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sexta-feira, 7 de julho de 2017

LEÃO (3)


TYCHE
Lembremos que Fortuna, entre os romanos, era uma “tradução” da deusa Tyche, dos gregos, a deusa da Sorte, do Acaso. Costuma Fortuna  aparecer associada ao signo do Leão, ou melhor, aos leoninos vitoriosos. Na origem, Fortuna, ligada às mulheres e a alguns oráculos, era considerada como um símbolo da sorte efêmera, sempre representada de pé, alada, sobre uma roda, com uma cornucópia nas mãos, empurrada ao acaso pelos ventos de um lugar para outro. Com o correr do tempo, a partir do fim da república romana, Fortuna foi aparecendo cada vez mais associada a certas figuras políticas.


O culto a Tyche, entre os gregos, do verbo tynkhanein, conseguir por sorte, obter por acaso, ter êxito, apareceu num período de decadência política e social (final do período clássico e por todo o helenístico, da história grega) quando os conceitos que Ananke representava foram sendo "esquecidos" pela sociedade grega. Ananke significava, sobretudo, entre os gregos antigos, a causalidade que operava no universo com um fim, governando todas as coisas de um modo providencial. Ananke é conceito que lembra muito a doutrina do karma (lei de causa e efeito) dos hindus. Tyche, nesse sentido, é o efeito que não se liga à causa, contrapondo-se a Ananke. Em suma, com um pouco de sorte, com o auxílio de Thyche, podemos escapar. A lei de causa e efeito deixava de funcionar. Tyche atua no sentido contrário de deusas que agem em nome de Ananke. 


ANANKE   E   AS   MOIRAS
      
Ananke é nome que lembra coação, violência e ao mesmo tempo relação de parentesco, isto é, de causa e efeito. Em torno desse conceito reúnem-se várias divindades femininas que, de modo providencial, têm por finalidade a reposição de limites por parte daquele que se excede. Nêmesis, as Moiras, as Erínias, Dike, as Keres e Ate, são divindades desse mundo. Há sempre algo de mecânico na ação dessas deusas, de inexorável. É o próprio agir do ser humano que determina qual delas virá para constrangê-lo, para obrigá-lo a voltar de onde não deveria ter saído, com sofrimento, maior ou menor, de algum modo. Com Tyche, o que prevalece então a ideia de acaso, de pura contingência, algo que poderia ter acontecido ou não.


JÚLIO   CÉSAR
Dentre importantes figuras políticas leoninas que aparecem associadas à Fortuna podemos citar Júlio Cesar e Otávio. O primeiro nunca perdeu uma batalha. Quanto ao segundo, depois de vencer Antônio e Cleópatra na famosa batalha do Actium (31 aC), tornou-se o imperador de Roma, adotando o nome de Augusto e tendo por símbolos o Sol e o leão. Sua autoridade foi colocada  sob  a  tutela  de  Apolo e, como  tal, ele  se  tornou o supremo  chefe religioso de todo o seu imenso império, recebendo o título de Pontifex Maximus. Com  isso ,  instaurou-se  o  culto de 
OTÁVIO   AUGUSTO

Genius Augusti, da força divina encarnada no imperador. O período em que reinou (27 aC-14 dC) passou à história com o nome de O Século de Augusto. Sob o ponto de vista artístico, seu grande incentivo à cultura e sua grande proteção aos artistas levou os historiadores a darem o nome de Idade de Ouro ao período em que governou.


SHIVA

Na Índia, um dos avatares (descida do divino ao mundo dos humanos) de Vishnu, a segunda pessoa da trindade hinduísta, tem o nome de Nara-Simha. Foi sob esta forma, de homem-leão, que Vishnu desceu ao mundo na Satya-Yuga (1ª idade) para libertar o universo da tirania de Hiranyakasipu, um demônio que, favorecido por Brahma, havia se tornado invulnerável. Nara-simha, forte e corajoso, é o destruidor do mal e da ignorância. 


HIRANIAKASIPU

O culto do homem-leão na Índia é muito antigo, nele se venerando principalmente a coragem e a força como aspectos da divindade. O culto fica restrito de um modo geral aos membros da segunda casta (kshatryas), reis e guerreiros. Os membros da primeira casta (brâmanes) dele participam na medida  em  que  são os destruidores
COLUNA  DE  ASHOKA
da ignorância. Os cultores da Nara-Simha são orgulhosos, como o leão, o rei dos animais, o mais forte e o melhor, a personificação da coragem. Encarnando na Índia o poder e a majestade reais, ao leão é, como ao tigre, é sempre votada uma grande consideração. Não é por acaso que nos brasões de armas da Índia, desde os tempos do imperador Ashoka, encontramos quatro leões unidos. 

Buda é conhecido como o Leão da tribo dos Sakya, na qualidade de mestre do Dharma. No Budismo, a consciência iluminada, no incessante jogo da vida, sempre tendo que tomar decisões de momento a momento, sempre tendo que tomar posse ou renunciar a algo, sempre afirmando ou negando, é representada pela figura de um bodhisattva (aquele que tem a iluminação no seu  âmago). É por isto que Buda vem sentado sobre um leão. Esta representação tem por origem as pregações de Buda, quando nas assembleias, ensinava o dharma. Em tais pregações fazias-se uma analogia entre o seu ensinamento e o rugido do leão, o poder que ele tinha de sacudir e de despertar as pessoas. 


BUDA

No cristianismo, Cristo é chamado de o Leão de Judá, como encarnação de poder, sabedoria e justiça e por sua família descender do patriarca que tem este nome. O leão é muitas vezes utilizado para representar o aspecto manifestado da divindade, assinalando o seu entendimento como terrível. Neste sentido, ele é o atributo das forças furiosas da justiça divina. Na Índia, ele vem com Durga (shakti de Shiva), aquela que vence as forças do mal. Às vezes, vem como símbolo do aspecto temível de Maya, a ilusão da separatividade. 


DURGA

Negativamente, o leão aparece como representação de uma cega impetuosidade, de um apetite insaciável, de uma avidez violenta e irascível, manifestando-se por uma vontade imperiosa, servida por uma descontrolada força.  É neste sentido que o leão na Índia, como o encontramos em várias imagens, é sempre subjugado por Shiva, o destruidor das formas. Nas Escrituras cristãs, lembremos, o leão é um dos símbolos do Anticristo, personagem misteriosa que, segundo o Apocalipse, deverá aparecer algum tempo antes do fim do mundo, enchendo a terra de crimes e impiedade, para depois, ao final, ser vencido por Cristo. Com a sua cega avidez, a sua descontrolada ferocidade, o seu enorme despotismo, o leão, com a sua bocarra aberta, é, em várias tradições uma representação das potências infernais. Além disso, é o leão também uma das preferidas montarias de Satan.

As imagens e esculturas de leões são encontradas em todas as tradições à entrada de túmulos, de templos, de habitações, de cidades, em portas e portões (aldrabas) para lembrar vigilância, proteção, mesmo em latitudes em que a fauna local não o conheceu. No oriente, como protetor, ele atua contra as forças maléficas, mencionando-se, por exemplo, no Japão, as danças do leão (Shishimai), celebradas no dia primeiro do ano e em outras festas. 


SHISHIMAI

Entre os judeus, o leão é símbolo da tribo de Judá e dos reis davídicos daquela tribo. Leões ornavam o trono de Salomão. Acreditava-se, nos tempos antigos, entre os judeus, que os leões, a não ser quando famintos, não atacavam nem matavam os seres humanos. Assim, se o marido de uma mulher tivesse caído numa cova de leões tal fato não poderia ser considerado como uma prova suficiente de sua morte para que a mulher voltasse a casar. O leão era um dos motivos artísticos favoritos na decoração de uma sinagoga. Nas suas pregações, os antigos rabinos advertiam os judeus de que era melhor ser uma cauda de leão que uma cabeça de raposa. Tal expressão significava que era melhor uma associação com pessoas eminentes, mesmo numa condição de subordinação, do que liderar gente de baixo nível social. 

Na Bíblia, lembremos, no novo testamento, o leão é mencionado (Apocalipse, capítulo 5º, 5). Ali se fala da tribo de Judá que abriu o
SÉTIMO   SELO
livro e os seus sete selos. Esta passagem apresenta, subtendida, uma referência ao signo de Leão: somente alguém, revestido de autoridade divina, solar, que está na posse de seu ego, poderá abrir o Livro do Destino, fechado por sete selos (vide o filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman), O selo é aqui emblema de poder, de autoridade, de soberania, Ele protege, lacra, fecha, preserva, um símbolo de algo secreto. Só podem romper os selos e abrir o Livro aqueles que encontraram a suprema razão de viver, os que chegaram à luz, os devidamente habilitados, aqueles que, sob o ponto de vista astrológico, conquistaram a quinta casa.

É a partir do ingresso na quinta casa astrológica que podemos partir, simbolicamente, para a criação de um eu superior, a caminhada em direção das casas que se abrem depois desta. É por esta razão que a estrela de cinco pontas ou pentagrama, a chamada estrela flamejante dos hermetistas, corresponde, simbolicamente para o homem, aos seus quatro membros e à sua cabeça. Ou seja: os quatro membros executam o que a cabeça comanda. O pentagrama passa a ser entendido assim como o símbolo da vontade soberana à qual nada pode resistir, sob a condição de que esta vontade seja inquebrantável, judiciosa e desinteressada, características que só podem ser obtidas por uma longa prática relacionada com os assuntos da casa seguinte, a sexta, do signo de Virgem.


É por esta razão que o signo de Virgem é representado pela estrela de seis pontas, resultante do entrecruzamento de dois triângulos. Esta estrela sempre foi considerada como um emblema da sabedoria, uma representação da força em movimento, uma das expressões da pedra filosofal dos alquimistas, objetivo da Grande Obra, graças à qual o microcosmos humano entra em relação com o macrocosmo universal. É no nível da sexta casa, diante do ego que nasceu na casa anterior, que a opção é feita, regredir à animalidade, à vida instintiva, puramente egoica (a ponta do triângulo que aponta para baixo) ou caminhar em direção do social, do coletivo, da humanidade, com propostas de abertura para uma vida orientada espiritualmente. Visualizada com a ponta voltada para baixo, a estrela de seis pontas adquire conotações satânicas, aparecendo sempre associada ao príncipe das trevas. Priorizado o vértice inferior, essa estrela simboliza os instintos grosseiros, os ardores lúbricos que subjuga o racional humano.


BASÍLICA   DE   SÃO   MARCOS  -  VENEZA

No que diz respeito a outras possíveis associações do leão com figuras lendárias ou históricas, lembremos ainda que ele, numa forma alada,é o emblema de S. Marcos. O evangelista Marcos, que acompanhou S. Pedro a Roma, morreu no ano de 57, na prisão, quando Nero governava o império romano. No ano de 468, segundo Ambrósio, o corpo de Marcos foi transportado para Veneza e lá sepultado numa igreja que mercadores ricos levantaram, sendo o santo representado desde então por um leão alado. As asas, como sabemos, ligadas a certas figuras como o leão, simbolizam no caso a transcendência, a sublimação, a espiritualização do poder. A basílica que tem o nome do santo em Veneza, com cinco cúpulas desiguais, foi levantada no séc.XI, para guardar as suas relíquias. 

Na Alquimia, em muitas imagens (gravuras, desenhos etc.) que servem para ilustrar as suas operações, o leão aparece sempre ligado à figura do rei, simbolizando este o princípio condutor da personalidade, a consciência iluminada, que deve controlar a vida instintiva. Algumas gravuras nos mostram uma figura real jazendo por terra e um lobo devorando-lhe as entranhas. O significado é claro: a morte do rei (regicídio), muito representada, significa sempre uma regressão, uma perda da vida consciente. Quem ataca o rei é o lobo, símbolo, como sabemos, da vida instintiva, dos desejos incontroláveis. 

LEÃO   VERDE
O leão selvagem, psicanaliticamente, costuma aparecer como um símbolo de paixões latentes, caracterizando o perigo do inconsciente devorador. Esse quadro era representado na Alquimia pelo chamado leão verde, devorador do Sol. O leão verde impede a manifestação do leão vermelho, devora-o. Estas imagens alquímicas são vividas como experiências de esmagamento da consciência quando desejos intensos, violentos, são frustrados, mascarados muitas vezes por estados depressivos. O leão verde é, no laboratório do alquimista, uma representação do vitríolo verde, um ácido sulfuroso fortemente corrosivo

O entendimento do que significa o leão verde fica muito facilitado se lançamos a luz astrológica para iluminar o quadro. Antes, porém, é bom lembrar que Saturno é o astro que se opõe aos dois luminares, o Sol e a Lua. Os aspectos dissonantes de Saturno, como sabemos, têm muito a ver com depressões, situações em que a pessoa por elas vitimadas se sente pressionada para baixo. A energia “desce”, falamos de desânimo, de peso, de apatia, de chumbo. Esta depressão é fortemente marcada por desejos frustrados e revela porque depois de experiências amorosas, financeiras etc. malsucedidas ela costuma ocorrer. Houve uma “frustração do leão”. Muitas vezes, esta “frustração do leão” vem da infância, crianças muito contidas, “educadas”, que sempre gostariam de “comer” os mais velhos que as limitam. Como não podem ser os “maiores” em tudo, entregam-se ao “leão verde”. Pessoas muito criativas, com um Sol muito poderoso sob o ponto de vista astrológico, costumam enfrentar problemas como o acima descrito. Magoadas, amargas, reprimidas, conforme o caso, retiram-se cada vez mais, sem o perceber, para a sua interioridade. É nesse momento que o leão verde avança. 

O signo de Leão tem muito a ver (ou tem tudo a ver) com aquilo que a psicologia chama de ego consciente, adquirido ao longo da vida tanto por um diálogo entre o fator somático da personalidade e o meio ambiente (que começa pela casa IV) e depois por encontros ou colisões com o mundo exterior e o mundo interior. O ego, é bom lembrar, nunca chega a ser mais que uma imagem incompleta da personalidade consciente porque há muitos aspectos que ficam fora dela. A imagem completa teria que incluir estes aspectos, o que não acontece. Podemos dizer, aliás, que aquilo que mais afeta a personalidade de alguém é inconsciente, percebido apenas pelos outros ou com uma ajuda externa.  Isto quer dizer que a personalidade total de alguém jamais coincide com o ego. 

Por outro lado, grande parte da vida dos seres humanos é vivida só através de uma máscara, a chamada persona visível (o ascendente, na Astrologia), muito usada para nos diversos embates da vida. Este problema começa na infância, quando, por exemplo, a criança é pressionada pela família. Comportar-se como os pais querem para receber a sua aprovação. Essa é a primeira experiência vivida através de relações entre o ego e a persona. A maioria das pessoas perde a consciência com relação a estes dois elementos, persona e ego, passando a viver só em função do primeiro, procurando usar a máscara social da maneira mais vantajosa possível. A persona recebe então o nome de pseudo-ego. Ou, de outro modo, a individualidade se confunde com o papel social. As pessoas que assim agem não são mais que o papel que representam, um doutor, uma mãe zelosa, um professor, um guardião da lei, um pai provedor etc. É difícil que as pessoas que investem muito na “máscara” tenham consciência dela


SANSÃO  MATA  O  LEÃO
( CATEDRAL  DE  ELY , 672 aD , CAMBRIDGESHIRE )

Entre os judeus, Sansão, já mencionado, é outra referência ao signo do Leão. Ele é um líder israelita do período bíblico dos juízes (séc. XII aC). Seu destino, anunciado por um anjo, foi o de libertar Israel da opressão dos filisteus. Dotado de força sobre-humana e vítima de grandes paixões sexuais, Sansão acabou sendo traído por Dalila. Preso, cegaram-no. Mesmo na prisão continuou na sua carreira de
JUNG
atleta sexual; as mulheres faziam fila para manter relações sexuais com ele na esperança de conceberem filhos tão fortes e belos como ele. Reunindo todas as suas forças, Sansão conseguiu afinal fazer desmoronar as colunas do templo, ele e os filisteus. Seu suicídio é considerado como um martírio pelos judeus. Jung, possivelmente inspirado pela história do herói judeus, e leonino também, fala do mês do leão como o do calor violento da libido, da concupiscência. 

Entre os judeus, Av é o mês do Leão, sendo o fogo o seu elemento, a audição o seu sentido e sua tribo a de Shimon. O mal uso do sentido da audição está na origem de muitas atribulações que os judeus tiveram que enfrentar. Foi numa noite do mês de Av  que os espiões enviados por Moisés voltaram com a falsa notícia sobre a terra prometida. Foi também no mês de Av que o primeiro e o segundo templos foram destruídos, pelos babilônicos e pelos romanos, respectivamente. O nome Av é, para os judeus, um acrônimo dos nome das duas nações que destruíram os templos: Babilônia e Roma. 

O astro que governa Av é o Sol, base do calendário de muitas nações. O primeiro dia da semana é também governado pelo Sol. O aspecto negativo de Av é representado pela transgressão dos espiões, o pecado do orgulho, que tem origem no elemento fogo. Tais ideias estavam presentes nas atitudes dos espiões, que

desejavam manter as suas posições como príncipes do deserto, não desejando que o povo de Israel se fixasse na terra prometida. Além do mais, as características do orgulho e de uma irracional auto-suficiência estão presentes no caráter do patriarca da tribo, Shimon. Foi nas planícies de Moab que Zimri, príncipe da tribo de Shimon, rebelou-se abertamente contra a autoridade de  Moisés e dos princípios da Tora, devido à incisiva instigação de Kozbi, filha de um dos príncipes. 


ANJO   DE   ESAÚ   FERE   JACÓ  ( GUSTAVE  DORÉ )  

Como dia aziago, o nono dia de Av está associado a marés muito destrutivas. O dia também se associa ao vazio da coxa onde corre o nervo ciático, o lugar em que o anjo de Esaú feriu Jacó. Esaú, para os judeus, tornou-se símbolo do império romano e, depois, do mundo cristão da Idade Média, com sua postura sempre oposta aos descendentes de Jacó. Entre os místicos judeus, Esaú representa o Sitra Achra (o lado do mal nos assuntos humanos) e só será finalmente destruído na era do Messias. O ferimento de Jacó se deve à luta noturna que ele travou com o anjo protetor de Esaú. Jacó ficou manco. Para lembrar esse acontecimento, os judeus não comem o tendão da coxa de animais. O anjo disse a Jacó que ele teria um novo nome, Israel, significando este nome a vitória que ele sempre conquistaria nos embates que viesse a travar com seres divinos ou humanos. Etimologicamente, Jacó quer dizer suceder, suplantar. 

O signo de Av está relacionado com o número nove através da letra Teth. Essa letra, segundo o Talmud, tem a ver com destruição e morte. Ao longo da história judaica, muitos acontecimentos negativos, além da destruição dos templos (inquisição espanhola, exílio, perseguições durante a primeira guerra mundial), ocorreram nesse dia. Os primeiros grupos judaicos, durante a segunda guerra mundial, foram levados para as câmaras de gás nesse dia. O mês que, no inverno, corresponde a Av é Shevat (Aquário). O princípio que os une está no décimo quinto dia de ambos, dia de celebração, de regozijo. Entre os judeus, o mês de Av aparece sempre ligado ao nascimento de grandes líderes, inclusive do futuro Messias. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

AFRODITE - CARMEM


AFRODITE


DALILA E SANSÃO (1609, RUBENS)

A arte, a literatura mais de perto, apresenta inúmeros exemplos da feminilidade perigosa, temível, noturna, como a encontramos em muitas mitologias. A Bíblia, por exemplo, está cheia de mulheres perigosas para os homens, Judith, Esther, Dalila e muitas outras. Se ficarmos na  mitologia greco-romana, de onde extrairemos os melhores exemplos para a cultura ocidental, podemos, por exemplo, falar de Circe e de Calipso, que tantos problemas causaram ao herói Ulisses, como está na Odisseia, e da romana Lara, também chamada Tácita ou Muta, de perigosos encantamentos.



ISHTAR

Dentre as várias deusas gregas que nos fornecem modelos de comportamento (arquétipos) femininos que a mulher pode incorporar, positiva ou negativamente, Afrodite é uma das mais importantes. Deusa de origem oriental, que tem como ancestrais Ishtar (Mesopotâmia), Astarte (Fenícia) e outras, Afrodite incorpora em sua personalidade traços notáveis dessas duas deusas. Ambas se ligavam à vegetação e ao ciclo anual das estações enquanto símbolo da morte e do renascimento. Outro componente da personalidade da Afrodite grega, oriundo de antigas deusas orientais (Grandes-Mães), tem relação com antigos cultos orgiásticos, dos quais fazia parte a chamada prostituição sagrada (Hierodoulia). No mundo grego, Afrodite é incontestavelmente a deusa do amor, da beleza, do prazer, da sensualidade, da atração simpática, da sedução, tendo afinidade com a alegria, a graça, as festas, a convivência harmoniosa e educada, com os risos, as flores e os perfumes.


PALAS ATHENA
O modelo oriental de Afrodite passou certamente por um período de aclimatação no mundo Egeu, em Chipre, onde tinha nome de Aphro-deti, isso bem antes da chegada dos aqueus à futura Grécia continental. Afrodite não encontrou facilmente lugar no panteão grego, entre os doze “grandes”, os olímpicos. A deusa Palas Athena, divindade tutelar de Atenas, votava-lhe, por exemplo, grande antipatia. Afrodite era chamada pelos atenienses de “a oriental” ou “a prostituta”, nenhum culto se realizando na cidade em sua homenagem.

Os gregos distinguiam, dentre os vários comportamentos de Afrodite, dois, em especial. Um deles era o da chamada Afrodite “popular” (Pandemia), que tipificava a mulher comum, a mulher do povo, que assegurava a reprodução e a continuidade da raça, e outro, a “celeste” (Urania), a dos amores elevados, puros, onde expressões físicas não entravam, que procurava fazer com que a alma reatasse seus contactos com o divino.


AFRODITE "ORIENTAL"

Entre estes dois padrões havia muitos outros, caracterizados pelas diversas experiências da vida da mulher nos quais o que de mais importante se notava eram os sentimentos e os contactos humanos sob o ponto de vista amoroso. Lembre-se que Afrodite foi criada para colocar as relações humanas sob a perspectiva da reciprocidade. Embora suave, cheia de ajustes, havia um certo ardor nesta dinâmica, pois para a deusa a vida era a arte dos encontros, o que levava muitos a considerá-la como uma oportunista. As aspirações profissionais que o modelo Palas Athena inspirava eram certamente muito tediosas para a mulher-Afrodite. A deusa também não estava interessada em uniões formais ou na maternidade, como Hera ou Deméter. Poderia, quando muito, ser até uma mãe afetuosa, mas nunca convencional, já que os relacionamentos ocupavam um lugar mais importante em sua vida, sejam eles amorosos, amigáveis, sociais, platônicos, físicos, extraconjugais ou simplesmente de tendência espiritualizante.


ZEUS E HERA
ÁRTEMIS

 Nos tipos superiores, a mulher-Afrodite pode ser tanto sensual como sensível, civilizada, culta, não demonstrando nenhum interesse, por exemplo, em atividades esportivo-sociais, como acampar em montanhas ou participar de pescarias em alto-mar, coisas da mulher Ártemis. A Afrodite de que estamos falando, a do tipo superior, costuma se sentir bem com o seu corpo e a sua sexualidade é no geral descomplicada. Precisa, sim, de uma vida social ativa, onde o amor ou mesmo a sua simulação ocupe um lugar importante.


AFRODITE KALLYPIGIA
Nos tipos inferiores, encontramos, por exemplo, as mulheres-Afrodite que querem ser rainhas de beleza, que podem fazer do seu corpo um meio de acesso a níveis socialmente endinheirados. Um destes modelos é a chamada Afrodite kallipygia (de belas nádegas), que facilmente se transforma em símbolo sexual. A Afrodite Pandemia, a partir do final do séc. XIX, trocou a sua função de reprodutora, de “deusa do lar”, por papéis mais públicos. Com o cinema, a TV, as novelas, os espetáculos musicais e da moda, além de uma intensa exposição da vida íntima das pessoas por psicólogos, religiosos, sexólogos, médicos e repórteres policiais em programas sensacionalistas, Afrodite e suas histórias passaram a fazer parte do nosso cotidiano.


 Qualquer que seja o ângulo pelo qual a consideremos, Afrodite sempre representou algo de fatal para o patriarcado, para o machismo, vista ora como sedutora perigosa, despudorada, ora como bruxa, feiticeira, ou ainda como destruidora de lares, vampe, mulher que seduz os homens para arruiná-los, depois de tê-los explorado sexual e/ou economicamente em muitos casos.


Para falar da Afrodite Androphona dos gregos, modelo da mulher destruidora de homens, é preciso ir um pouco mais ao fundo do seu arquétipo. De início, saliente-se que a Afrodite grega, embora com traços mais suavizados, conservava muito da personalidade da deusa Ishtar (personificação do planeta Vênus no mundo assiro-babilônico), deusa do amor, mas com um forte temperamento guerreiro também. Deusa da voluptuosidade, mostrava-se Ishtar muitas vezes irascível e violenta quando sua vontade era contrariada. Sua cidade, Erech, era famosa como centro da prostituição sagrada, como Corinto, na Grécia, o era de Afrodite. São conhecidos os inúmeros casos amorosos de Ishtar, sendo o mais famoso aquele que manteve com Tammuz, o deus da vegetação. Este caso amoroso foi transposto para a mitologia grega, sendo seus os seus personagens Afrodite e Adônis.

 
AFRODITE E ADÔNIS

 Nas antigas sociedades patriarcais, a descendência e os bens (propriedades e dinheiro) eram, como ainda hoje o são, transmitidos patrilinearmente. Dessa via dependia também a continuidade religiosa, permitindo esta que os pais se imortalizassem através de seus filhos. Neste sistema, a fidelidade da esposa era muito importante, essencial diga-se, como garantia dessa transmissão, sob todos os seus aspectos.

A liberdade que Afrodite propunha, como arquétipo, sempre foi uma séria ameaça para a estrutura das sociedades patriarcais, nas quais instituições como o concubinato e a prostituição tinham (hipocritamente) um lugar, sendo até muito toleradas e admitidas. Raríssimo, porém, que o filho de um patriarca com uma concubina ou uma prostituta viesse a ter reconhecidos quaisquer direitos diante dos que eram fixados para o de um casamento legal.


Desde que as religiões patriarcais se impuseram, os patriarcas, ainda que alguns se sentindo culpados, pecadores etc., sempre buscaram a mulher-Afrodite fora de suas uniões oficiais. Um efeito colateral dessa atitude é a espantosa ignorância na qual foram (são) mantidas as esposas pelos maridos, a fim de que esse sistema de privilégios seja mantido.                                                       Decorre daí o medo
de que as religiões patriarcais têm da mulher-Afrodite, razão das inúmeras restrições que limitam a liberdade feminina em muitas sociedades, ainda hoje, quer sob o ponto de vista religioso, político ou civil. Entre os semitas, judeus ou islâmicos, a nudez masculina ou feminina é um tabu; nada de corpos expostos, tudo muito diferente daquele saudável amor ao corpo masculino e feminino e à nudez que gregos e romanos sempre demonstraram com a sua maravilhosa arte. O ocidente que se diz cristão caminhou no sentido contrário. Vem expondo mais abertamente os corpos, o da mulher principalmente, erotizando-os, não para promovê-la, mas, sim, para transformá-la em objeto de consumo, um meio, como o anterior, de mantê-la prisioneira do sistema.


    Não há nenhuma referência no cristianismo sobre essa questão, a de Cristo ter se insurgido contra o
SANTO AGOSTINHO
sexo ou ter desprezado o corpo das mulheres. Ao contrário até, pois muitas o seguiam de perto, mencionando-se ainda o fato de, depois de sua ressurreição, ter ele procurado Maria Madalena, de quem era muito próximo. O problema da rejeição da mulher no cristianismo começou com São Paulo, que tinha uma verdadeira obsessão no sentido de impedir o que ele chamava de fornicação (prática sexual, especialmente com prostitutas, ou ato sexual com parceiros diversos; “fornicatio, onis”, ação de abobadar, formar um arco, movimento do corpo fazendo sexo). Para São Paulo, o melhor que o homem tinha a fazer era procurar o celibato. Se a carne se mostrasse fraca, seria preferível, então, o casamento, sempre um mal, mas um mal menor diante da fornicação, pois era melhor, como dizia, “casar-se do que arder”. No cristianismo, foi por causa do discurso de dois inimigos das mulheres, São Paulo e Santo Agostinho, dois misóginos, que mulher, sexo, sujeira, banho e pecado sempre apareceram associados desde então.


Expulsa das religiões patriarcais, Afrodite assumiu um dos seus grandes papéis, o da mulher fatal, destruidora de homens. Sob o ponto de vista filosófico ou psicológico, o esquema é conhecido. Afrodite é o arquétipo (arkhê, original, antigo, + typos, exemplar, modelo) dos padrões femininos por excelência, isto é, modelo ou padrão passível de ser reproduzido em simulacros ou objetos semelhantes; é paradigma, princípio explicativo de todos os demais tipos femininos, que vêm sendo atualizados simbolicamente ao longo da história da humanidade, segundo a cultura e a época em que eles se manifestam ou são criados.


Embora deusa do amor, são notáveis as raivas de Afrodite, as suas vinganças, as maldições que envia, podendo ela fazer do amor uma arma terrível, venenosa, destrutiva, já que o ódio e o amor são as duas faces de uma mesma moeda. Pelo fato da deusa Eos, a Aurora, ter se enamorado de seu antigo amante, Ares, deus da guerra, Afrodite fez com que ela se apaixonasse
FEDRA E HIPÓLITO
pelo gigante Orion, um tipo violento e complicado. Por ter renegado o seu culto e adotado o da virgem Ártemis, deusa lunar, o jovem Hipólito foi punido, tornando-se objeto de uma paixão incontrolável de Fedra, sua madrasta, mulher de Teseu. Este, como se sabe, expulsou o filho do palácio e pediu que seu pai divino, Poseidon, o punisse. Um monstro marinho espantou os cavalos do carro do jovem príncipe, que se despedaçou ao cair sobre os penhascos da estrada Atenas-cabo Sounion, à beira-mar. Por não lhe terem condignamente prestado culto, as mulheres da ilha de Lemnos foram punidas. Fez com que o corpo delas exalasse um odor tão insuportável que todos os homens da ilha as abandonaram. Esta maldição só foi revogada pela deusa a pedido de seu antigo marido, Hefesto, quando os argonautas, em trânsito para a Cólquida, ali aportaram.


HELENA E PÁRIS

São muitas as histórias dos grandes amores, das proteções, dos malefícios e das vinganças de Afrodite. A disputa pelo título de “a mais bela”, quando da festa de casamento de Peleu e de Tétis, dá bem uma ideia do poder da deusa e da catástrofe que ela acabou provocando ao fazer com que a belíssima Helena, rainha de Esparta, mulher do rei Menelau, caísse nos braços de Páris, príncipe troiano.

O papel de mulheres que destroem os humanos e que perturbam a vida dos imortais pode ser vivido por mortais e deusas. Dentre estas últimas destacamos, exemplificando, as já citadas divindades Circe
CALIPSO E ULISSES
e Calipso, a elas juntando Eos, a Aurora, uma consumada raptora de amantes; algumas divindades que vivem no Jardim de Perséfone fazem parte dessa galeria, como a terrível Até, odiosa aos próprios deuses, que tanto perturba o espírito dos homens ao entregá-los à desgraça; outra é Phtonos (olhar com maus olhos), a Inveja que os romanos chamavam de Invidia, um monstro que o mais brilhante mérito não pode sufocar. Quanto às mortais que incorporam o arquétipo da Afrodite Androphona (Andros, homem, e phonos, assassinato), a mitologia grega tem um grande rol dessas figuras, que, como símbolos, atualizam o referido padrão de comportamento. Clitemnestra, as Danaides, Electra, Dejanira, Medeia e Fedra são alguns exemplos.
 
MEDEIA E FILHOS

Artistas, poetas, escritores, músicos, por seu lado, criaram e continuaram criando, ao longo dos séculos, como se disse, personagens que simbolicamente atualizaram o arquétipo, cada cultura fixando os seus modelos. No século XIX, apareceu na literatura uma mulher meio anjo, meio demônio, que, como personagem, é uma das mais bem acabadas atualizações do arquétipo da Afrodite Androphona, que estudamos.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        Prosper Mérimée, 1803-1879, escritor francês, em Paris, educado num meio culto de tradição voltairiana, formou-se em Direito.                                                                                              

Desde cedo, porém, decidiu-se pela literatura, relacionando-se inclusive com Stendhal, um dos maiores nomes das letras francesas de então. Muito ligado a temas espanhóis, Merimée publicou, em 1845, “Carmen”, personagem delineado segundo os atributos da mulher fatal.   Carmen era, como então se dizia, de costumes levianos, levava uma vida boêmia; seduziu e aniquilou um homem honesto, trabalhador e respeitador dos valores tradicionais da sociedade; apaixonando-se por ela, esse homem, Don José, cometeu um crime e destruiu a sua vida. Carmen, por seu lado, acabou tendo que assumir o papel de bode expiatório (outro arquétipo) e pagou com sua vida o que causou com o seu comportamento, sempre perigoso para o mundo masculino. Foi sacrificada em nome da moral, da decência e dos bons costumes. O cenário em que Merimée colocou a sua Carmen “pedia” esse fim.

Merimée construiu Carmen como mulher fatal usando componentes físicos que podemos chamar de “noturnos”. Por isso, para começar, ela era uma cigana, de lindos cabelos negros (tinham reflexos azuis como as asas de um corvo); seu olhar era forte como o de um lobo, sua pele, acobreada. Os valores de Carmem eram noturnos, totalmente avessos à luz. O negro, como sabemos, é símbolo do caos, do que não é, do erro, da desorientação, do descaminho. À noite corremos o risco de nos perder, pois deixamos de ver, o que sugere perdição, ignorância, inconsciência. Entrar na noite é entrar na indeterminação.   

O lobo, por seu vez,  sugere vida instintiva. É um animal caçador, predador, que gosta de atacar antes que o Sol nasça. Seus hábitos são, sobretudo, noturnos. Tem a fama de devorador, sendo usado para simbolizar, negativamente, as pressões animais que no ser humano se impõem à sua racionalidade. Carmem era, nesse sentido, uma lupina. Na mitologia dos escandinavo-germânicos há um famoso monstro, o lobo gigante Fenris, que na batalha final pela posse do universo (Ragnarok) entre deuses e monstros atacará Odin, devorando-o.

A referência de Merimée ao “olhar de lobo” de Carmem põe em evidência não só a sua ferocidade (o lobo é um animal feroz), a sua força incontrolada, mas também nos fala de tentação, de sedução, de falta de escrúpulos. O lobo sempre foi visto como a imagem de uma libido descontrolada, traduzida por uma grande avidez, de tendências egoístas, antissociais, violentas, virtualmente destrutivas.

Como o urso e a serpente, o lobo simboliza igualmente a sombra, aspecto inconsciente da personalidade humana cuja manifestação pode ser perigosa diante das energias despertadas, fazendo a consciência submergir. Carmem é, nesse sentido, a antítese da luz, atributo divino, coeterna à escuridão e dela saída. Não é Carmem, pois, um ente solar, símbolo do espírito, do conhecimento direto e inspirado, por oposição ao conhecimento lunar, cuja luz é reflexo dos raios do Sol.

Desde o início do texto de Merimée, ficamos sabendo que Carmem vem de um mundo proibido e ao mesmo desejado pelos homens. Sua vida liga-se à água, a um rio, lugar onde as mulheres entregavam-se aos prazeres do banho. A água, como sabemos, é um dos grandes temas da “solutio” alquímica, que, basicamente, transforma o sólido em líquido. O sólido, nas terapias do psiquismo, nos fala dos aspectos fixos e estáticos de uma personalidade que não admite mudanças. Estabelecidos ao longo de muitos anos, esses aspectos se nos apresentam como justos e corretos, mas podem ser destruídos pela operação alquímica a que estamos nos referindo.

A solutio é de Afrodite, deusa que nasceu no elemento líquido. Os poderes dessa operação têm como agentes, no mito, como se sabe, sereias e ninfas aquáticas, que atraem os homens, levando-os à morte por afogamento. O Antigo Testamento nos oferece um exemplo clássico de uma solutio fatal. O rei David era um homem íntegro, culto, sábio. Um dia, sem querer, do alto de uma janela do seu palácio viu uma mulher lindíssima que se banhava. Apaixonou-se por ela. Ela se chamava Betsabá e era casada com Urias, um soldado hitita. David pediu aos seus chefes militares que o enviassem para lutar na linha de frente do exército judaico para que fosse morto em combate. O profeta Natan censurou asperamente o rei David por esse procedimento. David se uniu a Betsabá e com ela teve um filho, que se tornaria mais tarde o famoso rei Salomão.

BETSABÁ  ( REMBRANDT )

 Exemplos como o de David são inúmeros no mito e nas artes, na literatura especialmente. Os aspectos fixos da personalidade de David literalmente liquefizeram-se, foram destruídos. Imagens de afogamento, de descida à profundeza das águas, costumam aparecer quando um acontecimento dessa natureza ocorre na vida de alguém. O banho, a imersão na água, as chuvas que inundam e alagam são imagens da solutio alquímica, que podem também aparecer em sonhos. O batismo, por exemplo, é um ritual que participa do tema da solutio lembrando morte e renascimento. Quando a solutio simplesmente acontece, como a de David, ela pode ser perigosa porque, em muitos casos, é experimentada com grande sofrimento, pois costuma provocar o desmoronamento do ego, que se acreditava inabalável.

A beleza de Carmem fascina e intriga. Ela vive num ambiente noturno, de práticas ilícitas, de contrabando, de roubos. Usa seus encantos para isso, passa por feiticeira, pondo em perigo todos os homens com os quais se relaciona. É Carmem quem vai decidir o destino de D.José. Ela vive agitada, sua vida é escandalosa; ela é instintiva, provocativa, agressiva. Seu lado animal é ofensivo, mas tremendamente sedutor. Suas cores são o vermelho e o negro.

CARMEM

Na extensa galeria das mulheres destruidoras de homens, Carmem é um dos mais bem acabados símbolos da Afrodite Androphona. Ela ocupa, justificadamente, sem dúvida, uma posição de destaque ao lado das maiores vampes de todos os tempos. Como estereótipo da mulher sedutora, perversa e cruel, sádica, a vampe, desde a antiguidade, sempre foi a sombra da mulher virtuosa. A vampe é imoral, sua sexualidade é escura e poderosa. Seu poder provém de sua habilidade de liberar nos homens suas latentes
energias sexuais, contidas por razões religiosas e culturais. Ligava-se a eles e solapava a sua vitalidade. Os modelos modernos são descritos como mulheres de unhas escuras (esmalte cor de sangue), jóias e
THEDA BARA
adereços que lembram animais satanizados (serpentes, escorpiões, aranhas, sapos etc.), agentes das forças malignas; essas mulheres já no séc. XIX fumavam em público (algo impensável à época) com uma indefectível piteira (símbolo fálico); seus modos sugeriam uma origem da Europa central ou do Oriente Próximo. Quem definiu o tipo vampe moderna no início do cinema (anos 1920) foi uma judia de Cincinatti, Theodosia Goodman, que assumiu na tela o nome de Theda Bara, um anagrama de Arab Death.

Mas, voltando à nossa Carmem, o que temos em Merimée é a queda de D.José, trágica, vista como uma espécie de possessão demoníaca. Carmem o faz vivenciar sentimentos como a paixão, o ciúme e o ódio. Vitimado por ela, que encarna o erro e o pecado, D.José se torna violento, cai moralmente, incapaz de refletir, embora tenha ele chegado a acreditar na “conversão” de Carmen, de modo a torná-la uma mulher boa e sensata.

O romance de Merimée fixa D.José como o representante da ordem social vigente, do sistema; é um militar, um “quase” padre, pois chegou a cursar o seminário. Ele faz parte de um mundo que cultua as belas palavras, honra, respeito, hierarquia. No lado oposto, Carmem, que é boêmia, marginal sob o ponto de vista social, transgressora contumaz, não conhece outra lei senão a da sua vontade.

MICAELA
Para Carmem, música e erotismo são a mesma coisa. Seu corpo vibra de sensualidade e ela tem domínio completo sobre ele. Ela sabe, pelo poder da vidência, que a morte a espera, mas isso não a incomoda. Irá até o fim. Carmem é dionisíaca, uma grande mênade, sem dúvida. Na ópera de Bizet, Micaela, como personagem, é a antítese de Carmem. Veste-se de azul, nada tem de excitante. Não tem o riso ofensivo da cigana. D. José louva a pureza e a candura de Micaela, mulher ideal, virgem, madona.

A novela de Merimée apareceu em 1845. É um texto sobre o amor, a violência e a morte. Em Sevilha, encontram-se Carmem e D.José. Vitimado pela paixão que sente por ela, ele, um homem da lei, se torna contrabandista e assassino. No momento em que julga possuir a mulher amada, ela, que não o ama, prefere morrer livre a segui-lo. Ele então, desafiado por ela, a apunhá-la.
                                                     
CARMEM E D. JOSÉ


Carmem inspirou óperas e muitos filmes. George Bizet, em 1875, transformou a história em ópera. Em 1918, no cinema, Charles Chaplin e Ernest Lubitsch nos deram as suas versões sobre a personagem; em 1954, de Otto Preminger, tivemos Carmen Jones; em 1983, A Tragédia de Carmen, no teatro (1981), é de Peter Brook; em 1983, Carlos Saura nos apresentou a sua Carmen; Jean-Luc Godard (1983) e Francesco Rossi (1984) fizeram as suas transposições cinematográficas. Na ópera, de 1977, aparece Carmen, dirigida por Claudio Abbado, com Teresa Berganza e Plácido Domingo.



quinta-feira, 31 de março de 2011

OS (DES)CAMINHOS DA SEDUÇÃO

A palavra Bíblia, como sabemos, quer dizer livros (plural de livro em grego). A Bíblia compreende as Escrituras Sagradas dos judeus e dos cristãos, isto é, os chamados Antigo Testamento e Novo Testamento, dois livros, portanto. Essa denominação não quer dizer, como muitos erradamente supõem, que o Antigo Testamento tenha sido ultrapassado pelo Novo Testamento. Não há entre os dois livros nenhuma ideia de subordinação. Preferível chamar o primeiro livro de Escrituras Sagradas Hebraicas e o segundo de Escrituras Sagradas Cristãs. De um modo geral, quando esses textos são mencionados muitos pensam em santidade, moralidade, sacrifício, pietismo, abstinência sexual, castidade, sofrimento, mortificação, caminhos vários, enfim, pelos quais é possível chegar a Deus, ao Reino dos Céus. 

 A abordagem que vamos fazer se concentra nos textos judaicos que nos levam exatamente no sentido contrário das idéias acima. O nosso ponto de partida é a constatação de que nos referidos textos há uma dessacralização geral do sexo. Estamos, nesses textos, longe da abstinência sexual, da castidade, do recato. Presentes, em grandes doses, ao longo deles, muito erotismo e muitos lances de sedução. Esta constatação afasta também a ideia de que no texto bíblico judaico o sexo só esteja ligado a preocupações de ordem matrimonial ou à procriação, à descendência. A maior parte dos comentadores dos textos sagrados do Antigo Testamento fala muito pouco sobre estas questões de sexualidade ou então silencia mesmo sobre elas. Uma leitura mais atenta dos textos nos revelará, isto sim, que os seus autores não tinham preconceitos contra o sexo nem contra o erotismo em geral. As histórias narradas sobre estes temas são apresentadas sempre de modo muito simples, direto, natural.

Os textos bíblicos judaicos espelham, como se sabe, uma cultura de fundo patriarcal. Esta cultura é a de um povo semi-nômade, abrangendo um período que vai de, mais ou menos, 3.000 a 1.200 aC. Em termos gregos, essa cultura se insere entre as idades do bronze e do ferro e é representativa de diversas tribos que, apesar de algumas diferenças, constituíam, no seu todo, um povo chamado abirus, hebreus, de origem semita, que emigrou da Mesopotâmia em direção da costa mediterrânea, da Palestina, de desertos do sul e do Egito. Com base em antigas tradições orais de mais de mil anos aC, é no Gênesis que encontramos os principais registros da chamada cultura patriarcal.

Ainda que alguns traços de antigas tradições matriarcais possam ser percebidos nesses textos, a figura central desse mundo é o patriarca. Sua autoridade é suprema. Ele é o chefe, o senhor dos bens, das suas esposas, dos seus filhos e de tudo aquilo que o grupo, o clã, possuía. Ele estabelece normas, procura proteger a todos, alimentá-los, defendê-los, orienta as relações internas e externas dos membros do grupo, definindo inclusive com quem seus filhos e filhas poderão se casar. O objetivo final de suas determinações e atitudes era, sem dúvida, a manutenção da coesão grupal. Num meio hostil, como aquele em que viviam, esta condição era indispensável. Além do mais, tudo isto reforçava a responsabilidade coletiva, já que se procurava manter sempre a pureza do sangue.

O casamento nesse mundo era estabelecido entre famílias. Um pacto através do qual o pai da noiva entregava a filha em troca de um dote (mohar) que deveria ser devolvido no caso de divórcio. No Gênesis, exemplos de casamentos podem ser vistos, como o de Isaac, o filho de Abraão e Sara, que se casou com Rebeca. Outro exemplo é o do casamento de Jacó, um dos dois filhos gêmeos de Isaac, narrado com uma grande quantidade de detalhes.



Fixemo-nos neste último, onde temos um caso de amor à primeira vista. Jacó, ao chegar do deserto, fugindo das iras de seu irmão Esaú, viu a pastora Raquel. Esse encontro foi abrasador. Eram primos. Jacó ficou abalado porque Raquel tinha um belo porte e um lindo rosto, conforme está no texto bíblico, que procura sempre ressaltar a beleza feminina. O mesmo problema teve Abraão com Sara, que atraía os olhares de egípcios e beduínos. Por essa razão, ela acabou tantas vezes no harém do faraó e do rei Abimelec. Sara, conforme registros, morreu com 127 anos de idade. Dizia-se que aos cem anos era tão bonita quanto aos vinte. Foi por amor a Abraão que ela concordou em frequentar haréns com o objetivo de salvar a vida do marido.

Não há o que estranhar com relação à predileção de Jacó por Raquel diante da beleza física da jovem e o seu desdém por Lia. Ao pedir a moça ao tio, futuro sogro, este exige que Jacó lhe preste sete anos de serviços como dote em suas propriedades. Tão apaixonado estava que o texto nos fala que "os anos lhe pareceram apenas alguns dias". Evidentemente, uma disposição como esta só seria compreensível numa situação de intensa paixão, provocada pelo poder de sedução de Raquel.

No Eclesiástico, uma coleção de provérbios e máximas composta por Simão Ben Sira, livro que faz parte do AT, encontramos, por exemplo, dentre as muitas observações sobre os perigos da sedução este texto: "Como lâmpada brilhante no candelabro sagrado, tal é a beleza de um rosto num corpo bem acabado. Colunas de ouro sobre bases de prata, assim são as belas pernas sobre sólidos pés."

Raquel, por exemplo, além de sedutora era muito esperta. Quando Jacó percebe que o tio Labão o explorava, põe-se em fuga com as duas irmãs, depois de tê-las consultado, ambas o apoiando. Labão sai em perseguição de Jacó. Alcançando-o, responsabiliza-o pela fuga e exige a devolução dos seus ídolos familiares, roubados por Raquel. Quando o pai aparece para revistar a tenda, a jovem, que colocara as imagens sob a sela do seu camelo e sobre elas se sentara, diz-lhe: "Que meu senhor não fique bravo porque eu não me levanto em sua presença, é que me veio o incômodo das mulheres..."

Labão, pai de Raquel e de Lia, não queria permitir que a primeira se casasse com Jacó antes da outra, mais velha. Enganou Jacó, dando-lhe Lia no lugar de Raquel. Para que o estratagema desse certo, Raquel teve que participar, ajudando a irmã, dizendo-lhe como deveria proceder para convencer Jacó de que era ela, Raquel, e não Lia. Assim procedendo, Raquel abriu mão de seu desejo de casar antes da irmã com Jacó. Só depois tornou-se Raquel esposa de Jacó. Raquel, lembremos, morreria ao dar à luz seu segundo filho, Benjamim, sendo José o primogênito.

O amor no AT tem um caráter profundamente erótico. Nada tem daquela qualidade da qual São Paulo tanto falava, o amor como ágape, isto é, o amor desprovido do seu aspecto carnal. Ágape, entre os antigos gregos, é preciso lembrar, era um banquete de confraternização. No Cristianismo, era uma festa dos primitivos cristãos que consistia numa refeição comum através da qual se celebrava o rito eucarístico. Nessa festa, pobres e ricos eram admitidos, trocavam-se beijos em nome da paz. Aos poucos, porém, essa festa cristã acabou degenerando, tendo sido proibida pela Igreja.

Um dos casos mais interessantes do AT é o que está descrito no Gênesis (XXXIX). Narra-se ali a história de José com a mulher de Putifar, Zuleika, nome que, em árabe, lembra pêssego. José é um dos filhos do patriarca Jacó e de sua esposa preferida Raquel. José é o modelo do tsadik bíblico (homem justo, probo). Sendo o filho preferido, porque relatara ao pai o comportamento inadequado dos irmãos, estes, em número de dez, procuraram matá-lo, lançando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Milagrosamente, José acabou saindo de lá, sendo, entretanto, vendido pelos irmãos como escravo a Putifar, oficial egípcio.


Putifar era um eunuco do faraó, um posto muito importante. Os eunucos, no antigo Egito, eram, como altos funcionários reais, muito próximos do faraó, ocupando elevadas posições, apesar da mutilação. José, como está descrito, era belo de rosto e de corpo, "belo de se ver." Putifar tornou-se dono de José ao comprá-lo. Zuleika tentou seduzi-lo de várias formas. O texto revela que José foi salvo da tentação, resistindo ao assédio de Zuleika, porque a imagem de seu pai, Jacó, lhe apareceu, salvando-o da tentação.

José resistiu à mulher tanto por retidão em relação aos homens como em relação a Deus. "Ela segue, dia após dia, falando a José; mas ele não aceita deitar-se ao lado dela, estar com ela." Decepcionada e humilhada, Zuleika tenta comprometê-lo, agarrando-o por suas vestes. E José, diz o texto, "larga suas vestes nas mãos dela, foge, parte dali." Zuleika, quando chega Putifar, o incrimina (compare com a Fedra de Eurípedes). José será preso e irá para a prisão. Sabemos que, pela graça de Deus, ele ganhou a liberdade e acabou se tornando vice-rei e encarregado da economia do Egito.

Outro famoso caso de sedução está na história de Sansão, personagem que aparece no período bíblico dos Juízes (sécs. XII-XI aC). Sansão é nome que vem do hebreu, com o significado de "pequeno Sol". Era ele um nazarita de nascença. Nazarita era aquele que, desde o nascimento, fazia voto de se abster de tomar vinho, cortar o cabelo e ter contato com mortos. Quando de seu nascimento, sua mãe foi visitada pelo anjo Uriel, às vezes chamado Raziel, o anjo da luz. Dele recebeu a informação de que seu filho iria salvar Israel da opressão dos filisteus.

Sansão nasceu dotado de força sobre-humana, entregando-se, desde cedo, a intensas paixões sexuais. Foi capturado pelos filisteus, graças às intrigas de sua amante, Dalila, que o vendeu por muitas moedas de prata. Os filisteus o cegaram, fato entendido como um castigo por ter cedido à tentação de seus olhos, entregando-se à luxúria. Enquanto prisioneiro, cego, as mulheres iam visitá-lo na prisão para com ele ter relações sexuais, pois não havia perdido os seus encantos e dotes de grande amante. Muitas queriam ter um filho com ele, para que a criança herdasse a sua força e estatura. Sansão escolheu a sua morte quando fez desmoronar o templo dos filisteus, morrendo sob os escombros. Entre os judeus, este gesto é considerado como um martírio altruísta.

Sansão sempre foi um tipo humano cheio de caprichos, de caráter infantil. Jovem ainda, enamorou-se de uma filisteia, Tamna, uma filha de incircuncidados. Casou-se com ela. A festa de seu casamento não terminou bem. Brigou com os filisteus presentes, matando trinta deles, abandonando Tamna nesse mesmo dia. As façanhas de Sansão tornaram-se famosas. Os filisteus contratam, então, Dalila, por milhares de moedas de prata, para causar a perdição do herói, o que de fato aconteceu.

Nosso herói acabou por revelar a Dalila o segredo de sua força descomunal, os seus longos cabelos. Dalila, numa oportunidade em que ele adormeceu no seu colo, cortou-lhe os cabelos. Os filisteus o capturaram, tiraram-lhe os olhos e o reduziram à escravidão. Na prisão, com o tempo, crescendo-lhe os cabelos novamente, e desatentos os filisteus quanto a este detalhe muito importante, voltando-lhe a força, Sansão destruiu tudo. Centenas de mortos. Entre os escombros, seu corpo desfigurado.

Esta história põe em evidência um tema comum a várias tradições religiosas antigas e recorrentes na Bíblia: se a mulher é frágil fisicamente, é forte quando se trata de amor e sedução. Este tema aparece inclusive na tradição cristã: cuidado com a mulher, pois, embora pareça frágil, tem força quase invencível quando se propõe a algo. É através destas histórias que se fixa a figura da mulher como destruidora de homens e fonte do mal, como está, aliás, no referido Ben Sira: "Foi pela mulher que começou o pecado e é por culpa dela que todos morremos."

Uma das mais curiosas histórias de sedução nos textos bíblicos judaicos é a de Judite, viúva de Manassés. A narração começa nos informando que na cidade de Betúlia, sitiada pelos assírios, vivia uma jovem viúva, conhecida por sua beleza, devoção e riqueza. Decide ela um dia, levada pela compaixão que lhe inspira seu povo e pela indignação que sente diante da disposição dos importantes da cidade que a queriam entregar aos inimigos, fazer alguma coisa. Vai então ao acampamento inimigo com uma espada, com o seu talento de grande sedutora. Confia em Deus, é virtuosa, bela, discreta e sábia apesar de jovem.

Sensual e apaixonada, tem o senso da aposta, da aventura, que vive com idealismo. Judite é o feminino de Iehudah, Judah, louvor a Deus. Por trás desse nome está o substantivo yod, braço, mão, daí a louvação a Deus. O nome Judite, Judith, toma um sentido combativo entre os judeus. Lembre-se que Judah é o “homem da mão”, executor e braço de Deus, como Judite.


A descrição de como Judite se preparou para ir ao acampamento inimigo é muito rica de detalhes. Durante a viuvez (já haviam se passado três anos e meio da morte do marido) viveu sempre em sua casa, vestindo pano de saco e usando roupas de viúva, como convinha a uma mulher nessa condição, escondendo o seu corpo e a beleza de seu rosto. O marido deixara-lhe muitos bens. ”Ninguém podia fazer-lhe a mínima crítica, pois era temente a Deus." Judite, no dia em que tomou a decisão de ir ao acampamento assírio, rezou nestes termos: "Concede-me, Senhor, falar com sedução, para ferir mortalmente os que planejaram uma vingança cruel contra teus fiéis, contra tua morada santa, o monte Sião, e a casa de teus filhos." Depois, tirou o pano de saco que lhe cobria o corpo, o vestido de viúva, tomou banho, passou perfume caro no corpo, penteando os cabelos, vestindo-se com roupa de festa; calçou sandálias, enfeitou-se com braceletes, colares, anéis, brincos e todas as suas jóias. Ficou belíssima, capaz de seduzir qualquer homem que a visse.

Conforme o texto bíblico, deslumbrante como uma deusa, apresentou-se Judite a Holofernes, general de Nabucodonosor, chefe das tropas assírias. Todos se encantaram à sua passagem, as portas se abriram, ninguém tão bela. Judite diz ao general que tem um plano para que os assírios tomem a cidade. Segundo o texto, Judite ficou três dias no acampamento assírio. Orava todas as noites, purificava-se tomando banho numa fonte próxima, pois, estava "em contato com incircuncisos." Na quarta noite, um banquete para Judite, só ela e o general. Holofernes, fascinado pela bela mulher e por suas palavras, esperando tê-la definitivamente em seus braços, descuida-se, entrega-se à bebida, "bebe tanto como não o tinha feito em toda a sua vida", diz o texto. Disso se aproveitou Judite. Desembainhando a espada de Holofernes, cortou-lhe a cabeça com dois certeiros golpes, colocou-a então numa bolsa e saiu tranquilamente como todas as noites, dizendo que ia orar.

Escapou, então, em direção de Betúlia. Os oficiais e soldados hebreus, já cientes do ocorrido, atacaram os assírios no dia seguinte, derrotando-os, totalmente desorientados pela morte do seu chefe. O autor da história diz que Judite consagrou ao Senhor todos os objetos de Holofernes e também o mosquiteiro que ela mesma pegara do leito dele. Narra-se também que Judite teve muitos pretendentes, porém nunca mais se casou.
Muitos estudiosos ocidentais da Bíblia já questionaram a moralidade do ato de Judite. Uma preocupação tipicamente ocidental, incompreensível no contexto da mentalidade semita. A arte de Judite, a de seduzir, é neste particular semelhante à arte de vender, isto é, a de saber tirar a maior vantagem na transação, aproveitando-se inclusive da ingenuidade ou da ignorância do comprador, arte na qual os semitas são mestres.
A história de Judite é um "romance", uma "novela" edificante. Tem por objetivo dar coragem aos judeus nos momentos mais difíceis de sua história. Judite serviu-se das armas que Deus lhe deu como mulher para seduzir Holofernes e matá-lo. Nenhuma dúvida quanto aos aspectos morais; nenhum questionamento quanto à legitimidade dos meios que ela empregou. O apoio de Deus é constante. Além disso, nenhuma mancha, nenhuma nódoa no seu caráter. Judite é um instrumento divino e um belo exemplo de patriotismo. A história de Judite repetiu-se muitas vezes ao longo da história da humanidade e tem, sem dúvida, um objetivo pedagógico.

Em vários momentos sua história, além de atrair a atenção de muitos religiosos, seduziu também artistas, músicos, pintores, sendo encenada em feiras e praças públicas nos últimos séculos. Caravaggio, Marc-Antoine Charpentier, Opitz, Scarlatti, Vivaldi, Mozart, Salieri, Hebbel, Jean Giraudoux, Paul Claudel, Georg Kaiser, dentre outros, se apoderaram do tema de Judite, fazendo-a representar, conforme a época, um exemplo de patriotismo, de santidade, de ativismo político, da eterna luta entre o opressor e o oprimido, da minoria que tem o direito de usar todos os meios para se libertar. Nos séculos XVII e XVIII, Judite encarnará a Cristandade diante do Islã e, no século XX, a democracia diante do nazismo.

O maior amante da Bíblia é, sem dúvida, David, cuja extensa história é contada no primeiro livro de Samuel (capítulos 16-31) e no segundo livro. David foi aquele por quem todas as mulheres de Israel se apaixonaram. Seu caso mais famoso foi o que teve com Betsabá (filha do juramento ou casa do juramento), que seria mãe de seu sucessor, Salomão. David se apaixonou por ela quando a viu no banho. Unindo-se a ela, engravidou-a. Tomou providências então para que o marido de Betsabá, Urias, soldado hitita, fosse mandado para casa para que todos pensassem que o filho era dele. Este estratagema não deu certo e David ordenou que Urias fosse destacado para atuar na linha de frente, nas batalhas, a fim de lá morrer. O profeta Natan repreenderá David por esse horrível procedimento. Foi depois de sua união com Betsabá, como se sabe, que começaram os seus infortúnios: violação de sua filha Thamar pelo próprio irmão, Amnon; revolta de seu filho Absalon; usurpação de seu filho Adonias etc.

O nome David (Dauid) merece uma referência especial: ele é o “bem amado, o querido.” Vencedor do gigante Golias, encantou com a sua lira o primeiro rei dos hebreus, Saul, e o sucedeu. David era um pastor em Belém. Tratava os seus carneiros com muito cuidado, sendo, por isso, notado por Deus e por ele escolhido para cuidar de Israel. Como músico, foi chamado para alegrar Saul, muito deprimido, então. Casou-se com Michol, filha do rei Saul,e era amigo de Jonatan, seu irmão. David foi ungido rei aos 28 anos pelo profeta Samuel. Fez de Jerusalém a capital do reino. Grande soldado, músico e poeta,  morreu  numa  festa,  quando  o  Anjo  da  Morte  se aproveitou de sua
desconcentração com relação aos seus estudos. Muito ligado à imagem do carneiro, condutor do rebanho (animal do qual tirava as cordas da sua lira), David jamais abandonou o seu instrumento musical. Dentre as suas várias mulheres, a preferida foi Betsabá, mãe de seu filho Salomão, como se disse.

A imagem de David, devido ao affaire Betsabá, e também por outros casos, diga-se, era bastante negativa. Um texto judaico, o Talmud, sustenta porém que David, ao se unir a Betsabá, não cometera adultério. Isto porque, esclarece o Talmud, todos os soldados que iam para a linha de frente tinham que conceder obrigatoriamente às suas mulheres um atestado de divórcio para a eventualidade de não voltarem do campo de batalha. Assim, quando Betsabá se uniu a David ela já "estaria divorciada". Esclarece-se, também, que quando ela se uniu a David era virgem porque Urias não tivera tempo de consumar seu casamento com ela.

David chegou à velhice muito amargurado devido às revoltas e guerras que se sucediam no seu reino. Uma mulher, contudo, virá cuidar dele nos seus últimos dias. "O rei David ficou velho, com idade avançada; por mais que o cobrissem, ele não conseguia se esquentar. Seus servos então sugeriram: "busquem uma jovem solteira que dê assistência e cuide do senhor nosso rei; ela dormirá em seus braços e o senhor nosso rei se esquentará." Esta jovem foi encontrada, chamava-se Abisag, de Sunam, e a levaram para o rei.

David, ao vencer Golias, símbolo do mal, protetor de Gathes, cidade bíblica, foi considerado posteriormente, por algumas tradições cristãs, como um precursor de Cristo. Pela sua virtuosidade como músico e poeta, é, por outro lado, apontado, por algumas tradições artísticas, como uma “atualização” do Orfeu grego. Como exemplo de sua inspirada poesia, mencionemos os seus Salmos, o mais lido e copiado dos livros bíblicos na Idade Média.

Por último, não há como esquecer de Hadassa (nome hebraico), mais conhecida pelo seu nome de guerra (persa), Ester, grande sedutora e heroína nacional. Ainda muito jovem, órfã, foi comprada por seu primo Mordecai, líder dos exilados judeus no império persa, tornando-se sua filha. Belíssima, “engraçada”, consta que aos quarenta anos, idade avançada para mulheres àquele tempo, tinha a aparência de uma adolescente. A crônica registra que foi o próprio Mordecai que a incentivou a se aproximar do imperador persa, Assuero, que reinava “desde a Índia até a Etiópia.” O rei pediu a seus ministros que buscassem donzelas virgens e formosas, pois aquela que, “entre todas mais agradar aos olhos do rei, essa será rainha em lugar de Vasthi”, a rainha rebelde.

Assim aconteceu. Antes, porém, é preciso mencionar que tanto o nome hebraico (Hadassa) como o persa (Ester) têm a ver com o mirto, vegetal consagrado a Afrodite. A melhor aproximação a Ester que podemos fazer é sem dúvida com a deusa mesopotâmica Ishtar, deusa do amor e da guerra, entre os babilônicos, irmã de Ereshikgal, deusa dos Infernos.

Ao se apresentar ao rei persa Assuero, logo tomada por ele como esposa, conseguiu Ester em pouco, mercê dos seus encantos e da sua perícia nas artes do quarto de dormir, levar os judeus à vitória. Os judeus sempre defenderam a ideia de que a mulher que ia para cama com Assuero não era Ester, mas era um espírito muito parecido com ela, enviado por Deus. Consta mais que antes de se entregar ao rei persa ela jejuou e o próprio Deus a vestiu e a acompanhou. Antes de ir para a cama do rei, Ester passou por doze meses lunares de purificação, seis com óleo de mirto e seis com “odores adocicados” e chuva, no período do verão. Os judeus lembram dessa passagem ao jejuar no dia que antecede ao Purim (festa relacionada astrologicamente com o signo de Peixes), chamando-se essa cerimônia de Tanit Ester.

O Purim era uma festa celebrada no mês que antecedia a primavera, no último mês do inverno, portanto. Os judeus a herdaram dos mesopotâmicos; nessa festa se celebrava a vitória da luz, conduzida pelo deus Marduk (Mordecai), sobre o deus das trevas, Haman (Uman). Este último é o grande representante do mal no Livro de Ester. Ele tinha obtido de Assuero autorização para exterminar os judeus. Ester frustrou então os seus planos. Haman foi enforcado, com seus dez filhos, na mesma árvore que preparara para enforcar Mordecai.

Lembro que o grande gênio do teatro clássico francês, Racine, no séc. XVIII, escreveu uma tragédia em três atos, com coros, sobre o tema, a pedido de Mme. de Maintenon, para as jovens internas de Saint- Cyr.

Como se pode ver, pelos menos quanto às mulheres, o Antigo Testamento, é, sem dúvida, um tratado sobre ciúmes, ardor, paixão, fogo, luxúria, incesto; nada nos falando do amor idealizado, "platônico", ou do amor voltado exclusivamente para a procriação. A mulher bíblica, no AT, longe de ser uma devota triste e submissa, tem orgulho dos seus atributos físicos, da sua beleza. Por isso, não se descuida, procura manter-se bela, aprende a arte de seduzir e a de fazer amor.

Shalom, amén, salam alaikum, ave, namastê...