Mostrando postagens com marcador TALMUD. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TALMUD. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de novembro de 2019

DOS PECADOS - I

  
OS  SETE  PECADOS ( HIERONYMUS  BOSCH , 1450 - 1516 )

Os dicionários definem o pecado como a violação de um preceito religioso. É sempre uma desobediência a qualquer norma de conduta estabelecida pelas religiões. Pecado, na antiga Roma, de peccare, latim, era simplesmente cometer uma falta qualquer. Quando o cristianismo se tornou religião oficial do império, a palavra passou a ser usada no sentido religioso também. Peccare, na origem, significava tropeçar. Peccus era a palavra latina que se usava para designar o que andava mal, o manco, o perneta. 

Os preceitos religiosos mais simples que os adeptos das religiões deviam observar foram reunidos sob o nome de mandamentos. Eles deram base ao que se chamou de moral, regras de vida e de convivência, desta ou daquela religião. Estas regras são, sobretudo, de foro íntimo, isto é, ligam-se antes mais ao âmbito da individualidade de cada um, segundo a própria consciência, e depois à vida em comum.
Muitos dos mandamentos estabelecidos pelas religiões podem ser desrespeitados sem que nada aconteça ao pecador. Por exemplo, o pecado da gula. Já outros mandamentos, ao fazer parte da estrutura jurídica das várias sociedades, tipificam contravenções, delitos ou crimes. Neste caso, é o Estado a fonte material de um direito a que se deu o nome de penal, uma vez que é o legislador quem cria as normas penais, dadas ao conhecimento de todos por meio de leis.  A fonte do Direito Penal é, pois, a lei e subsidiariamente, dentre outros elementos, os costumes, a analogia, a equidade, os tratados e convenções internacionais estabelecidos. 


INVEJA  ( EDVARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Cabe ao Estado, assim, fixar as normas penais a cuja observância os indivíduos podem ser compelidos mediante coerção (jus puniendi). A estas normas todos estão vinculados. O mesmo não acontece com relação aos mandamentos religiosos, como se disse acima. Posso ser, por exemplo, uma pessoa invejosa e nem por isso serei punido pelo Estado. O pecado da Inveja, como se sabe, está tipificado como pecado mortal pela Igreja Católica.


Chama-se no Direito Canônico, na Igreja Católica (etimologicamente, do grego katholikós, de kata, para baixo, e holos, para todos, isto é, para baixo e para todos, universal), o conjunto de leis e regulamentos feitos ou adotados por ela para o governo da organização cristã católica e de seus membros. Cada religião cristã, além da católica, como a anglicana, a ortodoxa, a presbiteriana e a luterana, tem hoje o seu Direito Canônico (canon, em grego, é lei, princípio,  medida).

O catolicismo adotou, como mandamentos, o Decálogo (do grego, dez ditos, dez palavras), nome dado a um conjunto de normas que, segundo a Bíblia (Antigo Testamento), teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas (Tábuas da Lei) de pedra e entregues ao profeta Moisés no alto do Monte Sinai. Nessas placas recebidas por Moisés estavam sintetizadas as normas que deveriam orientar a vida dos crentes. Os dez mandamentos aparecem mencionados em dois livros do Antigo Testamento, no Êxodo e no Deuteronômio. 


MOISÉS  RECEBENDO  AS  TÁBUAS  DA  LEI
( 1868 , JOÃO ZEFERINO  DA  COSTA )


Moisés é nome que vem do hebraico, Moxeh ou Mosheh, este por sua vez originário do egípcio, mes, mesu, que tanto significa filho como servo. O nome do nosso profeta, ao que parece, faz parte do nome Ramsés, servo de Ra, nome de vários faraós da 19ª e da 20ª dinastias, chamados ramessessidas. Alguns estudiosos hebraicos fazem o nome Moisés derivar do verbo retirar (msh). No geral, historicamente Moisés é situado no séc. XIII aC., como membro da tribo de Levi. Abandonado ao nascer, nas águas de um rio, foi acolhido pela filha do faraó, que o educou como um filho. Adulto, Moisés matou um egípcio que maltratava um judeu (tomara conhecimento da sua origem hebraica por volta dos 40 anos) indo, por isso, se refugiar no país de Madian, a leste do Sinai, lá se casando com a filha de um sacerdote de nome Jethro. 

ABRAÃO , À DIREITA
CATEDRAL DE CHARTRES
Os mandamentos acima mencionados representam as cláusulas da aliança concluída entre Deus e Israel e neles estavam fixadas as bases religiosas que iriam orientar a vida política e social do povo israelita. A aliança (berit, em hebraico) faz referência ao acordo estabelecido entre o primeiro patriarca Abraão, que vivia em Ur (cidade da Suméria, na antiguidade situada na embocadura do rio Eufrates) e Deus, Yahvé, nele estando incluídos itens como a circuncisão dele e de seus descendentes homens e a doação de terras a Israel (Canaã, a Terra Prometida). Etimologicamente, Abraão, do hebraico Abhraham, quer dizer o pai é exaltado. No Gênesis, ele será chamado de o pai de todas as nações. O pacto foi estabelecido em Harran (cidade da Mesopotâmia) entre Yahvé, sob o nome de El Shaddai, e Abraão.

CIRCUNCISÃO  DE  JESUS ( FRIEDRICH  HERLIN , C. 1460)

Judeus que não fizessem a circuncisão estariam excluídos do pacto celebrado. Deste pacto fazia parte também a promessa de uma numerosa descendência, que viria através de Ismael (origem dos povos do deserto, os beduínos), filho dele, Abraão, e da serva Agar (concubina); de Isaac, filho dele e de sua esposa Sarah. Com a morte dela, Abraão uniu-se a outra concubina, Quetura, e com ela teve mais seis filhos. A aliança foi renovada por Moisés no Monte Sinai, nela se incluindo os dez mandamentos entregues por Deus, dando-se o nome de Torá (etimologicamente, ensinamento) à primeira expressão dessa aliança. 

MOISÉS  NO MONTE  SINAI (NICOLAS  DE  VERDUN, 1130 - 1205)


CATECISMO
Os dez mandamentos entregues a Moisés são os seguintes: 1) Não terás outros deuses diante de mim; 2) Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu; 3) Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; 4) Que do dia do shabat se faça um memorial, tomando-o como sagrado;5) Honra teu pai e tua mãe; 6) Não matarás; 7) Não cometerás adultério; 8) Não furtarás; 9) Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo; 10) Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem tudo que a ele pertencer. Jesus, como está em Mateus (22:37-40), no Novo Testamento, resumiu o que está acima em dois grandes mandamentos: 1) Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. 2) Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.


Os mandamentos que Moisés recebeu, considerados mais de perto, não estabelecem, a rigor, as bases para a fundação de uma religião, pois constituem muito mais um conjunto de leis e de regras do que propriamente uma religião revelada. Leis e regras morais com um caráter imperativo que conscientizadas ditam um comportamento que impossibilita aquele que delas toma conhecimento de praticar certos atos, roubar, matar, mentir, cobiçar o que é dos outros e assim por diante. Além do mais, os mandamentos têm um sentido prático, de alcance social, na medida em que impõem obrigações relacionadas com a vida coletiva. 

ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( 1966 , MARC  CHAGALL )
Moisés, ao descer do monte Sinai, encontrou seu povo adorando um bezerro de ouro, eguel ha-zahav, em hebraico. Ficou muito enfurecido, quebrando as duas tábuas que recebera de Deus. Aarão, irmão de Moisés e de Miriam, foi o responsável pela construção do bezerro com o ouro obtido dos seus irmãos judeus, procedimento que, em última instância, significou a substituição da vida espiritual pela vida material.

Os dez mandamentos judaicos no mundo cristão passaram a ter a seguinte redação, conforme Compêndio do Catecismo da Igreja Católica: 1) Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas; 2) Não usar seu santo nome em vã; 3) Santificar os domingos e festas de guarda; 4) Honrar pai e mãe e os outros legítimos superiores; 5) Não matar, nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo; 6) Guardar castidade nas palavras e nas obras. 7) Não furtar nem justamente reter ou danificar bens do próximo; 8) Não levantar falsos testemunhos nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo; 9) Guardar castidade nos pensamentos e desejos; 10) Não cobiçar as coisas alheias. Segundo o cristianismo, quem ouve os dez mandamentos e os coloca em prática tem vida eterna. Os mandamentos enunciam os deveres fundamentais do católico para com Deus, para com seu próximo e para com a Igreja.

TALMUD
(C.1960, MARC CHAGALL
)
Os judeus designam o pecado pela palavra chet, que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo a Deus, é admitido. Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus, entretanto, permitiu que, tendo optado pelo Mal, o homem, desde que arrependido, pudesse voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.

SANTO  AGOSTINHO ( 1645 , PHILIPPE  DE  CHAMPAIGNE )

No catolicismo, Santo Agostinho vai pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja sempre insistiram num ponto: qualquer pecado é um abuso de liberdade. São Paulo já havia discorrido sobre a universalidade do pecado e da imensa miséria que oprimia o homem.

As religiões fundadas a partir da Bíblia deixaram de lado, porém, até hoje uma questão fundamental, a do livre-arbítrio, ou melhor, o problema de como se evitar que interferências desconhecidas influenciem nossas decisões. Tanto as religiões como a ciência não conseguiram até hoje resolver esse problema. O estudo da Verdade proclamada pelas religiões ou pela filosofia (ética, moral)  não têm sido capaz de fazer com que os homens consigam pôr em prática os seus preceitos. Desde a antiguidade, o conhecimento das religiões sempre se manteve apenas teórico, condenado a se mostrar impotente diante das referidas influências. Basta ver, por exemplo, como continuamos roubando e matando cada vez mais, inclusive em nome das religiões.

Renovando-se constantemente, tais influências nos mantêm numa espantosa maioria em experiências de vida totalmente condicionadas. Nenhuma intervenção religiosa tem se mostrado válida para eliminar a ignorância, isto é, os tremendos fatores de servidão que nos aprisionam, que nos impedem de melhorar a nossa capacidade de discernir realmente o que mais interessa ao homem individual ou coletivamente, tendo-se em vista o reino dos Céus. Quaisquer que sejam os nomes que possamos dar a esses fatores, dinheiro, poder, egoísmo, ignorância, ódio, prazer, vingança, sucesso, eles, como se diz popularmente, desde que o mundo é mundo, vêm nos aprisionando cada vez mais.   

ANJO  SORRIDENTE
CATEDRAL DE REIMS
O que as religiões nos ofereceram, como meio mais eficaz, para nos ajudar quanto ao que está acima, a vencer as forças da servidão do Mal que nos subjugam, foi a intervenção dos anjos. Em todas as tradições religiosas não só oriundas do Antigo e do Novo Testamento encontramos a ideia, a crença, melhor dizendo, de que seres espirituais superiores atuariam como intermediários entre o divino e o humano. A palavra anjo veio para a língua portuguesa através do grego (angelos) e do latim (angelus), com o sentido de mensageiro, intermediário ou daquele que anuncia. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo é um ser puramente espiritual, servidor de Deus, e seu mensageiro com relação aos humanos.  

Recebem também essas entidades genericamente o nome de anjos da guarda, já que uma de suas principais funções é a de tomar conta das almas (vida interior) dos seres humanos, de velar continuamente por eles, defendendo-os e guardando-os. Neste sentido, são um símbolo da própria consciência humana. Muitos os conhecem pelo nome de anjos custódios, palavra que tem o mesmo sentido. Custodiar é proteger, defender, guardar. Segundo o catolicismo, os anjos foram criados num estado de graça e de felicidade, com a liberdade de escolher entre o bem e o mal.
Os  anjos, como potências  invisíveis,  têm  correspondência com valores humanos, representando desde a mais alta espiritualidade, a vida mística, até o seu nível mais baixo, o dos seres que se entregam totalmente aos estados mais abjetos da sua vida instintiva. No primeiro caso, a iconografia, em função da sua elevação e imaterialidade, os representa com asas e sempre vestidos de branco. Já sob o ponto de vista da Psicologia, representam os anjos as energias positivas ou negativas do inconsciente. Alguns anjos, como se sabe, pecaram por orgulho e foram condenados eternamente, como demônios, ao mundo infernal, instigando o homem a optar sempre pelo caminho do mal. Jung considera que os demônios representam as funções inferiores que atuam na escuridão do subconsciente humano. Historicamente, lembremos que os anjos, ao mais recuadamente que possamos chegar, são entidade encontradas em antigas crenças astrais assiro-babilônicas que, espalhando-se pelo mundo semítico, foram utilizadas depois pelo monoteísmo dos hebreus com o nome de malachim, classificados em diversas hierarquias. 

ADÃO  E  EVA  NO  JARDIM  DO  ÉDEN
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

O catolicismo classifica os pecados de três maneiras: 1) Pecado original ou adâmico: dele participam todos os seres humanos devido à sua origem. Adão e Eva, ao comer dos frutos de uma árvore que Deus lhes mostrara, proibindo-os de deles provar, foram expulsos do paraíso. Esta expulsão definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte. Pelo sacramento do batismo, estabelecido mais tarde, este pecado pode ser perdoado.


SATÃ
(GUSTAVE  DORÉ,1832-1883)
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem e o que é do Mal, isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. Livre arbítrio, como se sabe, é a possibilidade que tem o ser humano, em função de sua vontade, de decidir sobre alguma coisa, sem a interferência de qualquer condicionamento, motivo ou causa. 

Renovando-se constantemente, tais influências nos mantêm (segundo as religiões fundadas a partir da Bíblia), numa espantosa maioria, inclusive os que se dizem religiosos, em experiências de vida totalmente condicionadas. Nenhuma intervenção religiosa tem se mostrado válida para eliminar a ignorância, isto é, os tremendos fatores de servidão que nos aprisionam, para melhorar a nossa capacidade de discernir realmente o que mais interessa ao homem individual ou coletivamente. 


SITRA  ACHRA
O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, O Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda, e governadas por Samael e Lilith. Samael é o príncipe dos demônios, chefe dos anjos que foram expulsos do céu. Lilith foi a primeira mulher de Adão, criada juntamente com ele por Deus, em condições de igualdade. Ao perceber que Adão, com a concordância de Deus, não a consideraria como uma igual, Lilith fugiu para o mar Vermelho, unindo-se em seguida a Samael, tornando-se a principal figura feminina do Mal.

Os judeus dão também o nome de Agrat Bat Mahalata, a uma rainha dos demônios, neta do Ismael bíblico, que anda pelo mundo a espalhar o Mal. Concubina de Samael, teve seus poderes controlados pelo sábio Chanina Ben Dosa, que lhe permitiu apenas atuar nas noites de terça e de sexta-feira, recomendando-se que nenhum judeu saia sozinho nessas noites. Chanina Bem Dosa, natural da Galileia, foi um famoso operador de milagres, asceta, que viveu no primeiro século da era cristã. 

ADÃO  E  EVA
PETER PAUL RUBENS,1577-1640
Para dar a Adão uma parceira, Deus a ligou às costelas dele, ao seu flanco, formando uma espécie de ser andrógino, separando-a depois. Esse feminino recebeu o nome de Eva, promovendo o próprio Deus o casamento de ambos, uma cerimônia na qual tomaram parte muitos anjos, tudo com muita música e dança. Adão é nome que lembra barro, húmus, limo, lama vermelha. Para outros, o nome, ao que parece, vem de adamah, do hebraico, terra arável. Outros ainda relacionam o nome Adão ao assírio adamu, verbo que significa fazer, produzir.

Eva, segundo o Gênesis, é nome que vem de Hawwah, mãe de todos os seres que vivem, nome dado à segunda mulher de Adão depois da expulsão do paraíso. Antes de deixar o paraíso, ela se chamava Aicha (vivente) ou Icha (esposa), palavra que se aproxima de iccha, desejo, em sânscrito. O nome Eva também lembra awwah, desejo, em hebraico. Eva poderia ainda vir de Heba, esposa do deus hitita das tempestades.

O mundo judaico-cristão, profundamente misógino, ao invés de considerar Eva como uma iniciadora, pois Adão, isto é, o homem, sem ela, jamais teria adquirido uma consciência, sempre preferiu vê-la como responsável pela perdição da humanidade. A destacar ainda, quanto à grafia do nome Eva ou Ava, em várias línguas, que dele faz parte a letra V, que nos lembra o triângulo, forma sempre associada ao sexo feminino.  
   
SAMAEL  E  GABRIEL
(GUSTAVE DORÉ,1832-1883
)
São os pecados dos homens que, segundo o judaísmo, nutrem o Sitra achra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel, sendo então expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam.

À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do
A QUEDA DO HOMEM
CATEDRAL NOTRE- DAME, PARIS
Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O judaísmo e o islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. Participando desse entendimento, o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege.

O Talmud (literalmente, estudo em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que Samael, na forma de uma serpente, se uniu a Eva no Jardim do Éden nela injetando a sua peçonha, que foi transmitida a todos os seus descendentes. As forças satânicas do Sitra Achra, desde então, tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. 

O  BATISMO (ANDREA DEL VERROCHIO,1435-1488)

O batismo, no cristianismo, como rito de agregação, elimina os efeitos do pecado original, abrindo as portas da vida cristã. Pode ser feito por mergulho (do grego baptismós, mergulho, imersão, ablução) ou por aspersão. Torna aquele que o recebe cristão católico para sempre. Formalmente, requer que sejam utilizados a água (renascimento, origem da vida), o óleo (relacionado com uma preparação para os embates da vida; quem o usava, antes de entrar nos combates, para melhor lutar, eram os lutadores romanos), a vela (o brilho,  uma luz nova) e as vestes brancas (entrar puro na nova vida).


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ÁRIES (1)

       
  
          

O signo de Áries ou do Carneiro tomou lugar como ponto de partida do Zodíaco no de 1.662 aC, sendo chamado desde então de Princeps Signorum Coelestium, a constelação que surgia com o Sol no primeiro dia da primavera, símbolo da ressurreição. Ela está situada a oriente de Pegasus, o cavalo alado, gerado por Poseidon e pela Medusa. Três estrelas formam o seu chifre e focinho, um triângulo, a ocidente das Plêiades. A parte superior do carneiro se liga à traseira da constelação do Touro. Nas gravuras, desde a antiguidade, Áries é representado de modo a que observe tanto a constelação que lhe segue, Touro, como todas as demais. Outras gravuras mostram o Carneiro com a sua cabeça voltada para o planeta Marte, ambos fortemente associados.

Os mesopotâmicos consideravam Áries como o signo-chefe do
ÁRIES
Zodíaco, chamando-o de Iku (herói, líder militar), nome retirado de sua principal estrela, Hamal, equivalente ao nome Rubu (príncipe). Os astrônomos do país também chamavam esta constelação de Gam, A Cimitarra, a espada de lâmina curva. Áries foi adotado pelos babilônicos quando assumiu a condição de ponto de partida do equinócio vernal, ocupando uma posição, como se disse, entre Pisces e Pegasus. 







TAMMUZ - RELEVO 1500 AC
Os povos que viviam entre os rios Tigre e Eufrates associavam ao signo de Áries o mito de Tammuz,  O Filho da Vida, aquele que retorna sempre trazendo a primavera. Contam os mitos que na juventude a deusa Ishtar amou Tammuz, o deus da energia vital que voltava a cada ano com a vegetação.  Segundo o poema de Gilgamés, este amor causou a morte do jovem deus. Tomada por imensa dor, apesar de suas lamentações, elaborou a deusa um audacioso plano para libertar seu amor da morte. Os gregos, como sabemos, retomariam esta história através do mito de Adônis, transferido da Fenícia para a mitologia grega.

Na sua origem mesopotâmica, a mito nos conta que, morto
ISHTAR
Tammuz, Ishtar resolveu descer aos infernos, “o lugar de onde não se volta”, para resgatá-lo. Conseguiu ela abrir os portões infernais e ultrapassar os seus sete patamares descendentes, deixando em cada um deles, à medida que descia, uma peça de sua roupa ou uma joia que usava: primeiro a sua grande coroa, depois seus brincos, seu colar, suas vestes, seu cinturão guarnecido de brilhantes, os braceletes e os cordões de pedras preciosas dos seus tornozelos. Por fim, na última etapa, se despiu inteiramente, como diz o mito, deixando no chão as “vestes do pudor de seu maravilhoso corpo”. 

ERESHKIGAL
Chegou então diante de Ereshkigal, a Senhora dos Infernos, atirando-se sobre ela. Chamando seu assessor, Namtaru, a rainha do mundo infernal deu-lhe ordens para prender a deusa, fechando-a num palácio, e mandando que liberasse para atacá-la os demônios das doenças. Aprisionada a deusa, logo a desolação se espalhou por toda a Terra e pelo Céu, tudo tomado por uma imensa tristeza. Os deuses, apavorados, se reuniram para decidir. Ea, uma espécie de Poseidon mesopotâmico, criou então Asushunamir, o efeminado, deu-lhe instruções mágicas e o mandou libertar Ishtar.
ASTARTE

Magia contra magia, a de Ea era a mais forte. A deusa e Tammuz foram libertados. A fertilidade voltou à Terra. Ishtar é, entre os assírios e babilônicos, a soberana inconteste das artes do amor. Popularíssima na Ásia Menor, tomou o nome de Astarte na Fenícia e forneceu muitos dos seus traços para a Afrodite grega. 

Tammuz (Mesopotâmia), Dummuzi (Suméria), Átis (Anatólia) e Adônis (Fenícia-Grécia) representam o mesmo modelo,  o de uma divindade ligada ao ciclo da vida vegetal, deus morto e ressuscitado anualmente, o mundo vegetal que renasce a cada ano na primavera. São todos deuses que, em várias religiões e culturas, representam o ciclo anual da vegetação; desaparecem no fim do verão, indo para o
CIBELE
mundo subterrâneo, de onde voltam, ressurgindo periodicamente. Dummuzi é o amante da deusa Inana, depois Ishtar. Átis é um deus anatólio da vegetação, companheiro, servidor e amante da deusa Cibele, Grande-Mãe da Ásia Menor, cujo culto chegou a se alastrar por quase todo o  mundo mediterrâneo, alcançando inclusive Roma. Os ritos de Cibele-Atis tinham caráter orgiástico, eram dominados por paixões violentas e estranhas, deles fazendo parte cerimônias de castração e sacrifícios sangrentos (taurobolium), que simbolizavam a fecundidade pela morte. 
 

Tammuz, como se disse, é o “Filho da Vida” e seu culto, oriundo primeiramente da Mesopotâmia e depois da Fenícia,  aparece na Grécia, onde o deus toma o nome de Adônis (adon quer dizer senhor).  Grande amor de Afrodite, Adônis, foi assassinado pelo deus Ares, antigo amante da deusa, na forma de um monstruoso javali. Narram os mitos gregos que tudo começou quando Teias, rei da Síria, teve uma filha de nome Smyrna ou Smine (Esmirna), antigo nome da cidade de Éfeso, derivado por sua vez, segundo o mito, do nome de uma amazona que havia conquistado a região. 

Possuída por imensa hybris, julgou-se Smyrna mais bela que a deusa do amor. Foi punida terrivelmente por Afrodite, que a fez perde-se por incontrolável paixão carnal pelo próprio pai. Conseguiu a princesa se relacionar com Teias, insinuando-se no seu leito, sem que ele percebesse. Depois de certo tempo, o pai, contudo, tomou conhecimento de que a filha o enganava e tentou matá-la. Pedindo a proteção dos deuses, a princesa foi transformada numa árvore a que se deu nome Mirra. Meses depois, na casca da árvore desenvolveu-se um feto que, vindo a termo, foi recolhido
MIRRA
por Afrodite e confiado secretamente a Perséfone, rainha do Hades, para que dele cuidasse. A mirra, lembre-se, é o nome de um vegetal cuja casca exsuda uma resina aromática, rara e valiosa, muito usada na antiguidade pelos povos do Mediterrâneo na perfumaria, como incenso, e para fins medicinais. Entre os egípcios, a mirra era um componente muito importante, além de usada nas práticas da mumificação e nos cultos de Osíris, daquilo que os gregos chamavam de kyphi, o perfume dos deuses. 

AFRODITE  E  ADÔNIS
Tempos depois, indo buscar a criança, já um formoso jovem, Afrodite não conseguiu fazer com que Perséfone o devolvesse. A disputa foi arbitrada por Zeus. Ao final, ficou decidido que o jovem passaria uma parte do ano com Perséfone no reino dos infernos (quatro meses), no mundo subterrâneo, e o restante do ano com Afrodite, na superfície. 

Tudo corria bem até que num certo dia o lindíssimo jovem resolveu ir à caça, não conseguindo Afrodite demovê-lo de tão perigoso intento. Adônis foi atacado e ferido mortalmente pelo deus Ares, antigo amante da deusa, na forma de um enorme javali, que não suportou vê-la com novo amor. Ao tentar socorrê-lo, a deusa pisou num espinho. De seus divinos pés caíram gotas de sangue que tingiram de vermelho uma branca e perfumada flor, que a partir de então passou a simbolizar o amor, a rosa vermelha. 


ADÔNIS  E  AFRODITE   ( CORNELIS  PIETERS  HOLSTEIJN )

A pedido de Afrodite, Adônis foi transformado por Zeus numa flor primaveril, a anêmona (palavra que significa vento, em grego) delicada e frágil, que fenece rapidamente. Esta história se liga
ANÊMONA
(ADÔNIS AESTIVALIS)
obviamente ao ciclo das estações, ilustrando a luta entre Afrodite e Perséfone o nascimento (primavera) e a morte (outono) do mundo vegetal. A morte desse deus oriental da vegetação era solenemente celebrada na Ásia Menor através dos famosos Jardins de Adônis, com grandes procissões e lamentações rituais (para maiores informações sobre o mito Afrodite-Adônis e os famosos jardins aqui mencionados, veja, neste blog, Mitologias do Céu - Vênus 3). 

Astrologicamente, a história de Afrodite-Adônis é uma ilustração do que acontece anualmente na natureza, através do eixo equinocial, quando a energia universal, sempre considerado o hemisfério norte, inicia em março a sua caminhada expansiva ao transitar o Sol pelo signo de Áries (início da primavera) e, seis meses depois, em setembro, esta energia  ao passar o Sol pelo signo de Libra (início do outono) começa a morrer.  

Entre os judeus, na antiguidade, Nissan é o nome do signo de Áries,
criado através da letra Heh. Dentre os atributos deste signo, entre os antigos judeus, está o do poder da palavra, do som primordial. No Talmud, estabelece-se que a letra Heh caracteriza o divino primeiro ato da criação, que corresponde ao elemento fogo. O signo de
PESSAC
Nissan, no corpo humano, relaciona-se com a cabeça, que deve controlar o corpo como o rei controla seu reino. O elemento fogo encontra expressão no sacrifício do cordeiro nas festas do Pessach. Era Nissan o signo que marcava o início do ano oficial, coroando-se nesse período os reis. 

O mês de Nissan sempre foi considerado como o mês que marca o início da formação da nação judaica. Este processo principiou na véspera do êxodo do Egito, culminando ele com o recebimento, no terceiro mês (Sivan – Gêmeos), da Torá (Ensinamento) na forma de
MOISÉS
mandamentos, no monte Sinai. Os judeus consideravam que a formação nacional judaica ocorrera nos três signos que constituem o primeiro quadrante zodiacal. Áries, o carneiro, simbolizava a unidade e a coletividade, considerando-se, além disso,  que num rebanho de carneiros cada um dos animais é (deve ser) idêntico ao outro. Assim como um rebanho de carneiros segue seu pastor, o povo judeu deve aceitar a autoridade de Moisés, o pastor. O segundo mês, Iyar (Touro) simboliza a individualidade; a ideia aqui é a de que, assim como o boi, que vive isolado, cada um dos judeus deve procurar voltar-se para o seu interior (introspecção), buscando auto-desenvolvimento, como uma preparação para o recebimento das leis.

Foi durante o mês de Nissan que o povo judaico se integrou numa comunidade, como os carneiros se integram num rebanho. Entretanto, foi também no mês seguinte que os judeus expressaram também a sua rebeldia, quando no deserto do Sinai se rebelaram contra Moisés e Aharon. As leis só foram dadas ao povo judeu no terceiro mês, Gêmeos, mês de um signo humano, pois os anteriores são signos animais. Para a Torá, Nissan é o mês da primavera (aviv), nele se encontrando ideias de desenvolvimento e de maturação. 

Para os antigos judeus, Nissan era também o signo que descrevia a nação egípcia, a mais poderosa de então. Na sua expressão negativa, o signo apontava, segundo os judeus, para tendências ditatoriais e atitudes agressivas, características, segundo eles, do faraó e dos egípcios em geral, que acreditavam só em si mesmos, egoístas e prepotentes. 

A saída do Egito é celebrada pelos judeus pela festa do Pessach
CALENDÁRIO  LUNAR  JUDAICO
(uma das etimologias desta palavra é “passar sobre”), relacionada com a liberdade e apontando para a redenção do mundo na idade do Messias. É também esta festa a da colheita da cevada e o fim da estação das chuvas. Lembre-se: sempre que necessário, o calendário lunar judaico deve ser ajustado com o acréscimo de um mês extra, para que o Pessach caia sempre na primavera. 


Durante toda esta festa não se come o pão levedado. Um dia antes do início da festa, a casa deve ser limpa de todo levedo, após uma busca de todas as migalhas que possam estar escondidas em qualquer canto ou fenda. A festa tem a duração de sete dias e começa no anoitecer da véspera de quinze de Nissan, a noite do Êxodo, com a refeição ritual da família. Nessa refeição se relata a historio do Êxodo; há tipos especiais de comida e bebida (vinho, pão ázimo, ervas amargas). A festa termina simbolicamente com o cruzamento do mar Vermelho pelos judeus, lendo-se então o Cântico dos Cânticos.


CÂNTICOS   DOS   CÂNTICOS   ( MARC  CHAGALL )

Durante o Pessach, os judeus proíbem, como dissemos, o consumo de qualquer comida que contenha fermento, pois este produto
MATSÁ
simboliza o orgulho. É durante este período que os judeus devem comer o matsá, pão não levedado ou pão ázimo, feito só de farinha e água. Este pão é chamado de “pão da aflição” porque foi comido por judeus, na condição de pobres e escravos, alimento também consumido durante todo o Êxodo. O matsá simboliza humildade e pureza, livrando do egoísmo e da agressividade.

Dentre as doze tribos de Israel, aquela que se associa à de Nissan é a de Yehuda (Judá), de David. Rei de Israel e descendente de Rute, a moabita, convertida ao judaísmo, David começou como pastor em
BETSABÁ  ( REMBRANDT )
Belém (a casa do pão) e o desvelo que demonstrava ao cuidar dos rebanhos de carneiros mostrou a Deus que ele poderia assumir o trono de Israel. David foi um rei guerreiro que ampliou as fronteiras do reino que herdou. A esposa favorita de David foi Betsabá, que lhe deu um filho, Salomão, seu sucessor. Na Cabala se explica que a principal característica de um rei deve ser a humildade, conceito que está implícito no nome de David. Etimologicamente, este nome significa o “Bem-Amado” e anuncia a vinda do Messias, que se dará pela linhagem de David.

David sempre apareceu ligado ao carneiro, cujas tripas ele utilizou para delas fazer as cordas de sua harpa. O nome David tem dentro
REI  DAVI  TOCA  HARPA
( GERARD VAN HONTHORST )
dele raízes indo-europeias que significam conduzir (vadh, ved) e dizer (wod). Para o judaísmo, aquele que comanda é aquele que fala, que brilha e arde. As consoantes dv geram um “calor doloroso”. Segundo a Nomancia, que faz a criptoanálise de nomes, David é nome que sugere força de trabalho colocada a serviço de projetos ambiciosos, aspirações elevadas, som a possibilidade de risco de perda do poder criador em projetos pouco significativos ou rotineiros. Há no nome David iniciativa e autoridade, grande necessidade de movimento, de encontros e de mudanças. É um nome contrário à obediência e à passividade, podendo por isso trazer infelicidade, caprichos e extravagância. Há que se ter, com o nome, cuidado com escolhas demasiadamente materialistas ou egoístas.

O carneiro à frente do rebanho é considerado pelos judeus como símbolo daquele que comanda. Esse carneiro, enquanto caminha, vai balindo e se ouve mehh, um som onomatopaico, que os hebreus traduzem pela expressão “quem somos nós?” É por essa razão que a tribo de Judá foi a primeira a iniciar a caminhada através do deserto quando do Êxodo. Coube às outras tribos segui-la, segundo a ordem zodiacal. Outro, aliás, não é o significado do Pessach (Peh+Sach), a boca fala, segundo a Cabala. O poder da palavra aparece aqui associado ao que comanda, ao chefe, o que tem voz e que está à cabeça. Antes porém do chefe proferir a palavra, a ordem, é preciso o julgamento, que está no signo oposto.


Segundo o Sefer Yetzirah, O Livro da Criação, o limite do corpo humano está associado ao signo de Nissan, sendo esse limite representado pela perna direita. A perna favorece contactos, suprime distâncias, tendo, por isso, importância social. É com a perna direita que devemos dar o primeiro passo (começar algo com a perna esquerda é ruim), sendo ela considerada por muitas tradições como o agente formador das sociedades. É a perna direita “obreira do social”, a que cria os laços sociais, sendo o pé, com todo o seu simbolismo, o “senhor da chave”. A cabeça, de Áries, deve trabalhar com o pé (símbolo do último signo zodiacal), sendo, nesse sentido, opostos e complementares. A perna e o pé tanto significam o início de alguma coisa como o seu fim. Partida e chegada.


Lembremos que bem antes de Abraão, o primeiro patriarca judeu, o carneiro já aparecia como símbolo astrológico-religioso. O chofar, pequena trompa feita com chifre de carneiro, já era empregado em rituais religiosos e ainda é usado em sinagogas ao fim do Yom Kipur (dia do perdão), antes e durante o Rosh ha-Shana (ano novo). 

No cristianismo, o Pessach tomou o nome de Páscoa, comemorativa da ressurreição de Cristo. O concílio de Niceia (325) a fixou no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia seguinte
EASTRE
ao equinóxio da primavera. Esta festa sempre foi celebrada por todas as tradições, não só judaicas ou católicas. Entre os saxões, por exemplo, foi Eastre, deusa da primavera e do renascimento da natureza, que deu origem à palavra easter, páscoa, em inglês. Esta deusa tinha o coelho por atributo. As fogueiras da Páscoa simbolizam a vitória da luz sobre as trevas (o retorno do Sol). Os antigos germânicos acendiam suas fogueiras em homenagem a Thor, que lhes trazia de volta a primavera. Extintas as fogueiras, as cinzas eram recolhidas e lançadas sobre os campos, a fim de se torná-los férteis. Esta ideia de fertilidade se associa também ao costume da distribuição de ovos na Páscoa, símbolo do renascimento periódico da natureza.

Na Inglaterra, corre a crença, se a véspera do dia em que a festa da Páscoa coincide com o dia da Anunciação (25 de março), uma
NOSTRADAMUS
grande catástrofe se abaterá sobre o país. Aliás, segundo uma previsão de Nostradamus, quando o dia da Páscoa coincidir com o dia de São Marcos (25 de abril) e, por consequência, a Sexta-Feira Santa coincidir com o dia de São Jorge (23 de abril) e a festa de Corpus-Christi coincidir com o dia de São João Batista (24 de junho), teremos o fim do mundo. Estas datas coincidiram nos anos de 1.666 (ano do grande incêndio de Londres), em 1.734, em 1.886 e 1.943, anos de catástrofes.  

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( LASTMAN  PIETER , 1583 - 1633 )

Relacionada com o carneiro temos, entre os judeus, a história de Isaac, o filho primogênito do patriarca Abraão e de Sara, este submetido ao teste da obediência (akedá), também chamado de “amarração”. Tal teste consistiu numa ordem dada por Deus ao patriarca para que ele oferecesse seu filho em sacrifício no monte Moirá. Nos momentos finais da cerimônia, quando Isaac estava para ser morto, o arcanjo Gabriel deteve a mão de Abraão, colocando no seu lugar um carneiro. Após a traumática experiência da akedá, Isaac retirou-se da vida mundana, mas ficou com sérios problemas nos olhos por ter olhado o céu e visto Deus enquanto estava amarrado no altar de sacrifício. Além disso, seus olhos foram também afetados pelas lágrimas de chorosos anjos, apiedados de sua sorte quando da cerimônia. 




quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O ZODÍACO (2)

                                  

ZODÍACO  -   PADOVA, ITÁLIA



SEFER   YETZIRAH
Na tradição judaica, além de muitos outros, há um texto que está na base dos significados espirituais das constelações, o   Sefer Yetzirah (O Livro de Formação ou da Criação), que a tradição atribui a Abraão (o texto foi, ao que parece, escrito no séc. III dC). Este texto faz parte daquilo que os judeus chamam de Maesse Bereshit (trabalho do início da criação), ramo do misticismo judaico que trata de temas cosmogônicos. As tradições deste misticismo se baseiam no primeiro capítulo do Gênesis e só podiam ser ensinadas a um indivíduo (não a grupos) devido ao seu caráter secreto. Tais ensinamentos dizem respeito às alocuções divinas que criaram o universo e como o controle delas permite ao homem adquirir poder mágico sobre o mundo (gematria). Uma das principais expressões de Maesse Bereshit é justamente o Sefer Yetzirah, que detalha os trinta e dois caminhos da sabedoria subjacentes ao mundo criado. Eles são formados pelas vinte e duas letras do alfabeto, em várias combinações entre si, e as dez sefirot. 



ABRAÃO,  REFEIÇÃO COM  FAMÍLIA (JAN  VISTO, 1619-1679) 

As letras se classificam em diferentes grupos, refletindo a sua
SEFIROT
ESFERAS  DE  LUZ
estrutura as três dimensões do espaço, do tempo e da alma humana. Os órgãos do corpo humano estão sob a influência astrológica dos planetas. Como o homem é um microcosmo, ele tem dentro de si os mesmos poderes divinos de criação que permeiam o cosmos, podendo usar técnicas de combinação das letras existentes no Sefer Yetzirah para libertar esses poderes. As sefirot tornaram-se mais tarde o sustentáculo da elaboração cabalística.

A ortodoxia judaica admite, ainda que não abertamente, que as influências astrológicas estão presentes na vida de uma pessoa. Há sempre a ressalva de que Israel, como nação, é diretamente guiada pelo divino (o que evidentemente nunca correspondeu à realidade do "comportamento" do país, principalmente depois de 1948) e que, por isso, ninguém que seja realmente religioso poderá se entregar à Astrologia. Esta mesma ortodoxia prossegue afirmando que Deus pode anular um infortúnio astrológico e que mesmo as previsões podem muitas vezes não se concretizar. 
MOISÉS  ( MICHELANGELO )
O que temos de concreto é que as histórias relacionadas com a Astrologia abundam na tradição judaica. Conta-nos essa tradição, por exemplo, que no Egito o faraó fora informado por seus astrólogos de que a pessoa destinada a redimir os israelitas da escravidão sucumbiria na água. Assim, ele ordenou que todos os filhos dos israelenses fossem lançados no rio Nilo (a história de Moisés). O cotidiano judaico, aliás, é "pura" Astrologia. Revelam-nos  antigos textos, por exemplo, que pessoas nascidas nos diferentes dias da semana terão traços de personalidade específicos assim definidos: domingo, distinção; segunda-feira, ira; terça-feira, riqueza e hedonismo; quarta-feira, inteligência; quinta-feira, benevolência; sexta-feira, piedade; sábado, os nascidos nesse dia nele morrerão. 

Alguns dias eram/são considerados entre os judeus de sorte e outros de azar para empreendimentos específicos. Recomendava-se que não se bebesse água nas noites de quarta e de sexta-feira e que
ECLIPSE   DA   LUA
ninguém se submetesse a uma sangria nas segundas, terças ou quintas-feiras por causa das influências astrológicas negativas. Um eclipse da Lua sempre significava má sorte para os judeus, enquanto um eclipse solar significava má sorte para os gentios. Essa crença está preservada na saudação mazal tov (boa sorte), que os judeus usam em ocasiões festivas. Mazal, em hebraico, significa tanto sorte como signo zodiacal. 

Há ainda que se mencionar a questão da presença dos corpos celestiais no momento do nascimento como fator decisivo para a determinação do caráter de alguém, segundo a astrologia judaica.
MAIMÔNIDES
Os nascidos sob a influência de Marte, por exemplo, serão derramadores de sangue, assassinos, cirurgiões ou megarefes rituais. Para os cabalistas e rabinos medievais, os céus eram o “Livro da Vida”, sendo a Astrologia a ciência suprema. A ortodoxia, entretanto, sempre enfatizou que a Astrologia deveria ser considerada com muita reserva. O filósofo Maimônides (1.136 - 1.204 – judeu espanhol), por exemplo, achava que a Astrologia não passava de um amontoado de superstições; para ele, um judeu deveria contar apenas com Deus. 

Segundo a ortodoxia judaica, a Bíblia proíbe práticas supersticiosas como a Astrologia com base no versículo: Estarás inteiro com o Senhor teu Deus (Deut.18:13), não sendo admitidas, por isso, introduções de crenças paralelas no monoteísmo de Israel. Contudo, tais crenças e práticas, inclusive astrológicas, penetraram na tradição popular: cura de doenças, tempos de sorte e de azar, tipos de comportamento que poderiam atrair a atenção de demônios, magia etc. Embora os rabinos tentassem muitas vezes erradicar tais crenças e práticas, por considerá-las alheias ao
TALMUD
Judaísmo, essa tentativas não tiveram praticamente nenhum êxito. Além do mais, é preciso lembrar que todo o ritualismo oficial judaico está estruturado segundo antigas práticas astrológicas. No Talmud (palavra que significa estudo), obra mais importante da Torá oral, encontramos, por exemplo, muitas referências às influências dos signos zodiacais sobre o povo judeu. 
ABRAÃO  IBN  EZRA
Uma das melhores fontes para estudo da astrologia praticada pelos antigos judeus é o livro de Abraão Ibn Ezra (1.090-1.164), comentarista da Bíblia e poeta espanhol. Durante boa parte de sua vida ele foi andarilho. Visitou Londres, foi à Índia. Viajou muito à procura de um filho único que se convertera ao Islamismo, Queria trazê-lo de volta ao Judaísmo. Pobre e sem sucesso nos negócios, atribuía sua sorte a um desígnio astrológico. Acreditava na Astrologia e na Alquimia; propunha que os sonhos fossem usados como meio de autoconhecimento. Corria a lenda de que ele chegara a fabricar um golem. Para a ortodoxia rabínica judaica, era crítico e independente demais, muito sarcástico, sempre suspeito de heresia. Seu principal texto tem o título de O Início da Sabedoria: o Livro das Razões, nele discorrendo sobre o Zodíaco.

PRIMAVERA  ( NICOLAS  POUSSIN , SÉC. XVII )
Voltando aos gregos, lembremos que eles já haviam acenado para nós com a possibilidade da divisão do Zodíaco em quatro partes (grupo de três signos), com base em sua mitologia. Por essa divisão, Peixes, Áries e Touro corresponderiam a um período uraniano, o da exuberância criadora descontrolada, o das entidades primordiais ainda confusas, onde temos uma atividade biológica, se não totalmente, grandemente indiferenciada. Psicologicamente, é o tempo das energias cósmicas que se manifestam por um caráter instintivo-pré-reacional que se traduz por uma supremacia da vida inconsciente, pela impulsividade e pela predominância da sensorialidade. 

VERÃO  ( NICOLAS  POUSSIN , SÉC. XVII )
Do segundo grupo fazem parte Gêmeos, Câncer e Leão, que constituem um período mitológico correspondente ao reino de Cronos. Se Urano nos fala da formação do espaço, Cronos nos dá a noção de tempo, as duas coordenadas necessárias para o aparecimento dos humanos. Por isso, o reino de Cronos (2ª dinastia) é lembrado como uma idade áurea, no qual temos um período ideal em que os humanos podiam ter a realização de todos os seus sonhos e anseios, uma realização que excluía forçosamente qualquer mudança, que pedia, no lugar da transformação, a imobilidade. No reino de Cronos a grande contradição se instala: o tempo humano é finito, o divino é infinito. No reino de Cronos tudo era dado aos humanos, nada lhes faltava. Por isso, o reino de Cronos, no qual os humanos apareceram, é lembrado como um paraíso perdido, que, ao final, não passou de uma perfeição estagnante. Cronos é, afinal, uma tentativa de interrupção do fluxo vital na qual ideias de ordem pretendem se sobrepor às do inexorável fluir.  
É no final do reino de Cronos que o ser humano se separa do indiferenciado, se individualiza; nasce a consciência de um eu e necessariamente a de um não-eu, distinção a partir da qual o mundo será vivido como dualidade, como sujeito e objeto. Neste período nascem o discernimento, a análise, as oposições, o conflito entre os opostos. O intelecto e a consciência analítica dominam. O desenvolvimento do ser humano, a conquista de eu autônomo se define geralmente como egocentrismo, como amor exagerado aos próprios valores e interesses a despeito dos de outrem. Exclusivismo que leva o ser humano a se tomar como referência a tudo. Para Kant, por exemplo, é o egoísmo uma paixão humana fundamental que consiste na submissão do dever ao interesse particular, em detrimento da obediência à lei moral. 

O terceiro grupo é formado por Virgem, Libra e Escorpião. Este
OUTONO  ( NICOLAS  POUSSIN , SÉC. XVII )
período corresponde ao domínio de Zeus, terceira dinastia da mitologia grega. É marcado por uma proposta de transcendência, de ascensão, caracterizado por ideias de organização, de redução ao essencial, de hierarquia, de harmonização com os outros, com o nosso próximo. Este período simbolicamente lembra subida em direção ao topo, ao zênite, palavra árabe que etimologicamente significa caminho reto e também o ponto superior de um círculo ou, ainda, lugar para onde aponta a cabeça. É neste período que a consciência supra-racional começa a se esboçar. Os princípios de associação, o sentimento de justiça e a procura de equilíbrio entre o eu e o não-eu, entre o objetivo e o subjetivo ganham espaço.

INVERNO   ( NICOLAS  POUSSIN , SÉC. XVII )
A última tríade nos traz Sagitário, Capricórnio e Aquário. Este período questiona e tenta pôr fim à concepção de Zeus como poder supremo, um poder que no mito se desenvolveu a partir de Homero e que termina com a filosofia helenística. A partir deste período a concepção de um Zeus cosmocrata, confundido com Providência única, deixa de existir para dar lugar às religiões místicas, à encarnação do Logos, às religiões do homem, à sua escalada em direção do grande Todo através da ciência e de seu subproduto, a tecnologia. 

Nesta última fase, a do aparecimento da quarta dinastia, temos um diálogo novo, diferente, entre o seu titular, o Homem, e o divino. É neste período que se prepara o ataque final das forças do humano às da terceira dinastia, a do divino. A ciência e a tecnologia se preparam para substituir o divino no “controle” do universo. Esta última e quarta etapa fala de afinidades que propõem uma vida comunitária, universal, nela assumindo o homem o comando das
NETUNO
forças que operam no cosmos, excluindo-se a ideia do divino, um conceito em extinção na era de Aquário que se aproxima (2.658), na qual o Sol, como manifestação da divindade, estará em exílio e Netuno em queda, planeta que simboliza na astrologia o princípio absoluto da receptividade passiva.  

Já tendo dado demonstrações do poder que obteve pelo uso do fogo prometeico recebido, o homem, como novo senhor do universo, avança, num primeiro momento, firmemente, ainda que em meio a muitas contradições, em direção da galáxia, no sentido de ocupá-la, de colonizá-la, leve, fluido, volátil, tornando-se o ser da aventura, da vanguarda, do progresso, da emancipação. Lembremos, apenas, que esta divisão zodiacal se fecha com Aquário, signo governado por Urano (espaço) e por Saturno (tempo), as duas forças mestras do universo, onde o homem, simbolizado pelo Sol, o eu, a vontade iluminada, se encontra exilado, como está acima.   

A maior parte dos astrólogos ocidentais usa o chamado Zodíaco tropical dos signos, que começa anualmente no primeiro dia da primavera (equinócio), no grau zero do signo de Áries. A palavra
EQUINÓCIO   VERNAL
tropical vem do grego tropos, e significa o que volta, o que se movimenta. Desse ponto em diante, o círculo zodiacal é dividido em doze partes de trinta graus cada uma, terminando no 30º do signo de Peixes. Devido à precessão dos equinócios, o início deste ciclo muda a cada ano. O equinócio vernal (primaveril) é usado para definir o Ano Trópico, ou seja, o período de tempo que há entre duas passagens sucessivas do Sol pelo equinócio vernal ou da primavera. 

PRECESSÃO  DOS  EQUINÓCIOS
O movimento da precessão dos equinócios é particularmente importante para os estudantes de Astrologia, pois ele é fator de mudança das estrelas polares e das eras astrológicas do mundo. A precessão é causada por uma relação entre a Terra, o Sol e a Lua. Vista do espaço, a Terra é um pouco achatada nas regiões polares e dilatada do equador, não sendo, pois, redonda, esférica, mais parecendo uma maçã do tipo fuji. A força de gravidade da Lua e, em menor intensidade, a do Sol, fazem com que ela gire como um pião. O eixo da Terra não é perpendicular à sua órbita, formando-se um ângulo de 23º27´de inclinação. A fim de manter a sua posição no espaço, a Terra tem um movimento oscilante. Este movimento faz com que ela, a cada ano, retroaja em cerca de 50 segundos de arco, ao caminhar pelo Zodíaco. Assim, ao final, depois de seu giro de 365 e ¼ dias em torno do Sol, a Terra não volta para o ponto exato de onde partiu, para a sua jornada anual. Ela retorna a um ponto que dista deste último mencionado cerca de um minuto (60 segundos). Esta regressão constante com relação ao seu ponto de partida provoca as mudanças de era no mundo, de Áries para Peixes, deste para Aquário e assim por diante. 

O período total da precessão é de cerca de 26.000 anos (25.920 anos, mais exatamente) e representa o tempo necessário para que cada uma das doze constelações zodiacais dê seu nome a uma era.
PITÁGORAS
Este grande ciclo foi definido, ao que parece, pela primeira vez por Pitágoras, no séc.VI aC. Por isso, é conhecido como o Grande Ano Pitagórico. Durante este período, os polos norte e sul traçam círculos no espaço. O eixo imaginário que passa pelo centro da Terra, do polo sul ao polo norte, fica voltado para uma estrela de uma das chamadas constelações circumpolares. Essa conjunção eixo-estrela é por um longo período o “centro do universo”, chamando-se essa estrela de Polar (atualmente na constelação da Ursa Menor). 

No ano de 3.000 aC, a estrela alfa da constelação do Dragão era a estrela polar; no ano de 7500 dC, a estrela alfa de Cefeu será a estrela para a qual o polo norte estará apontado. Em 14.000 dC, a

estrela Vega ocupará essa posição. Em 28.000 dC, o mencionado eixo voltará a apontar para Polaris. Temos, pois, que os equinócios não são permanentes. O movimento precessional tem a direção dos ponteiros do relógio, enquanto o movimento aparente do Sol tem o sentido contrário.  

A astrologia praticada no oriente, especialmente na Índia, usa um zodíaco diferente daquele que é usado no ocidente para localizar os astros no nascimento de uma pessoa. Este Zodíaco é conhecido pelo nome de sideral ou melhor, sideral dos astros fixos, ou seja, o das constelações verdadeiras de onde os signos receberam seus nomes. No ano de 254 aC, não havia diferença entre estes dois Zodíacos, o trópico e o sideral. Atualmente, há uma diferença de quase 24º entre eles. No zodíaco tropical, alguém que nasça no dia 3 de abril tem o Sol aproximadamente a 13º de Áries. No sistema sideral, ele teria nascido com o Sol em uma posição, para menos, de 24º, ou seja, a 19º de Peixes. 

Toda vez que se inicia um ano astrológico a 21 de março, temos o chamado equinócio de primavera no hemisfério norte. É nesse momento que o Sol se encontra no ponto de intersecção (ponto vernal) do equador celeste com a eclíptica (via solis). Esse ponto, em razão do mencionado fenômeno da precessão dos equinócios, varia de ano para ano na base de 50´´26 por ano. Assim, em 72 anos, a diferença de um ponto vernal com o anterior será de 1º00'19". Em 2.160 anos, o ponto vernal terá se deslocado em 30º, ou seja, um signo no zodíaco constelacional. Em 25.920 anos teremos um deslocamento de 360º, um ciclo precessional completo. Tudo isto quer dizer que o Sol a cada 72 anos se coloca a 1º a menos em direção da ordem contrária à dos signos zodiacais.

Precessão é ato ou efeito de preceder. Na astronomia, é movimento vagaroso do eixo de rotação de um corpo celeste, resultante da influência exercida sobre ele por um ou mais astros. No caso de que tratamos, é um movimento retrógrado do nodo de uma órbita sobre um plano de referência móvel. Precessão dos equinócios é, pois, o movimento de recuo dos pontos equinociais.

Os equinócios, portanto, não são permanentes. O ponto vernal (vernalis é primaveril em latim) é usado para definir o ano trópico (tropos em grego é direção, desvio, movimento), tecnicamente o período de tempo considerado entre duas sucessivas passagens do Sol pelo ponto vernal, equinocial ou ponto Áries. O ano trópico é menor que o ano sideral, o tempo empregado pelo Sol em coincidir duas vezes consecutivas com o mesmo ponto na eclíptica ou em percorrer exatamente 360º, cujo equivalente em termos médios é de 365 dias, 6 horas, 9 minutos e 9,5 segundos. Já o ano trópico tem 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. 

A diferença entre a direção do Sol anualmente e o movimento precessional deu origem à suástica (svasti, em sânscrito, de onde veio a palavra, é saúde, bom augúrio), um dos símbolos mais antigos conhecidos pelo homem, presente em todas as civilizações e culturas, desde tempos pré-históricos. O símbolo é apresentado de dois modos: a) em direção contrária aos ponteiros dos relógios; b) na direção dos ponteiros dos relógios. 

Ao ciclo de 25.920 anos se deu o nome de grande ano heliacal, chamado pelos hindus de manvantara. A cada 2.160 anos, tempo que o Sol leva para atravessar um signo, se deu o nome de era. Na Grécia antiga, calculado por Pitágoras, recebeu o nome de grande ano pitagórico.

Atualmente, o Sol atravessa os últimos graus da constelação de Peixes, aproximando-se do trigésimo grau da constelação de Aquário. Ao atingir esse ponto, no ano de 2.658, ingressará a humanidade na chamada era de Aquário. Lembramos que os efeitos da era de Aquário já começaram a se fazer sentir desde fins do século XVIII, quando se descobriu o planeta Urano em 1.781. Para o fim e o começo das eras cósmicas, admite-se uma órbita de influência de 12º. No ano de 1.218 estávamos a 10º de Peixes; no ano de 1.938, a 20º de Peixes; no ano de 2.010 estivemos a 21º de Peixes. 
B.V. RAMAN  (1912 - 1998 )
MAIOR ASTRÓLOGO DA ÍNDIA
Os antigos sacerdotes-astrólogos da Índia e de outras civilizações tinham pleno conhecimento da influência das eras cósmicas no desenvolvimento e na evolução dos povos ao estabelecer fundamentos religiosos, filosóficos, políticos, sociais e artísticos com base na posição em que o Sol se encontrava num signo constelacional. Dentre eras cósmicas anteriores à nossa (aC), temos:10.302, Leão; 8.142, Câncer; 5.982, Gêmeos; 3.822, Touro; 1.662, Áries. A era de Peixes, a atual, começou em 498 dC; Aquário começará em 2.658; Capricórnio, em 4.818 e assim por diante.
As eras cósmicas são a própria memória do mundo. Os ciclos precessionais constituem-se na base da evolução humana, permitindo-nos interpretar a história da humanidade já que marcam o aparecimento e o desaparecimento de raças, nações, de religiões e de deuses. Determinam inclusive o nascimento, a ascensão e a morte de uma raça raiz. O grande ano zodiacal se divide em quatro períodos (estações) de 6.480 anos cada formados cada um por três eras cósmicas. O predomínio da raça ariana teve início quando o Sol ingressou na constelação de Áries, em 1.662 aC, e se estenderá até 4.818, nele se incluindo as eras de Peixes e de Aquário. A estação seguinte compreenderá as eras dos signos de Capricórnio, Sagitário e Escorpião. No período anterior ao do domínio da raça ariana, tivemos a evolução, a ascensão e a decadência da chamada raça atlante, durante as eras de Câncer, Gêmeos e Touro. 

O caminho aparente do Sol na esfera celeste, conhecido como eclíptica (via solis), tem uma inclinação de 23º27´com relação ao equador terrestre ou celeste. Os pontos de intersecção das duas órbitas é conhecido como equinócios. No dia 21 de março, o Sol chega ao ponto vernal, iniciando-se o equinócio (etimologicamente, igual à noite, isto é, o dia) da primavera; no dia 23 de setembro, chegamos ao equinócio de outono. A inclinação entre as duas órbitas é a causa primeira do ciclo das estações.