Mostrando postagens com marcador APIS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador APIS. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de março de 2017

TOURO (3)

        

APIS

Dentre os vários animais sagrados da religião egípcia, um dos mais importantes foi o touro, adorado sob o nome de Apis, transcrição grega de Hapi. Seu principal culto estava centralizado em Mênfis, onde aparecia associado ao deus Ptah. Este deus, protetor dos
PTAH
artesãos e dos artistas, foi identificado pelos gregos como uma das formas possíveis do seu deus Hefesto, deus metalúrgico, mestre das artes do fogo, grande divindade construtora. Ptah foi no Egito o inventor das artes, trabalhando com metais, sendo também uma divindade construtora. Era apresentado como um homem mumificado, num pedestal; nas mãos, um cetro no qual estão reunidos símbolos da vida, da estabilidade e de onipotência.


Era adorado em Mênfis em companhia de sua esposa, a deusa Sekhmet e de seu filho Nefertun. A construção de templos e de monumentos religiosos estava colocada sob a sua tutela, Recebia, por isso, o título de “Grande Chefe das Artes”. Perto de seu santuário em Mênfis se fazia  a adoração do touro Apis, uma encarnação sua. Ainda que se dessem a Ptah qualificativos de beleza (o de bela aparência), Ptah era representado, muitas vezes, como um anão disforme, de pernas tortas, arqueadas, os punhos fincados nas ancas, a cabeça inteiramente raspada, ornada com uma trança. Nessa forma era reverenciado como protetor contra os animais perigosos ou daninhos de qualquer espécie e contra todas as formas do mal. A função a que os gregos chamavam de apotropaica.

Sob a forma de um fogo celeste, como muitas imagens mostravam, Ptah fecundava uma bezerra virgem e renascia através dela como um touro negro, que os sacerdotes reconheciam por certas marcas distintivas, de caráter religioso. Para ser considerado como uma reencarnação de Ptah, o touro deveria ter sob a sua fronte um triângulo branco, sob seu corpo a figura de um abutre de asas abertas, sob seu flanco direito um crescente lunar, na língua a imagem de um escaravelho, devendo os pelos de sua cauda ter uma forma bífida. 

Enquanto vivesse, Apis era alimentado com todo o cuidado num templo de Mênfis, vizinho ao de Ptah. Uma vez por dia, Apis era trazido para um pátio do templo, sendo seus mugidos recebidos com grande alegria por inúmeros visitantes, inclusive de estrangeiros em visita ao país, ainda no período helenístico. Cada um dos movimentos de Apis era interpretado como sinal de algum acontecimento futuro. A morte súbita do príncipe Germanicus, sobrinho do imperador Augusto, segundo consta, foi anunciada pelo touro Apis quando ele recusou receber das mãos do príncipe a comida que ele procurava lhe dar, um sinal de mau augúrio.

Apis geralmente morria de velhice. Quando tal não acontecia, isto é, quando a morte retardava demais a sua chegada, deteriorando-se a sua saúde, Apis era sacrificado. O encontro de um novo Apis era sempre celebrado com muita alegria em todo o país. Em 1.850, arqueólogos descobriram uma necrópole menfita onde foram encontrados vestígios de esplêndidos funerais realizados em homenagem ao touro Apis. 


SERAPEUM


SERAPIS
Os gregos rendiam ao touro cultos funerários como os celebrados em homenagem a Osíris no Egito. Nessa condição, os gregos chamavam o touro egípcio de Osorapis, depois identificado como o deus Serapis, adorado segundo um rito puramente grego no grande Serapeum de Alexandria. Deus infernal, Serapis, confundido com Osorapis, foi adorado ao lado do templo deste em Mênfis.

Hathor era uma divindade feminina na qual os gregos viam traços de sua Afrodite. Deusa celeste, passava por ser filha de Ra e mulher de Horus. Em alguns períodos da história religiosa do Egito, ela passa por mãe de Horus, sendo seu nome traduzido pela expressão “a morada de Horus”, explicada esta designação como sendo ela, a deusa, o lugar onde, a cada crepúsculo, o deus solar se recolhia para depois renascer a cada manhã. De um modo geral, os lugares pantanosos, lugares de origem da vida, eram de Hathor. Antropomorfizada, de rosto redondo, com vasta cabeleira encaracolada, a figura de Hathor, ao evocar a Lua cheia, era particularmente reverenciada pelos beduínos do deserto.

HATHOR
É ela, Hathor, registram os textos, a grande vaca celeste que criou o universo  e tudo o que ele contém, inclusive o Sol. É representada como uma vaca, seu animal sagrado ou como uma figura antropomorfizada, uma deusa com a cabeça do animal. Noutras vezes ainda, uma figura feminina ornada com chifres. 
MENAT
Esta deusa tinha ainda um fetiche no qual gostava de se encarnar, o sistro, instrumento musical também muito usado nos cultos de Ísis, que tinha a finalidade de espantar maus espíritos e de acalmar os deuses. Dentre os objetos mais sagrados de Hathor encontramos também um colar chamado menat, símbolo da fertilidade.

Hathor, às vezes se transformava numa leoa (Pakhet), forma através da qual se ligava aos vales férteis na beira de lugares desérticos, onde animais selvagens indefesos como as corças vinham se abrigar e saciar a sua sede. Honrada como leoa, Hathor era ainda reverenciada nos desertos do Sinai, onde se encontravam minas de  turquesa, pedra da sua predileção. 


DENDERAH

A arquitetura da cidade de Denderah tinha a forma do sistro. A cidade era a capital de um dos nomos do Alto-Egito, colocada sob a tutela de Hathor. Num recinto dessa cidade se realizava uma cerimônia chamada de “união ao disco”, quando das festas do início de cada ano. Nas paredes desse recinto foi encontrada a pintura de uma carta celeste, nela figurando, numa de suas mais antigas representações, o Zodíaco com os seus signos e respectivos decanatos.

Hathor era a protetora das mulheres, governando a estética do mundo feminino (roupas, joias, atavios, penteados, beleza corporal, maquiagem etc.). Sob sua tutela ficavam o amor, a alegria de viver e os prazeres da vida.  Era conhecida no Egito como a “senhora da alegria, da dança, do canto, do enlaçamento das guirlandas”. Seu templo era a morada do prazer, da vida agradável. Alimentava os humanos com o leite de seu seio. Comuns as representações de faraós mamando nas tetas de Hathor. 


LIVRO   DOS   MORTOS

Além de cuidar dos vivos, Hathor se preocupava também com os mortos. Sob o nome de “rainha do Ocidente”, ela é a protetora da necrópole tebana e ilustrações de O Livro dos Mortos mostram-na pontificando para os lados das montanhas da Líbia, limite do mundo dos vivos, pronta para acolher os mortos quando da sua chegada ao Outro Mundo, livrando-os de inúmeros perigos, desde que saibam a ela recorrer com as preces adequadas. Ela é também chamada de “A Deusa do Sicômoro”, pois, ás vezes, ela se refugia na folhagem desta grande árvore, encontrada nos limites dos desertos, para acolher o morto, dando-lhe a água e o pão das boas-vindas. 

Árvore sagrada do Egito, o sicômoro, com a sua abundante ramagem, simbolizava a segurança e a proteção que socorria as almas. Subir num sicômoro era participar da vida espiritual. Contudo, esta subida devia ser feita sempre com cuidado, com humildade. Do contrário, a árvore simbolizaria desinteresse pelas coisas terrestres , desprezo da opinião pública, rebeldia, revolta, vaidade. Denderah era a cidade de Hathor, importante centro astrológico. Lá, Hathor vivia em companhia do marido, Hórus, e de seu filho, Ehi, um menino que agitava o sistro ao lado de sua mãe.

SICÔMORO
O sicômoro, a chamada figueira dos faraós (fycus sycomorus), é uma árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo muito útil também na tinturaria (tingimento de tecidos). Era empregada também, por sua madeira muito resistente, na construção de sarcófagos, de móveis e de instrumentos musicais (Para maiores detalhes, veja neste blog o artigo A Figueira).  


NUT
É preciso não esquecer que no panteão egípcio, nas suas primeiras definições, encontramos a deusa Nut, que os gregos associaram a Reia, filha de Urano e de Geia, uma titânida, irmã e mulher de Cronos. Nut é irmã de Geb, no qual os gregos viram seu deus Cronos. Eles formavam um casal, o segundo na sequência divina desde as origens. Uniram-se contra a vontade de Ra (O Criador, o Sol), que os separou brutalmente, decretando que Nut não poderia parir, que não poderia dar filhos à luz. Segundo o mito, Thot, felizmente, teve pena dela e, jogando damas com a Lua, dela subtraiu energia para que ela, Nut, fizesse mais cinco dias, que ficaram fora do calendário, os chamados dias epagômenos.

Nut conseguiu assim dar à luz cinco filhos: Osíris, Haroeris, Seth, Isis e Nephtys. O nome desta última significa “A Senhora do Castelo”, uma divindade infernal. Unindo-se a Seth, não teve filhos.  Desejou então um filho do irmão mais velho, Osíris. Para
ANÚBIS
tanto, conseguiu embriagá-lo e do conluio amoroso que com ele manteve, sem que ele disso tivesse consciência, nasceu Anúbis, deus chacal, do mundo dos mortos. Nephtys simboliza as margens do deserto, região comumente árida, mas que pode se tornar fecunda. Quando Seth matou Osíris, ajudou Ísis a mumificá-lo, participando da cerimônia fúnebre, entoando com a irmã as lamentações de praxe.


APOPHIS
Seth, também conhecido como Apophis na sua forma dracôntica, é, como sabemos, monstruoso, lembrando o Tifon dos gregos, um agende do caos.É a seca do deserto, a negação da vida, inimigo de tudo o que é bom e justo. Haroeris significa “O Grande Hórus”. Representava, com os seus olhos, os dois luminares. Representava também a eterna oposição entre a luz e as trevas. Era o ancestral de todos os faraós. É diferente de Hórus, do mito osiriano, filho de Ísis e de Osíris, representado pelo falcão.


NUT

Nut é a deusa do espaço celeste, representando-o na forma de uma mulher que, apoiada na ponta dos dedos da mão e dos pés, forma uma curvatura com o seu corpo Seu ventre sempre estrelado, é a abóbada celeste. Uma forma pela qual Nut aparece amiúde nos mitos é a de uma vaca. O ventre de Nut confunde-se com o próprio firmamento, nele estando fixadas todas as constelações. Ela assume a condição de mãe do Sol que nasce de um lado de seu corpo e se põe no outro. Antropomorfizada, carrega na cabeça um pote enorme (hieróglifo de seu nome). Aparece como protetora dos mortos, abraçando fortemente os defuntos,  vela maternalmente as múmias.  

Ligado ao signo de Touro temos o tema do bezerro de ouro, símbolo da riqueza material, na medida em que ele foi (é) idolatrado no lugar de divindades.  Este ídolo começou a ser cultuado quando da ausência de Moisés, que subira ao Sinai para
BEZERRO   DE   OURO
receber os ensinamentos divinos. O ídolo, conforme se sabe, foi construído com os brincos de ouro das mulheres. É um símbolo da fertilidade orgiástica. Como Moisés não dera mais notícias desde que se ausentara e julgando os judeus que ele não mais desceria da montanha, o bezerro de ouro foi construído por Aarão, irmão de Moisés e de Miriam. Alegou ele, para justificar a construção do ídolo, que assim o fazia para que os israelitas não se tornassem culpados pelo pecado maior de matar seu sumo sacerdote, o que certamente fariam se ele recusasse a voltar. Aarão era sumo sacerdote, tido como uma pessoa amante da paz. Sua técnica para obter a paz era a seguinte: numa disputa, tinha a habilidade de ir alternadamente na direção do ponto de vista de ambas partes e, com uma mentira inocente, desculpava-se em nome da outra parte; quando estas se encontrassem, a disputa estaria vencida porque cada uma delas acreditaria que a outra se desculpara.


Depois de fundir o metal, Aarão se dirigiu ao povo e lhe disse que aquele bezerro era o novo deus de Israel. Nesse ínterim, Deus, no alto da montanha, ordenou a Moisés que descesse, pois exterminaria os que se prostravam diante do bezerro e que faria, com os que o seguissem, uma grande nação. Assim, o bezerro de ouro não é mais que grande tentação que tem o ser humano de divinizar os desejos materiais, o prazer sensual, a sede de acumular cegamente. 

Ainda entre os judeus não podemos esquecer a história de Jereboão, rei rebelde, que fundou o Reino do Norte de Israel. Ele introduziu o culto de dois bezerros de ouro, que erigira, para impedir que as pessoas fizessem peregrinação a Jerusalém. Foi condenado a induzir o povo a um pecado que nenhum arrependimento poderia redimir. Consta que apesar disso Deus lhe ofereceu um lugar no Jardim do Éden, por ele recusado orgulhosamente, porque lhe era negado um status mais elevado que o de David (para mais informações sobre as ligações de Israel com o Bezerro de Ouro, veja neste blog o artigo Correspondências Taurinas: Israel e o Touro).


OS  DOIS  BEZERROS DE OURO  ( ANÔNIMO , SÉC. XIV )

Ao longo dos séculos, a constelação de Touro recebeu nomes latinos como Portitor, Proditor Europae, Agenoreus, Amasius Pasiphaes. Entre os árabes, inicialmente designada pelo nome de Al Thaur, passou a Altauro e depois a Ataur. Antes da “adoção” ptolomaica, os árabes tinham a sua própria representação deste espaço celeste, formado, neste caso, por duas mansões lunares. Uma delas correspondia ao asterismo das Plêiades (Al Thuraya, o Touro) e a
AL   THURAYA 
outra ao das Híades (Al Dabaran, A Seguinte). O asterismo de Al Thuraya (Plêiades) é muito popular entre os árabes, já nomeado por um sábio (Luqman), cuja antiguidade remonta ao período em que David era rei dos judeus. Um culto especial era prestado a este asterismo (confirmado inclusive por Al Sufi, no séc.X) que, quando os augúrios eram bons, trazia chuva no seu poente heliacal. Al Thuraya chegou a ser visto pelos árabes como uma divindade da fertilidade, muito celebrada pela poesia no período de expansão do Islã. 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

URANO (5)





Na Grécia, tudo começou com o Caos (khaino, entreabrir-se). As primitivas doutrinas cosmogônicas e teogônicas nos revelam que o Caos é uma espécie de protomatéria onde se encontravam revoltos todos os elementos. Desde que o homem se pôs a pensar na criação do universo, a ideia do Caos como uma confusão de elementos se impôs. Afastou-se a ideia da criação a partir do nada, de difícil entendimento. 

Quem talvez tenha melhor explicado este problema da criação (nada, vazio ou protomatéria) tenham sido os filósofos da Índia védica. A eles sempre incomodou bastante a ideia da criação ex-nihilo. Como poderia o ser provir do nada? Nada pode originar-se do nada, arrematam eles. Segundo as suas darshanas (escolas de filosofia), a criação só pode ser explicada pela passagem do não manifesto ao manifesto, do uno ao múltiplo, da energia à matéria, processo a que eles dão o nome de sristhi. 

Essa mesma dificuldade experimentaram os místicos judaico-cristãos quando tiveram que explicar a criação a partir do Verbo divino. Acabaram optando, sob o ponto de vista simbólico, pela ideia de um Caos original, o Tohu-Bohu bíblico, de onde teria se formado o cosmos. Tohu-Bohu é palavra que significa desordem, o caos primordial antes da criação. É um estado completamente anárquico, que antecede o aparecimento das formas.

Em algumas mitologias, o Caos, ao invés de uma massa confusa, é representado por um oceano primordial. Assim o idealizaram os mesopotâmicos. Tiamat, uma Grande-Mãe de natureza oceânica, indomável, acabou vencida e foi obrigada a seguir uma ordem estabelecida pelo deus Marduk, em nome das outras divindades. Já os escandinavos representaram o seu Caos por um abismo sem fim, chamado Ginnungagap, de onde saem sons gorgolejantes abafados.


Na mitologia grega, conforme Hesíodo expõe na sua Teogonia, a passagem gradual do Caos primitivo à ordem olímpica é feita inicialmente através das provas que opõem Urano (o céu estrelado) a seus descendentes até a terceira dinastia (Zeus), com a participação da linhagem feminina a partir de Geia, a Grande-Mãe terrestre, de Reia e de suas filhas, que farão parte da ordem olímpica.



ZEUS

Entre os alquimistas, o Caos é a mesma coisa que a prima materia antes dela tomar uma forma. Lembremos que foi a partir da palavra
ROBERT   FLUDD
caos que os alquimistas (J.B. van Helmont) cunharam a palavra gás, estado da matéria que tem a característica de se expandir espontaneamente, ocupando a totalidade do recipiente que a contém. O Caos pode ser também representado por um turbilhão de nuvens, de água e de fogo, como Robert Fludd (1574-1637) expôs em sua obra (Tratado Apologético, 1617).  

Nas Metamorfoses de Ovídio, o Caos preexiste, não sendo os deuses ou a natureza agentes criadores, mas ordenadores, que separam os elementos confundidos, dando a cada um e aos corpos criados o lugar que lhes convém no espaço. Devido a essa concepção do Caos como confusão, ele nunca foi personificado como os deuses o foram. Um pintor da Renascença, Rafael Sanzio (sécs. XV-XVI), evidentemente preso à inspiração religiosa do tempo, deixou-nos talvez uma das mais belas representações pictóricas desse momento, o da separação da luz das trevas por Deus. Do mesmo modo, talvez tenha sido Ovídio (início da era cristã), poeta latino, aquele que com grande arte e fantasia melhor nos tenha falado poeticamente sobre o Caos. 


BOÉCIO
Boécio (sécs. V-VI dC), filósofo e político latino, identificou o Caos a Ofion, embora muitos mitógrafos considerassem este como posterior, dando-lhe por esposa Eurínome, filha do deus Oceano, com a qual governou o mundo antes de Cronos e dos Titãs. Ofion (ophis, serpente) tinha a forma de uma serpente e representava a renovação, como um ser ctônico que era. Ele e sua companheira governaram o mundo. Segundo o mito, talvez de tradição órfica, eles foram vencidos por Cronos e lançados no Tártaro.

Em textos medievais (De Genealogia Deorum Gentilium, de Giovanni Boccaccio, segunda metade do séc. XIV) encontramos uma interessante tradição que parece ter recuperado uma vertente mitológica esquecida, a que identifica o Caos com Demogorgon, nome composto de daimon, gênio, e georgos, o que trabalha a terra, o Gênio da Terra. Demogorgon é descrito como um ser primitivo, sem origem, pai dos deuses e do

universo. Tinha um aspecto sujo e musgoso, disforme, esquálido, vivendo nas entranhas de sua filha, a Terra, no mais profundo do Averno, lago da Itália, na Campânia, perto de Nápoles; os antigos habitantes da região, gregos inclusive que a dominaram, viam nesse lago uma das entradas do Hades por causa dos pântanos que o cercavam e das suas emanações sulfurosas; Virgílio descreveu o lugar na Eneida como o antro da Sibila de Cumas, que ficava na vizinhança. 




SIBILA   DE   CUMAS

Foi nesse tratado (uma importante fonte de consulta mitológica até o séc. XIX) que Boccaccio fez muitas referências a Demogorgon, terrível e antiga divindade, esquecida, dizia ele, já ao tempo dos gregos do período arcaico, e que estaria, ao invés do Caos, na origem da criação e que seria o pai de todos os deuses. Essa divindade não foi mencionada por nenhum dos grandes autores da antiguidade grega e latina, Homero, Hesíodo, Apolodoro, Ovídio e outros. Boccaccio nos informa que Demogorgon tinha uma companheira, a Eternidade (Aeternitas), divindade preexistente também aos grandes deuses, identificada às vezes como o Tempo. 

Sobre o Caos ainda poderíamos dizer que a palavra escapou da mitologia grega e invadiu o léxico de todas as línguas para simbolizar tudo o que resiste à ordem que se pretenda impor a alguma coisa. A ideia é de algo ilimitado, informe, indefinido, que precede a existência. Na filosofia platônica, é o estado geral de desordem e de indiferenciação dos elementos antes da intervenção do Demiurgo. 

Antes de se falar do Urano dos gregos, é preciso mencionar que bem antes das tribos indo-arianas, como a dos aqueus, se instalarem no continente europeu existia no Mediterrâneo oriental, no mar Egeu, uma civilização que tinha o seu centro em Creta, já formada desde o terceiro milênio aC., com o nome de minoana. Pelo que essa civilização nos legou, podemos falar de uma mitologia pré-helênica, sobrevivendo muitas de suas histórias na mitologia grega (nascimento de Zeus em Creta, o rapto de Europa e o touro divino, o Minotauro, Teseu, Ariadne etc.). Esta civilização atingiu o seu apogeu entre 2000 e 1700 aC., tendo sido destruída por duas invasões gregas e por um grande maremoto que praticamente arrasou toda a costa nordeste ilha. 



RAPTO   DE   EUROPA

A primeira invasão de Creta, a Ilha dos Deuses, como a chamava Homero, foi organizada pelos gregos aqueus que, a partir de Micenas, por volta de 1500 aC, a invadiram e aos poucos lá implantaram os seus costumes, promovendo uma fusão entre as duas civilizações, fusão esta que deu origem a uma outra, que passou a ser chamada de creto-micênica. Entre 1200 e 900 aC, o mundo micênico se desintegrou diante dos ataques das tribos dóricas,  que vieram do norte da Grécia. Os dóricos tanto submeteram as cidades dominadas pelos micênicos no continente como Creta e as ilhas do Egeu.

A civilização egeia atribuía um papel importante à religião. O que se sabe dos seus primeiros tempos, apesar dos poucos documentos e provas arqueológicas disponíveis, é que ela tinha inicialmente um caráter fetichista, voltada ao culto de objetos que representavam

entidades espirituais e possuíam poderes mágicos, como pedras sagradas, pilares,  animais, armas, o labrys, ou duplo machado, símbolo cretense etc. Aos poucos, assentando-se a vida social (Homero na Odisseia nos fala que Creta tinha noventa cidades), com a criação de mitos e com a antropomorfização de suas divindades, formou-se um panteão, cuja figura principal, como em muitas tradições asiáticas, era uma Grande-Mãe (um modelo da Geia grega?) de caráter universal, na qual se concentravam todos os atributos e funções da divindade. 

A Grande-Mãe, antes de tudo, simbolizava o aspecto gerador da natureza, dos seus reinos vegetal, animal e humano. Todo o universo estava sob o seu domínio. Era ela inclusive quem regulava o movimento dos astros e o ciclo das estações. As florestas, primeiro, e a agricultura, depois, eram dela, que proporcionava riqueza aos homens, protegendo-os nos combates, dependendo dela também o sucesso da vida marítima (comércio). Ela dominava as bestas ferozes e reinava também sobre o mundo infernal, estendendo-se a sua tutela também ao mundo ctônico. 


BRITOMARTIS
Dois nomes foram conservados dessa Grande-Mãe: Dictyna, mais tarde transformada pelos gregos numa divindade das redes, que residia no monte Dicté, lugar de nascimento de Zeus, segundo uma versão mítica. Britomartis foi o outro nome desta deusa, etimologicamente Doce Virgem, divindade universal. Lembremos que muitos dos traços desta Grande-Mãe foram levados pelos gregos para a sua Ártemis, como Potnia Theron, deusa dos animais selvagens.

Aos poucos, com a afirmação cada vez maior do mundo masculino
ATTIS
(patriarcado impondo-se ao matriarcado), a esta deusa se associou um culto masculino. De início talvez apenas um reflexo de alguns mitos do Oriente Próximo (Ishtar e Tammuz e Cibele e Attis), estes cultos acabaram por dar lugar a uma figura masculina colocada ao lado da deusa em condições de igualdade. Esta figura tomou o nome de Astérios (Estrelado), como grande divindade celeste, que teria servido de modelo para o Urano grego. Este nome nós vamos encontrá-lo no rei de Creta, Asterion, que desposou a princesa Europa depois de sua aventura com Zeus, e que adotou os três filhos, Minos, Radamanto e Sarpedon, que ela teve com o Senhor do Olimpo.

A principal característica de Asterion é que nele se misturavam traços animais (taurinos) e humanos. Foi certamente por influência

das religiões da Ásia central que o touro entrou no panteão cretense como divindade celeste para simbolizar a energia criadora, assumindo nele importância fundamental. Lembremos que os elamitas (povo da região leste do rio Tigre inferior) e os sumérios (povo da região da baixa Mesopotâmia, nas margens do golfo árabo-persa) tinham um deus-touro de natureza uraniana, sempre terrível em suas manifestações.

O touro, desde o período neolítico, salientemos, apareceu associado, em várias civilizações asiáticas, no momento em que a agricultura ganhou grande espaço, à figura das Grandes-Mães. Sempre ligado à força criadora, fecundante, o touro foi logo usado para representar as divindades celestes que atuavam através de fenômenos atmosféricos fecundando a Terra. Lembremos que entre os gregos Zeus e Poseidon tomaram muitas vezes a forma taurina para as suas manifestações.

APIS
Considerado na Pérsia como um dos primeiros seres criados (associado a Mithra), adorado no Egito (Apis) como deus procriador, o touro na Ásia central sempre representou o céu enquanto a vaca simbolizava a terra, que ele fecundava. Objeto de culto também na Índia (os termos sânscritos vrisha, vrishabha ou rishabha designam tanto o animal como descrevem o que é melhor, o primeiro, o príncipe, sob o ponto de vista social), o touro tanto se liga a ideias de abundância e fartura, de forças fecundantes, particularmente sexuais, como de descontrole, de impulsividade cega e indomável, que precisam ser contidas sob pena de catástrofes. 


Segundo Hesíodo, a primeira entidade a emergir do Caos foi Geia, que gerou espontaneamente Urano, o céu, “em condições de igualdade, de esplendor e de beleza para que ele a cobrisse”. O poema nos fala que ele, “ávido de amor”, não parava de fecundá-la. 

O aparecimento dos primeiros deuses da mitologia grega, a sua primeira dinastia, se deve a essa fecundação uraniana, que assumia um caráter anárquico e inesgotável, uma fecundidade perigosa que logo se tornou insuportável para Geia. Insuportável não só pela sua furiosa intensidade como pela prepotência de Urano, que, horrorizado e temendo ser destronado, diante dos filhos que eram gerados, obrigava Geia a reabsorvê-los. 

As criaturas geradas por Urano, logo chamadas urânidas, eram monstruosas, gigantescas, estapafúrdias, rebeldes, e muitas delas indigentes mentalmente. Imenso, opressor, Urano se estendia sobre Geia, que gemia e se queixava. Ao todo, foram gerados os seguintes filhos: Oceano, Ceos, Crio, Hiperion, Jápeto, Cronos,
HECATÔNQUIROS
Teia, Reia, Têmis, Mnemósina, Febe e Tétis, chamados depois, os seis primeiros, de Titãs e as seis ultimas de Titânidas. Foram gerados também os Cíclopes, de nome Arges, Estérope e Brontes, divindades ligadas aos raios, relâmpagos e trovões, e os Hecatônquiros, monstros de cem braços, de nome Coto, Briaréu e Giges.   
Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, resolveu libertar os seus filhos. Pediu que a auxiliassem; todos se recusaram, com exceção do caçula, Cronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Cronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava mais uma vez para penetrar Geia, Cronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe a sua genitália.



CRONOS   E   URANO  ( CARAVAGGIO )

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e Urano um espaço que nunca mais voltaria a se fechar. Essa façanha de Cronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. 

Com um gesto rápido, Cronos lançou a genitália de Urano no oceano. Do sangue e do esperma que escorriam, misturados à espuma das ondas, nasceu a maravilhosa deusa do amor, Afrodite (aphros, espuma). Das gotas do sangue de Urano que caíram sobre a superfície de Geia nasceram as Erínias, os Gigantes e as ninfas Mélias ou Ninfas dos Freixos



NINFAS  ( BOUGUEREAU  -  1878 )

Com a mutilação de Urano, Geia uniu-se a um dos filhos que gerara sem o concurso de ninguém (os outros dois foram Montes e Urano), o deus Pontos, personificação masculina do mar, e com ele teve cinco divindades marinhas: Nereu, Taumas, Fórcis, Ceto e Euríbia.


CÍCLOPE
Ao assumir o controle do universo, pondo fim à primeira dinastia divina à qual se deu o nome de cosmogenia, formada a partir de Urano e Geia,  Cronos instituiu a segunda, caracterizada pelo nome de esquizogenia, implantando uma ordem tão ou mais violenta e despótica que a do pai. Temendo seus irmãos, os Cíclopes, que havia libertado a pedido de Geia, encerrou-os novamente no Tártaro, juntamente com os Hecatônquiros. 

Urano se distingue especialmente das outras divindades celestes por sua fecundidade monstruosa, anárquica, e o ódio que nutria

pelas próprias criaturas que gerava. Todos os deuses celestes exercem a função de  criadores; eles fazem o mundo, os deuses, os seres vivos. A fecundidade é uma especialização de sua função criadora. Esta é uma das razões (ou a principal) pela qual esses deuses são representados por touros. No Rig Veda, por exemplo, Dyaus é chamado de O Touro. 

O aparecimento dos urânidas, os filhos de Urano e Geia, representa aqueles primeiros momentos da criação em que ainda não se tinha a ideia de cosmos nem se conheciam quaisquer regras. Só muito mais tarde, com a organização das sociedades humanas e, filosoficamente, com os pitagóricos é que apareceria a ideia de que o universo era um kosmos porque podia ser reduzido a proporções matemáticas (harmonia), já que a arche de todas as coisas era o número (arithmos).

 Os primeiros tempos da criação, como se sabe, são caracterizados em todas as tradições pelo entrechoque das forças naturais e pelo aspecto monstruoso dos primeiros seres criados. Daí o caráter therogenésico da criação uraniana e de sua respectiva contrapartida, o aparecimento de Afrodite e, a seguir, depois que Cronos (2ª dinastia) “organizou” o espaço e tempo, de Zeus e da ordem olímpica.


AFRODITE   ( ALEXANDRE  CABANEL - 1863 - MUSÉE  D'ORSAY )


A criação uraniana era extravagante, inusitada, razão pela qual seu culto desapareceu bem antes dos tempos históricos. Seu verdadeiro sucessor foi Zeus, já que Cronos destruía a sua própria criação, ou seja, destruía na medida em que gerava. Apesar dos descontroles e dos excessos que se verificaram no reinado de Zeus (3ª dinastia), a ordem cósmica sempre se estabilizou de algum modo, as espécies acabaram se fixando, princípios de vida racional, de ordem, de hierarquia e de vida espiritual ganharam espaço, vividos pelo espírito grego mais teoricamente (filosofia, Logos) do que na prática. Platão, lembremos, chamou o kosmos de Deus visível, não por razões naturistas ou vitalistas, mas em virtude do papel ético que ele representava na sua teoria. 

Saliente-se que na filosofia grega as primeiras ideias sobre o céu (Ouranòs) foram apresentadas por Anaxímenes, que dele falou como o sustentáculo dos ouranoi, os corpos celestes. Depois, essa
PLATÃO
ideia foi substituída por outra, a de que o céu tem uma multiplicidade de camadas, de esferas que envolvem a terra e pelas quais transitam os astros, o Sol, a Lua e os planetas, enquanto na última esfera exterior ficava o chamado céu das estrelas fixas. Aristóteles usa a palavra ouranos como universo total e Platão em muitos momentos usa indistintamente ouranos e kosmos.

Com o crescente avanço da astronomia, o céu passou a desempenhar um importante papel na religião em virtude de sua “extraordinária ordem”. Daí surgiu uma ideia cara à filosofia: uma das principais funções do filósofo seria a de contemplar as eternas verdades do alto. Platão, no Filon, declara numa passagem que Deus criou os céus para que o homem, ao contemplar a sua harmonia, pudesse ser atraído para o estudo da filosofia. Para Platão, o espetáculo celeste tem um efeito educativo, já que na sua ordem podemos vislumbrar o destino da alma humana. 

Urano foi descoberto, como se disse, no final do século XVIII (1781), período em que tivemos duas grandes revoluções que mudaram a face do mundo, a francesa e a americana. Ao se revelar para a humanidade como um poderoso arquétipo renovador, Urano significou o fim da Idade Moderna, que havia começado no século XV. De um modo geral, utiliza-se para o início desta Idade o ano de 1453 (tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos) e para o seu fim o ano de 1789  (Revolução Francesa).



TOMADA   DE   CONSTANTINOPLA  ( EUGÈNE   DELACROIX )

Adotam-se, como marcos significativos para caracterizar a Idade Moderna três grandes acontecimentos históricos: expansão marítima (viagens de circum-navegação), o Renascimento e a Reforma Protestante. Estes três acontecimentos, como se sabe, alteraram profundamente a política, a economia, a sociedade e a cultura. 

Para começo da Idade Contemporânea, adota-se o ano de 1789, o da Revolução Francesa. Esta Idade, que se abre com a descoberta
DISCURSO  SOBRE
O  MÉTODO ( DESCARTES )
de Urano, se caracteriza sobretudo pelo desenvolvimento do espírito crítico e pela realização dos princípios cartesianos, que desde o século XVII haviam proposto (Discurso sobre o Método) que nada escapasse da razão e da dúvida metódica. Desde então, passa a ser incentivada, sob o impulso de uma curiosidade intelectual insaciável, a pesquisa experimental, para complemento da reflexão teórica na investigação científica.  A literatura torna-se cada vez mais filosófica e científica; a obra literária torna-se polêmica, tornando-se demonstração, discussão.


JOHN   LOCKE
Nesse cenário, ganham contornos precisos as ciências e o seu suporte científico. São difundidas as ideias de Locke e de Newton através da Física Experimental. John Locke (1632-174) já havia colocado em discussão ideias como a ampliação dos limites do conhecimento pelo seu empirismo. Mais: ele fala da reflexão pela qual a alma deve tomar consciência do mundo, não passivamente, mas por operações em que se combinem a abstração e a associação para a formação das “ideias complexas”. 



ISAAC   NEWTON

Circulavam por essa época nos salões cultos da Europa versos de um matemático e naturalista da época, Pierre Maupertuis que proclamavam a importância de Newton, físico e astrólogo, dizendo-

nos que tudo estava encerrado numa noite obscura e que o compasso de Newton, medindo o universo, havia aberto os céus, levantando enfim o grande véu. O progresso das ciências foi geral. É publicada na França a Enciclopédia, primeira obra de ensinamento técnico, inspirada na Cyclopedia of Arts and Sciences, inglesa, editada em 1727. São discutidos problemas pedagógicos. Em 1780, a França já tinha a sua Escola Nacional de Artes e Ofícios.  


No dia 26 de agosto de 1789 é proclamada a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, um documento totalmente baseado nos princípios astrológicos que Urano deu aos valores do signo de Aquário, uma revolução social e jurídica. Jean-Jacques Rousseau já havia publicado em 1755 o seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens.

De todo o tumulto revolucionário que tomou conta da Europa nesse período há que se reter que todos os grandes problemas políticos e sociais do futuro foram colocados, sob a ótica uraniana, no final do séc. XVIII: direitos do homem e limites do poder do Estado, definição da liberdade individual, relações entre a Religião e Estado, definição da liberdade individual com relação à Religião e ao Estado, direitos de igualdade dos indivíduos diante da lei e da justiça.

Institucionalmente, o fim do século XVIII se caracterizou pelo crescente enfraquecimento dos regimes monárquicos (de natureza do signo oposto,  Leão). Nesse período se constata o surgimento de uma grande “antipatia” do povo pela figura real, sobretudo pelo povo dos grandes centros urbanos (Paris). 

Um artigo do Dictionnaire Portatif, de Voltaire, traduzia, já em meados do séc. XVIII, o desenvolvimento da opinião pública cada vez mais consciente das injustiças, a reclamar liberdade de pensamento e de opinião. Num dos artigo do Dictionnaire, Liberdade de Imprimir, Voltaire escrevia que era um direito natural alguém se servir de sua pena e de sua palavra para falar de seus perigos, dos seus riscos e de seus azares.    

Assim como Urano representava o poder criador do céu, passou ele logo analogicamente a simbolizar aquele impulso que no ser humano participava da mesma ideia, inclusive nas suas expressões mais extravagantes, libertárias, rebeldes e iconoclastas. Além disso, é preciso considerar que as particularidades físicas de Urano, analogicamente também, sempre o associaram a mudanças repentinas, a ações intempestivas, todas lembrando a ação taurina celeste. Lembre-se que a primeira consequência quanto à descoberta de Urano foi a de que ela alterou profundamente os conceitos da astrologia ptolomaica.

Outra questão, já mencionada, mas aqui reforçada, é que Urano é um “planeta diferente”, muito diferente dos demais do sistema solar até então conhecido. É por isso que quando nos referimos a Urano, à sua ação astrológica, usamos prefixos como hiper, ultra, super, extra, usados para caracterizar tudo o que foge da normalidade. 


AQUÁRIO
É desse modo que Urano, como regente do signo de Aquário, revela a condição humana num estágio mais evoluído, lembrando a humanidade, a fraternidade universal, enquanto outros signos de ar, como Gêmeos, por exemplo, tem a ver mais com a adolescência, e Libra com a vida social a dois, “o você e eu”. Daí a excessiva e notável característica aérea dos uranianos, traduzida, quase sempre, por um esforço no sentido da conquista de elevados objetivos. Não é incomum, por essa razão, o uraniano se ver dominado pelo excessivo crescimento do seu ego, sem saber como controlá-lo, a mercê de impulsos voltados para explorações, proezas, de um desejo de bater recordes, de ficar sempre à frente dos outros. 

Uma relação quase sempre desprezada é a de Urano com Afrodite (Vênus). Sabemos que a deusa do amor nasceu da genitália de Urano lançada ao mar, em meio à espuma (aphros) das ondas. Associados os dois arquétipos, podemos encontrar explicações do motivo pelo qual muitas relações amorosas apresentam um caráter faiscante, que os franceses descrevem muito apropriadamente pela expressão coup de foudre

Lembro que Urano, de um modo geral, considerando-se a aplicação e a separação de um aspecto astrológico, leva alguns meses para transitar por um planeta, formando com ele uma conjunção, ou por um grau qualquer. É muito comum, quando esse trânsito alcança Vênus, que uma pessoa se torne “vítima” da enkrateia, o poder de sedução da deusa, e inicie uma relação afetiva (tempestuosa muitas vezes). Terminado o trânsito por Vênus, aquilo que começou tão subitamente, inexplicavelmente, pode terminar da mesma maneira. O mesmo exemplo, no que couber, poderá ser aplicado no caso de trânsitos de Urano pelos demais planetas pessoais. 



ÍCARO  ( CARLO   SARACENI  1588 - 1620 )

Durante os trânsitos uranianos, podemos nos elevar a “alturas” jamais imaginadas. Terminados os trânsitos, podemos despencar dessas “alturas”, sendo geralmente mortais esses tombos. Como exemplos, podem os citar, retirados da Mitologia, os exemplos de Ícaro e de Faetonte, histórias que ilustram com muito clareza o que aqui se expõe. 


FAETONTE

Nos trânsitos de Urano, temos, de um modo geral, a tendência de ultrapassar o nosso metron, que deve ser dado pelo nosso Sol (Eu
SATÉLITE
interior + Mercúrio). Nos trânsitos de Urano corremos o risco de inadaptação às nossas rotinas (querendo compensar as opressões saturninas), tornamo-nos mais eufóricos, podemos ficar  tomados pela
hybris, pela desmedida. Sentimo-nos muito estimulados por produtos uranianos (computadores, aviões, satélites etc.), podendo incorporar, sem o perceber, toda a simbologia ligada ao signo de Aquário e a Urano.