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sábado, 9 de novembro de 2019

DOS PECADOS - I

  
OS  SETE  PECADOS ( HIERONYMUS  BOSCH , 1450 - 1516 )

Os dicionários definem o pecado como a violação de um preceito religioso. É sempre uma desobediência a qualquer norma de conduta estabelecida pelas religiões. Pecado, na antiga Roma, de peccare, latim, era simplesmente cometer uma falta qualquer. Quando o cristianismo se tornou religião oficial do império, a palavra passou a ser usada no sentido religioso também. Peccare, na origem, significava tropeçar. Peccus era a palavra latina que se usava para designar o que andava mal, o manco, o perneta. 

Os preceitos religiosos mais simples que os adeptos das religiões deviam observar foram reunidos sob o nome de mandamentos. Eles deram base ao que se chamou de moral, regras de vida e de convivência, desta ou daquela religião. Estas regras são, sobretudo, de foro íntimo, isto é, ligam-se antes mais ao âmbito da individualidade de cada um, segundo a própria consciência, e depois à vida em comum.
Muitos dos mandamentos estabelecidos pelas religiões podem ser desrespeitados sem que nada aconteça ao pecador. Por exemplo, o pecado da gula. Já outros mandamentos, ao fazer parte da estrutura jurídica das várias sociedades, tipificam contravenções, delitos ou crimes. Neste caso, é o Estado a fonte material de um direito a que se deu o nome de penal, uma vez que é o legislador quem cria as normas penais, dadas ao conhecimento de todos por meio de leis.  A fonte do Direito Penal é, pois, a lei e subsidiariamente, dentre outros elementos, os costumes, a analogia, a equidade, os tratados e convenções internacionais estabelecidos. 


INVEJA  ( EDVARD  MUNCH , 1863 - 1944 )

Cabe ao Estado, assim, fixar as normas penais a cuja observância os indivíduos podem ser compelidos mediante coerção (jus puniendi). A estas normas todos estão vinculados. O mesmo não acontece com relação aos mandamentos religiosos, como se disse acima. Posso ser, por exemplo, uma pessoa invejosa e nem por isso serei punido pelo Estado. O pecado da Inveja, como se sabe, está tipificado como pecado mortal pela Igreja Católica.


Chama-se no Direito Canônico, na Igreja Católica (etimologicamente, do grego katholikós, de kata, para baixo, e holos, para todos, isto é, para baixo e para todos, universal), o conjunto de leis e regulamentos feitos ou adotados por ela para o governo da organização cristã católica e de seus membros. Cada religião cristã, além da católica, como a anglicana, a ortodoxa, a presbiteriana e a luterana, tem hoje o seu Direito Canônico (canon, em grego, é lei, princípio,  medida).

O catolicismo adotou, como mandamentos, o Decálogo (do grego, dez ditos, dez palavras), nome dado a um conjunto de normas que, segundo a Bíblia (Antigo Testamento), teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas (Tábuas da Lei) de pedra e entregues ao profeta Moisés no alto do Monte Sinai. Nessas placas recebidas por Moisés estavam sintetizadas as normas que deveriam orientar a vida dos crentes. Os dez mandamentos aparecem mencionados em dois livros do Antigo Testamento, no Êxodo e no Deuteronômio. 


MOISÉS  RECEBENDO  AS  TÁBUAS  DA  LEI
( 1868 , JOÃO ZEFERINO  DA  COSTA )


Moisés é nome que vem do hebraico, Moxeh ou Mosheh, este por sua vez originário do egípcio, mes, mesu, que tanto significa filho como servo. O nome do nosso profeta, ao que parece, faz parte do nome Ramsés, servo de Ra, nome de vários faraós da 19ª e da 20ª dinastias, chamados ramessessidas. Alguns estudiosos hebraicos fazem o nome Moisés derivar do verbo retirar (msh). No geral, historicamente Moisés é situado no séc. XIII aC., como membro da tribo de Levi. Abandonado ao nascer, nas águas de um rio, foi acolhido pela filha do faraó, que o educou como um filho. Adulto, Moisés matou um egípcio que maltratava um judeu (tomara conhecimento da sua origem hebraica por volta dos 40 anos) indo, por isso, se refugiar no país de Madian, a leste do Sinai, lá se casando com a filha de um sacerdote de nome Jethro. 

ABRAÃO , À DIREITA
CATEDRAL DE CHARTRES
Os mandamentos acima mencionados representam as cláusulas da aliança concluída entre Deus e Israel e neles estavam fixadas as bases religiosas que iriam orientar a vida política e social do povo israelita. A aliança (berit, em hebraico) faz referência ao acordo estabelecido entre o primeiro patriarca Abraão, que vivia em Ur (cidade da Suméria, na antiguidade situada na embocadura do rio Eufrates) e Deus, Yahvé, nele estando incluídos itens como a circuncisão dele e de seus descendentes homens e a doação de terras a Israel (Canaã, a Terra Prometida). Etimologicamente, Abraão, do hebraico Abhraham, quer dizer o pai é exaltado. No Gênesis, ele será chamado de o pai de todas as nações. O pacto foi estabelecido em Harran (cidade da Mesopotâmia) entre Yahvé, sob o nome de El Shaddai, e Abraão.

CIRCUNCISÃO  DE  JESUS ( FRIEDRICH  HERLIN , C. 1460)

Judeus que não fizessem a circuncisão estariam excluídos do pacto celebrado. Deste pacto fazia parte também a promessa de uma numerosa descendência, que viria através de Ismael (origem dos povos do deserto, os beduínos), filho dele, Abraão, e da serva Agar (concubina); de Isaac, filho dele e de sua esposa Sarah. Com a morte dela, Abraão uniu-se a outra concubina, Quetura, e com ela teve mais seis filhos. A aliança foi renovada por Moisés no Monte Sinai, nela se incluindo os dez mandamentos entregues por Deus, dando-se o nome de Torá (etimologicamente, ensinamento) à primeira expressão dessa aliança. 

MOISÉS  NO MONTE  SINAI (NICOLAS  DE  VERDUN, 1130 - 1205)


CATECISMO
Os dez mandamentos entregues a Moisés são os seguintes: 1) Não terás outros deuses diante de mim; 2) Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu; 3) Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; 4) Que do dia do shabat se faça um memorial, tomando-o como sagrado;5) Honra teu pai e tua mãe; 6) Não matarás; 7) Não cometerás adultério; 8) Não furtarás; 9) Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo; 10) Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem tudo que a ele pertencer. Jesus, como está em Mateus (22:37-40), no Novo Testamento, resumiu o que está acima em dois grandes mandamentos: 1) Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. 2) Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.


Os mandamentos que Moisés recebeu, considerados mais de perto, não estabelecem, a rigor, as bases para a fundação de uma religião, pois constituem muito mais um conjunto de leis e de regras do que propriamente uma religião revelada. Leis e regras morais com um caráter imperativo que conscientizadas ditam um comportamento que impossibilita aquele que delas toma conhecimento de praticar certos atos, roubar, matar, mentir, cobiçar o que é dos outros e assim por diante. Além do mais, os mandamentos têm um sentido prático, de alcance social, na medida em que impõem obrigações relacionadas com a vida coletiva. 

ADORAÇÃO DO BEZERRO DE OURO
( 1966 , MARC  CHAGALL )
Moisés, ao descer do monte Sinai, encontrou seu povo adorando um bezerro de ouro, eguel ha-zahav, em hebraico. Ficou muito enfurecido, quebrando as duas tábuas que recebera de Deus. Aarão, irmão de Moisés e de Miriam, foi o responsável pela construção do bezerro com o ouro obtido dos seus irmãos judeus, procedimento que, em última instância, significou a substituição da vida espiritual pela vida material.

Os dez mandamentos judaicos no mundo cristão passaram a ter a seguinte redação, conforme Compêndio do Catecismo da Igreja Católica: 1) Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas; 2) Não usar seu santo nome em vã; 3) Santificar os domingos e festas de guarda; 4) Honrar pai e mãe e os outros legítimos superiores; 5) Não matar, nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo; 6) Guardar castidade nas palavras e nas obras. 7) Não furtar nem justamente reter ou danificar bens do próximo; 8) Não levantar falsos testemunhos nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo; 9) Guardar castidade nos pensamentos e desejos; 10) Não cobiçar as coisas alheias. Segundo o cristianismo, quem ouve os dez mandamentos e os coloca em prática tem vida eterna. Os mandamentos enunciam os deveres fundamentais do católico para com Deus, para com seu próximo e para com a Igreja.

TALMUD
(C.1960, MARC CHAGALL
)
Os judeus designam o pecado pela palavra chet, que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo a Deus, é admitido. Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus, entretanto, permitiu que, tendo optado pelo Mal, o homem, desde que arrependido, pudesse voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.

SANTO  AGOSTINHO ( 1645 , PHILIPPE  DE  CHAMPAIGNE )

No catolicismo, Santo Agostinho vai pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja sempre insistiram num ponto: qualquer pecado é um abuso de liberdade. São Paulo já havia discorrido sobre a universalidade do pecado e da imensa miséria que oprimia o homem.

As religiões fundadas a partir da Bíblia deixaram de lado, porém, até hoje uma questão fundamental, a do livre-arbítrio, ou melhor, o problema de como se evitar que interferências desconhecidas influenciem nossas decisões. Tanto as religiões como a ciência não conseguiram até hoje resolver esse problema. O estudo da Verdade proclamada pelas religiões ou pela filosofia (ética, moral)  não têm sido capaz de fazer com que os homens consigam pôr em prática os seus preceitos. Desde a antiguidade, o conhecimento das religiões sempre se manteve apenas teórico, condenado a se mostrar impotente diante das referidas influências. Basta ver, por exemplo, como continuamos roubando e matando cada vez mais, inclusive em nome das religiões.

Renovando-se constantemente, tais influências nos mantêm numa espantosa maioria em experiências de vida totalmente condicionadas. Nenhuma intervenção religiosa tem se mostrado válida para eliminar a ignorância, isto é, os tremendos fatores de servidão que nos aprisionam, que nos impedem de melhorar a nossa capacidade de discernir realmente o que mais interessa ao homem individual ou coletivamente, tendo-se em vista o reino dos Céus. Quaisquer que sejam os nomes que possamos dar a esses fatores, dinheiro, poder, egoísmo, ignorância, ódio, prazer, vingança, sucesso, eles, como se diz popularmente, desde que o mundo é mundo, vêm nos aprisionando cada vez mais.   

ANJO  SORRIDENTE
CATEDRAL DE REIMS
O que as religiões nos ofereceram, como meio mais eficaz, para nos ajudar quanto ao que está acima, a vencer as forças da servidão do Mal que nos subjugam, foi a intervenção dos anjos. Em todas as tradições religiosas não só oriundas do Antigo e do Novo Testamento encontramos a ideia, a crença, melhor dizendo, de que seres espirituais superiores atuariam como intermediários entre o divino e o humano. A palavra anjo veio para a língua portuguesa através do grego (angelos) e do latim (angelus), com o sentido de mensageiro, intermediário ou daquele que anuncia. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo é um ser puramente espiritual, servidor de Deus, e seu mensageiro com relação aos humanos.  

Recebem também essas entidades genericamente o nome de anjos da guarda, já que uma de suas principais funções é a de tomar conta das almas (vida interior) dos seres humanos, de velar continuamente por eles, defendendo-os e guardando-os. Neste sentido, são um símbolo da própria consciência humana. Muitos os conhecem pelo nome de anjos custódios, palavra que tem o mesmo sentido. Custodiar é proteger, defender, guardar. Segundo o catolicismo, os anjos foram criados num estado de graça e de felicidade, com a liberdade de escolher entre o bem e o mal.
Os  anjos, como potências  invisíveis,  têm  correspondência com valores humanos, representando desde a mais alta espiritualidade, a vida mística, até o seu nível mais baixo, o dos seres que se entregam totalmente aos estados mais abjetos da sua vida instintiva. No primeiro caso, a iconografia, em função da sua elevação e imaterialidade, os representa com asas e sempre vestidos de branco. Já sob o ponto de vista da Psicologia, representam os anjos as energias positivas ou negativas do inconsciente. Alguns anjos, como se sabe, pecaram por orgulho e foram condenados eternamente, como demônios, ao mundo infernal, instigando o homem a optar sempre pelo caminho do mal. Jung considera que os demônios representam as funções inferiores que atuam na escuridão do subconsciente humano. Historicamente, lembremos que os anjos, ao mais recuadamente que possamos chegar, são entidade encontradas em antigas crenças astrais assiro-babilônicas que, espalhando-se pelo mundo semítico, foram utilizadas depois pelo monoteísmo dos hebreus com o nome de malachim, classificados em diversas hierarquias. 

ADÃO  E  EVA  NO  JARDIM  DO  ÉDEN
( MARC  CHAGALL , 1887 - 1985 )

O catolicismo classifica os pecados de três maneiras: 1) Pecado original ou adâmico: dele participam todos os seres humanos devido à sua origem. Adão e Eva, ao comer dos frutos de uma árvore que Deus lhes mostrara, proibindo-os de deles provar, foram expulsos do paraíso. Esta expulsão definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte. Pelo sacramento do batismo, estabelecido mais tarde, este pecado pode ser perdoado.


SATÃ
(GUSTAVE  DORÉ,1832-1883)
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem e o que é do Mal, isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. Livre arbítrio, como se sabe, é a possibilidade que tem o ser humano, em função de sua vontade, de decidir sobre alguma coisa, sem a interferência de qualquer condicionamento, motivo ou causa. 

Renovando-se constantemente, tais influências nos mantêm (segundo as religiões fundadas a partir da Bíblia), numa espantosa maioria, inclusive os que se dizem religiosos, em experiências de vida totalmente condicionadas. Nenhuma intervenção religiosa tem se mostrado válida para eliminar a ignorância, isto é, os tremendos fatores de servidão que nos aprisionam, para melhorar a nossa capacidade de discernir realmente o que mais interessa ao homem individual ou coletivamente. 


SITRA  ACHRA
O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, O Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda, e governadas por Samael e Lilith. Samael é o príncipe dos demônios, chefe dos anjos que foram expulsos do céu. Lilith foi a primeira mulher de Adão, criada juntamente com ele por Deus, em condições de igualdade. Ao perceber que Adão, com a concordância de Deus, não a consideraria como uma igual, Lilith fugiu para o mar Vermelho, unindo-se em seguida a Samael, tornando-se a principal figura feminina do Mal.

Os judeus dão também o nome de Agrat Bat Mahalata, a uma rainha dos demônios, neta do Ismael bíblico, que anda pelo mundo a espalhar o Mal. Concubina de Samael, teve seus poderes controlados pelo sábio Chanina Ben Dosa, que lhe permitiu apenas atuar nas noites de terça e de sexta-feira, recomendando-se que nenhum judeu saia sozinho nessas noites. Chanina Bem Dosa, natural da Galileia, foi um famoso operador de milagres, asceta, que viveu no primeiro século da era cristã. 

ADÃO  E  EVA
PETER PAUL RUBENS,1577-1640
Para dar a Adão uma parceira, Deus a ligou às costelas dele, ao seu flanco, formando uma espécie de ser andrógino, separando-a depois. Esse feminino recebeu o nome de Eva, promovendo o próprio Deus o casamento de ambos, uma cerimônia na qual tomaram parte muitos anjos, tudo com muita música e dança. Adão é nome que lembra barro, húmus, limo, lama vermelha. Para outros, o nome, ao que parece, vem de adamah, do hebraico, terra arável. Outros ainda relacionam o nome Adão ao assírio adamu, verbo que significa fazer, produzir.

Eva, segundo o Gênesis, é nome que vem de Hawwah, mãe de todos os seres que vivem, nome dado à segunda mulher de Adão depois da expulsão do paraíso. Antes de deixar o paraíso, ela se chamava Aicha (vivente) ou Icha (esposa), palavra que se aproxima de iccha, desejo, em sânscrito. O nome Eva também lembra awwah, desejo, em hebraico. Eva poderia ainda vir de Heba, esposa do deus hitita das tempestades.

O mundo judaico-cristão, profundamente misógino, ao invés de considerar Eva como uma iniciadora, pois Adão, isto é, o homem, sem ela, jamais teria adquirido uma consciência, sempre preferiu vê-la como responsável pela perdição da humanidade. A destacar ainda, quanto à grafia do nome Eva ou Ava, em várias línguas, que dele faz parte a letra V, que nos lembra o triângulo, forma sempre associada ao sexo feminino.  
   
SAMAEL  E  GABRIEL
(GUSTAVE DORÉ,1832-1883
)
São os pecados dos homens que, segundo o judaísmo, nutrem o Sitra achra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel, sendo então expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam.

À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do
A QUEDA DO HOMEM
CATEDRAL NOTRE- DAME, PARIS
Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O judaísmo e o islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. Participando desse entendimento, o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege.

O Talmud (literalmente, estudo em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que Samael, na forma de uma serpente, se uniu a Eva no Jardim do Éden nela injetando a sua peçonha, que foi transmitida a todos os seus descendentes. As forças satânicas do Sitra Achra, desde então, tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. 

O  BATISMO (ANDREA DEL VERROCHIO,1435-1488)

O batismo, no cristianismo, como rito de agregação, elimina os efeitos do pecado original, abrindo as portas da vida cristã. Pode ser feito por mergulho (do grego baptismós, mergulho, imersão, ablução) ou por aspersão. Torna aquele que o recebe cristão católico para sempre. Formalmente, requer que sejam utilizados a água (renascimento, origem da vida), o óleo (relacionado com uma preparação para os embates da vida; quem o usava, antes de entrar nos combates, para melhor lutar, eram os lutadores romanos), a vela (o brilho,  uma luz nova) e as vestes brancas (entrar puro na nova vida).


domingo, 11 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (1)




Vênus, com exceção do Sol, da Lua e de alguns cometas, é o mais luminoso dos corpos celestes. Dista na Terra cerca de 42 milhões de Km. Na sua fase “cheia”, quando recebe mais luz do Sol, dista dele cerca de 260 milhões de km. É um planeta muito semelhante à Terra, tendo ambos aproximadamente o mesmo tamanho, volume, massa, densidade e gravidade. Do ponto de vista terrestre, Vênus gira para trás, isto é, do oriente para o ocidente, significando isto que em Vênus o Sol nasce no ocidente e se põe no oriente. Tal se deve ao fato de Vênus ter os pólos invertidos.  Enquanto os demais planetas do sistema solar têm uma órbita elíptica, a de Vênus é praticamente circular, sendo sua excentricidade inferior a 1% .

Da Terra, Vênus pode ser visto um pouco antes da alvorada ou depois do poente. No primeiro caso, é chamado de a Estrela da Manhã, Estrela do Pastor ou Estrela d´Alva; no segundo, de Estrela Vespertina. Desde tempos pré-históricos, Vênus foi confundido com uma estrela. Do ponto de vista terrestre, além da Lua, Vênus é o único astro que pode ser visto tanto de dia como de noite. É o planeta que mais se aproxima da Terra, sendo sua magnitude superior à da estrela Sirius, doze vezes mais. Devido à sua atmosfera, a observação de Vênus é muito difícil. O que se sabe é que sua temperatura superficial fica próxima dos 260º. Permanentemente coberto por nuvens,  sofre em sua superfície grande retenção de calor. 


QUERUBINS   (MESOPOTÂMIA)
  
Como Estrela Matutina, era chamado de Lúcifer (etimologicamente, o portador da luz). Os judeus, no entanto, como está no Livro de Ezequiel, deram esse nome a um anjo caído, da ordem dos querubins, anjos que tinham o semblante de crianças, ocupando um lugar proeminente na hierarquia celeste. Entre os cristãos, Lúcifer era o mais belo e forte dos querubins. Orgulhoso, pelo poder que lhe foi conferido por Deus, dentre todos os seus demais auxiliares, rebelou-se. 


ARCANJO GABRIEL (GUIDO RENI)

Quem comandou as hostes divinas contra Lúcifer e seus seguidores foi o arcanjo Gabriel, expulsando-os do céu. Inconformados, eles, desde essa expulsão, vêm tentando corromper os humanos, travando-se batalhas diárias entre as forças divinas pela posse do ser humano. Lúcifer passou desde então a ser chamado de Diabo (etimologicamente, caluniador, acusador ou o que leva à dispersão, o que desune e divide) ou Satã (etimologicamente, adversário). Como Diabo, Lúcifer tem o poder de tomar todas as formas que quiser. De um modo geral, lembre-se, a Igreja Católica, ao dar forma ao Diabo, foi buscar seus modelos nas antigas religiões vencidas quando o cristianismo se impôs como religião oficial do império romano. As grandes representações do Inferno se fixam mais a partir do séc. IX. Já no período gótico, que sucedeu ao românico, numerosas igrejas ostentavam cenas do Último Julgamento, realçando o Inferno como um lugar onde corpos humanos eram submetidos a terríveis torturas por demônios. 


DIABOS (GUSTAVE DORÉ)

O Diabo, no cristianismo, assumiu o controle do Inferno, reino do mal, concebido como um lugar em que as almas pecadoras se encontram depois da morte, submetidas a penas eternas. Foi durante a Idade Média que o Diabo, no cristianismo, ganhou um visual mais terrível: asas de morcego, pés de bode, olhos de fogo, chifres enormes na cabeça, olhar assustador, carregando um tridente nas mãos. Desde então, Lúcifer, também chamado de Diabo, assumiu de modo indiscutível a tutela do reino do mal. Com esses nomes, ele passou a representar tudo que é superlativamente maléfico.

Até um determinado ponto na história das religiões, no cristianismo especialmente, o demônio, antes de  adquirir  o  visual  descrito, era
uma espécie de gênio interior do ser humano, daimon, em grego. Este gênio se envolvia com a alma do homem, agindo como um intermediário entre a vontade divina e a sua consciência. É neste sentido que Sócrates fala de seu daimon (fig.ao lado), quando lhe pede conselhos. O daimon funcionava assim como um spiritus rector, representando a presença de Deus no homem. Esta ideologia demoníaca ganhou expressão mais acabada  no cristianismo e no islamismo. 

Aos poucos, a figura do daimon interior  foi se aproximando da do anjo, figura originária das crenças astrais dos assiro-babilônicos, que passou a fazer parte das ideias religiosas de todos os povos semíticos. Destes, a figura passou aos hebreus, para intermediar as relações entre a divindade e os humanos. Acabaram sendo depois hierarquizados em diferentes grupos no cristianismo.

Ao identificar o daimon interior com o anjo, os cristãos acabaram por lhe atribuir o papel de representante da força interior que Deus não governava no homem, uma força demoníaca, diabólica,identificando-a como o intelecto. Esta perda de status, diante das hostes angélicas, uma perda que os transformou em auxiliares de Satã, fez com que muitos deles se revoltassem. É o caso de Lúcifer. Quem, nos tempos modernos, tenha talvez melhor retomado estas ideias no campo da arte tenha sido Ingmar Bergman com o seu cinema (vide o documentário) .  

       “Mestre do  dois”,  isto  é,  da  divisão , da  separação,  Lúcifer 
foi muitas vezes considerado como guia da humanidade, o pai da consciência humana que, para existir, tem, por sua própria natureza, a necessidade de criar uma fenda,  um fosso, entre ela e as coisas que lhe aparecem. É neste sentido que a frase de Hegel pode ser citada: Toda consciência é uma consciência infeliz. Neste sentido, ela não poderia existir sem a interferência do Diabo (o que divide, o que separa), “obrigando” ele a  mente humana trabalhar por separação. Ou seja, tomar consciência é separar-se.

Várias seitas gnósticas de Alexandria já associavam, nos primeiros séculos do cristianismo, Lúcifer a esta separação, sempre de caráter
LÚCIFER
diabólico; a mente humana tentando orgulhosamente explicar tudo, sobrepujar inclusive aquilo que vinha do divino. Foi sobretudo do século XVIII para o século XIX, com o Romantismo e depois com o Simbolismo, que a revolta do homem contra o seu destino voltou a ser simbolizada por Lúcifer, o que transporta a luz, o intelecto revoltado.


A função do Diabo, de Lúcifer, pois, será a de privar o ser humano da graça divina para submetê-lo ao seu poder e dominação. Assim, é este anjo caído que vai simbolizar as forças de desintegração da personalidade do homem, representando  o número dois, número feminino por excelência, a ambivalência, o conflito, um antagonismo que de latente se tornou claramente manifesto no mundo moderno. Uma rivalidade que pode se transformar em ódio em muitos casos. O dois, nesse sentido, é o número de todos os desdobramentos, o número através do qual o homem cai na multiplicidade, na dispersão. Símbolo da polaridade, da oposição, da divisão, é tanto criação como destruição.


LÚCIFER   ( WILLIAM   BLAKE )

Para os teólogos em geral, os demônios são todos anjos caídos. Seu chefe é Lúcifer, o Brilhante. É ele, além do mais, o representante das forças inconscientes recalcadas que influenciam a consciência, provocando a sua desintegração. É o inimigo natural da espiritualidade e da elevação psíquica. Ao aparecer antes do Sol, Lúcifer, orgulhosamente, tenta ofuscá-lo, como aspecto visível da manifestação da divindade, astro símbolo do poder criador. Lúcifer tenta sempre, com a sua luz, substituir a irradiante luz solar, inteligência cósmica, o conhecimento procurado por todo o candidato à iniciação.      
   
 A luz, como se sabe, é um símbolo universal da divindade ou da espiritualidade. Foi ela que permitiu ao universo sair do caos, revelando-o, afastando a escuridão para os seus últimos limites. A luz solar sempre foi identificada com o espírito, o movimento animador do cosmos, uma radiação que partindo de um centro se propaga em todos os sentidos através do espaço. Lúcifer era a rebelião contra tudo isto. 


LILITH  ( CATEDRAL DE NOTRE DAME DE PARIS )

Na tradição hebraica, os demônios se dividiram em dez categorias hierarquizadas, provenientes dos dez sefirots, as dez estruturas
SAMAEL
divinas que fizeram surgir o mundo da emanação, constituindo os diferentes níveis da realidade. Um demônio para cada etapa da emanação, personificando cada um deles uma paixão, um vício. O chefe supremo destes demônios é Samael, seu príncipe, e marido de Lilith, aquela que se rebelou porque Adão e Deus não lhe deram a condição de igualdade (Gênesis, cap. I). Ele tem pele escura, chifres, patas de bode. É identificado como Satã, a personificação da inclinação para o Mal. Quem se opõe a ele, no judaísmo, é Miguel, o anjo guardião de Israel. Foi Samael que enviou a serpente para seduzir Eva no Jardim do Éden. Ativo dia e noite, ele é o grande tentador. Sempre que alguém peca, o poder de Samael aumenta. Isto permite que ele assuma temporariamente o controle da Sechiná, a luz através da qual Deus entra em contacto com o homem. 



EXPULSÃO DO PARAÍSO  ( MICHELANGELO BUONARROTTI )

A rebelião de Lúcifer, segundo os judeus, começou quando ele, o maior dos anjos, com o dobro de asas de todos os demais, se recusou a prestar homenagens a Adão, que não passava de uma criatura feita de pó, enquanto ele, Lúcifer ou Satã, era feito de luz. Além do mais, ficou ele com ciúmes de Adão por Deus lhe ter dado uma companheira. Lúcifer ficou por trás do pecado de Adão no Éden e, por meio da serpente, manteve contacto com Eva, nascendo dessa união Caim. Foi também Lúcifer que ajudou Noé a se embriagar, além de ter tentado Abraão a não dar ouvidos a Deus quando este lhe pediu o sacrifício de Isaac. Foi também Lúcifer quem induziu os judeus a acreditar que Moisés havia morrido e os levou a adorar o Bezerro de Ouro. Da mesma forma foi Lúcifer, como está no Talmud, que, na forma de uma lindíssima mulher nua, tentou o sábio Akiva, quando este se desnudara para subir numa árvore. 


DIANTE  DA  BOLSA  DE  NOVA


Satã (precipitado do céu, em grego) ou Lúcifer é a própria personificação do Mal, sendo conhecido por muitos nomes, Diabo, Samael, Belzebu etc. Segundo a tradição, Ele casou com
VAIDADE  ( HANS MEMLING )
a Impiedade e dela teve sete filhas. A primeira chama-se Orgulho e foi dada em casamento aos poderosos da Terra; a segunda, Avareza, foi dada em casamento aos comerciantes de toda a espécie; a terceira, Hipocrisia, foi  dada em casamento aos velhacos; a quarta, a Inveja, aos artistas; a quinta, Vaidade, aos efeminados; a sexta, Avidez, aos mercenários; a sétima, Impureza, ele a conservou para dar àqueles que fossem procurá-lo. 




Já Vênus, como a Estrela do Pastor, aparece desde a pré-história,     como  um  símbolo  do  conhecimento  daqueles  que   conduzem, 
cuidam, guiam e protegem. Este conhecimento compreende principalmente a vigilância, dela fazendo parte uma sabedoria intuitiva que ajuda na previsão do tempo e permite o discernimento de todos os ruídos, principalmente os da noite. O ouvido do pastor é agudo, nada lhe escapa; ele pode ouvir os lobos quando se aproximam ou o balido de algum animal perdido. Ele conhece naturalmente o alimento que mais convém aos animais e o lugar onde eles podem beber livres de ameaças. Acima de tudo, porém, o pastor é um observador atento dos céus, do Sol, da Lua e das estrelas. A primeira que ele vê, antes do Sol aparecer, é a “sua” estrela, a Estrela do Pastor. Ela marca os limites do seu dia, recolhendo-se e se levantando com ela. 

DAVID (N. CORDIER, STA.MARIA,MAGGIORE
As estrelas, é bom lembrar, sempre foram muito importantes para os povos nômades. É por esta razão, por exemplo, que a Estrela do Pastor tinha tanta importância para os judeus. Os nômades, os pastores, de um modo geral, na cultura judaica, sempre foram muito mais honrados que os de vida sedentária, haja vista que o preferido de Deus era Abel, nômade, pastor e guerreiro, enquanto Caim era um agricultor, um sedentário, um homem  da técnica, construtor de cidades.   Lembre-se ainda que o jovem David, antes de assumir o reino de Israel, foi um dedicado pastor que protegia o seu rebanho. O desvelo com que David cuidou desse rebanho mostrou a Deus que ele era o homem certo para ser o futuro rei de Israel. 


A estrela de David, estrela do pastor, também chamada de maguen
David (escudo de David) foi adotada como o emblema judaico. É uma estrela de seis pontas, hexagrama, feita de dois triângulos entrelaçados. Essa estrela pode ser vista em padrões decorativos judaicos e em lápides tumulares ou pingentes em cordões. Embora seja hoje a estrela do pastor o símbolo judaico por excelência ela não o era na antiguidade. A Estrela do Pastor começou a ser usada em desenhos mágicos judaicos só na Idade Média como amuleto.  

O emblema foi introduzido ostensivamente na Europa, pela Igreja católica pelo concílio de Latrão em 1215, para evitar sobretudo o contacto sexual entre cristãos e judeus. Todo judeu apanhado sem esse emblema, costurado obrigatoriamente na sua roupa, em lugar bem visível, seria multado. No séc. XX, quando os nazistas invadiram a Polônia, onde viviam muitos judeus, eles foram obrigados a usar uma Estrela de David amarela, costurada na roupa, como emblema distintivo. A Estrela de David, desde a fundação do moderno estado de Israel (13 de maio de 1948), figura na sua bandeira. 


PASTOR  DA SERRA DA ESTRELA, 1911

Já mais perto de nós, em Portugal, a Estrela do Pastor aparece associada a uma das mais belas histórias da tradição popular, a Lenda do Pastor da Serra da Estrela. Esta serra, como se sabe, fica no centro de Portugal, perto de Coimbra, atingindo os seus picos, sempre nublados, alturas que oscilam entre 1800 e 2000 m. Nela vivem muitos pastores, criando ovelhas principalmente. 

A lenda nos conta que um desses pastores, muito pobre, que vivia numa pequena aldeia, tinha por única companhia um cão. Ele sonhava: um dia viajaria, indo muito além das montanhas que envolviam a sua aldeia. Numa noite gelada, de um luar puríssimo, o pastor olhou o céu estrelado. Ficou assim por muito tempo até que, num determinado momento, uma pequena estrela desceu do céu e dele se aproximou. Disse-lhe ela que, sabedora do seu desejo de viajar, estava ali para ajudá-lo. Durante muitas e muitas noites, o pastor ficou ali, no alto da montanha, a observar a estrela sem nada dizer. 

Certa noite, porém, ele tomou a decisão de partir em busca do seu destino e pediu à estrela para lhe fazer companhia. O pastor na terra e a estrela no céu caminharam muito. Chegando à mais alta montanha que já vira, o pastor resolveu parar, pois, segundo pensou, não só encontrara ali o seu destino como poderia também ficar o mais perto possível da sua estrela. Na Serra da Estrela, em Portugal, quem passar por essa montanha poderá ver, nas noites de inverno, do alto dos picos, uma estrela que brilha mais que todas. O povo das montanhas diz que ela brilha assim, de amor, de saudade, porque o pastor já não está mais lá, morreu há muito tempo...


Um dos maiores poetas da língua portuguesa, Eugênio de Castro, deixou-nos este soneto sobre ouvir e falar com estrelas:



Antes de me deitar, fecho a janela, 

Habituado a dormir sempre às escuras.
Mas ao fechá-la, diz-me das alturas
Uma doirada e pequena estrela

Vais dormir com uma noite assim tão bela?
Pois não vês como nós brilhamos puras?
Terás na morte a treva que procuras
E tanta que hás de aborrecer-te dela.

Se é de lágrimas só o teu fadário
Dorme para esquecer... Mas do contrário
Vela e mira-nos bem com os olhos ternos.

Dormir o que é senão morrer um pouco?
Vive! Aproveita ainda pobre louco!
Olha que em breve deixarás de ver-nos.


Entre nós, no Brasil, Olavo Bilac  nos deixou o Ouvir Estrelas:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o Sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido 
tem o que dizes, quando não estão contigo?

E eu vos direi: amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.





Uma observação: a estrela Capella, alfa Auriga, a 21º 15´ de Gêmeos, a estrela mais brilhante dessa constelação, a sexta mais brilhante do céu noturno, é conhecida também como a estrela do Pastor. Esta estrela foi adorada pelos egípcios e pelos gregos, tendo servido de base, entre estes últimos, para a sinalização do local onde foi construído o templo de Elêusis onde se celebravam os famosos mistérios da deusa Deméter.

No que nos toca mais de perto, lembramos que na mitologia grega a estrela da manhã era conhecida pelos nomes de Eosphoros (Eos é a
SÃO JERÔNIMO
deusa da aurora; ou seja, Eosphoros é o astro que a transporta), de Phosphoros, literalmente, o portador da luz, conhecidos pelos latinos pelo nome de Lúcifer, nomes todos relacionados com o planeta Vênus. Na Vulgata, São Jerônimo usou o nome Lúcifer para traduzir a palavra hebraica Helel  (Vênus como a brilhante estrela da manhã), filha de Shachar, a Aurora, conforme está em Isaías (14:12): Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante? Como caíste por terra, tu, que ferias as nações? Os gregos acreditaram, inicialmente, que Eosphoros e Hesperos eram corpos celestes diferentes. Mais tarde,  passaram a adotar o ponto de vista dos babilônios, vende-os como o mesmo corpo celeste, sendo Eosphoros e Hesperos divindades que viviam no planeta Vênus.


Astraios, da geração dos titãs, filho de Crio e Eurybia, era o deus do poente, ou melhor, era o deus que quando a noite chegava fazia com que as estrelas aparecessem. Ele se uniu a Eos, deusa da
TORRE DOS VENTOS - ATENAS
Aurora, nascendo dessa união muitos filhos que se associam a tudo o que acontece no crepúsculo. Assim, são seus filhos os quatro anemoi (ventos), Zéfiro, Bóreas, Notus e Euros, e os cinco “Astra Planeta” (astros errantes), Phainon (Saturno), Phaeton (Júpiter), Pyroeis (Marte), Eosphorus/Hesperos (Vênus) e Stilbon (Mercúrio). Algumas versões desse mito mencionam que Astraios tem uma irmã, Astréia, a constelação da Virgem. 


Mudando o nosso enfoque, dirigindo-o para a pesquisa histórica, ou melhor para os períodos pelos quais passou a humanidade, sempre com o objetivo de levantar o que o planeta Vênus simbolizou nesses períodos, nosso interesse se fixa naquele momento em que o homem começou a se sedentarizar. Na passagem do período paleolítico para o neolítico, como se sabe, a agricultura começou a ter um significado muito importante para as populações que até então tinham vivido segundo uma economia predadora e coletora. 

A vida agrícola começou a fixar o homem à terra, fato que provocou uma crise com relação aos valores do período anterior.
Isto significou sobretudo que as relações religiosas com o mundo animal foram fortemente abaladas, surgindo uma solidariedade mística entre o homem e a vegetação. Com isto, a mulher e a sacralidade feminina passam ao primeiro plano. A fecundidade da mulher e a fertilidade da terra são solidárias. A fertilidade terra é, por excelência, um tema feminino. O solo fértil se assemelha à mulher. Penetração do arado na terra e ato sexual se equivalem. Criam-se novas instituições que vão refletir a nova situação, todas consagrando o poder feminino. 

Um simbolismo complexo  relaciona a mulher e a sua sexualidade aos ritmos lunares, à Terra como matriz, ao mundo vegetal. Todos os valores religiosos que surgiram mudaram conceitos, falando-nos, por exemplo,  do tempo ciclicamente, da vida, da morte e do renascimento. A renovação periódica do mundo era, como se constatou, um fenômeno tipicamente feminino.

Receptáculo da vida, matriz na qual se concebe o mundo animado, sempre associado às águas originais, a figura da Grande Mãe aparece em todas as tradições e sob uma grande multiplicidade de aspectos. Os mitos fixam como personagem desse período histórico as chamadas Grandes-Mães, de caráter universal, para conferir ao cosmos as propriedades femininas da presença primeira, nutricional e protetora.