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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

BOOTES, CORONA BOREALIS, CYGNUS

         
BOOTES   OU   DO   PASTOR

BOOTES em latim, em inglês Herdsman, em francês Bouvier e em português Pastor, é uma constelação cuja história tem muito a ver, na caminhada da humanidade, com a passagem do período paleolítico para o neolítico. Neste último período, como se sabe, acentuou-se o fenômeno da sedentarização e tivemos o desenvolvimento da agricultura, a domesticação dos animais foi
HESÍODO
intensificada e  cresceram a difusão e o emprego de instrumentos e utensílios na faina agrícola. Ao fim do neolítico, chegamos à idade do bronze (Oriente Médio). Bootes já aparece registrada pelos poetas épicos gregos Homero e Hesíodo. Este último. homem afeito às coisas da terra, usa o verbo bootein no sentido de arar, registrando ele para esta constelação o nome de O Arador (vide o seu poema Os Trabalhos e os Dias). Ptolomeu, cerca de mil anos depois, daria a Bootes o nome de O Guardião do Urso (Arctophylax, em grego). 

Na mitologia grega, a história que se liga à constelação de Bootes é a de Arcas, cujo nome vem de arktos, urso. Arcas era filho de Zeus e de Calisto,  ninfa oréada que, optando pela virgindade, passou a integrar o cortejo de Ártemis, a deusa lunar. Belíssima, Zeus a notou, unindo-se a ela. Calisto, já grávida, banhava-se com Ártemis numa fonte quando a deusa percebeu o seu estado, transformando-a imediatamente em ursa, tudo como já se descreveu antes (vide Ursa Major). É nesse momento em que a criança nasce, sendo o menino entregue por Zeus a Maia, mãe do deus Hermes. Arcas era neto de Licaon que reinou sobre uma região mais tarde denominada Arcádia. Certo dia, ao acolher Zeus, sob o disfarce de um camponês em seu palácio, resolveu, para se certificar da sua identidade divina,  testar a sua onisciência. Para tanto, sacrificou o próprio neto e o serviu, como iguaria,  no banquete que lhe ofereceu. Seu intento fracassou: Zeus o castigou, destruindo o palácio real e o transformou em lobo, ressuscitando depois Arcas.


LICAON  /  LOBO

Na adolescência, Arcas se tornou um grande caçador. Certo dia,

andando pela floresta, quase matou Calisto, sua mãe, que, como ursa, perambulava pelas florestas. Apavorada, Calisto escapou, refugiando-se num templo de Zeus. Para evitar que ela e o filho acabassem perecendo, um caçando e outra sendo caçada, Zeus levou Calisto e Arcas para os céus, transformando, a primeira, na constelação da Ursa Maior e o segundo na estrela Arcturus,
alfa da constelação de Bootes, ficando o filho, nos céus, encarregado de proteger a mãe. 


ARCAS   E   CALISTO / URSA



Bootes tem à sua frente, unida a ela por dois cordões estelares, a constelação Canes Venatici, formada nos céus por dois cães chamados Asterion, ao norte, e Chara, ao sul. Esta constelação, Canes Venatici ou Os Cães de Caça, acompanha Bootes na sua caçada de ursos pelo polo norte celeste. Os desenhos destas constelações aqui mencionadas só tomaram  forma definitiva no final do século XVII.

Uma outra versão grega põe em relação esta constelação de Bootes com a história de Icário, pai de Erígone, que passa por ter sido o introdutor do vinho na Hélade. Icário era um camponês da Ática. Recebeu do deus Dioniso, de presente, por ser muito hospitaleiro, uma cepa e a plantou. Teve colheita abundante, preparando logo o vinho. Convidou, para festejar, vários amigos que, embriagando-se, logo caíram no sono. Os amigos que se atrasaram, ao chegar,
SATIRÍASE
julgando que Icário os matara, envenenando-os, o espancaram até a morte. Dioniso, muito irritado, se apresentou aos agressores sedutoramente na forma de um belíssimo jovem, despertando neles um violento desejo de possuí-lo sexualmente.  Excitou-os tanto que eles, tomados por uma pulsão incontrolável, esgotaram-se num mortal esforço espermático. A este furor erótico, desde então, se deu o nome de satiríase, uma patologia sexual que causa uma ejaculação tão forte e constante que leva à morte.



NINFAS   E   SÁTIROS  ( RUBENS )

O corpo de Icário foi descoberto por Erígone, sua filha, que teve sua atenção despertada pelos latidos do cão do infeliz camponês, de

nome Mera. A jovem, desesperada ao ver o pai morto, suicidou-se, enforcando-se numa árvore próxima.  Erígone, quando da visita de Dioniso ao pai, a ele se unira, tendo nascido dessa união o futuro herói Estáfilo, nome que em grego quer dizer “cacho de uva”. Em consideração a Dioniso, Zeus colocou Icário nos céus como a constelação do Pastor, Erígone como a constelação da Virgem e Mera como a constelação do Cão Menor.

 Uma versão menos aceita sobre a origem da constelação do Pastor nos diz que a deusa Demeter teria tido um filho, cujo nome não foi
DEMETER   E   DIONISO
registrado, quando ela e o deus Dioniso andaram pelo mundo a ensinar aos mortais as artes da fabricação do pão e do vinho. O jovem teria permanecido na Terra como pastor para continuar a obra de sua mãe. Generoso, a todos atendia, encontrando sempre meios de lhes ajudar na fabricação de utensílios e ferramentas para melhorar a produção agrícola. Teria ele, segundo essa história, construído um arado, para que pudessem os mortais produzir mais alimentos,  de melhor qualidade e em menos tempo. Por esse feito, a pedido de Demeter, Zeus teria colocado o jovem filho da deusa nos céus, razão pela qual a constelação do Pastor também é denominada às vezes pelo nome de a do Arador.


Desde então, em todas as tradições, para os camponeses, o arado passou a simbolizar a fertilização, sendo a sua relha, a peça que perfura, e a terra penetrada análogos, respectivamente, ao membro viril masculino e ao órgão reprodutor feminino. Assim, passar o arado sobre a terra é unir o masculino ao feminino ou, se quisermos, o céu à terra. Na Índia, por exemplo, o arado ou charrua é atributo de Balarama, um avatar (sétimo) do deus Vishnu, irmão mais velho de Krishna. Balarama tornou-se companheiro do deus Kama, deus do Amor. Balarama é muitas vezes chamado pelo nome de Langali.
BALARAMA
Este nome tem a ver com as palavras langali, charrua, e linga, lingam, órgão sexual masculino. Balarama tem como atributos a clava, a vasilha onde se bate o leite para fazer a manteiga e o arado com a sua relha. É Balarama conhecido. acima de tudo, como o grande condutor do arado. Alguns de seus apelidos: Ananta (imortal), Samvartaka (O que instaura os ciclos do tempo) e, por causa do arado, Hali (trabalhador infatigável). Sua esposa tem o nome de Revati (Prosperidade), o mesmo de uma constelação lunar (nakshatra), a 27ª,  (16º40´ a 30º00´ de Peixes). 



PTOLOMEU
Segundo Ptolomeu, as influências da constelação do Pastor têm características saturninas e mercurianas, enquanto as da estrela Arcturus são de natureza marciana e jupiteriana. Pelo destaque que tem Arcturus, de 1ª magnitude, alfa, a 23º32´ de Libra atualmente, a constelação é analisada principalmente através dela. Arcturus sugere atividades ou funções que digam respeito a ensino, orientação, liderança e proteção. Há também propostas de novos caminhos, instauração de novos modos de ver ou considerar a realidade. Arcturus atua na Terra em regiões situadas entre o polo norte e as equatoriais. 


CORONA   BOREALIS



CORONA BOREALIS ou  Coroa Boreal, segundo a cultura que a observou, comporta sentidos até muito diferentes. Para os gregos, esta Coroa foi a que Afrodite deu a Ariadne quando ela se uniu ao deus Dioniso na ilha de Naxos. No mito, como se sabe, Teseu recebeu de Ariadne, princesa cretense, inestimável auxílio para matar o monstro Minotauro, no Labirinto, nos subterrâneos do palácio real de Cnossos, capital da ilha de Creta. Sem este auxílio, o herói ateniense jamais o teria vencido. Ariadne deu a Teseu um fio que lhe permitiu, depois de vencido o monstro, sair do intrincado labirinto, voltando assim de novo à luz.



AFRODITE  ,  ARIADNE  E  DIONISO  ( TINTORETTO  -  XVI )


Apesar do coup de foudre que a vitimou, quando pôs os olhos no grande herói ateniense, que lhe provocou uma paixão fulminante, a
ARIADNE   E   TESEU
( RICHARD   NESTALL  -  1810 )
princesa cretense teve ânimo para lhe impor uma condição pela ajuda que lhe prestava: que Teseu, depois de vencido o monstro, a levasse  como esposa para Atenas. Iniciada a viagem de retorno à Grécia, Teseu sugeriu uma parada na ilha de Naxos, no meio do caminho, para descanso. Na manhã seguinte, Sol alto, Ariadne não sentiu mais Teseu a seu lado. Correu à praia e viu no horizonte distante as velas negras do barco do futuro rei de Atenas se afastando. 

Ariadne e Teseu são evidentemente expressões simbólicas: a primeira do mundo matriarcal e o segundo do patriarcado, ambos fixados nas suas prerrogativas, inconciliáveis. O fio que a princesa forneceu ao herói pode ser visto como um possível elemento de união entre esses modos de existência. Com ele, Teseu “desceu” ao seu mundo subconsciente, simbolizado pelo Labirinto. Contudo, a imposição de Ariadne caracterizava, na realidade, para o herói, uma ameaça de paralisação, uma renúncia à autonomia do seu eu. Se Ariadne era, de fato, por um lado, abrigo, segurança e proteção, de
ARIADNE   EM   NAXOS
( EVELYN  DE  MORGAN - 1877 )
outro era risco de opressão, de estreitamento, de castração, Ambos, Ariadne e Teseu “pecaram” contra o amor. É por isso que, no mito, Afrodite os perseguirá. Ariadne não soube dialogar com o patriarcado; porque inadaptada, morrerá nas mãos de Dioniso. Já Teseu terá na sua biografia, a manchá-la, o triste episódio do abandono da princesa cretense, os problemas que teve com a sua mulher Fedra, também princesa cretense, irmã da outra, e com o seu filho Hipólito. 

Conta o mito que o deus Dioniso, ao voltar de sua triunfal viagem à Ásia, aonde fora propagar o seu culto e levar a cultura da vinha, encontrou Ariadne desesperada, abandonada na ilha. Consta que, a pedido de Afrodite, tornou-a sua mulher, dando-lhe um diadema de brilhantes maravilhoso, e com ela teve três ou quatro filhos. Depois, os deuses, de comum acordo, resolveram sacrificá-la, do que Dioniso se encarregou. Dioniso, lembremos, é o deus das metamorfoses e, sobretudo, da destruição das formas que não sabem se renovar. Para leituras, audição e informações complementares que serão muito úteis para astrólogos anotemos que essa história inspirou obras como as de Corneille (Ariane), de Claudio Monteverdi (Arianna), de Haydn (Arianna à Naxos), Albert Roussel (Bacchus et Ariane), Richard Straus & Hugo von Hoffmannsthal (Ariane à Naxos). 

DIADEMA
Morrendo Ariadne, o diadema que Dioniso lhe ofereceu como presente de núpcias foi para os céus, assim nos contam os gregos. Ariadne é a imagem de um mundo, o do matriarcado, que morria mas que, apesar de tudo, deveria ser honrado. O símbolo desta homenagem foi o diadema. A esta altura, em nome de uma interpretação que julgo mais correta, cabe aqui uma distinção: a Astrologia passou por cima, desde tempos muito remotos, das diferenças entre a coroa e o diadema. O diadema, ressalte-se, não tem um caráter imperial como a coroa. Ele lembra, pela sua forma, a grinalda, a guirlanda, tendo mais a ver com joias e adornos que rainhas podiam usar quando não no exercício pleno da função real. Como tal, o diadema é joia, ornato, sempre em forma de meia coroa com que as mulheres cingem o toucado e/ou adornam a fronte.

O simbolismo da coroa se liga ao do círculo, à cabeça, representando nesse sentido a realização, a perfeição. A coroa é imagem de um poder legítimo, fazendo de quem a usa o representante de um mundo superior. Coroas são para poucos, muitos poucos, diademas já são para um maior número. No alto da cabeça, a coroa domina o corpo, isto é, a matéria, e, como tal, participa do céu em direção do qual ela se eleva, estabelecendo uma ponte entre o mundo humano e o mundo celeste, superior. A forma circular da coroa reforça ainda mais esta ideia de união, de integração. 

Os persas viram talvez melhor esta constelação, cuja fieira de estrelas não se fecha num círculo completo. Para eles a constelação de que tratamos tem a forma de um diadema e não de uma coroa, tanto que lhe deram o nome de A Placa Partida ou Interrompida ou, ainda,  A Tigela Quebrada, pois como dissemos, o círculo não se completa. 

Uma das leituras mais interessantes desta constelação é a que pode ser feita segundo imagens cristãs ligadas ao tema da mortificação
COROA  DE  ESPINHOS
de Cristo. Estas imagens nos remetem à figura de Cristo como rei dos judeus (a inscrição INRI, sigla da locução latina Iesus Nazarenus Rex Iudeorum será colocada no alto da cruz em que Jesus foi crucificado) e à coroa de espinhos. Alquimicamente, como sabemos, o rei é personagem muito frequente no tema da mortificatio alquímica, visto como o princípio racional diretivo da personalidade. Às vezes, o rei é substituído pela águia ou pelo leão em textos e nessas gravuras. Naquelas em que temos a mortificação do rei, vemos geralmente um grupo de homens que o agridem e até o matam. No caso da águia ou do leão, temos a amputação das patas deste último ou o corte das asas da primeira. Estas três figuras, o rei, o leão e a águia têm sempre relação, simbolicamente, com o comando do ego consciente e com o instinto do poder.

A mortificatio é uma das operações mais radicais da alquimia. Como seu nome indica é uma operação ligada à morte, isto é, à
SÃO   PAULO  ( REMBRANDT )
extirpação das paixões, lembrando abstinência, rigores, austeridades aplicadas ao corpo. A finalidade da mortificatio, como se sabe, é a de provocar um renascimento, de levar a uma outra forma de vida. É por isso que no ideário medieval cristão esta constelação, pela sua forma, foi associada à coroa de espinhos, símbolo da mortificação, coroa que Cristo ostentou no final do processo que trouxe a morte para o seu aspecto humano, tudo para que o seu aspecto divino pudesse aparecer, dentro de um quadro de referências de uma compreensão possível, inclusive e sobretudo astrológico. Uma frase de São Paulo nas  suas Epístolas aos Romanos sintetiza, acredito, o que aqui se expõe: Porque se viverdes segundo a carne, morrereis; mas se, pelo Espírito, mortificardes as obras da carne, vivereis.

Se deixarmos de lado as diferenças apontadas entre diadema e coroa, passando por cima delas,  admitindo o nome de coroa para a constelação, podemos considerá-la como um símbolo de ascensão a graus superiores de desenvolvimento espiritual, ou seja, a elevação do espírito pela vitória sobre as realidades corporais.

A constelação da Corona Borealis se estende de 2º a 17º de Escorpião. Segundo Ptolomeu, suas principais características têm relação com Vênus e Mercúrio. Tradicionalmente, nos é passado que as influências de Corona Borealis dizem respeito mais de perto a certos itens do mundo feminino como delicadeza, amor às flores, alguma tendência artística, beleza, mas também se referem a desilusões amorosas, decepções através de parceiros. A tudo isto devemos acrescentar talvez o que me pareça de maior importância quando nos aproximamos desta constelação e de sua principal estrela, Alpheca. Refiro-me ao simbolismo das mulheres coroadas, figuras femininas que de um modo ou de outro se elevaram (não por méritos pessoais) a posições de relevo, principalmente pela via matrimonial. É o caso, por exemplo, de mulheres de nível social inferior que se casam com figuras da realeza, da nobreza  ou com magnatas da indústria, com figuras sociais de muito relevo, em suma. A estrela desta constelação, Alpheca (em árabe “A mais brilhante da Tigela”), está hoje a 11º35´de Escorpião. Quando em conjunção com o Sol pode proporcionar posição elevada mas há perigo de escândalo. Com a Lua, honras mas também riscos de escândalo, só que estes de natureza  pública. 



CYGNUS


CYGNUS é uma constelação registrada da antiga Grécia ao
DIOSCUROS
extremo-oriente,  da Ásia Menor à Sibéria.                Embora a presença do

cisne não fosse muito comum no mundo mediterrâneo, esse pássaro tem na mitologia grega posição de destaque. Pássaro de um branco imaculado, cujo poder, brancura e graça fazem dele um símbolo da manifestação divina da luz, Zeus escolheu a sua forma para se unir tanto a Leto, tornando-a mãe dos luminares, Ártemis e Apolo, como a Leda, da qual nascerão os Dióscuros, Helena e Clitemnestra.

A constelação do Cisne tem relação com esta última história. Segundo a tradição, Leda teve quatro filhos, os Dioscuros, gêmeos,
Helena e Clitmnestra. O pai mortal dos quatro foi Tíndaro, rei de Esparta, com quem Leda estava casada. Segundo a tradição, porém, dois deles, Polideuces ou Pólux e Helena tinham uma parte divina, sendo considerados como filhos de Zeus. Para se unir a Leda, Zeus tomou a forma de um cisne, enquanto ela, numa última tentativa de escapar da sanha erótica do Senhor do Olimpo, tomou a forma de uma gansa.   


LEDA   E   O   CISNE  ( RUBENS )


O mito de Leda retoma a interpretação solar, diurna, masculina e fecundante do cisne. Gaston Bachelard vê o cisne como um símbolo do desejo,
GASTON   BACHELARD
inclusive sexual, que “morre cantando”. Esta ideia de desejo sexual e de fecundação está ligada inclusive à origem indo-europeia da palavra (radical) sven, que em sânscrito significa murmúrio, comunicação oral, ou, de outro modo, a palavra que fecunda. É deste radical que sai o nome do cisne em muitas línguas. No alemão, por exemplo, schwan, swan, em inglês, e em latim palavras como sonare (soar) e sonus (som). Tudo isto nos remete a uma ideia de união céu-terra. Os amores de Zeus-cisne e de Leda-gansa traduzem essa ideia de união, levada para a constelação 

BRAHMA
Na Índia, como montaria do deus Brahma, o cisne (hamsa) é um símbolo de elevação do mundo informal ao céu do conhecimento. No mundo celta, encontramos muitas representações da barca solar acompanha por dois cisnes quando de sua travessia pelo oceano celeste. Eles simbolizam os estados superiores espirituais do ser, trazendo sempre uma ideia de libertação para o seu retorno à unidade primordial. 

O cisne também aparece muito na Alquimia como um emblema do mercúrio. Em virtude de sua cor e mobilidade é ele que vai
RELEVO   MEDIEVAL
proporcionar a união dos opostos. Na Astrologia, lembremos, é um símbolo do planeta Mercúrio que nos leva de Áries (vermelho) a Escorpião (negro). Ao final deste signo, Escorpião,  Mercúrio vai transferir para o eu superior que deverá nascer no signo seguinte, Sagitário, tudo aquilo que obteve na sua trajetória. Imprescindível a aquisição mercuriana, pois sem ela não há como se pensar em
CIMIEZ
nascimento deste eu superior. Os alquimistas representam a “morte” do Mercúrio-cisne no laboratório, quando da sua união com o enxofre, para que a “droga da imortalidade” seja produzida, por um silvo, um ruído, a que denominam o “canto do cisne”. Voltado para a morte e para a decomposição, Mercúrio entrega ao “homem novo” a sua alma. Há, numa parede de um mosteiro da França (Cimiez), uma inscrição (Divina sibi canit et orbi) através da qual todas estas relações se condensam. 

É importante anotar que o cisne da mitologia e da astrologia é o cisne cantor, de pescoço liso e longo. Além disso, pelo seu elegante porte nos ares, ele aparece com o dom da profecia, tornando-se também, muitas vezes, um competidor ou um inimigo
ÉSQUILO
da águia e da serpente, podendo mesmo superá-las. O canto do cisne já aparece mencionado na antiga Grécia em textos de Ésquilo, sécs. VI-V aC. O canto do cisne sempre teve grande destaque na arte e na vida afetiva, tornando-se uma metáfora musical e literária, bem como na vida sexual. É neste sentido que Richard Wagner, em uma de suas
LONHENGRIN
obras máximas (Tristão e Isolda) usa a expressão. A saga medieval alemã de Lonhengrin, o Cavaleiro do Cisne, também utilizada por Wagner, incorpora o tema do cisne. No mundo cristão, o cisne cantor tona-se um emblema do Salvador agonizante e gemente na cruz. Julgo desnecessário aprofundar a forte conotação astrológica desta cena, tendo em vista o que acima já foi exposto.   

Não podemos deixar de registrar ainda um aspecto simbólico que o cisne apresenta, muito notável astrologicamente, a sua agressividade. Como sabemos, além dos mitos, matéria básica para a Astrologia,  uma das mais interessantes fontes para a interpretação astrológica está no estudo do comportamento dos animais que nela aparecem como símbolos. Resumidamente, quanto aos cisnes, a “psicologia” desse pássaro não faz dele uma figura tão tranquila
CISNE
, como nos é passado por muitas histórias. Na realidade, porém, não é bem assim. O cisne, no geral, é uma ave muito agressiva, determinada, principalmente se seu espaço é invadido. Não é por outra razão que nas tradições populares de muitos povos asiáticos, inclusive o grego, o cisne não é só aquela epifania luminosa. Ligados ao mundo divino masculino, os cisnes representam o céu de natureza patriarcal com os seus deuses da luz. 

Em várias passagens da mitologia grega, os cisnes aparecem associados a guerreiros, a figuras descontroladas, introduzindo eles também o tema da união do masculino e do feminino por conotações ligadas ao hermafroditismo (a imagem do cisne é, ao mesmo tempo, fálica, conforme seu pescoço sugere, e feminina, pelo arredondado de seu corpo). O modelo do aspecto belicoso do cisne nós o retiramos de alguns personagens da mitologia grega que têm o nome de Cicno (Kyknos, cisne, em grego). O primeiro deles é o de um filho do deus Poseidon (sempre pai de personagens descontrolados, gigantescos, brutais). Cicno é um herói troiano, que enfrentou Aquiles. De origem divina, era invulnerável. Quando lutava com o filho de Tétis, Poseidon interferiu, transformando-o em cisne. 

O segundo personagem é também filho do Senhor dos mares e reinava numa cidade vizinha de Troia. Exposto pela mãe, foi recolhido por um cisne que dele cuidou. Sempre esteve envolvido em lutas familiares que nos falam de estupros e assassinatos. O mais famoso “cisne” da mitologia grega, porém, é Cicno, filho do deus Ares e Pelopia, acima referido. Violento e sanguinário, matava peregrinos que se dirigiam ao Oráculo de Delfos, o que irritava sobremodo o deus Apolo. Este, desejando acabar com esses assassinatos, envolveu o herói Hércules no seu projeto. Vencido Cicno, o deus Ares foi tomar satisfações do filho de Alcmena no sentido de vingar o filho. Entram em luta; Palas Athena interferiu, desviando um dardo mortal que acabou ferindo o deus Ares na coxa, o que o levou a se retirar da luta. 



FAETONTE

O quarto Cicno é um amigo de Faetonte, dado a bravatas como este, malogrado herói, que vivia na península itálica. Tomado por imensa hybris quando se apossou do carro do pai, o deus Hélio, Faetonte, como sabemos, pôs em risco a ordem cósmica, ao se afastar da eclíptica. Foi fulminado por Zeus, caindo nas águas do rio Erídano, hoje uma constelação. Só choraram Faetonte as suas irmãs, as Helíades (hoje no céu como um grupo de estrelas) e Cicno. Este o chorou tanto que Apolo, com pena, o transformou em cisne (cygnus musicus), dando-lhe uma voz melodiosa. 


HELÍADES   E   FAETONTE

O último, Cicno, é um filho de Apolo, que nos remete ao aspecto masculino-feminino do cisne.  Belíssimo, atraía muitos amigos que queriam conquistá-lo, como amante passivo. Volúvel e cruel para com os seus pretendentes ou namorados, submetia-os a provas duríssimas. Um deles, Fílio, muito persistente, acabou sendo apoiado por Hércules e superou todos os obstáculos que o desalmado Cicno lhe propôs. Fílio, contudo, cansou-se de Cicno e publicamente desprezou o belíssimo jovem. Envergonhado, magoado, Cicno, em companhia da mãe, se lançou num lago, morrendo ambos. Apolo, muito pesaroso, transformou-os em cisnes.

Ainda com relação ao aspecto agressivo e belicoso do cisne, de natureza  ariana, lembre-se que na Índia as penas do cisne são
KRISHNA
símbolos usados por divindades no seu aspecto belicoso, guerreiro. Krishna, na sua função de matador de dragões, usa algumas vezes o cisne como símbolo. Além do mais, na Índia, aqueles que, embora vivos, se sentem além da fronteira da vida, tendo ultrapassado as limitações do mundo físico, usam o cisne (hamsa) como símbolo, como o brâmane peregrino, os renunciantes de toda a espécie, que não têm morada fixa, que migram em direção do Himalaia, seguindo as nuvens da chuva em direção do norte. Paramahamsa é o nome dos ascetas que vagam pelo mundo em liberdade e  sem morada. Sentem-se em casa tanto nas alturas do céu como nas águas dos lagos e dos rios.  Dentro dos Upanishads do Yoga, um dos mais importantes tem o título de Hamsa Upanishad ou O Pássaro Migrador.







Esta constelação, segundo Ptolomeu, se estende de 28º de Capricórnio a 28º de Peixes, incorporando não só o aspecto espiritual do cisne, com incursões a áreas artísticas, podendo aparecer também tendências a uma vida próxima de ambientes onde haja água (rios, lagos, beira-mar). Ptolomeu atribuiu a esta constelação características semelhantes às de Vênus e Mercúrio. A principal estrela desta constelação é Deneb Adige que está hoje a 4º38´de Peixes. Seu nome em árabe faz referência à sua posição: a que está na cauda. Esta estrela tem a ver com mente engenhosa, aprendizado fácil. A ela também se incorpora o poder do cisne, seu lado hostil,  traços arianos, que podem ser colocados a serviço de algo superior, alguma forma de transcendência, inclusive sob o ponto de vista espiritual. 












segunda-feira, 31 de outubro de 2011

TESEU, ARIADNE E DIONISO


Etimologicamente, Teseu quer dizer aquele que estabelece, que institui, o que legisla. Fazendo jus ao seu nome, Teseu, quando assumiu o poder na Ática depois da morte do pai, realizou o que os gregos chamavam de sinecismo, união de vários burgos para constituir uma cidade (Atenas). O mais célebre sinecismo de que se tem notícia na Grécia antiga foi o realizado por nosso herói. De diversas pequenas cidades da Ática, dominadas por poderosos genos, Teseu, conta o mito, fez uma só polis. Atenas tornou-se assim capital política de um estado cujos cidadãos eram todos atenienses, mesmo que tivessem nascido em outros lugares, como em Eleusis ou em Maratona.

 
Teseu, como rei de Atenas, segundo o mito, mandou construir o Pritaneu (edifício público, residência dos pritanes, delegados tribais, onde estes e mais pessoas ilustres da cidade se reuniam para as refeições) e o Senado (Boulé, conselho de Estado), promulgou leis e adotou o uso da moeda. Foi ele responsável também pela fixação no calendário religioso das Panateneias, as festas totais de Atenas, em honra de Palas Athena (fig.dir.), festas que representavam a unidade política da Ática. Devem-se ainda a Teseu a divisão da sociedade ateniense em classes e a definição dos fundamentos da sua democracia, conhecidos mais tarde como: isonomia (igualdade diante da lei), isotimia (igualdade de consideração, de condição), direito de opinião, e direito às honras conferidas pelo mérito pessoal e não pelo nascimento.



POSEIDON

A genealogia do nosso herói é complicada. A versão mais acatada nos revela que Egeu, rei de Atenas, em visita a Trezena, foi recebido pelo rei Piteu, famoso por sua sabedoria e virtudes. Embriagado pelo dono da casa, Egeu foi levado à cama de Etra, princesa real. Durante a noite, ela teve um sonho no qual Palas Athena lhe apareceu, sugerindo-lhe que fosse para uma determinada ilha. Lá chegando, ainda sonhando, o deus Poseidon a recebeu e com ela se relacionou sexualmente. Ficara Etra grávida de Teseu. Na manhã, seguinte ela se lembrava de tudo vagamente, acreditando Egeu, por seu lado, ter com ela mantido relações sexuais, o que o levou a se considerar como pai da criança que Etra teria.


MEDEIA E SEUS FILHOS

Uma outra versão nos conta que Egeu fora ao oráculo de Delfos para descobrir a razão de não ter filhos, depois de ter estado com várias mulheres. No caminho de volta para Atenas, passou por Corinto, onde vivia a feiticeira Medeia. A sobrinha de Circe se preparava para pôr em ação seu plano de matar o rei Creonte, sua filha Creusa e os seus próprios filhos, os que tivera com o herói Jasão, que a desprezara para casar com a mencionada princesa. Em troca de proteção e abrigo em Atenas, depois de cometidos os crimes que arquitetara, Medeia se comprometeu, com o emprego de sua arte, a fazer Egeu gerar um filho. Depois de tudo acertado com a maga é que Egeu, numa outra tentativa para ter o desejado filho, resolveu visitar seu amigo Piteu, em Trezena, conforme está no parágrafo acima. Não houve, assim, necessidade da arte de Medeia, o que não trouxe problemas para que Egeu a recebesse em seu palácio de Atenas e acabasse aceitando-a como amante. 

M menino, conforme combinado, por questões políticas (Egeu temia pela vida do filho), ficou sob os cuidados da mãe e do avô materno em Trezena. Antes de partir, Egeu enterrou sob um rochedo sua espada e um par de sandálias. Pediu que quando atingisse a adolescência o filho fosse procurá-lo em Atenas, levando a espada e as sandálias como sinal de reconhecimento. Teseu, já na infância, demonstrou uma precocidade espantosa: revelou-se um atleta excepcional, intelectualmente muito capaz, além de ser grande músico e instrumentista. Na adolescência, a mãe lhe revelou toda a história do seu nascimento. Jovem, fortíssimo, inteligente, belo, sentindo-se capaz de enfrentar os perigos da jornada, Teseu partiu em direção de Atenas à procura do pai, onde a feiticeira Medeia, como se disse, vivia como hóspede e amante de seu pai. 

A espada e as sandálias que Egeu deixara para Teseu haviam sido enterradas sob um grande rochedo. O jovem, sem grandes esforços, conseguiu levantar a enorme pedra e apossar-se do que o pai lhe deixara. Teseu estava pronto para iniciar o seu caminho e enfrentar as provas que todo herói deve necessariamente cumprir. 

Emblema da bravura e do poder guerreiro, a espada é não só sinônimo de destruição como de justiça e paz. É muito comum, nos vários ciclos, que a espada passe para a mão de heróis do modo como Teseu obteve a sua. Observe-se mais que em várias tradições as espadas dos heróis têm nomes. A espada maravilhosa de Roland, sobrinho de Carlos Magno, por exemplo, chama-se Durandal. Comum, entre os víquingues, as espadas dos chefes terem nomes como “A Chama de Odin” ou “O Fogo do Rei do Mar”. Na mitologia germânica, Siegmund, lembremos, obterá da mesma forma que Teseu a espada que seu pai, o deus Wotan, deixou para ele. 

No seu caminho para Atenas, Teseu se envolveu em inúmeras aventuras, lutas contra monstros, facínoras e salteadores que punham em perigo as cidades situadas no seu caminho e infestavam as estradas. No istmo de Corinto, por exemplo, enfrentou o gigantesco Sinis, O Devastador, filho de Poseidon, que matava as pessoas que por lá passavam de um modo peculiar. Ele as catapultava com árvores que vergava, lançando-as a grande distância, estraçalhando-as. Teseu venceu Sinis do mesmo modo, sendo apelidado, por isso, desde então de “O Arqueador de Pinheiros”. 

Para celebrar essa vitória, Teseu instaurou os chamados Jogos Istmicos (fig. esq.). Chamados agones (agon, luta, concurso), estes jogos ocuparam desde sempre na vida pública dos gregos uma importância muito grande. No geral, revestiam-se de um caráter fúnebre ou religioso. Há exceções, contudo, como os jogos realizados pelos feácios, quando da estada de Ulisses entre eles, segundo nos conta a Odisseia. Os Jogos Istmicos, de caráter fúnebre, foram organizados por Teseu em honra a Poseidon e a Sinis, que matara, afinal seu irmão por parte de pai...

Um dos encontros mais conhecidos de Teseu foi com a monstruosa e antropófaga Porca de Cromion, de nome Feia, filha dos dois maiores monstros da mitologia grega, Tifon e Équidna, sendo ela, portanto, irmã da Hidra de Lerna, de Cérbero, de Ortro, de Fix (Esfinge), do Leão de Nemeia e de outros mais.

Como animal, a porca simboliza aqui na história de Teseu as forças incontidas da procriação, princípio maternal descontrolado, o feminino concentrado exclusivamente na sua função procriadora, forças das quais Teseu acabara se tornando um grande inimigo. Lembre-se que a porca é um animal de Deméter (fig. esq.) enquanto esta deusa nos remete a ideias de princípios femininos, de vida antipolítica, de abundância, de maternidade feliz. Na tradição grega, o sangue deste animal tinha função purificadora ao ser usado para limpar manchas morais. Foi o caso de Orestes, por exemplo, que Apolo aspergiu com o sangue de uma porca, quando o filho de Agamemnon o procurou para expiar a morte de sua mãe, Clitemnestra.






A PURIFICAÇÃO DE ORESTES

Uma das façanhas mais conhecidas do jovem Teseu, façanhas que no seu todo lembram muito de perto os trabalhos de Hércules, foi o fim que deu a um famoso bandido que aterrorizava os viajantes nas estradas. Esse bandido se chamava Damastes ou Polipemon (o que faz sofrer). Seu apelido era Procusto (o que estica ou reduz). Ele deitava a suas vítimas num leito de ferro; se a vítima fosse maior ele cortava o que ficasse para fora do leito; se a vítima fosse menor, ele a distendia com grande violência para que ficasse do tamanho do leito, chegando a arrancar-lhe as pernas. Vem dessa história a expressão “leito de Procusto”, figuradamente, interpretação artificiosa que visa encaixar à força uma ideia, um princípio, uma afirmação num determinado sistema, doutrina ou corrente de opinião.


A MORTE DE PROCUSTO

Precedido de enorme fama, ainda muito jovem, mas herói aclamado, e sem reavaliar o seu nome, o filho de Egeu chegou a Atenas, purificando-se antes nas águas do rio Cefiso. Vestido luxuosamente, de túnica branca imaculada, cabelos compridos, quase femininos, o jovem foi ridicularizado por alguns populares antes de entrar na cidade. Matou-os todos, lançando um carro de bois sobre eles. 

Pressentindo que teria problemas com o jovem herói, Medeia instigou Egeu a mandar matar o “perigoso estrangeiro”. No banquete de recepção a ele oferecido, Medeia preparou uma cratera de vinho com veneno mortal para o jovem. Antes de levar a bebida aos lábios, Teseu, que logo percebera a nefasta presença da maga junto ao pai, puxou da espada, dando-se a conhecer. Diante dos convivas, o pai o abraçou e o proclamou seu sucessor. Repudiada publicamente, Medeia retirou-se para a Cólquida, sua terra de origem.


TESEU ATACA O TOURO DE MARATONA

A essa altura, as relações entre Atenas e Creta estavam muito deterioradas. Androgeu, filho dos reis de Creta, Minos e Pasífae, havia morrido na Grécia. Sua morte fora atribuída a Egeu, que o mandara lutar contra um pavoroso animal, conhecido como o touro de Maratona, que tudo devastava. A morte do jovem príncipe cretense, como tudo indicava (uma emboscada), fora tramada por Egeu, desconfiado de suas ligações com os palântidas, seus sobrinhos, que queriam se apoderar do trono de Atenas e que contestariam naturalmente o direito de sucessão de Teseu.

Os cretenses enviaram à Grécia um grande contingente militar. Atenas e Creta entraram em guerra. Atenas foi cercada, mas um acordo foi firmado. Os cretenses se retirariam de Atenas desde que anualmente fossem enviados a Cnossos, capital de Creta, jovens gregos que serviriam de alimento ao monstro Minotauro (esq. desenho de Picasso), que se alimentava de carne humana, escondido nos imensos corredores subterrâneos do Labirinto, palácio da cidade.
 
Tomando conhecimento da situação, Teseu se prontificou a ir a Creta no lugar dos jovens. Antes da viagem, Egeu lhe forneceu dois pares de velas para o barco que o levaria, um branco e outro negro. Se voltasse vitorioso, içaria as velas brancas. Recebido no palácio, Minos concordou com a proposta de Teseu: matar o Minotauro para liberar Atenas da pena imposta.

Teseu, durante a entrevista que manteve com Minos, foi visto pela princesa Ariadne (fig.dir.). Imediatamente, ela ficou tomada de incontida paixão por ele. Conforme combinado com Minos, Teseu pernoitaria no palácio e na manhã seguinte desceria aos seus subterrâneos para lutar contra o monstro antropófago. Durante a noite, a princesa se dirigiu aos aposentos de Teseu e lhe declarou a sua paixão.





O FIO DE ARIADNE (ESCHER)


Bem recebida, ela, aconselhada por Dédalo, o inventor mítico que vivia exilado na ilha, lhe entregou um novelo, que ele deveria utilizar para entrar e sair do Labirinto (ruínas esq.), lugar de onde ninguém voltava sem esse auxílio. Uma condição, porém, estabeleceu Ariadne: morto o monstro, Teseu a levaria para Atenas e a desposaria.




Tudo aconteceu como o previsto. Teseu venceu o Minotauro e, com Ariadne, que nada revelou aos pais do seu plano, iniciou o caminho de volta para Atenas. O barco fez uma escala na ilha de Naxos, para que ambos pudessem descansar. Na manhã seguinte, ao acordar, Ariadne se viu só. Correu à praia; ao longe pode ainda avistar o barco de Teseu, que sumia no horizonte. Um detalhe importante: Teseu se esquecera de colocar as velas brancas no barco. Egeu, com os olhos pregados no mar, viu que as velas do barco que se aproximava não eram brancas. 


Desesperado, acreditando ter perdido o filho, atirou-se dos altos penhascos do cabo Sounion, (fig.dir.) suicidando-se. Por isso, o mar dessa região, desde então, passou a ser chamado de Egeu.

Teseu logo assumiu o poder em Atenas, promovendo inúmeras mudanças políticas e sociais. Foi na condição de rei que Teseu recebeu o cego e alquebrado Édipo, acompanhado de sua filha Antígona, levando-o até Colono, bairro de Atenas, onde o malagrado herói foi acolhido por Géia, que abriu as suas entranhas para recebê-lo, longe da vista de todos.

Quanto a Ariadne, seu nome admite várias etimologias, todas relacionadas com a luz, com a claridade, provenientes talvez do nome de seu avô, o deus Hélio, o Sol, pai da rainha Pasífae. Abandonada por Teseu em Naxos, Ariadne foi ali encontrada pelo deus Dioniso, que retornava de uma triunfal viagem que fizera ao oriente aonde fora propagar os seus ritos orgiásticos e disseminar a cultura da vinha. O abandono da princesa cretense, segundo uma versão, nos diz que Teseu ao fazê-lo cumprira uma ordem da deusa Palas Athena, que lhe apareceu em sonho ou como uma visão, quando ele e a princesa cretense pernoitaram em Naxos.


Ariadne é evidentemente uma das últimas grandes figuras do mundo matriarcal. A versão acima mencionada parece-nos bastante aceitável se levarmos em conta que Palas Athena é uma deusa perfeitamente alinhada com patriarcado, uma deusa combatente, virgem, encouraçada, que nunca se separou da sua égide, de sua lança de ouro nem do seu elmo. Protetora do Estado, deusa das acrópoles, é uma divindade “política”, que tem aversão ao feminino, nada tendo em comum com as divindades que o representam, Afrodite (fig.dir.) à frente de todas. Não foi por outra razão que as Panatenéias, as festas totais de Atenas, foram instituídas por Teseu.




TESEU MATANDO AS AMAZONAS

Embora Teseu sempre tenha sido considerado pelos antigos atenienses como um personagem histórico, suas histórias ocupam grande parte dos mitos referentes à Ática, região onde se situa Atenas. Aparece nosso herói tanto no mito como na história como um dos mais ferrenhos representantes do mundo patriarcal, de modo especial daqueles ligados à “polis”, de um mundo que estava substituindo aquele representado por Ariadne. Esta sempre apareceu como figura ligada à vegetação, sendo inclusive nas ilhas do Egeu considerada como uma antiga divindade das florestas. Dois mundos, já àquela altura, inconciliáveis.

A triste história da princesa cretense pode sugerir outras leituras. Podemos admitir, por exemplo, numa leitura psicológica, que Ariadne, símbolo do princípio feminino, tenha tentado fazer uma ligação entre os dois mundos que ambos representavam ao dar ao herói, símbolo do princípio masculino, o seu famoso fio, de modo que ele pudesse melhor aceitar e integrar as tendências femininas do seu psiquismo. Historicamente, Teseu foi, ao que parece, um representante no continente do mundo jônico, um povo de comerciantes, adoradores de Poseidon, fixados também na Eubéia, ilha paralela ao litoral da Ática e da Beócia.
 
O simbolismo do fio nos remete a ideias como as de união de dois estados de existência; assim, proporcionaria ela a Teseu um “segundo” nascimento, não só a integração do seu masculino e do seu feminino mas uma possibilidade de que ele pudesse sair do seu “mundo subterrâneo”. Só que Ariadne, ao lhe oferecer um renascimento, fez imposições, inaceitáveis a um representante da nova ordem patriarcal que já se impunha. Teseu foi sempre, desde a juventude, um dos mais obstinados representantes dessa nova ordem, que rejeitará totalmente o feminino.

Ariadne vinha de um mundo que perdia rapidamente o seu status, o mundo natural, as florestas; descreve a história, seu encontro com Teseu, miticamente, o conflito natureza-polis, já nos seus primeiros esboços àquele tempo. Ariadne era uma antiga divindade de um mundo que ia desaparecer, mas que teria direito, na sua agonia final, a uma apoteose digna e patética.


ARIADNE, AFRODITE E DIONISO

Quem vai se encarregar de conduzir ao seu final essa triste história é Dioniso, o deus das metamorfoses, da destruição das formas que não sabem se renovar, grande divindade do vinho. Na ilha de Naxos, como recorda Plutarco, celebravam-se há muito festas que tinham um duplo caráter, em honra a Ariadne e ao deus, com muitos cantos primaveris e ditirâmbicos. Estas festas proclamavam Ariadne como uma deusa da vegetação que tem que morrer para que se abra espaço para a cultura da vinha.

Naxos, o cenário da morte de Ariadne, é a maior das ilhas Cíclades. Consta que Dioniso ali fora educado pelas ninfas da ilha. Conquistado pela beleza de Ariadne, a ela se uniu, nascendo dessa união quatro filhos, Toas, Estáfilo, Enópion e Pepareto, que se ligarão à produção de vinho nas ilhas do Egeu. Segundo uma tradição ateniense, haveria um quinto filho, pouco mencionado, de nome Keramicos, que seria o herói epônimo de um bairro de Atenas, onde trabalhavam os ceramistas que fabricavam recipientes para transporte do vinho do deus. Lembremos que junto desse bairro havia um cemitério, de mesmo nome, por onde anualmente, sob a tutela de Dioniso, saíam as procissões em direção do santuário de Eleusis, para a realização da segunda parte dos Mistérios instituídos pela deusa Deméter.

As três fases da vida de Ariadne nos permitem considerá-la como uma figura trágica, de fundo matriarcal, que tentou desesperadamente sobreviver na nova ordem: sua vida começou quando ela se apaixonou por Teseu, tornou-se sua amante e por ele é abandonada. Se de um lado ela lhe ofereceu segurança, abrigo, ternura, calor maternal e sobretudo salvação sob o ponto de vista físico, de outro sempre havia o risco de estreiteza, do abafamento, da opressão, certamente insuportáveis para um tipo como Teseu. Ele simplesmente a usou e se descartou dela.

Num sentido histórico, tão ou mais importante que o psicológico (a possibilidade de Teseu entender-se melhor com a sua “anima”), as relações entre o rei de Atenas e a princesa cretense representam indiscutivelmente o último ato da liquidação do matriarcado, com a grandiosa cena final comandada pelo deus Dioniso. Honrando Ariadne, como última representante de um mundo que terminava, Dioniso a faz sua mulher, tornando-a mãe de cinco filhos, todos, mais tarde, engajados na sua causa, a de proporcionar ao homem, através do vinho, a possibilidade de ultrapassar a sua condição humana em direção de uma espiritualização progressiva. Participando dos festejos matrimoniais, a deusa Afrodite ofereceu a Ariadne um maravilhoso diadema de brilhantes confeccionado pelo deus Hefesto.

As núpcias entre Dioniso e Ariadne simbolizam o ingresso da cultura da vinha nas ilhas do mar Egeu, uma união de duas divindades em que uma delas, Ariadne, terá que desaparecer (destruição das florestas para a plantação das vinhas). É por esta razão que Dioniso a matará, mas honrando-a mais uma vez, transformando em constelação o diadema que a deusa Afrodite lhe dera quando da realização das suas núpcias com ele. Assim colocado nos céus, o diadema passou a ser chamado de Corona Borealis, ou Ariadnaea Corona. Astrólogos do cristianismo medieval tentaram dar o nome de Coroa de Espinhos a esta constelação.

Situada nos céus entre as constelações de Hércules e a do Boieiro, Corona Borealis vai dos 2º aos 17º do signo de Escorpião, tendo suas estrelas a natureza de Vênus e de Mercúrio, no entender de Ptolomeu. A principal estrela desta constelação é Alpheca, a 11º 35´de Escorpião, indicando o seu simbolismo a possibilidade de acesso a planos mais elevados socialmente, mas sem a contribuição dos próprios esforços. Lembre-se, sob o ponto de vista astrológico, que mulheres como Grace Kelly e a princesa Diana, tinham Alpheca (do árabe, Al Nair al Fakkah) em posição de evidência em suas cartas astrais.

Na mão dos artistas, a triste história de Ariadne se banalizou, ficando reduzida apenas ao tema da mulher sedotta e abbandonatta. Desde o Renascimento, a história veio sendo usada nesse sentido. Quando Francisco de Gonzaga e Margarida de Savóia se casaram, Claudio Monteverdi apresentou a ópera Arianna, que se desviou do mito ao celebrar o triunfo do amor entre Dioniso (Baco) e Ariadne. Haendel compôs a sua Arianna in Creta, em 1734. A seguir, tivemos Massenet com Ariane e, já em 1912, uma das mais famosas obras sobre a princesa, a de Richard Strauss, com libreto de Hugo von Hoffmannsthal, Ariane à Naxos.



ARIADNE

Ao longo dos séculos, a história da princesa cretense foi tratada de modo diverso; todos os que dela se aproximaram, porém, insistiram, mais ou menos, como se disse, no tema apontado, o da mulher seduzida e abandonada. Para alguns (Boccaccio), Teseu a teria abandonado porque estaria interessado em Fedra, outra filha de Minos, e, além disso, porque Ariadne em Naxos teria se embriagado e caído num sono profundo. Outros a viram como uma apaixonada invasora e inoportuna. A história da princesa também foi parar na literatura, na poesia (Corneille, Victor Hugo, Nikos Kazantazakis, Marguerite Yourcenar etc.), nas artes plásticas (Guido, Tiepolo e outros), na escultura (J.Dennecker) e até em tapeçarias famosas, sem que nunca se tivesse alcançado toda a dimensão que lhe deu o mito, a de uma grande e trágica figura do mundo matriarcal que não conseguiu ou não quis se adaptar aos brutti tempi que viriam.