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domingo, 23 de maio de 2021

TOTH

    

TOTH


DJEUTHI
Toth é a forma que toma, na época greco-romana, o nome do deus de Djeuthi, identificado pelos gregos como uma espécie de Hermes. Deus da Lua, da escrita, da magia, da sabedoria, Toth era adorado no Baixo Egito, desde o período pré-dinástico. 

TUTHMOSIS
Seu nome foi adotado por muitos faraós, como o de Tuthmosis (nascido de Toth). É ele muitas vezes descrito como um ser humano com cabeça de íbis ou como um babuíno africano sentado com um disco lunar sobre a cabeça. Era conhecido também como “aquele de Djehuthi”, este último nome pelo qual se identificava em tempos muitos remotos o Baixo Egito, cuja capital, Hermópolis Parva (pequena), parece ter sido o berço do culto do deus, transferido depois para um grande templo no alto Egito, em Hermópolis Magna. 

Toth era também o mensageiro dos céus, adorado em todo o Egito como deus lunar, senhor das letras e das ciências, das invenções e da sabedoria, patrono dos escribas, porta-voz e arquivista dos deuses. Era, como escriba divino, aquele que anotava as palavras de Ptah e os veredictos de Anúbis, quando este pesava a alma dos mortos.

O deus era representado comumente por uma íbis (ave venerada no Egito antigo) ou por um ser com o corpo humano  com uma cabeça de íbis, encimada por um crescente lunar ou por um ser com uma cabeça de macaco, de focinho alongado como o de um cão. Segundo os mitos hermopolitanos, Toth era o verdadeiro demiurgo universal, pois, com a sua voz, materializou tudo, inclusive os deuses, a partir do Num primordial.

HERMÓPOLIS
Toth era a palavra criadora na forma do deus ainda como patrono dos astrônomos, dos contadores, dos mágicos, dos curandeiros e dos encantadores. O bico da íbis simbolizava toda operação intelectual prática, embora, por mais prática que fosse, nenhuma operação intelectual poderia, para os antigos egípcios, excluir o seu lado esotérico. A íbis, assim, pela forma de seu bico, sempre lembrou o crescente lunar. 

Mais: a ave será um emblema da arte médica, pois seu bico tem a forma de um clister, a seringa retal usada para lavagens e purificações internas. O crescente lunar lembrava também periodicidade, renovação, transformação e crescimento, já que a Lua é o astro dos ritmos biológicos por excelência. Crescendo, minguando, desaparecendo e retornando, a Lua indicava que a vida estava submetida à lei universal do vir a ser, do nascimento à morte. 

Quanto ao macaco, a relação se estabelece através do comportamento do animal: agilidade, capacidade para reproduzir, para imitar, movimentação descontrolada, agitação. Por isso, Toth, nos seus aspectos negativos, pode ser um símbolo da consciência dissipada, indeterminada, ambivalente. Já com relação ao cão, lembremos que os deuses cinocéfalos têm, dentre outras funções, nas mais variadas mitologias, a de guiar os mortos  na travessia noturna da morte depois tê-los acompanhado durante toda  a vida.

PTAH

A associação de Toth com Ptah se dá a partir de Mênfis, centro do culto deste último, onde foi adorado como criador do mundo. Seu pensamento é Áton, representado pelo disco solar, e sua língua é Toth. Ptah aparece também como o patrono dos artesãos, dos artistas, inventor das artes, metalúrgico e construtor. Uma espécie de Hefesto grego. Anúbis era o deus que abria o caminho  do outro mundo para as almas dos mortos. Deus psicopompo, pois, representado por um chacal negro ou como um ser humano com a cabeça do animal (às vezes, cão). 

ANÚBIS
O culto de Anúbis tinha como centro Cynópolis. Presidia o deus aos embalsamamentos e à encomendação dos corpos (preces funerárias). O chacal, entre os egípcios, era um animal ligado a cemitérios, alimentando-se de cadáveres, sendo, por isso, em muitas tradições símbolo de mau augúrio. Anúbis, o deus chacal, era, por isso, com todo o seu poder, o grande senhor das necrópoles.

PLATÃO
Na função demiúrgica (demiurgo de demo, povo, público e ourgos, produtor), Toth tornou-se assim o intermediário entre o mundo divino e a criação. O Cristianismo se apropriará dessa função pela via grega, atribuindo-lhe, além da organização do mundo material, a criação do mal, que não poderia ser atribuído ao Criador Supremo. Segundo Platão, demiurgo é o artesão divino, o princípio organizador do universo que, sem criar de fato a realidade, a modela e organiza a matéria caótica preexistente através de modelos eternos e perfeitos. Num ou Nu para os egípcios é o Caos, uma espécie de oceano primordial, abismo caótico onde estavam os germes de todas as coisas. Não é propriamente um conceito religioso, parece-se com o Brahman dos hinduístas. Mais filosófico, o conceito não era entre os egípcios o resultado de uma especulação abstrata. Provavelmente lembrança de uma época muito remota. Uma fórmula gravada nas pirâmides fazia alusão a um tempo em que o céu não tinha nascido, nem a terra, os humanos, a morte, os deuses, nada. A noção de Num viria do paleolítico, a visão do Nilo monstruoso e indisciplinado que procurava o seu leito no continente africano. A cada inundação tudo parecia se desfazer, um mar imenso, de onde depois emergiria a vida. A autoria da criação não é do Num, que traduz como conceito mais uma ideia de passividade, de onde surgirá também a primeira força divina. 

GEB E NUT

RA
Em antigas inscrições nas pirâmides Toth aparece ora como filho de Ra, ora como filho de Geb e de Nut, ora simplesmente como o vizir divino. Fiel a Osíris, ajudará Ísis a fazer seu irmão e esposo voltar à vida, tornando-se protetor de Hórus, na luta que este travará contra Seth, inimigo mortal de seu pai. Ra ou Re era o deus solar de Heliópolis, criador do universo no seu aspecto energético, pai dos nove deuses primordiais (enéada). A cada dia, realizava a sua viagem para, à noite, mergulhando nas trevas, lutar contra a serpente Apópis, imagem do caos, sempre vencida, mas sempre ameaçando a marcha solar. 

RA  KHEPRI
Ao raiar do dia, Ra é Khepri; ao meio-dia é Ra, ele mesmo, e ao entardecer é Áton. Khepri vem de kheprer, escaravelho, figura utilizada para dar imagem ao verbo kheper, isto é, “aquele que veio à existência por si mesmo”, o sol levante. O escaravelho, como sabemos, é um símbolo cíclico do Sol e de sua ressurreição.

PLUTARCO
Geb e Nut, na informação de Plutarco, formam um casal divino, que tem muito em comum com Cronos e Reia gregos. Geb cederá seu reino a seu filho mais velho Osíris, uma mistura de Dioniso e de Hades-Plutão gregos. Primitivamente, um deus da vegetação, ou melhor, é o espírito do mundo vegetal, que morre e renasce constantemente. É neste sentido que Osíris é o deus dos mortos e do renascimento, tornando-se a primeira divindade do panteão egípcio. Seu culto se irradia de Tebas,  Alto-Egito. Como deus civilizador, seu grande vizir é Thot. Devido a um complô preparado por Seth, seu irmão, é assassinado. Ísis, sua irmã e amante, recupera o corpo, ajudada por Thot, por Anúbis e por Hórus, este último filho de Osíris e da deusa. Seth será condenado. A ressurreição de Osíris é devida, sobretudo, à palavra, ao poderoso verbo, e à magia de Toth, bem como à purificação a que o deus-médico submete Osíris. Osíris é o deus do mundo vegetal e, em especial, do trigo e da vinha. O conflito que mantém com Seth simboliza a luta entre o deserto e a terra frutífera, o vento seco e áspero e a umidade fecundante, as trevas e a luz.

Dotado de todo o saber, Toth inventou todas as ciências e artes: aritmética,  geometria, astronomia, agronomia, adivinhação pela magia, medicina e cirurgia,  música com os instrumentos de corda e de sopro, desenho e, acima de tudo, o alfabeto e a escrita, sem os quais a humanidade correria o risco de esquecer e perder as suas descobertas. É por esta razão que a profissão de escriba no antigo Egito era uma das mais importantes. A eles cabia o registro de tudo o que ocorria, na vida pública e particular. Pesavam, mediam, classificavam, inventariavam, arquivavam. Os textos falam que “um livro é mais importante que uma casa, que um palácio, que uma lápide num templo.”

HERMES TRIMEGISTO
Designado, por ter inventado os hieróglifos, como o Senhor das palavras divinas, é também reverenciado como o primeiro dos mágicos. Seus discípulos podiam entrar livremente na cripta onde ele guardava seus livros de magia para consultá-los e aprender a decifrar as fórmulas do mundo natural e delas se assenhorearem. Foi este enorme poder que levou seus fiéis a designá-lo pelo nome de Hermes Trimegisto (Hermes = pilares de pedra; Trimegisto =três vezes grande) no período helenístico da história grega. 

HARPÓCRATES
Retirando-se para o céu, depois de sua longa permanência na terra, Toth continuou desempenhando várias funções: é o deus da Lua, ou melhor, o seu guardião. O deus, na forma de um macaco cinocéfalo ou de íbis, vela a Lua, o olho esquerdo de Hórus, representado sob a forma de um falcão (princípio celeste) ou ser humano com a cabeça da ave. Seus olhos são o Sol e a Lua. Os gregos o vêm como uma espécie de Apolo. Uma das grandes representações de Hórus é a dele como criança, Harpócrates. O mundo greco-romano fará dessa representação uma divindade do silêncio, honrado por filósofos e místicos. 

Uma passagem de O Livro dos Mortos narra que Ra ordenou a Toth que tomasse o seu lugar no céu enquanto ele visitasse o mundo inferior e que ele assumisse a proteção da Lua, quando de suas viagens noturnas na forma de um barco, protegendo-a contra os monstros que tentavam devorá-la. Na qualidade de deus lunar, Toth é a divindade das medidas e das divisões do tempo. Como administrador de todas as ações divinas, cabem-lhe todos os registros e cálculos, desde a divisão geográfica do país, suas dimensões, o levantamento dos recursos naturais e o inventário de todos os seus tesouros.

HELIÓPOLIS
Arquivista dos deuses, é, ao mesmo tempo, patrono da História. Anota cuidadosamente a sucessão dos soberanos, escrevendo, sobre as folhas da árvore sagrada de Heliópolis, o nome do futuro faraó que a rainha acabava de dar à luz, fruto de sua união com o senhor do céu. Inscreverá também Thot, sobre folhas da palmeira sagrada, os anos felizes que as divindades lhe concederão. Fecha seus escritos com a expressão: "Ra o disse, Thot o registrou".

MAAT
Recebendo plena confiança dos deuses, Thot é o árbitro de todas as questões e disputas universais. Por sentença sua, Horus é absolvido por ter atacado Seth, vingando, assim, seu pai, Osíris, e aquele é condenado. Os textos registram que Maat, a deusa da Verdade e da Justiça, é a companheira natural de Toth, embora às vezes outras ligações sejam apontadas. A principal festa de Toth era celebrada, segundo Plutarco, alguns dias depois da Lua cheia, no começo do ano. Neste período, as pessoas se saudavam com a expressão doce. Frutas (o figo, em especial) e mel eram sempre oferecidos nessas ocasiões.

Toth, o senhor da luz e do intelecto, quando prestou favores ao grande deus Ra, recebeu a incumbência de se responsabilizar não só por todos os astros da noite como, de modo especial, de tutelar a Lua e de governar o período que se estendia de 15 de maio a 16 de junho do ano em curso. Para os egípcios, os nascidos nesse período, recebem do deus muitos dons, sendo privilegiada a sua inteligência, a sua capacidade de se comunicar e de relacionar, embora, no geral, sempre encontrem muitas dificuldades quanto à sua vida afetiva devido à sua grande inconstância. 


 



quarta-feira, 1 de março de 2017

TOURO (3)

        

APIS

Dentre os vários animais sagrados da religião egípcia, um dos mais importantes foi o touro, adorado sob o nome de Apis, transcrição grega de Hapi. Seu principal culto estava centralizado em Mênfis, onde aparecia associado ao deus Ptah. Este deus, protetor dos
PTAH
artesãos e dos artistas, foi identificado pelos gregos como uma das formas possíveis do seu deus Hefesto, deus metalúrgico, mestre das artes do fogo, grande divindade construtora. Ptah foi no Egito o inventor das artes, trabalhando com metais, sendo também uma divindade construtora. Era apresentado como um homem mumificado, num pedestal; nas mãos, um cetro no qual estão reunidos símbolos da vida, da estabilidade e de onipotência.


Era adorado em Mênfis em companhia de sua esposa, a deusa Sekhmet e de seu filho Nefertun. A construção de templos e de monumentos religiosos estava colocada sob a sua tutela, Recebia, por isso, o título de “Grande Chefe das Artes”. Perto de seu santuário em Mênfis se fazia  a adoração do touro Apis, uma encarnação sua. Ainda que se dessem a Ptah qualificativos de beleza (o de bela aparência), Ptah era representado, muitas vezes, como um anão disforme, de pernas tortas, arqueadas, os punhos fincados nas ancas, a cabeça inteiramente raspada, ornada com uma trança. Nessa forma era reverenciado como protetor contra os animais perigosos ou daninhos de qualquer espécie e contra todas as formas do mal. A função a que os gregos chamavam de apotropaica.

Sob a forma de um fogo celeste, como muitas imagens mostravam, Ptah fecundava uma bezerra virgem e renascia através dela como um touro negro, que os sacerdotes reconheciam por certas marcas distintivas, de caráter religioso. Para ser considerado como uma reencarnação de Ptah, o touro deveria ter sob a sua fronte um triângulo branco, sob seu corpo a figura de um abutre de asas abertas, sob seu flanco direito um crescente lunar, na língua a imagem de um escaravelho, devendo os pelos de sua cauda ter uma forma bífida. 

Enquanto vivesse, Apis era alimentado com todo o cuidado num templo de Mênfis, vizinho ao de Ptah. Uma vez por dia, Apis era trazido para um pátio do templo, sendo seus mugidos recebidos com grande alegria por inúmeros visitantes, inclusive de estrangeiros em visita ao país, ainda no período helenístico. Cada um dos movimentos de Apis era interpretado como sinal de algum acontecimento futuro. A morte súbita do príncipe Germanicus, sobrinho do imperador Augusto, segundo consta, foi anunciada pelo touro Apis quando ele recusou receber das mãos do príncipe a comida que ele procurava lhe dar, um sinal de mau augúrio.

Apis geralmente morria de velhice. Quando tal não acontecia, isto é, quando a morte retardava demais a sua chegada, deteriorando-se a sua saúde, Apis era sacrificado. O encontro de um novo Apis era sempre celebrado com muita alegria em todo o país. Em 1.850, arqueólogos descobriram uma necrópole menfita onde foram encontrados vestígios de esplêndidos funerais realizados em homenagem ao touro Apis. 


SERAPEUM


SERAPIS
Os gregos rendiam ao touro cultos funerários como os celebrados em homenagem a Osíris no Egito. Nessa condição, os gregos chamavam o touro egípcio de Osorapis, depois identificado como o deus Serapis, adorado segundo um rito puramente grego no grande Serapeum de Alexandria. Deus infernal, Serapis, confundido com Osorapis, foi adorado ao lado do templo deste em Mênfis.

Hathor era uma divindade feminina na qual os gregos viam traços de sua Afrodite. Deusa celeste, passava por ser filha de Ra e mulher de Horus. Em alguns períodos da história religiosa do Egito, ela passa por mãe de Horus, sendo seu nome traduzido pela expressão “a morada de Horus”, explicada esta designação como sendo ela, a deusa, o lugar onde, a cada crepúsculo, o deus solar se recolhia para depois renascer a cada manhã. De um modo geral, os lugares pantanosos, lugares de origem da vida, eram de Hathor. Antropomorfizada, de rosto redondo, com vasta cabeleira encaracolada, a figura de Hathor, ao evocar a Lua cheia, era particularmente reverenciada pelos beduínos do deserto.

HATHOR
É ela, Hathor, registram os textos, a grande vaca celeste que criou o universo  e tudo o que ele contém, inclusive o Sol. É representada como uma vaca, seu animal sagrado ou como uma figura antropomorfizada, uma deusa com a cabeça do animal. Noutras vezes ainda, uma figura feminina ornada com chifres. 
MENAT
Esta deusa tinha ainda um fetiche no qual gostava de se encarnar, o sistro, instrumento musical também muito usado nos cultos de Ísis, que tinha a finalidade de espantar maus espíritos e de acalmar os deuses. Dentre os objetos mais sagrados de Hathor encontramos também um colar chamado menat, símbolo da fertilidade.

Hathor, às vezes se transformava numa leoa (Pakhet), forma através da qual se ligava aos vales férteis na beira de lugares desérticos, onde animais selvagens indefesos como as corças vinham se abrigar e saciar a sua sede. Honrada como leoa, Hathor era ainda reverenciada nos desertos do Sinai, onde se encontravam minas de  turquesa, pedra da sua predileção. 


DENDERAH

A arquitetura da cidade de Denderah tinha a forma do sistro. A cidade era a capital de um dos nomos do Alto-Egito, colocada sob a tutela de Hathor. Num recinto dessa cidade se realizava uma cerimônia chamada de “união ao disco”, quando das festas do início de cada ano. Nas paredes desse recinto foi encontrada a pintura de uma carta celeste, nela figurando, numa de suas mais antigas representações, o Zodíaco com os seus signos e respectivos decanatos.

Hathor era a protetora das mulheres, governando a estética do mundo feminino (roupas, joias, atavios, penteados, beleza corporal, maquiagem etc.). Sob sua tutela ficavam o amor, a alegria de viver e os prazeres da vida.  Era conhecida no Egito como a “senhora da alegria, da dança, do canto, do enlaçamento das guirlandas”. Seu templo era a morada do prazer, da vida agradável. Alimentava os humanos com o leite de seu seio. Comuns as representações de faraós mamando nas tetas de Hathor. 


LIVRO   DOS   MORTOS

Além de cuidar dos vivos, Hathor se preocupava também com os mortos. Sob o nome de “rainha do Ocidente”, ela é a protetora da necrópole tebana e ilustrações de O Livro dos Mortos mostram-na pontificando para os lados das montanhas da Líbia, limite do mundo dos vivos, pronta para acolher os mortos quando da sua chegada ao Outro Mundo, livrando-os de inúmeros perigos, desde que saibam a ela recorrer com as preces adequadas. Ela é também chamada de “A Deusa do Sicômoro”, pois, ás vezes, ela se refugia na folhagem desta grande árvore, encontrada nos limites dos desertos, para acolher o morto, dando-lhe a água e o pão das boas-vindas. 

Árvore sagrada do Egito, o sicômoro, com a sua abundante ramagem, simbolizava a segurança e a proteção que socorria as almas. Subir num sicômoro era participar da vida espiritual. Contudo, esta subida devia ser feita sempre com cuidado, com humildade. Do contrário, a árvore simbolizaria desinteresse pelas coisas terrestres , desprezo da opinião pública, rebeldia, revolta, vaidade. Denderah era a cidade de Hathor, importante centro astrológico. Lá, Hathor vivia em companhia do marido, Hórus, e de seu filho, Ehi, um menino que agitava o sistro ao lado de sua mãe.

SICÔMORO
O sicômoro, a chamada figueira dos faraós (fycus sycomorus), é uma árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo muito útil também na tinturaria (tingimento de tecidos). Era empregada também, por sua madeira muito resistente, na construção de sarcófagos, de móveis e de instrumentos musicais (Para maiores detalhes, veja neste blog o artigo A Figueira).  


NUT
É preciso não esquecer que no panteão egípcio, nas suas primeiras definições, encontramos a deusa Nut, que os gregos associaram a Reia, filha de Urano e de Geia, uma titânida, irmã e mulher de Cronos. Nut é irmã de Geb, no qual os gregos viram seu deus Cronos. Eles formavam um casal, o segundo na sequência divina desde as origens. Uniram-se contra a vontade de Ra (O Criador, o Sol), que os separou brutalmente, decretando que Nut não poderia parir, que não poderia dar filhos à luz. Segundo o mito, Thot, felizmente, teve pena dela e, jogando damas com a Lua, dela subtraiu energia para que ela, Nut, fizesse mais cinco dias, que ficaram fora do calendário, os chamados dias epagômenos.

Nut conseguiu assim dar à luz cinco filhos: Osíris, Haroeris, Seth, Isis e Nephtys. O nome desta última significa “A Senhora do Castelo”, uma divindade infernal. Unindo-se a Seth, não teve filhos.  Desejou então um filho do irmão mais velho, Osíris. Para
ANÚBIS
tanto, conseguiu embriagá-lo e do conluio amoroso que com ele manteve, sem que ele disso tivesse consciência, nasceu Anúbis, deus chacal, do mundo dos mortos. Nephtys simboliza as margens do deserto, região comumente árida, mas que pode se tornar fecunda. Quando Seth matou Osíris, ajudou Ísis a mumificá-lo, participando da cerimônia fúnebre, entoando com a irmã as lamentações de praxe.


APOPHIS
Seth, também conhecido como Apophis na sua forma dracôntica, é, como sabemos, monstruoso, lembrando o Tifon dos gregos, um agende do caos.É a seca do deserto, a negação da vida, inimigo de tudo o que é bom e justo. Haroeris significa “O Grande Hórus”. Representava, com os seus olhos, os dois luminares. Representava também a eterna oposição entre a luz e as trevas. Era o ancestral de todos os faraós. É diferente de Hórus, do mito osiriano, filho de Ísis e de Osíris, representado pelo falcão.


NUT

Nut é a deusa do espaço celeste, representando-o na forma de uma mulher que, apoiada na ponta dos dedos da mão e dos pés, forma uma curvatura com o seu corpo Seu ventre sempre estrelado, é a abóbada celeste. Uma forma pela qual Nut aparece amiúde nos mitos é a de uma vaca. O ventre de Nut confunde-se com o próprio firmamento, nele estando fixadas todas as constelações. Ela assume a condição de mãe do Sol que nasce de um lado de seu corpo e se põe no outro. Antropomorfizada, carrega na cabeça um pote enorme (hieróglifo de seu nome). Aparece como protetora dos mortos, abraçando fortemente os defuntos,  vela maternalmente as múmias.  

Ligado ao signo de Touro temos o tema do bezerro de ouro, símbolo da riqueza material, na medida em que ele foi (é) idolatrado no lugar de divindades.  Este ídolo começou a ser cultuado quando da ausência de Moisés, que subira ao Sinai para
BEZERRO   DE   OURO
receber os ensinamentos divinos. O ídolo, conforme se sabe, foi construído com os brincos de ouro das mulheres. É um símbolo da fertilidade orgiástica. Como Moisés não dera mais notícias desde que se ausentara e julgando os judeus que ele não mais desceria da montanha, o bezerro de ouro foi construído por Aarão, irmão de Moisés e de Miriam. Alegou ele, para justificar a construção do ídolo, que assim o fazia para que os israelitas não se tornassem culpados pelo pecado maior de matar seu sumo sacerdote, o que certamente fariam se ele recusasse a voltar. Aarão era sumo sacerdote, tido como uma pessoa amante da paz. Sua técnica para obter a paz era a seguinte: numa disputa, tinha a habilidade de ir alternadamente na direção do ponto de vista de ambas partes e, com uma mentira inocente, desculpava-se em nome da outra parte; quando estas se encontrassem, a disputa estaria vencida porque cada uma delas acreditaria que a outra se desculpara.


Depois de fundir o metal, Aarão se dirigiu ao povo e lhe disse que aquele bezerro era o novo deus de Israel. Nesse ínterim, Deus, no alto da montanha, ordenou a Moisés que descesse, pois exterminaria os que se prostravam diante do bezerro e que faria, com os que o seguissem, uma grande nação. Assim, o bezerro de ouro não é mais que grande tentação que tem o ser humano de divinizar os desejos materiais, o prazer sensual, a sede de acumular cegamente. 

Ainda entre os judeus não podemos esquecer a história de Jereboão, rei rebelde, que fundou o Reino do Norte de Israel. Ele introduziu o culto de dois bezerros de ouro, que erigira, para impedir que as pessoas fizessem peregrinação a Jerusalém. Foi condenado a induzir o povo a um pecado que nenhum arrependimento poderia redimir. Consta que apesar disso Deus lhe ofereceu um lugar no Jardim do Éden, por ele recusado orgulhosamente, porque lhe era negado um status mais elevado que o de David (para mais informações sobre as ligações de Israel com o Bezerro de Ouro, veja neste blog o artigo Correspondências Taurinas: Israel e o Touro).


OS  DOIS  BEZERROS DE OURO  ( ANÔNIMO , SÉC. XIV )

Ao longo dos séculos, a constelação de Touro recebeu nomes latinos como Portitor, Proditor Europae, Agenoreus, Amasius Pasiphaes. Entre os árabes, inicialmente designada pelo nome de Al Thaur, passou a Altauro e depois a Ataur. Antes da “adoção” ptolomaica, os árabes tinham a sua própria representação deste espaço celeste, formado, neste caso, por duas mansões lunares. Uma delas correspondia ao asterismo das Plêiades (Al Thuraya, o Touro) e a
AL   THURAYA 
outra ao das Híades (Al Dabaran, A Seguinte). O asterismo de Al Thuraya (Plêiades) é muito popular entre os árabes, já nomeado por um sábio (Luqman), cuja antiguidade remonta ao período em que David era rei dos judeus. Um culto especial era prestado a este asterismo (confirmado inclusive por Al Sufi, no séc.X) que, quando os augúrios eram bons, trazia chuva no seu poente heliacal. Al Thuraya chegou a ser visto pelos árabes como uma divindade da fertilidade, muito celebrada pela poesia no período de expansão do Islã. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO 2 (EGITO)


     

Se as elaborações mitológicas diferem às vezes bastante, num ponto elas costumam coincidir: todas ou quase todas partem da ideia de que a criação do universo é sempre precedida por uma massa caótica informe, intemporal, ilimitada, obscura e fria; uma espécie de protomatéria, uma massa pastosa, quase líquida, no seio da qual se aninha potencialmente uma possibilidade existencial. Esta possibilidade, conforme as descrições, se manifesta por algo que aflora à sua superfície, uma flor de lótus, uma rã, uma serpente, um montículo de terra etc., como ponto de partida para toda a criação subsequente.

                             
 Outra característica cosmogônica comum é a de que essa massa líquida está em permanente movimento de fluxo e refluxo e é, enquanto duração, cíclica, isto é, alterna-se como o dia e a noite, como a sucessão das estações. Assim, tudo tem um começo, uma duração e um fim, este sempre um recomeço.

É do seio dessa massa líquida que a criação procede. A massa caótica contém dentro de si um potencial criador. Uma vez criados os corpos e as formas, sempre presente a ameaça de um retorno à indiferenciação, de uma volta ao caos. Entre os antigos egípcios, o desenvolvimento da criação se dá pela atividade de um demiurgo que também emerge da matéria caótica. A ele caberá engendrar os seres divinos e outras formas.

O uno se biparte, se torna três, nove, se multiplica, surge o plural e com ele se chega aos milhões, número que entre os egípcios indicava o infinitamente grande. Ao mesmo tempo, o demiurgo e os deuses criados vão se empenhar numa luta incessante para evitar o retorno do que foi criado ao caos, algo assim como uma inundação ou outra manifestação catastrófica que engolirá inexoravelmente tudo o que foi criado de tempos em tempos. 

APOPHIS
 Esta ameaça de retorno ao caos tem como símbolo mais visível uma enorme serpente que vive no seio da massa líquida informe. Conforme certas histórias, esta enorme serpente se acha enrodilhada sobre si mesma, mordendo a própria cauda, lembrando um movimento de eterno retorno. Esta serpente, entre os egípcios, tem o nome de Apophis e, a cada noite, ela tenta impedir o avanço da barca solar em direção da alba, tentando impedir o ciclo do tempo. Para os egípcios, no mundo que antecede a criação não existiam as noções de espaço e de tempo. Esta imensidão não tem fronteiras nem consistência, tudo é móvel. Temos assim um espaço líquido envolvido pelas trevas; não podemos falar do dia ou da noite, inexistentes então.  

As principais cosmogonias egípcias que descrevem as origens do mundo são as Heliópolis, de Hermópolis e de Mênfis. Em grandes templos como os de Edfu e de Esna também encontramos visões cosmogônicas dos tempos originais e da criação, nas quais as divindades atuavam. É sobre este mundo primordial, instável, ameaçado constantemente de implosão, que se torna necessário atuar, tentar dominá-lo e mesmo preservá-lo de algum modo por ritos precisos, organizando-o socialmente como uma pirâmide, na qual o faraó, colocado no seu vértice, desempenha o papel de principal sacerdote mediador entre os humanos e os deuses. 

As diferentes cosmogonias egípcias têm em comum, como origem da criação, um oceano primordial, uma imensidão de matéria líquida e trevosa, a que dão o nome de Num, dentro da qual existe um demiurgo que, despertando, porá a criação em movimento. Este oceano primordial representa a origem do universo, mas também o fim dos tempos, ao qual tudo o que foi criado retornará um dia. 

Este criador não depende de nada ou de ninguém para se
ATUM
manifestar. Ele se chama Atum; é único e não tem um
lugar definido onde possa ser encontrado; é onipresente. A criação se mostra pelo aparecimento de uma ponta de terra, encoberta por um papiro, sobre a massa líquida. A partir dessa manifestação, a criação vai se fazendo por etapas. Sendo solitário, Atum (literalmente, “o que é totalidade”, “ser completo” ou “o que é e o que não é”) dá origem a dois princípios, um feminino (Tefnet) e outro masculino (Shu). Estes princípios vão criar Nut (Céu) e Geb (Terra), com os quais começa a criação “normal”, reprodutiva, sexuada. 

Num é o caos ou o oceano primordial no qual estão presentes, antes da criação, os germes de todas as coisas e de todos os seres. Embora às vezes seja descrito como uma divindade, Num sempre foi considerado por algumas tradições mais como uma criação intelectual (como o Brahman dos hindus), não tendo templos nem adoradores. É representado algumas vezes por um ser antropomorfizado, mergulhado até a cintura na água do que parece ser um lago, com os braços levantados, nos quais sustenta os deuses que criou.

Todavia, se nos aproximarmos mais do Egito pré-histórico teremos que admitir que a noção de Num não é simplesmente o resultado de especulações abstratas, mas a lembrança desse recuado período que alcança o paleolítico durante o qual os seus habitantes podiam dos terraços desérticos contemplar o Nilo monstruoso e indisciplinado que cavava o seu leito no território africano. Ademais, cada inundação fazia o vale retornar à sua forma original, a de um mar imenso; para que as cidades se mantivessem quando dessas inundações, era preciso  que ás águas fossem desviadas, contidas de alguma forma, que diques e lagoas artificiais fossem construídos. O Num primordial, salientemos, não é o autor da criação. Ele desempenha no processo cosmogônico um papel passivo, feminino, onde se manifestarão as primeiras forças divinas. 

MNEVIS
 Atum, o demiurgo, conforme a cosmogonia heliopolitana, foi logo identificado como Ra, divindade solar, sendo o touro Mnevis o seu animal sagrado. A doutrina heliopolitana ensinava que, antes da criação, vivia no Num um espírito ainda indefinido, que carregava consigo a soma de todas as existências, de nome Atum. Mais tarde, este espírito manifestou-se como Atum-Ra, dando ele origem a todos os deuses, os  humanos e todos os demais seres.

 
ATUM-RA
Atum é considerado como o grande ancestral do gênero humano; é representado sempre por uma figura humana que ostenta a coroa dos faraós, o pschent. Deus solitário, diz-se que ele tirou de si mesmo, sem o concurso do princípio feminino, o primeiro par divino. Somente mais tarde ele teria se unido a Jusa ou Nebet Hotep, tornando-se pai dos gêmeos Shu e Tefenet.

As divindades descendentes do primeiro Demiurgo vinham defendendo o país tanto interna como externamente, apesar das ameaças às fronteiras do sul do país. As coisas pioraram quando Seth e Horus entraram em luta, o que só 
SET E OSIRIS
trouxera divisão e esgotamento. O primeiro era irmão gêmeo de Osiris, a quem assassinara, e, como tal, tido do primeiro. As preocupações aumentaram quando um novo perigo apareceu ao norte do país. Ninguém havia ouvido falar dele, nem se sabia de onde vinha. De certo, só a informação de que ele não fazia parte das assembleias divinas; nenhum templo, nenhuma estátua lhe haviam sido consagrados. 


Muitos diziam que essa ameaça vinha de lugares distantes, além do
KHEPRI
país onde Khepri (escaravelho, uma das formas de Atum, como o Sol matinal; “aquele que veio à existência por si mesmo”) se levantava, habitados por povos inimigos. Outros afirmavam que ele viera da Ásia para atacar o delta do rio Nilo. Outros ainda diziam que ele provinha das águas salgadas, indomáveis, nas quais as águas do rio se perdiam, onde Ísis errara por muito tempo à procura do corpo do seu querido esposo Osíris.

  
O que se sabia é que os deuses da Enéada (grupo dos nove principais deuses de Heliópolis) não gostavam das águas oceânicas, essas imensas extensões aquáticas assoladas constantemente por ventos e tempestades. Era difícil chegar a elas; para atingi-las tinha-se que atravessar a zona instável e pantanosa do delta. Aquelas águas vinham de terras ignotas onde se veneravam divindades desconhecidas. Ao mesmo tempo que dificilmente transponível para os que quisessem chegar ao grande oceano, o delta do Nilo, com os seus pântanos, era, entretanto, uma proteção natural contra os ataques externos. 

Eis que num determinado momento uma força até então desconhecida, um deus diziam alguns, começou a aterrorizar os
YAM E SEUS ASSECLAS
pescadores que se aventuravam no alto-mar. Engolindo barcos, homens, casas, rebanhos e plantações criados ou instalados em algumas ilhotas do delta, o terror logo tomou conta das populações costeiras. A coisa piorou quando se propalou uma notícia de que a tripulação de uma embarcação nunca vista havia raptado algumas jovens diante de atônitos camponeses.

Os rumores se multiplicavam, os temores aumentavam. Histórias
HAPI
narravam que um monstro surgido das profundezas marinhas, em companhia de crocodilos e de hipopótamos,vinha, à noite, errar pelo delta, à procura vítimas. Diante desses acontecimentos, Hapi, o deus do rio Nilo, alertou a assembleia dos deuses. Indecisos, eles recomendaram aos sacerdotes que solicitassem aos crentes a multiplicação das oferendas e das procissões religiosas. Tropas militares foram deslocadas para a região do delta do Nilo.


O que se descobriu é que as ameaças vinham de um soturno personagem de nome Yam, que se declarou uma divindade marinha, e que se pôs a atacar os deuses. Tal aconteceu quando uma embarcação religiosa descia o Nilo com uma estátua do deus Hapi. Quando a embarcação se aproximava da embocadura do rio, serpenteando entre os papiros, uma onda enorme a atingiu, Logo, tudo parecia ter voltado ao normal, mas nenhum sinal da embarcação e de sua tripulação foi encontrado. 

O deus Hapi exigiu que lhe fosse feito um sacrifício, um touro, no caso. Mas nada disto impediu que Yam continuasse atacando e fazendo vítimas, cada vez mais insaciável. Dia após dia, ele exigia cada vez mais. Os deuses acreditavam que ele acabaria se cansando, se tornando menos ávido, e que acabaria voltando para o seu distante reino oceânico. 

Tal não aconteceu, porém. Yam, para demonstrar a sua determinação, enviou uma tropa de vagas marinhas conquistar as terras do delta. Sob o formidável ataque, elas logo desapareceram, o gado se afogou, os pássaros voaram, os que puderam fugir se afastaram apavorados, as semeaduras apodreceram, os celeiros foram invadidos, tudo sossobrou.

NUT
 A Terra, na pessoa de Geb, pai de Osíris e esposo de Nut, deusa do céu, dirigiu-se então à deusa das colheitas, Renenutet, pedindo-lhe a ajuda. Esta declarou a sua impotência diante do fato e sugeriu a Geb que para apaziguar a fome de Yam fossem-lhe oferecidos feixes de trigo em grande quantidade, rejeitados, porém,pelo deus.
LÁPIS- LAZÚLI
A Enéada, depois de discutir longamente o assunto, resolveu reunir um grande tesouro em ouro, prata, lápis-lazúli e outras pedras preciosas. Levados numa embarcação até o delta, os presentes foram entregues ao deus pelo faraó, prosternado diante dele.


Yam exigiu então que fosse construído um templo em sua homenagem, tão grandioso quanto o de Ra, em Heliópolis. O faraó hesitou: não desejava considerar um deus estrangeiro igual aos da Enéada. Ao mesmo tempo, os deuses irritavam-se, ofendidos, ao ver o faraó fazer constantes oferendas a um deus estrangeiro. 

Como seu santuário não era levantado, Yam foi tomado por grande
PTAH
furor. Foi enviada então, sob o comando do faraó, uma delegação para negociações. Os argumentos apresentados não satisfizeram Yam, que exigiu um tesouro dez vezes maior. A Enéada conseguiu juntá-lo, resolvendo que ele fosse levado ao deus por Astarte, a belíssima e irascível filha do deus Ptah, o deus que fora capaz de retirar a Terra do Num.


RENENUTET
Notando o sofrimento dos homens, os lamentos de Geb, a impotência de Renenutet e o temor dos deuses, Astarte foi tomada de grande receio diante do que lhe era solicitado. Orgulhosa, porém, ela resolveu atender ao pedido dos deuses; banhou-se, vestiu-se maravilhosamente, perfumou-se, cobriu-se de joias, e com um grupo de carregadores desceu o Nilo numa grande embarcação, levando o tesouro para Yam.

Ao vê-la, Yam desistiu do tesouro e mandou um recado para os deuses da Enéada: que eles lhe entregassem a própria Astarte e nada mais ele exigiria para deixar todos em paz. Assim foi decidido, e Astarte com um grande dote voltou a se apresentar a Yam para se tornar sua esposa. A paz voltou ao universo e os deuses da Enéada retomaram as suas atividades habituais.

Eis, porém, que o humor instável e colérico de Yam voltou a se manifestar. A submissão de Astarte e as riquezas que lhe foram dadas não bastavam. Ele enviou a esposa com o pedido de mais tributos, com a ameaça de destruir não só delta, mas as montanhas também. O risco de um retorno ao caos era iminente. Os deuses, então, recomendaram a Astarte que não voltasse ao esposo.

ASTARTE
 Não tendo outro recurso, a Enéada, com muita relutância, viu-se constrangida a solicitar que Seth, o Terrível, deus dos desertos,
SETH
enfrentasse Yam, pois era o único capaz de com o seu sopro quente combatê-lo. Como monstruoso que era, seria muito fácil para Seth lutar contra os monstros do caos gerados por Yam. O confronto aconteceu e só a muito custo Seth conseguiu vencer Yam. O preço pago pela Enéada e pelo sacrifício de vidas humanas foi elevado, mas acabou valendo a pena. Apesar das doenças e da desertificação, a vitória foi obtida. E foi assim que a Enéada, agradecida, empurrou para os braços de Seth a maravilhosa Astarte, cujo temperamento muito se ajustava ao dele. E foi assim também que Yam, o deus do oceano, não voltou a perturbar a paz das terras egípcias sobre as quais velava a Enéada.