelo qual era muito reverenciado em Creta, muito difundido o seu culto. A intenção de Zeus era a de preparar este filho para sucedê-lo como divindade universal. As Moiras, porém, ao que parece pela primeira e única vez, contrariaram os desígnios do Senhor do Universo, apesar das providências que ele tomou para protegê-lo da sanha persecutória da sua imperial esposa, a deusa Hera. Embora protegido por Apolo e pelos Curetes, o menino-deus foi localizado pelos Titãs nas florestas do Parnaso, raptado e despedaçado. Antes que se consumasse o diasparagmos pelos Titãs, Zagreu, para tentar escapar dos seus algozes, tomou várias formas. A última foi a de touro, uma das formas que desde então o representará. 


INFÂNCIA   DE   DIONISO

O mito prossegue: os pedaços de Zagreu foram cozinhados num enorme caldeirão e depois devorados pelos Titãs. Zeus fulminará os assassinos de seu filho, transformando-os em pó. Desta poeira, ou melhor, destas cinzas misturadas à terra, nascerão os humanos (os nascidos do húmus). É por esta razão que os seres humanos terão uma parte humana, a maior, o seu lado material, o do Mal, e uma pequena parcela divina, o seu lado do Bem (os restos de Zagreu). Diz o mito que antes de todos os pedaços de Zagreu-Touro terem ido para o caldeirão a deusa Palas Atena conseguiu recuperar o seu coração, levando-o para Zeus. É desse coração que nascerá o segundo Zagreu, com o nome de Dioniso, aquele “que nasceu duas vezes”, também chamado de Ditirambo, “o que passou duas vezes pela porta.”

Esta forma taurina de Dioniso faz parte, desde então, de manifestações que encontramos em mitos, religiões e no folclore, em várias tradições. No Brasil, por exemplo, do sul ao norte, as histórias sobre o boi, principalmente no norte e no nordeste,
BUMBA - MEU - BOI

estão inseridas no seu contexto cultural como tema fundamental de folguedos, canções, literatura de cordel e tantas outras celebrações com diferentes nomes: Boi-Bumbá, Bumba-meu-Boi, Boi-de-Reis, Reisado, Boi-de-Mamão, Boi-Calemba, Surubim e muitas outras. Vários ritos, festas e cerimônias de caráter popular que encontramos ainda hoje em muitas culturas, lembremos, não são mais que reminiscências do touro como animal totêmico e de suas relações com os cultos dionisíacos. Cito, por exemplo, a Farra do Boi que veio do mundo mediterrâneo para o Brasil através dos imigrantes ibéricos, “diversão” ou “comemoração”, que repete o assassinato de Zagreu. 

TOURADA
Dentre todas reminiscências a que nos referimos avulta sobre todas a da tourada, o El Toreo dos espanhóis. Em nome de uma verborragia “heroico-estética” e do culto da virilidade, temos, na realidade, com as touradas, em que pese o seu “charme”, nada mais que carnificina, crueldade e hipocrisia. O toureiro, transformado em herói, figura na qual o público se projeta, mata a besta exterior para que sua besta interior (as paixões escravizadoras de cada um) permaneça intacta. O mal é então levado pelo touro sacrificado; seu sangue é interpretado como uma purificação. Esta tradição, a da vítima sacrificial, nós a encontramos em todas as tradições (no Levítico, por exemplo). Ela tipifica uma tendência universal, inerente à condição humana, a do homem projetar a sua própria culpa sobre outrem a fim de apaziguar a sua consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de uma punição, de uma vítima.  

No simbolismo chinês, o signo de Touro tem relação com o hexagrama Kuen, o receptivo, terra sobre terra, composto por seis traços descontínuos, femininos (os traços masculinos são contínuos). A imagem deste hexagrama lembra a terra voltada para o céu, a mãe e o pai em relação, o tempo se abrindo para o espaço. O simbolismo aqui envolvido sugere também que a força (masculino) deve reconhecer a superioridade da nutrição (feminino), pois ela, a força, sem a nutrição não é nada. Assim, ambos se encontram indissoluvelmente ligados. Depreende-se desta ligação a importância que tem a nutrição (Touro) para que a força seja conquistada e mantida. Este entendimento está expresso, por exemplo, nos Vedas (livros sagrados dos hindus), em hinos, neles se falando que o Touro deve enlaçar o Fogo (Áries, Mesha) para que seja possível a construção humana, que deverá manter uma analogia perfeita com a construção divina do Cosmos. 

Entre os judeus, Touro é Iyar, formado pela letra Vav. O órgão humano que no simbolismo cósmico corresponde a este signo é o rim direito, que, segundo o Talmud, é a fonte de bons pensamentos.
TORÁ
A tribo com ele relacionada é a de Issakar, a que se dedica ao estudo da Torá. Issakar, no Gênesis, é chamado de “asno forte, bom para o trabalho penoso.” Noutra passagem (Reis, cap. I), o mês do signo é chamado de Ziv, brilhante, devido ao aumento do poder solar, que nele se torna mais intenso, ou seja, no mês de maio, o auge da primavera. A mesma ideia de luz, de brilho, é encontrada na designação Ohr, usada pelos babilônicos.   

A tribo de Issakar, que trabalhava arduamente com a Torá, era a detentora do conhecimento que conciliava os calendários solar e lunar e que estabelecia o início de cada mês lunar. Lembremos que o calendário judaico é lunar e o ano, por isso, pode conter doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Segundo a tradição judaica, quando da criação do mundo, os luminares eram iguais em luz, mas como não poderia haver essa igualdade, a luz da Lua foi diminuída. A Lua simboliza o povo de Israel, cuja sorte oscila como ela. A luz da Lua voltará a se igualar à do Sol no final dos tempos, quando da vinda do Messias. Por isso, eclipses lunares são aziagos para os judeus, pois quando a Lua míngua as forças do mal crescem. Dormir à lua da Lua é sempre perigoso por causa da ação de forças demoníacas femininas, diz a tradição judaica.



JUDEUS  APANHAM  MANÁ  NO  DESERTO  ( ÉVORA )

O signo de Iyar está relacionado, num primeiro momento, com o temor. A palavra temor em hebraico tem as mesmas letras do signo. O temor de Deus deve nascer logo neste signo porque ele é um pré-requisito para o recebimento da Torá, como nela se estabelece: O temor dos céus é o começo da sabedoria. Astrólogos judeus dizem também que o mês do signo é auspicioso para curas já que a
MOISÉS ( P. CHAMPAIGNE )
primeira causa das doenças está no consumo de alimentos impróprios e depois numa digestão e assimilação deficientes. Foi durante este mês, no seu décimo quinto dia, numa Lua cheia, que os judeus, vagando pelo deserto com Moisés, começaram a comer o maná, o “pão dos céus”, chamado de o “alimento dos anjos”. O maná é uma espécie de orvalho que alimentou os judeus durante o êxodo. O maná foi produzido ao crepúsculo do sexto dia da Criação e é o alimento dos justos e dos anjos do céu. Era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando resíduos que tivessem que passar pelo sistema digestivo, tendo o sabor que as pessoas quisessem. 

A astrologia judaica nos diz que o elemento de Iyar é a terra, significando isto que o elemento do signo anterior, fogo, entendido espiritualmente, deve no signo que lhe segue procurar um foco, uma objetivação, algo tangível. Negativamente, as energias de Iyar se manifestam na esfera do desejo, quando os judeus, no deserto, reclamaram a Moisés a falta de carne para comer. Foi durante este mês que os judeus, no deserto (Sinai), manifestaram também fortes desejos de conforto e relaxamento. Lembram os judeus que o elemento terra é, energeticamente, o de menor vibração. Este comportamento, manifestado no Sinai, dizem os astrólogos, tem relação direta com a natureza teimosa e rebelde do touro. 

Em oposição aos signos de Nissan e de Iyar estão os de Tishrei (Libra) e Heshvan (Escorpião), que caracterizam as tribos de outros dois irmãos, Manassé e Efraim. A tribo de Heshvan tem relação com o olfato, entendido, simbolicamente, como discernimento intuitivo. O episódio que deu origem à interpretação do olfato desta maneira está no episódio bíblico que tem como personagens José, o pai dos dois mencionados irmãos, e da mulher de Putifar. 



JOSÉ  E  A  MULHER  DE  PUTIFAR ( J.B. NATTIER )

José é filho do patriarca Jacó e de sua esposa preferida, Raquel. É o modelo do homem justo e probo (tsadik), que é protegido do mal por Deus e cujos descendentes não são afetados pelo mau-olhado. Dez de seus irmãos tramaram matá-lo, jogando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Conseguiu escapar e acabou sendo vendido como escravo a Putifar, oficial egípcio. Lá, conseguiu resistir bravamente ao assédio da mulher de Putifar, Zuleika, porque o pai lhe apareceu em sonhos e salvou-o da tentação. Desde então, todos os membros da tribo de Hashvan adquiriram esse discernimento que pode ser usado não só em questões de sexo mas em todas as outras da vida material. Esse discernimento se traduz pela pureza das intenções, de pensamentos e sobretudo pelo temor divino. Na Bíblia, em muitas passagens, o sentido do olfato aparece sempre associado à santidade, à pureza e ao discernimento. O nariz, como o olho, é um símbolo de clarividência e da perspicácia, mais intuitivamente que racionalmente. 

Entre os judeus, José é o sexto dos seus sete pastores (Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Aaron, José e David). Estes sete pastores correspondem aos sete atributos: graça, poder, beleza, vitória, glória, fundação e realeza. O nome de José está ligado entre os judeus a ideias de fecundidade e beleza. Etimologicamente, José (Joseph), significa juntar (yasoph) e reunir e apagar (asoph). Raquel, a mãe de José, diz Deus apagou a minha vergonha, ao dar à luz, depois de estéril por muito tempo. O “ph”, ao final de José, indica um vivo movimento de libertação (oph quer dizer voar) e soph traduz uma ideia de limite, de fim de uma realização. 



JOSÉ  INTERPRETA  SONHO  DE  FARAÓ ( A. VAN  BLOCKLANDT ) 

José, por seus méritos de oniromante, demonstrados na prisão, foi chamado à presença do faraó. Interpretou para ele um sonho que ele tivera e que ninguém explicava: ele sonhara com sete vacas gordas, com sete vacas magras, com sete espigas de trigo cheias e com sete espigas de trigo secas, queimadas pelo vento. José explicou ao faraó as suas visões: sete anos de grande abundância viriam para o Egito; a eles seguir-se-iam sete anos de fome. José propôs ao faraó a administração do problema do seguinte modo: conservar os níveis dos silos reais de modo que quando chegasse o tempo das “vacas magras” ou das “espigas secas”, eles estivessem cheios para que o povo não passasse fome. 

Satisfeito com a resposta, o faraó nomeou José como vizir, dando-lhe o nome de Safenath-Peneah (Deus disse:ele viverá). Aos 30 anos, recebeu como esposa Asenath, que lhe deu dois filhos, Menassé (Aquele que esquece) e Efraim (O fecundo). Durante os sete anos de abundância ele poupou o trigo de tal modo (sem que o povo passasse fome) que, no período das “vacas magras” o Egito era o único país do mundo de então a não ter problemas com a escassez de alimentos. Muita gente, por isso, se dirigiu ao Egito em busca do trigo. José então abriu entrepostos para a venda do trigo excedente, ganhando o país muito dinheiro. Iniciadas as vendas, dentre os primeiros a buscar o alimento, estavam os seus irmãos (que o haviam aprisionado no poço e depois vendido como escravo), vindos do país de Canaã. José não revelou quem era e os irmãos pagaram com muito sacrifício pelo alimento. Retornando, os irmãos encontraram o dinheiro que haviam gasto, devolvido secretamente por José. 

Numa segunda visita ao Egito, os irmãos de José foram denunciados por um roubo que não haviam cometido. José mandou chamá-los e revelando-se lhes pediu que fossem buscar Jacó, o pai
JACÓ  LUTA  COM  ANJO
( REMBRANDT )
de todos, e com ele viessem a se instalar no Egito, em Goshen, a leste do vale do Nilo (Gênese, 45, 1). Jacó, ao receber a notícia, gritou: Meu filho José ainda vive; quero partir e vê-lo antes de morrer. Antes de morrer, Jacó perfilhou seus netos, os filhos de José (Menassé e Efraim), e os abençoou. José morreu com 110 anos, depois de ter obtido dos irmãos, ao morrer, a promessa de que seus ossos seriam levados com eles para onde fossem. Tal aconteceu efetivamente, encarregando-se Moisés de fazê-lo. A conclusão da história de José, segundo a Bíblia é a de que Deus, algumas vezes, transforma as piores ações em boas ações (Gênese, 45. 5-8).