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terça-feira, 17 de julho de 2012

AFRODITE - CARMEM


AFRODITE


DALILA E SANSÃO (1609, RUBENS)

A arte, a literatura mais de perto, apresenta inúmeros exemplos da feminilidade perigosa, temível, noturna, como a encontramos em muitas mitologias. A Bíblia, por exemplo, está cheia de mulheres perigosas para os homens, Judith, Esther, Dalila e muitas outras. Se ficarmos na  mitologia greco-romana, de onde extrairemos os melhores exemplos para a cultura ocidental, podemos, por exemplo, falar de Circe e de Calipso, que tantos problemas causaram ao herói Ulisses, como está na Odisseia, e da romana Lara, também chamada Tácita ou Muta, de perigosos encantamentos.



ISHTAR

Dentre as várias deusas gregas que nos fornecem modelos de comportamento (arquétipos) femininos que a mulher pode incorporar, positiva ou negativamente, Afrodite é uma das mais importantes. Deusa de origem oriental, que tem como ancestrais Ishtar (Mesopotâmia), Astarte (Fenícia) e outras, Afrodite incorpora em sua personalidade traços notáveis dessas duas deusas. Ambas se ligavam à vegetação e ao ciclo anual das estações enquanto símbolo da morte e do renascimento. Outro componente da personalidade da Afrodite grega, oriundo de antigas deusas orientais (Grandes-Mães), tem relação com antigos cultos orgiásticos, dos quais fazia parte a chamada prostituição sagrada (Hierodoulia). No mundo grego, Afrodite é incontestavelmente a deusa do amor, da beleza, do prazer, da sensualidade, da atração simpática, da sedução, tendo afinidade com a alegria, a graça, as festas, a convivência harmoniosa e educada, com os risos, as flores e os perfumes.


PALAS ATHENA
O modelo oriental de Afrodite passou certamente por um período de aclimatação no mundo Egeu, em Chipre, onde tinha nome de Aphro-deti, isso bem antes da chegada dos aqueus à futura Grécia continental. Afrodite não encontrou facilmente lugar no panteão grego, entre os doze “grandes”, os olímpicos. A deusa Palas Athena, divindade tutelar de Atenas, votava-lhe, por exemplo, grande antipatia. Afrodite era chamada pelos atenienses de “a oriental” ou “a prostituta”, nenhum culto se realizando na cidade em sua homenagem.

Os gregos distinguiam, dentre os vários comportamentos de Afrodite, dois, em especial. Um deles era o da chamada Afrodite “popular” (Pandemia), que tipificava a mulher comum, a mulher do povo, que assegurava a reprodução e a continuidade da raça, e outro, a “celeste” (Urania), a dos amores elevados, puros, onde expressões físicas não entravam, que procurava fazer com que a alma reatasse seus contactos com o divino.


AFRODITE "ORIENTAL"

Entre estes dois padrões havia muitos outros, caracterizados pelas diversas experiências da vida da mulher nos quais o que de mais importante se notava eram os sentimentos e os contactos humanos sob o ponto de vista amoroso. Lembre-se que Afrodite foi criada para colocar as relações humanas sob a perspectiva da reciprocidade. Embora suave, cheia de ajustes, havia um certo ardor nesta dinâmica, pois para a deusa a vida era a arte dos encontros, o que levava muitos a considerá-la como uma oportunista. As aspirações profissionais que o modelo Palas Athena inspirava eram certamente muito tediosas para a mulher-Afrodite. A deusa também não estava interessada em uniões formais ou na maternidade, como Hera ou Deméter. Poderia, quando muito, ser até uma mãe afetuosa, mas nunca convencional, já que os relacionamentos ocupavam um lugar mais importante em sua vida, sejam eles amorosos, amigáveis, sociais, platônicos, físicos, extraconjugais ou simplesmente de tendência espiritualizante.


ZEUS E HERA
ÁRTEMIS

 Nos tipos superiores, a mulher-Afrodite pode ser tanto sensual como sensível, civilizada, culta, não demonstrando nenhum interesse, por exemplo, em atividades esportivo-sociais, como acampar em montanhas ou participar de pescarias em alto-mar, coisas da mulher Ártemis. A Afrodite de que estamos falando, a do tipo superior, costuma se sentir bem com o seu corpo e a sua sexualidade é no geral descomplicada. Precisa, sim, de uma vida social ativa, onde o amor ou mesmo a sua simulação ocupe um lugar importante.


AFRODITE KALLYPIGIA
Nos tipos inferiores, encontramos, por exemplo, as mulheres-Afrodite que querem ser rainhas de beleza, que podem fazer do seu corpo um meio de acesso a níveis socialmente endinheirados. Um destes modelos é a chamada Afrodite kallipygia (de belas nádegas), que facilmente se transforma em símbolo sexual. A Afrodite Pandemia, a partir do final do séc. XIX, trocou a sua função de reprodutora, de “deusa do lar”, por papéis mais públicos. Com o cinema, a TV, as novelas, os espetáculos musicais e da moda, além de uma intensa exposição da vida íntima das pessoas por psicólogos, religiosos, sexólogos, médicos e repórteres policiais em programas sensacionalistas, Afrodite e suas histórias passaram a fazer parte do nosso cotidiano.


 Qualquer que seja o ângulo pelo qual a consideremos, Afrodite sempre representou algo de fatal para o patriarcado, para o machismo, vista ora como sedutora perigosa, despudorada, ora como bruxa, feiticeira, ou ainda como destruidora de lares, vampe, mulher que seduz os homens para arruiná-los, depois de tê-los explorado sexual e/ou economicamente em muitos casos.


Para falar da Afrodite Androphona dos gregos, modelo da mulher destruidora de homens, é preciso ir um pouco mais ao fundo do seu arquétipo. De início, saliente-se que a Afrodite grega, embora com traços mais suavizados, conservava muito da personalidade da deusa Ishtar (personificação do planeta Vênus no mundo assiro-babilônico), deusa do amor, mas com um forte temperamento guerreiro também. Deusa da voluptuosidade, mostrava-se Ishtar muitas vezes irascível e violenta quando sua vontade era contrariada. Sua cidade, Erech, era famosa como centro da prostituição sagrada, como Corinto, na Grécia, o era de Afrodite. São conhecidos os inúmeros casos amorosos de Ishtar, sendo o mais famoso aquele que manteve com Tammuz, o deus da vegetação. Este caso amoroso foi transposto para a mitologia grega, sendo seus os seus personagens Afrodite e Adônis.

 
AFRODITE E ADÔNIS

 Nas antigas sociedades patriarcais, a descendência e os bens (propriedades e dinheiro) eram, como ainda hoje o são, transmitidos patrilinearmente. Dessa via dependia também a continuidade religiosa, permitindo esta que os pais se imortalizassem através de seus filhos. Neste sistema, a fidelidade da esposa era muito importante, essencial diga-se, como garantia dessa transmissão, sob todos os seus aspectos.

A liberdade que Afrodite propunha, como arquétipo, sempre foi uma séria ameaça para a estrutura das sociedades patriarcais, nas quais instituições como o concubinato e a prostituição tinham (hipocritamente) um lugar, sendo até muito toleradas e admitidas. Raríssimo, porém, que o filho de um patriarca com uma concubina ou uma prostituta viesse a ter reconhecidos quaisquer direitos diante dos que eram fixados para o de um casamento legal.


Desde que as religiões patriarcais se impuseram, os patriarcas, ainda que alguns se sentindo culpados, pecadores etc., sempre buscaram a mulher-Afrodite fora de suas uniões oficiais. Um efeito colateral dessa atitude é a espantosa ignorância na qual foram (são) mantidas as esposas pelos maridos, a fim de que esse sistema de privilégios seja mantido.                                                       Decorre daí o medo
de que as religiões patriarcais têm da mulher-Afrodite, razão das inúmeras restrições que limitam a liberdade feminina em muitas sociedades, ainda hoje, quer sob o ponto de vista religioso, político ou civil. Entre os semitas, judeus ou islâmicos, a nudez masculina ou feminina é um tabu; nada de corpos expostos, tudo muito diferente daquele saudável amor ao corpo masculino e feminino e à nudez que gregos e romanos sempre demonstraram com a sua maravilhosa arte. O ocidente que se diz cristão caminhou no sentido contrário. Vem expondo mais abertamente os corpos, o da mulher principalmente, erotizando-os, não para promovê-la, mas, sim, para transformá-la em objeto de consumo, um meio, como o anterior, de mantê-la prisioneira do sistema.


    Não há nenhuma referência no cristianismo sobre essa questão, a de Cristo ter se insurgido contra o
SANTO AGOSTINHO
sexo ou ter desprezado o corpo das mulheres. Ao contrário até, pois muitas o seguiam de perto, mencionando-se ainda o fato de, depois de sua ressurreição, ter ele procurado Maria Madalena, de quem era muito próximo. O problema da rejeição da mulher no cristianismo começou com São Paulo, que tinha uma verdadeira obsessão no sentido de impedir o que ele chamava de fornicação (prática sexual, especialmente com prostitutas, ou ato sexual com parceiros diversos; “fornicatio, onis”, ação de abobadar, formar um arco, movimento do corpo fazendo sexo). Para São Paulo, o melhor que o homem tinha a fazer era procurar o celibato. Se a carne se mostrasse fraca, seria preferível, então, o casamento, sempre um mal, mas um mal menor diante da fornicação, pois era melhor, como dizia, “casar-se do que arder”. No cristianismo, foi por causa do discurso de dois inimigos das mulheres, São Paulo e Santo Agostinho, dois misóginos, que mulher, sexo, sujeira, banho e pecado sempre apareceram associados desde então.


Expulsa das religiões patriarcais, Afrodite assumiu um dos seus grandes papéis, o da mulher fatal, destruidora de homens. Sob o ponto de vista filosófico ou psicológico, o esquema é conhecido. Afrodite é o arquétipo (arkhê, original, antigo, + typos, exemplar, modelo) dos padrões femininos por excelência, isto é, modelo ou padrão passível de ser reproduzido em simulacros ou objetos semelhantes; é paradigma, princípio explicativo de todos os demais tipos femininos, que vêm sendo atualizados simbolicamente ao longo da história da humanidade, segundo a cultura e a época em que eles se manifestam ou são criados.


Embora deusa do amor, são notáveis as raivas de Afrodite, as suas vinganças, as maldições que envia, podendo ela fazer do amor uma arma terrível, venenosa, destrutiva, já que o ódio e o amor são as duas faces de uma mesma moeda. Pelo fato da deusa Eos, a Aurora, ter se enamorado de seu antigo amante, Ares, deus da guerra, Afrodite fez com que ela se apaixonasse
FEDRA E HIPÓLITO
pelo gigante Orion, um tipo violento e complicado. Por ter renegado o seu culto e adotado o da virgem Ártemis, deusa lunar, o jovem Hipólito foi punido, tornando-se objeto de uma paixão incontrolável de Fedra, sua madrasta, mulher de Teseu. Este, como se sabe, expulsou o filho do palácio e pediu que seu pai divino, Poseidon, o punisse. Um monstro marinho espantou os cavalos do carro do jovem príncipe, que se despedaçou ao cair sobre os penhascos da estrada Atenas-cabo Sounion, à beira-mar. Por não lhe terem condignamente prestado culto, as mulheres da ilha de Lemnos foram punidas. Fez com que o corpo delas exalasse um odor tão insuportável que todos os homens da ilha as abandonaram. Esta maldição só foi revogada pela deusa a pedido de seu antigo marido, Hefesto, quando os argonautas, em trânsito para a Cólquida, ali aportaram.


HELENA E PÁRIS

São muitas as histórias dos grandes amores, das proteções, dos malefícios e das vinganças de Afrodite. A disputa pelo título de “a mais bela”, quando da festa de casamento de Peleu e de Tétis, dá bem uma ideia do poder da deusa e da catástrofe que ela acabou provocando ao fazer com que a belíssima Helena, rainha de Esparta, mulher do rei Menelau, caísse nos braços de Páris, príncipe troiano.

O papel de mulheres que destroem os humanos e que perturbam a vida dos imortais pode ser vivido por mortais e deusas. Dentre estas últimas destacamos, exemplificando, as já citadas divindades Circe
CALIPSO E ULISSES
e Calipso, a elas juntando Eos, a Aurora, uma consumada raptora de amantes; algumas divindades que vivem no Jardim de Perséfone fazem parte dessa galeria, como a terrível Até, odiosa aos próprios deuses, que tanto perturba o espírito dos homens ao entregá-los à desgraça; outra é Phtonos (olhar com maus olhos), a Inveja que os romanos chamavam de Invidia, um monstro que o mais brilhante mérito não pode sufocar. Quanto às mortais que incorporam o arquétipo da Afrodite Androphona (Andros, homem, e phonos, assassinato), a mitologia grega tem um grande rol dessas figuras, que, como símbolos, atualizam o referido padrão de comportamento. Clitemnestra, as Danaides, Electra, Dejanira, Medeia e Fedra são alguns exemplos.
 
MEDEIA E FILHOS

Artistas, poetas, escritores, músicos, por seu lado, criaram e continuaram criando, ao longo dos séculos, como se disse, personagens que simbolicamente atualizaram o arquétipo, cada cultura fixando os seus modelos. No século XIX, apareceu na literatura uma mulher meio anjo, meio demônio, que, como personagem, é uma das mais bem acabadas atualizações do arquétipo da Afrodite Androphona, que estudamos.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        Prosper Mérimée, 1803-1879, escritor francês, em Paris, educado num meio culto de tradição voltairiana, formou-se em Direito.                                                                                              

Desde cedo, porém, decidiu-se pela literatura, relacionando-se inclusive com Stendhal, um dos maiores nomes das letras francesas de então. Muito ligado a temas espanhóis, Merimée publicou, em 1845, “Carmen”, personagem delineado segundo os atributos da mulher fatal.   Carmen era, como então se dizia, de costumes levianos, levava uma vida boêmia; seduziu e aniquilou um homem honesto, trabalhador e respeitador dos valores tradicionais da sociedade; apaixonando-se por ela, esse homem, Don José, cometeu um crime e destruiu a sua vida. Carmen, por seu lado, acabou tendo que assumir o papel de bode expiatório (outro arquétipo) e pagou com sua vida o que causou com o seu comportamento, sempre perigoso para o mundo masculino. Foi sacrificada em nome da moral, da decência e dos bons costumes. O cenário em que Merimée colocou a sua Carmen “pedia” esse fim.

Merimée construiu Carmen como mulher fatal usando componentes físicos que podemos chamar de “noturnos”. Por isso, para começar, ela era uma cigana, de lindos cabelos negros (tinham reflexos azuis como as asas de um corvo); seu olhar era forte como o de um lobo, sua pele, acobreada. Os valores de Carmem eram noturnos, totalmente avessos à luz. O negro, como sabemos, é símbolo do caos, do que não é, do erro, da desorientação, do descaminho. À noite corremos o risco de nos perder, pois deixamos de ver, o que sugere perdição, ignorância, inconsciência. Entrar na noite é entrar na indeterminação.   

O lobo, por seu vez,  sugere vida instintiva. É um animal caçador, predador, que gosta de atacar antes que o Sol nasça. Seus hábitos são, sobretudo, noturnos. Tem a fama de devorador, sendo usado para simbolizar, negativamente, as pressões animais que no ser humano se impõem à sua racionalidade. Carmem era, nesse sentido, uma lupina. Na mitologia dos escandinavo-germânicos há um famoso monstro, o lobo gigante Fenris, que na batalha final pela posse do universo (Ragnarok) entre deuses e monstros atacará Odin, devorando-o.

A referência de Merimée ao “olhar de lobo” de Carmem põe em evidência não só a sua ferocidade (o lobo é um animal feroz), a sua força incontrolada, mas também nos fala de tentação, de sedução, de falta de escrúpulos. O lobo sempre foi visto como a imagem de uma libido descontrolada, traduzida por uma grande avidez, de tendências egoístas, antissociais, violentas, virtualmente destrutivas.

Como o urso e a serpente, o lobo simboliza igualmente a sombra, aspecto inconsciente da personalidade humana cuja manifestação pode ser perigosa diante das energias despertadas, fazendo a consciência submergir. Carmem é, nesse sentido, a antítese da luz, atributo divino, coeterna à escuridão e dela saída. Não é Carmem, pois, um ente solar, símbolo do espírito, do conhecimento direto e inspirado, por oposição ao conhecimento lunar, cuja luz é reflexo dos raios do Sol.

Desde o início do texto de Merimée, ficamos sabendo que Carmem vem de um mundo proibido e ao mesmo desejado pelos homens. Sua vida liga-se à água, a um rio, lugar onde as mulheres entregavam-se aos prazeres do banho. A água, como sabemos, é um dos grandes temas da “solutio” alquímica, que, basicamente, transforma o sólido em líquido. O sólido, nas terapias do psiquismo, nos fala dos aspectos fixos e estáticos de uma personalidade que não admite mudanças. Estabelecidos ao longo de muitos anos, esses aspectos se nos apresentam como justos e corretos, mas podem ser destruídos pela operação alquímica a que estamos nos referindo.

A solutio é de Afrodite, deusa que nasceu no elemento líquido. Os poderes dessa operação têm como agentes, no mito, como se sabe, sereias e ninfas aquáticas, que atraem os homens, levando-os à morte por afogamento. O Antigo Testamento nos oferece um exemplo clássico de uma solutio fatal. O rei David era um homem íntegro, culto, sábio. Um dia, sem querer, do alto de uma janela do seu palácio viu uma mulher lindíssima que se banhava. Apaixonou-se por ela. Ela se chamava Betsabá e era casada com Urias, um soldado hitita. David pediu aos seus chefes militares que o enviassem para lutar na linha de frente do exército judaico para que fosse morto em combate. O profeta Natan censurou asperamente o rei David por esse procedimento. David se uniu a Betsabá e com ela teve um filho, que se tornaria mais tarde o famoso rei Salomão.

BETSABÁ  ( REMBRANDT )

 Exemplos como o de David são inúmeros no mito e nas artes, na literatura especialmente. Os aspectos fixos da personalidade de David literalmente liquefizeram-se, foram destruídos. Imagens de afogamento, de descida à profundeza das águas, costumam aparecer quando um acontecimento dessa natureza ocorre na vida de alguém. O banho, a imersão na água, as chuvas que inundam e alagam são imagens da solutio alquímica, que podem também aparecer em sonhos. O batismo, por exemplo, é um ritual que participa do tema da solutio lembrando morte e renascimento. Quando a solutio simplesmente acontece, como a de David, ela pode ser perigosa porque, em muitos casos, é experimentada com grande sofrimento, pois costuma provocar o desmoronamento do ego, que se acreditava inabalável.

A beleza de Carmem fascina e intriga. Ela vive num ambiente noturno, de práticas ilícitas, de contrabando, de roubos. Usa seus encantos para isso, passa por feiticeira, pondo em perigo todos os homens com os quais se relaciona. É Carmem quem vai decidir o destino de D.José. Ela vive agitada, sua vida é escandalosa; ela é instintiva, provocativa, agressiva. Seu lado animal é ofensivo, mas tremendamente sedutor. Suas cores são o vermelho e o negro.

CARMEM

Na extensa galeria das mulheres destruidoras de homens, Carmem é um dos mais bem acabados símbolos da Afrodite Androphona. Ela ocupa, justificadamente, sem dúvida, uma posição de destaque ao lado das maiores vampes de todos os tempos. Como estereótipo da mulher sedutora, perversa e cruel, sádica, a vampe, desde a antiguidade, sempre foi a sombra da mulher virtuosa. A vampe é imoral, sua sexualidade é escura e poderosa. Seu poder provém de sua habilidade de liberar nos homens suas latentes
energias sexuais, contidas por razões religiosas e culturais. Ligava-se a eles e solapava a sua vitalidade. Os modelos modernos são descritos como mulheres de unhas escuras (esmalte cor de sangue), jóias e
THEDA BARA
adereços que lembram animais satanizados (serpentes, escorpiões, aranhas, sapos etc.), agentes das forças malignas; essas mulheres já no séc. XIX fumavam em público (algo impensável à época) com uma indefectível piteira (símbolo fálico); seus modos sugeriam uma origem da Europa central ou do Oriente Próximo. Quem definiu o tipo vampe moderna no início do cinema (anos 1920) foi uma judia de Cincinatti, Theodosia Goodman, que assumiu na tela o nome de Theda Bara, um anagrama de Arab Death.

Mas, voltando à nossa Carmem, o que temos em Merimée é a queda de D.José, trágica, vista como uma espécie de possessão demoníaca. Carmem o faz vivenciar sentimentos como a paixão, o ciúme e o ódio. Vitimado por ela, que encarna o erro e o pecado, D.José se torna violento, cai moralmente, incapaz de refletir, embora tenha ele chegado a acreditar na “conversão” de Carmen, de modo a torná-la uma mulher boa e sensata.

O romance de Merimée fixa D.José como o representante da ordem social vigente, do sistema; é um militar, um “quase” padre, pois chegou a cursar o seminário. Ele faz parte de um mundo que cultua as belas palavras, honra, respeito, hierarquia. No lado oposto, Carmem, que é boêmia, marginal sob o ponto de vista social, transgressora contumaz, não conhece outra lei senão a da sua vontade.

MICAELA
Para Carmem, música e erotismo são a mesma coisa. Seu corpo vibra de sensualidade e ela tem domínio completo sobre ele. Ela sabe, pelo poder da vidência, que a morte a espera, mas isso não a incomoda. Irá até o fim. Carmem é dionisíaca, uma grande mênade, sem dúvida. Na ópera de Bizet, Micaela, como personagem, é a antítese de Carmem. Veste-se de azul, nada tem de excitante. Não tem o riso ofensivo da cigana. D. José louva a pureza e a candura de Micaela, mulher ideal, virgem, madona.

A novela de Merimée apareceu em 1845. É um texto sobre o amor, a violência e a morte. Em Sevilha, encontram-se Carmem e D.José. Vitimado pela paixão que sente por ela, ele, um homem da lei, se torna contrabandista e assassino. No momento em que julga possuir a mulher amada, ela, que não o ama, prefere morrer livre a segui-lo. Ele então, desafiado por ela, a apunhá-la.
                                                     
CARMEM E D. JOSÉ


Carmem inspirou óperas e muitos filmes. George Bizet, em 1875, transformou a história em ópera. Em 1918, no cinema, Charles Chaplin e Ernest Lubitsch nos deram as suas versões sobre a personagem; em 1954, de Otto Preminger, tivemos Carmen Jones; em 1983, A Tragédia de Carmen, no teatro (1981), é de Peter Brook; em 1983, Carlos Saura nos apresentou a sua Carmen; Jean-Luc Godard (1983) e Francesco Rossi (1984) fizeram as suas transposições cinematográficas. Na ópera, de 1977, aparece Carmen, dirigida por Claudio Abbado, com Teresa Berganza e Plácido Domingo.



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

TESEU, ARIADNE E DIONISO


Etimologicamente, Teseu quer dizer aquele que estabelece, que institui, o que legisla. Fazendo jus ao seu nome, Teseu, quando assumiu o poder na Ática depois da morte do pai, realizou o que os gregos chamavam de sinecismo, união de vários burgos para constituir uma cidade (Atenas). O mais célebre sinecismo de que se tem notícia na Grécia antiga foi o realizado por nosso herói. De diversas pequenas cidades da Ática, dominadas por poderosos genos, Teseu, conta o mito, fez uma só polis. Atenas tornou-se assim capital política de um estado cujos cidadãos eram todos atenienses, mesmo que tivessem nascido em outros lugares, como em Eleusis ou em Maratona.

 
Teseu, como rei de Atenas, segundo o mito, mandou construir o Pritaneu (edifício público, residência dos pritanes, delegados tribais, onde estes e mais pessoas ilustres da cidade se reuniam para as refeições) e o Senado (Boulé, conselho de Estado), promulgou leis e adotou o uso da moeda. Foi ele responsável também pela fixação no calendário religioso das Panateneias, as festas totais de Atenas, em honra de Palas Athena (fig.dir.), festas que representavam a unidade política da Ática. Devem-se ainda a Teseu a divisão da sociedade ateniense em classes e a definição dos fundamentos da sua democracia, conhecidos mais tarde como: isonomia (igualdade diante da lei), isotimia (igualdade de consideração, de condição), direito de opinião, e direito às honras conferidas pelo mérito pessoal e não pelo nascimento.



POSEIDON

A genealogia do nosso herói é complicada. A versão mais acatada nos revela que Egeu, rei de Atenas, em visita a Trezena, foi recebido pelo rei Piteu, famoso por sua sabedoria e virtudes. Embriagado pelo dono da casa, Egeu foi levado à cama de Etra, princesa real. Durante a noite, ela teve um sonho no qual Palas Athena lhe apareceu, sugerindo-lhe que fosse para uma determinada ilha. Lá chegando, ainda sonhando, o deus Poseidon a recebeu e com ela se relacionou sexualmente. Ficara Etra grávida de Teseu. Na manhã, seguinte ela se lembrava de tudo vagamente, acreditando Egeu, por seu lado, ter com ela mantido relações sexuais, o que o levou a se considerar como pai da criança que Etra teria.


MEDEIA E SEUS FILHOS

Uma outra versão nos conta que Egeu fora ao oráculo de Delfos para descobrir a razão de não ter filhos, depois de ter estado com várias mulheres. No caminho de volta para Atenas, passou por Corinto, onde vivia a feiticeira Medeia. A sobrinha de Circe se preparava para pôr em ação seu plano de matar o rei Creonte, sua filha Creusa e os seus próprios filhos, os que tivera com o herói Jasão, que a desprezara para casar com a mencionada princesa. Em troca de proteção e abrigo em Atenas, depois de cometidos os crimes que arquitetara, Medeia se comprometeu, com o emprego de sua arte, a fazer Egeu gerar um filho. Depois de tudo acertado com a maga é que Egeu, numa outra tentativa para ter o desejado filho, resolveu visitar seu amigo Piteu, em Trezena, conforme está no parágrafo acima. Não houve, assim, necessidade da arte de Medeia, o que não trouxe problemas para que Egeu a recebesse em seu palácio de Atenas e acabasse aceitando-a como amante. 

M menino, conforme combinado, por questões políticas (Egeu temia pela vida do filho), ficou sob os cuidados da mãe e do avô materno em Trezena. Antes de partir, Egeu enterrou sob um rochedo sua espada e um par de sandálias. Pediu que quando atingisse a adolescência o filho fosse procurá-lo em Atenas, levando a espada e as sandálias como sinal de reconhecimento. Teseu, já na infância, demonstrou uma precocidade espantosa: revelou-se um atleta excepcional, intelectualmente muito capaz, além de ser grande músico e instrumentista. Na adolescência, a mãe lhe revelou toda a história do seu nascimento. Jovem, fortíssimo, inteligente, belo, sentindo-se capaz de enfrentar os perigos da jornada, Teseu partiu em direção de Atenas à procura do pai, onde a feiticeira Medeia, como se disse, vivia como hóspede e amante de seu pai. 

A espada e as sandálias que Egeu deixara para Teseu haviam sido enterradas sob um grande rochedo. O jovem, sem grandes esforços, conseguiu levantar a enorme pedra e apossar-se do que o pai lhe deixara. Teseu estava pronto para iniciar o seu caminho e enfrentar as provas que todo herói deve necessariamente cumprir. 

Emblema da bravura e do poder guerreiro, a espada é não só sinônimo de destruição como de justiça e paz. É muito comum, nos vários ciclos, que a espada passe para a mão de heróis do modo como Teseu obteve a sua. Observe-se mais que em várias tradições as espadas dos heróis têm nomes. A espada maravilhosa de Roland, sobrinho de Carlos Magno, por exemplo, chama-se Durandal. Comum, entre os víquingues, as espadas dos chefes terem nomes como “A Chama de Odin” ou “O Fogo do Rei do Mar”. Na mitologia germânica, Siegmund, lembremos, obterá da mesma forma que Teseu a espada que seu pai, o deus Wotan, deixou para ele. 

No seu caminho para Atenas, Teseu se envolveu em inúmeras aventuras, lutas contra monstros, facínoras e salteadores que punham em perigo as cidades situadas no seu caminho e infestavam as estradas. No istmo de Corinto, por exemplo, enfrentou o gigantesco Sinis, O Devastador, filho de Poseidon, que matava as pessoas que por lá passavam de um modo peculiar. Ele as catapultava com árvores que vergava, lançando-as a grande distância, estraçalhando-as. Teseu venceu Sinis do mesmo modo, sendo apelidado, por isso, desde então de “O Arqueador de Pinheiros”. 

Para celebrar essa vitória, Teseu instaurou os chamados Jogos Istmicos (fig. esq.). Chamados agones (agon, luta, concurso), estes jogos ocuparam desde sempre na vida pública dos gregos uma importância muito grande. No geral, revestiam-se de um caráter fúnebre ou religioso. Há exceções, contudo, como os jogos realizados pelos feácios, quando da estada de Ulisses entre eles, segundo nos conta a Odisseia. Os Jogos Istmicos, de caráter fúnebre, foram organizados por Teseu em honra a Poseidon e a Sinis, que matara, afinal seu irmão por parte de pai...

Um dos encontros mais conhecidos de Teseu foi com a monstruosa e antropófaga Porca de Cromion, de nome Feia, filha dos dois maiores monstros da mitologia grega, Tifon e Équidna, sendo ela, portanto, irmã da Hidra de Lerna, de Cérbero, de Ortro, de Fix (Esfinge), do Leão de Nemeia e de outros mais.

Como animal, a porca simboliza aqui na história de Teseu as forças incontidas da procriação, princípio maternal descontrolado, o feminino concentrado exclusivamente na sua função procriadora, forças das quais Teseu acabara se tornando um grande inimigo. Lembre-se que a porca é um animal de Deméter (fig. esq.) enquanto esta deusa nos remete a ideias de princípios femininos, de vida antipolítica, de abundância, de maternidade feliz. Na tradição grega, o sangue deste animal tinha função purificadora ao ser usado para limpar manchas morais. Foi o caso de Orestes, por exemplo, que Apolo aspergiu com o sangue de uma porca, quando o filho de Agamemnon o procurou para expiar a morte de sua mãe, Clitemnestra.






A PURIFICAÇÃO DE ORESTES

Uma das façanhas mais conhecidas do jovem Teseu, façanhas que no seu todo lembram muito de perto os trabalhos de Hércules, foi o fim que deu a um famoso bandido que aterrorizava os viajantes nas estradas. Esse bandido se chamava Damastes ou Polipemon (o que faz sofrer). Seu apelido era Procusto (o que estica ou reduz). Ele deitava a suas vítimas num leito de ferro; se a vítima fosse maior ele cortava o que ficasse para fora do leito; se a vítima fosse menor, ele a distendia com grande violência para que ficasse do tamanho do leito, chegando a arrancar-lhe as pernas. Vem dessa história a expressão “leito de Procusto”, figuradamente, interpretação artificiosa que visa encaixar à força uma ideia, um princípio, uma afirmação num determinado sistema, doutrina ou corrente de opinião.


A MORTE DE PROCUSTO

Precedido de enorme fama, ainda muito jovem, mas herói aclamado, e sem reavaliar o seu nome, o filho de Egeu chegou a Atenas, purificando-se antes nas águas do rio Cefiso. Vestido luxuosamente, de túnica branca imaculada, cabelos compridos, quase femininos, o jovem foi ridicularizado por alguns populares antes de entrar na cidade. Matou-os todos, lançando um carro de bois sobre eles. 

Pressentindo que teria problemas com o jovem herói, Medeia instigou Egeu a mandar matar o “perigoso estrangeiro”. No banquete de recepção a ele oferecido, Medeia preparou uma cratera de vinho com veneno mortal para o jovem. Antes de levar a bebida aos lábios, Teseu, que logo percebera a nefasta presença da maga junto ao pai, puxou da espada, dando-se a conhecer. Diante dos convivas, o pai o abraçou e o proclamou seu sucessor. Repudiada publicamente, Medeia retirou-se para a Cólquida, sua terra de origem.


TESEU ATACA O TOURO DE MARATONA

A essa altura, as relações entre Atenas e Creta estavam muito deterioradas. Androgeu, filho dos reis de Creta, Minos e Pasífae, havia morrido na Grécia. Sua morte fora atribuída a Egeu, que o mandara lutar contra um pavoroso animal, conhecido como o touro de Maratona, que tudo devastava. A morte do jovem príncipe cretense, como tudo indicava (uma emboscada), fora tramada por Egeu, desconfiado de suas ligações com os palântidas, seus sobrinhos, que queriam se apoderar do trono de Atenas e que contestariam naturalmente o direito de sucessão de Teseu.

Os cretenses enviaram à Grécia um grande contingente militar. Atenas e Creta entraram em guerra. Atenas foi cercada, mas um acordo foi firmado. Os cretenses se retirariam de Atenas desde que anualmente fossem enviados a Cnossos, capital de Creta, jovens gregos que serviriam de alimento ao monstro Minotauro (esq. desenho de Picasso), que se alimentava de carne humana, escondido nos imensos corredores subterrâneos do Labirinto, palácio da cidade.
 
Tomando conhecimento da situação, Teseu se prontificou a ir a Creta no lugar dos jovens. Antes da viagem, Egeu lhe forneceu dois pares de velas para o barco que o levaria, um branco e outro negro. Se voltasse vitorioso, içaria as velas brancas. Recebido no palácio, Minos concordou com a proposta de Teseu: matar o Minotauro para liberar Atenas da pena imposta.

Teseu, durante a entrevista que manteve com Minos, foi visto pela princesa Ariadne (fig.dir.). Imediatamente, ela ficou tomada de incontida paixão por ele. Conforme combinado com Minos, Teseu pernoitaria no palácio e na manhã seguinte desceria aos seus subterrâneos para lutar contra o monstro antropófago. Durante a noite, a princesa se dirigiu aos aposentos de Teseu e lhe declarou a sua paixão.





O FIO DE ARIADNE (ESCHER)


Bem recebida, ela, aconselhada por Dédalo, o inventor mítico que vivia exilado na ilha, lhe entregou um novelo, que ele deveria utilizar para entrar e sair do Labirinto (ruínas esq.), lugar de onde ninguém voltava sem esse auxílio. Uma condição, porém, estabeleceu Ariadne: morto o monstro, Teseu a levaria para Atenas e a desposaria.




Tudo aconteceu como o previsto. Teseu venceu o Minotauro e, com Ariadne, que nada revelou aos pais do seu plano, iniciou o caminho de volta para Atenas. O barco fez uma escala na ilha de Naxos, para que ambos pudessem descansar. Na manhã seguinte, ao acordar, Ariadne se viu só. Correu à praia; ao longe pode ainda avistar o barco de Teseu, que sumia no horizonte. Um detalhe importante: Teseu se esquecera de colocar as velas brancas no barco. Egeu, com os olhos pregados no mar, viu que as velas do barco que se aproximava não eram brancas. 


Desesperado, acreditando ter perdido o filho, atirou-se dos altos penhascos do cabo Sounion, (fig.dir.) suicidando-se. Por isso, o mar dessa região, desde então, passou a ser chamado de Egeu.

Teseu logo assumiu o poder em Atenas, promovendo inúmeras mudanças políticas e sociais. Foi na condição de rei que Teseu recebeu o cego e alquebrado Édipo, acompanhado de sua filha Antígona, levando-o até Colono, bairro de Atenas, onde o malagrado herói foi acolhido por Géia, que abriu as suas entranhas para recebê-lo, longe da vista de todos.

Quanto a Ariadne, seu nome admite várias etimologias, todas relacionadas com a luz, com a claridade, provenientes talvez do nome de seu avô, o deus Hélio, o Sol, pai da rainha Pasífae. Abandonada por Teseu em Naxos, Ariadne foi ali encontrada pelo deus Dioniso, que retornava de uma triunfal viagem que fizera ao oriente aonde fora propagar os seus ritos orgiásticos e disseminar a cultura da vinha. O abandono da princesa cretense, segundo uma versão, nos diz que Teseu ao fazê-lo cumprira uma ordem da deusa Palas Athena, que lhe apareceu em sonho ou como uma visão, quando ele e a princesa cretense pernoitaram em Naxos.


Ariadne é evidentemente uma das últimas grandes figuras do mundo matriarcal. A versão acima mencionada parece-nos bastante aceitável se levarmos em conta que Palas Athena é uma deusa perfeitamente alinhada com patriarcado, uma deusa combatente, virgem, encouraçada, que nunca se separou da sua égide, de sua lança de ouro nem do seu elmo. Protetora do Estado, deusa das acrópoles, é uma divindade “política”, que tem aversão ao feminino, nada tendo em comum com as divindades que o representam, Afrodite (fig.dir.) à frente de todas. Não foi por outra razão que as Panatenéias, as festas totais de Atenas, foram instituídas por Teseu.




TESEU MATANDO AS AMAZONAS

Embora Teseu sempre tenha sido considerado pelos antigos atenienses como um personagem histórico, suas histórias ocupam grande parte dos mitos referentes à Ática, região onde se situa Atenas. Aparece nosso herói tanto no mito como na história como um dos mais ferrenhos representantes do mundo patriarcal, de modo especial daqueles ligados à “polis”, de um mundo que estava substituindo aquele representado por Ariadne. Esta sempre apareceu como figura ligada à vegetação, sendo inclusive nas ilhas do Egeu considerada como uma antiga divindade das florestas. Dois mundos, já àquela altura, inconciliáveis.

A triste história da princesa cretense pode sugerir outras leituras. Podemos admitir, por exemplo, numa leitura psicológica, que Ariadne, símbolo do princípio feminino, tenha tentado fazer uma ligação entre os dois mundos que ambos representavam ao dar ao herói, símbolo do princípio masculino, o seu famoso fio, de modo que ele pudesse melhor aceitar e integrar as tendências femininas do seu psiquismo. Historicamente, Teseu foi, ao que parece, um representante no continente do mundo jônico, um povo de comerciantes, adoradores de Poseidon, fixados também na Eubéia, ilha paralela ao litoral da Ática e da Beócia.
 
O simbolismo do fio nos remete a ideias como as de união de dois estados de existência; assim, proporcionaria ela a Teseu um “segundo” nascimento, não só a integração do seu masculino e do seu feminino mas uma possibilidade de que ele pudesse sair do seu “mundo subterrâneo”. Só que Ariadne, ao lhe oferecer um renascimento, fez imposições, inaceitáveis a um representante da nova ordem patriarcal que já se impunha. Teseu foi sempre, desde a juventude, um dos mais obstinados representantes dessa nova ordem, que rejeitará totalmente o feminino.

Ariadne vinha de um mundo que perdia rapidamente o seu status, o mundo natural, as florestas; descreve a história, seu encontro com Teseu, miticamente, o conflito natureza-polis, já nos seus primeiros esboços àquele tempo. Ariadne era uma antiga divindade de um mundo que ia desaparecer, mas que teria direito, na sua agonia final, a uma apoteose digna e patética.


ARIADNE, AFRODITE E DIONISO

Quem vai se encarregar de conduzir ao seu final essa triste história é Dioniso, o deus das metamorfoses, da destruição das formas que não sabem se renovar, grande divindade do vinho. Na ilha de Naxos, como recorda Plutarco, celebravam-se há muito festas que tinham um duplo caráter, em honra a Ariadne e ao deus, com muitos cantos primaveris e ditirâmbicos. Estas festas proclamavam Ariadne como uma deusa da vegetação que tem que morrer para que se abra espaço para a cultura da vinha.

Naxos, o cenário da morte de Ariadne, é a maior das ilhas Cíclades. Consta que Dioniso ali fora educado pelas ninfas da ilha. Conquistado pela beleza de Ariadne, a ela se uniu, nascendo dessa união quatro filhos, Toas, Estáfilo, Enópion e Pepareto, que se ligarão à produção de vinho nas ilhas do Egeu. Segundo uma tradição ateniense, haveria um quinto filho, pouco mencionado, de nome Keramicos, que seria o herói epônimo de um bairro de Atenas, onde trabalhavam os ceramistas que fabricavam recipientes para transporte do vinho do deus. Lembremos que junto desse bairro havia um cemitério, de mesmo nome, por onde anualmente, sob a tutela de Dioniso, saíam as procissões em direção do santuário de Eleusis, para a realização da segunda parte dos Mistérios instituídos pela deusa Deméter.

As três fases da vida de Ariadne nos permitem considerá-la como uma figura trágica, de fundo matriarcal, que tentou desesperadamente sobreviver na nova ordem: sua vida começou quando ela se apaixonou por Teseu, tornou-se sua amante e por ele é abandonada. Se de um lado ela lhe ofereceu segurança, abrigo, ternura, calor maternal e sobretudo salvação sob o ponto de vista físico, de outro sempre havia o risco de estreiteza, do abafamento, da opressão, certamente insuportáveis para um tipo como Teseu. Ele simplesmente a usou e se descartou dela.

Num sentido histórico, tão ou mais importante que o psicológico (a possibilidade de Teseu entender-se melhor com a sua “anima”), as relações entre o rei de Atenas e a princesa cretense representam indiscutivelmente o último ato da liquidação do matriarcado, com a grandiosa cena final comandada pelo deus Dioniso. Honrando Ariadne, como última representante de um mundo que terminava, Dioniso a faz sua mulher, tornando-a mãe de cinco filhos, todos, mais tarde, engajados na sua causa, a de proporcionar ao homem, através do vinho, a possibilidade de ultrapassar a sua condição humana em direção de uma espiritualização progressiva. Participando dos festejos matrimoniais, a deusa Afrodite ofereceu a Ariadne um maravilhoso diadema de brilhantes confeccionado pelo deus Hefesto.

As núpcias entre Dioniso e Ariadne simbolizam o ingresso da cultura da vinha nas ilhas do mar Egeu, uma união de duas divindades em que uma delas, Ariadne, terá que desaparecer (destruição das florestas para a plantação das vinhas). É por esta razão que Dioniso a matará, mas honrando-a mais uma vez, transformando em constelação o diadema que a deusa Afrodite lhe dera quando da realização das suas núpcias com ele. Assim colocado nos céus, o diadema passou a ser chamado de Corona Borealis, ou Ariadnaea Corona. Astrólogos do cristianismo medieval tentaram dar o nome de Coroa de Espinhos a esta constelação.

Situada nos céus entre as constelações de Hércules e a do Boieiro, Corona Borealis vai dos 2º aos 17º do signo de Escorpião, tendo suas estrelas a natureza de Vênus e de Mercúrio, no entender de Ptolomeu. A principal estrela desta constelação é Alpheca, a 11º 35´de Escorpião, indicando o seu simbolismo a possibilidade de acesso a planos mais elevados socialmente, mas sem a contribuição dos próprios esforços. Lembre-se, sob o ponto de vista astrológico, que mulheres como Grace Kelly e a princesa Diana, tinham Alpheca (do árabe, Al Nair al Fakkah) em posição de evidência em suas cartas astrais.

Na mão dos artistas, a triste história de Ariadne se banalizou, ficando reduzida apenas ao tema da mulher sedotta e abbandonatta. Desde o Renascimento, a história veio sendo usada nesse sentido. Quando Francisco de Gonzaga e Margarida de Savóia se casaram, Claudio Monteverdi apresentou a ópera Arianna, que se desviou do mito ao celebrar o triunfo do amor entre Dioniso (Baco) e Ariadne. Haendel compôs a sua Arianna in Creta, em 1734. A seguir, tivemos Massenet com Ariane e, já em 1912, uma das mais famosas obras sobre a princesa, a de Richard Strauss, com libreto de Hugo von Hoffmannsthal, Ariane à Naxos.



ARIADNE

Ao longo dos séculos, a história da princesa cretense foi tratada de modo diverso; todos os que dela se aproximaram, porém, insistiram, mais ou menos, como se disse, no tema apontado, o da mulher seduzida e abandonada. Para alguns (Boccaccio), Teseu a teria abandonado porque estaria interessado em Fedra, outra filha de Minos, e, além disso, porque Ariadne em Naxos teria se embriagado e caído num sono profundo. Outros a viram como uma apaixonada invasora e inoportuna. A história da princesa também foi parar na literatura, na poesia (Corneille, Victor Hugo, Nikos Kazantazakis, Marguerite Yourcenar etc.), nas artes plásticas (Guido, Tiepolo e outros), na escultura (J.Dennecker) e até em tapeçarias famosas, sem que nunca se tivesse alcançado toda a dimensão que lhe deu o mito, a de uma grande e trágica figura do mundo matriarcal que não conseguiu ou não quis se adaptar aos brutti tempi que viriam.