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domingo, 17 de outubro de 2021

INFORMAÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO? I

                                                            

A educação moderna redundou em completo malogro por ter exagerado a importância da técnica. Encarecendo-a em demasia, destruímos o homem. Desenvolvendo capacidades e ciência, sem a compreensão da vida, sem uma percepção total dos movimentos da mente e do desejo, tornar-nos-emos cada vez mais cruéis e isso significa fomentar guerras e pôr em perigo a nossa segurança física. O exclusivo cultivo da técnica tem produzido cientistas, matemáticos, construtores de pontes e conquistadores do espaço. Compreenderão esses homens o processo total da vida? Pode um especialista experimentar a vida como um todo? Só se deixar de ser especialista.

        J.Krishnamurti 

As filosofias da Índia sempre deram muito mais importância à vida interior do ser humano do que às suas conquistas externas. Praticamente, isto significou uma preocupação muito maior com transformações internas do ser humano, mudanças quanto ao seu comportamento, do que com a obtenção de informações sobre o mundo e o aumento de sua memória e domínio sobre ele. Neste texto, trataremos de uma maneira de pensar cujo objetivo é também o de fazer com que o ser humano, através de um mental superior, a ser por ele construído, possa transcender o seu eu pessoal, direcionando-o para a totalidade da existência (mundo natural e vida coletiva). Foi a isto que as antigas filosofias da Índia deram o nome de vida espiritual. 

Para os antigos pensadores da Índia, ao tempo em que começaram a formular as bases do que se denominou Vedismo (primeira fase das suas elaborações filosófico-religiosas), a sua principal preocupação, ao mesmo tempo em que procuravam descrever e explicar o mundo visível, foi a de estudar e de entender o que chamaram de eu interior (atma), uma entidade que consideravam como a base da personalidade consciente e do corpo humano. 

Para eles, este atman era uma partícula individualizada, independente, do que chamavam de Brahman, o Todo, a energia universal (alma universal), eterna, imperecível, autoexistente, de onde tudo o que se manifestava material ou imaterialmente provinha e ao qual tudo retornava, num devenir constante e perene. Assim, tudo o que entrava na existência, como o perceberam os pensadores daquele tempo, pertencia ao impermanente, ficava preso às coordenadas do tempo e do espaço, enquanto o eu interior (atman), porque partícula imperecível do Brahman, ficava fora de tudo isto.  

Para os pensadores ocidentais, a Filosofia, a partir dos gregos, dos pré-socráticos, foi, ao contrário, se voltando cada vez mais para o exterior, para o social, para o político, para o científico (principalmente a partir do Renascimento), procurando elaborar doutrinas no sentido de modificar o mundo material, de dominá-lo. Quanto ao eu interior, pouca ou nenhuma atenção a ele. Só no século XIX, voltaria esse tema a ser abordado de modo mais consequente, com as doutrinas psicológicas que então se criaram. Enquanto isso, quanto à Índia, seus filósofos persistiam na mesma direção: maior ênfase nos estudos da vida interior do ser humano, na sua problemática.  Foi esse direcionamento, mantido por séculos, milênios, que deu origem, no ocidente, a avaliações muito pouco favoráveis sobre a índia, de um modo geral. 

Enquanto o ocidente ia se "modernizando", “progredindo”, a Índia, com os seus deuses, seu complicado politeísmo, e seu sistema de castas, com o seu exotismo, com a sua “espiritualidade”, tornara-se um país facilmente conquistável, símbolo do atraso, da miséria, da ignorância, da doença. Era a Índia um país de grandes recursos naturais, uma fácil conquista para os predadores europeus, a Inglaterra, no caso, que lá permaneceu, dominando-a, por mais de dois séculos. 

NAVIO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS
É bom lembrar que muito antes do domínio britânico, a Índia já atraía a cobiça dos europeus. Os primeiros a chegar foram os portugueses, que lá desembarcaram no século XVI, quando estabeleceram feitorias ao longo da costa de Malabar. Depois dos portugueses, vieram holandeses, franceses e britânicos. Os primeiros navios britânicos aportaram na Índia em 1612. Esses navios eram da Companhia Inglesa das Índias Orientais, que estabeleceu feitorias no litoral indiano. Nessas feitorias, eram realizadas trocas comerciais: produtos indianos (seda, algodão, especiarias.) eram trocados por produtos manufaturados ingleses. Só depois de dois séculos, de grandes lutas, conseguiram os indianos expulsar os ingleses em meados do séc. XX (15 de Agosto de 1947), mesmo assim com grandes prejuízos, perdendo grande parte de seu território (Paquistão e Bangladesh).


É bom lembrar também que com as chamadas “ondas de progresso” globalizantes que o ocidente fez chegar à Índia, mais para o fim da segunda metade do século XX, essa visão negativa sobre a Índia (país do atraso, da miséria, das doenças etc.) veio mudando, de modo a se considerá-la hoje quase como, apesar de alguns problemas ainda constatados nas áreas apontadas, um país que vai assumindo os valores do mundo ocidental, se “modernizando”.  

FILÓSOFOS HINDUÍSTAS
Em que pese tudo o que está acima, o que sempre interessou sobretudo aos filósofos hinduístas menos “ocidentalizados”, ao longo da história do país, ao invés dos índices econômicos, foram os valores éticos e morais. Ou seja: sem perder de vista, na medida do possível, o mundo fenomênico e os aspectos visíveis da sua existência (Economia, Ciência, Tecnologia etc.), estudar e analisar, como itens mais importantes, a interioridade do ser humano, as suas faculdades intelectuais, as operações da sua mente, as teorias do entendimento, as leis da lógica, as doutrinas psicológicas etc. Por todos estes fatores é que, ao contrário dos filósofos ocidentais, sempre interessou mais aos filósofos hinduístas o eu interior, a sua transformação, a sua mudança, em níveis tais que, com relação a alguns, podemos pensar a existência humana como uma sucessão de mortes e renascimentos 

É neste sentido que ao invés de procurar mudar o mundo (o que é importante, é claro!), os filósofos do hinduísmo sempre procuraram trabalhar mais com ideias de transformação interior, de transcendência do próprio eu. Transcendência obtida não através da simples compreensão intelectual, de leituras, mas através de mudanças no modo pelo qual o mundo é sentido e sobre ele se age, pois só estas  mudanças têm relação com a existência como um todo. Etimologicamente, transcendência vem do latim, de trans, além de, e de scandere, subir, remontar. Temos, então: escalar, transpor, elevar-se ultrapassando. Ideias de proeminência, sobrepujamento, sublimidade, de ir além das limitações. 

A história do pensamento indiano, no que ela tem de mais consequente, sempre nos mostrou uma crescente importância dada ao eu interior (atman). Ou seja, sem se desconsiderar o mundo exterior, concreto e tangível, o foco foi sendo direcionado para o eu interior, intangível e imaterial. É claro que este entendimento, em muitos períodos históricos, ocasionou uma perigosa desvalorização do mundo material, produzindo muita dor e sofrimento em termos sociais. Contudo, sempre prosseguiram os seus filósofos, procurando permanecer ligados à sua antiga tradição. 

Para uma melhor compreensão do que aqui se expõe, é preciso lembrar que a história filosófico-religiosa da Índia se divide em três grandes períodos:

 1) Védico (2000-600 aC);

 2) Bramânico (600 aC-1200 dC);

 3) Hinduísta (1200 dC em diante).

Os princípios fundamentais do Hinduísmo são os seguintes: 

a) as metas de vida (artha, kama, dharma e moksha);

b) o sistema de castas (varnas); 

c) o Yoga. Artha, kama e dharma são considerados como ocupações mundanas.  

Na primeira, ARTHA, temos as conquistas materiais, o mundo dos valores, dos objetos, que podem ser obtidos e perdidos. Nesse mundo prevalece matysa-nyaya (a lei do peixe), “peixes grandes comem os peixes pequenos”. Nesse mundo, temos arthashastra, “a ciência da riqueza”. 

Na segunda ocupação, lidamos com os desejos. Quem nele atua é o deus kama (Eros dos gregos), mestre e senhor das coisas materiais, que, com o seu arco e as suas flechas, abrasa o nosso coração de desejos. 

No terceiro item, dharma, são discutidas ideias de responsabilidade, obrigações, deveres, os aspectos morais da vida humana. Começa aqui uma noção mais abrangente da vida social. 

O último princípio tem relação com ideias de redenção, espiritualidade. Moksha é palavra que sugere conceitos de liberação de abrir a mão, de libertação. É nesta etapa que podemos ir além da informação, de sua crítica e do conhecimento obtido para chegarmos à sabedoria vivida como doação sem preocupações com ideias de retribuição e reconhecimento. Moksha (libertação), confunde-se aqui com kaivalya (independência) do físico, do afetivo e do mental inferior. 

sistema de castas
As quatro castas, constituídas pelos árias e seus descendentes, são as seguintes: 
1) Brahmanas - que têm por incumbência os deveres filosófico-religiosos, a conservação e a transmissão dos textos da cultura e da ciência, o ensino em todos os seus níveis. Seu caráter é mais ou menos sacerdotal. 
2) Kshatryas – Guerreiros, administradores, políticos, governantes. 
3) Vaishyas - Comerciantes, agricultores e profissões relacionadas com a vida econômica e bens. 4) Shudras -  Operários, trabalhadores, artífices. Fora do sistema de castas, ficavam os chamados intocáveis, asprishyas, formada pelos remanescentes das populações aborígenes. Segundo o governo indiano, hoje, o sistema de castas já não mais existe na Índia, devido a muitas subdivisões introduzidas e novas formas de organização do trabalho. Todavia, na realidade, embora pareça caminhar para a sua extinção, ele ainda se faz presente, interferindo, até bastante, em várias regiões do país, principalmente no sul. 

O Yoga é uma escola filosófica (darshana) que tem a finalidade de levar o adepto a aprender a dominar os seus corpos físico, afetivo-emocional e mental para poder entrar em contacto com o seu eu verdadeiro (atma), aprendendo também o discípulo a usar o seu mental superior (buddhi). Fixando-se no seu eu verdadeiro (atman), o adepto se torna  um "unido" (yukta) ao Brahman. A palavra que designa a transmissão dos ensinamentos do Yoga é parampara, que significa "um depois do outro", indicando-se claramente a sua forma de transmissão de mestre para discípulo.

PATANJALI
De um modo geral, todas as escolas filosóficas aceitam como expressões maiores do Yoga cinco formas: Raja-Yoga, Hatha-Yoga, Gnana-Yoga ou Jnana-Yoga, Karma-Yoga e Bhakti-Yoga. Como requisitos básicos em todas temos os Yamas e os Niyamas, isto é, restrições e observâncias. Qualquer que seja a forma praticada, sempre presente a ideia de que todas levam ao mesmo fim, a uma experiência estática (samadhi), através da aquisição de conhecimento libertador do eu (atma).

Como proposições básicas no Hinduísmo, temos: 

1) a verdade profunda é diferente daquela que obtemos por nossas percepções sensoriais, mesmo que interpretadas com todos os recursos do nosso intelecto; 

2) partindo da imagem que nos fornecem as aparências, nós nos aproximamos tanto mais da verdade profunda quanto mais nos afastamos da multiplicidade em direção de uma ideia de unidade; 

3) a aparição do universo resulta da manifestação do UM sob a aparência do múltiplo; 

4) o mundo das polaridades, isto é, da consciência da multiplicidade, é concepção imperfeita e inexata da Verdade profunda; 

5) a Verdade profunda deve englobar não só o que é mas também aquilo que ainda não entrou nas categorias da existência; 

6) a alma do homem (atman) é idêntica à totalidade. É possível realizar esta unidade por disciplinas apropriadas, sendo este o fim da existência humana; 

7) até que isto aconteça, a alma reencarnará, passando por uma sucessão de estados, sendo os dois principais o nascimento e a morte. O objetivo da existência, pode-se dizer, é o de escapar desta cadeia de reencarnações (samsara); 

8) cada encarnação é consequência das precedentes e determina, em certa medida, a sucedente; 

9) cada encarnação tem características que a individualizam. Ela difere das outras pelas possibilidades que oferece e os deveres que impõe; 

10) toda alma pode chegar à realização da Verdade profunda (liberação), concebida como união, consciência da não-dualidade, estado de consciência que ultrapassa tanto a unidade como a multiplicidade; 11) o intelecto é incapaz de conhecer a Verdade Suprema.

Os textos hinduístas que melhor falam da via mística são os Upanishads, o Bhagavad Gita, as obras do Vedanta e os das escolas filosóficas (Darshanas). Os fundamentos filosóficos da via mística estão nos Darshanas, os aspectos racionais da religião. Há seis sistemas filosóficos (Shad-Darshanas), seis escolas ortodoxas: 
1) Nyaya, Lógica e Dialética; 
2) Vaiseshika, escola atômica; 
3) Samkhya, ateia; cosmogonia e evolução; 
4) Yoga, técnicas de concentração e de união; 
5) Purva-mimansa, estudos exegéticos e práticas rituais; 
6) Uttara-mimansa, o Vedanta.

 Fora do Hinduísmo, há as chamadas escolas heterodoxas (nastika), como o Budismo e as escolas materialistas ateias (charvakas), todas, como as precedentes, diferentes meios de nos aproximarmos da verdade, visões do mundo, jamais conseguindo captar a totalidade.

Para o Hinduísmo, o conhecimento das coisas impermanentes não leva o homem a adotar uma atitude realista para com o mundo e para com a sua própria existência, pois estas coisas não permanecem, eis que carecem de substancialidade, perecem. Em fluxo contínuo, as coisas do mundo se contradizem e refutam constantemente, sendo, nessa perspectiva, ilusórias as formas fenomênicas. Dizem os mestres hindus: quem se apoia no mundo fenomênico sempre encontrará muitas dificuldades na vida. Aparentemente real, ele é, no entanto ilusório, sustentado pela ignorância (avidya) e pela prolongada ação das paixões enganosas.

No Hinduísmo, como na Psicologia ocidental, com algumas poucas variações,  a paixão é uma tendência de maior ou menor duração, acompanhada de estados afetivos e intelectuais, imagens muito poderosas que acabam por se impor, dominando a vida de uma pessoa pela sua intensidade e permanência. Uma inclinação que, instalada, torna-se o centro de tudo, tudo a ela se subordinando. Por isso, a paixão (etimologicamente, sofrimento) lembra cegueira. Nada vemos senão ela. Mesmo no caso de paixões ratificadas pela razão, somos tomados por elas. A paixão pode paralisar a ação normal da razão sobre a nossa conduta, impedindo a determinação da vontade. 

O passional se define por uma oposição ao racional, ao lógico. Neste sentido, é como a loucura. A razão, o racional, liga-se à ordem, à harmonia, à clareza. A paixão lembra irracionalidade, desarmonia, desordem, doença, caos. Desde a antiguidade, a mesma recomendação, na Filosofia, na Religião, na Medicina, na Psicologia, nas doutrinas ocidentais e ocidentais, vigiar as paixões, pois sempre ameaçam a alma e o corpo de desordem, doenças, destruição.

Para os hindus, somente quando trabalhamos com a consciência introvertida, dirigida para o mais profundo do nosso eu (atman) é que podemos alcançar aquele terreno fronteiriço que se situa entre os fenômenos mutáveis, no que eles têm de oscilante e perecível, e a nossa fonte interior, imutável e imperecível. Aquele que procura entender isto pode entrar realmente no conhecimento do próprio eu. Este entendimento tanto nos permite perceber a materialidade do mundo como a sua principal característica, a ilusória, mutável e impermanente, chamada pelos hindus de Maya. 

Este entendimento, que nos fala tão só de energia (Brahman) e de suas transformações, como fica fácil constatar, nada tem de teísta. Nada de mansões celestiais, de Deus, de um Pai ou de uma Mãe celestes ou de intermediários (religiões) a quem possamos dirigir preces ou pedidos salvadores. No lugar de tudo isto, como propõe realmente o Hinduísmo, apenas o ser humano e a sua interioridade, com a sua responsabilidade.

Os mestres hinduístas sempre ensinaram também que o pensamento humano é limitado pelo nosso repertório linguístico disponível. Esse repertório é denominado naman por eles,  nomen em latim, nome em português, o mundo dos nomes. Assim, a substância do ato de pensar, no ser humano, é formada pelo conjunto destes nomes disponíveis, que deve corresponder às formas (rupas, em sânscrito) do mundo exterior percebidas. Rupa é forma, figura, cor. Nama-rupa foi o nome que os mestres hindus deram ao homem que percebe o mundo e o pensa, ou seja, o mundo considerado objetiva e subjetivamente.

Todavia, prosseguem os mestres, porque fenomênico o mundo percebido, os repertórios linguísticos são sempre inadequados para compreendê-lo. Isto é muito notável, por exemplo, quando temos que falar sobre sensações difusas, intuições, ocasião em que normalmente não encontramos sustentação do nosso aparato verbal. Muitas das nossas experiências mentais, dizem eles, vezes sem conta transcendem o nosso pensamento lógico, sendo criadas situações em que nosso repertório linguístico não as consegue descrever.

ARISTÓTELES
A filosofia grega trouxe como resultado prático a destruição da leitura mitológica do mundo, substituindo-a, em nome da eficiência e de resultados concretos ($$$) pela Lógica (Aristóteles), pela Física, pela Astronomia, pelas Ciências Naturais, enfim. A cultura ocidental, a partir das escolas filosóficas pré-socráticas,  sempre considerou, por isso, uma grande vitória do espírito humano a substituição das explicações míticas sobre o universo pelo Logos.

É pelo que acima se expõe que podemos entender porque o pensamento filosófico da Índia se apoia tanto na sua mitologia, razão maior pela qual aqueles que se voltam consciente e honestamente para a cultura indiana costumam destacar essa saudável união entre ambas, tão celebrada por imagens, tradição épica, divindades etc. É por essa razão também que os mestres hindus são profundamente céticos com relação às palavras e com os doutorais textos que o ocidente costuma produzir em geral sobre o pensamento filosófico-religioso. Mais vida e  menos palavras, dizem-nos eles. 

O mundo filosófico-religioso, de um modo geral, e o da Índia em especial, pode ser entendido por nós ocidentais através da teoria dos arquétipos (do grego, arché, antigo, original, e typos, exemplar), por imagens míticas que invadem o campo da nossa consciência. Só as percebemos através de suas manifestações no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, como fatores históricos, biológicos e outros. Em função da vida que levamos, conforme as condições de tempo e lugar, as imagens arquetípicas são apresentadas ao nosso consciente. Os personagens míticos e suas histórias, hindus, gregos ou de outras mitologias, podem atuar sobre a nossa vida consciente também como arquétipos do inconsciente coletivo, despojando-a de sua autonomia, gerando fenômenos de massificação, de alienação, doenças, patologias etc. 

Essas imagens provêm de uma área fora do alcance de nossa vontade consciente, mas fazendo parte de nosso mundo interior. Levam-nos a agir como não pretendemos, impondo-nos papéis que não sabemos por que os desempenhamos, fazem-nos muitas vezes ficar descontentes diante de nossa maneira de agir. Quase sempre, uma sensação de fracasso, de algo que saiu como não queríamos, atos falhos, vexames... Todas estas perturbações têm forte acento emocional e são estritamente pessoais. 

Embora estas imagens se assemelhem de uma pessoa para outra, sua intensidade varia muito. Muitas acabam por formar um núcleo temático, uma espécie de coágulo, e a ele vão se juntando, agregando partículas toda vez que tal núcleo é estimulado por uma referência, por um encontro, por uma palavra que ouvimos, por um acontecimento externo ou interno que não conseguimos resolver, por fraqueza, inabilidade ou incapacidade. 

Esses núcleos temáticos são chamados de complexos. Neles represamos sentimentos, parcial ou totalmente inconscientes, com muita carga afetiva. Às vezes, quietos por longo tempo esses núcleos se ativam, fazendo até oposição às intenções do eu consciente, podendo inclusive romper a sua unidade. Comportamo-nos como se outro eu nos habitasse, dominando-nos. Uns são reconhecidos, outros jamais o serão. O reconhecimento intelectual desses núcleos não basta, pois o fenômeno é valorizado afetivamente. A libertação só virá se desintegrarmos os sentimentos neles represados.

O mundo dos arquétipos é sombrio, insondável e a ele não se tem acesso direto. Só o percebemos por via indireta, através de sua manifestação no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, tanto como fatores históricos ou biológicos, e é através deles que podemos relacionar nossa vida anímica com os mitos. Em função da vida que levamos, conforme as condições existentes internas e externas de tempo, lugar e espaço, as imagens arquetípicas são “apresentadas” ao consciente. O inconsciente coletivo é o conjunto de todos os arquétipos que nele se agrupam, como sedimentos, sempre ativados e propagados pela tradição, migrando de um lado para outro, manifestando-se muitas vezes espontaneamente. O inconsciente coletivo distingue-se do inconsciente pessoal; seus conteúdos nunca estiveram na consciência, devendo-se a sua existência à hereditariedade. Mitologicamente, os arquétipos aparecem como temas, ideias elementares, representações de caráter coletivo, não-pessoal. 

No ocidente, as explorações da teoria do inconsciente coletivo omitem por razões várias que julgamos inoportuno aqui discuti-las, a prioridade do Hinduísmo no que diz respeito à sua formulação. Evidentemente, as elaborações hinduístas não se estruturam como as teses de Jung ou de outros estudiosos que no Ocidente se voltaram para essa teoria,   nem têm a mesma apresentação, mas não se pode deixar de reconhecer a semelhança que a teoria junguiana tem com as formulações hinduístas. 

UPANISHADS
Em alguns Upanishads (Mundaka, Brihad-aranyaka, Taittiriya), encontramos referências a um substrato último da consciência, uma imensidão informal, experimentada ora como vazio, ora como silêncio, ora como obscuridade, considerada como região sem limites que se estende além da vida consciente. É chamada no Vedismo também de atman (alma individual) com o significado,  de alma profunda, identificada com o Brahman, enquanto subjacente ao eu empírico, onde atua a alma individual. 

A alma (atma), coletivamente considerada, se situa no fundo do ser, sendo comum a todos os seres. Os textos  descrevem o inconsciente coletivo como uma espécie de oceano informal de onde poderão emergir aspectos da natureza particularizada de cada ser. Esta imensidade é, no seu todo, impensável, distante, mas poderá estar muito próxima. Este eu profundo não é isto ou aquilo, dizem os textos, é impalpável, não podendo ser destruído. Como oceano é uma unidade, um continuum indivisível que se liga e é comum a todos os seres. O eu pessoal é um nó temporário, um ponto particular da consciência. 


O Hinduísmo fala de um ponto (bindu) onde a alma individual, com o nome de atma encontra a alma universal (atman).

                                       



sábado, 13 de maio de 2017

CÂNCER (4)

                                                   
Na Índia, quando a alma chega ou não à libertação (moksha), abrem-se dois caminhos para ela. Um é o da reencarnação, caminho do solstício de inverno, chamado pelos hindus de pitriyana ou dhumamarga. O outro é o caminho que leva ao Brahman, de onde não há mais retorno. Este caminho, ligado ao solstício de verão, tem o nome de devayana ou archimarga. 


CERIMÔNIA  -  PITRIS

É preciso lembrar, quando entramos neste tema da reencarnação, que para os hindus ainda depois de muito tempo que uma encarnação teve fim, a alma conserva algumas ligações com o seu ambiente terrestre, com o seu mundo familiar. É isto que leva os hindus a elaborar um complexo culto dos antepassados (pitris). Segundo o grau de sua ligação com o mundo ancestral, a alma pode ficar habitando um dos três mundos dos ancestrais (pitrilokas), tendo, nessa condição, ainda, muitos envolvimentos com o mundos vivos.


CREMAÇÃO  -  GANGES

A alma, depois da morte do corpo físico, pode passar por um grande período de hesitação, durante o qual, não totalmente liberta dos laços terrestres, fica errando como um fantasma. Nessa condição, tem o nome de preta. O culto dos antepassados, que tem um grande lugar na religião hindu, inicia-se a partir do quarto dia da cremação. Recolhe-se a ossada e o que sobrou num vaso de argila (asthisauchaya) para ser tudo lançado num rio, de preferência no Ganges. 


MANSÕES   LUNARES  -  NAKSHATRAS

É sob o nome de pitris (ancestrais) que são venerados os primeiros progenitores (miticamente) da raça humana bem como os ancestrais familiares, cremados ou inumados segundo os ritos. Eles são, em geral, considerados como semelhantes aos deuses, com os quais muitas vezes entram em choque. Nessa condição, são imortais e compartilham com eles uma vida de imortalidade. os ritos, chamados shraddhas (homenagens), são realizados em sua honra e as oferendas a eles feitas têm o nome de pindas. Os ancestrais residem no espaço ou na esfera da Lua. Eles são regentes das constelações (nakshatras ou mansões lunares) conhecidas pelo nome de Magha e de Mula. A primeira é a décima mansão lunar e seu nome significa A Poderosa, indo, na esfera zodiacal, de 0º a 13º20´de Leão. A segunda é a décima nona mansão lunar e seu nome pode ser traduzido como A Raiz, estendendo-se de )º a 13ª20´de Sagitário. Quando a Lua atravessa Magha, esse período, dentre outras possibilidades astrológicas favoráveis, é propício para a realização de cerimônias que homenageiem os ancestrais. 

LEI   DO  KARMA
O Hinduísmo admite que a alma (jiva) não nasce apenas uma vez, mas várias vezes, inúmeras vezes, quer no passado, quer no futuro. As suas ações no plano terrestre, segundo a lei da causalidade (lei do karma), determinam sempre as condições das voltas futuras, isto é, das suas sucessivas reencarnações. O pensamento aqui é claro: o homem é sempre o que ele faz de si mesmo e este fazer-se determina no que ele se tornará. 


PLÍNIO ,  O   VELHO
As doutrinas pitagóricas nos colocam diante de algo semelhante quando nos falam da identidade substancial das almas e dos astros. É conhecida a citação de Hiparco, segundo Plínio, o Velho, de que nossas almas são uma parte do Céu, que é a sua natural morada. Caídas no mundo sublunar, em razão de uma falta original, é ao Céu que elas retornarão, quando devidamente depuradas. Um dos dogmas do ensino pitagórico era o de que as almas dos seres humanos provêm do Céu. O próprio Pitágoras, aliás, passava por um gênio que descera à Terra para revelar aos homens o caminho da salvação. 

PLUTARCO
Quanto aos egípcios, é interessante notar que eles escolheram o escaravelho para representar o signo de Câncer. Quem nos explica isto é Plutarco, historiador, moralista e biógrafo grego. Ele nos dizia que o escaravelho parecia imitar o Sol ao se movimentar, lembrando auto-geração, regeneração, ao rolar uma pequena bolota na qual estava depositada a sua semente (sêmen). Divinizado, tomava o nome do deus solar Ra, chamado de Khepri, imagem do Sol nascente. É por esta razão que as múmias levavam um escaravelho no peito como amuleto, como proteção mágica, tendo em vista o seu renascimento no Outro Lado, depois da psicostasia.

Como motivo de decoração, o escaravelho era encontrado praticamente em todos países mediterrâneos, sempre simbolizando a ressurreição, emblema daqueles que se auto-regeneram. Era, em suma, o Sol que sempre retornava depois de ter atravessado as trevas noturnas. Além do mais, o escaravelho sabia sobreviver
SANTO   AMBRÓSIO
quando das enchentes do rio Nilo. Segundo crenças muito antigas, profundamente arraigadas em antigas tradições, ao se alimentar, o escaravelho sempre se alimentava do que lhe era estritamente necessário, colaborando dessa forma para a regeneração física e moral do cosmos. Foi por esta razão que Santo Ambrósio, um dos maiores doutores da Igreja católica, sempre associou a imagem de Cristo à do escaravelho.

ANEL   TALISMÃ
COM ESCARAVELHO
A pequena bolota na qual o escaravelho encerrava a sua bolota era chamada de "o ovo do mundo do qual nascia a vida." Ao favorecer a reencarnação, o escaravelho, como talismã (do árabe, talasim, sortilégio; e do grego, telesma, rito religioso), era muito valorizado. Muito falsificados, os talismãs fabricados do Egito eram vendidos "a peso de ouro".

Na antiga Roma, segundo Plínio, o Velho, os cornos deste coleóptero, colocados numa pequena cápsula (sachê), eram considerados também como poderoso amuleto, protegendo especialmente a vista. Era comum, segundo Plutarco, que os soldados gregos, os hoplitas principalmente, durante as batalhas, usassem amuletos na forma de escaravelhos como proteção do
SARAH   BERNHARDT
( PAUL   NADAR , 1856 - 1939 ) 
corpo físico. A fama do escaravelho como amuleto ou talismã atravessou a Idade Média, alcançado a sua maior voga em fins do séc. XIX. Em toda a Europa, um berloque ou um pendantif na forma do inseto eram usados como emblema de fidelidade conjugal, moda lançada ou difundida pela famosa atriz do teatro e do cinema mudo francês, Sarah Bernhardt. Com menos evidência hoje, o escaravelho, como talismã ou amuleto, ainda é muito valorizado, protegendo contra a morte violenta e contribuindo para uma saudável vida longeva.


A associação do escaravelho com o signo de Câncer também tem a ver com o lado negativo do inseto na medida em que ele, como inúmeras crenças o atestam, tem relação com o fim da vida e, portanto, com a quarta casa astrológica, ocupada no Zodíaco padrão pelo referido signo. O inseto pode se tornar maléfico, trazendo a infelicidade, anunciando a morte, quando aparece a se deslocar velozmente nas dependências de uma casa. "A morte é quase certa", diz a tradição, quando um escaravelho negro sobe pelo sapato  ou se movimenta sobre o corpo de alguém que esteja deitado. Na Escandinávia (Suécia), por exemplo, o escaravelho aparece ligado ao deus Thor, nome do qual retira a sua designação, thorbagge, inseto de Thor. Foram os primeiros cristãos da Escandinávia, numa reação aos cultos aborígenes, que demonizaram o escaravelho, chamando-o de o Diabo de Thor.


CÃO   MAIOR
Os egípcios colocaram o início do seu ciclo anual no mês em que o Sol ingressava no signo de Câncer (solstício de verão), simbolizando este ingresso a entrada da alma no corpo físico. Esta ideia está presente nos céus se lembrarmos que a estrela Sirius, Sothis para os gregos, Sepedet para os egípcios, da constelação do Cão Maior, que cobre os trinta graus de Câncer, ao aparecer nos céus, anunciava a inundação do rio Nilo, dia  que marcava o início do ciclo anual e o Egito renascia. Era nesse momento que Osíris e Ísis, representantes das forças da fecundação e da geração de formas, venciam Seth, que representava as forças do mal, da esterilidade, do deserto.

PENTATEUCO
Entre os judeus, o quarto signo zodiacal, Câncer para nós, recebeu o nome de Tamuz. Para melhor compreender o que Tamuz significa,muito oportunas algumas referências históricas relacionadas com os três primeiros signos. Em Nissan (Áries) tivemos a libertação dos judeus do cativeiro egípcio, iniciada por Moisés e concluída por Josué, que os levou à terra prometida. Esta história, conhecida pelo nome de êxodo (ietssiat mitsraim), é o tema principal do segundo livro de Pentateuco. O êxodo é o centro da liturgia e das práticas do calendário judaico, de modo especial as festas relacionadas com peregrinações. Considera a liturgia que todo judeu, a qualquer tempo, participa do êxodo, pois o acontecimento é recriado a cada ano pelo ritual do Pesach.

Em lyar (Touro), temos a referência à descida do maná do céu, o alimento milagroso, em forma de orvalho, que alimentou os judeus durante o êxodo. Conta a tradição que o maná era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando nenhum vestígio no aparelho digestivo, e tendo o sabor que os seus consumidores quisessem. O maná não consumido era recolhido e dado aos animais. Consumida pelos gentios, a carne de tais animais permitiu que os gentios participassem inclusive, indiretamente, da dádiva celeste recebida pelo povo judeu. Uma das grandes vantagens que o maná proporcionava era de afastar os judeus da faina agrícola e dos afazeres domésticos, permitindo-lhes dedicar muito mais tempo ao estudo da Torá.


MOISÉS  RECEBE  A  TORÁ
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )  
No mês de Sivan (Gêmeos) temos a entrega divina da Torá a Moisés. Conceito central do judaísmo, a Torá, segundo os mestres judaicos, já existia antes do mundo vir a ser criado e foi usada por Deus como base para tal criação. A Torá foi revelada por Deus a Moisés no monte Sinai, durante os quarenta dias e quarenta noites que ele lá passou. Recebendo-a e passando-a para o povo judeu, a peçonha da serpente foi removida de Israel. A rigor, o nascimento de Israel só se deu neste mês, no qual a vida racional começa, com o recebimento da Torá por Moisés. É por esta razão que a Astrologia judaica considera os dois signos anteriores, Áries e Touro, como ligados à vida instintiva, pois estão relacionados com animais. É neste dois meses que os judeus devem se esforçar para elevar a sua alma "animal", isto é, devem procuram dominar a sua vida instintiva para que possam receber no mês de Gêmeos (Sivan) a Torá. 

ABRAÃO  E TRÊS ANJOS
( MARC   CHAGALL )
O desenvolvimento religioso do povo judeu, como sabemos, tem três fases: a primeira centrada na figura de Abraão, a segunda é associada a Jacó ou Israel e a terceira a Moisés. Só com o estabelecimento do pacto religioso do Sinai  e dos acontecimentos que se sucederam é que os filhos de Israel se tornaram realmente a nação de Israel. Foi este pacto do Sinai que consolidou um mundo até então disperso em tribos como uma verdadeira nação, uma congregação marcada por sua singularidade religiosa.   

Depois destes meses que constituem a primavera, os três seguintes, relacionados com o verão, são muito mais importantes para história de Israel, já que neles temos tanto o seu crescimento material como seu desenvolvimento na direção de elevados planos espirituais. É
TERRA  PROMETIDA
( MARC  CHAGALL )
nesta fase do zodíaco, associada simbolicamente a Israel, que a sua história começa, marcada pelo envio, por parte de Moisés, de espiões para investigar a terra prometida por Deus, da qual os judeus deveriam se apossar. Tal missão, iniciada em Tamuz, prolongou-se pelo mês de Av (Leão). A missão, como se sabe, falhou; as informações trazidas pelos espiões era falsas, o que ocasionou o adiamento da invasão. 

O signo de Tamuz, como quarto mês do calendário, começava no final de junho ou início de julho, sendo considerado o mês mais quente do ano, Durante este mês, os judeus observavam, a partir do dia dezessete, um período de três semanas de luto pela destruição do templo de Jerusalém, construído por Salomão. Os judeus acreditavam que em tal dia ocorreu não só a destruição do primeiro como, muito mais tarde, do segundo templo, destruídos respectivamente pelos babilônicos e pelos romanos, quando os muros da cidade foram rompidos. Tal acontecimento era comemorado por um dia de jejum, que dá início ao período de luto de três semanas. 

JOSUÉ  E  SEU  POVO
 ( MARC  CHAGALL )
Além das informações falsas sobre a Terra Prometida e seus habitantes, o comportamento dos espiões maculou a visão que os judeus deveriam ter da Terra Prometida. Dos doze espiões enviados, só dois, Josué e Calebe, a viram com olhos espirituais, guiados pela percepção intelectual Os demais falaram que a terra era excelente, mas que os judeus seriam mortos se tentassem tomar o país. A visão dos dez espiões foi falseada por razões emocionais, uma visão tipicamente canceriana, se usarmos a Astrologia para melhor interpretar esta passagem. Em Câncer há sempre o perigo que a visão emocional se sobreponha à racional, não permitindo que desta se passe à espiritual. 

As letras que os judeus ligam a este signo são Heth, que deu origem ao signo de Câncer, e Tav, que gerou a Lua. A primeira lembra existência rudimentar, a substância primordial dos organismos vivos, mas já capaz de sentir e reagir a estímulos. É a existência protoplásmica, matéria fundamental. Tav nos remete a ideias de abundância, calor, proteção. Heth, pelo seu lado positivo, sugere limpeza, purificação, qualidades que se levadas ao coração "limpam" a visão. Como dizem os judeus, o sentido do pecado está na visão. É por ela que somos geralmente tomados pelo desejo, pela concupiscência, o coração se enche de luxúria, e que passamos a viver só no reino da carne. "Vivendo" desta maneira, o coração aquece o sangue, aquecimento, sentido que a palavra Tamuz tinha no antigo aramaico. 

A Astrologia dos antigos judeus nos dizia que era durante o mês de Tamuz que os aspectos do mundo exterior se tronavam mais atraentes. Dizia-nos ela também que o caranguejo era o alimento preferido das pessoas que se entregam aos desejos e aos prazeres. Sartan (caranguejo) é nome que, embora pouco usado, serve também para designar quarta constelação zodiacal entre os judeus.
TRIBOS   DE   ISRAEL
( MARC   CHAGALL )
O regente do signo de Tamuz é a Lua, que tem um grande poder sobre as águas. O Zohar, por sua vez, que estabelece uma correspondência entre as tribos de Israel  e os meses do ano, aponta uma relação entre os signos de Nissan, tribo de Judá, e de Tamuz, tribo de Ruben, pois ambos marcam o início de estações. Ainda astrologicamente, podemos que as três dinâmicas zodiacais, a cardinal, a fixa e a mutável, são representadas, respectivamente, por Abraão, por Isaac e por Jacó. O elemento de Tamuz é a água, compartilhada por ele com os signos de Cheshvan (Escorpião) e Adar (Peixes), relacionados respectivamente com as tribos de Menasche e Naftali. A energia de Tamuz é, como se disse, representada por Reuven ou Ruben (etimologicamente, reu, ver, e vem, filho), que se guiou sozinho pelo deserto quando do êxodo. A tribo de Ruben, instigada por Korach, o levita, se rebelou contra a autoridade de Moisés.

O   BEZERRO   DE   OURO  ( MARC  CHAGALL )

Dizem os antigos astrólogos judeus que os sentidos da visão e da audição são os mais fácil e imediatamente impressionáveis e que, por isso, são sempre os que nos empurrar para agir mais precipitadamente. As tribos de Ruben (Tamuz) e de Shimeon (Av) agiram dessa forma no deserto, procedimento muito comum, no dizer dos referidos astrólogos, das pessoas que sofrem a influência dos dois signos, considerados muito problemáticos. Foi no mês de Tamuz que ocorreu o episódio do Bezerro de Ouro.

A água (o movimento das marés), como elemento de Tamuz, aparece normalmente associada ao desejo entre os judeus. Ambos, a água e os desejos, por suas características lunares, estão sempre a fluir, fazendo o homem mudar sempre. Devido às influências de Tamuz, o homem se torna excessivamente sensível, oscilante, cheio de suscetibilidades, idiossincrático, lembrando muitas vezes, com a sua instabilidade, principalmente a emocional, o movimento dos caranguejos. É de se lembrar que muito antes de adotarem a Astrologia grega, os árabes já conheciam a constelação de Câncer, dando-lhe o nome de Al Saratan, o caranguejo. Nos dialetos aramaicos, a constelação era chamada de Sartana ou Sartan.

Devido ao seu aspecto, o caranguejo era considerado pelos antigos egípcios como um símbolo do poder produtivo das águas, sobretudo pela sua capacidade, segundo eles, de separar de seu corpo seus membros mutilados para dar nascimento a outros. Além do mais, em virtude de seu aspecto repelente, de suas pinças e de sua carapaça, que lembra a proteção de muitos seres demoníacos, o caranguejo sempre foi considerado como uma criatura do mal, satânica. Essa reputação se deve naturalmente à sua natureza lunar, maléfica, atestada desde a mais remota antiguidade. Não é por acaso que o caranguejo, enviado por Hera, aparece nos trabalhos de Hércules como um auxiliar da monstruosa Hidra de Lerna. Hércules, como se sabe, no seu oitavo trabalho, venceu a Hidra e matou o caranguejo, cuja imagem a deusa colocou nos céus para representar a quarta constelação zodiacal.


HÉRCULES  LUTANDO  CONTRA  A  HIDRA  E  O  CARANGUEJO

Domicílio da Lua, Câncer, como todo signo astrológico, apresenta características bastante ambíguas, que podem ser vividas positiva como negativamente, embora, de um modo mais abrangente nos parecendo que estas últimas prevaleçam bem mais. Se de um lado temos ideias de fecundação, de geração, de (hiper)sensibilidade, de memória ativa, de outro temos aderência prolongada ao princípio maternal, dificuldade de libertação de esquemas familiares protetores, excesso de emotividade, infantilismo psíquico, gosto pela intimidade etc. A associação do signo com o universo aquático faz de Câncer o símbolo das águas originais (o líquido amniótico), do mistério das águas profundas e dos segredos. 

Quando aproximamos os valores cancerianos das histórias das grandes famílias (gene, plural de genos) da mitologia grega, principalmente as reais, podemos ampliar bastante as possibilidades significativas tanto de um lado como de outro. Ao fazer esta aproximação, o que de imediato mais chama a nossa atenção são os fortes traços de violência e maldição, de perversidade e de perturbação mental, de loucura mesmo, que impregna as relações entre os seus membros.

Quanto a crimes e a procedimentos anormais, a mitologia grega é farta quanto a exemplos  que bem ilustram o que está acima. Alguns exemplos: Parricídio (Kronos castrando seu pai Urano; Édipo matando Laio, seu pai, pelo direito de passagem). Matricídio (Clitmenestra assassinada por seu filho Orestes, instigado por sua irmã Electra). Uxoricídio (Hércules, numa crise de loucura, matando Mégara, sua esposa). Mariticídio (as Danaides matando seus maridos). Infanticídio (Medeia matando os seus filhos; Hera mandando matar os filhos espúrios de Zeus). Filicídio (Tântalo matando seu filho Pelops). Fratricídio (Etéocles e Polinice, irmãos, se matando). Incesto (relações de Mirra com Cíniras, seu pai, rei de Creta).  Zoofilia (Pasífae, rainha de Creta, relacionando-se
PLUTÃO   RAPTA  KORE
( J.P. VAN  BAURSCHEIT, 1699-1768 ) 
sexualmente com o Touro divino de Creta, enlouquecido, e tornando-se mãe do monstruoso Minotauro). Corrupção passiva (Hércules solicitando ao rei Augias dinheiro "por fora", quando sua realização do seu décimo primeiro trabalho). Raptos e sequestros (Plutão raptando sua sobrinha, Kóre, filha de Deméter, e levando-a para o Hades, onde se transformou em Perséfone, rainha do mundo infernal; Zeus e Poseidon raptando, respectivamente, os belíssimos Ganimedes e Pélops, para transformá-los em seus escanções pessoais). Genocídio (o massacre praticado por Hércules, quando do seu sexto trabalho, em companhia de outros heróis gregos, invadindo Timiscira, a capital do país das amazonas). Há que se mencionar ainda as taras familiares, como as dos Labdácidas e dos Átridas, que fazem parte desse quadro, todas, de um modo ou de outro, podendo ser consideradas e analisadas astrologicamente a partir dos valores cancerianos.

O que a mitologia grega deixa claro, em que pesem as tintas muito carregadas dos exemplos acima, é que o cenário ambiente dos gene, principalmente das famílias reais, como se disse, é sempre um lugar de lutas, de crimes, de violência, de doenças, de miasmas, de heranças malditas. Um exemplo clássico é o da sucessão das dinastias divinas, um reflexo certamente bastante exagerado das relações familiares de um mundo patriarcal fechadíssimo, mas, à sua maneira, sob muitos aspectos, aceitáveis. Um dado importante que podemos retirar da história da sucessão do poder nas dinastias divinas é que o filho nasce sempre da morte do pai. De ambos os genitores?  Uma antecipação freudiana?


FREUD ( W.V. KRAUSZ , 1936
Uma das mais importantes histórias da mitologia grega, a de Édipo, toda ela centrada em valores familiares, está nos fundamentos do pensamento psicanalítico moderno como Freud o elaborou (se quiser, visite neste blog o artigo Édipo, Jocasta, Antígona, Freud e Anna) . É dele que saiu, por exemplo, o famigerado complexo de Édipo, hoje diluído pelos meios de comunicação para o grande público. Jung, na chamada psicologia profunda, não se cansou, em companhia de Kerényi, de visitar os mitos gregos e de escrever sobre eles. 

ARLEQUIM  E  PIERRÔ
( ANDRÉ  DERAIN , 1880 - 1954
Em muitas fontes artísticas, literárias musicais e cinematográficas podemos encontrar temas e personagens (alguns mitificados) que pode servir de rica ilustração do mundo canceriano. Um dos mais fascinantes personagens é o do Pierrô. Sonhador, poeta, vivendo no "mundo da Lua", usando uma espécie de caftã branco aperolado, é um dos mais notáveis personagens lunares no mundo da arte. É o oposto de Arlequim, este tipicamente geminiano. Oriundo da Commedia dell´Arte, como o Arlequim, tem nela o nome de Pedrolino. Apareceu em Paris no séc. XVI, de onde saltou para os teatros de feira, para a Ópera Cômica francesa e para o resto do mundo, inclusive para o carnaval brasileiro, onde tem como parceira Colombina. Maestro da pantomima, Pierrô não consegue falar, apenas sente. Ingênuo e sentimental, com a sua roupa enfeitada de pompons e gola grande franzida, ama Colombina, que não o ama. O Pierrô foi imortalizado por um dos maiores atores do teatro e do cinema de todos os tempos, Jean-Louis Barrault, como Baptiste, no filme Les Enfants du Paradis (exibido no Brasil com o idiota título Boulevard do Crime), de Marcel Carné, obra-prima do cinema francês (1945). Nas artes plásticas, Antoine Watteau (1.684-1.721) imortalizou o personagem na tela como Pierrot ou Gilles. Na música, o personagem foi homenageado por Arnold Schoenberg que, com a sua peça Pierrot Lunaire, produziu uma das mais revolucionárias obras musicais do séc. XX. 



Uma das melhores ilustrações do signo de Câncer nós a encontramos, sem dúvida na lâmina XVIII do Tarot, nela estando incluídas, segundo nossa interpretação, referências às constelações do Cão Maior e do Cão Menor e às suas duas mais importantes estrelas, Sirius e Procyon. Lembre-se que a primeira constelação mencionada estende-se de 0º de Câncer a 0º de Leão e a segunda de 19º a 28º de Câncer. Sirius está hoje aproximadamente a 13º24´de Câncer e Procyon a 25º06´de Câncer. A constelação de Câncer, por sua vez, estende-se de 22ºde Câncer a 17º de Leão.

Associando-se a Câncer, as estrelas Sirius e Procyon, numa interpretação astrológica (veja, se quiser, neste blog, os artigos sobre as constelações do Canis Major e do Canis Minor) indicam que elas influenciam fortemente o mundo canceriano ao indicarem que a partir dele há um eu a ser construído (passagem de Câncer para Leão ou da quarta casa para a quinta casa astrológicas). Não é por outra razão que num plano psicológico, o cão é um arquétipo da individuação, representando o primeiro estágio da nossa evolução psíquica. O modelo básico deste entendimento está em Cérbero, o cão tricéfalo, de dentes envenenados, que guarda as portas do Inferno (Hades), símbolo do limiar que separa o consciente do inconsciente, primeiro estágio de nossa evolução. Amigo fiel do homem, seu companheiro desde a mais remota antiguidade, seu indicador de trilhas na arte da cinegética, animal psicopompo por excelência, o cão sempre foi miticamente o seu guia na vida como na noite escura da morte.


Para Ptolomeu, as estrelas que estão nos olhos do caranguejo exercem influências de natureza mercuriana. As que estão nas pinças atuam saturninamente e mercurianamente. A estrela mais brilhante de Câncer é Acubens, numa das pinças. As outras estrelas de Câncer, menos importantes, são os dois Asnos (Aseli), o Boreal (Norte) e o Austral (Sul), estrelas assim designadas para honrar os dois animais, um de Hefesto e outro de Dioniso, por eles montados na Titanomaquia. Há também em Câncer uma nebulosa a que se deu, segundo a tradição, o nome de Manjedoura, de Colmeia, de Creche ou Presépio, na cabeça do caranguejo. Simbolicamente, não é preciso muito esforço para se perceber que os nomes desta nebulosa se associam a lugares protegidos onde se come e onde também são dispensados cuidados maternais (Creche). Já a palavra presépio lembra, etimologicamente, lugar fechado onde se guardam animais durante a noite (prae,  antes, na frente, e saepes, cerca, barreira).

Diante do que se expõe acima, fica difícil entender por que os cristãos fixaram a data de nascimento de Jesus Cristo no solstício de inverno (dezembro, signo de Capricórnio) e adotaram para representar esse nascimento, desde S.Lucas, um cenário que a tradição sempre associou ao signo de Câncer (solstício de verão). O nome de Colmeia, por sua vez, nos remete a uma ideia de agrupamento, tanto de vida comunitária como de massificação, um conjunto de seres submetido a um destino do qual não se pode escapar, um destino inexorável, imutável. A massa, o pastoso, o sem forma é o que chamamos popularmente de povão, sempre a ser modelado. E, apesar deste destino, também presentes, algumas vezes, cada vez menos aliás, sugestões de sacrifício do individual pelo coletivo, de solidariedade, de misericórdia, características quem sabe ainda presentes em certos tipos humanos do signo. 


MODERNO TELESCÓPIO
HUANCAYO , PERU
Sob o ponto de vista de antigas tradições astrológicas (Aratus), a Colmeia, como nebulosa, pode prejudicar a visão daquele que sofre influência. Ela, como toda nebulosa, não permite que "vejamos" bem, isto é, não enxergamos nada além dos valores cancerianos. Esta nebulosa é uma das maiores e mais brilhantes do céu, podendo ser vista a olho nu em noites muito claras. Galileu quando a viu registrou nela observou 36 estrelas. Modernos telescópios aumentaram esse número para 300. Sua distância da Terra é estimada em 525 anos-luz. 

SÃO  JOÃO
( EL  GRECO , 1541 - 1614 )
Já na antiguidade estavam identificadas 83 estrelas em Câncer, nenhuma delas merecendo destaque especial. Por esta razão, o signo foi muitas vezes designado pelo nome de O Ataúde pelos judeus e de O Sepulcro de Lázaro pela tradição cristã. Lázaro, amigo de Jesus e por ele ressuscitado, como se sabe, aparece no evangelho de S.João e era amigo de Jesus, irmão
MARIA  BETÂNIA
( RUBENS , 1577 - 1640 )
de Marta e de Maria Betânia. A lenda o fez desembarcar milagrosamente em Marselha, cidade marítima do sul da França, da qual ele se tornará o seu primeiro bispo e lá será martirizado. Não se deve confundir este Lázaro (em hebraico, coberto de úlceras, chagado) com o mendigo leproso de que fala S.Lucas. Deste Lázaro é que vêm nomes como lazarento e leprosário. 

Quanto ao simbolismo de ataúde, ele aponta aqui para o fato de que a morte tudo nivela. No ataúde, todos são iguais, ninguém tem mais identidade. Uma alegoria que, sem dúvida, liga o signo de Câncer (quarta casa astrológica) ao ataúde. Na medida em que este seja uma simples caixa de pinho ou um rico caixão funerário, feito com madeiras nobres e ricos ornamentos metálicos trabalhados, o signo de Câncer se constitui para muitos, sem dúvida, um "morada" de gente morta, sem vida própria. 

Acubens é uma estrela de quarta magnitude, não tendo praticamente maior presença na Astrologia. Está hoje a 12º57´ de Leão. O nome veio do árabe, Al Zubanah, que tem relação com as pinças. Ela incorpora praticamente todo o simbolismo do signo enquanto persistência, ainda que claudicante, habilidade para evitar ou superar circunstâncias adversas. Presentes no simbolismo também sempre ideais de origem (Cloto) e de morte ou renascimento (Átropos). Negativamente, Acubens é apagamento e morte.