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domingo, 21 de julho de 2019

OS FILHOS DE HYPNOS



HIPÓCRATES
A virtude profética dos sonhos é atestada desde a mais remota antiguidade. Os antigos gregos davam o nome de oniromancia à arte da interpretação dos sonhos. Hipócrates, o pai da Medicina, e Galeno, famosos médicos da antiguidade, levavam os sonhos em consideração quando prescreviam remédios aos doentes. 

HYPNOS
Oniro era filho de Hipnos, o deus do sono. Ele personificava o sonho enganador, o sonho que precisava ser interpretado por peritos, pessoas muito bem treinadas na arte dos símbolos. Seu irmão chamava-se Hypar, o sonho profético. Hypnos, o deus do sono, usava um tridente com o qual tocava as pálpebras dos humanos e os fazia dormir. Era nesse momento, caminho aberto, que seus filhos apareciam.

LINGAM
Espécie de forcado com três pontas ou dentes, o tridente é antigo símbolo encontrado na Índia pré-védica com o nome de Trishula (três pontas) ou Trikala (três tempos). Era um emblema shivaísta na forma de um lingam (órgão fálico) entre duas serpentes eretas. O primeiro, símbolo do poder gerador, princípio ativo, e as serpentes lembrando o desenvolvimento e a reabsorção cíclicas, guardiãs do nadir, região oposta ao zênite.

No mundo grego, o tridente aparece na mão de divindades que se ligam sobretudo a conceitos de destruição, de dissolução, de eliminação de fronteiras, trazendo uma ideia de caos, de algo anterior ao cosmos, informe, não ordenado, uma proto-matéria. No fundo, uma proposta de indiferenciação de onde pode partir uma nova forma. 

NETUNO  E  SEU  TRIDENTE

SOLUTIO
Poseidon, Netuno para os latinos, usa o tridente como um dos seus grandes símbolos. Irmão de Zeus e de Hades-Plutão, domina o elemento líquido como deus dos oceanos, mares, rios, lagos, águas subterrâneas, fontes. O tridente nas mãos de Poseidon é semelhante ao raio de Zeus, com o qual ele agita ou acalma as águas, tendo o poder ativo de destruir tudo o que estiver preso a uma forma, coagulado. É com esta característica que na Alquimia representa a solutio por excelência. 


MORFEU, 1690 (RENÉ-ANTOINE  HOUASSE)

Na mitologia grega, uma outra divindade também aparece associada ao tridente, o deus Hipnos, filho de Nix, a grande deusa da Noite. Em várias representações da arte, a encontramos  dirigindo-se ao seu palácio nos confins do poente, levando nos braços Hipnos. Este deus toca com o tridente as pálpebras dos humanos, fazendo-os dormir. A partir daí tudo pode acontecer, pois ele pode liberar a passagem para seu filho Morfeu, deus dos sonhos, “o de mil formas”, que virá como Oniro, o sono enganador, ou como Hypar, o sono profético, premonitório. Com eles, o tempo e o espaço serão abolidos, criar-se-ão visões nunca “vistas”. 

NIX  ( HENRI - FANTIN  LATOUR , 1836 - 1904 )

SATÃ ( DORÉ, 1832-1883 )
Este poder que o tridente tem de criar mundos fantásticos, realidades “irreais”, fantasias, fez certamente com que o Cristianismo o colocasse nas mãos de Satã para representar o perigo das três principais pulsões que nos afligem, sexo, comida e possessão material e da nossa derrota diante do seu poder de sedução. Encantados, fascinados pelas imagens que ele nos oferece, mordemos a isca e, em conseqüência, nos ferramos, literalmente. Sedução e castigo estão, pois, presentes no tridente como o Cristianismo o usa. 

SIGNO  DE  PEIXES
Na Astrologia, o tridente encontra talvez a sua melhor explicação. Sabemos que é usado para representar o planeta Netuno, astro regente do signo de Peixes. Último signo zodiacal, Peixes antecede o equinócio de primavera. Representa o psiquismo inconsciente (pessoal e coletivo), pelo qual podemos ter experiências sublimes ou infernais. Ligado ao elemento água, o signo aponta para uma tipologia marcada por uma natureza inconsistente, muito receptiva e impressionável. Indica também para o indistinto, para o confuso, para a ausência de limites, para o apagamento de todas as particularidades. Dissolução, integração num todo maior, fusão, plasticidade, anulação da coesão, permeabilidade, abandono...

Netuno, mestre do signo, cujo símbolo é o tridente, produz estados de recepção passiva nas suas mais variadas formas, podendo levar à inspiração, à intuição, à mediunidade, à empatia, à comunhão, à utopia, à loucura, ao descontrole, lembrando moléstias mentais, depressões, manias, anarquismo, caos. Como arquétipo, Netuno é a expressão da dissolução, a abolição do tempo (trikala) e a destruição dos limites e das fronteiras do espaço. Nos tipos superiores, é o êxtase, o samadhi, a vidência, a criatividade artística, a santidade, a anulação do eu em benefício do todo...
O mais famoso dos filhos de Hypnos é Oniro, particularmente importante nas terapias adotadas por um centro médico sediado na cidade de Epidauro, na antiga Grécia. Esse centro médico estava colocado sob a tutela do deus Asclépio (Esculápio para os romanos, mais tarde) e seu corpo clínico era constituído por sacerdotes-médicos, muitos deles especialistas em oniromancia.

TEATRO  DE  EPIDAURO

Epidauro, como centro de tratamento e cura, durou vários séculos, quase um milênio, do séc. VI aC ao séc. V dC. A ele acorriam doentes de várias regiões do mundo antigo, dos países banhados pelo mar Mediterrâneo, ou seja, da Europa, do norte da África e da Ásia Menor. Epidauro possuía grandes instalações, sendo, além de clínica médica, um centro cultural e de lazer. Lá havia um Odeon, teatro para a audição de peças musicais, de poesias declamadas por poetas de renome e para cursos de dança. Possuía também um centro médico, um Ginásio, para práticas esportivas, com piscinas, um Teatro, uma Biblioteca, com um grande número de volumes, um  Templo e um Museu ao ar livre com numerosas esculturas. No mais, em áreas muito ajardinadas, com pequenos bosques, com fontes e tanques para a vegetação aquática, ficavam os que lá se internavam em alojamentos (apartamentos), frequentando os refeitórios, o espaço dos consultórios, os prédios da administração.

ASCLÉPIO
Asclépio, deus-médico, era filho do deus Apolo, a principal divindade médica da antiga Grécia. Asclépio era conhecido como o Deus Toupeira, apelido que era uma alusão a este animal que tem a capacidade de ver no escuro. O deus “entrava” na escuridão do psiquismo dos doentes para curá-los.

A proposta do centro médico de Epidauro era a de que só haveria cura se todo o corpo do doente fosse curado. Para que isto acontecesse era preciso antes de tudo curar a mente. Só haveria cura se ocorresse a metanoia, ou seja, a transformação dos sentimentos, fonte de todo o mal. Os sacerdotes-médicos de Epidauro achavam que as doenças eram provocadas pelo que eles chamavam de hamartiai isto é, pelos erros, pelas faltas, por comportamentos desequilibrados, gerados por uma espécie de fixação mental (culpas, ódios, raivas, ressentimentos, mágoas, obsessões, apegos idiotas a hábitos errados, atavismos poderosos, erros de educação), que se transformavam no agente mórbido. Instalados estes sentimentos negativos, havia assim uma certa incubação que detonava, cedo ou tarde, as doenças. Os sacerdotes-médicos de Epidauro defendiam a tese de que nós não “pegamos” doenças, nós é que as causamos.

As causas das doenças para eles eram principalmente mentais, produto muitas vezes de representações errôneas que as pessoas faziam dos acontecimentos e do mundo. Tudo isto acontecia geralmente sem que o doente percebesse. Por isso, os sacerdotes davam grande importância ao que chamavam de nooterapia, um tratamento que purificava e regenerava psíquica e fisicamente o ser humano por inteiro. Estas técnicas eram, no fundo, um tratamento da alma humana, que devia estar sintonizada com os ritmos universais. Quando isto acontecesse, o físico e a mente se tornariam necessariamente equilibrados.  

ONIRO

Grande importância nessa abordagem total do ser humano era dada à interpretação dos sonhos, a oniromancia. Os pacientes internados eram induzidos ao sono pela chamada enkoimesis (deitar e dormir), sendo-lhes oferecidas certas infusões que facilitavam a visita do deus Hipnos e de seus filhos, Oniro e Hypar. Pela manhã, os sacerdotes conversavam com os pacientes sobre os seus sonhos. Já sabiam esses sacerdotes que os sonhos eram uma via privilegiada para que se pudesse “entrar” no psiquismo dos doentes e fazê-los ver o mundo de um modo diferente.
                                                   
O que acontecia em Epidauro era uma verdadeira convergência de várias técnicas, de práticas culturais e físicas, de alto valor terapêutico, que aceleravam os processos de cura. Nesses processos, como dissemos, os sonhos eram muito importantes. 
A oniromancia era praticada em todo o mundo antigo, notadamente

no Egito, na Mesopotâmia e em outras tradições. O primeiro tratado escrito sobre os sonhos data do segundo século da era cristã. Quem o escreveu foi Artemidoro de Éfeso. Seu título: Onirocriticon ou O Tratado dos Sonhos. Diz-se que este tratado era do conhecimento de Freud e que ele o inspirou bastante (há uma carta do próprio Freud sobre essa questão).

Hypnos (em latim Somnus) deu origem ao conceito de hipnose. Hypnos é a personificação do sono. Ele é filho de Nyx, a Noite, grande divindade das trevas superiores, e tem como irmão gêmeo Thanatos, o deus da morte. Por essa razão falamos da morte como sono eterno e fechamos os olhos das pessoas que morrem para que possam dormir.
THANATOS COM  ASAS
Hypnos era considerado como uma divindade jovial, suave, mas em certas ocasiões podia se tornar perigoso e fazer com que alguém caísse nos braços de seu irmão Thanatos. Hipnos tem um aspecto relaxante, mas é temido, pois pode paralisar alguém, imobilizá-lo, quando isto não poderia acontecer (o vigia e o piloto que dormem, por exemplo). A diferença entre Hypnos e Thanatos é realmente mínima. Os deuses, em geral, não gostam de Hypnos, pois seu poder é imenso, sendo ele, num certo sentido, o senhor de todos os deuses. Mesmo que não queiramos, ele acaba fechando os nossos olhos

POTOS
Uma vez instalado o sono sobre as nossas pálpebras, tudo pode acontecer, a noção de tempo desaparece (o tridente é um símbolo da anulação dos três tempos, presente, passado e futuro), temos visões, viajamos sem sair do lugar, visitamos lugares onde nunca estivemos, antecipamos um futuro que nunca será o nosso, somos amigos de pessoas que nunca conhecemos. A rigor, apenas uma divindade consegue deter Hypnos. Esta divindade chama-se Pothos, o deus da saudade, pois saudosos não dormimos.
EPIDAURO , ODEON
Os gregos antigos sabiam que os sonhos levam ao autoconhecimento. A psicologia moderna, ao que parece, procurou aprender com os sacerdotes-médicos de Epidauro que os sonhos preenchem uma função tanto compensadora quanto complementar do nosso consciente, pois eles transmitem os elementos que faltam a este último para que uma situação seja compreendida. Os sonhos têm a função de restabelecer o equilíbrio psíquico chamando a nossa atenção para os exageros ou as omissões que cometemos. É neste sentido que os sonhos revelam o estado psíquico de alguém. É por essa razão que todos os elementos de um sonho, por mais absurdos e estapafúrdios que sejam, se referem exclusivamente ao sonhador e representam aspectos de sua personalidade.

Em que pesem as diferenças entre as várias escolas psicológicas do ocidente, atualmente, elas parecem todas concordar num ponto, que os sonhos, em geral, não nos remetem somente a uma história individual, mas nos dão pistas e chaves para a compreensão de culturas diferentes da nossa, permitindo-nos interpretar e conhecer muitas de suas características.

A psicologia moderna do sonho se ocupa principalmente com o aparecimento e a duração dos sonhos na chamada fase REM do sono (Rapid Eyes Mouvements) ou fases que comportam movimentos rápidos dos olhos sob as pálpebras cerradas e de seu efeito benéfico sobre as tensões acumuladas de quem dorme. Acredita-se, hoje, por recentes pesquisas na área da neurofisiologia do sono que, além dos seus aspectos propriamente psíquicos, o sonho desempenha um importante papel regulador e reprogramador biológico do cérebro.

Para muitos estudiosos, que repetem os sacerdotes-médicos de Epidauro muitas vezes sem o saber, os sonhos, com as suas imagens, têm relação com os conflitos interiores do sonhador, nascidos do seu desejo de se afirmar e de adquirir poder. Além dessa ideia, não há como negar que os sonhos nos remetem ao chamado inconsciente coletivo, também conhecido pelos gregos, fonte de estruturas inatas e a priori da imaginação do ser humano.

Talvez tenham sido os hindus aqueles, dentre os povos da antiguidade, que nos tenham deixado uma das mais interessantes visões da vida onírica. Reconheciam eles, resumidamente aqui, quatro estados da alma ou quatro estados de consciência: o estado de vigília; o estado onírico,  o estado instável  no qual a alma pode explorar domínios inacessíveis à consciência quando no estado de vigília; o estado de sono profundo, sem sonho; e o estado de mergulho no absoluto, no Brahman, quando o ser com este se identifica, estado que exclui a velhice, a morte e a dor. 


BRAHMAN

Talvez no mesmo nível dos hindus, possamos colocar os antigos egípcios pela curiosa interpretação que nos deixaram sobre os sonhos. Para eles, uma noite de sono era um tempo morto quanto à criação, um retorno ao caos primordial que permitia ao ser humano entrar em contacto com todos os seres e lhe proporcionar visões de um mundo ainda não criado, uma espécie de premonição, de algo do futuro que estivesse por vir. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.






quarta-feira, 9 de julho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO SEGUNDO TRABALHO


BOIS   DE   GERIÃO

OS BOIS DE GERIÃO - Como último trabalho, Hércules havia recebido a incumbência de libertar os bois vermelhos aprisionados
GERIÃO
por Gerião, o gigante de três corpos e de seis braços. O gado estava na ilha Eritia que ficava nos confins do Ocidente, no reino do deus Oceano, além do jardim das Hespérides, as ninfas do poente. Os animais avermelhados eram guardados por um pastor chamado Eurítion e pelo seu monstruoso cão Ortro, filho de Tifon e de Équidna. Gerião governava a ilha. O rebanho deveria ser trazido por Hércules para Micenas.



ORTRO

Antes de partir, Hércules fez oferendas ao deus Hélio, o deus solar, pondo-se depois a caminho da ilha que, sabia, ficava muito além, nas brumas do Ocidente. Havia partido sem ter resolvido um dos grandes problemas, talvez o maior, que enfrentaria: como trazer de volta os animais, como transportá-los?  Ao atravessar o grande deserto líbio, entrou em luta contra vários monstros e assaltantes que infestavam a região. O Sol abrasava, causticante. Lembrou-se então de pedir por empréstimo ao deus Hélio a sua grande barca, a chamada Taça do Sol, gigantesca, que o astro-rei usava todas as noites para mergulhar no oceano ao retornar ao seu palácio no Oriente. Hélio negou-se a atendê-lo. Hércules então ameaçou vará-lo com as suas infalíveis flechas apolíneas. O deus resolveu então lhe ceder a grande Taça.


HÉLIO

O tema da Barca Solar traz a ideia da vida como viagem, uma travessia cheia de perigos, uma viagem que diariamente se renova. Fonte de luz, o Sol é aqui esperança de  renascimento para um outro tipo de vida, já que ele, ao fim de cada dia, toma a sua Barca para atravessar o reino das trevas, reaparecendo a cada manhã, vitoriosamente. Assim como ele, os que entram na sua Barca também retornarão da viagem que a cada noite terão que fazer.

O trabalho, mencione-se logo, refere-se ao signo de Peixes, o fim do inverno. Iconograficamente, o peixe em todas as culturas do mundo indo-europeu é um emblema da salvação. Por viver nas profundezas do elemento líquido, tem relação com as forças sagradas do abismo, portanto, com a vida inconsciente.  A cultura hinduísta, por exemplo, usará o peixe (matsya) como símbolo do primeiro avatar do deus Vishnu, a segunda pessoa da sua trindade, para designar aquele que salva do dilúvio Manu, o homem mítico, o legislador do ciclo atual.  No Cristianismo, o peixe (ichtus) adquire o 
VISHNU   E   MANU
mesmo sentido, o da salvação. O pastor é a imagem simbólica do guardião que protege dos agressores. A imagem nos vem dos povos nômades, pastores. David, que defendia os rebanhos contra os leões e os ursos, entre os judeus, é um exemplo. Jesus será chamado por isso de o Bom Pastor, imagem muito difundida nos meios cristãos. Na mitologia grega, lembremos, um dos nomes do deus Hermes era Crióforo, o pastor que carregava nos ombros o animal tresmalhado, uma imagem de solicitude com relação aos que se perdem na vida. Nesse sentido, era a divindade protetora dos pastores nômades do mundo indo-europeu. 



HERMES   CRIÓFORO

O simbolismo do pastor põe em evidência características de sabedoria intuitiva e experimental, de proteção ligada a um conhecimento. Além disso, nos fala sempre de uma função que para o seu exercício requer constante atitude vigilante. Por outro lado, o pastor é sempre um nômade, um desenraizado, sempre alguém que está de passagem, como a alma que um dia tem de abandonar o corpo físico para continuar a sua viagem num outro plano.

Preso ao Mediterrâneo com a enorme Taça, Hércules tem outra ideia engenhosa. Criar uma passagem deste mar para o grande oceano. Com a Taça do Sol força a passagem, abrindo um estreito, de 15 km. de largura e de 350 m. de profundidade, separando assim os dois continentes e levantando em cada uma das margens, da europeia e da africana, duas enormes colunas para celebrar essa separação. Essas colunas receberam o nome de Colunas de Hércules; a "coluna europeia" é hoje constituída de Gilbraltar, Algesira e Tarifa; a "africana", de Ceuta e Tânger.




Entrando no grande oceano, nosso herói chega à ilha Eritia, a ilha vermelha, enfrentando logo o monstruoso cão, morto a golpes de clava. O pastor Eurítion aproximou-se de Hércules, que logo se preparou para também lutar contra ele. Mas não houve luta, o pastor era inofensivo, Hércules acabou concedendo-lhe a graça da vida. Aproximando-se da manada, Hércules viu surgir diante si, colérico, em meio a uma grande nuvem de poeira, entre urros e berros, a figura monstruosa de Gerião.

Gerião quer dizer fazer ruídos com a voz, fazer ressoar, estertorar (estertor é a respiração dos moribundos, respiração agônica, como o estourar de bolhas). Uma outra etimologia admitida para Gerião nos diz que o nome se aproxima mais de palavras como canto e discurso ao invés de ruidoso ou barulhento. O gigante é, em geral, representado não só com três cabeças como com três corpos, além de dois pares de pernas, e, em algumas versões, com asas.  


PERSEU   COM   A   CABEÇA   DA   MEDUSA

Era filho de Crisaor (filho de Poseidon e da Medusa), a "espada de ouro", nascido do pescoço ensanguentado da Górgona quando decapitada por Perseu. Desde seu nascimento, tinha em suas mãos uma espada de ouro. No momento em que a nuvem de poeira baixou em torno de Gerião, Hércules conseguiu com uma de suas flechas apolíneas, disparada com grande violência e como que orientada por mão divina, atravessar os três corpos do gigante, prostrando-o ferido de morte, inapelavelmente.

O trabalho prosseguiu: Hércules tentava, com grande esforço, juntar os animais, extremamente indisciplinados. Aos poucos, com muita paciência, empurrou-os para dentro da Barca Solar. Partiu, então, em direção do continente. Fez o caminho de volta pelo norte,
RUINA  DAS  TORRES   DE   HÉRCULES
entrando pelo noroeste do que é a Espanha de hoje, pela Galícia, onde até hoje, segundo a tradição local, perto de la Coruña existem, como lembrança dessa passagem, ruínas de duas torres, conhecidas deste tempos imemoriais como as "torres de Hércules". Com o seu "gado vermelho", Hércules entrou pela Gália, descendo pela Itália. Além de tentar recuperar muitos animais que fugiam e se extraviavam constantemente, um trabalho insano, Hércules teve que travar muitas lutas para protegê-los não só de ladrões como de falsos pastores que tentavam atraí-los de várias maneiras. Na Ligúria, perto da futura Gênova, lutou contra dois gigantescos filhos do deus Poseidon, que tentaram, em nome do pai, se apossar do rebanho. No Lácio, perto da futura Roma, mais lutas. Recebido pelo rei Evandro, seguiu depois em direção do sul. Muitos animais fugiram, entrando nas águas, dispersando-se em direção da Sicília. Hércules os trouxe de volta, matando o rei da ilha, que deles se apossara. O nome Itália, lembremos, tem origem neste trabalho de Hércules. Em Latim, uitulus é vitelo, bezerro. De uitulus, uitela, portanto, saiu Itália.




  
Depois de muitos esforços, recuperando os animais que se extraviavam, perdendo alguns, o restante do rebanho, ainda assim muito numeroso, foi atacado por moscardos gigantescos, enviados pela deusa Hera. Este ataque quase enlouqueceu os animais. Com muita paciência e obstinação Hércules conseguiu recuperar quase todos, inclusive os que haviam se dispersado pelas montanhas da Trácia. Ao final, depois de tão acidentada e penosa viagem, nosso herói deu por terminado o seu último trabalho, entregando os animais a Euristeu em Micenas, que mandou soltá-los nos pastos.

O gado vermelho mencionado neste trabalho é, metaforicamente, a humanidade, a manada, submetida ao monstro de três cabeças, cada uma delas representando os três corpos que aprisionam o homem-massa, a vida instintiva, a vida afetivo-emocional e a vida conduzida pelo mental inferior, fixando-a nos seus desejos inferiores. O vermelho, como sabemos, é a cor do princípio vital, enquanto representa força, a circulação do sangue, a vida instintiva, o impulso vital. O vermelho é a cor das pulsões fundamentais e também das paixões, lembrando a indiferenciação, a vida inconsciente, não reflexiva. Neste sentido, o vermelho tem relação com o mundo infernal, algo devorador, a cor de uma goela chamejante e profunda que indiscriminadamente tudo engole.

        Astrologicamente, como dissemos, estamos no signo de Peixes,
final do inverno, o período que antecede o equinócio de primavera. Tudo o que ainda estava preso a uma forma aqui a perderá. Ideias de liquefação, de dissolução. Tudo é desfeito, a coesão se igualará a zero, fusão com o todo. Retorno ao ilimitado, comunhão, confusão. Dois peixes (matéria e espírito) unidos por um fio, em sentido contrário, um subindo e outro descendo, libertação final. Corta-se aqui o fio para que o corpo deixe de reter a energia. Não mais, então, o corpo como prisão da alma.

Peixes é o último signo do elemento água, associado ao mundo hibernal, onde aparecem os fluxos do degelo que criam o dilúvio purificador, onde tudo é posto em comum, onde as fronteiras são
abolidas. É neste momento que a alma aprisionada faz o seu retorno. Termina o processo iniciado em Câncer (águas ligadas ao nascimento, origem da vida orgânica), que passou pelas águas paradas de Escorpião, lugar de germinações ocultas, de fermentações, de estagnação. Em Peixes, temos as águas em permanente movimento, a imensidão oceânica, a alma se libertando das suas funções terrestres e retornando à sua fonte original, na sua mais perfeita representação, que é a do Brahman dos hindus. 

Enquanto Virgo, signo oposto ao de Peixes, é detalhe, minúcia, particularidade, limite, fronteira, medida certa, este último é o ilimitado, o global, o infinito, o inclassificável, o inapreensível, o inefável, o inconsciente. Duas dimensões: Virgo é a microscopia, a patologia, a relojoaria, a filatelia, a precisão mecânica; Peixes é a telescopia, a astronomia, a nuvem, a imensidão, a galáxia.  Em
MESSIANISMO
Peixes temos, no lugar da ideia de um homem, a de "todos os seres humanos", um oceano comunitário onde não deve haver diferenciação. Peixes engloba por isso o que não é mais, o que está além das fronteiras individuais. No signo, assim, sempre presentes ideias de dilatação, superação, misturas, indistinção, fusão do eu com o não-eu. São do signo os movimentos coletivos de solidariedade, o messianismo, a salvação, o socialismo nas suas diversas formas, o impressionismo na arte. Negativamente, o signo é caos, abulia, anarquia, escândalo, alucinação, droga, visionarismo, escapismo, afinidade com mundos utópicos, perda da identidade, com rendição, em favor do todo.



IMPRESSIONISMO   -   MONET

O planeta de Peixes é Netuno, cujo símbolo é o tridente (trikala, na Índia). Dois deuses na Mitologia grega o usam de modo especial, Poseidon e Hipnos. Nas mãos do primeiro, é indiferenciação, anulação de fronteiras, a indistinção primordial que antecede a criação. É de Peixes que parte a manifestação original, simbolizada, conforme o caso, pela ilha, pelo lotus, pelo carneiro, pelo impulso primaveril, pela montanha etc. Na Índia, quem usa o tridente (trishula) é Shiva, terceira pessoa da trindade hinduísta, o transformador dos mundos e destruidor das aparências. As três pontas do tridente representam o passado, o presente e o futuro ou os três gunas (rajas, tamas e sattva).


POSEIDON   (  NETUNO  )

Quando Hipnos, o deus do sono, irmão gêmeo de Thanatos, deus da morte, toca com o tridente as nossas pálpebras, fechamos os olhos, dormimos; o tempo é abolido, Morfeu, o de mil formas, seu filho, poderá então se manifestar, vindo como Oniro, o sonho enganador, ou Hypar, o sonho premonitório. É em Peixes e com os seus astros regentes (Netuno e Júpiter) que as fronteiras entre o pessoal e o cósmico desaparecem. Os do signo são, por isso, os que menos se pertencem, os que têm mais facilidade para fazer desaparecer o egocentrismo e o individualismo. Daí, os grandes temas piscianos como renúncia, sacrifício, martírio, adaptação extrema, subjetivismo cósmico, plasticidade psicológica excepcional, maleabilidade, receptividade absorvente, sugestionabilidade, vulnerabilidade. Tudo isto pode transformar o pisciano numa caixa indiscriminada de ressonâncias. Ao mesmo tempo, pode ocorrer uma expansão extrema do ser, que levará invariavelmente, os tipos mais malogrados do signo, ao abandono da vontade (não querer ser, não escolher, não decidir), a um deixar-se absorver, ao sacrifício do eu em prol do todo, a êxtases místicos. 

Manias de perseguição podem se apresentar, tendências à fuga, evasão, falta de impulsos energéticos. Em muitos, temos os casos de o menos direcionado dos psiquismos, onde tudo é difuso, oscilante, ficando os tipos mais inferiores sempre sujeitos à mínima vibração ambiental. Nascem neles então, o conformismo, a adaptação, o desejo de serem tratados de modo diferente já que se apresentam como seres muito indefesos. Nos tipos mais passivos, comuns as táticas, o teatro, o papel de vítima que nada faz,  mas que quer ser levada a sério, o irresponsável que pede considerações especiais; arte inconsciente, estratégias infantis, mimetismo, identificação; sensação de vítima sem meios de reação, impotência, resignação. Os mais negativos escolhem suas vítimas, submetem-se a elas, servem-nas, mas as escravizam, nelas criando sentimentos de culpa. Peixes é o signo que mais dificuldades encontra para obter alimento para o seu psiquismo. Por isso, o vampirismo psíquico é uma das grandes marcas do pisciano malogrado.

Os tipos superiores, ao contrário, redimem-se, escolhem, usando as antenas da sua enorme sensibilidade para aliviar males, curar, auxiliar, servir, salvar. Não mais a doença e o sofrimento como refúgio. Agora, um servidor da humanidade. Não mais o complexo de mártir ou de fuga. Transformar o martírio em serviço. Mesmo no pisciano superior, contudo, as características mais positivas estão, muitas vezes, latentes, inibidas, devido à grande pressão do ambiente que o faz captar demais, sentir, desenvolver tendências altamente empáticas. Neste sentido, Peixes é o signo dos embaraços e dos obstáculos. O excesso de água pode impedir que os  traços superiores se manifestem. A saída muitas vezes é feita pelo emocional ou pela imaginação.



As propostas são, pois, as que o décimo segundo trabalho sugere: libertar a alma das pressões dos três corpos, libertar a humanidade do cativeiro, a alma das suas pressões instintivas, afetivo-emocionais e mentais (inferiores). Transmutar o inferior em elevado, a negatividade e impotência em controle; a mediunidade inconsciente em intermediação consciente, a autopiedade e autocomiseração em trabalho aplicado. O dilema pisciano é, em certo sentido, afundar ou nadar. Se nadar, não mais o amor sacrificado, mas o amor oblativo (oblatus, oferecido). "Quem perder a sua vida se salvará! Quem quiser ganhá-la, se perderá!" 

Netuno, o planeta de Peixes, nas suas expressões superiores, é sublime, elevado, relaciona-se com o social, com os salvadores da humanidade, tem a ver com a dinâmica pela qual as obrigações sociais podem ser observadas como resposta a um sentimento obscuro de culpa ou de dever espiritual. Prestar serviços à sociedade, libertá-la, contribuir de algum modo, desenvolver a sensibilidade à injustiça, jogar-se nas utopias com os pés no chão, elevação acima das paixões negativas, ideias de mitigar, de dar alívio, entregar-se a uma causa, proteger, dedicar-se.

É de Peixes a frase: "Feche os olhos e veja!" A riqueza de
SURREALISMO   NO   CINEMA

possibilidades nos do signo pode levar muitas vezes à irresolução, à vida projetada nos sonhos, sempre uma espécie de neblina a envolvê-la, uma neblina que enfraquece os contornos (o Impressionismo e o Simbolismo aparecem como movimentos artísticos quando da descoberta de Netuno em meados do séc. XIX, 1846; são do signo, também, o Surrealismo e o Cinema, a "arte de mentir", que apareceriam mais tarde). 




PÉS   E   PLEXO   SOLAR


Saúde física e psiquismo em Peixes são, mais do que em qualquer outro signo, inseparáveis. Outro aspecto importante: a repercussão que a vida coletiva tem sobre a saúde. É o pisciano o primeiro a captar o sinal das epidemias, hipotéticas ou ainda distantes, o primeiro a estudá-las. Já se observou que o pisciano não é um doente que se escuta, mas um doente que escuta (leitura de publicações médicas, hipocondria, farta documentação etc.). Daí, os diagnósticos difíceis, os erros médicos e de exames laboratoriais, já que há grande tendência de que as causas das doenças estejam sempre em lugares diferentes dos apontados. Mais do que qualquer outro tipo astrológico, são os piscianos os que mais necessitam de médicos generalistas, médicos da família. Grande é a tendência a delírios psicológicos de natureza sensorial. No geral, disfunções glandulares, mucosas, pulmões, problemas alérgicos. A porta de entrada de várias doenças está em muitos casos nos pés. Comuns os inchaços, as varizes, as deformações nos pés. Estudar as relações entre plexo solar (Virgo) e os pés (Peixes). Tudo o que aparece sob o rótulo de veneno, toxina, álcool, droga, de produto sintético ou
artificial é muito prejudicial a Peixes.  Grande vulnerabilidade dos do signo a tipos astrológicos que tenham signos "fortes" e "dinâmicos". Grande afinidade com asilos, creches, prisões, serviços sociais, enfermarias, teatros, cinema, lugares isolados, ilhas, refúgios,  laboratórios. As lágrimas são do signo como líquido do sofrimento. Nos tipos superiores, a lágrima é a água que faz renascer para uma outra vida.

O pisciano superior vai fazer da sua grande capacidade de sentir, da sua piedade natural, da sua compaixão, o impulso básico da sua vida. Transforma assim a ideia de sina, de destino cego, de maldição, a sua hipersensibilidade, num fator positivo. Ele será então capaz de compreender tudo, de perdoar tudo, não mais na base da complacência absurda, mas na perspectiva de que as coisas não mais voltarão a ocorrer. Não mais fazer que não vê, não mais deixar passar, aquela horrível sensação de rendição, de desproteção diante da vida, não mais a simulação da doença. De Sagitário a Peixes, das coxas para baixo até os pés, estes que são os agentes que tudo suportam, resignados, espremidos, apertados, maltratados. Mas são eles, a dor do mundo, que nos põem de pé, verticalmente. É por esta razão que Leonardo da Vinci destacou os pés de Bartolomeu, iluminando-os, o apóstolo que representa o signo, na sua Última Ceia.   


ÚLTIMA   CEIA  -  ESBOÇO  A  CARVÃO  -  ( LEONARDO  DA VINCI )
   
Na galeria dos piscianos, pelo signo solar ou pelo ascendente, encontramos: Schopenhauer, o solitário de Frankfurt, com seu cão Atma; Georges Bernanos (Fico feliz por ter construído tão mal a minha vida...), Gorki, Lenin, Saint Just, Victor Hugo, Chopin (esquizoide, um ferido pela vida); Bach, Oscar Wilde, Flammarion, Rudolf Steiner, Leonardo da Vinci, Galileu, Michelangelo, Einstein, Lautreamond, Montaigne, Petrarca, Ronsard, Edgar Alan Poe, Lindbergh, Leão XIII, Santa Teresa de Lisieux, Renan,   Cesário Verde, Anna Magnani,  Camilo Castelo Branco, Ovídio, Dirk Bogard.

Quando o Sol chega à constelação de Peixes, como se disse, estamos no último mês do inverno, a totalidade criada chega ao fim. Nada mais ficará preso a uma forma. O signo de Peixes se situa no limite entre dois universos, um que está deixando ser e outro que ainda não é.  Por isso, o símbolo do signo, dois peixes nadando em sentido contrário, expressam tão bem esse setor do zodíaco.

É por essa razão que aos nativos do signo é impossível aplicar a lógica do signo oposto (Virgem), a análise, já que vivem mergulhados na sua interioridade, intimamente relacionados com o êxtase e a compaixão. Eis porque o signo acolhe gente como Johan Sebastian Bach, com as suas catedrais musicais, Michelangelo, o pintor do juízo final, e Einstein, com a sua formulação do infinito cósmico diante da finitude terrestre.


JUÍZO   FINAL   -   MICHELANGELO   

 É neste período do ano, fevereiro - março, em que o úmido reina soberano, que temos, com toda a sua evidência, sinais de difusão, de diluição, de fusão das partes na totalidade, de uma imensidão fluida. A água é o elemento em que os mais profundos mistérios da vida se radicam. Nascimento e morte, passado, presente e futuro, tudo se interliga com a água. É por essa razão que os espíritos da água profetizam; para eles, não há fronteiras entre o passado, o presente e o futuro. O tridente de Netuno põe tudo em comum