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quinta-feira, 14 de abril de 2016

URANO (5)





Na Grécia, tudo começou com o Caos (khaino, entreabrir-se). As primitivas doutrinas cosmogônicas e teogônicas nos revelam que o Caos é uma espécie de protomatéria onde se encontravam revoltos todos os elementos. Desde que o homem se pôs a pensar na criação do universo, a ideia do Caos como uma confusão de elementos se impôs. Afastou-se a ideia da criação a partir do nada, de difícil entendimento. 

Quem talvez tenha melhor explicado este problema da criação (nada, vazio ou protomatéria) tenham sido os filósofos da Índia védica. A eles sempre incomodou bastante a ideia da criação ex-nihilo. Como poderia o ser provir do nada? Nada pode originar-se do nada, arrematam eles. Segundo as suas darshanas (escolas de filosofia), a criação só pode ser explicada pela passagem do não manifesto ao manifesto, do uno ao múltiplo, da energia à matéria, processo a que eles dão o nome de sristhi. 

Essa mesma dificuldade experimentaram os místicos judaico-cristãos quando tiveram que explicar a criação a partir do Verbo divino. Acabaram optando, sob o ponto de vista simbólico, pela ideia de um Caos original, o Tohu-Bohu bíblico, de onde teria se formado o cosmos. Tohu-Bohu é palavra que significa desordem, o caos primordial antes da criação. É um estado completamente anárquico, que antecede o aparecimento das formas.

Em algumas mitologias, o Caos, ao invés de uma massa confusa, é representado por um oceano primordial. Assim o idealizaram os mesopotâmicos. Tiamat, uma Grande-Mãe de natureza oceânica, indomável, acabou vencida e foi obrigada a seguir uma ordem estabelecida pelo deus Marduk, em nome das outras divindades. Já os escandinavos representaram o seu Caos por um abismo sem fim, chamado Ginnungagap, de onde saem sons gorgolejantes abafados.


Na mitologia grega, conforme Hesíodo expõe na sua Teogonia, a passagem gradual do Caos primitivo à ordem olímpica é feita inicialmente através das provas que opõem Urano (o céu estrelado) a seus descendentes até a terceira dinastia (Zeus), com a participação da linhagem feminina a partir de Geia, a Grande-Mãe terrestre, de Reia e de suas filhas, que farão parte da ordem olímpica.



ZEUS

Entre os alquimistas, o Caos é a mesma coisa que a prima materia antes dela tomar uma forma. Lembremos que foi a partir da palavra
ROBERT   FLUDD
caos que os alquimistas (J.B. van Helmont) cunharam a palavra gás, estado da matéria que tem a característica de se expandir espontaneamente, ocupando a totalidade do recipiente que a contém. O Caos pode ser também representado por um turbilhão de nuvens, de água e de fogo, como Robert Fludd (1574-1637) expôs em sua obra (Tratado Apologético, 1617).  

Nas Metamorfoses de Ovídio, o Caos preexiste, não sendo os deuses ou a natureza agentes criadores, mas ordenadores, que separam os elementos confundidos, dando a cada um e aos corpos criados o lugar que lhes convém no espaço. Devido a essa concepção do Caos como confusão, ele nunca foi personificado como os deuses o foram. Um pintor da Renascença, Rafael Sanzio (sécs. XV-XVI), evidentemente preso à inspiração religiosa do tempo, deixou-nos talvez uma das mais belas representações pictóricas desse momento, o da separação da luz das trevas por Deus. Do mesmo modo, talvez tenha sido Ovídio (início da era cristã), poeta latino, aquele que com grande arte e fantasia melhor nos tenha falado poeticamente sobre o Caos. 


BOÉCIO
Boécio (sécs. V-VI dC), filósofo e político latino, identificou o Caos a Ofion, embora muitos mitógrafos considerassem este como posterior, dando-lhe por esposa Eurínome, filha do deus Oceano, com a qual governou o mundo antes de Cronos e dos Titãs. Ofion (ophis, serpente) tinha a forma de uma serpente e representava a renovação, como um ser ctônico que era. Ele e sua companheira governaram o mundo. Segundo o mito, talvez de tradição órfica, eles foram vencidos por Cronos e lançados no Tártaro.

Em textos medievais (De Genealogia Deorum Gentilium, de Giovanni Boccaccio, segunda metade do séc. XIV) encontramos uma interessante tradição que parece ter recuperado uma vertente mitológica esquecida, a que identifica o Caos com Demogorgon, nome composto de daimon, gênio, e georgos, o que trabalha a terra, o Gênio da Terra. Demogorgon é descrito como um ser primitivo, sem origem, pai dos deuses e do

universo. Tinha um aspecto sujo e musgoso, disforme, esquálido, vivendo nas entranhas de sua filha, a Terra, no mais profundo do Averno, lago da Itália, na Campânia, perto de Nápoles; os antigos habitantes da região, gregos inclusive que a dominaram, viam nesse lago uma das entradas do Hades por causa dos pântanos que o cercavam e das suas emanações sulfurosas; Virgílio descreveu o lugar na Eneida como o antro da Sibila de Cumas, que ficava na vizinhança. 




SIBILA   DE   CUMAS

Foi nesse tratado (uma importante fonte de consulta mitológica até o séc. XIX) que Boccaccio fez muitas referências a Demogorgon, terrível e antiga divindade, esquecida, dizia ele, já ao tempo dos gregos do período arcaico, e que estaria, ao invés do Caos, na origem da criação e que seria o pai de todos os deuses. Essa divindade não foi mencionada por nenhum dos grandes autores da antiguidade grega e latina, Homero, Hesíodo, Apolodoro, Ovídio e outros. Boccaccio nos informa que Demogorgon tinha uma companheira, a Eternidade (Aeternitas), divindade preexistente também aos grandes deuses, identificada às vezes como o Tempo. 

Sobre o Caos ainda poderíamos dizer que a palavra escapou da mitologia grega e invadiu o léxico de todas as línguas para simbolizar tudo o que resiste à ordem que se pretenda impor a alguma coisa. A ideia é de algo ilimitado, informe, indefinido, que precede a existência. Na filosofia platônica, é o estado geral de desordem e de indiferenciação dos elementos antes da intervenção do Demiurgo. 

Antes de se falar do Urano dos gregos, é preciso mencionar que bem antes das tribos indo-arianas, como a dos aqueus, se instalarem no continente europeu existia no Mediterrâneo oriental, no mar Egeu, uma civilização que tinha o seu centro em Creta, já formada desde o terceiro milênio aC., com o nome de minoana. Pelo que essa civilização nos legou, podemos falar de uma mitologia pré-helênica, sobrevivendo muitas de suas histórias na mitologia grega (nascimento de Zeus em Creta, o rapto de Europa e o touro divino, o Minotauro, Teseu, Ariadne etc.). Esta civilização atingiu o seu apogeu entre 2000 e 1700 aC., tendo sido destruída por duas invasões gregas e por um grande maremoto que praticamente arrasou toda a costa nordeste ilha. 



RAPTO   DE   EUROPA

A primeira invasão de Creta, a Ilha dos Deuses, como a chamava Homero, foi organizada pelos gregos aqueus que, a partir de Micenas, por volta de 1500 aC, a invadiram e aos poucos lá implantaram os seus costumes, promovendo uma fusão entre as duas civilizações, fusão esta que deu origem a uma outra, que passou a ser chamada de creto-micênica. Entre 1200 e 900 aC, o mundo micênico se desintegrou diante dos ataques das tribos dóricas,  que vieram do norte da Grécia. Os dóricos tanto submeteram as cidades dominadas pelos micênicos no continente como Creta e as ilhas do Egeu.

A civilização egeia atribuía um papel importante à religião. O que se sabe dos seus primeiros tempos, apesar dos poucos documentos e provas arqueológicas disponíveis, é que ela tinha inicialmente um caráter fetichista, voltada ao culto de objetos que representavam

entidades espirituais e possuíam poderes mágicos, como pedras sagradas, pilares,  animais, armas, o labrys, ou duplo machado, símbolo cretense etc. Aos poucos, assentando-se a vida social (Homero na Odisseia nos fala que Creta tinha noventa cidades), com a criação de mitos e com a antropomorfização de suas divindades, formou-se um panteão, cuja figura principal, como em muitas tradições asiáticas, era uma Grande-Mãe (um modelo da Geia grega?) de caráter universal, na qual se concentravam todos os atributos e funções da divindade. 

A Grande-Mãe, antes de tudo, simbolizava o aspecto gerador da natureza, dos seus reinos vegetal, animal e humano. Todo o universo estava sob o seu domínio. Era ela inclusive quem regulava o movimento dos astros e o ciclo das estações. As florestas, primeiro, e a agricultura, depois, eram dela, que proporcionava riqueza aos homens, protegendo-os nos combates, dependendo dela também o sucesso da vida marítima (comércio). Ela dominava as bestas ferozes e reinava também sobre o mundo infernal, estendendo-se a sua tutela também ao mundo ctônico. 


BRITOMARTIS
Dois nomes foram conservados dessa Grande-Mãe: Dictyna, mais tarde transformada pelos gregos numa divindade das redes, que residia no monte Dicté, lugar de nascimento de Zeus, segundo uma versão mítica. Britomartis foi o outro nome desta deusa, etimologicamente Doce Virgem, divindade universal. Lembremos que muitos dos traços desta Grande-Mãe foram levados pelos gregos para a sua Ártemis, como Potnia Theron, deusa dos animais selvagens.

Aos poucos, com a afirmação cada vez maior do mundo masculino
ATTIS
(patriarcado impondo-se ao matriarcado), a esta deusa se associou um culto masculino. De início talvez apenas um reflexo de alguns mitos do Oriente Próximo (Ishtar e Tammuz e Cibele e Attis), estes cultos acabaram por dar lugar a uma figura masculina colocada ao lado da deusa em condições de igualdade. Esta figura tomou o nome de Astérios (Estrelado), como grande divindade celeste, que teria servido de modelo para o Urano grego. Este nome nós vamos encontrá-lo no rei de Creta, Asterion, que desposou a princesa Europa depois de sua aventura com Zeus, e que adotou os três filhos, Minos, Radamanto e Sarpedon, que ela teve com o Senhor do Olimpo.

A principal característica de Asterion é que nele se misturavam traços animais (taurinos) e humanos. Foi certamente por influência

das religiões da Ásia central que o touro entrou no panteão cretense como divindade celeste para simbolizar a energia criadora, assumindo nele importância fundamental. Lembremos que os elamitas (povo da região leste do rio Tigre inferior) e os sumérios (povo da região da baixa Mesopotâmia, nas margens do golfo árabo-persa) tinham um deus-touro de natureza uraniana, sempre terrível em suas manifestações.

O touro, desde o período neolítico, salientemos, apareceu associado, em várias civilizações asiáticas, no momento em que a agricultura ganhou grande espaço, à figura das Grandes-Mães. Sempre ligado à força criadora, fecundante, o touro foi logo usado para representar as divindades celestes que atuavam através de fenômenos atmosféricos fecundando a Terra. Lembremos que entre os gregos Zeus e Poseidon tomaram muitas vezes a forma taurina para as suas manifestações.

APIS
Considerado na Pérsia como um dos primeiros seres criados (associado a Mithra), adorado no Egito (Apis) como deus procriador, o touro na Ásia central sempre representou o céu enquanto a vaca simbolizava a terra, que ele fecundava. Objeto de culto também na Índia (os termos sânscritos vrisha, vrishabha ou rishabha designam tanto o animal como descrevem o que é melhor, o primeiro, o príncipe, sob o ponto de vista social), o touro tanto se liga a ideias de abundância e fartura, de forças fecundantes, particularmente sexuais, como de descontrole, de impulsividade cega e indomável, que precisam ser contidas sob pena de catástrofes. 


Segundo Hesíodo, a primeira entidade a emergir do Caos foi Geia, que gerou espontaneamente Urano, o céu, “em condições de igualdade, de esplendor e de beleza para que ele a cobrisse”. O poema nos fala que ele, “ávido de amor”, não parava de fecundá-la. 

O aparecimento dos primeiros deuses da mitologia grega, a sua primeira dinastia, se deve a essa fecundação uraniana, que assumia um caráter anárquico e inesgotável, uma fecundidade perigosa que logo se tornou insuportável para Geia. Insuportável não só pela sua furiosa intensidade como pela prepotência de Urano, que, horrorizado e temendo ser destronado, diante dos filhos que eram gerados, obrigava Geia a reabsorvê-los. 

As criaturas geradas por Urano, logo chamadas urânidas, eram monstruosas, gigantescas, estapafúrdias, rebeldes, e muitas delas indigentes mentalmente. Imenso, opressor, Urano se estendia sobre Geia, que gemia e se queixava. Ao todo, foram gerados os seguintes filhos: Oceano, Ceos, Crio, Hiperion, Jápeto, Cronos,
HECATÔNQUIROS
Teia, Reia, Têmis, Mnemósina, Febe e Tétis, chamados depois, os seis primeiros, de Titãs e as seis ultimas de Titânidas. Foram gerados também os Cíclopes, de nome Arges, Estérope e Brontes, divindades ligadas aos raios, relâmpagos e trovões, e os Hecatônquiros, monstros de cem braços, de nome Coto, Briaréu e Giges.   
Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, resolveu libertar os seus filhos. Pediu que a auxiliassem; todos se recusaram, com exceção do caçula, Cronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Cronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava mais uma vez para penetrar Geia, Cronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe a sua genitália.



CRONOS   E   URANO  ( CARAVAGGIO )

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e Urano um espaço que nunca mais voltaria a se fechar. Essa façanha de Cronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. 

Com um gesto rápido, Cronos lançou a genitália de Urano no oceano. Do sangue e do esperma que escorriam, misturados à espuma das ondas, nasceu a maravilhosa deusa do amor, Afrodite (aphros, espuma). Das gotas do sangue de Urano que caíram sobre a superfície de Geia nasceram as Erínias, os Gigantes e as ninfas Mélias ou Ninfas dos Freixos



NINFAS  ( BOUGUEREAU  -  1878 )

Com a mutilação de Urano, Geia uniu-se a um dos filhos que gerara sem o concurso de ninguém (os outros dois foram Montes e Urano), o deus Pontos, personificação masculina do mar, e com ele teve cinco divindades marinhas: Nereu, Taumas, Fórcis, Ceto e Euríbia.


CÍCLOPE
Ao assumir o controle do universo, pondo fim à primeira dinastia divina à qual se deu o nome de cosmogenia, formada a partir de Urano e Geia,  Cronos instituiu a segunda, caracterizada pelo nome de esquizogenia, implantando uma ordem tão ou mais violenta e despótica que a do pai. Temendo seus irmãos, os Cíclopes, que havia libertado a pedido de Geia, encerrou-os novamente no Tártaro, juntamente com os Hecatônquiros. 

Urano se distingue especialmente das outras divindades celestes por sua fecundidade monstruosa, anárquica, e o ódio que nutria

pelas próprias criaturas que gerava. Todos os deuses celestes exercem a função de  criadores; eles fazem o mundo, os deuses, os seres vivos. A fecundidade é uma especialização de sua função criadora. Esta é uma das razões (ou a principal) pela qual esses deuses são representados por touros. No Rig Veda, por exemplo, Dyaus é chamado de O Touro. 

O aparecimento dos urânidas, os filhos de Urano e Geia, representa aqueles primeiros momentos da criação em que ainda não se tinha a ideia de cosmos nem se conheciam quaisquer regras. Só muito mais tarde, com a organização das sociedades humanas e, filosoficamente, com os pitagóricos é que apareceria a ideia de que o universo era um kosmos porque podia ser reduzido a proporções matemáticas (harmonia), já que a arche de todas as coisas era o número (arithmos).

 Os primeiros tempos da criação, como se sabe, são caracterizados em todas as tradições pelo entrechoque das forças naturais e pelo aspecto monstruoso dos primeiros seres criados. Daí o caráter therogenésico da criação uraniana e de sua respectiva contrapartida, o aparecimento de Afrodite e, a seguir, depois que Cronos (2ª dinastia) “organizou” o espaço e tempo, de Zeus e da ordem olímpica.


AFRODITE   ( ALEXANDRE  CABANEL - 1863 - MUSÉE  D'ORSAY )


A criação uraniana era extravagante, inusitada, razão pela qual seu culto desapareceu bem antes dos tempos históricos. Seu verdadeiro sucessor foi Zeus, já que Cronos destruía a sua própria criação, ou seja, destruía na medida em que gerava. Apesar dos descontroles e dos excessos que se verificaram no reinado de Zeus (3ª dinastia), a ordem cósmica sempre se estabilizou de algum modo, as espécies acabaram se fixando, princípios de vida racional, de ordem, de hierarquia e de vida espiritual ganharam espaço, vividos pelo espírito grego mais teoricamente (filosofia, Logos) do que na prática. Platão, lembremos, chamou o kosmos de Deus visível, não por razões naturistas ou vitalistas, mas em virtude do papel ético que ele representava na sua teoria. 

Saliente-se que na filosofia grega as primeiras ideias sobre o céu (Ouranòs) foram apresentadas por Anaxímenes, que dele falou como o sustentáculo dos ouranoi, os corpos celestes. Depois, essa
PLATÃO
ideia foi substituída por outra, a de que o céu tem uma multiplicidade de camadas, de esferas que envolvem a terra e pelas quais transitam os astros, o Sol, a Lua e os planetas, enquanto na última esfera exterior ficava o chamado céu das estrelas fixas. Aristóteles usa a palavra ouranos como universo total e Platão em muitos momentos usa indistintamente ouranos e kosmos.

Com o crescente avanço da astronomia, o céu passou a desempenhar um importante papel na religião em virtude de sua “extraordinária ordem”. Daí surgiu uma ideia cara à filosofia: uma das principais funções do filósofo seria a de contemplar as eternas verdades do alto. Platão, no Filon, declara numa passagem que Deus criou os céus para que o homem, ao contemplar a sua harmonia, pudesse ser atraído para o estudo da filosofia. Para Platão, o espetáculo celeste tem um efeito educativo, já que na sua ordem podemos vislumbrar o destino da alma humana. 

Urano foi descoberto, como se disse, no final do século XVIII (1781), período em que tivemos duas grandes revoluções que mudaram a face do mundo, a francesa e a americana. Ao se revelar para a humanidade como um poderoso arquétipo renovador, Urano significou o fim da Idade Moderna, que havia começado no século XV. De um modo geral, utiliza-se para o início desta Idade o ano de 1453 (tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos) e para o seu fim o ano de 1789  (Revolução Francesa).



TOMADA   DE   CONSTANTINOPLA  ( EUGÈNE   DELACROIX )

Adotam-se, como marcos significativos para caracterizar a Idade Moderna três grandes acontecimentos históricos: expansão marítima (viagens de circum-navegação), o Renascimento e a Reforma Protestante. Estes três acontecimentos, como se sabe, alteraram profundamente a política, a economia, a sociedade e a cultura. 

Para começo da Idade Contemporânea, adota-se o ano de 1789, o da Revolução Francesa. Esta Idade, que se abre com a descoberta
DISCURSO  SOBRE
O  MÉTODO ( DESCARTES )
de Urano, se caracteriza sobretudo pelo desenvolvimento do espírito crítico e pela realização dos princípios cartesianos, que desde o século XVII haviam proposto (Discurso sobre o Método) que nada escapasse da razão e da dúvida metódica. Desde então, passa a ser incentivada, sob o impulso de uma curiosidade intelectual insaciável, a pesquisa experimental, para complemento da reflexão teórica na investigação científica.  A literatura torna-se cada vez mais filosófica e científica; a obra literária torna-se polêmica, tornando-se demonstração, discussão.


JOHN   LOCKE
Nesse cenário, ganham contornos precisos as ciências e o seu suporte científico. São difundidas as ideias de Locke e de Newton através da Física Experimental. John Locke (1632-174) já havia colocado em discussão ideias como a ampliação dos limites do conhecimento pelo seu empirismo. Mais: ele fala da reflexão pela qual a alma deve tomar consciência do mundo, não passivamente, mas por operações em que se combinem a abstração e a associação para a formação das “ideias complexas”. 



ISAAC   NEWTON

Circulavam por essa época nos salões cultos da Europa versos de um matemático e naturalista da época, Pierre Maupertuis que proclamavam a importância de Newton, físico e astrólogo, dizendo-

nos que tudo estava encerrado numa noite obscura e que o compasso de Newton, medindo o universo, havia aberto os céus, levantando enfim o grande véu. O progresso das ciências foi geral. É publicada na França a Enciclopédia, primeira obra de ensinamento técnico, inspirada na Cyclopedia of Arts and Sciences, inglesa, editada em 1727. São discutidos problemas pedagógicos. Em 1780, a França já tinha a sua Escola Nacional de Artes e Ofícios.  


No dia 26 de agosto de 1789 é proclamada a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, um documento totalmente baseado nos princípios astrológicos que Urano deu aos valores do signo de Aquário, uma revolução social e jurídica. Jean-Jacques Rousseau já havia publicado em 1755 o seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens.

De todo o tumulto revolucionário que tomou conta da Europa nesse período há que se reter que todos os grandes problemas políticos e sociais do futuro foram colocados, sob a ótica uraniana, no final do séc. XVIII: direitos do homem e limites do poder do Estado, definição da liberdade individual, relações entre a Religião e Estado, definição da liberdade individual com relação à Religião e ao Estado, direitos de igualdade dos indivíduos diante da lei e da justiça.

Institucionalmente, o fim do século XVIII se caracterizou pelo crescente enfraquecimento dos regimes monárquicos (de natureza do signo oposto,  Leão). Nesse período se constata o surgimento de uma grande “antipatia” do povo pela figura real, sobretudo pelo povo dos grandes centros urbanos (Paris). 

Um artigo do Dictionnaire Portatif, de Voltaire, traduzia, já em meados do séc. XVIII, o desenvolvimento da opinião pública cada vez mais consciente das injustiças, a reclamar liberdade de pensamento e de opinião. Num dos artigo do Dictionnaire, Liberdade de Imprimir, Voltaire escrevia que era um direito natural alguém se servir de sua pena e de sua palavra para falar de seus perigos, dos seus riscos e de seus azares.    

Assim como Urano representava o poder criador do céu, passou ele logo analogicamente a simbolizar aquele impulso que no ser humano participava da mesma ideia, inclusive nas suas expressões mais extravagantes, libertárias, rebeldes e iconoclastas. Além disso, é preciso considerar que as particularidades físicas de Urano, analogicamente também, sempre o associaram a mudanças repentinas, a ações intempestivas, todas lembrando a ação taurina celeste. Lembre-se que a primeira consequência quanto à descoberta de Urano foi a de que ela alterou profundamente os conceitos da astrologia ptolomaica.

Outra questão, já mencionada, mas aqui reforçada, é que Urano é um “planeta diferente”, muito diferente dos demais do sistema solar até então conhecido. É por isso que quando nos referimos a Urano, à sua ação astrológica, usamos prefixos como hiper, ultra, super, extra, usados para caracterizar tudo o que foge da normalidade. 


AQUÁRIO
É desse modo que Urano, como regente do signo de Aquário, revela a condição humana num estágio mais evoluído, lembrando a humanidade, a fraternidade universal, enquanto outros signos de ar, como Gêmeos, por exemplo, tem a ver mais com a adolescência, e Libra com a vida social a dois, “o você e eu”. Daí a excessiva e notável característica aérea dos uranianos, traduzida, quase sempre, por um esforço no sentido da conquista de elevados objetivos. Não é incomum, por essa razão, o uraniano se ver dominado pelo excessivo crescimento do seu ego, sem saber como controlá-lo, a mercê de impulsos voltados para explorações, proezas, de um desejo de bater recordes, de ficar sempre à frente dos outros. 

Uma relação quase sempre desprezada é a de Urano com Afrodite (Vênus). Sabemos que a deusa do amor nasceu da genitália de Urano lançada ao mar, em meio à espuma (aphros) das ondas. Associados os dois arquétipos, podemos encontrar explicações do motivo pelo qual muitas relações amorosas apresentam um caráter faiscante, que os franceses descrevem muito apropriadamente pela expressão coup de foudre

Lembro que Urano, de um modo geral, considerando-se a aplicação e a separação de um aspecto astrológico, leva alguns meses para transitar por um planeta, formando com ele uma conjunção, ou por um grau qualquer. É muito comum, quando esse trânsito alcança Vênus, que uma pessoa se torne “vítima” da enkrateia, o poder de sedução da deusa, e inicie uma relação afetiva (tempestuosa muitas vezes). Terminado o trânsito por Vênus, aquilo que começou tão subitamente, inexplicavelmente, pode terminar da mesma maneira. O mesmo exemplo, no que couber, poderá ser aplicado no caso de trânsitos de Urano pelos demais planetas pessoais. 



ÍCARO  ( CARLO   SARACENI  1588 - 1620 )

Durante os trânsitos uranianos, podemos nos elevar a “alturas” jamais imaginadas. Terminados os trânsitos, podemos despencar dessas “alturas”, sendo geralmente mortais esses tombos. Como exemplos, podem os citar, retirados da Mitologia, os exemplos de Ícaro e de Faetonte, histórias que ilustram com muito clareza o que aqui se expõe. 


FAETONTE

Nos trânsitos de Urano, temos, de um modo geral, a tendência de ultrapassar o nosso metron, que deve ser dado pelo nosso Sol (Eu
SATÉLITE
interior + Mercúrio). Nos trânsitos de Urano corremos o risco de inadaptação às nossas rotinas (querendo compensar as opressões saturninas), tornamo-nos mais eufóricos, podemos ficar  tomados pela
hybris, pela desmedida. Sentimo-nos muito estimulados por produtos uranianos (computadores, aviões, satélites etc.), podendo incorporar, sem o perceber, toda a simbologia ligada ao signo de Aquário e a Urano.     


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

BOCCACCIO E DEMOGORGON : UM CASO LITERÁRIO ?





O Renascimento foi um vasto movimento cultural que alcançou vários países da Europa ocidental entre o final dos séculos XIV e XVI. A palavra renascimento aplica-se porque esse movimento procurou recuperar para o mundo europeu os valores da antiguidade greco-romana há muito esquecidos.


TEMPLO GREGO

Sob o ponto de vista cultural, tal movimento encontrou nas artes e nas letras o seu melhor meio de expressão. Ele começou antes na Itália e depois passou à França. Os países da Europa cristã a esse tempo experimentaram um forte crescimento de sua população depois de um século de epidemias, pestes, fome e guerras, tudo se traduzindo por uma grande expansão econômica e pelo alargamento de suas fronteiras (circum-navegação e aventuras colonialistas).

PANTEÃO ROMANO

Com o progresso material, as mentalidades se transformaram. Temores medievais foram afastados e os homens se lançaram, impulsionados por um espírito de aventura, a valorizar a vida de um modo diferente e a ampliar os seus horizontes intelectuais. Para ratificar o que pensavam e construíam no mundo da cultura os homens desse tempo se voltaram para o mundo greco-romano, redescobrindo os seus valores. 

Tendo como centro irradiador a cidade de Florença, esse movimento recorreu à herança greco-romana para renovar inclusive, completamente, a estética vigente. Alimentava essa febre cultural o pensamento neoplatônico, que entra em moda a partir da academia fundada em Florença por Lourenço de Médicis (fig. esq.), nela pontificando a maior figura do movimento renascentista, Marsilio Ficino, sacerdote, filósofo e humanista.


As ideias do aristotelismo medieval e do geocentrismo ptolomaico foram deixadas de lado. Foi no bojo desse movimento ou por ele influenciado que na Itália e fora dela surgiram, ao longo desse período, entre os sécs. XIV e XVI, figuras como Pic de La Mirandola, Petrarca, Machiavel, Ariosto, Shakespeare, Marlowe, Rabelais, Cervantes, Boccaccio e outros.



Nascido em Florença (1313-1375), filho natural de um mercador toscano e de uma francesa, Giovanni Boccaccio foi enviado a Nápoles para seguir a carreira mais promissora do momento, a de banqueiro. Manifestando, porém, logo na adolescência uma profunda aversão pela profissão do pai, voltou-se para o direito canônico da qual passou logo para as letras. 

Frequentando a refinada corte de Robert d´Anjou (fig. dir.), o jovem Boccaccio tomou gosto pela literatura, pondo-se a escrever obras poéticas, ballatas, cantos in terzine e in ottava rima, obras romanescas em que se misturavam mitos pagãos e lendas cristãs. Robert d`Anjou, rei de Nápoles, protetor de Florença, foi o chefe do partido guelfo na Itália. Acolheu e protegeu em sua corte Boccaccio e Petrarca, tornando-se este, desde 1350, além de amigo, uma espécie de conselheiro de Boccaccio.

A obra mais conhecida de Boccaccio é O Decamerão, como se sabe, um modelo de prosa que influenciou bastante o trabalho de muitos escritores, de modo especial Chaucer, Shakespeare, Margarida de Navarra e La Fontaine. Boccaccio foi biógrafo de Dante (fig. esq.) e, além de outras atividades, dedicou-se até o fim de sua vida, pelo muito que o impressionou, a fazer palestras sobre a obra do poeta, La Divina Commedia em especial. Quando Dante a publicou ela se chamava apenas La Commedia. Foi Boccaccio quem juntou o adjetivo “Divina” ao título.

Em 1360, Boccaccio deu à luz a sua “Genealogia Deorum Gentilium”, publicada sob o patrocínio de Hugo IV, rei de Chipre e de Jerusalém, revisada em 1374. Essa obra é uma espécie de enciclopédia na qual ele procurou estabelecer a complicada genealogia dos deuses da mitologia greco-romana, a partir de trabalhos mais antigos, como o Liber imaginum deorum (séc. XII) e de mitografias editadas pelo Vaticano.

A Genealogia de Boccaccio, escrita em latim, foi dividida em quinze livros, procurando ele dar uma interpretação alegórico-filosófica ao material apresentado. Embora reconheça a dificuldade da empreitada (grande número de versões sobre a mesma divindade e deuses com o mesmo nome), a obra saiu a contento, tornando-se uma fonte de consulta preciosa até o século XIX.

É nessa obra que se encontra uma curiosa história sobre a origem do cosmos e dos deuses, que contraria a versão de todos os escritores, poetas ou não, que trataram desse tema, Homero, Hesíodo, Apolodoro, Alcman, Ovídio e outros. Boccaccio dá a entender que aquilo que o Caos e Geia representam para a versão mitológica mais aceita, a de Hesíodo, (Teogonia), como origem do cosmos e dos deuses, deve ser atribuído a Demogorgon, na realidade para ele a verdadeira origem de tudo. 

Lembremos quanto a esta “heresia”, por exemplo, que Ovídio (Metamorfoses) não segue também a versão canônica hesiódica. Para ele o Caos preexiste, não sendo, porém, os deuses ou a natureza os agentes criadores, mas ordenadores, que separam os elementos confundidos, dando a cada corpo um lugar conveniente no espaço. 

Boécio (séc.V-VI dC), filósofo e político, foi outro que não seguiu a versão hesiódica. Identificou o Caos com Ofion, uma espécie de réptil ctônico, embora muitos mitógrafos considerassem este como posterior, dando-lhe por esposa Eurínome, filha do deus Oceano com a qual governou o mundo antes de Cronos e dos Titãs. Ofion (ophis, serpente) tinha a forma de uma serpente e representava a renovação, como um ser ctônico que era.


Embora a versão defendida por Boécio não possa ser considerada satisfatória por causa de certas razões “cronológicas”, não podemos esquecer que a serpente em quase todas as tradições aparece como o grande ancestral mítico dos deuses e da humanidade. No Egito, por exemplo, segundo a cosmogonia heliopolitana, o demiurgo Atum, representado pela serpente, por cusparadas (saliva) ou masturbação (esperma), criou o mundo, dando vida aos nove deuses primordiais (enéada). Atum significa “aquele que é completo”, “aquele que contém tudo”, a totalidade. Não é por acaso também que entre os mesopotâmicos a deusa cosmogônica, associada ao caos, tem o nome de Tiamat (fig. dir.) e é representada por uma serpente ou por um dragão aquático.

Divindade criadora do cosmos e pai dos deuses, Demogorgon, é mencionado também, certamente com base na obra de Boccaccio, por Leon Hebreo ou Judá Abravanel (Diálogos do Amor), por Ariosto (Orlando Furioso), por Jorge de Montemayor (Os Sete Livros de Diana) e Juan de Mena (Treiscientas). Daí para frente, o nome Demogorgon se ligou a uma tradição literária e iconográfica que chegou a John Milton e a Shelley (fig. dir.). 

Discutida a “existência” de Demogorgon, a questão ganhou alguma luz quando o professor Carlo Landi, de Palermo, em 1930, discorreu numa monografia de 118 páginas sobre as fontes de que Boccaccio se teria servido para colocá-lo no seu Tratado. A primeira seria a obra, desaparecida, de um tal de Theodontius, provavelmente um autor bizantino do séc. VIII. No mesmo artigo, se fala que o Demogorgon, em Theodontius, viria talvez da obra de Ferecides de Siro, filósofo pré-socrático. Outra fonte de Boccaccio seria um poema denominado Protocosmos, de Pronapide de Atenas, também bizantino. Uma terceira fonte estaria em texto (comentário) produzido por Lactancio Placido sobre a Tebaida, de Publius Papinius Statius, poeta mundano do séc. I dC, também autor de Achileida (inacabado). Além destas fontes é de se mencionar a possibilidade de Boccaccio ter se utilizado da obra de Ovídio (Metamorfoses) e recebido informações de seu professor de grego, Leontius Pilatus, que com ele conviveu por três anos, pois nesse período residiu em sua casa.


Todos estes nomes foram postos inicialmente em circulação no Renascimento por um esforço conjunto de intelectuais como Petrarca e Boccaccio, estes considerados como “pais” do Humanismo, outro nome do Renascimento. Petrarca, principalmente, como está comprovado, muito se esforçou para recuperar os conteúdos literários originais da antiguidade greco-latina perdidos no fundo de bibliotecas. Ele foi além além dos autores clássicos admitidos, partiu para a livre investigação da natureza física e humana, sem os limites impostos pela autoridade religiosa.

Demogorgon, “horrível por seu nome”, segundo Boccaccio, quer dizer para ele, em latim, “deus da terra”(demon, deus, e gorgon, terra). Ou, para outros, daimon (gênio) e georgos (o que trabalha a terra). É descrito como um ser primitivo, sem origem, pai dos deuses e do universo. Tinha um aspecto sujo, musgoso, disforme, esquálido, vivendo nas entranhas de sua filha, a Terra, no mais profundo do Averno, lago da Itália, na Campania, perto de Nápoles; os antigos habitantes da região, desde os tempos da Magna Grécia, sempre viram esse lago como uma das vias de acesso ao Inferno por causa dos pântanos que o cercavam e de suas emanações sulfurosas. Virgílio o descreveu na Eneida, falando inclusive do antro onde, perto dele, vivia a famosa Sibila de Cumes.

Segundo se depreende do Tratado, Demogorgon, terrível e antiga divindade, já estava esquecida pelos gregos no período arcaico. Essa divindade não foi mencionada por nenhum dos autores que na antiguidade abordaram, poeticamente ou não, a questão cosmogônica, Homero, Hesíodo, Apolodoro, (fig.dir.) Alcman, Ovídio e outros posteriormente. Boccaccio nos informa mais que Demogorgon tinha uma companheira, a Eternidade, deidade preexistente também aos grandes deuses, identificada às vezes como o Tempo.


Diante dos dados disponíveis sobre Demogorgon parece bastante aceitável aproximá-lo das correntes neoplatônicas renascentistas. Essas ideias faziam parte dos studia humaniora. A Itália do desde o Quatroccento havia redescoberto o neoplatonismo, voltando Platão (fig.esq.) a ser discutido. Este movimento ganhará a sua plena expressão com a divulgação, no séc. XV, a partir da Academia de Florença, por Marsilio Ficino, do pensamento do autor dos Diálogos.

O trabalho do prof. Landi, acima mencionado, ao que nos conste, é pioneiro na investigação desse "caso“ literário. Acena também, tomando um outro caminho, com a hipótese de Boccaccio ter se utilizado das ideias platônicas para dar “nascimento” a Demogorgon. A palavra seria a corruptela bizantina de uma outra, grega, muito conhecida, Demiurgo, personagem central na filosofia platônica. Quanto ao nome gorgon (diminutivo de gorgo) como se sabe, tanto significa em grego demônio, monstro (a Górgona), como algo terrível, espantoso, amedrontador.

No que se refere a Theodontius, Boccaccio nos revela que tomou conhecimento dos seus trabalhos sobre mitologia nos textos de Paolo de Perugia, destruídos por sua mulher depois de sua morte. Essa questão das fontes, não só com relação à sua Genealogia, mas com relação a outros textos seus, nunca ficou muito claramente definida. Numa certa altura ele nos revela, queixando-se, de que quando recolheu as informações de Theodontius muita coisa já estava ilegível. Mais ainda: a fonte de Boccaccio para a sua afirmação de que todos os deuses descendem de Demogorgon era um historiador grego, Philochorus, cuja obra se perdera. 

Muitos acreditam que Demogorgon não passou de uma invenção de Boccaccio, o que talvez seja até muito possível. Para nós, esta impressão se justifica não só se considerarmos o acima exposto como se tivermos em mente o grande sans façon com que ele sempre se aproximou da mitologia grega e de seus personagens, intervindo, mudando situações. Citemos, como exemplo, a informação que nos deixou sobre Ariadne (fig. esq.), a princesa cretense, que teria sido abandonada por Teseu em Naxos por ter se embriagado. Boccaccio não se preocupava muito com a “verdade histórica”, sempre sacrificada ou distorcida, quando conveniente, para justificar as suas afirmações. Aliás, nisto poderá muito bem ter seguido Platão que desfigurou muitos mitos gregos para que coubessem procustianamente no seu “leito”.

Uma observação final: o prof. Landi, se admitida a existência de Theodontius, suspeita de que ele teria se inspirado em Ferecides de Siro para definir a figura de Demogorgon como criador do universo. No nosso entender, há duas maneiras de nos aproximarmos dessa figura. Uma delas é a de o considerarmos como filósofo pré-socrático. 

Os dados de sua biografia são escassos. Sabe-se que nasceu em Siro, uma das ilhas Cíclades, e que era aleijado. Diógenes de Laércio, vulgarizador da filosofia grega, o considerou no seu akmé (esplendor) ao tempo da quinquagésima nona olimpíada (por volta de 540 aC). Atribui-se a Ferecides a autoria de um livro, Pentemychos (Nas Cinco Cavidades ou Nas Cinco Cavernas).

Segundo uma tradição muito divulgada, a merecer crédito, Pitágoras teria sido discípulo dele. Ao tomar conhecimento de que ele estava morrendo, Pitágoras (fig. dir.)teria ido da Itália para Delos para assisti-lo nos seus últimos momentos e cuidar do seu enterro, tudo confirmado por vários depoimentos (Pseudo-Alexandre, Diodoro da Sicília, Aristóxeno e Plotino). Cícero afirma (Tusculanas, prosa filosófica) que Ferecides foi o primeiro a afirmar que as almas dos homens eram eternas e a ensinar a doutrina da metempsicose. 

Os fragmentos e testemunhos que nos chegaram de Ferecides nos informam que para ele havia uma tríade primordial, formada por Zas, Cronos (fig.esq.) e Ctonia, três princípios universais (tas treis prôtas aschas). Cronos produziu por seu próprio sêmen o fogo, o sopro e a água, que foram repartidos por cinco recantos (pente mychois), formando-se uma outra descendência de vários deuses. Um outro papiro encontrado descreve as bodas sagradas de Zas (Zeus?) e Ctonia, estratificando-se o mundo. 

As especulações posteriores sobre o legado de Ferecides (Probo, Hérmias, Sexto Empírico, Aristóteles e outros) tornam muito difícil uma conciliação sobre tudo o que ele deixou. De todas as afirmações de Ferecides sobram três, que podem ser levadas em consideração: 1) as potências ou princípios por ele mencionados existem desde sempre; 2) o universo é produto de uma união, Zas e Ctonia; 3) Cronos (Tempo) produziu o fogo, o ar e a água. O número privilegiado de Ferecides é o cinco: enquanto Cronos produz o três (fogo, ar e água), Zas (Zeus?) e Ctonia produzem o dois e através dele geram Geia e o Oceano.Tudo o que temos de Ferecides, até prova em contrário, é muito pouco para se chegar à figura de Demogorgon. 

A segunda maneira de nos aproximarmos do filósofo de Siro é ficar longe dos que o adotaram como "ocultista, esotérico", uma mistura, como disse Aristóteles, de teologia, filosofia e mitologia. Nada mais.